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O DIA EM QUE A TIA AUGUSTA PARTIU PARA A AMÉRICA

Quinta-feira, 26.09.13

O dia em que a tia Augusta partiu para a América foi o mais triste e desventurado da minha vida.

De todas as minhas tias, tanto paternas como maternas, a que eu mais gostava, diria mesmo, a que mais amava, era a tia Augusta, a mais nova irmã do meu progenitor. Para além, de elegante, bonita, esbelta e graciosa, a tia Augusta tinha um coração generoso e era meiga, benevolente, simpática e, mais do que isso, era minha amiga, muito minha amiga. Por isso desabei num choro imenso, num pranto desolado e num sufoco inconformado no dia em que ela partiu para a América.

Desde de pequenino que a tia Augusta me cobria de mimos, me doseava de desvelos e me atafulhava de carinhos. Como não era casada, nem tinha filhos, eu era o seu menino preferido. Em casa sentava-me no seu colo, aconchegava-me ao seu regaço, brincava e enleava-se comigo. Quando saía para trabalhar nos campos, para visitar uma amiga ou, simplesmente, para dar uma volta por aqui ou por ali, levava-me sempre consigo, nunca me largava a mãozinha e, muitas vezes, cuidando que eu havia de estar cansado com tão exaustas caminhadas, até me levava ao colo, e, pelo menos uma vez que me lembre, transportou-me às cavalitas. Um encanto e um enlevo, esta tia Augusta.

Ora certa tarde, em que eu em casa, triste e macambúzio, aguardava, ansiosamente, uma das habituais visitas da tia Augusta, para mais um momento de enlevo, talvez uma brincadeira, quiçá um passeio, fui abalroado por esta trágica, cruel e fatídica notícia: A tia Augusta tinha partido, definitivamente, para a América. Não me contive e desatei num berreiro inconsolável, dilacerante, angustioso e inaudito que me analgizou por completo do evento.

Só três dias depois, já exangue de lágrimas mas não conformado com a desdita, dei comigo a pensar no motivo que teria originado tão, aparentemente, abrupta, despropositada e incompreensível decisão da minha tia Augusta, tão querida, tão meiga, tão afável. As amigas mais chegadas, deprimidas com tão oculta e inesperada deliberação, cuidavam que fossem amores desconcertados. As vizinhas, mexeriqueiras de ofício, ciciavam que ali havia paixão proibida, pois sempre a viam - e se a não viam imaginavam vê-la – de conversas escondidas com o filho mais velho do Graveto, homem casado e pai de família. Minha avó, pasmada e sentida, cuidava que haviam sido intrigas da tia Joaquina, sempre quezilenta e alcoviteira. A Júlia do Moleiro, uma bendita que passava a vida a por famas e aleives a umas e a outras, teve a distinta lata de afirmar que a tia Augusta tinha fugido para se “desarranjar”. Eu, triste e desconsolado, cuidei que a tia Augusta tinha partido porque já não gostava de mim.

E só, alguns anos mais tarde, já feito homenzinho, eu entendi os motivos por que, afinal, a minha tia Augusta partira para a América naquele fatídico dia: É que a tia Augusta não queria continuar a trabalhar e a viver mais como uma escrava, a andar de gatas a esfregar a casa duma ponta a outra, a ir lavar cestos e cestos de roupa à Ribeira, a padejar a urina da poça do gado, a tirar o esterco da cerca do porco, a acarretar à cabeça molhos de lenha e cestos de batatas, a rapar inhames e ordenhar as vacas, a semear milhos e apanhar batatas, a ceifar feitos e a rachar lenha e, pior do que isso, a fazer todos estes e muitos outros árduos trabalhos sem ganhar um tostão que fosse, com que pudesse, ao menos, comprar um par de sapatos.

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publicado por picodavigia2 às 15:21





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