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JOÃO PATETA

Sexta-feira, 02.05.14

(CONTO POPULAR)

 

Há muito, muito tempo havia um   rapaz chamado João que vivia com a sua mãe numa pequena cabana na floresta...   Como eram muito pobres, a mãe do João tinha de trabalhar muito, a costurar e   a remendar roupa. E o João o que fazia? Nada! Durante o Inverno, era vê-lo   sentado em frente ao quentinho da lareira. Já no Verão, o que ele gostava era   de se sentar lá fora, no jardim, a apanhar Sol na cara. E era assim que ele   passava os dias…

Certo sia, a mãe, farta de ver   que ele, nada fazia, disse-lhe:

- Quem não trabuca, não   manduca! Tens de começar a trabalhar, João!

E lá foi ele… O primeiro   emprego que o João arranjou foi em casa de um lavrador, que lhe deu uma moeda   por um dia de trabalho no campo. João colheu o trigo, levou as vacas a pastar   e ainda deu de beber aos animais da quinta. O lavrador, muito satisfeito, deu-lhe   a recompensa prometida. Só que, já a caminho de casa, João tropeça e deixa   cair a moeda num pequeno ribeiro. Como é que ele ia contar à mãe o que lhe   tinha acontecido?

- És um tonto, João! Um cabeça   no ar! Então porque é que não guardaste a moeda no bolso?

- Prometo que da próxima vez o   faço, mãe…

No dia seguinte, João foi   contratado por outro lavrador para levar o rebanho a pastar às montanhas. E   assim foi… Só que, em vez de receber uma moeda, João ganhou um grande jarro   de leite fresco, acabadinho de sair da vaca. “Mas onde é que eu vou levar o   jarro de leite? Já sei, no bolso…” E lá foi ele para casa, com o jarro no   bolso. Mas, enquanto andava, o leite ia caindo no chão. Resultado: o João   chegou a casa sem leite nenhum para dar à mãe. Esta ficou espantada:

- Então não sabias que devias   trazer o jarro com o leite à cabeça?

- Prometo que da próxima vez o   faço, mãe…

Mais um dia de trabalho e mais   uma recompensa: desta vez foi um queijo amanteigado.
  Tal como a sua mãe lhe tinha indicado, João decidiu levar o queijo à cabeça.
  Só que, com o calor, o queijo acabou por derreter…

- Mas João, porque é que não   trouxeste o queijo na mão?

- Prometo que da próxima vez o   faço, mãe…

No dia seguinte, João foi   ajudar o padeiro da aldeia a preparar o pão. E recebeu em troca um belo gato…   Todo contente, João segurou o animal entre as mãos, caminhando  na direcção de casa. Mas, como o gato era   muito irrequieto, acabou por saltar-lhe das mãos e fugir. João ainda correu   atrás dele, mas o gato era muito mais esperto e escondeu-se entre o mato. A   mãe nem queria acreditar…

- Sabes o que é que devias ter   feito? Devias tê-lo atado com um cordel e arrastado atrás de ti.

- Prometo que da próxima vez o   faço, mãe…

O talho foi o sítio que João escolheu   para trabalhar, no dia seguinte… Depois de uma manhã de trabalho, João recebeu   um belo e saboroso presunto. “Como é que eu o levo para casa? Já sei! Atado   com um cordel e arrastado atrás de mim,” - pensou…

Claro que quando chegou a casa   o presunto já estava cheio de pó e ninguém o podia comer…

- João, o presunto é para   carregar às costas!

- Prometo que da próxima vez o   faço, mãe…

Depois de uma noite descansada,   João foi trabalhar para casa do pastor e recebeu um burro como recompensa. Apesar   de ser muito pesado, João não desistiu de seguir os conselhos da mãe. Pegou no   animal e pô-lo às costas, apesar de ser muito pesado. A caminho de casa, o   rapaz passou pela casa de um homem muito rico. Este tinha uma filha muito   bonita, a Maria, mas que tinha um problema: ninguém a conseguia fazer rir! Por   isso, o pai tinha prometido que quem fizesse rir a sua filha, iria casar com   ela. E foi isso que aconteceu… Muito aborrecida, Maria estava à janela quando   viu este espectáculo; um rapaz, muito encarnado, a carregar um burro às   costas. E, de repente, uma enorme gargalhada encheu a grande casa. Todos   vieram ver o que se estava a passar…
  Passado uma semana, João e Maria casaram e passaram a viver, felizes para sempre,   na mansão do pai de Maria. E o João nunca mais teve de trabalhar porque herdou   toda a riqueza do pai da sua esposa.

 

(Conto adaptado)

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publicado por picodavigia2 às 08:39

O PEDRO DAS MALAS ARTES

Quinta-feira, 01.05.14

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez um casal de velhos que tinha dois filhos. Um chamava-se João e o outro Pedro que, por ser muito astucioso e vadio, todos tratavam por Pedro das Malasartes. Como eram pobres, certo dia, o filho mais velho partiu para ir trabalhar e ganhar algum dinheiro. Empregou-se numa fazenda de um rico proprietário mas que era muito velhaco e aldrabão não pagando aos empregados, fazendo contratos impossíveis de cumprir. João trabalhou quase um ano e voltou para casa sem dinheiro e quase morto de tanto trabalhar. Além disso, o patrão dera-lhe sim uma grande tareia, deixando-lhe o corpo em ferida, da cabeça aos pés.

O Pedro quando viu o irmão chegar a casa naquele estado e roubado ficou furioso e saiu para o vingar. Procurou o mesmo fazendeiro e, disfarçadamente, pediu-lhe trabalho. O fazendeiro disse que o empregava com duas condições: devia fazer todos os serviços que ele mandasse e o primeiro dos dois que se zangasse daria uma grande sova no outro, até lhe por as costas em ferida. Pedro das Malasarte aceitou e começou a trabalhar.

No primeiro dia foi trabalhar para uma plantação de milho. O patrão mandou que uma cachorrinha o acompanhasse e ordenou-lhe que só podia voltar para casa quando a cachorrinha também voltasse. Pedro começou a trabalhar enquanto a cachorrinha, deitada a uma sombra, nem se mexia. Vendo que era combinação do fazendeiro, o Pedro das Malasarte pegou num pau e deu uma paulada na cachorra e ela logo se levantou, correndo para o alpendre da casa do fazendeiro. O rapaz voltou e almoçou. Pela tarde nem precisou bater na cachorra. Fez o mesmo gesto e a bicha voltou a correr, para casa Quando o patrão o viu chegar a casa, tão cedo, ficou furioso. O Pedro perguntou-lhe:

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, - respondeu o patrão.

No dia seguinte o fazendeiro escolheu outra tarefa. Mandou-o mondar e sachar um campo de batatas, mas muito difícil de trabalhar porque tinha muitas mondas. Que arrancasse tudo, mandou o patrão, referindo-se às mondas. O Pedro não arrancou apenas as mondas mas também todo o batatal, deixando o terreno completamente limpo. Quando foi dizer ao patrão, este foi ver o que ele fizera e ficou furioso;

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, - respondeu o patrão.

No dia seguinte o fazendeiro mandou o Pedro carregar um carro de bois com troncos, mas só com troncos sem nós. Ora o fazendeiro possuía, ali perto, um grande e belo bananal, com as bananeiras carregas de bananas. O Pedro das Malasarte pegou num foicinho e cortou quase todo o bananal, explicando ao fazendeiro que o tronco da bananeira era o único, ali que não tinha nós. O patrão ficou furioso e o Pedro perguntou;

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, não me zanguei.

No dia a seguir, mandou-o levar o carro, com a junta de bois, para dentro de uma sala de uma pequena casa mas sem passar pela porta. E para mais o atrapalhar, ainda fechou a porta e escondeu a chave. O Pedro das Malasarte agarrou um machado e fez o carro em pedaços, matou os bois, fê-los em bifes e atirou tudo pela janela, para dentro da sala. O patrão, quando viu, ficou preto de raiva:

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, não me zanguei.

No dia seguinte mandou o Pedro ir vender à feira uma dúzia de porcos. O Pedro das Malasarte levou os porcos, cortou-lhe os rabos e vendeu-os todos por um bom preço. Ao voltar para casa enterrou os rabos num lamaçal e ao chegar junto do amo começou a gritar;

- Ai de mim, ai de mim! Os porcos enterraram-se todos no lamaçal.

O patrão correu logo até ao local indicado e ao ver os rabos dos porcos, cuidando que eles estavam ali enterrados, ficou novamente furioso. O Pedro das Malasarte sugeriu que cavassem os dois, com duas pás, para retirar os porcos. Ali perto morava uma velhota. O patrão disse ao Pedro que fosse pedir duas pás à velhota. O rapaz foi bater-lhe à porta e pediu que lhe entregasse dois contos de réis. A velha não queria mas o Pedro gritava ao patrão, perguntando-lhe por gestos se devia levar um ou dois, e mostrava os dedos. Ante aos gritos do amo, que dizia “dois”, “dois”, a velha entregou o dinheiro ao Pedro. Voltou para o lameiro e começou a puxar a cauda de cada porco que dizia estar enterrado. Ia ficando com todas na mão. O patrão ficou cansado e aborrecido mas não deu mostras de zanga. E Pedro ainda negou que tivesse recebido dinheiro da venda dos porcos.

Então o patrão vendo que ficava pobre e desgraçado com aquele empregado, resolveu matá-lo o mais depressa possível, de um modo que parecesse que não era o culpado. Disse que andava um ladrão rondando o curral para lhe roubar os animais e deviam ambos vigiar, armados, para prender ou afugentar a tiros os ladrões. A ideia do fazendeiro era atirar no Pedro das Malasarte e dizer que se tinha sido por engano e sem querer, pois estava a pensar que era um malfeitor. De noite o fazendeiro foi para o curral e Pedro devia substituí-lo ao primeiro cantar do galo. Quando o galo cantou, o rapaz levantou-se e foi acordar a velha e disse-lhe que o marido a esperava no curral, e que levasse também uma espingarda, porque ele ia fazer o cerco pelo outro lado. A velha apanhou a arma e correu para o curral. O fazendeiro, assim que viu aquele vulto com a arma, pensou que era o Pedro e atirou-lhe um tiro, matando-a mas pensando que com aquele tiro tinha morto o Pedro das Malasartes. Assim que a velha caiu morta, Pedro apareceu chorando e acusando o amo de ter morto uma velhinha inocente. O fazendeiro ficou muito assustado e cheio de medo pois cuidava que iria para a cadeia pelo resto da vida. Para que o Pedro não dissesse nada a ninguém nem o denunciasse à polícia pagou-lhe muito dinheiro para não haver conhecimento da justiça e ofereceu ainda mais dinheiro se ele se fosse embora, sem mais outra proeza, pois só lhe dava prejuízos e consumições. O rapaz aceitou e voltou rico para casa dos pais, vingando assim o seu irmão e a injustiça que o fazendeiro lhe tinha feito.

(Conto popular adaptado)

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publicado por picodavigia2 às 19:19

O GATO DAS BOTAS

Sábado, 26.04.14

Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Um dia, chamou-os para lhes dizer que ia repartir por eles todos os seus bens. Assim: ao mais velho deu o moinho, ao do meio deu o burro e ao mais novo deu o gato.

O filho mais novo ficou muito triste porque entendia que o pai não tinha sido justo para com ele. Mas, surpresa das surpresas, alguns dias depois, o gato começou a falar!

Certo dia disse-lhe:

- Dá-me um saco e um par de botas…

O rapaz ficou muito espantado e obedecendo ao pedido do gato no dia seguinte, lá foi comprar um saco e umas botas.

- Aqui estão meu amigo! - Disse ele.

O gato calçou as botas, pegou no saco e foi para uma floresta que havia por ali perto. Como era muito esperto, não demorou muito a apanhar uma lebre bem gordinha, que a pôs dentro do saco. De seguida, pôs o saco às costas e dirigiu-se para o castelo onde morava o rei e ofereceu-lhe a lebre, dizendo:

- Magestade, venho da parte do meu amo, o marquês de Carabás, e trago-lhe esta linda lebre de presente, que ele lhe manda.

O rei ficou muito impressionado e contente com aquela atitude e disse:

- Diz ao teu amo que lhe agradeço muito!

Daí em diante o gato repetiu aquele gesto várias vezes, levando vários presentes ao rei e dizendo sempre que era uma oferta do seu amo, o marquês de Carabás.

Um dia, em que o rapaz passeava pelos campos, na companhia do gato, este diz-lhe:

- Senhor, tomai banho neste rio que eu trato de tudo.

O gato esperou que a carruagem do rei passasse junto ao rio onde o seu amo tomava banho e pôs-se a gritar:

- Socorro! Socorro! O meu amo, o marquês de Carabás, está a afogar-se! Ajudem-no!

O rei, ouvindo aquilo, mandou logo parar a carruagem e ajudou o marquês, dando-lhe belas roupas e convidando-o a passear com ele e com a filha, a princesa, na carruagem real.

O gato desata então a correr à frente da carruagem. Pela estrada fora, sempre que via alguém a trabalhar nos campos, pedia-lhes que dissessem que trabalhavam para o marquês de Carabás. O rei estava cada vez mais impressionado! Por fim, chegando a um castelo gigante, o gato pediu para ser recebido pelo Gigante,  e perguntou-lhe:

- É verdade que consegues transformar-te num animal qualquer?

- É! - Disse o gigante. 

Então o gato pediu-lhe que se transforme num rato. E assim foi. O gato que estava atento, deu um salto, agarrou o rato e comeu-o. O rei, a princesa e o marquês de Carabás chegam ao castelo do Gigante, onde são recebidos pelo gato:

- Sejam bem-vindos à morada do meu amo! - Disse o gato.

O rei nem queria acreditar no que os seus olhos viam:

- Tanta riqueza! Tanta sumptuosidade! Tem que casar com a minha filha, senhor marquês.

E foi assim, graças ao seu gato e a um par de botas, que o filho de um pobre moleiro casou com a princesa mais bela do reino.

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publicado por picodavigia2 às 10:42

A RAPOSA E A CARRIÇA

Segunda-feira, 31.03.14

A carriça é uma ave pequena, muito activa e de cor castanha na parte superior, com uma listra clara no dorso e com as asas, também, listradas. Tem uma cauda pequena e arrebitada. É facilmente reconhecível pelo seu pequeno porte. Tem por hábito entrar em cavidades e fendas de rochedos para pernoitar ou para caçar larvas, aranhas e bagas. Trata-se duma ave polígama, sendo que é o macho que constrói diversos ninhos para as suas várias parceiras. O ninho é uma estrutura arredondada, construído com pequenos ramos, musgo, erva e raízes, sendo, depois, forrado com os próprios pêlos e penas. Estão geralmente situados entre as raízes de uma árvore ou num tronco oco. O macho, por vezes, constrói falsos ninhos, a fim de enganar potenciais predadores. A fêmea põe 6 a 8 ovos que incuba por 14 a 16 dias. Os filhotes são alimentados, apenas, pela fêmea e iniciam-se no voo aos 16 ou 17 dias de idade

Ora certo dia, uma raposa encontrou uma destas carriças, com ninho no tronco de um velho carvalho. A raposa andava com muita fome e, por isso, ia todos os dias, junto ao carvalho e dizia:

- Ó comadre carriça, deite-me um dos seus filhinhos cá para baixo, para eu matar a fome, senão eu levanto o rabo e corto o carvalho.

A carriça com medo deitava-lhe um filhote. Três dias lá foi a raposa junto do carvalho e três vezes a carriça lhe atirou um filhinho que a raposa comia, sofregamente. Se a carriça se recusava, logo a raposa ameaçava que lhe levantava o rabo e lhe cortava o carvalho. Ao quarto dia a raposa lá foi outra vez e disse:

- Ó comadre, deita-me cá um carricinho, senão eu levanto o rabo e corto o carvalho.

A carriça deitou-lhe novamente um filhote, mas ficou a pensar como é que havia de se livrar da raposa, a fim de que lhe não comesse todos os filhotes. Por coincidência, na mesma tarde, foi lá visitá-la o mocho que lhe perguntou:

- Ó comadre carriça, onde estão os teus filhinhos?

- Deitei-os à comadre raposa, que vem aí e diz que levanta o rabo e corta este carvalho onde tenho o meu ninho.

Responde-lhe o mocho:

- Ah! Que parva! Não volte a fazer isso. Quando ela voltar digalhe que rabo de raposa não corta carvalho e que só a força de homem e o gume do machado é capaz de o cortar. No dia seguinte a raposa voltou lá e disse, novamente:

- Ó comadre carriça, deita-me mais um carricinho cá para baixo, senão levanto o rabo e corto o carvalho. A carriça já tinha aprendido a lição com o mocho e disse-lhe:

- Rabo de raposa não corta carvalho, só a força do homem ou o gume do machado.

A raposa lá se foi embora com o rabo entre as pernas e desta maneira a carriça livrou-se da raposa manhosa.

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publicado por picodavigia2 às 00:07

O ALFAIATE, O SAPATEIRO E OS LADRÕES

Sábado, 29.03.14

(CONTO TRADICIONAL)

Havia numa pequena aldeia, nos tempos em que os mortos eram sepultados no interior dos templos, uma igreja que estava constantemente a ser assaltada por dois ladrões. O pároco, já velho, muito agastado com tais crueldades e incapaz de impedir tais atrocidades, pediu aos seus paroquianos, que todas as noites ficassem, à vez, a vigiar a igreja dois homens da paróquia, a vigiar a igreja.

Certa noite coube a dois moços, jovens e ávidos de se divertirem durante a noite e que a todo o custo se queriam livrar daquela tarefa. Para isso contactaram o alfaiate e o sapateiro, os quais, mediante bom pagamento, decidiram ficar a guardar a igreja no lugar dos rapazes.

Os dois vigilantes, ao anoitecer, entraram no templo e subiram para o coro a fim de assim estarem mais escondidos e não serem vistos pelos ladrões. Era Inverno e a noite era longa, por isso, resolveram aproveitar o tempo, começando cada um a trabalhar no seu ofício. Lá pela noite dentro ouviram um barulho estranho. Eram os ladrões que chegavam para roubar a igreja. O alfaiate e o sapateiro, cheios de medo, calaram-se e ficaram muito quietos sem fazer barulho, deixando os ladrões entrar no templo, à vontade e com toda a liberdade. Os ladrões vinham carregados com sacos em que traziam não apenas dinheiro mas também alguns objectos roubados noutros lugares e estenderam um lençol no meio da igreja, colocando em cima dele tudo o que traziam de roubos e assaltos anteriores, a fim de verem melhor e apreciarem o seu pecúlio.

Não satisfeitos com o que tinha procuraram, no templo, mais alguma coisa que aumentasse o fruto dos seus roubos. Porém, no momento em que procuravam por toda a igreja alguma coisa que lhes interessasse, o alfaiate, levantando-se, gritou com toda a força do seu peito, mas com voz roufenha e muito disfarçada: "Acudam aqui, defuntos". Ao que o sapateiro logo respondeu gritando ainda com mais força, mas alterando a voz, como se fosse em eco: "Já lá vamos todos, já lá vamos todos juntos."

Os ladrões, cuidando que eram realmente os mortos a falar, apanharam tamanho susto que nem mais um minuto ficaram ali parados, fugindo da igreja a sete pés, como faíscas de labaredas. Largaram em debandada pela aldeia abaixo, deixando no meio da igreja tudo o que traziam dos seus roubos anteriores. O alfaiate e o sapateiro, apanhando-se sozinhos, correram logo para junto do que os ladrões haviam deixado sobre o lençol, no meio do templo. No entanto, depois de muito correr e já cansados, os ladrões pararam para descansar. Um deles disse: “Não devíamos voltar à igreja, para ver o que lá havia. Ao que o outro retorquiu: Eu não vou, pois aquilo talvez são coisas ou castigo do diabo e contra o diabo nós não podemos fazer nada".

Apenas o outro voltou à igreja, Entrou à socapa e, escondendo-se, pôs-se a escutar o que se passava. Naquele momento, porém, o alfaiate e o sapateiro, depois de terem dividido quase toda a fortuna pelos dois, disputavam, ferozmente, um real. Mas não havia maneira de se entenderem. Como a igreja estava escura e o ladrão não via nada aproximou-se e ao chegar junto deles disse:

- "Ai, meus amigos! Muitos devem ter sido os mortos que que vieram, pois nem toca a real a cada um".

Dito isto e cheio de medo, pôs-se em fuga e muito assustado foi contar ao outro o que se passaram. Fugiram ambos dali e nunca mais voltaram a assaltar a igrejinha daquela terra.

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publicado por picodavigia2 às 00:46

A VELHA

Domingo, 23.03.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era d'uma vez uma velhinha, muito velha, muito atarracada, que andava sempre a pedir esmola e a cramar junto das pessoas, “que não tinha ninguém, que era muito desgraçadinha.”

Mas o povo dizia que a velha tinha dinheiro, e por isso, n'um dia, um ladrão, aproveitando a ocasião em que ela saiu casa para ir à fonte, entrou-lhe em casa e escondeu-se debaixo da cama.

A velha quando voltou viu-lhe um pé. Esteve para gritar, mas teve medo de que ele lhe batesse e a matasse e por isso deixou a porta aberta e ajoelhando-se em frente de um crucifixo que tinha, pôs-se de mãos postas a rezar em voz muito alta:

- "Meu Deus, quando eu era moça namorava um rapaz muito bonito! Depois casei com ele e, quando chegámos a casa tirou-me o véu! Que vergonha, meu Deus! – E levantava a voz cada vez mais e continuava: - Depois tirou-me o vestido, as saias, as botas, Ai! Ai! Ai! Que vergonha! Que vergonha!

Os vizinhos ouviram aqueles gritos e acudiram a ver o que era. A velha assim que sentiu gente em casa, sem mudar de posição, gritava;

- Vão debaixo da cama que lá está o ladrão!

Os vizinhos foram a ver e lá estava o homem que levou uma grande sova; e assim se livrou a pobre velha de ser roubada e morta.

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publicado por picodavigia2 às 22:59

O LOBO SEM SORTE

Sábado, 22.03.14

(CONTO TRADICIONAL)

Era uma vez um lobo que andava cheio de fome, pois há vários dias não conseguia caçar nada para comer.

Certo dia, acordou muito entusiasmado, cuidando que havia de encontrar alguma comida. Assim, logo pela manhã pôs-se a caminho do bosque e encontrou dois carneiros guerreando. Aproximou-se, sorrateiramente, sem eles se aperceberem. Ao chegar junto deles deu-lhes um enorme raspanete:

- Que desordem é essa? Aqui já não há rei nem roque?

- Ó senhor lobo – respondeu um dos carneiros, muito assustado, - bem sabemos que nos vai matar e comer, mas primeiro resolva-nos aqui uma dúvida: este meu amigo que é doutro rebanho, diz que esta pastagem é do dono dele e aquela é que é do meu dono, mas eu digo que não… Ora o senhor lobo podia ver se este marco está em endireito com aquele além…

O lobo armado em marcador de extremas e fronteiras, pôs-se a olhar muito atento, até que levou uma valente marrada de um dos carneiros que o deixou caído no chão e sem sentidos…

Ao acordar da pancada, lá pensou que não voltaria a ter tanto a azar nem nunca mais ser comido por lorpa, seguiu o seu caminho e, mais adiante, avistou, no meio de um vale, uma égua muito velha e magra com uma cria que andavam pastando.

 - Ora ali estará a minha primeira refeição, - pensou. - A mãe está velha e magra e a filha é muito nova para me fazer mal…

Aproximou-se e, delicada e sorrateiramente, pediu desculpa á égua e disse que teria de a matar pois há dias que não comia nadinha. A égua, tentando proteger-se a si e à filhota, disse-lhe que concordava mas que antes se lhe fizesse um grande favor. Se ele atendesse o seu pedido até lhe dava a filha que ainda seria um melhor petisco.

- Qual é o favor? – Perguntou o lobo, já sonhando com um belo almoço.

- Ora, senhor lobo, é só tirar-me um cravo ou um prego que se me cravou na pata traseira e que não pára de me incomodar.

O lobo concordou e, mal se baixou para observar a pata da égua, levou tamanho coice que caiu de costas com os queixos partidos, enquanto a égua e a cria se punham em fuga, correndo para casa do seu dono.

Algum tempo depois, o lobo, ainda atordoado, lá se levantou e continuou a sua caminhada. Logo a seguir atravessou um pequeno oiteiro, onde encontrou uma porca com bacorinhos. Pensando que era desta vez que saciaria a sua fome, aproximou-se da porca com bons modos:

- Ando tão dorido e com tanta fome, senhora porca, que tenho de comer a ti e aos teus porquinhos…

- Ó senhor lobo, eu nem me importo que nos coma, mas os meus filhos ainda não foram baptizados. Se o senhor lobo me fizesse o favor de os baptizar, depois pode comê-los e vão-lhe fazer melhor proveito. Depois ainda me pode comer a mim. É só subir para cima da borda daquele poço, eu vou-lhe dando os porquinhos um a um e o senhor lobo deita-lhes a água. Depois pode comê-los.

Comovido o lobo não se fez rogado e saltou para a borda do poço. Mal o apanhou ali encavalitado, disposto a baptizar-lhe os filhotes, a porca deu-lhe tamanho empurrão que ele caiu para dentro do poço, quase morrendo afogado. A porca fugiu dali a sete pés com os filhos e o lobo, só algum tempo depois e muito a custo, consegui sair do poço, onde, onde quase morreu afogado.

Mas mesmo assim não desistiu de procurar comida, pois realmente tinha muita fome. Continuou a andar e, mais adiante, encontrou uma vaca a pastar num campo mas presa por uma corrente a uma estaca.

- Mas que sorte! Esta não me vai fugir. Agarro a corrente, puxo e a vaca cai. Que rico almoço eu vou ter e que me vai dar para três dias!

Arrancou a estaca, agarrou a corrente e, sem se aperceber, ficou preso a ela. Mal se sentiu solta, a vaca começou a correr, levando o lobo de rastos, atrás de si, preso na corrente. Esta, porém, rebentou e o lobo caiu num valado enquanto a vaca se refugiava no palheiro do seu dono. Cheio de dores o lobo lá se levantou e lastimando-se disse, para consigo: - "Quem te manda lobo ser marcador de extremas, veterinário de éguas e baptizador de porcos?

E voltou para a sua toca esfomeado e triste pensando que se a corrente não se tivesse partido, tinha sido arrastado até à casa do dono da vaca onde, muito provavelmente, havia de morrer com um tiro.

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publicado por picodavigia2 às 09:40

O FRADE O ESTUDANTE E O SOLDADO

Quarta-feira, 26.02.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Um frade, um estudante e um soldado iam, juntos, a caminho, em peregrinação. Caminhavam a pé, sem um tostão no bolso e a pedir. Deram-lhes, numa casa, um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo pelos três, porque, de tão pequeno que era, não chegaria um pequenino pedaço para cada um, o frade propôs que todos dormissem e o que queijo seria guardado e, no dia seguinte, havia de ser comido por aquele que entre eles tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito. Pensava o frade que havia de ser ele a arrecadar o queijo, pois para tal utilizaria, ao descrever o seu sonho, todos os seus recursos oratórios. O estudante aceitou a proposta com entusiasmo, pois sendo possuidor de muita sabedoria e senhor de muita lábia, facilmente, encantaria, com a narração do seu sonho e o queijo havia de ser seu. Olaré se havia! O soldado, por sua vez, encolheu os ombros e nada mais teve a fazer do que aceitar. Foram deitar-se. O frade e o estudante depressa adormeceram. Mas o soldado não conseguia dormir, pensando na forma como havia de conseguir o queijo. Cuidava ele que o frade habituado às práticas nas igrejas, decerto faria mais um dos seus belos sermões e o Estudante muito sábio, senhor de muita treta, não lhe ficaria atrás. Ele não teria hipótese alguma, por isso, levantou-se, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade, num discurso belo e eloquente, disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu e sentava-se à direita de Deus Pai, rodeado de Querubins, Serafins, Mártires e Virgens. O estudante, também com um belo discurso, narrou que sonhara já estar no céu à espera do frade quando ele subia as escadas. Quando chegou a vez do soldado, ele, sorrindo, contou:

— Pois meus senhores, eu sonhei que via no céu o senhor frade sentado junto de Deus, entre cânticos e louvores e, o senhor estudante, a seu lado, também muito feliz. Eu ficava cá em baixo, na Terra, sozinho e triste. Então comecei a gritar:

— Senhor estudante, senhor frade, o queijo, o queijo!? Os senhores esqueceram-se do queijo.

Então, vocês, lá no céu, muito felizes e contentes, sem precisar de comer ou de beber o que quer que fosse, responderam:

— Come tu o queijo, soldado! Come o queijo, porque nós estamos no céu, não precisamos de comê-lo.

O sonho foi tão forte e real que eu pensei que era verdade. Então levantei-me, enquanto vocês dormiam, fui ao queijo e comi-o.

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publicado por picodavigia2 às 00:25

AS TRÊS PRETENDENTES

Quinta-feira, 13.02.14

Era uma vez um rei, que tinha três filhos. Um dia, sentindo que já estava velho e desejando escolher o seu sucessor, juntou-os e disse-lhes:

- Meus filhos, ide correr o mundo, e aquele que trouxer e se casar com a mulher mais bela e formosa é que há-de ser o meu herdeiro e ficar com o meu reino.

Partiram os três. Os dois mais velhos, depressa, encontraram duas raparigas, ambas muito formosas e belas, que trouxeram para o reino e com quem se casaram. O mais novo andou por muitas terras, mas não conseguiu encontrar uma mulher que lhe agradasse.

No entanto, passado alguns dias, quando ia por um descampado, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra, para descansar. Perto dali, viu uma casa muito alta sem portas e só com uma janela. De repente, chegou uma velha que se aproximou da casa e bateu na parede. Nesse momento, apareceu à janela uma linda menina que lhe atirou a sua trança, à qual a velha se agarrou, subindo para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha, agarrando-se, novamente, à trança, desceu e foi-se embora.

O rapaz aproximou-se, então, da casa, repetindo o gesto da velha. A janela abriu-se, a trança desceu e o rapaz, pendurando-se nela, subiu. Ficou pasmado quando, ao entrar, viu diante de si a mulher mais bela do mundo. A menina muito assustada e aflita, suplicou:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e ela tem artes de lhe causar todos os males do mundo.

— Não vou, sem vires comigo, porque só assim eu ganharei o reino de meu pai.

Ao ouvir estas palavras a rapariga concordou. Desceram ambos pela parede e fugiram a toda a pressa, montados no cavalo do rapaz. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel e ingrata, para, não me deixes só no mundo.

A filha, porém, não lhe deu ouvidos, continuando a fuga. A velha pediu-lhe:

— Ao menos, olha para trás, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou, a velha disse-lhe:

— Eu te esconjuro para que essa tua cara linda se transforme numa cara de boi.

Quando o príncipe chegou à corte, ao vê-lo acompanhado de uma donzela com aquela cara, começaram todos a rir-se sem perceber como ele se tinha apaixonado por uma criatura tão feia e horrorosa. O príncipe contou a sua desventura, mas ninguém acreditou.

Estava prestes a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas esposas diante de toda a corte, a fim de que o rei, conforme o prometido, escolhesse a mais bela, decidindo assim qual dos filhos seria o seu herdeiro.

O rapaz contou à mãe o que se passava e esta decidiu atrasar a cerimónia, para ver se a velha, com o tempo, perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura. Para tal pediu que cada uma das três meninas lhe bordasse um lenço. As duas primeiras não sabiam bordar, pelo que tentaram enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados. A que perdera a formosura também não sabia bordar, mas em vez de enganar a rainha, pôs-se a chorar. Tanto chorou que lhe apareceu a velha, e lhe disse:

— Não te rales mais. No dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A menina foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores, ramos e pássaros.

Chegou o dia de as três meninas irem à corte para serem apresentadas ao rei. A menina feia começou de novo a chorar, até que, novamente, lhe apareceu a velha, dizendo:

— Não chores mais, minha filha. Trago-te este um vestido para a festa. Com ele ficarás muito bela. Era um vestido todo bordado a ouro e com pedras preciosas. A menina vestiu-o, e quando ia pelo corredor do palácio, olhou para trás e, ao ver a mãe, readquiriu, de imediato, a formusura que perdera durante a fuga.

De seguida, perante a admiração de todos, entrou na sala pelo braço do marido. Jamais se vira na corte jovem tão bela. Perante a raiva e inveja das outras duas, o rei não teve dúvidas em escolhê-la como futura rainha, tornando o marido o herdeiro do seu reino.

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publicado por picodavigia2 às 21:39

O SOLDADO QUE FOI PARA O CÉU

Quarta-feira, 12.02.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez um soldado que adoeceu quando estava no quartel. O Comandante mandou-o para casa a fim de se curar, com a condição de que, quando ficasse bom, regressasse ao quartel.

O soldado assim fez e, pelo caminho, ao passar por uma ponte encontrou um velhinho muito pobre e fraco, que nem forças tinha para atravessar a ponte. O soldado nunca tinha feito bem a ninguém, mas naquele instante teve pena do velhinho e decidiu ajudá-lo. Para isso carregou-o às costas e atravessou a ponte. Logo que chegou ao outro lado, pôs o velho no chão, e ia despedir-se dele, quando este lhe disse:

− Amigo, obrigado por me ter ajudado. Agora peça-me alguma coisa, a fim de que eu lhe possa agradecer a ajuda que me deu.

− Ora essa – disse o soldado - o que lhe hei-de eu pedir?

− Peça tudo o que quiser. – Respondeu o velho

O soldado pediu-lhe então o seguinte: - Sempre que disser: "Salta aqui para a minha mochilinha!" nenhuma coisa deixe de obedecer às minhas ordens. E que onde quer que eu me assente ninguém me possa mandar levantar.

O velho disse-lhe que estava concedido o que desejava e desapareceu.

O soldado partiu para casa, muito contente, até se curar. Quando ficou bom decidiu não regressar ao quartel e nunca mais trabalhar. Assim viveu durante algum tempo sem fazer nada, sem lhe faltar coisa nenhuma. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, bastava dizer: "Salta aqui para a minha mochilinha", e tinha logo tudo o que queria.

Um dia o soldado adoeceu novamente e estava quase a morrer. O Diabo aproximou-se dele para lhe levar a alma, mas o soldado logo que o viu, gritou: "Salta aqui já para a minha mochilinha!". O Diabo saltou logo para dentro da mochila a qual o soldado mandou, de imediato, levar a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até desfazer o Diabo por completo. Poucos dias depois o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, sem trabalhar e sem ajudar mais ninguém, foi parar à porta do Inferno. O Diabo assim que o viu, com medo de ser batido outra vez, mandou fechar todas as portas e janelas do Inferno, a fim de que o soldado ali não entrasse.

Foi o que o soldado quis, porque assim foi logo a correr bater à porta do Céu. São Pedro assim que o viu, disse-lhe:

− Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras a vida de preguiçoso que levavas enquanto vivias?

Responde-lhe o soldado:

− Ó Senhor São Pedro, o Diabo não me quis no Inferno. Eu agora para onde hei-de ir?

− Arranja-te lá como puderes. – Respondeu São Pedro, fechando a porta.

Mas como São Pedro demorasse a fechá-la, o soldado aproveitou para pegar no seu barrete e atirá-lo lá para dentro, dizendo:

− Ó Senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o meu barrete.

O soldado viu meia porta do Céu aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:

− Ó Senhor São Pedro, deixe-me ir apanhar o barrete.

São Pedro deixou e o soldado, então, aproveitou para se sentar, por um momento na cadeira de São Pedro que, bem o queria mandar sair mas não conseguia. Foi, então, queixar-se a Nosso Senhor, que lhe disse:

− Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remédio, porque assim lhe estava prometido, desde o dia em que ele fez uma boa acção, ajudando o velhinho a atravessar a ponte.

E assi, o soldado, por ter praticado apenas uma boa obra, ficou para sempre no Céu.

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publicado por picodavigia2 às 10:05

O PAJEM INVEJOSO

Quinta-feira, 06.02.14

(CONTO POPULAR)

 

Conta-se que certa vez, estavam El-rei de Portugal, D. Dinis e sua mulher, a Rainha Santa Isabel, a estanciar numa aldeia, para os lados de Leiria, onde o rei havia mandado plantar um pinhal, o que faziam sempre que era possível.

Certa manhã, foi o Rei galopar, pelos campos, levando consigo um pajem que tinha inveja de um outro pajem que era muito valoroso e mui estimado por El-rei. Num abrandamento da corrida, para descanso dos animais, o moço fidalgo invejoso disse ao rei, que o outro pajem estava apaixonado pela Rainha.

O Rei Lavrador mostrou acreditar na palavra do seu acompanhante e vendo, ali perto do lugar onde estavam, um forno de cozer cal, a arder com enormes labaredas, imediatamente combinou com o forneiro de que, dentro de poucos dias, um pajem o iria procurar e lhe diria que ia para cumprir as ordens do seu Rei e Senhor. Mais lhe disse El-rei que, logo que dissesse tais palavras, lhe pegasse e o metesse no forno, pois que assim convinha ao seu serviço.

Passados uns dias, ao regressar à corte, o Rei, como planejara, mandou o pajem, vítima inocente da intriga do outro pajem invejoso, ir ter com o forneiro, da aldeia onde havia estanciado.

Este pajem, porém, que além, de destemido e considerado, era um homem justo e temente a Deus, ao passar por uma capelinha onde se celebrava missa entrou e cumpriu os preceitos de bom religioso, assistindo à missa e comungando. E ali se demorou um bom pedaço, em oração.

O pajem invejoso, ansiando por saber se as ordens do Rei já estavam a ser cumpridas tão fielmente como haviam sido dadas, não teve mão na sua maldade e meteu a galope em direcção ao forno indicado pelo rei, para saber se o pajem, supostamente traidor, já tinha chegado e se as ordens de Sua Real Majestade, estavam cumpridas.

Palavras não eram ditas e o forneiro e os seus ajudantes agarraram no pajem invejoso e meteram-no forno.

E assim, devido à sábia perspicácia de El-rei, morreu queimado um invejoso e intriguista, salvando-se o bondoso e honesto pajem de Sua Majestade.

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publicado por picodavigia2 às 11:12

O COMPADRE POBRE E O COMPADRE RICO

Quarta-feira, 05.02.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Numa certa terra moravam dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito avarento, sem querer dar nada a ninguém do muito que possuía. Naquela terra era costume que todos, quando matassem o seu porco, oferecessem um bocado do lombo ao senhor padre. O compadre rico, que era muito forreta e queria matar porco sem dar um pedaço do lombo ao padre, chegou junto do compadre pobre e começou a dizer mal daquele costume e que não concordava com aquele hábito. Além disso o padre vivia melhor do que eles e não precisava que lhe dessem nada. Então o compadre pobre aconselhou o compadre rico a que quando matasse o seu porco, o dependurasse no quintal para que toda a gente, incluindo o padre, o visse. Durante a noite, às escondidas ia ao quintal, pegava no porco e guardava-o em sua casa, bem escondido, para depois, na manhã seguinte, dizer toda a gente que lho tinham roubado. Assim livrar-se-ia de dar um pedaço de lombo ao padre.

O compadre rico ficou muito contente com aquela genial ideia do amigo e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois de pendurar o porco no quintal, deitou-se com a intenção de ir de madruga ao quintal, buscá-lo. Ninguém o havia de ver e o porco havia de ficar muito bem escondido em sua casa e o padre não apanhava nada do lombo nem de nenhuma outra parte. Mas o compadre pobre, que era espertalhão, antecipou-se e, durante a noite, foi ao quintal onde estava o porco e roubou-o. No dia seguinte, quando o avarento deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e, muito aflito, contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe, baixinho:

- Boa, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é que o compadre há-de contar ao senhor padre e safar-se-á de lhe dar um pedaço de lombo!

Mas o compadre rico cada vez teimava mais que lhe tinham roubado o porco mesmo a sério e de verdade, enquanto o outro cada vez o apoiava e incentivava mais para que contasse assim, tudo muito bem “contadinho”, ao senhor padre, porque assim o reverendo acreditaria de certeza. Já farto de o ouvir, o compadre rico foi-se embora desesperado, enquanto o pobre, a rir-se dele, ficou com o porco todo inteiro para si, sem que o compadre rico dele desconfiasse.

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publicado por picodavigia2 às 10:37

A FILHA REJEITADA

Sábado, 01.02.14

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez uma mulher muito bonita que tinha uma estalagem e a todos os homens que lá se hospedavam perguntava se tinham visto uma mulher mais bonita do que ela. Ela tinha uma filha mais bonita do que ela mas mantinha-a fechada para ninguém a ver. Disse-lhe um dia um almocreve, depois dela lhe fazer a pergunta habitual:

- Ainda agora ali vi uma mulher mais bonita do que vossemecê, debruçada a uma janela a pentear os seus belos cabelos.

-Ai, sim! É a minha filha. Vou mandar matá-la.

E mandou dois criados levá-la a um monte para a matar, mas a rapariga pediu-lhes que a não matassem, que a deixassem abandonada ali, mas viva, que prometia não mais voltar a casa da sua mãe. Os criados tiveram dó dela e deixaram-na, sozinha, no monte. Ela foi andando, chegou a uma serra e viu uma casa que parecia abandonada. Era noite e ela com intenção de pedir guarida, bateu à porta, mas não encontrou ninguém. Entrou para dentro e fez a ceia, e assim que a acabou de a fazer, escondeu-se. Nisto chegaram uns ladrões que vinham de fazer um roubo e, depois que viram a ceia feita, começaram a dizer:

- Ai! Que bom! Quem nos dera saber quem é que fez a ceia. Se por aí está alguém, apareça.

A rapariga apareceu-lhes e contou-lhes a sua sorte. Eles, lamentando o sucedido disseram-lhe:

- Agora não se aflija. Há-de ficar connosco e havemos de trata-la como nossa irmã.

Daí por diante os ladrões lá iam para os seus roubos e ela ficava sempre a arrumar e a limpar a casa e fazer-lhes a comida. Eles estimavam-na, respeitavam-na muito e tratavam-na com amizade e carinho.

Ora havia uma velhota que ia muitas vezes à estalagem da mãe dela que andava sempre em recados por muitas terras. Certo dia, a mãe disse-lhe:

- Você, como anda por muitas terras, diga-me se já viu uma cara mais linda do que a minha?

E ela disse-lhe:-

Vi, vi uma rapariga que ainda era mais linda que você, num monte, muito distante daqui.

- Você quando volta para lá? Quero que lhe leve uns sapatos.- E deu uns sapatos à velha, dizendo-lhe:

-Leve-lhos e diga-lhe que é a mãe que lhos manda; mas ela que os calce antes de você de lá sair; eu quero saber se é certo que ela os calça, a fim de ter a certeza de que é a minha filha. Olhe que eu pago-lhe bem.

A mulher levou os sapatos à filha. Ao chegar lá, disse-lhe:

- Aqui tens estes sapatos, que te manda a tua mãe.

A rapariga respondeu

- Eu não quero cá sapatos nenhuns; meus irmãos dão-me quantos sapatos eu quiser; não os quero.

A velha teimou tanto com ela que a rapariga pegou neles; calçou um, fechou-se-lhe um olho; calçou outro, fechou-se-lhe o outro olho e ela caiu morta. Depois vieram os ladrões, choraram muito ao pé dela, lastimaram muito a morte dela e depois disseram: «Esta cara não há-de ir para debaixo da terra; levemo-la num caixão à serra que vem lá o filho do rei à caça para ele ver esta flor.»

Depois levaram-na a esse sítio; veio o filho do rei e viu-a e achou-a muito bonita e depois tirou-lhe um sapato e ela abriu um olho, tirou-lhe outro, abriu outro olho e ficou viva. O príncipe levou-a para o seu palácio e casou com ela e foram felizes para sempre.

 

Conto Popular, baseado na versão de Adolfo Coelho

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publicado por picodavigia2 às 16:20

A ÁGUIA E A RAPOSA

Sexta-feira, 31.01.14

CONTO TRADICIONAL

 

Era uma vez uma águia e uma raposa que eram comadres. Um dia a águia convidou a comadre raposa para ir a uma boda ao céu. A raposa disse-lhe que aceitava de bom grado o convite, mas que infelizmente não podia ir, porque a idade avançada e o cansaço das agruras da vida já não lhe permitiam dar grandes passeios ou fazer longas viagens.

A águia, muito solícita e amiga, disse-lhe que não havia problema. Ela, raposa, que não se preocupasse que havia de lhe pegar com as suas fortes unhas, transportando-a pelos ares, enquanto voava. Para além de não se cansar, a viagem seria muito mais rápida e agradável.

A raposa, renitente ao princípio, acabou por anuir ao convite da comadre e lá foram as duas pelos ares. A águia a voar, sustentando pelo pescoço, com as suas garras, a pobre raposa que se torcia e retorcia toda, ao sentir as afiadas unhas da águia a penetrarem-lhe a carne. Mas como tinha aceitado livremente e de boa vontade o convite da comadre, sofria, calada, as agruras do seu destino.

Já iam a mais de meio da viagem, bem lá no alto, quando a águia diz para a raposa:

- Segura-te bem, comadre, que eu quero cuspir nas unhas, para te poder segurar melhor. E dizendo isto largou a raposa que mais nada pode fazer do que estatelar-se estrondosamente no solo, em cima duma enorme laje de pedra granítica, que cobria o chão, no local onde ela caiu.

Desfeita, amachucada, com alguns ossos partidos e muitas dores no corpo, a raposa, aos poucos, lá foi recuperando a saúde, até se recompor por completo.

Ao saber que a raposa escapara da primeira, a águia voltou a procurá-la para lhe armar uma segunda cilada, da qual a enfadonha comadre, não havia de sobreviver. Dirigiu-se pois à toca da raposa, lamentando o sucedido, desculpando-se e fazendo-lhe um segundo convite. Os seus filhos pequeninos, faziam anos e pretendia dar uma grande festa e um bom jantar, lá no alto, no seu ninho e que tinha muito gosto que a comadre e amiga estivesse presente. A raposa, voltou a aceitar de bom grado o convite, que a comadre podia contar com ela, pois que até a poderia ajudar no arranjo do jantar, sobretudo no acender do lume.

No dia combinado, para espanto da águia, apareceu a raposa junto à árvore, onde, bem lá no alto estava o ninho com os seus filhotes:

- Suba, comadre, suba! – Incentivava a águia, esboçando um sorriso cínico.

- Espere um pouco, comadre, que vou começar a ajudá-la de cá de baixo.

Dizendo isto a raposa começou a amontoar junto da árvore uma grande quantidade de palha, tojo e paus secos que incendiou de tal maneira, que depressa fez arder a árvore, o ninho e os filhos da águia. Apenas esta escapou, fugindo dali, jurando que nunca mais se havia de meter com a raposa.

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publicado por picodavigia2 às 22:13

FIOS DE OURO

Terça-feira, 28.01.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma mãe tinha duas filhas. A mais velha era muito preguiçosas, desajeitada, impertinente e, além disso, muito invejosa, a outra, a mais nova, era extremamente bondosa, aprimorada, metódica e muito trabalhadora.

A mãe não cessava de aconselhar a mais velha, atirando-lhe à cara o que em tempos lera num livro:

– “A inveja é filha do orgulho, autora do homicídio e da vingança, o início das sedições secretas, a perpétua atormentadora da virtude. A inveja é a imunda lama da alma; um veneno, um azougue que consome a carne e seca a medula dos ossos.”

Como se isso não bastasse ainda lhe apresentava, vezes sem conta, exemplos de pessoas que a inveja não só corrompera mas até arruinara.

Certo dia, a mãe e a irmã mais velha saíram de casa e foram à missa mas deixaram a cozer no forno, ao cuidado da irmã mais nova, sete pães de milho. Como se demorassem, a rapariga, depois de cozidos, foi comendo um a um os sete pães, de modo que, quando a irmã e a mãe regressaram da igreja não restava nenhum.

Faltando-lhes pão para o almoço, a mãe e a irmã mais velha, ralharam tanto com ele e fizeram tão grande barulho, que um dos mais ricos mercadores da cidade que naquele momento passava, por acaso, na rua onde moravam, teve que intervir, para as apaziguar

A mãe e a irmã mais velha gritavam ambas, falando ao mesmo tempo, acusando a mais nova de ser uma comilona, de comer por sete e roubar-lhes o pão que era delas. Mas o homem compreendendo que o barulho era motivado por inveja e que a rapariga se bem comia, melhor o merecia, pois trabalhava e fiava por sete, pediu-a em casamento à mãe e, para desespero e inveja da mais velha, começou logo a tratar de tudo para se casar com ela.

Realizado o casamento, o negociante partiu para uma longa viagem deixando à mulher, como tarefa, um grande quarto cheio de linho para fiar.

Estava prestes o regresso do negociante e a mulher ainda não tinha fiado nada. Por mais que quisesse não o podia fazer, e as outras duas jubilosas riam e troçavam dela, contentes por calcularem que o marido logo que chegasse não deixaria de a castigar severamente, talvez até a abandonasse e casasse com outra. Nessa altura, decerto que rico mercadora escolheria a mais velha para a substituir como esposa.

A pobre rapariga chorava, chorava, pretendendo debalde fiar o linho mesmo com lagrimas, mas não conseguia.

Um dia, enquanto estava à janela, a lastimar a sua sorte passaram umas fadas boas que, compadecendo-se da infeliz, lhe disseram que ao fiar, em lugar de passar os dedos pelos lábios, os passasse por farinha de milho.

A rapariga assim fez, e d'ai por diante, com grande alegria sua e raiva da irmã, não só podia fiar quanto queria mas também o fio, ao contacto da farinha de milho, transformava-se logo em rico fio de puro ouro.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:26

SEMPRE NÃO

Sábado, 25.01.14

(CONTO TRADICIONAL

 

Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada: receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – “Não”. Assim pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava longe da corte, e a mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo ali uma grande paixão, e disse:

– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?

Ela respondeu:

– Não!

O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:

– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?

Ela respondeu:

– Não.

Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:

– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?

Ela respondeu:

– Não.

Começou o cavaleiro a compreender que aquele “Não” seria talvez sermão encomendado, e virou as suas perguntas:

– Então fechais-me o vosso castelo?

Ela respondeu:

– Não.

– Recusais que pernoite aqui?

– Não.

Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o que lhe dizia ela foi sempre respondendo “Não”. Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:

– Consentis que eu fique longe de vós?

Ela respondeu:

– Não.

– E que me retire do vosso quarto?

– Não.

Na manhã seguinte, o cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do “Não”; mas quando ia já a contar o modo como se metera na cama da castelã, o marido que era um dos cavaleiros presentes, já sem ter mão em si, perguntou agoniado:

– Mas onde foi isso cavaleiro?

O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:

– Ora quando eu ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete, sinto um grande solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.

O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

 

Teófilo Braga Contos Tradicionais do Povo Português

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publicado por picodavigia2 às 09:28

O RAPAZ SEM OLHOS

Sexta-feira, 24.01.14

Era uma vez uma mãe que tinha dois filhos, mas como era muito pobre e pouco tinha para lhes dar. Um dia mandou-os pedir esmola mas havia de lhes dar, para levarem, um pequeno farnel do puco que ainda tinha em casa. Antes, porém, perguntou-lhes se queriam ambos comer da mesma vasilha ou levar cada um a sua comida separada. O mais velho disse que era melhor cada um levar a uma vasilha com a sua comida.

Assim fez a mãe. Pelo caminho o irmão mais novo disse que tinha fome e que queria comer o seu farnel. O mais velho concordou mas disse-lhe que era melhor comerem juntos, um dos farnéis, primeiro e depois o outro. Feito o acordo, no primeiro dia, comeram ambos a comida do mais novo. No segundo dia, à hora do almoço, disse este:

 - Ó irmão, vamos agora comer o teu farnel?

O mais velho disse-lhe que não pois ainda era muito cedo, mas às escondidas foi comendo tudo o que levava na sua vasilha sem dar nada ao mais novo.

À noite, o irmão mais novo voltou a pedir ao mais velho que, conforme o combinado repartisse com ele o seu farnel, pois estava a morrer de fome.

O mais velho retorquiu:

- Só se me deixares tirar um dos teus olhos.

A fome era tanta que o rapaz cedeu, pese embora, depois de lhe tirar um olho, o irmão mais velho não lhe tenha dado nenhuma comida.

Na manhã seguinte aconteceu o mesmo e o irmão mais novo ficou sem o outro olho.

Vendo o irmão cego, o mais velho decidiu abandoná-lo, deixando-o sozinho. Passado algum tempo, depois de caminhar na escuridão, o rapaz chegou a um sítio onde ouviu o barulho a água. Cuidando que era um rio e com medo de cair à água e morrer afogado o rapaz decidiu sentar-se ali, não se arriscando a atravessar o rio. Cansado e cheio de fome adormeceu.

Ora era naquele local que todas as noites se reuniam as feiticeiras para decidir o que haviam de fazer no dia seguinte. Vendo ali o menino, esfomeado, doente e cego, uma das feiticeiras decidiu que havia curá-lo. Havia ali perto uma árvore. A feiticeira apanhou três folhas e cuspiu-lhe três vezes, antes de amanhecer. Depois esmagou as folhas nas mãos, formando uma papa ou bálsamo com o qual untou as pálpebras dos olhos do rapaz, que assim voltou a ter os seus olhos e a ver.

Com esta “estória” pretendia mostrar-se que afinal as feiticeiras não eram tão más como, muitas vezes, se cuidava.

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publicado por picodavigia2 às 17:32

O PASSARINHO ENCANTADO

Quarta-feira, 22.01.14

(CONTO TRADICIONL)

 

Era uma vez um homem que tinha uma filha. Como enviuvasse, casou, em segundas núpcias, com uma mulher, também ela viúva e que, por coincidência, também tinha uma filha. As duas meninas davam-se muito bem mas a madrasta tratava a enteada muito mal.

Um dia a menina, triste e aborrecida com as ameaças e vexames por parte da madrasta, saiu de casa e fugiu para a floresta, que ficava ali ao lado. Sozinha e abandonada, começou a chorar. Pouco depois, porém, viu um belo passarinho vir ao seu encontro, dizendo-lhe:

- Por favor, arranja-me uma bacia com água, outra com leite e um laço de fita.

A menina ficou muito espantada, mas, apesar do passarinho fugir, fez o que ele lhe pedira. Algum tempo depois, o passarinho voltou, caiu no laço, banhou-se na bacia de água, depois na de leite e transformou-se num belo jovem, que lhe disse

- Eu sou um Príncipe. Até hoje estive encantado. Foste tu, bela jovem, que me quebraste o encanto. Mas se alguma vez alguém souber o meu segredo, voltarei a ficar encantado, só voltando a quebrar o encanto quando alguém me encontrar, depois de romper três pares de sapatos: um par de vidro, outro de madeira e outro de ferro.

A madrasta que andava por ali perto, ouviu vozes, espreitou e viu o passarinho banhar-se na água e no leite e transformar-se num Príncipe. Ficou cheia de inveja, mas o Príncipe, descoberto o seu segredo, pouco depois, transformou-se, novamente, num passarinho. A madrasta, no entanto, deitou-lhe um vidro partido na água sem que a menina desse por isso. Quando o passarinho se foi banhar, de novo, ficou muito ferido e fugiu. Mas a menina lembrou-se do que ele lhe tinha dito e mandou fazer os três os pares de sapatos. No dia seguinte, caminhou à sua procura.

Não precisou de andar muito para logo partir o par de sapatos de vidro. Avistando uma casinha, foi bater à porta. Apareceu-lhe uma velhinha, a quem perguntou:

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas a minha filha, que é a Lua, há-de saber. – Respondeu a velha. - Esconda-se aí, para ela não a ver, pois tem muito mau génio.

Escondeu-se a menina, e dali a pouco chegou a Lua e disse, muito zangada:

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filha, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava passarinho encantado.

- Eu só ando de noite, à hora em que toda a gente dorme com as portas e as janelas bem fechadas. O vento é quem há-de saber.

Ao outro dia a velhinha deu à menina o recado da Lua e entregou-lhe uma bolota, com a recomendação de só a abrir quando precisasse muito.

Pôs-se a menina outra vez a caminho, andando bastante mais e, passado algum tempo, os sapatos de madeira romperam-se e a menina avistou outra casinha. Bateu à porta e uma velhinha veio abrir. A menina perguntou-lhe:

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas o meu filho, o Vento que anda por todo o mundo, há-de saber. Mas esconda-se porque ele tem muito mau génio.

A menina escondeu-se e dali a pouco chegou o Vento a soprar, dizendo:

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filho, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava o passarinho encantado.

- Quando eu apareço, todos fecham as portas e as janelas de modo que não sei onde está. Quem deve saber é o Sol.

No dia seguinte a velhinha deu à menina o recado do seu filho Vento e entregou-lhe uma noz, com a recomendação de só a abrir quando precisasse muito.

A menina recomeçou a caminhar e andou, andou tanto, tanto que acabou por romper os robustos sapatos de ferro e viu, ao longe, outra casinha. Bateu à porta e uma velhinha veio ver quem era.

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas o meu filho que é o Sol há-de saber. Mas esconda-se até que ele chegue.

A menina fez o que a velhinha lhe disse e dali a pouco chegou o Sol.

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filho, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava passarinho encantado.

- O passarinho mora muito longe daqui, no palácio real, mas está em perigo de vida. Ninguém sabe curar a sua doença.

A velhinha transmitiu à menina as notícias que o seu filho Sol lhe tinha dado e entregou-lhe uma castanha com a recomendação de não a abrir senão quando muito precisasse.

E a menina pôs-se outra vez a caminhar, na direcção do palácio real. Quando anoiteceu, deitou-se debaixo de uma árvore onde umas rolas faziam ninho e, antes de adormecer, ouviu as rolinhas falarem, dizendo

- Então que notícias há do passarinho encantado?

- O passarinho encantado pode curar-se. Basta que alguém junte algumas das nossas penas, as queime e com as cinzas polvilhe as suas feridas, durante três noites a fio.

Foi o que a menina quis ouvir. Logo que as rolas adormeceram, apanhou as penas caídas no chão e fez como as rolas tinham dito. De manhã pôs-se a caminho da cidade. Quando chegou diante do palácio real, sentou-se no chão e abriu a bolota. Apareceu uma dobadoira de prata com meadas de oiro, a prenda mais rica que se podia imaginar. A menina pôs-se a dobar.

A rainha-mãe chegou à janela e vendo aquela dobadoira tão bonita, mandou um criado perguntar à menina se a queria vender.

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de deixar-me ficar esta noite ao pé do passarinho encantado, que está pousado dentro do palácio real.

A rainha aceitou e a menina, de noite, polvilhou as feridas do passarinho com as cinzas.

No dia seguinte foi sentar-se outra vez diante do palácio e abriu a noz.

Saiu dela uma roca de oiro cravejada de brilhantes, com um fuso de prata e a menina pôs-se a fiar.

Veio a rainha à janela e vendo a roca, mandou o criado saber se ela a queria vender.

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de consentir que fique outra noite ao pé do passarinho.

A rainha disse que sim e a menina, sem ninguém ver, polvilhou as feridas do passarinho com as cinzas que levava.

Pela terceira vez se sentou em frente do palácio e abriu a castanha, donde saiu uma galinha de oiro com pintainhos de prata.

Quando a rainha a viu, quis logo que a menina lha vendesse, mas ela respondeu:

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de deixar que eu fique mais esta noite ao pé do príncipe.

Pela terceira vez a menina deitou o resto das cinzas sobre as feridas do passarinho, que abrindo os olhos, logo se transformou no príncipe que reconheceu a sua salvadora.

A menina contou-lhe tudo quanto tinha acontecido o Príncipe casou com ela e foram muito felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 18:59

AS BOCAS DO MUNDO

Segunda-feira, 20.01.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez um velho que vivia com o seu neto e tinham um burro. Certo dia resolveu o velho ir a uma feira. Como não queria deixar o neto sozinho em casa, decidiu levá-lo consigo, juntamente com o burro. O burro seguia à frente o velho e o neto, caminhavam a pé, atrás do burro. Passaram por um lugar onde havia muitas pessoas. Estas, ao vê-los a caminhar a pé, atrás do burro, e este sem ninguém em cima, começaram logo a murmurar e criticá-los:

Que idiotas! Porque não vão montados no burro, seus patetas?

Então o velho pegou no menino e sentou-o em cima do burro, continuando ele a caminhar, atrás, a pé. Passaram num outro lugar onde também estavam muitas pessoas que voltaram a murmurar e a criticá-los:

 - Olhem para o velho que não tem vergonha. Ele que é mais velho, vai a pé e o atrevido e preguiçoso do rapaz, todo pimpão, refastelado em cima do burro.

Então o velho trocou com o neto. Montou ele o jumento e o rapaz seguia atrás a pé. Passaram noutra aldeia e as pessoas de novo murmuram e criticaram o velho por ser um ingrato e sem consciência, montando, muito bem instalado, o burro e a pobre criança, desolada, a pé.

Então o velho, pegando no neto, sentou-o, juntamente consigo, em cima do burro. De novo passaram noutra aldeia e as pessoas de novo murmuraram e criticaram, dizendo que o velho não tinha consciência, nem pena do pobre do burro. Iam os dois ingratos montados em cima do desgraçado do burro.

Então o velho disse ao neto:

É para que saibas como são as bocas do mundo que nunca se conseguem calar. Quer vá a pé, quer em cima do burro, quer com ele às costas, sempre hão-de murmurar, criticar e, até, condenar.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:42

AS PAPAS

Sábado, 18.01.14

CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma raposa e um lobo que eram compadres e muito amigos. Um dia andavam uns malhadores a malhar o centeio, numa eira e tinham levado uma travessa de papas para o almoço, a qual haviam colocado, sobre um muro que ficava perto. Ao passarem por ali, na ida para a caça, a raposa, ao ver as papas, disse para lobo:

- Ó compadre, olhe que papas saborosas estão ali. Se as fôssemos roubar tínhamos o almoço garantido. Já não precisávamos de nos irmos cansar para a floresta, a correr atrás dos coelhos.

- Ai comadre, que boa ideia! – Respondeu o lobo, muito contente. - Seria muito bom. Eu estou com uma fome danada, além disso já estou velho, já me cansa andar atrás dos coelhos. Mas, comadre, como é que havemos de as ir buscar, se andam por lá perto os malhadores?

- Olhe compadre, é fácil, muito fácil. Vossemecê vai por aquele lado, onde estão os malhadores, para os distrair, enquanto eu vou por este lado para trazer as papas, sem eles darem por isso.

Lá foram os dois conforme o combinado. O lobo dirigiu-se para o lado onde estavam os malhadores, mas quando se aproximou, um deles ferrou-lhe uma forte pancada com a malha, que o lobo ficou todo partido, começando a gritar. A raposa, muito matreira, apanhou as papas sem os malhadores darem por isso, comeu-as quase todas, deixando apenas uma pequena quantidade com que borrifou a testa. O lobo quando chegou ao pé dela, muito dorido, disse-lhe:

- Ai comadre, não imagina o que me aconteceu… Deram-me uma pancada tão grande com uma malha que estou todo partido, quase nem posso andar.

- Ai compadre, não me diga, - disse a raposa - o que lhe haviam de fazer!? Mas olhe que a mim, ainda me fizeram pior. Está a ver a minha testa? Olhe, deram-me uma paulada tão grande na cabeça que até me deitaram os miolos de fora.

- Ó comadre, se está assim tão mal não se preocupe. Salte-me para as costas, que eu levo-a a casa.

A raposa não se fez rogada, saltando de imediato para as costas do lobo. Quando iam no caminho, em direcção a casa, a raposa começou a dizer:

- Rão, rão, rão, que o podre leva são.

O lobo, estranhando aquela espécie de gozo da raposa, perguntou-lhe:

- Ó comadre, então o que é que vai a dizer?

- Ah! É uma oraçãozinha que eu cá sei, para me por melhor.

E continuou muito bem refastelada às costas do lobo e com a barriga cheia.

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publicado por picodavigia2 às 20:18

MARIA PAMPILHOSA

Terça-feira, 14.01.14

Quando eu era criança, entre muitas outras, ouvia contar a “estória” da Maria Pampilhosa. Rezava assim:

Maria vivia numa pequena freguesia mas, contrariamente à maioria das mulheres da terra que andavam mal vestidas e eram pouco elegantes, sobretudo devido às canseiras e trabalhos domésticos e agrícolas em que se envolviam diariamente, era muito elegante, vestia, habitualmente, roupas novas, modernas e muito caras o que a tornava muito arrogante e vaidosa.

Certo dia decidiu deslocar-se à igreja para assistir à missa. Vestiu-se, penteou-se, pintou-se e perfumou-se, apresentando-se à porta do templo muito limpa e asseada, cheia de arrogância e vaidade.

A missa já havia começado e a pequenina igreja estava repleta de fiéis. Um pouco atrasada, Maria entrou no templo, precisamente no momento em que o celebrante se voltava para o povo e com as mãos abertas preparava-se para proferir o “Dominus Vobiscum”. No entanto, ao voltar-se e ao vê-la, o sacerdote ficou de tal maneira deslumbrado que, abrindo os braços, em vez da saudação litúrgica proposta no missal, exclamou:

- Lá vem Maria Pampilhosa toda bonita e vaidosa.

Ao que esta retorquiu:

- À minha custa e não à vossa.

O sacristão que era um pobre coitado, sem ter onde cair morto, cuidando que o habitual “Et cum spirito tuo” não teria ali sentido, respondeu:

- E eu por não ter dinheiro do cu me fizeram um candeeiro.

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publicado por picodavigia2 às 12:06

A FORMIGA E A NEVE

Domingo, 12.01.14

Uma formiga prendeu o pé na neve e perguntou:
“Ó neve, tu és tão forte que o meu pé prende?”
Responde a neve:

“Tão forte sou que o Sol me derrete.”

A formiga foi ter com o Sol e perguntou-lhe:
“Ó Sol, tu és tão forte que derretes a neve que o meu pé prende?”
Responde o Sol:

“Tão forte sou eu que a parede me tapa.”

A formiga foi ter com a parede e perguntou-lhe:
“Ó parede, tu és tão forte que tapas o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende?”
Responde a parede:

“Tão forte sou eu que o rato me fura.”

A formiga foi ter com o rato e perguntou-lhe:
“Ó rato, tu és tão forte que furas a parede que tapa o Sol, que derrete a neve, que o meu pé prende?”
Responde o rato:

“Tão forte sou eu que o gato me come.”

A formiga foi ter com o gato e perguntou-lhe:
 “Ó gato, tu és tão forte que comes o rato que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o gato:

“Tão forte sou eu que o cão me morde.”

A formiga foi ter com o cão e perguntou-lhe:
“Ó cão, tu és tão forte que mordes o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o cão:

 “Tão forte sou eu que o pau me bate.”

A formiga foi ter com o pau e perguntou-lhe:
“Ó pau, tu és tão forte que bates no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o pau:

“Tão forte sou eu que o lume me queima.”

A formiga foi ter com o lume e perguntou-lhe:
“Ó lume, tu és tão forte que queimas o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o lume:

“Tão forte sou eu que a água me apaga.”

A formiga foi ter com a água e perguntou-lhe:
“Ó água, tu és tão forte que apagas o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde a água:

“Tão forte sou eu que o boi me bebe.

A formiga foi ter com o boi e perguntou-lhe:
 “Ó boi, tu és tão forte que bebes a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que tapa o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o boi:

Eu sou tão forte que bebo a água, que apaga o fogo, que queima o pau, que bate o cão, que morde o gato que come o rato que fura a parede que tapa o Sol, que derrete a neve que prende o pé da formiga.

Responde o boi:

“Tão forte sou eu que o carniceiro me mata.”

Pergunta a formiga:
“Ó carniceiro, tu és tão forte que matas o boi, que bebe a água, que apaga o lume, que queima o pau, que bate no cão, que morde o gato, que come o rato, que fura a parede, que impede o Sol, que derrete a neve que o meu pé prende?”
Responde o carniceiro: “Tão forte sou eu que a morte me leva.”

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publicado por picodavigia2 às 15:59

A PACIÊNCIA DE JOB

Terça-feira, 31.12.13

Era este também um dos muitos contos tradicionais que os nossos antepassados nos contavam aos serões, na Fajã Grande, na década de cinquenta. Neste caso, tratava-se de uma “estória” muito provavelmente inspirada numa passagem da Bíblia, narrada no livro de Job.

Havia, noutros tempos um homem chamado Job, bom, generoso, paciente e temente a Deus. Mas Job também tinha muitos bens, tinha esposa, tinha filhos, tinha criados e tinha muito gado, era muito rico. Certo dia, o Demónio, que tinha inveja daquilo tudo, pediu a Deus que pusesse à prova a paciência e a bondade de Job. Para isso propôs a Deus que o autorizasse a lhe retirar todos os bens e lhos desse a ele, Diabo. Assim Deus havia de ver como a paciência de Job se esgotava, de um momento para o outro. Mas Deus disse-lhe:

- Não, não te dou os bens dele, todos, de uma só vez, mas vai-lhos tirando aos poucos, um a um, conforme entenderes. Assim verás que ele se mantém bom e paciente.

Então, o Demónio que era mau e invejoso, pediu a Deus para retirar a alma de Job. Deus, porém, opôs-se, novamente, dizendo-lhe:

- Isso não. Podes tirar-lhe tudo, menos a alma pois essa, quero-a para mim.

Então, o Demónio, começou a sua tarefa de retirar todos os bens de Job. No primeiro dia tirou-lhe uma filha, matando-a. No dia seguinte matou-lhe a esposa e, de seguida, todos os filhos. Não contente com isso, matou-lhe o gado todo, as vacas, os porcos, as galinhas e até os criados. Incendiou-lhe a casa e, por fim, cobriu-lhe o corpo de feridas e de chagas.

 Os vizinhos e os amigos admiravam-se com toda aquela tragédia que atingira Job, mas abandonaram-no porque julgavam que se ele tinha sido assim castigado por Deus, era por ser um grande pecador. Deus só castiga os que praticam o mal. E diziam uns para os outros:

É Deus que o está a castigar! Devem ser muitos e grandes, os seus pecados! – E dirigindo-se a ele com desprezo, perguntavam-lhe:       

- Ó Job, o que é que tu fizeste de tão grave para Deus te castigar tanto?

Job, cheio de paciência e de generosidade, respondia sorrindo:

 - Deus não castiga ninguém, nem me castigou. Os bens que eu tinha haviam-me sido dados por Ele. Assim Deus mos deu, Deus mos tirou.

Então Deus chamou o Demónio, fez-lhe ver a paciência de Job e exigiu que lhe devolvesse todos os bens que lhe havia retirado. Deu-lhe nova esposa, nova família, deu-lhe nova fortuna mas não permitiu mais que o Demónio se metesse na vida dele, nem pusesse à prova a sua paciência.

 E concluíam os contadores da estória: - É esta a razão por que ainda hoje dizemos:  “Quem me dera ter um pedacinho da paciência de Job”.

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publicado por picodavigia2 às 09:12

O RATO DO CAMPO E O RATO DA CASA

Sexta-feira, 27.12.13

Era uma vez um rato que vivia numa casa, no meio de grande conforto e bem-estar e onde não lhe faltava comida. Num dia de Inverno, resolveu sair de casa e dar um passeio, durante o qual encontrou um rato do campo, muito magro e debilitado, cheio de frio e de fome. Aproximou-se dele e disse-lhe.

 - Não sei como podes viver assim, aqui, no campo, tão fraco e sempre cheio de fome e de frio? Vem comigo, que te arranjarei um lugar na casa onde vivo, sempre quentinha e onde há comida em abundância. Ali terás tudo o que precisas para viveres confortavelmente. Há sempre que comer, não se passa frio, nem andamos à chuva.

- E não há lá um gato? – Perguntou o rato do campo.

- Bem, - respondeu-lhe o rato de casa. – Há realmente um gato, mas é como se não houvesse. Já é velho, quase cego e, além disso, está praticamente sempre a dormir. Vem comigo e verás como podes passar à vontade diante dele que nem sequer te há-de ver.

O rato do campo lá se convenceu e os dois vieram para a casa onde vivia o primeiro. Quando entraram o gato estava deitado, a dormir, em cima de um capacho, logo à entrada da porta. Passaram os dois ratos diante dele, o da casa muito confiante e o do campo muito desconfiado. Porém, naquele instante, o gato abriu um pouco os olhos, acordou e deu um salto, atirando-se ao rato da casa, prendendo-o com as unhas e ferrando-lhe os dentes no pescoço.

O rato do campo, vendo o seu amigo naquela aflição, deu meia volta e, pondo-se a correr na direcção do campo onde vivia, disse:

 - Mais vale viver no campo fraco e magro, do que em casa gordo e forte, mas no papo do gato. 

 

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publicado por picodavigia2 às 12:16

A MANTA

Terça-feira, 17.12.13

«A Manta” era um dos muitos contos populares e tradicionais contados durante os longos serões de Inverno, nas casas da Fajã Grande, depois de se rezar o terço, enquanto as mulheres cardavam, fiavam e tricotavam a lã ou remendavam roupa, para entreter e, sobretudo, para ensinar as crianças, dado que muitos deles eram verdadeiras lições de moral, como é o caso de “A Manta” que aqui relato de memória.

Era uma vez um pai já de avançada idade que vivia na companhia de um filho. Este, porém, tinha mulher e filhos, e muitas terras para trabalhar e gado para tratar, não tendo, por isso, nem tempo, nem disponibilidade, nem paciência para cuidar do seu velho pai, durante os últimos dias da sua vida.

Considerando-o um empecilho para si e para a sua família e porque cuidava que ele já não havia de viver durante muitos anos, resolveu ir levá-lo ao mato, em sítio bem distante, onde ele ali ficasse, sozinho, abandonado, até morrer. No entanto, cuidando que ele havia de ter frio, levou consigo uma manta para o embrulhar.

Ao chegar ao local escolhido para o abandonar, sentou-o e desdobrou a manta para lha colocar por cima dos ombros e agasalhá-lo. O pai pediu-lhe a navalha e pegando na manta, cortou-a a meio, embrulhando-se numa metade e entregando a outra ao filho, dizendo-lhe:

- Leva esta metade contigo e entrega-a ao teu filho para que um dia, quando fores velho como eu, ele te faça o mesmo.

O filho caiu em si, arrependeu-se do que ia fazer, pediu perdão ao pai e trouxe-o, de novo para casa, tratando-o com muito carinho até aos últimos dias da sua vida.

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publicado por picodavigia2 às 23:36

A BELA E A COBRA

Terça-feira, 17.12.13

(Conto Tradicional)

Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre.

Um dia foi fazer uma viagem; antes porém perguntou às filhas o que queriam que ele lhes trouxesse. – Eu, disse a mais velha, quero um vestido e um chapéu de seda.

– Eu, disse a do meio, quero um guarda-sol de cetim.

– E tu que queres? – perguntou ele à mais nova.

– Uma rosa tão linda como eu, respondeu ela.

– Pois sim, disse ele.

E partiu.

Passado algum tempo trouxe as prendas de suas filhas, disse à mais nova:

– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!

Bela ficou muito preocupada e perguntou ao pai por que é que lhe tinha dito aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez, que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrou uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era; que ele lhe respondeu que era para a sua filha mais nova e ela lhe disse que lha havia de levar, se não que era morto. Depois disse ela:

– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.

Assim foi. logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois foi-se embora. Bela, quando ficou só, foi a uma sala e viu a cobra. Ia-se a deitar quando começaram a ajudarem-na a despir. Estava ela na cama quando sentiu uma coisa fria; deu um grito e disse-lhe uma voz: – Não tenhas medo.

Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe uma cobra. Ela, a princípio, assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não viu ninguém; a noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo, até que um dia foi visitar o pai; mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe disse:

– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.

Ia a continuar o seu caminho e já se esquecia do que a voz lhe tinha dito. Chegou a casa do pai. Iam a passar três dias quando se lembrou que tinha de tornar; despediu-se de toda a sua família e partiu a galope; chegou lá à noite, foi-se deitar, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não foi a sua admiração vendo-o no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo chorando; mas, quando chorava, caiu-lhe uma lágrima no peito da cobra; assim que a lágrima lhe caiu a cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse:

– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e, se tu não chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais.

O príncipe gostou tanto dela que casou com ela e lá viveram durante muitos anos.

 

José Leite de Vasconcelos, Contos Populares e Lendas

 

 

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publicado por picodavigia2 às 16:40

O MOCHO E O MELRO

Segunda-feira, 16.12.13

(Conto Tradicional)

Certo dia, um mocho começou a voar, a voar até que chegou junto de um castanheiro, onde decidiu poisar, pois não viu lá nenhum outro pássaro e, por isso, acabou por passar lá a noite. No entanto, observando melhor, viu que no castanheiro também estava poisado um melro. O mocho, assim que o viu, ficou muito contente e disse lá consigo:

- “Já tenho ceia!” – E, de imediato, iniciou uma conversa com o melro, fazendo-se passar por seu amigo.

O tempo foi passando, mas o melro não lhe ligava nenhuma. Ao cair da noite, porém, o mocho animou-se, pois cuidou que o melro havia de adormecer e ele então aproveitaria a oportunidade para o papar de um só fôlego. Esperou que o melro adormecesse, mas nada. O melro estava sempre com um olho fechado e o outro aberto. O mocho, impaciente, olhava para o melro, mas não havia maneira de ele adormecer.

- “Arre! Que não há maneira do melro fechar os olhos.”

Esperou, esperou, até que ficou muito aborrecido e, já não podendo aguentar mais, voltou-se para o melro e disse-lhe:

 - “Ó amigo melro, por que é que não fechas os dois olhos?”

O melro, que há muito havia percebido a intenção do mocho, retorquiu-lhe:

- “Amigos de longe, vistos de perto, fazem com que tenha um olho fechado e outro aberto.”

Dizendo isto levantou voo e partiu para longe dali, ficando o mocho sozinho, à espera de melhor ocasião para saciar a sua fome.

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publicado por picodavigia2 às 10:26

A ESTÓRIA DA CAROCHINHA E DO JOÃO RATÃO TAL COMO SE CONTAVA OUTRORA NA FAJÃ GRANDE

Segunda-feira, 09.12.13

Era uma vez uma Carochinha, muito vaidosa e bonitinha que queria casar mas não tinha com quem, nem dinheiro para o casamento.

Certo dia, quando estava a varrer a sua casa, encontrou uma moedinha. Pensou que já era muito rica e que já podia arranjar um marido. Por isso vestiu o seu melhor vestido, penteou-se e foi pôr-se à janela para ver se alguém que passasse por ali quisesse casar com ela. Começou, então, a gritar:

 - Quem quer casar com a Carochinha, que é tão formosa e bonitinha?

Primeiro passou o boi e disse:

- Muuum! Quero eu, quero eu.

Respondeu a Carochinha:

- Não. Não quero casar contigo porque com essa voz tão grossa acordavas-me a mim e aos nossos filhos todas as noites. Não serves para marido. - Voltou para a janela e pôs-se de novo a gritar:

- Quem quer casar com a Carochinha que é tão formosa e bonitinha?

Passou o cão a ladrar e disse logo:

- Ão, ão! Quero eu, quero eu!

- Contigo não, pois com essa voz tão assustadora, acordavas-me a mim e aos nossos filhos todas as noites! Não serves para marido. – Voltando para a janela, a Carochinha tentou, de novo, a sua sorte.

- Quem quer casar com a Carochinha que é tão formosa e bonitinha?        

Passou o porco e disse:

- Oinc! Oinc! Quero eu, quero eu!

- Tu também não serves para marido, pois com essa voz tão feia, acordavas-me a mim e aos nossos filhos todas as noites! Não serves para marido. – E voltando mais uma vez à janela, perguntou:

- Quem quer casar com a Carochinha que é tão formosa e bonitinha?

Passou o galo e disse:

- Cocorocó! Cocorocó! Quero eu, quero eu!

- Tu não, pois com essa voz tão esganiçada, acordavas-me a mim e aos nossos filhos todas as noites! Não serves para marido.                                                                                 

Ainda passaram o burro, o gato, o cavalo e o carneiro, mas a todos a Carochinha mandou embora porque as suas vozes não lhe agradavam. Já muito desanimada, ainda voltou à janela, uma última vez, e perguntou:

- Quem quer casar com a Carochinha que é tão formosa e bonitinha?

Passou um rato e gritou com uma voz muito fininha:

- Ih, ih! - Quero eu, quero eu.

A Carochinha gostou daquela voz. Muito feliz por ter encontrado alguém tão bonito e com uma voz tão fininha, veio logo abrir a porta e perguntou-lhe:

- Como te chamas?

 - Sou o João Ratão. Quero casar contigo.

A Carochinha convidou-o a entrar, pois tinham muito que conversar e a data de casamento para marcar. Prepararam tudo muito bem preparadinho, casaram e foram muito felizes.

Porém, certo dia, a Carochinha disse ao João Ratão que queria ir à missa. O João Ratão disse que não podia ir porque estava muito doente. A Carochinha disse-lhe que tinha um caldeirão de sopa ao lume e pediu-lhe que não lhe tocasse, antes de ela chegar. Mas o João Ratão era muito guloso e logo que ela saiu foi espreitar o caldeirão para provar a sopa. Como era muito pequeno, teve que se por nos bicos dos pés para lá chegar, mas escorregou e – zás – caiu dentro do caldeirão.

Quando chegou a casa, a Carochinha começou a procura-lo, mas não o encontrou. Então foi à cozinha e viu-o caído dentro do caldeirão. Muito aflita começou a gritar:

- Ai, ai, que o meu João Ratão está cozido e assado dentro do caldeirão!

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publicado por picodavigia2 às 00:12

A VELHA E A CABAÇA

Domingo, 01.12.13

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma velha que vivia sozinha, na sua casa, numa pequena aldeia e tinha uma neta que morava muito longe. Certo dia, recebeu uma carta da sua neta a dar-lhe uma alegre notícia. Em breve, ia casar-se e convidava a avozinha para ir ao seu casamento.

A velha ficou muito contente e pôs-se, imediatamente, a caminho para não chegar atrasada ao casamento. Depois de ter andado alguns quilómetros, atravessando uma floresta, surgiu à sua frente um grande lobo que lhe disse numa voz rouca:

- Ai, velhinha, que eu como-te!

- Ai, não me comas, que eu estou muito magrinha. Vou ao casamento da minha neta e, quando de lá voltar, já venho mais gordinha! Poderás comer-me nessa altura.

- Está bem, na volta cá te espero! – Respondeu o lobo e deixou-a seguir o seu caminho.

Muito assustada a velhinha continuou a caminhar até à casa da neta. Quando lá chegou, contou tudo o que lhe acontecera e a neta acalmou-a dizendo que não haveria problema nenhum, que ela havia de regressar bem a casa. O casamento realizou-se e foi muito bonito, por isso, a velhinha estava muito feliz. Mas, quando se decidiu a voltar para a sua casa, começou a ficar com muito medo. A neta correu ao quintal, cortou a cabacinha maior e mais redondinha que lá tinha, abriu-a numa das extremidades e escondeu a avó lá dentro. A neta voltou a fechar a cabacinha. Assim, a velha iniciou a viagem rebolando, dentro da cabacinha, pela estrada fora. A certa altura, ao passar ao pé do lobo, este perguntou:

- Ó cabacinha, não viste por aí uma velhinha?

A velha de dentro da cabacinha respondeu:

- Não vi velha nem velhinha, não vi velho nem velhão. Corre, corre cabacinha, corre, corre cabação.

O lobo fez cara de admirado, mas a velha, dentro da cabacinha, continuou rebolando pela estrada fora, até chegar à sua casa sã e salva.

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publicado por picodavigia2 às 16:18

O MILAGRE DA CHUVA

Segunda-feira, 25.11.13

(Conto Tradicional)

Era uma vez uma aldeia sem pároco, porque os paroquianos exigiam que só viria para a sua paróquia um padre que fosse capaz de, com as suas orações, fazer um milagre: sempre que os seus campos estivessem ressequidos e necessitassem de chuva, o padre, com as suas preces e orações havia de fazer o milagre de chover, dando assim fertilidade aos seus campos a fim de produzirem boas colheitas.

Ora um dia apresentou-se na aldeia um sacerdote, jurando a pés juntos que seria capaz de fazer o milagre, pois, quando todos eles estivessem de acordo e necessitassem de chuva, a chuva havia de cair de imediato sobre os seus campos, por sua intersecção. O povo acreditou e aceitou-o na paróquia. Dias depois apareceram alguns paroquianos pedindo-lhe chuva pois os seus campos estavam secos e os seus animais morriam à sede. O padre aceitou o pedido mas disse-lhes que teria que reunir todos os paroquianos no dia seguinte, para ter a certeza de que estavam todos de acordo.

 Assim fez e, no dia seguinte, explicou perante todos o pedido daquele pequeno grupo de paroquianos. Depois perguntou-lhes se estavam todos de acordo, isto é, se todos queriam a chuva. Se caso estivessem ele ia fazer o milagre no dia seguinte.

Mas de acordo é que os paroquianos não estavam. Uns queriam a chuva uma semana mais tarde, outros, duas, alguns três e outros daí a meses.

O pároco então avisou-os:

- Ponham-se de acordo, pois só quando todos concordarem é que posso fazer o milagre.

 O mesmo aconteceu com o segundo pedido, com o terceiro e com muitos outros: os paroquianos afinal nunca estavam todos de acordo quanto ao tempo em que queriam ou não queriam a chuva e assim o pároco, para espanto dos seus colegas vizinhos, permaneceu muitos anos naquela aldeia.

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publicado por picodavigia2 às 21:48





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