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DA MIGRAÇÃO AO EXÍLIO NA POESIA DE PEDRO DA SILVEIRA

Sexta-feira, 27.09.13

(TEXTO DE FRANCISCO COTA FAGUNDES)

 

 

Convenhamos que os momentos dramáticos de que se reveste a experiência migratória

e exílica que aqui (na poesia de Pedro da Silveira) nos ocupou – começando com a(s) partida(s), repetidas veridicamente e poeticamente obsessivamente reiteradas – adquirem um grau de pungente drama que poderão surpreender, ou até atingir como pose meramente literária, quem alguma vez emigrou, como emigrante assalariado, para longes terras estrangeiras de língua e cultura diferentes da nossa, com poucas probabilidades de regresso senão a longuíssima distância, se de todo, e isto não só por consabidas razões económicas mas também para evitar o serviço militar. Pensemos nos

casos de muitos jovens emigrantes açorianos que partiram das Ilhas (por exemplo, para os Estados Unidos e Canadá, quer na vaga emigratória de 1871 a 1920 (EUA), quer na mais modesta onda de 1951 a 1960, quer ainda na maior vaga de todas de emigração açoriana para a América do Norte (EUA e Canadá) que foi iniciada em 1961 e se prolongou até 1990. Claro que ninguém, incluindo esses mesmos emigrantes, tem direito a questionar o facto de alguém poder sentir uma experiência migrante – ali para o Continente português, que fica a menos de mil milhas da mais distante das ilhas do Açores, onde se fala a mesma língua e se vive a mesma cultura, embora uma e outra com leves modulações – como se fosse uma emigração para longínquas terras estrangeiras; ou, inclusive, como constituindo um exílio equiparável ao de dezenas ou centenas de portugueses de todo o país que, mais ou menos voluntária, ou mais ao menos involuntariamente, por razões de consciência, ou por perseguição ou medo de perseguição política, se ausentaram do seu torrão natal.

É de todos sabido como o grau  de identificação com a freguesia, com a ilha se sobrepõe, no caso do açoriano comum (e Pedro da Silveira está longe de ser um açoriano comum), ao grau de associação e identificação com o país como todo colectivo. Para esse açoriano comum, migrar para o Continente constituiria uma experiência sósia da emigração para um país estrangeiro. E embora a sua experiência continental de Pedro da Silveira – iniciada em 1951, como já se indicou, e prolongada até à sua morte, em 2003, e profissionalmente adscrita às responsabilidades de funcionário da Biblioteca Nacional de Lisboa e a várias outras actividades relacionadas com a cultura, desde consultor literário a colaborador assíduo em revistas e jornais prestigiados – não pareça, à primeira vista, justificar, humana e existencialmente, o drama migratório e exílico representado na sua poesia, quem tem o direito de questionar, ou de pretender saber, o que terá sido, no mais íntimo da vida do homem e do poeta, essa experiência de açoriano ausente (Poemas Ausentes é, como vimos, precisamente o título de um dos seus livros de poesias)? E conquanto a poesia (ou qualquer outra documentação, por quanto eu sei) de Pedro da Silveira não patenteie uma perseguição política que o identifique como um exilado político interno – como o foi, por exemplo, um Torga – quem tem direito a questionar a sua sensação de exilado na sua própria terra – seja o Continente, sejam os Açores – numa época politicamente castrante, sobretudo no caso de um homem ideologicamente de esquerdas como Pedro da Silveira? E quem tem o direito de exigir que um homem tenha forçosamente de viver empiricamente as experiências e os sentimentos que poetiza ou a que dá vida numa obra literária, embora essa obra seja poesia e o “eu” da poesia lírica, como é sobejamente do conhecimento geral, e o “eu” empírico estejam (ou pareçam estar) mais próximos um do outro do que em outros géneros literários? Finalmente, quem poderá contestar que migrações, emigrações, imigrações, e exílios (externos ou internos) haverá de tantos tipos quantos indivíduos haja que os concebam, desfrutem, sofram

– ou poetizem?

 

FAGUNDES, FRANCISCO COTA. “DA MIGRAÇÃO E DO EXÍLIO NA POESIA DE PEDRO DA SILVEIRA”. – CONCLUSÃO - BOLETIM DO NÚCLEO CULTURAL DA HORTA 15 (2006)

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publicado por picodavigia2 às 11:43





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