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A MONTANHA COBRIU-SE DE NUVENS

Quarta-feira, 25.09.13

Álvaro impulsionado pelo assombro de uma estranha crença, levantou-se de rompante e assomou à janela, há muito aberta e por onde, filtrados por uma leve cortina de tule esbranquiçado, entravam refulgentes, os primeiros raios matinais. O espectáculo que se apresentava era deslumbrante, maravilhoso e soberbo: totalmente descoberta, a montanha ostentava-se na sua beleza pura, original e genuína. O Pico retratado ali, na grandiosidade da sua montanha, era assim, belo, imponente, altivo e dominador. Álvaro conhecia por demais todas as outras ilhas. O que nelas, banhado por uma verde maresia, era beleza, simplicidade e doçura, no Pico, embrenhado na imponência e altivez daquela montanha, era um silêncio escuro mas deslumbrante e agreste, uma braveza destemida e contumaz, uma imponência rude e descomunal, uma escaleira de lava basáltica a tentar unir a terra ao céu.

Álvaro retirou-se por uns momentos como que a espicaçar uma sonolência de que ainda se não havia libertado por completo. Mas não se conteve e voltou à janela, atraído pela sublimidade do espectáculo que acabara de presenciar. A montanha continuava, ali, à sua frente, escancarada e nua, agora já aureolada com o dourado da claridade nascente, cada vez mais deslumbrante, mais emotiva e mais atraente. Com o Sol lá ao fundo, a impor-lhe um cerco de transparência, a aureolar-lhe o negro basáltico da lava, parecia que lhe escorriam, pelas encostas laminadas, refluxos de uma luz acariciadora e aconchegante.

Ali ficou mais uns momentos a cuidar que, dentro de momentos havia de agarrar-se aquela montanha, embrenhar-se nela como se fosse um rolo de neve, de a galgar até ao cume. É verdade que a subida do Pico armazenava relatos contraditórios, mas todos eram unânimes: a escalada consubstanciava-se sempre numa inesquecível noite, bem lá no alto, entre pedregulhos e fumarolas, com a Lua a impor-se teimosamente nos céus e a iluminar uma estranha e metafórica paisagem, espelhada num mar prateado quase infinito a prolongar-se até ao horizonte. Lá no alto, quase a beijar o céu, o silêncio sufocava os murmúrios e o sibilar acutilante do vento agreste salpicava desejos imperceptíveis. Depois era o florescer da madrugada, a apagar o rumo das estrelas e agigantar ainda mais a infinidade do oceano, agora ensopado com as manchas luxuriantes das ilhas que, lá em baixo se erguiam ao redor, como se fossem pérolas de um colar: o Faial aqui tão perto, mais além a Terceira, São Jorge do outro lado e, lá ao fundo, a Graciosa.

Álvaro, finalmente, despertou por completo, mas, quando de novo regressou à janela, a montanha, estranha e inexplicavelmente, era um enorme chumaço de neveiro acinzentado A montanha havia-se coberto de um denso manto que obstruía sonhos e obliterava desejos.

Ainda não seria naquela manhã que havia de escalar aquele alcantil imponente, altivo e sublime que ali estava a sua frente, agora, emerso no mais denso e incompreensível véu de nebulosidade.

De mansinho, fechou a janela e voltou a deitar-se. Talvez amanhã estivesse melhor. No folheto turístico colocado em cima da mesa-de-cabeceira, pode ler: Pico, a segunda maior ilha dos Açores, com uma superfície de cerca 447 quilómetros quadrados, possui uma altíssima montanha, ao redor da qual proliferam campos carregados de vinha…

Pouco depois, voltou a adormecer, enquanto a montanha, lá ao longe, anulando desejos, se cobria com um véu de nuvens, cada vez mais denso e escuro.

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publicado por picodavigia2 às 15:21





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