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SIMBAD

Sábado, 28.09.13

(INSPIRADO NUM CONTO TRADICIONAL ÁRABE)

 

Nos dias de Harun al-Rashid, califa de Bagdá, vivia nesta cidade um pobre carregador. Certo dia, o carregador decidiu fazer uma pausa no seu árduo trabalho para descansar, sentando-se junto à casa de um rico comerciante que havia na cidade. Começou, então, a barafustar, em voz alta contra a injustiça do mundo, que permitia que ele fosse um pobre miserável e que o dono daquela casa fosse tão rico. Ao escutar estes lamentos, o comerciante pediu aos criados que lhe trouxessem o pobre carregador para dentro de casa. Depois de se apresentarem um ao outro, descobriram que, por mera coincidência, ambos se chamavam-se Simbad. O Simbad rico contou, então, ao Simbad carregador que também já fora pobre como ele e que se tornou rico por "fortuna e destino", dispondo-se a contar-lhe a história das suas maravilhosas viagens, durante as quais adquiriu toda a sua fortuna.

Começou, então, por contar que, após dilapidar toda a riqueza que recebeu de herança de seu pai, a qual investiu comprando mercadorias, decidiu tentar a sua sorte como comerciante num navio que saiu do porto de al-Basra, com destino ao Oriente. Após uns dias de viagem, o navio aportou numa ilha, que na verdade se revelava ser uma gigantesca baleia adormecida, em cujo dorso cresciam árvores. Passado algum tempo depois de ali chegar, a baleia acordou, devido a uma fogueira acesa sobre ela pelos marinheiros, e, em seguida, mergulhou, desaparecendo nas profundezas do oceano. Na confusão, o navio em que viajava naufragou, deixando-o sozinho no mar, agarrado a uma tina de madeira. Após algum tempo à deriva no oceano, foi parar a uma ilha coberta de exuberante vegetação. Explorando-a, encontrou um serviçal do rei local e ajudou-o a salvar a égua do soberano, evitando que esta se afogasse e fosse levada por um cavalo misterioso que vivia debaixo d'água. Isto fez com que o rei daquela ilha se tornasse seu amigo e, assim, ele, Simbad, passou a ser um dos membros favoritos da corte real.

Um dia, chegou à ilha o navio no qual Simbad havia partido em viagem e ele recuperou sua mercadoria. Decidiu, então, abandonar a ilha, mas antes recebeu ricos presentes do rei. O navio viajou em direcção à Índia, onde Simbad desembarcou e onde fez grandes negócios, e ao retornar, de seguida, a Bagdá, conseguiu grande lucro ao negociar as mercadorias que trouxera do Oriente.

Ao terminar o relato da sua vida, Simbad deu ao carregador 100 moedas de ouro, e pediu-lhe que, no dia seguinte, voltasse a sua casa, a fim de escutar o resto da história da sua vida.

Assim fez o carregador e, no dia seguinte, o rico comerciante continuou a sua narrativa. Contou, então, que, apesar de ter juntado muita riqueza e de levar uma vida de diversão, ainda sentiu vontade de viajar, novamente, pelo mundo, por isso, embarcou noutra aventura comercial, e, acidentalmente, voltou a ser abandonado numa ilha pelos seus companheiros de viagem. Explorando a ilha, Simbad encontrou um enorme objecto, liso e arredondado, que descobriu ser um ovo de um pássaro fabuloso e gigantesco. Pouco depois, o pássaro retornou ao ninho mas não dando pela presença de Simbad, que usando o seu turbante, atou-se à pata do animal, na esperança de fugir daquela ilha deserta e ser levado para um lugar habitado. A ave levantou voo transportando o jovem aventureiro até um vale coberto de diamantes mas habitado por monstruosas serpentes que serviam de alimento aos pássaros. Simbad soltou-se e ficou sozinho no vale, no meio das serpentes, mas logo descobriu uma forma de escapar. É que para conseguir os diamantes que proliferavam naquele vale inacessível, os habitantes da ilha atiravam grandes pedaços de carne para o fundo do vale, a fim de que fossem agarrados pelas aves enormes que os levam aos seus ninhos. Assim, alguns diamantes ficavam agarrados aos pedaços de carne, o que permitia que fossem recuperados pelos homens. Ao ver isto, Simbad também amarrou um pedaço de carne ao seu corpo e, ao ser levado para fora do vale por uma das aves gigantes, trouxe consigo muitos diamantes. Resgatado do ninho por um mercador, voltou a Bagdá, desta feita possuindo uma fortuna em diamantes.

Mas a sua ânsia por novas aventuras, continuou Simbad, não ficou por aqui e, passado algum tempo, zarpou de Baçorá, numa nova expedição. Os ventos levaram o barco em que navegava a uma ilha habitada por homens peludos como macacos, que tomaram o barco e o abandonaram numa outra ilha. Colocados nessa ilha, Simbad e os outros marinheiros chegaram a um palácio habitado por um gigante com forma de homem, pele negra, olhos vermelhos como brasas, uma boca enorme como a de um camelo com longos dentes, orelhas como as de um elefante e longas garras como as das feras. O monstro começou a devorar a tripulação, começando pelo capitão, que era o mais gordo, assando-o na brasa. Simbad, juntamente com os companheiros, inventou nova estratégia para escapar à fúria daquele abutre. Para tal, construíram uma jangada e, quando o monstro dormia, furaram-lhe os olhos com os espetos que ele usava para assar sua comida. Cego e furioso, o gigante saiu do palácio, mas os homens fugiram a tempo, correndo para praia e fugiram na jangada que haviam construído. Após algum tempo de viagem, chegaram a outra ilha, na qual encontraram uma serpente gigante e feroz que comeu todos os companheiros de Simbad, deixando-o sozinho. Apesar de só, Simbab conseguiu ser resgatado pelo mesmo navio, que o havia abandonado na ilha, durante a segunda viagem. Assim conseguiu recuperar a sua mercadoria e voltar a Bagdá ainda mais rico.

Na sua quarta viagem, prosseguiu Simbab, impelido novamente pela sua ânsia de aventura, embarcou num navio que, pouco depois naufrago. Os náufragos foram parar a uma ilha, na qual se confrontaram com selvagens nus e canibais que lhes dão para comer ervas com o poder de enlouquecer os que as provassem, para que depois os comessem. O único que não comeu ervas foi Simbad, que assim conseguiu escapar, sendo transportado e salvo por um grupo de colectores de pimenta de uma ilha, vizinha. Ali, Simbad travou amizade com o rei local que lhe deu como esposa uma bela e rica mulher.

Permanecendo nessa ilha algum tempo, Simbad teve conhecimento de um peculiar costume local, segundo o qual, após a morte de um esposo, o viúvo ou viúva devia ser enterrado vivo com o companheiro ou companheira, sendo ambos vestidos com as melhores roupas e os mais ricos vestidos. A mulher de Simbad adoeceu e morreu, pouco depois, sendo ele Simbad, seu esposo, encerrado vivo numa enorme caverna subterrânea - uma tumba comunitária - com um jarro de água e sete pães. Na altura em que lhe faltou a comida, foi lançado na caverna um cadáver de homem e, juntamente com ele a respectiva viúva é jogada. Simbad pegou no fémur de um cadáver e com ele atacou a  viúva matando-a. De seguida e apoderou-se de sua água e da sua comida e assim sobreviveu mais alguns dias.

Ao longo do tempo, Simbad foi matando outros condenados e apoderando-se da água, do pão e das jóias que os corpos levavam, sem, no entanto, conseguir uma maneira de escapar. Mas um dia, apareceu por ali um animal não-identificado que o guiou até uma saída. Já no exterior, Simbad foi resgatado por um navio que passava por ali e que, após completar a viagem pelo Sudeste da Ásia, o levou até Bagdá, onde regressou riquíssimo.

Passado algum tempo, regressou ao mar. O navio em que viajava Simbad passou junto a uma ilha deserta, onde a tripulação encontrou um ovo gigantesco, que Simbad reconheceu ser de um roca. Os marinheiros, para examinar melhor o ovo, partem-no e comem o filhote que estava por nascer. Simbad, assustado pelo que fizéramos seus colegas, pede-lhes que voltem ao navio, mas as aves gigantes furiosas, apareceram e fizeram rolar enormes rochas sobre o navio, afundando-o. Simbad conseguiu escapar, sendo levado para uma ilha, onde encontro o Velho Homem do Mar, que o torna seu escravo. Uma criatura estranha aproximou-se de Simbad e, colocando-se sobre os seus ombros, aperta-lhe o pescoço com suas pernas, que assumem a forma de ramos secos e impedem Simbad de desvencilhar-se. Passados dias, Simbad, usando, mais uma vez a sua astúcia, preparou uma bebida com vinho e convenceu o Velho do Mar a bebê-la, o qual, logo a seguir, caiu bêbado, permitindo a Simbad matá-lo. Embarcando em outro navio, Simbad foi levado à cidade dos macacos, onde população passavs as noites em barcos no mar, com medo dos macacos que, todos os dias, invadiam a cidade após o pôr-do-sol, matando os homens que encontravam. Simbad recuperou as suas riquezas e, eventualmente, regressou a Bagdá.

Na sua sexta viagem, Simbad e os seus companheiros sofreram, de novo, um naufrágio, pois o navio em que navegavam esbarrou contra uma alta falésia. Assim Simbad e os outros marinheiros foram parar a uma terra onde não havia nenhum tipo de comida, por isso começaram a morrer de fome, uns atrás dos outros. Apenas Simbad sobreviveu. Nessa altura descobriu um rio que corria por dentro da falésia e construiu uma balsa, usando-a para navegar através do rio, salvando-se. Mas o rio, para além de estar coberto de pedras preciosas, levou Simbad até uma cidade do reino de Serendib, na qual os rios estavam cheios de diamantes e os vales de pérolas. O rei local impressionou-se com os relatos que Simbad faz de al-Rashid, e decidiu dar-lhe vários presentes, entre os quais uma taça esculpida numa única pedra de rubi, uma cama feita da pele de uma serpente que havia engolido um elefante, e uma linda e bela escrava. Simbad voltou para Badgá com os presentes, riquíssimo.

Simbad ainda fez mais uma viagem, mas o navio em que viajava navegando voltou a naufragar. Desta vez, foram três monstruosos peixes que atacaram e destruíram o navio. Simbad foi parar a uma numa ilha, onde travou amizade com o mais importante mercador dessa ilha. Travaram amizade e, passado algum tempo Simbad casou com a filha do mercador, que morreu pouco depois, tornando-se, assim, Simbad o seu herdeiro. Simbad viveu feliz, na ilha, com a esposa até que, um dia, descobriu que os homens daquele lugar passavam por uma estranha transformação, dado que, uma vez por mês lhes cresciam asas e voavam até o céu, retornando depois. Intrigado, Simbad convenceu um deles para que o carregasse no voo que fizesse e, no mês seguinte, Simbad é levado ao céu por um dos homens alados. Lá no alto, Simbad viu anjos que cantavam louvores a Alá. Emocionado, Simbad exclama "Glória a Deus!", o que irritou enormemente os homens alados, que, assim, conseguiram abandona o cimo da montanha, onde se encontrava. Deixado sozinho, Simbad encontrou dois adoradores do Senhor, que lhe entregam uma bengala de ouro a qual utilizou, no regresso, para libertar um homem que estava a ser atacado por uma serpente gigante. Após isto, Simbad conseguiu voltar à cidade, onde teve conhecimento, pela mulher, que os homens alados pertenciam a uma raça de demónios, mas que ela e seu falecido pai são pessoas normais. Simbad decide, então, abandonar a ilha, partindo com sua mulher numa longa viagem pelos portos da Ásia. Esta viagem, a última que Simbad realizou, durou vinte e sete anos, findos os quais, Simbad regressou a Bagdá. Desta vez, renunciou, definitivamente, às aventuras no mar, arrependido de tantas vezes ter desafiado a sorte e arriscado a vida.

No final de seu relato, Simbad, o comerciante rico, ordenou que dessem mil moedas de ouro a Simbad pobre, dizendo-lhe:

"Não vês que alguém que superou tantas provações merece agora uma vida despreocupada?",

Simbad o pobre respondeu:

"Certamente mereces o ócio e o bem-estar. Vive em paz, e que cada instante te traga a felicidade!".

Agradecendo o ouro que lhe fora dado, Simbad, o carregador, prometeu que havia de tornar-se, ele mesmo, um grandioso mercador.

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publicado por picodavigia2 às 16:49





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