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“COMO-TE VIVO”

Sábado, 28.09.13

Meu pai era um homem pacífico, pacato, ordeiro e trabalhador. Nunca se metia na vida dos outros e raramente falava mal de alguém. Passava os dias a trabalhar, poucas vezes se sentava à Praça e, quando o fazia, era apenas para descansar, “falquejar” e, por vezes, até para dormitar. Apesar de pobre e humilde granjeava o respeito de todos e a amizade de muitos. Além disso, todas estas qualidades se acentuaram após a prematura morte da minha mãe, altura a partir da qual o meu progenitor, causticado pela sorte e estigmatizado pelo destino, se tornou ainda mais melancólico, nostálgico e taciturno.

Certo dia, ao amanhecer, antes de partirmos para o Pocestinho para cortar e acarretar para o caminho uma carrada de lenha, decidiu-se por ir buscar um molho de milheiros ao cerrado do Mimoio. O curral do porco estava a abarrotar de lama, sujidade e imundície e o tempo das matanças aproximava-se. Para que o carrego fosse maior decidiu-se a levar-nos com ele: eu e os meus dois irmãos mais velhos.

Carregados de luto, saímos de casa ao lusco-fusco, descemos a Assomada, passámos à Praça e transpusemos as primeiras casas da Fontinha, na demanda da Canada do Mimoio. À frente eu e o António, mais afoitos e desembaraçados. Atrás o José mais vagaroso e arrevesado. Meu pai seguia no meio.

No cimo da ladeira da Fonte Velha, deparámo-nos com o Coelho estancado ao portão de casa. Meu pai, seguindo o seu caminho, sem nem sequer olhar para ele, saudou-o delicadamente:

- Isso é que levantar cedo!

O Coelho, sem delongas, ripostou:

- Ó grande bandalho! O que é que tens a ver como a minha vida? Mete-te na tua que tens sarna para te coçar.

Meu pai parou uns segundos, hesitou, mas seguiu o seu caminho. O Coelho, porém, insistiu mais veementemente:

- És um sanabicha, um preguiçoso. Se não fosse as terras que teus irmãos te deixaram não tinhas onde cair morto!

Meu pai parou novamente e, desta feita, voltou-se e olhou-o em tom ameaçador, mas continuou a caminhada. Nós cheios de medo.

Mas o Coelho sem mais de longas, aumentando o tom de voz e a indignidade dos impropérios, disparou:

- És um grande sabagana e um grande preguiçoso. Passas os dias sentado à Praça, sem fazer nada.

Meu pai não se conteve. Voltou-se num de repente, aproximou-se do portão, pegou no Coelho pelos ombros, levantou-o e sacudiu no ar, empurrando-o, de seguida, para dentro do pátio. Depois, fechando o portão com ímpeto desusado, gritou-lhe de cima do muro, em alto e bom som, enquanto nós assustadíssimos nos escondíamos atrás da Casa do Candonga:

- Ó alma do diabo! Se ao passares por mim me diriges a palavra mais alguma vez eu como-te vivo.

E, incentivando-nos a continuar a caminhada, retomou a subida da Fontinha, enquanto a Coelha, lá ao fundo, levantando uma ponta da cortina, com ar amedrontado, espreitava por dentro da janela.

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publicado por picodavigia2 às 09:55





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