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A GAROUPINHA ENCANTADA

Terça-feira, 24.09.13

Conta-se que há muitos, muitos anos, ainda Angra não era cidade nem vila, mas sim um minúsculo lugarejo, povoado por lavradores e pescadores, os primeiros entregues às árduas tarefas de arroteamento das encostas ou ao cultivo dos campos já arados, os segundos a sulcarem, dia após dia, o mar, na busca do sustento que, por vezes, a terra não lhes dava.

Ora certo dia um grupo de pescadores juntou-se, como muitas vezes o fazia, e partiu para o mar. O engodo era bom, o isco ainda melhor, sendo que, além disso, naqueles tempos recuados, nos mares ao redor da ilha, abundavam muitas e boas espécies de peixes, com destaque para as garoupas. Arrearam o barco, apetrecharam-se com isca e engodo apanhados nos subúrbios da costa, remaram na direcção desejada, encodaram e começaram a pesca. Um excelente montão de peixe, onde predominavam garoupas, começou a acumular-se no fundo do pequeno e frágil batel.

Terminada a safra e satisfeitos com a pescaria, rumaram a terra, cuidando que, assim, teriam alimento para as suas famílias ou para trocar por outros alimentos, durante alguns dias. Vararam o barco no pequeno porto, arrumaram-no numa tosca ramada e amontoaram as garoupas em cima de um rochedo alcantilado de lava basáltica, a fim de formar os quinhões que seriam atribuídos a cada um.

Qual não foi o seu espanto quando verificaram que, entre o amontoado das garoupas, havia uma que, para além de muito pequenina e bastante diferente das outras, na cor e no aspecto, era a única que permanecia com vida.

Ao princípio não deram importância, cuidando que se estava viva é porque tinha sido a última a ser pescada. Mas quando o pescador mais velho e dono do barco lhe tentou pegar, a garoupa deu um salto enorme, escapulindo-lhe das mãos. O velho pescador vendo a enorme quantidade de peixe que ali tinha, cuidou que aquela garoupa de tão pequenina que era nem sequer serviria para assar e, pegando nela, novamente e com desdenho, atirou-a para bem longe dali. Inexplicavelmente, na altura em que o fez começaram a brilhar, lá ao longe, no horizonte uma revoada de relâmpagos, como nunca se vira por ali. Cuidando que era um temporal que se anunciava, os pescadores apressaram-se a regressar a casa, carregando cada um a parte que lhe coubera do peixe que haviam pescado.

Ao chegar a casa, porém, um dos pescadores, o mais novo de todos, apercebendo-se de que afinal os relâmpagos continuavam, mas não havia nenhum sinal de intempérie, decidiu regressar ao porto onde haviam varado o barco. Qual não foi o seu espanto quando viu que a pequenina garoupa abandonada e desprezada, se encontrava ali, aos saltos e com vida, como se tivesse acabado de sair da água. Admirado com aquele estranho fenómeno e condoendo-se do pobre peixinho, agarrou num balde de madeira, encheu-o com água do mar e, colocando dentro dele a garoupinha abandonada, trouxe-a para sua casa. Como a garoupa ainda permanecesse viva no dia seguinte, começou a alimentá-la com pedacinhos de peixe, lapas e búzios que ia apanhar nas rochas, à beira-mar, ao mesmo tempo que trazia baldes de água para ir renovando aquela em que, feita prisioneira, nadava, dia e noite, a garoupa. Assim, com os esmerados cuidados do pescador, aquele pequenino peixe ali viveu durante, dias, meses e anos.

Tão exagerados desvelos provocaram a curiosidade de amigos e vizinhos, que demandavam o casebre do pescador, para ver, apreciar e admirar aquele estranho fenómeno da natureza – a garoupinha.

Certo dia, entre os visitantes curiosos que a casa do pescador se dirigiam para ver e apreciar a garoupinha, apareceu uma velha. O seu aspecto era estranho, mas tinha um sorriso que atraía e cativava. Quando todos os outros visitantes já se tinham ido embora, a velha, no lusco-fusco da noite, de repente, começou a brilhar como se tivesse possuída por uma luz tão brilhante como a do Sol, que se reflectia e projectava dentro da água. Nesse instante, a pequena garoupa desapareceu e, acreditem ou não, no lugar dela, apareceu uma jovem e bela donzela. O pescador ao vê-la, não cabia em si de contente e mais se extravasou de alegria quando a jovem lhe pediu que a deixasse ficar na sua casa, pois não tinha para onde ir. Conta ainda a história que, passado algum tempo, se apaixonaram, casaram e viveram felizes para sempre. Há quem cuide que é por esta razão que ainda hoje existe, na cidade de Angra, uma rua chamada “Rua da Garoupinha”.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 16:12





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