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A PAZ E O SILÊNCIO

Domingo, 29.09.13

A Serra era um desterro inebriante de memórias e recordações. Recoberta de um verde desmazelado, sombrio e indigente, aureolada de um cinzento enevoado e constrangedor, consubstanciava na secura das encostas a ânsia de se encharcar no desassossego aguado das lagoas que povoavam o seu interior. Dominada por um marasmo instigador compelida por uma atonia provocante, a Serra, se não deserta, emaranhava-se num ermo povoado de nevoeiros, perplexidades e desencantos.

Certo dia, demandou a Serra uma donzela trazida pelo vento norte. Conduzia um rebanho, mas o que mais a notabilizava era o facto de empunhar a bandeira da paz. Desenvolta e bela, a moça transpôs precipícios e grotões, saltou penhascos e ravinas, emaranhou-se por caminhos desertos e chegou à Serra deixando-se ali ficar, com o seu rebanho e a sua bandeira, imersa naquela letargia contagiante, envolta naquela aridez desértica, comungando uma imperturbabilidade inconsequente, partilhando uma pulcritude, que aos poucos se ia diluindo na infecundidade perturbadora da Serra.

Passaram-se dias, meses e anos, durante os quais, a pastora viveu só, pastoreando o seu rebanho e empunhando, contra a aridez da Serra, a bandeira da paz. Finalmente, numa manhã de Sol e de intransigente quietude, chegou à serra um anjo – o anjo do silêncio. Trazia gravado no peito o estigma da taciturnidade, acolhia-se em enigmas misantropos e desfilava um triste rosário de memórias perdidas. Caminhava na senda de um destino atrofiado.

Maravilhou-se, o anjo do silêncio, ao ver a jovem pastora, mensageira da paz e cumprimentou-a ternamente:

- Quem sois, linda pastora? Apenas sei que carregas a bandeira da paz, desfraldada pela luz das estrelas, cujo brilho se reflecte na simbologia do teu olhar. Conjugas a aridez inebriante desta Serra com os aromas dos teus sonhos e desejos.

A jovem sorriu, envergonhada e respondeu com voz trémula:

- Sou uma simples e humilde pastora, a mensageira da paz. Vejo que tu também carregas um estigma - o silêncio de um desespero amortalhado, conjugado com a tristeza de esperanças perdidas.

Então, o anjo do silêncio aproximou-se e, dando-lhe a mão, conduziu a transportadora da bandeira da paz, ao cume da Serra, onde o silêncio era mais suave e menos perturbante. O anjo solicitou-lhe que cravasse para sempre, ali, bem no alto a bandeira de que ela intransigente nunca se havia separado. E a jovem pastora colocou, para sempre, sobre a montanha ornada de silêncio, a bandeira inebriante da paz

O anjo e a pastora, em silêncio e à sombra da bandeira da paz trocaram as suas juras, como se apenas aquela Serra fosse o mundo e eles, os dois únicos seres a povoá-lo.

Sabe-se que, algum tempo depois o anjo teve que partir e a pastora ficou só. Mas ficou muito triste e chorou tanto, tanto, que o caudal das suas lágrimas se transformou num rio que, descendo as encostas da Serra, as transformou, ornando-as com as mais belas quedas de água.

E, a partir daquele dia, a Serra da aridez e do silêncio perturbante transformou-se num oásis de sublimidade inebriante, de memórias e recordações e vestiu-se de um verde jubiloso, alegre e cativante, aureolou-se de uma claridade inebriante e sonhadora, consubstanciando-se na frescura das encostas, na ânsia de se encharcar na paz aguada das suas lagoas. Dominada por uma alegria entusiasta, compelida por uma serenidade provocante, a Serra transformou-se, para sempre, numa atractiva e atraente sublimidade.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:22





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