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O TESTAMENTO DO GALO

Segunda-feira, 23.09.13

Quando era criança havia em casa da minha avó apenas um único livro – “Um Resumo da Bíblia”. Porém juntamente com ele existiam quatro manuscritos: As profecias do Bandarra, A Morte de El-rei D. Carlos, A Menina e o Doutor e o Testamento do Galo. É este último que a seguir tento reproduzir.

 

Chegou finalmente a hora

De eu para o mundo acabar

Já ouvi dizer a minha dona:

“Vai-se hoje o galo matar”.

 

Já não há quem me console

Nesta minha triste sorte,

Esta noite escreveu-se

A minha sentença de morte.

 

Já ouvi afiar a faca

Com que me vão degolar

A minha morte hoje é certa,

Dela não posso escapar.

 

Em nome da benta hora,

Acudam todos e venham ver

O que faz um pobre galo,

Quando está para morrer.

 

A sentença já está dada,

O remédio é só morrer,

Mas antes que morte chegue

Vou meu testamento fazer.

 

Quero deixar o que tenho

Da forma que me parecer,

Oiçam pois com atenção

Por que não há tempo a perder.

 

Será meu testamenteiro

O filho do meu patrão,

A quem deixo p’ra comer

O meu lindo coração.

 

Deu-me milho com fartura

Quando tinha fome a valer,

Às escondidas de todos,

Sem a própria mãe saber.

 

Eu não posso não ser ingrato,

Com quem me tratou bem,

Só tenho ódio de morte

À senhora sua mãe.

 

Ela só me espantava

E não me dava comer.

Agora, ainda por cima,

Sentenciou-me morrer.

 

Quando vim para esta casa,

Há um ano e pouco mais.

Não julguei que tão depressa

Fossem os meus dias finais.

 

Tive fama de valente,

Também de bom cantador,

E para as minhas companheiras,

Foi de fama e louvor.

 

Delas hoje me despeço,

Porque a vida vou perder:

Adeus queridas companheiras,

Não vos tornarei mais a ver.

 

Apesar de que a minha morte,

Pouco tempo a chorareis,

Assim que houver novo galo

De tudo vos esquecereis.

 

As galinhas são parecidas,

Com as viuvinhas que o são,

Que já estão namoriscando

Com o marido no caixão.

 

Por isso logo que chegue

Outro galo à capoeira,

Esquecei por uma vez

Minha morte traiçoeira.

 

Vivei alegres e cantai

Criai os vossos filhinhos,

Que assim fazem as mulheres

Quando lhes faltam os maridinhos.

 

Estou muito atribulado,

Na hora da despedida,

Que deixar-vos nesta hora

De certo me custa a vida.

 

Deixo às minhas companheiras

Por quem tinha mais paixão

A mágoa que me acompanha,

Nesta minha triste separação.

 

Deixo o meu bico,

Com que eu me defendia,

A quem não se souber defender

Como eu tão bem o fazia.

 

Deixo o meu bigode,

Por ser coisa de respeito,

A quem o souber usar

Mas que o uso com jeito.

 

Deixo o meu olho direito,

Onde eu tinha o meu valor,

A quem tiver dificuldade

Em ser bom atirador.

 

Deixo a minha crista

Que é bem avermelhada

A alguma viuvinha

Que ande bem amortalhada.

 

Deixo os meus brincos

Às raparigas casadas

Para que amem os maridos,

Nunca fiquem abandonadas.

 

Deixo o meu pescoço

Que vem agarrado ao bico

A qualquer moço solteiro,

Para encabar um pico.

 

Deixo as penas da cabeça,

Por serem um pouco cadete,

A quem não tenha juízo

E delas faça um capacete.

 

Deixo o meu papo

Que ainda está cheio de milho

Para tornar mais rijo e forte

Quem quiser já ter um filho.

 

Deixo a pena do meu corpo,

Aquela que for mais curta

A um maestro de música,

Para que faça uma batuta.

 

Deixo os meus esporões

Que são duros como um pico

A quem precisar deles

Para picar o seu jerico.

 

E se por acaso desprezarem

Os conselhos que vos dou

Brevemente vos vereis

No estado em que eu estou.

 

Um conselho mais vos dou

E vos falo bem sizudo

Que fujais quanto puderdes

Dos três dias de Entrudo.

 

Erguei-vos de madrugada

E a casa não volteis

Ficai estes dias de fora

E para a Quaresma vireis.

 

E se virdes que há doença,

Vede lá como andais

Que também vos filham

Quando menos o cuidais.

 

Daqui a sete semanas

Quando entrar o mês de Abril

Eu já estou adivinhando

Que morrereis mais de mil.

 

E aqueles que escaparem

Alegres passem os dias,

Retirais-vos quando puderdes

Da função destes três dias.

 

Afirmai e vede bem

Esta cor da minha crista,

Parece que é a última vez

Que em cima lhe pondes a vista.

 

Já que falei em conselhos

Mais alguns quero dizer

Pois há na vida de um galo

Muita coisa a aprender.

 

Rapaziada da borga

Não vos fieis em cantigas

Que as raparigas songas

São as que vos fazem figas.

 

Procurai sempre as alegres,

As que são mais galhofeiras

São sérias quando se casam

E advertidas em solteiras.

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publicado por picodavigia2 às 11:47





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