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ANOS CINQUENTA - 2ª PARTE

Sábado, 08.02.14

(Continuação)

 

Paralelamente à agricultura e dela dependente mas também ajudando-a estava a pecuária. No que respeita aos bovinos, a sua criação, na Fajã Grande, adquiria foros de originalidade impar no arquipélago açoriano. O calor excessivo que se fazia sentir ao longo do verão, proveniente da concentração e incidência do Sol na rocha e da sua projecção sobre o povoado, não permitia a permanência dos animais, sujeitos a um calor excessivo, durante o dia, nas relvas, daí a necessidade de ser guardado nos palheiros os quais, na maioria dos casos, se situavam na loja ou parte baixa da habitação. Apenas durante a noite o gado podia ficar ao ar livre, nas relvas, pelo que todos os dias, à tardinha, era conduzido às relvas e de madrugada recolhido aos estábulos. No inverno, passava-se, precisamente, o contrário: o gado era conduzido às pastagens de manhã e recolhido aos palheiros à noite, a fim de ser poupado aos rigores invernosos, às tempestades e aos temporais. Assim ajudava também a aquecer a casa nos friorentos dias de inverno. Esta espécie de transumância traduzia-se numa enorme protecção dada aos animais, sobretudo, às vacas leiteiras. Por outro lado, esta constante movimentação do gado fazia com que se processasse nas várias ruas e caminhos da freguesia, uma agitada e quotidiana azáfama, em que os bovinos, ornamentados com as suas campainhas de harmoniosos e diversíssimos sons, penduradas ao pescoço, davam ao povoado um maravilhoso e inédito espectáculo de movimento, de cor e de som. Curioso era o facto de estas campainhas serem diferentes, no que ao som dizia respeito, variando de proprietário para proprietário e, entre estes, de animal para animal. Neste caso os sons agrupavam-se, geralmente, em pares cuja agudeza se relacionava com o lugar que o animal ocupava durante os trabalhos agrícolas ou no puxar do carro ou corsão. Assim o animal que trabalhava do lado direito (os animais eram eximiamente ensinados a trabalhar desde de pequenos) usava uma campainha com o som mais agudo do que a do animal que trabalha pela esquerda. Este era consequentemente um animal mais calmo, mais tranquilo, mais vagaroso e quando caminhava em fila tinha a tendência a seguir em último lugar, enquanto o seu parceiro mais vivo, mais rápido, mais “triqueiro”, caminhava à frente. A vantagem de tal diferença verificava-se sobretudo na lavoura, dado que os campos eram lavrados no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio, o que fazia com que fosse o animal da direita a contornar as paredes e cantos e a movimentar-se mais rápido. A agudeza do som provavelmente provocaria um efeito psicológico persuasivo em cada animal.

O acarretar dos produtos agrícolas e dos alimentos para os animais, quando não às costas, era feito em carro de bois ou, mais frequentemente, em “corsão”. Este era típico da freguesia e consistia num conjunto de dois grossos e trabalhados paus, ambos com uma espécie de proa, à maneira dos barcos, unidos por diversas travessas, deslizando sobre os próprios paus ou sobre duas “alabaças”  ou seja duas tiras de madeira colocadas por de baixo dos mesmos e substituíveis quando gastas. A ele se prendiam os animais por um processo semelhante ao dos carros. Sobre ele se colocam os produtos que se pretendiam acarretar, segurados pelos fueiros, sendo estes presos a meio da sua altura, com a “atiradeira” e a carga amarrada com os “cabos”, os quais eram apertados com os “trambolhos”: um direito que se enfiava na carga e outro torto que se ia enrolando â volta do primeiro para apertar bem o cabo. Todo este esquema era substituído por uma “sebe” feita de vimes, para acarretar produtos como o milho, as batatas, os inhames e o estrume.

O trigo era pouco e cultivava-se apenas nas terras próximas do mar. A sua apanha processava-se de forma muito diferente da do milho, mas ambas obedeciam a um ritual interessante e com alguns resíduos de um sistema de trabalho comunitário. Estes dias, apesar de dias de trabalho árduo, tinham um certo sentido de festa. O trigo, uma vez ceifado, era levado para a eira onde se procedia à debulha, a qual era feita com uma grade própria, que rodava à volta de um moirão de ferro espetado no meio da eira, puxada por dois animais “encangados”. A eira era dos poucos espaços de uso comunitário, existentes na Fajã Grande. A sua utilização obedecia a um calendário. A família que apanhava o trigo e os amigos e familiares que a ajudavam faziam uma autêntica festa, não faltando o almoço na eira.

O milho, ao contrário do trigo, depois de apanhado, era levado para as próprias casas e colocado em lugar de honra: na cozinha ou na sala. Depois juntavam-se os amigos, os familiares e um ou outro vizinho para ajudar a “encambulhar”, isto era, a juntar as “maçarocas” com a própria casca em conjuntos, puxando uma fita de casca mais resistente de cada maçaroca, enrolando-as em conjunto nas pontas e, por fim amarrando-as com um fio de espadana, formando os “cambulhões” que eram pendurados nos estaleiros, para tal construídos, geralmente na courela, junto da casa, também chamada “terreno da porta”. Apenas e à medida que ia sendo usado ao longo do ano, lhe era tirada a folha ou casca. A apanha do milho, produto fulcral na alimentação de pessoas e animais também era um dia de festa. 

A criação do porco por cada família também era fundamental para a sua sustentabilidade alimentar. Criado num curral junto de casa, o porco alimentava-se com restos de comida da cozinha que se iam juntando no “balde do porco”, utensílio obrigatório em todas as habitações.

Para além da agricultura e da pecuária não existiam outras actividades de relevo ou de interesse na economia fajãgrandense. Todos os habitantes da freguesia, geralmente, eram agricultores e criadores de gado, incluindo os que eventualmente se dedicavam a outras actividades, sobretudo as de carácter artesanal e que eram as estritamente necessárias. As únicas excepções eram os “serviços” que se resumiam ao pároco, ao professor, ao faroleiro e aos comerciantes, sendo que alguns destes também se dedicavam à agricultura. As actividades artesanais eram poucas e ninguém a elas se dedicava em regime de exclusividade. Estas actividades estavam distribuídas individualmente, havendo apenas um sapateiro, um latoeiro, um relojoeiro, um barbeiro, um relojoeiro e um ferreiro que ao mesmo tempo eram agricultores. Apenas carpinteiros havia mais do que um, mas nenhum em regime de exclusividade. O seu serviço, por vezes era pago em dias de trabalho. Apenas o comércio se distribui por alguns proprietários. A pesca poderia ser uma actividade importante mas, na altura, não o era, provavelmente devido à riqueza do subsolo e ao contínuo mau estado do mar e aos temporais que assolavam a freguesia com frequência. Os poucos pescadores que existiam também eram agricultores, pois embora houvesse abundância de peixe no mar, cada qual podia ir pescar para si. A única pesca digna de tal nome é a da baleia.

A pesca da baleia efectuava-se apenas no Verão. Para a freguesia deslocavam-se uma lancha e os botes, alguns vindos das Lajes, trazendo umou outro baleeiro especializado, sobretudo os mestres dos botes. Os interessados em arrear nesse ano inscreviam-se. Um vigia colocava-se, diariamente, no cimo de um monte, onde havia sido construída uma casota adequada, chamada vigia. Com um potente binóculo e com o seu ajudante, desde de o amanhecer até à tardinha, olhavam permanentemente o mar à procura de baleia. Quando alguma aparecia à tona de água, atirava, imediatamente, um foguete ou uma bomba se fosse cardume. Toda a freguesia se alvoroçava. Os homens baleeiros e outros por simples curiosidade ou para ajudar no arrear dos botes, encaminhavam-se apressadamente para o Porto. As mulheres corriam atrás com os sacos da comida: pão de milho, queijo, uma torta de ovo ou conduto de porco e café. Vinho havia pouco na freguesia e tinha que ser comprado nas lojas. Uma vez no mar, botes e lancha navegavam na procura da baleia. Os botes eram orientados por um pano branco que o vigia e o seu ajudante colocavam aqui ou acolá, indicando o presumível local do mar em que o cetáceo havia sido avistado. Se a baleia fosse apanhada tinha que ser levada à fábrica, na Vila, sendo a ausência dos baleeiros mais prolongada, mas, em contrapartida, compensada com maior ganho, uma vez que os baleeiros eram pagos às soldadas.

As actividades artesanais, em geral, também não tinham grande significado económico, mas eram várias e diversificadas. Geralmente cada família fabricava o que necessitava. Apenas os artigos de sapataria como galochas e chinelos eram fabricados pelo sapateiro, que também procedia ao restauro e amanho do calçado. As latas, fundamentais para o transporte do leite, bem como objectos de carpintaria e poucos mais eram fabricados por especialistas. As mulheres que em muitos casos ajudavam na vida agrícola, dedicavam-se, nas horas vagas, às rendas e aos bordados, para uso pessoal ou aos trabalhos de preparação da lã: cardar, fiar e tecer. Trabalhos em vimes, incluindo mobiliário, cestos e sebes para os carros e corsões, também eram fabricados por um ou outro especialista. Os capachos de casca de milho ou de espadana e chapéus de palha eram feitos por quem os havia de usar ou por um seu familiar ou parente. O único produto, considerado talvez mais industrial do que artesanal, embora uma indústria extremamente rudimentar e que a freguesia comercializa e até exportava era a manteiga. Era fabricada apenas por um trabalhador, numa espécie de zona industrial situada no lugar do Alagoeiro. Ali havia a casa da manteiga, na qual trabalhava apenas um funcionário, com a colaboração do latoeiro e de um carpinteiro que trabalhava num casebre mais pequeno, ao lado do primeiro. Na recolha e desnatação do leite, nas máquinas, trabalhavam dois funcionários, mas apenas duas horas de manhã e outras duas à tarde. O queijo, produzido em grande quantidade, era fabricado apenas para uso caseiro, assim como o pão que era cozido por cada dona de casa, dado que geralmente cada cozinha tinha o seu forno. Quando comercializados estes produtos eram-no, através de troca directa que se traduzia geralmente na troca de um produto por um outro equivalente ou por um determinado tempo de trabalho agrícola ou então por produtos agrícolas, mais concretamente por milho. Na Fajã Grande, um dia de trabalho equivalia a um alqueire de trigo e este a dezasseis ou dezassete escudos.

A administração da freguesia, em primeiro lugar e teoricamente, estava dependente do Administrador do Concelho, mais vulgarmente conhecido por presidente da Câmara, neste caso da Câmara Municipal das Lajes, autarquia a que a Fajã Grande pertencia. No entanto, dado o isolamento verificado e a escassez de meios de vias de acesso e de transporte, a administração da freguesia era da responsabilidade do presidente da Junta que, simultaneamente, também era Juiz de Paz. Estes cargos, praticamente, eram vitalícios e quase, tendencialmente, hereditários. Por sua vez, a administração da justiça era feita pelo Regedor, figura respeitável e como que temida por todos e que detinha poderes para prender, quem disso fosse merecedor.

Nos anos cinquenta, na freguesia da Fajã Grande, eram ainda extremamente palpáveis vestígios de uma gerontocracia, outrora, porventura mais enraizada e com forte peso administrativo, como é próprio das sociedades agrárias. Mantinha-se ainda o costume de, nos momentos de grandes decisões ou de difíceis contendas, se chamar um ou mais homens mais velhos, carinhosa e docemente tratados por “Ti”. Na realidade, permanecia ainda o hábito da chamar um ou mais “homem velho”, por exemplo, a quando das partilhas de uma herança ou da demarcação dos limites de uma propriedade, ou ainda por questões de água. As questões de água eram frequentes, pois correndo a água em regos com destino a várias propriedades, por vezes era cortada por um, prejudicando outro. Era geralmente um “homem velho” conhecedor como ninguém dos usos e costumes da terra que era chamado para resolver estas questões, para dizer quem tinha razão e o que devia ser feito. Muitas destas questões de água, relacionavam-se com os moinhos que proliferavam nas margens da Ribeira das Casas. Movidos a água, estes moinhos tinham uma engrenagem bastante complicada, à base da movimentação de rodas dentadas. Eram explorados por proprietários particulares a quem os outros pagavam a maquia para terem as suas “moendas” de milho transformadas em farinha.

Nesta sociedade, mão havia, na verdade, uma divisão social. Mas havia um grupo de famílias dominante, mais ricas e poderosas, vulgarmente designadas pelos “quarenta maiores”. Eram os mais importantes, mais respeitados, os que mandavam em tudo, que estavam à frente de tudo, que detinham maior poder económico, que levavam os andores nas procissões, que eram os “cabeças” das festas, enfim, os que punham e dispunham de tudo e de todos. Isto criava, necessariamente, uma certa divisão social que se manifestava em certas guerrilhas originadas a partir de outras questões mas que eram, ao fim e ao cabo, fruto de tal desigualdade. Três pessoas, porem, se distinguiam, de sobremaneira, neste micro universo social: o pároco, o professor e o faroleiro. A sua abastada situação económica comparativamente com a maioria da população, a não necessidade de se dedicarem à agricultura e à criação de gado, dava-lhes um estatuto especial, aureolando-os com uma situação de privilégio e bem-estar, de bem vestir e descansar, a todos os níveis invejáveis. Mas como eram necessários a todos com as suas actividades e como toda a freguesia lhe devia favores, todos lhes enchiam as casas do necessário para os alimentar abastadamente. Eles como que também eram uma espécie de factor de produção nesta sociedade. Extremamente isolada da restante parte da ilha e, sobretudo, do mundo, a população da Fajã Grande tinha que criar os seus passatempos e distracções, os seus jogos e brincadeiras, os seus momentos de lazer. Tinha que procurar aliciantes, por um lado, para aliviar o seu árduo, difícil e cansativo trabalho quotidiano e, por outro, para ocupar os seus raros e escassos tempos livres. O trabalho agrícola era muito duro, pois grande parte das colheitas e alimentos dos animais e dos homens eram acarretados aos ombros dos homens ou à cabeça das mulheres. Eram os molhos enormes e pesadíssimos, os cestos a abarrotar e os sacos cheíssimos que os homens acarretavam às costas e as mulheres à cabeça, muitas vezes debaixo de chuva torrencial, outras, assolados por tempestades e ventos fortíssimos. O burro era monopólio dos mais ricos e os bovinos destinavam-se, sobretudo à produção de leite. Era preciso poupá-los, porque, quando encangados, a puxar o carro, o corsão ou o arado, a produção de leite diminui, levava-se menos para máquina e entrava menos dinheiro em casa. Daí que o homem se tornasse num autentico “animal de carga”, para além de ainda executar todas outras tarefas agrícolas: cavar, sachar, semear, ceifar erva, fetos e cana roca, etc. Deste árduo e difícil trabalho surge a necessidade desta sociedade criar por si formas de lazer. Primeiro surgiam as de carácter familiar, as que cada família realizava na sua própria casa e que se resumiam praticamente aos dias a matança do porco e a apanha do milho. O porco e o milho, juntamente com o leite, eram a base da alimentação e, por isso, os seus dias maiores são dignos de festejos. Transformavam-se assim, os dias de trabalho em dias de festa. Não havia festejos de aniversários, nem datas comemorativas ou o que quer que fosse. Nos próprios dias das grandes festas religiosas e nos domingos e dias santos havia mesmo que realizar algumas tarefas obrigatórias, como tratar do gado, tirar-lhe o leite, levá-lo à máquina, bem como tratar do porco e das galinhas. A matança do porco tinha um ritual interessante e uma duração bastante prolongada. Primeiro marcava-se o dia, dentro de uma espécie de calendário muito tempo antes estabelecido e que tinha em conta as matanças dos outros, sobretudo dos que haviam de ser convidados. Depois, convidavam-se os parentes, os vizinhos e os amigos, serrava-se e rachava-se a lenha para derreter os torresmos e afoguear as linguiças, iam apanhar-se as queirós ao Mato para o chamusco e cortava-se a cana roca para enxugar o curral, guardando-se as folhas mais verdes e mais frescas para colocar debaixo da carne. O ritual da matança propriamente dita, iniciava-se na véspera, com o amolar das facas e o picar das cebolas, tendo-se antes adquirido e comprado tudo o necessário para um acto de tal import¬ância, nomeadamente o sal, os temperos, uma ou duas garrafas de aguardente “Cinco Estrelas”, jocosamente designada pelo “chichi do porco”. No dia da matança todos se levantavam muito cedo. Como ainda era Inverno, acendiam-se todas as luzes, lanternas e candeias existentes na casa. Nas primeiras o combustível já era o petróleo, nas candeias, colocadas exclusivamente na cozinha, a enxúndia de galinha. O porco era apanhado no curral, ainda de madrugada e conduzido à mesa da imolação. Metia-lhe a faca o homem com mais experiente, uma espécie de profissional da modalidade. Tratava-se duma faca enorme, muito bem afiada, exclusiva e própria para este acto e que era conhecida por “faca bengala”. Acrescente-se que esta designação, muito provavelmente não seria alheia a uma outra que se usava para designar os bovinos exportados para Lisboa e que era a seguinte: “Iam ver os senhores de bengala”, expressão que designava o destino do animal: morrer para alimento dos senhores ricos de Lisboa, “senhores de bengala”. Daí que a morte dos animais ou a matança se ligasse à bengala. Enquanto o matador efectuava a delicada operação de enfiar a faca certeira no cachaço do suíno, depois de bem lavado, os outros homens seguravam o animal de maneira a que não escapasse. As mulheres com os seus aventais novos e apropriados e alguidar em punho, aparavam o sangue para as morcelas. De seguida iam preparar o jantar, a seguir ao qual, faziam as morcelas, depois de lavarem muito bem as tripas, na Ribeira, esfregando-as com ervas aromáticas e laranjas azedas. As morcelas eram um misto de sangue, cebola e arroz cozidos, a que se juntava um pouco de gordura da barriga. Os homens, depois de o chamuscarem, rasparem e lavarem muito cuidadosamente, abriam o porco de cima abaixo, primeiro pela frente, tirando-lhe as vísceras e, de seguida, pelas costas para que arrefecesse, tarefas também feitas por um especialista e “desfranchavam-no” de seguida. De tarde enquanto as mulheres continuavam a trabalhar na cozinha, os homens jogavam às cartas e os rapazes à bola com a bexiga do porco. À noite, depois da ceia, em que já se comiam morcelas e caçoila, havia serão com “estórias” e jogo de cartas. Passados três dias faziam-se as linguiças, picava-se a carne, temperava-se com azedas e outros temperos, enchiam-se as tripas finas e depois afogueavam-se ao longo de vários dias, sobre o lar, dentro da própria cozinha. Uma vez frita, estava pronta a comer, sendo as restantes guardadas juntamente com os torresmos, debaixo de banha. Só então termina a festa da matança.

Acresce dizer-se que havia uma tradição na freguesia, segundo a qual cada família não devia comer a língua do seu porco, antes devia oferecê-la pelas almas seus parentes e e todos os defuntos. Assim as línguas eram levadas para a igreja e arrematadas aos domingos, depois da missa. O dinheiro resultante do leilão destinava-se a celebrar missas pelas almas.

 

(Continua)

 

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publicado por picodavigia2 às 11:59

ANOS CINQUENTA – 1ª PARTE

Sábado, 08.02.14

Quando fiz o estágio pedagógico, integrei um grupo, cujos elementos eram oriundos das mais diversas regiões e localidades. Na altura o referido estágio, condição necessária para se obter a profissionalização no ensino e concorrer aos chamados lugares efectivos do quadro das escolas, chamava-se “profissionalização em exercício” e tinha a durabilidade de dois anos. Para além da componente lectiva, a “profissionalização em exercício” implicava duas outras vertentes de actividades que deviam constar nos planos individuais de trabalho de cada formando: a escola e a formação. Relativamente a esta, exigia-se a cada estagiário que apresentasse ao longo de dois anos, uma série de trabalhos de estudo, pesquisa e aprofundamento de alguns temas relacionados com as disciplinas que leccionavam, que seriam apresentados semanalmente, alternando-se, obviamente, a participação dos vários estagiários.

Por sugestão de alguns estagiários, com a aprovação do Orientador, dado que os elementos do grupo, na realidade, pouco conheciam dos mais remotos recônditos rurais açorianos, foi-me proposto que, numa das várias sessões semanais destinadas à formação que eu devia orientar, apresentasse uma síntese em que lhes desse a conhecer aquilo que eram os Açores, na sua pureza original, na sua ruralidade mais genuína, descortinando um pouco dos seus costumes, tradições, vivências, actividades, etc. Com esse objectivo, elaborei, na altura, um pequeno texto sob o título em epígrafe, através do qual tentava dar a conhecer aos outros estagiários, um pouco da vida, dos costumes, do trabalho, das tradições, das pessoas e suas vivências, numa das mais singulares e genuínas freguesias dos Açores e, talvez de Portugal, nos anos cinquenta – a Fajã Grande, a minha freguesia de origem.

Na altura ainda não tinha sido generalizado o uso do computador, sendo o trabalho “batido” no teclado duma velhinha máquina de escrever, pois dele tinha que “dar prova provada” no dossier que nos era imposto organizar. Há dias encontrei-o no meio de outras papeladas, Trata-se de um texto de cerca de quinze páginas, escrito em Maio de 1983. mas que, na realidade, se enquadra perfeitamente dentro da temática proposta para o bem mais recente blogue “Pico da Vigia”.

Decidi passá-lo no computador, dar-lhe alguns retoques, fazer uma ou outra correcção, dividi-lo em capítulos a que dei um título e divulgá-lo no Pico da Vigia, durante o mês de Fevereiro, dando assim uma sequência integral a um texto que, apesar de prolixo e sintetizador, se publicado globalmente, correria o risco de se tornar maçador e pouco atraente.

Situada no Oceano Atlântico, integrando, juntamente com a ilha do Corvo, o grupo ocidental do arquipélago dos Açores, a ilha das Flores constitui a última e a mais ocidental parcela do Continente Europeu, sendo a longitude do seu ponto mais ocidental – a ponta do Baixio na Fajã Grande – de 31º 16’ e 15’’, ou seja, a máxima da Europa.

Pouco se sabe sob a sua descoberta, onde a lenda se mistura com a história. Se representa um dos últimos resíduos da Atlântida, se por ela passaram os Fenícios, se até ela chegaram os lendários “maghuri” referidos por Abu Abdala hMohamed Ibne Idrisi, no seu livro “Al Rojari”, do século XII, se foi descoberta, como confirmam vários historiadores, entre os anos de 1317-1399, altura em que já aprece desenhada em Atlas e Portulanos diversos, não está ainda suficientemente esclarecido.

Certo, certo, porém, é que a ilha das Flores já vem referida no testamento do Infante Dom Henrique, de 13 de Outubro de 1460, embora com o primitivo nome de “Ilha de São Tomás”. Em 1475, no entanto, numa carta de doação de D. Afonso V já é chamada de “Ilha das Flores”, designação que também incluía a actual ilha do Corvo, na altura considerado como um ilhéu das Flores. A designação de “Ilha das Flores”, para designar exclusivamente a ilha que actualmente mantém esse nome, é do tempo de D. João III.

Em relação às restantes ilhas do arquipélago, com excepção do Corvo, o povoamento da ilha das Flores parece ter-se processado bastante mais tarde e ter-se-á encetado com um flamengo de nome Guilherme Van der Haegan da Silveira, provavelmente entre 1481 e 1485, acabando este por abandonar a ilha ao fim de oito anos de ali permanecer, devido ao isolamento e dificuldades de comunicação.

O segundo e definitivo povoamento ter-se-á feito por volta de 1510, estando à sua frente João da Fonseca, acompanhado por gente do norte do país, mais concretamente do Minho e talvez de alguns açorianos que já se haviam fixado noutras ilhas do arquipélago. O primeiro povoamento ter-se-á verificado nas zonas costeiras de Santa Cruz, Lajes e Ponta Delgada. Mais tarde, alguns colonos, atravessando a ilha, apesar de extremamente montanhosa, desceriam as rochas que delimitam a zona das Fajãs, do lado poente, e fixar-se-iam numa das zonas mais férteis da ilha e que, exactamente, por ser uma zona de terras baixas, junto ao mar e rodeada por altas rochas, recebeu o nome de “Fajãs”. Seria a quarta povoação da ilha, em importância, adquirindo em 1676 o estatuto de freguesia. Tratava-se, porém duma povoação dividida em dois grandes aglomerados populacionais, entrelaçados por meia-dúzia minúsculos lugares povoados, geograficamente distintos e que só em 1861 se haviam de separar administrativamente, originando assim duas freguesias; Fajãzinha e Fajã Grande. O lugar da Ponta, até 1676, pertencia à freguesia de Ponta Delgada, da qual foi separado a quando da criação da freguesia das Fajãs, passando, a partir de 1861 a fazer parte da freguesia da Fajã, assim como a Cuada. É o lugar que, apesar de não ser a sede inicial da freguesia das Fajãs, adquire, a quando da divisão, o qualificativo de “Grande”, enquanto para a antiga sede da freguesia, onde inclusivamente se situava a igreja matriz, de grande dimensões, ficou reservado o sufixo diminutivo.

Crê-se que entre as primeiras pessoas que ocuparam o actual solo da Fajã Grande, provavelmente a chefiá-las, se encontrava o casal, ele, Gomes Dias Rodovalho, ela, Beatriz Lourenço Fagundes.

Ocupando quase metade do território de toda a freguesia das Fajãs, que incluía também os lugares do Mosteiro, da Caldeira, da Ponta, da Cuada e ainda os actualmente desabitados lugares da Ribeira da Lapa, da Fajã dos Valadões, do Pico Redondo e de Pentes, a actual freguesia da Fajã Grande tinha a delimitá-la das freguesias vizinhas, pela vertente norte e este, uma rocha de uma altura média de mais de 300 metros, que a separava da freguesia de Ponta Delgada e da Vila de Santa Cruz, A sul, estava separada da Fajazinha pela Ribeira Grande, o maior e mais caudaloso curso de água da ilha das Flores. Finamente, do lado oeste ficava o mar. Daí um isolamento total e absoluto. As deslocações para fora da freguesia, nomeadamente para a sede do Concelho, a vila das Lajes, eram morosas e difíceis. Para Santa Cruz não havia caminhos directos, fazendo-se o trajecto pela rocha e pelos matos. Há relatos antigos de que muitas das pessoas que faziam essa travessia, ao chegar à caldeira da Água Branca, atravessavam-na numa jangada, não tanto para encurtar caminho mas sobretudo para descansar de tão longo e sinuoso percurso. Para Ponta Delgada havia apenas a perigosa vereda da rocha da Ponta a que se seguiam, nos matos, algumas veredas e atalhos, sendo que estes, em muitos sítios, resumiam-se a um atravessar as pastagens, por entre animais, pulando grotões e saltando tapumes. Apenas para a Fajãzinha existia um caminho “O Caminho da Missa”, opondo-se, apenas, à passagem dos interessados, as fortes e frequentes cheias da Ribeira Grande, sobretudo, no Inverno.

Com todos estes condicionalismos históricos e geográficos, nos princípios dos anos cinquenta, rondava a sua população Fajã Grande, pouco mais de 550 habitantes. O povo que a habitava desconhecia o desenvolvimento tecnológico mundial que a década de cinquenta já comportava. Não existindo estradas, não existiam automóveis nem qualquer outro veículo motorizado e o único meio de locomoção dos que eram forçados a se deslocarem em longas distâncias e não o podendo fazer a pé, viajavam de “maca”. Tratava-se de um meio de transporte utilizado geralmente para doentes, velhos e acamados e que consistia em amarrar dois cobertores aos extremos de um forte pau, geralmente o cabeçalho de um corsão, que era carregado por dois homens, um em cada extremidade. Por vezes e para aliviar o esforço destes e o bem-estar do transportado, cruzava-se um segundo pau, de maneira a formar um X com o primeiro, sendo este Inicialmente ocupado por uma floresta selvagem, o solo das fajãs foi sendo desbravado aos poucos pelos primeiros povoadores que viviam sobretudo de actividades que lhe garantiam a subsistência, entre as quais a agricultura e a criação de gado, uma vez que a produção de produtos por exportação, como acontecia noutras ilhas, lhes estava totalmente impedida devido à escassez de meios de transporte.

Na zona mais propícia, entre dois pequenos montes e o mar foram-se construindo as primeiras habitações, embora se creia que inicialmente o povoado se terá situado no lugar chamado de Ribeira das Casas. Essas construções primitivas de pedra soloto e cobertas de colmo, deram origem a habitações caiadas de branco e cobertas de telha. Tratava-se de um tipo de habitação com características arquitectónicas muito semelhantes às da casa nortenha, mas relativamente à sua organização e distribuição, muito idênticas à dos burgos medievais, isto é, um povoamento concentrado ao redor da igreja, o maior, mais alto e mais importante edifício da freguesia, na direcção do qual estavam orientadas todas as ruas. À volta da igreja situavam-se os maiores e mais ricos edifícios que, como que iam diminuindo de dimensões, de grandiosidade e de qualidade, à medida que se vão afastando do templo. Mesmo as casas mais simples eram, geralmente, de dois pisos, sendo o inferior ou “loja” destinado ao gado bovino que aí permanecia durante todo o ano, no inverno de noite, no verão de dia. No piso superior habitava a família, numa espécie de comunhão com os animais dos quais, dependiam em grande parte, pois o leite era a base da alimentação. Estas casas tinham geralmente duas ou três divisões, dado que muitas só possuíam cozinha e sala. A cozinha, geralmente a maior dependência da casa e que também servia de sala de jantar e onde se fazia serão, a casa de fora ou a sala onde geralmente dormiam os filhos mais velhos e onde se recebiam as visitas e, nalgumas, o quarto onde dormiam o casal e os filhos mais pequenos. Para além de terem alguns anexos, geralmente em frente à porta de trás e da cozinha, um pátio, o curral do porco, a cerca das galinhas, o estendedouro para corar a roupa, cada casa tinha a sua courela ou pequeno terreno onde se cultivavam os produtos agrícolas mais utilizados na alimentação diária, especialmente couves e cebolas. Era nelas também que se fazia o “canteiro” ou seja o sítio onde germinava a planta da batata-doce, que depois de vingar e crescer era cortada e plantada nas terras mais distantes e que também tinha grande importância na alimentação das pessoas e até dos animais. A importância da “courela” era tal que acabou por influenciar e entrar na toponímia da freguesia, havendo uma rua com o nome de “Courelas”, popularmente designada por “Escourelas” A restante parte do solo, nos arredores do povoado, e em toda a zona até à rocha era ocupada em termos de propriedade privada, o que naturalmente resultou da ocupação inicial e do desbravamento da população primitiva., também, carregado também, nas extremidades por outros dois homens. Que a propriedade era, sempre foi e, provavelmente, será sempre privada, atestam-no as grossas, altas e históricas paredes que separavam as “terras”, as “relvas” , umas das outras e que, geralmente, eram fruto do desnivelamento do terreno, como era o caso das “belgas”, situadas e encravadas nas encostas das colinas, como que encastoando-se em formas de degraus gigantes. Em determinadas zonas, sobretudo nas que predominam as “relvas” ou pastos, ou seja nas pastagens onde cada proprietário soltava os seus bovinos, enquanto os tinha “à porta”, essas paredes delimitativas de cada propriedade, revelavam uma estrutura deveras impressionante, tendo sido construídas, em muitos casos, por enormes pedras que hoje apenas poderosos guindastes ali as colocariam, sendo notáveis as de um local chamado Batel. Como lá foram postas, pois que o foram não há dúvida, é explicação ainda não encontrada. Acrescente-se que estas paredes não deixavam de estar, na maioria dos casos, relacionadas com a rocha. Sendo esta a prumo, eram frequentes e ainda hoje, pelos vistos, o são e, muito provavelmente, o terão sido mais outrora, as quedas quer de pedras isoladas que daqui e dali se desprendem, quer de “ribanceiras” ou seja, quedas conjuntas de terra, pedras, árvores e pedregulhos. Crê-se que, inicialmente, as casas de um povoado primitivo teriam sido construídas noutro sítio, ainda hoje conhecido pelo nome de “A Ribeira das Casas”, as quais devido a uma enorme ribanceira terão sido totalmente soterradas, sendo então o povoado deslocado para um sítio mais distante da rocha, ou seja, aquele onde actualmente se encontra. Trata-se, no entanto, de uma mera hipótese que apenas aquele topónimo permite formular. Que os vestígios claros de uma fatídica e enorme ribanceira ou quebrada lá estão, não há dúvida, se por baixo dos escombros da mesma se encontram os restos duma povoação é facto que só um dia muito longínquo e talvez nunca existente a arqueologia possa vir a demonstrar. Mas não há dúvida que das pedras caídas da rocha, como aliás ainda acontece actualmente, surgiu, noutros tempos, a necessidade de as arrumar e de, consequentemente, fazer com elas as paredes divisórias das propriedades ou construindo os tradicionais e típicos “maroiços”.

Na Fajã Grande, as propriedades tinham aproveitamentos económicos diferentes. Poder-se-ia mesmo dizer que, em função dessa diferença, formavam três semicírculos à volta do povoado, com o mar e as terras circundantes a este ou seja as da beira-mar, do outro lado, tendo cada um dos respectivos semicírculos as suas características e o seu aproveitamento próprio e específico. No primeiro semicírculo, o mais próximo das habitações, situavam-se as “terras” propriamente ditas, ou seja, as que tinham um aproveitamento exclusivamente agrícola, cultivando nelas o milho, a batata-doce e a branca, as couves, e as culturas forrageiras. No segundo semicírculo ficam as “relvas” constituídas por terrenos de pastagens, de pequenas proporções, separadas umas das outras por altas paredes, onde se soltavam os bovinos, de noite no verão e de dia no inverno, enquanto no terceiro e último se localizavam as “terras de mato”, onde cresce uma vegetação arbórea, luxuriante, constituída pelo incenso, a faia, o pau-branco, o sanguinho, o loureiro e por pequenos arbustos, onde sobressaiam os fetos, a cana roca e a erva-santa, os primeiros considerados um flagelo, esta aproveitada para alimento dos animais, sobretudo das galinhas. Apesar de tudo os fetos, depois de ceifados e secos serviam de cama ao gado nos palheiros, enquanto a cana roca, mesmo verde era deitada nos currais dos porcos, para aliviar a sujidade ali muito frequente. Destas terras, sobretudo do incenso e da faia, era extraída, do tronco e ramos, a lenha para o lume e, das folhas, o alimento para os bovinos, sobretudo no inverno, altura em que rareava a erva e as forrageiras. Em muitas destas terras, devidamente trabalhadas, cultivava-se o inhame e as árvores de fruto, nomeadamente laranjeiras, macieiras e ameixeiras. Eram as “hortas” muito frequentes sobretudo no Delgado, na Cuada, na Cabaceira e na Cancelinha.

Apenas a Rocha, na sua quase totalidade e sobretudo nas zonas mais altas não era de ninguém e era de todos. Não que houvesse qualquer sentido comunitário nesta posse colectiva, mas por que o seu valor produtivo era fraco e a sua exploração acarretava bastante perigo, pelo que não justificavam a quem quer que fosse apropriar-se dela. Por cima da Rocha e a uma altitude superior a 500 metros ficava o “mato” ou seja, a zona das enormes e quase latifundiárias pastagens. Eram grandes extensões de erva em que o gado bovino, geralmente o alfeiro, e o ovino podiam permanecer durante longos meses ininterruptamente, sem ter que lhes ser acrescentado nenhum outro alimento e para onde era levado, geralmente, no início do verão, no caso do gado bovino alfeiro ou o que estava para a “engorda”. As ovelhas andavam soltas e abandonadas por estas e outras pastagens. Grande parte destas terras, sobretudo as mais próximas do cimo da rocha, pertenciam a particulares, mas a maior parte não. Pelo contrário eram de todos, constituindo o chamado “Concelho”, onde se criava sobretudo o gado ovino, num sistema que tem bastante de comunitário e muito de original. No entanto, quem assim o entendesse também poderia criar gado vacum no concelho, o que raramente acontecia.

Era neste contexto de propriedade individual e de divisão da propriedade numa perspectiva funcional que se fundamentava a economia desta população que ocupava o espaço das fajãs, neste caso a Fajã Grande. Tratava-se de uma economia baseada fundamentalmente na agricultura, mas uma agricultura de subsistência e à qual estava necessariamente ligada a criação de gado. Nesta agricultura de subsistência, a principal cultura era a do milho, cultivado nas terras baixas, próximas do mar e das que ficavam mais próximas do povoado e da qual dependia, em grande parte, a alimentação da população. À cultura do milho ligavam-se diversíssimos costumes e tradições. Simultânea e juntamente com o milho, cultivava-se a batata-doce que também tinha enorme importância na alimentação, bem como a bata branca e o inhame. Este, porém, era cultivado nas terras de mato, juntamente com as árvores de fruto, ou então nas “lagoas”, neste caso chamado “inhame d’água”. “Lagoas” eram as propriedades integradas na zona das relvas, geralmente perto da rocha, ladeadas por grotas e ribeiras, cujas águas, conduzidas através de regos, as alimentavam ou então elas próprias tinham nascentes no seu interior das quais a água brotava espontaneamente, pelo que eram terrenos extremamente alagados, permitindo um notável desenvolvimento e um rápido crescimento não só da erva mas também do agrião e do inhame. Enquanto os dois últimos eram utilizados na alimentação humana, a erva era cortada ou ceifada de madrugada e trazida às costas para os palheiros, para alimento dos animais, sobretudo das vacas pejadas ou para as que já haviam dado cria. O corte da erva efectuava-se sempre de madrugada, porque, sendo um alimento base para as vacas leiteiras a sua frescura era fundamental e reflectia-se na produção quantitativa do leite.

 

(Continua)

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publicado por picodavigia2 às 00:33

BATATA-DOCE

Domingo, 02.02.14

O Sol emerge benevolente e acariciador. Os seus raios cálidos e desenfreados hão-de proteger a safra. A batata-doce quer-se plantada no crescente e apanhada no vazante lunar e com um Sol quentinho e enternecedor, ao qual deve fica            exposta, como que enternecendo-se, adocicando-se e, sobretudo, secando.

Hoje como ontem, a batata-doce tem a sua génese na rama do canteiro. Meu pai fazia-o, com requinte e excelência, junto de casa, a fim de que pudesse ir acompanhando o crescimento da rama que exigia, nos dias em que a chuva teimava em cair, uma rega abundante. Meu pai cavava no local escolhido da “terra da porta” um enorme e profundo fosso, geralmente de forma quadrangular e cujo fundo era bem forrado com milheiros, formando uma espécie de gradeamento ou rede para que a água da chuva ao cair sobre o canteiro, penetrando a terra, não enxurrasse mas antes escorresse a fim de que as batatas não apodrecessem. Depois cobria a camada de milheiros com erva que lhe tapasse as ranhuras, sobre a qual deitava pás e pás de terra e sobre esta, uma boa quantidade de esterco de vaca, que era coberta também com uma outra camada de terra sobre a qual, então, se colocavam as batatas-doces deitadas, muito direitas e juntinhas, sendo por fim todas muito bem cobertas com uma grande camada de terra muito bem alisada na superfície superior, para que a rama nascesse fofa e direitinha. Ao redor do canteiro era aberto um rego mais profundo do que a camada dos milheiros para que assim toda a água coada por aqueles escorresse para fora do canteiro. Finalmente e a toda a volta, mas do lado de fora do rego, semeava-se um carreiro de milho, o mais basto possível, o qual tinha uma dupla finalidade: ser o bardo protector da “planta” que o canteiro havia de produzir e dar maçarocas para se assarem ou cozerem, uma vez que o milho dos campos tinha outro destino. Passada uma ou duas semanas começava a rama da batata a nascer e a crescer muito verde e basta. Ao fim de três ou quatro semanas estava pronta a ser cortada e levada para os campos.

Nas terras do Porto, das Furnas e do Areal, porque mais férteis e bafejadas pelos ventos marítimos (embora por vezes estigmatizadas pela salmoura) a rama da batata-doce era plantada entre o milho, depois de este ser semeado ou quando começava a nascer. Às mulheres e, por vezes, à criançada competia a tarefa de ir à frente, “espalhando” a rama sobre a terra. A distância entre cada planta deveria ser de um palmo se a mão fosse grande ou de dois para as mãos das crianças. Assim tarefa dos homens, de ir atrás com uma enxada enfiando a planta na terra, tornava-se mais fácil, rápida e eficiente. É que, definido e delineado o local da plantação de cada pé, pelos que iam à frente a “espalhar”, aos homens competia apenas a tarefa de dar uma cavadela com a enxada de “plantar batata-doce” – um enxada mais pequena e de cabo mais curto. Depois a rama crescia viçosa e ramalhuda, enquanto debaixo da terra, miraculosamente, iam-se desenvolvendo e tomando forma enormes batatas. Nas terras mais secas e áridas da Bandeja, das Queimadas, do Mimoio, da Ladeira e do Outeiro tudo era diferente. A batata-doce era plantada de “latada”, isto é, isolada e não em conjunto com qualquer outra cultura. Enquanto as batatas das terras junto do mar cresciam por si e abruptamente ente o milho, as das terras interiores tinham que ser sachadas, mondadas, devendo-lhe ainda ser revirada a rama de forma a lhes arrancar as diversas raízes apócrifas, localizadas ao longo do caule e que se iam fixando no terreno, exigindo um desnecessário esforço e consequente desperdício de energia da planta, impedindo ou dificultando o desenvolvimento da batata.

Chegava a altura da apanha. As batatas das terras do litoral, graúdas e rechonchudas mas muito aguadas e pouco saborosas, eram destinadas à alimentação dos porcos, enquanto a rama, mesmo crivada de bichos horrorosos, constituía um excelente alimento para os animais bovinos. As batatas das terras do interior eram, por sua vez, muto rochas, secas, adocicadas e brancas por dentro, a abarrotar de “carnegão” e que umas vezes eram cozidas outras assadas no forno e constituíam um excelente alimento com que se acompanhava o conduto, naqueles tempos, pouco abundante. Por isso é que muitas vezes as batatas-doces comiam-se sem nada, sobretudo as assadas. Eram excelentes!

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publicado por picodavigia2 às 09:26

O CANTEIRO DA BATATA-DOCE

Sábado, 25.01.14

Era pela altura do Carnaval, ou seja, no fim de Fevereiro ou princípio de Março que, na fajã Grande, se faziam os canteiros da batata-doce, sendo que por vezes se aproveitava o dia de Entrudo ou Terça-Feira Gorda, dado o seu carácter de feriado, para executar tal tarefa.

Os canteiros da batata-doce eram uma espécie de viveiros, feitos, geralmente, numa pequena courela ou na “terra da porta”, consequentemente, junto da moradia do próprio agricultor, a fim de que a “planta” uma vez nascida e crescida “estivesse mais à mão”. Era, no entanto, uma tarefa árdua e que demorava quase um dia, pois exigia muito trabalho e cuidados excessivos, uma vez que o seu objectivo era produzir a “planta boa” que depois seria plantada nos terrenos para tal preparados. É óbvio que as batatas-doces seriam tanto melhores quanto boa fosse a qualidade da “planta” e esta dependia, necessariamente, da forma mais ou menos perfeita de como se fazia o canteiro.

Como as batatas eram metidas na terra e no estrume para que fosse possível rebentarem em grande quantidade e produzirem mais do que uma colheita ou apanha de “planta”, era importante utilizar uma técnica que não as deixasse enfraquecer e, sobretudo, que evitasse que apodrecessem. Para tal era cavado na terra um enorme e profundo fosso, geralmente de forma quadrangular, cujo fundo era bem forrado com milheiros, formando uma espécie de gradeamento para que a água da chuva ao cair sobre o canteiro, penetrando a terra, não enxurrasse mas antes escorresse a fim de que as batatas não se deteriorassem. Depois cobria-se a camada de milheiros com terra e esta com uma boa quantidade de esterco de vaca, colocando-se ainda por cima deste uma outra camada de terra sobre a qual, então, se colocavam as batatas-doces deitadas, muito direitas e juntinhas, sendo por fim todas muito bem cobertas com uma grande camada de terra, muito bem alisada na superfície superior, para que a rama nascesse fofa e direitinha. Ao redor do canteiro era aberto um rego mais profundo do que a camada dos milheiros para que assim toda a água coada por aqueles escorresse para fora do canteiro. Finalmente e a toda a volta, mas do lado de fora do rego, semeava-se um carreiro de milho, o mais basto possível, o qual tinha uma dupla finalidade: ser uma espécie de bardo protector da “planta” e dar maçarocas para se assarem ou cozerem, uma vez que o milho dos campos tinha outro destino.

Passada uma ou duas semanas começava a rama da batata a nascer e a crescer muito verde e basta. Ao fim de três ou quatro semanas estava pronta a ser cortada e levada para os campos das Furnas, do Areal, do Porto, do Mimoio ou da Bandeja para ser plantada.

Na Fajã cultivavam-se dois tipos de batata-doce. Uma de cor avermelhada ou roxa e uma outra mais esbranquiçada, conhecida por “Batata da Madeira”. As primeiras normalmente eram plantadas “de latada”, ou seja sem serem misturadas com nenhuma outra cultura e eram bem melhores para cozer, sendo por vezes que o seu interior era branco, tinham “carnegão” como se dizia e essas eram as melhores. Cultivam-se geralmente em terrenos, mais secos, menos férteis e mais distantes do mar, como os da Bandeja, do Mimoio, das Queimadas, da Vale da Vaca e até os do Delgado. Por sua vez a “Batata da Madeira” tinha uma cor mais esbranquiçada, era mais aguada, mas bem melhor para assar no forno, sendo também muito utilizada na alimentação dos porcos. Cultivava-se junto com o milho e preferencialmente nas terras à beira-mar, ou seja, no Areal, nas Furnas, no Estaleiro e no Porto.

Uma vez cortada, a “planta” do canteiro era levada para os campos onde era plantada, geralmente por duas pessoas. Uma ia à frente espalhando-a sobre a terra, demarcando assim os lugares onde devia ser plantada, enquanto a outra ia atrás abrindo uma pequena cova com uma enxada própria, a “enxada de plantar batata-doce”, onde metia o pezinho de “planta”, junto do qual acuculava um pouquinho de terra. Quando plantada entre o milho semeado para ser sachado com caliveira havia que se ter muito cuidado para que a batata não fosse plantada nos regos por onde a mesma havia de passar.

Em Junho, Julho e Agosto os campos estavam cobertos de rama muito verde e espevitada mas infectada de bichos feios, asquerosos e horríveis, mas debaixo da terra havia batatas-doces prontas a apanhar e de excelente qualidade.

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publicado por picodavigia2 às 16:58

ACHADOS

Quinta-feira, 23.01.14

Na Fajã Grande, nos anos cinquenta havia a convicção de que o mar era “muito rico”, chegando mesmo a considerar-se que seria “mais rico do que a terra”. E o povo tinha razão, apesar de, neste seu juízo de valor, não aludir à importante fonte alimentar que o mar continha - o peixe. Referia-se, pelo contrário, a riquezas materiais, a tesouros e outros bens de valor que estariam algures, nas profundezas dos oceanos e que, de um dia para o outro, poderiam muito bem serem trazidos pelas ondas, sobretudo quando bravas, fortes e altivas, despejando-os na orla marítima, vulgarmente chamada “costa”. Era esta ideia que levava muitos homens, na altura, sobretudo em dias de mar bravo, a “correr a costa”, isto é, a percorrer toda a zona marítima desde o Canto do Areal até ao Rolo, na mira de encontrar tudo aquilo que o mar possuía e agarrar no que muito bem encontrassem e conseguissem arrastar para terra.

E não se enganavam estes aventureiros da busca de tesouros marítimos. Na realidade muitos eram os homens e até algumas mulheres, que nos dias de mau tempo, se dirigiam para junto da orla marítima, equipados com grandes e potentes “pexeiros”, vasculhando tudo o que fosse poça, caneiro, enseada ou baía. E verdade é que muita coisa era encontrada, pescada para terra e trazida para casa, sendo tudo o que o mar dava, praticamente aproveitado. Eram os célebres e tão desejados “achados”.

Os achados mais frequentes eram garrafas e frascos. As primeiras, sobretudo as de litro, eram muito apreciadas, assim como os garrafões que, com menos frequência apareciam. Depois de lavadas eram usadas para o vinho ou para o petróleo ou para a creolina e as mais pequenas para biberons de bebe ou para colocar o azeite doce, a tintura ou álcool. Os frascos serviam para guardar o doce. Outros achados, muito frequentes, eram as bóias de ferro ou de alumínio. De forma geralmente redonda, com capacidade entre 2/3 litros, depois de furadas junto à asa e bem lavadas por fora e por dentro, eram usadas para o transporte de água, uma vez que a conservavam muito fresca, para os homens beberem enquanto trabalhavam nos campos ou ainda para o transporte para as galinhas ou para outro uso qualquer. Também se encontravam tábuas, barris, lâmpadas usadas, latas, caixas e muitas outras bugigangas. Mas os achados mais desejados, porque muito valiosos, eram os fardos de borracha. Tratava-se de cubos de borracha maciça, alguns bastante grandes e que depois de secos e limpos poderiam ser vendidos e dar bom dinheiro. Na Fajã Grande era a Senhora Dias que os comercializava. No entanto, a pessoa que encontrava o fardo não chegava a receber o dinheiro, uma vez que a Senhora Dias tinha uma mercearia e entregava o valor estimativo do fardo de borracha em géneros e depois, ela própria os vendia ou exportava para o continente. No entanto este negócio, nos anos cinquenta, trouxe-lhe alguns dissabores, por quanto a lei não permitia que se comercializassem produtos encontrados no mar. A Senhora Dias acabou por ter que responder em tribunal, o que veio a prejudicar, sensivelmente, o negócio, tornando-se a procura dos fardos menos incentivada.

Entre as garrafas, as mais procuradas eram as fechadas, por quanto se cuidava que poderiam trazer dentro alguma mensagem, e entre estas, alguma que pudesse mudar a vida de quem a encontrasse. No entanto, as mensagens destinavam-se sobretudo aos estudos das correntes marítimas ou eram meras brincadeiras.

Outros objectos procurados eram os provenientes dos destroços dos navios naufragados: madeira, objectos de ferro, talheres, bidões, latas, etc. Havia também, nalgumas casas da Fajã Grande, camas, portas, candeeiros e louças encontrados nos destroços da Bidart, do Slavónia e de muitas outras embarcações. Muito interessantes, também, eram as bolas de vidro, brancas, azuis, verdes e castanhas que serviam para ornamentar as salas das habitações. Havia homens que se atiravam ao mar, mesmo quando bravo, simplesmente para agarrar uma garrafa ou uma bola de vidro.

A maioria dos achados, devido à sua longa permanência no mar, geralmente, na parte que flutuava debaixo de água, estavam cheios de minúsculos percebes, pelo que, depois de retirados do mar, sobretudo fardos e garrafas tinham que ser muito bem limpos e postos ao Sol, a secarem.

A procura de “achados” caracterizou a ligação ao mar durante muitos anos uma população, que exceptuando a caça a baleia, pouco se interessava pela exploração do mesmo mar.

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publicado por picodavigia2 às 07:45

QUANDO A TARDE DESCE

Sexta-feira, 17.01.14

Após um “jantar” frugal – batatas ou inhames com uma limitada porção de peixe, ou conduto de porco racionado ou uma torta de ovos, às vezes, simplesmente, batatas sem nada – impunha-se, novamente, um caminhar apressado e lesto para os campos, porque a tarde descia rápida, a fim de que se desse continuidade ou se terminassem as tarefas iniciadas de manhã. Muitas vezes havia que substituí-las por outras, impossíveis de adiar. No primeiro caso, por vezes, as mulheres, iam aos campos levar o jantar aos que ali trabalhavam. Poupava-se tempo e ganhava-se no avanço do trabalho. Havia no entanto, muitas tardes em que era imperioso homens e mulheres dedicarem-se a outras tarefas, como a apanha das batatas, o plantar e cortar das couves, acarretar esterco para os campos ou, na maioria das vezes, trabalhar as terras mais próximas de casa e as situadas à beira-mar. Nas tardes de Verão, no entanto, era quase impossível trabalhar nos campos da Fajã Grande. A razão era simples: a freguesia fica situada, como o nome indica, numa “fajã”, ou seja, num terreno baixo, por trás do qual existe uma rocha. Só que, neste caso, a rocha de tão alta e inclinada que era, fazia jus a que o Sol nela se reflectisse e retrocedesse sobre o povoado, como que redobrando a força, a intensidade e o calor. Por isso os homens passavam as tardes, sentados à sombra das casas, conversando e falquejando. No Inverno, ao invés, tardes havia em que era impossível trabalhar, neste caso devido à chuva e ao mau tempo.

Em contrapartida trabalhava-se à tardinha e durante uma boa parte da noite para compensar as “folgas” das tardes calorentas. Estes trabalhos relacionavam-se sobretudo com o tratamento e ordenha do gado e a limpeza dos palheiros, esta uma das tarefas mais degradante, asquerosa, conspurcas, imunda e enlameada que os homens eram forçados a executar. Munidos do “garfo de tirar esterco”, puxavam, rapavam, remexiam, amontoavam, espetavam toda aquela imundície acumulada nos palheiros e padejavam-na às garfadas para um monte de esterco que dia após dia ia crescendo e fermentando fora da porta do palheiro, levantando um cheiro horroroso, promíscuo, mefítico, aberrante que penetrava pelas frestas e paredes das casas contíguas e que se defluía, emanava e dispersava pelos arredores. Uma ou duas vezes por semana também era necessário despejar a poça, com odores e cheiros ainda mais mefíticos. O seu conteúdo era padejado com um caneco velho qualquer, para de dentro das “latas da urina” ou seja, uns enormes vasilhames de madeira, exclusivamente usados para este fim e que depois de cheios eram transportados aos ombro, presos num pau, um atrás das costas e outro à frente, para alimentar e fazer crescer as caseiras, as batatas-doces e as couves que floresciam nas terras do Porto, das Furnas e do Areal.

Trabalhos, cansativos e degradantes que custavam e doíam, enquanto, como Fernando Pessoa escreveu, a sombra da tarde descia, emersa nas canseiras do fim do dia.

“O sol às casas, como a montes,

Vagamente doura.

Na cidade sem horizontes

Uma tristeza loura.

 

Com a sombra da tarde desce

E um pouco dói

Porque quanto é tarde

Tudo quanto foi.

 

Nesta hora mais que em outra, choro

O que perdi.

Em cinza e ouro o rememoro

E nunca o vi.

 

Felicidade por nascer,

Mágoa a acabar,

Ânsia de só aquilo ser

Que há-de ficar.

Sussurro sem que se ouça, palma

Da isenção.

Ó tarde, fica noite, e alma

Tenha perdão.”

 

E nesta “cidade sem horizontes” (entenda-se: nesta freguesia sem horizontes) chegava uma tristeza loura, um suplício a que estiveram rigorosa e permanentemente condenados, em pleno século XX, os nossos avós, os nossos pais e os nossos irmãos. Talvez por estas e por outras razões e porque, voltando ao poema de Pessoa, havia uma felicidade por nascer, uma mágoa a acabar, e, por isso, com uma enorme ânsia de só aquilo ser, muitos escapuliram para a América e para o Canadá.

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publicado por picodavigia2 às 20:28

PELA MANHÃ FORA

Quarta-feira, 15.01.14

Após o almoço da manhã, na Fajã Grande, na década de cinquenta, seguia-se a parte mais tormentosa e cansativa do dia, em termos de trabalhos agrícolas. Era por volta das nove horas que se iniciava esta segunda etapa de trabalho intenso e extenuante, a qual terminava ao início da tarde. Na Primavera era o tempo de preparar os campos e semear os milhos, tarefa demorada, porquanto as terras tinham que ser adubadas, com esterco ou sargaço, muitas vezes acarretado, durante uma boa parte do percurso, em cestos, às costas. Depois era o lavrar com o arado de ferro, desfazer leivas e torrões com a grade, atalhar e, finalmente, semear o milho com o arado de pau. Já crescido, o milho tinha que ser mondado, sachado e corrido e quando espigado, era necessário espalhar e semear as forrageiras – trevo ou erva-da-casta – pelo meio. No Verão as manhãs eram ocupadas com a ceifa dos feitos nas relvas e terras de mato e o desbravar da cana-roca, um flagelo que infectava o crescimento das árvores e dos inhames. Era, também, necessário dar continuidade aos trabalhos agrícolas. Além disso, como o gado, nesta estação do ano, devido ao excessivo calor, ficava fechado nos palheiros, era imperioso acarretar os alimentos que necessitavam. No Outono era a apanha dos milhos e o seu arrumo nos estaleiros, tarefa que ocupava não apenas as manhãs mas o dia todo. Além disso havia muitas outras colheitas a serem recolhidas, nomeadamente batatas, cebolas, etc. No Inverno eram as terras de mato o destino de homens e mulheres. Havia que cortar e recolher os incensos, alimento fundamental e quase único, para os bovinos, naquela estação do ano. Era também nesta altura que se sachavam os inhames e se cortava e serrava a lenha. O Inverno, porém, na Fajã Grande era bastante intempestivo e chuvoso, pelo que, durante muitos dias, os homens, impedidos totalmente de ir para os campos, a não ser para cumprir os serviços mínimos obrigatórios, aproveitavam para um merecido descanso, juntando-se à Praça, numa emblemática casa velha que ali existia. Conversavam, fumavam, discutiam, faziam negócios e jogavam às cartas, tendo como mesa, um cesto com o fundo virado para cima. Bem pior era a situação das mulheres nesses dias, porquanto aproveitavam, para remendar, costurar, fiar e efectuar outras tarefas domésticas.

Era pois, pela manhã fora, toque, toque, que o povo caminhava com destino aos campos, a fim de realizar estes e muitos outros trabalhos, calcorreando caminhos sinuosos a abarrotar de pedregulhos, ladeiras íngremes, atalhos e veredas, por vezes carregando pesadíssimos sacos, cestos ou molhos, os homens às costas, com um bordão a servir de alavanca e contrapeso e as mulheres à cabeça, com uma rodilha de pano a proteger-lhe o cocuruto.

“Pela estrada plana, toque, toque, toque,

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque,

Antes que anoiteça, toque, toque, toque,

A velhinha atrás, o jumentito adiante!...

 

Toque, toque, a velha vai para o moinho,

Tem oitenta anos, bem bonito rol!...

E contudo alegre como um passarinho,

Toque, toque, e fresca como o branco linho,

De manhã nas relvas a corar ao sol.

 

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,

O jerico ruço duma linda cor;

Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,

Tange-o, toque, toque, a moleirinha branca,

Com o galho verde duma giesta em flor.

 

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,

Toque, toque, toque, que recordação!

Minha avó ceguinha se me representa...

Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,

Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

 

Toque, toque, toque, como se espaneja,

Lindo o jumentinho pela estrada chã!

Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,

Dá-me até vontade de o levar à igreja,

Baptizar-lhe a alma, p’ra a fazer cristã!

 

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga,

Toda, toda branca, vai numa frescata...

Foi enfarinhada, sorridente amiga,

Pela mó da azenha com farinha triga,

Pelos anjos loiros com luar de prata!...

 

Toque, toque, como o burriquito avança!

Que prazer d’outrora para os olhos meus!

Minha avó contou-me quando fui criança,

Que era assim tal qual a jumentinha mansa

Que adorou nas palhas o menino Deus.”

 

Mas na Fajã Grande, freguesia com grande parte do território encastoado entre colinas e outeiros, os caminhos não eram nada planos e o jumento, na década de cinquenta, ainda era um animal raro naquela freguesia. Para além de se ir levar a “moenda” ao moinho, com alguma frequência, havia muitas outras tarefas a realizar, mas, à boa maneira da moleirinha de Guerra Junqueiro, homens, mulheres, velhos e crianças, caminhavam, todos os dias, manhã fora, toque, toque, a trabalhar árdua e penosamente, a fim de, ao início da tarde, ao chegar a casa, dispor, apenas e tão só, de um simples e parco almoço.

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publicado por picodavigia2 às 09:50

AO ROMPER DA BELA AURORA

Quarta-feira, 15.01.14

Na década de cinquenta, na Fajã Grande, dava-se, inequivocamente, cumprimento ao estabelecido no velho adágio “Deitar cedo e cedo erguer…”, ou então cirandava-se, isto é, caminhava-se e trabalhava-se, de acordo com a popular modinha beirã “Ao romper da bela aurora, vai o pastorzinho…”

Na realidade, naqueles longínquos anos, todos os dias, incluindo, domingos, dias santos, feriados e dias santos abolidos, o dia de trabalho iniciava-se altas horas da madrugada. No Inverno, saía-se de casa com destino aos campos, ainda noite escura. Havia tarefas que eram absolutamente necessárias serem feitas alta madrugada. A mais cansativa, para quem tinha gado vacum, era a de ir ceifar um ou dois molhos de erva às lagoas – terrenos onde a erva crescia no meio de água – acarretando-a, de seguida, às costas, para os palheiros, onde o gado a aguardava como alimento preferido. A erva, para manter a qualidade e a frescura de bom alimento herbívoro, devia ser ceifada e guardada antes do Sol nascer. Era uma tarefa cansativa e desgastante, não apenas no ceifar mas sobretudo no carregar com os molhos às costas. Para além de serem muito pesados, pingavam enorme quantidade de água que escorria pelos ombros e costas dos que os carregavam, encharcando-os, por vezes, da cabeça aos pés. Outra tarefa, embora mais leve e menos cansativa e, por isso mesmo, atribuída, geralmente, às mulheres e às crianças era a de ir buscar ou levar o gado às relvas, o que também convinha que fosse feito pela matina. O gado devia o calor do dia ou o frio da noite e ser ordenhado a tempo de o leite ser entregue nas máquinas, que abriam bastante cedo. Assim, para além destas, uma outra tarefa que se impunha era a da ordenha e do transporte do leite para os sítios onde era desnatado. Só depois, por vezes já bastante tarde, as mulheres faziam o café, misturando alguns grãos do dito cujo com chicória, cevada e, por vezes até favas ou milho torrado, tudo devidamente moído, em água a ferver. Despejado em grandes tigelas misturava-se um pouco de leite e nada mais. O almoço, como então se chamava a primeira refeição do dia, para além do café bem quentinho, aromático e fumegante, incluía pão de milho ou bolo, geralmente acompanhado com queijo caseiro ou doce. O pão de trigo era apanágio dos dias de festa e, quando o de milho escasseava, recorria-se a bolo do tijolo ou a papas fritas, quando estas sobravam da véspera. Por vezes quer o pão de milho ou o bolo eram mais envelhecidos e rijos ou já roçavam o gosto azedo do bolor, fritavam-se em banha de porco, sendo que, muitas vezes, as fatias, antes de fritas, eram passadas por ovo batido. Nesses dias considerava-se o almoço um luxo. Só então se partia para os campos para as tarefas da manhã.

“Ao romper da bela aurora,

Sai o pastor da choupana.

Vem gritando em altas vozes:

- Muito padece quem ama

 

Muito padece quem ama,

Mais padece quem namora.

Sai o pastor da choupana,

Ao romper da bela aurora

 

Não empobrece ninguém.

Assim como não enrica.

Não empobrece ninguém

Assim como não enrica.”

 

Se na bela e popular canção beirã, substituíssemos a palavra “ama” por “trabalha”, embora perdendo a rima e desajustando a métrica, ganharíamos um interessante e significativo hino ao árduo labor que, quer nas frescas madrugadas de Verão, quer nas tempestuosas e escuras manhãs de Inverno, homens, mulheres e crianças realizavam na Fajã Grande, na década de cinquenta, do século passado.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 09:37

LEITE AO MATO

Sábado, 11.01.14

Hoje, a subida da Rocha da Fajã é um passeio turístico. Passeio difícil, é verdade, mas engrandecido e glorificado com a tão propalada exaltação dos antigos trilhos pedestres, a ressuscitarem, por toda a parte. São os caminhos, atalhos e veredas antigas, íngremes e sinuosas por onde outrora caminhavam diariamente os nossos antepassados nas lides dos campos e no tratamento do gado, muitas das vezes vergados ao peso de pesados molhes de lenha, de erva ou de fetos ou carregados com cestos bem acuculados de batatas, cebolas, milho ou inhames,

Por isso mesmo, em tempos idos, mas não muito distantes, era uma obrigação para muitos dos habitantes da Fajã Grande, talvez mesmo uma exigência diária para alguns, subir e descer aquele alcantil, descampado, abrupto e pétreo que era a Rocha, na sua intrínseca sinuosidade, onde o caminho, volta a volta, se havia cravejado de degraus toscos e escabrosos e de pedregulhos soltos e escorregadios.

As voltas da Rocha eram trinta e duas, As primeiras cinco, logo no início, onde o terreno não era muito acidentado, eram as mais suaves, mais fáceis e mais acessíveis, sem grandes obstáculos a transpor. Mas a partir da sexta, até à Furna do Peito, tudo se complicava. Eram degraus atrás de degraus, numa subida penosa, angustiante e aflitiva, com escorregões e sobressaltos à mistura, sempre a alertar para se prevenirem os transeuntes, não fosse cair algum pedregulho, lá do alto. Felizmente a Furna do Peito, encastoada bem lá no interior da rocha, uma catedral de lava, a convidar ao descanso, por vezes até à oração, servia de lenitivo, alento e repouso, tanto dos que subiam como dos que desciam. Uma cruz feita com dois paus toscos amarrados com um cordel, no seu interior bem se apresentava como símbolo de um calvário que era aquela subida e alertava para o perigo a que estavam sujeitos os que por ali transitavam. A seguir à enorme furna, mais três ou quatro voltas ingremes e escarpadas, com piso escorregadio, mas a aproximarem-se das voltas do Descansadouro, estas inquestionavelmente mais mansas e tranquilizantes, a permitiram, com as suas saliências excrescentes, que se começasse a visionar, lá em baixo, o mar, o Monchique, o baixio e as casas da Via d’Água. A seguir a volta do Descansadouro, enorme, rectilínea, ladeada pela Furna da Caixa, paralela à Rocha, a flutuar sobre uma enorme verga e a permitir que mesmo a andar fosse permitido descansar. No seu termo e a Sul, um enorme e enigmático Descansadouro de onde se desfrutava de uma magnífica vista sobre a Fajã, desde o Oceano até ao Curralinho, com excepção da Assomada, entrincheirada e escondida entre os contrafortes do Pico da Vigia e do Outeiro. Através dos tempos ali se haviam construído muros circundantes para repor as cargas e prevenir das quedas, ladeados por assentos destinados ao descanso dos transeuntes, uma vez que constituía, depois da Furna do Peito, o segundo lugar de descanso obrigatório na subida e na descida da Rocha. Nas voltas seguintes, regressava-se às subidas íngremes, aos degraus encastoados uns sobre os outros, aos pedregulhos soltos, ao perigo, à dificuldade e ao cansaço. Até à Fonte Vermelha era um verdadeiro martírio, acentuado e acrescido na famigerada volta que a antecedia, a mais dura, a mais difícil e a mais escarpada de toda a Rocha. Mas na Fonte Vermelha, para além de se poder saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta, na que se dizia ser a melhor água da ilha das Flores, era a certeza de faltarem poucas voltas para o cimo da Rocha. A fonte era formada por uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente à água que dela emanava continuamente. Todos os que por ali passavam dela bebiam, todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam. A seguir à Fonte Vermelha faltavam dez voltas para se atingir o cimo da Rocha, as primeiras, até à Furna dos Dez Reis, eram bastante acessíveis e de piso melhorado, mas a partir da pequenina furna, onde se depositavam sonhos e desejos, na esperança de testar a sua virtualidade, voltava-se ao íngreme, ao escabroso, ao difícil. Chegar à trigésima segunda volta era uma vitória inquestionável, uma certeza glorificante, um feito radioso.

Mas nos anos cinquenta e nos anteriores, havia muitos rapazes e muitos homens da Fajã que subiam diariamente aquele gigantesco penhasco para ir tirar leite ao gado, regressando na descida com as latas a abarrotar do precioso líquido, geralmente em palanca, presas num pau, uma à frente mais pequena e outra, maior, atrás. No caso de necessitar de três, as duas mais pequenas prendiam-se atrás, uma ao lado da outra, através de um gancho enfiado no pau. Acrescente-se que muitos destes homens subiam e desciam a Rocha duas vezes, uma pela manhã e outra à tarde.

Aqui ficam os nomes de alguns deles, talvez dos que, na década de cinquenta, o fizeram com mais frequência e que lhe deram mais continuidade: André, Antonino do André, Ângelo Câmara, Ângelo de João Augusto, Ângelo Mancebo, Antonho Dias, Antonino de José Luís, António de José Cardoso, António Teodósio, Armando de João Augusto, Elviro, Filhos do Raulino Fragueiro, Francisco Facha, Francisco Flores, Guilherme Pimentel, João de Freitas, João Facha, João Luís, José António Macela, José de Lima, José do Augusto, José do Laureano, José do Lucindo, José Fagundes, José Felizardo, José Francisco, José Lourenço, José Felizardo, José Pureza, José Rodrigues, José Trancão, Luís do Laureano, Luís Fagundes, Manuel Cardoso, Mateus Felizardo< Teodósio, entre muitos outros, que talvez o fizeram mais esporadicamente .

 

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publicado por picodavigia2 às 09:23

A PESCA À BALEIA NA FAJÃ GRANDE

Sábado, 11.01.14

Todos os anos, ainda em plena Primavera, logo a seguir à Páscoa, chegavam à Fajã Grande, vindos da ilha do Pico, da vila de Santa Cruz e, sobretudo, das Lajes, homens cuja actividade principal era a baleação. Eram geralmente os oficiais e os arpoadores, mas também alguns marinheiros e, até, o vigia. Muitos deles traziam a família, alugavam casa e viviam na Fajã durante todo o Verão. A maior parte voltava na época seguinte e alguns fizeram-no anos a fio. A estes homens, profissionais experientes da caça à baleia, juntavam-se muitos outros baleeiros, bem menos experientes e pouco sabedores, naturais e residentes na Fajã, que eram agricultores e criadores de gado, mas com uma vontade gigantesca de também se dedicarem à baleação, reforçando, assim com os ganhos obtidos, o seu parco e débil orçamento familiar. Muitos destes homens, arreavam pela primeira, sem conhecimentos e sem prática, mas, no entanto e aos poucos, iam aprendendo, ganhando experiência, adquirindo sabedoria tornando-se baleiros competentes e, sobretudo, capazes de conciliar as suas actividades agrícolas e pecuárias com a pesca à baleia, que afinal só acontecia nos meses de Verão e nos dias em que, por indicação do vigia, se avistava baleia. Assim nos restantes dias podiam dedicar-se à sua actividade agrícola, trabalhando os seus campos e cuidando do seu gado.

Tudo começava com o vigia que, todos os dias, ainda noite escura, se deslocava para a Casa da Vigia, situado a bem lá no alto do Pico da Vigia e que, munido de uns binóculos potentíssimos, vigiava, com muita atenção e esmero, todo o oceano desde a Rocha do Risco, quase abrangendo os mares de Ponta Delgada e do Corvo até à rocha dos Bredos, na Fajãzinha.

Mal avistava uma baleia o vigia atirava uma bomba, se um fosse cardume, um foguete. De imediato um magote de homens, muitos deles abandonando os trabalhos dos campos, desatavam a correr, em direcção ao Porto Velho, onde estavam varados os botes e ancorada a Santa Teresinha, numa correria louca, espavorida e atropelada. Não havia contemplação, nem tolerância! Quem estivesse a ordenhar as vacas, a tirar o esterco ao palheiro, a ceifar erva numa lagoa ou fetos no Pocestinho, a sachar milho nas Furnas ou plantar inhames no Delgado, teria que deixar a meio o que estava a fazer e se trouxesse às costas um molho de lenha ou um cesto de inhames teria que o largar sobre a parede do descansadouro mais próximo e desandar, o mais rápido possível, na direcção do mar. Algum familiar mais chegado ou amigo mais próximo havia de lhe terminar a tarefa. Os velhos da freguesia, que já não podiam arrear e as crianças, se não houvesse escola, também se encaminhavam para o Porto, é verdade que numa correria menos comprometida, com o objectivo de se postarem à Eira, em cima do Cais, no Farol ou no Matadouro, a vê-los partir, os velhos a recordar os tempos de outrora, as crianças a sonhar que um dia ainda haviam de ser baleiros. A baleação, na Fajã Grande, como que estava no sangue de todos. As mulheres também não se haviam aquietado com o foguete. Antes, rápidas e céleres, tentavam chegar a tempo de lançar de terra para dentro dos botes já na água, os agasalhos e as sacas ou cestas cheias de pão, de bolo, de queijo, de linguiça e de torresmos, uma garrafa de vinho ou café, porque o dia poderia ser muito longo e a noite prolongar-se pela madrugada. Depois todos regressavam a casa, encaminhando-se, de seguida, para os campos para finalizarem as tarefas inacabadas ou para iniciarem outras.

Se o gasolina ainda não estava pronto, os botes partiam, à vela ou a remos se não soprasse aragem favorável, na procura do cetáceo, de acordo com a indicação do vigia. Em breve a Santa Teresinha apanhava-os, rebocando-os em alta velocidade. Era imperioso não perder tempo e chegar o mais rápido possível perto da baleia. Uma bandeira hasteada lá no alto do Pico e um pano da mesma cor, colocado nas encostas do Canto do Areal, indicavam a localização das baleias e a direcção que as embarcações deviam seguir.

Finalmente os botes aproximavam-se das baleias, enquanto o gasolina se afastava para que os barulhos do motor não as assustasse, pois qualquer ruído estranho podia amedrontá-las, fazendo com que se fugissem. Sobre as ordens do mestre que orientava a direcção e o movimento do bote com remo “esparrel”, o trancador, um dos homens mais valentes da companha, colocava-se, com os pés bem firmes na proa do bote, de arpão em riste, à espera de que a baleia voltasse à tona para lhe atirar em cheio.

Depois era o inferno! Uma vez ferido o cetáceo ora se lançava numa louca correria ora mergulhava nas profundezas do oceano, com o risco de arrastar bote e marinheiros que deixavam correr a corda do arpão, guardada numa selha e bem ensebada para que deslizasse menos perigosamente pela borda fora. O bote seguia o cetáceo numa correria cada vez mais alucinante, com um marinheiro de facalhão em riste para cortar a corda, caso o animal não parasse ou se enfiasse pelos fundos do oceano. A maioria das vezes a baleia, exausta e com necessidade de respirar, voltava à tona e reaparecia. Era então a vez da Santa Teresinha tomar parte na batalha e, aproximando-se com uma lança lhe atirar golpes sucessivos até, para gáudio de todos, matar por completo o cetáceo.

Finalmente o reboque até à fábrica do Boqueirão em Santa Cruz, tarefa que geralmente era realizada pelo gasolina, enquanto os botes, agora a remos e muito lentamente navegavam na direcção ao Porto Velho, onde eram aguardados e saudados, já noite escura, por uma pequena multidão, iluminando o porto com lanternas de petróleo.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:45

BOM ANO

Quinta-feira, 09.01.14

“Anos bons e tão bons anos,

Deus nos dê de melhorados.

Tudo isto passou Cristo,

Perdoai nossos pecados.

 

A senhora Mariquinhas,

Assentada na cadeira.,

Parece um botão de rosa

Apanhado na roseira.”

 

Era assim que grupos de “monços piquenos”, nos quais eu me incluía, cantavam, neste dia, na década de cinquenta, percorrendo as ruas da Fajã Grande, fora da porta de cada casa  - excepto nas que estavam de luto e com as cortinas corridas a indicá-lo – na mira de receber dez ou vinte centavos, comer um figo passado ou beber um pouquinho do “chichi” do Menino Jesus. O produto final do dinheiro conseguido era, no fim do dia, contado e divido equitativamente por todos os membros do grupo.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:07

CANTAR OS REIS

Domingo, 05.01.14

No chamado “Dia de Reis”, em que a Igreja liturgicamente comemora a Epifania, outrora celebrado a seis de Janeiro e na altura considerado “dia santo abolido”, mas que o povo na Fajã Grande, como em muitos outros locais, respeitava como se de “dia santo de guarda” se tratasse, a garotada percorria as casas da Fajã, de forma semelhante à que fizera no primeiro dia do ano ou dia de “Ano Bom”.

Os grupos eram os mesmos, o líder não mudava, os percursos também eram idênticos, assim como todos os procedimentos tidos no dia um. A única diferença estava na cantoria, que agora, em dia de Reis, continha temas relacionados não apenas com os três reis mas sobretudo com o atribulado percurso que fizeram, guiados por uma estrela, desde os seus países de origem, até encontrar o menino deitado em palhinhas, na gruta de Belém, oferecendo-lhe os seus melhores presentes: oiro, incenso e mirra.

Entre outros versos cantávamos os seguintes:

 

“Os três Reis do Oriente,

Sonharam, sonharam bem

Sonharam que era nado

 O Menino em Belém.

 

 Os três Reis que eram santos

Uma estrela os guiou

Do alto duma montanha

Brilhantes raios deitou.

 

 Herodes como malvado

Como perverso e malino

Aos três reis lhes ensinou

Às avessas o caminho.”

 

Mais tarde, surgiu na Fajã Grande, trazido da Lomba por pessoas que para ali vieram morar, o canto do “Rei Preto”, celebrado no fim-de-semana seguinte aos Reis. Os cantores eram adultos, percorriam todas as casas, mas à noite, acompanhados de alguém fantasiado de rei com a cara pintada de preto, cantando entre outras quadras a seguinte:

 

“Eram três raças diferentes

Cada um em seu falar

O que dava mais nas vistas

Era o Preto Baltazar.”

 

Assim como os das crianças, o grupo de adultos também percorria todas as casas, batia a todas as portas e muitas das quais se abriam para os brindar com aguardente, traçado, licores e figos passados.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:58

PONTEIRAS E CAMPAINHAS

Quinta-feira, 02.01.14

Na década de cinquenta, as vacas tinham um papel fundamental na economia fajãgrandense, dado que era exclusivamente da sua venda e, sobretudo, do leite que forneciam, que a maioria dos lavradores da Fajã Grande conseguia sobreviver e obter o dinheiro necessário para enfrentar as pequenas despesas que, dia a dia, era obrigado a fazer.

Essa a razão por que as vacas, na Fajã Grande, eram extremamente bem tratadas. Boa comida, resguardo nos palheiros, evitando que ficassem expostas quer ao rigor dos temporais quer ao calor excessivo dos dias de Verão e muitas outras atenções e cuidados.

No entanto e para além destes desvelos, muitos criadores de vacas ainda se preocupavam com a sua apresentação e com a sua beleza. Ter uma vaca bonita era uma espécie de objectivo fundamental, um desiderato a que ninguém se esquivava. Essa a razão por que quase todas as vacas na Fajã Grande usavam ponteiras e campainhas. Havia mesmo quem muito se preocupasse com a qualidade de um e outro destes apetrechos.

As ponteiras eram uma espécie de grossos anéis de metal amarelo, com rosca na parte interior e um bojo no exterior, que eram aparafusadas nas pontas dos chifres. Meter uma ponteira era fácil. Arredondava-se com uma navalha a ponta do dito cujo, enroscava-se com uma tarraxa a ponteira, cortando-se, finalmente a ponta excedente do chifre, para que ficasse remines com a ponteira. Para além de ornamento, as ponteiras também serviam para prender a atraca, quando os animais estavam encangados, e para não se feriram uns aos outros com as pontas agudas dos chifres.

As campainhas, por sua vez, eram objecto de grande atenção e de cuidados excessivos. Não eram chocalhos ou guizos, mas sim campainhas de metal amarelo, com sons extraordinariamente belos, harmoniosos, sonantes e muito agradáveis ao ouvido humano. As campainhas normalmente formavam pares, sendo uma com um som grave e outra com um som alto, formando um acorde perfeito. Havia campainhas de sino e de meia laranja. As primeiras eram poucas e chamavam-se assim porque o seu formato era igual ao dos sinos. As melhores e mais belas campainhas de sino da Fajã eram as do Gil e as de meu avô materno, umas e outras tinham sido trazidas da América. Mas a maioria das campainhas, porém, tinham a forma de meia laranja, eram compradas nas Lajes, havendo-as de tamanhos e de sons diferentes. Havia-as também em alumínio, mas com um som muito esquisito, usadas no gado alfeiro e muito raras. Os sons das campainhas eram tão específicos e diferentes uns dos outros de tal modo que se identificava o dono das vacas apenas pelos sons das campainhas. Regra geral a campainha com o som mais alto era colocada no animal mais lesto e que puxava a canga pelo lado direito e a de som mais grave no animal que trabalhava pela esquerda, mais lento e vais vagaroso.

As campainhas eram presas ao pescoço das vacas com uma fita de couro, uma espécie de cinto, chamado “estrape”. Relativamente perto da fivela, fazia-se um orifício no “estrape”, onde era introduzida a saliência superior da campainha, com um buraquinho, prendendo-a com um pedacinho de arame dobrado. A fivela, por razões mais estéticas do que funcionais, devia ficar, no pescoço do animal, sempre do lado de fora, relativamente    ao que ele trabalhava, isto é, o animal que trabalhava à direita devia ter a fivela do seu lado direito e o outro do lado esquerdo.

Os animais, com alguma frequência, ou porque o “estrape” rebentasse, ou o arame se desprendesse, perdiam as campainhas. Outras vezes, simplesmente, caía-lhes o badalo. Essa a razão por que quando iam para as relvas do mato elas lhes eram retiradas, sendo, geralmente, substituídas por grandes e barulhentos chocalhos, que permitiam identificar o paradeiro de cada rês, sobretudo em dias de nevoeiro.

Confesso que sempre tive um fascínio por estas campainhas. Assim como eu, muitas outras crianças, nas suas brincadeiras, construíam-nas utilizando as tampas de laranjadas, depois de furadas e de lhes amarrar um fiozinho com um pequeno prego a servir de badalo. Hoje pergunto-me: onde estarão todas essas dezenas, diria mesmo centenas de campainhas de vaca existentes na Fajã Grande na década de cinquenta? Decerto que encheriam a sala de um museu, a que muito bem se poderia chamar “O museu das campainhas de vaca”.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

CANTAR “OS ANOS BONS”

Quarta-feira, 01.01.14

Na década de cinquenta, todos anos, alguns grupos de crianças percorriam todas as ruas da Fajã Grande, no primeiro dia do ano, com o objectivo de cantar “Os Anos Bons”, junto das portas de quase todas as casas, excepção das que estavam de luto ou tinham algum enfermo em estado grave. Estes grupos organizavam-se alguns dias antes e tinham como principal critério de formação, a idade. Os mais velhos formavam grupos entre si e os mais novos procediam da mesma maneira. Em todos os grupos havia um chefe ou líder que tinham como funções principais formar, preparar e liderar o grupo e ainda a de receber o dinheiro e no fim o dividir equitativamente por todos os membros. No dia de Ano Novo lá iam pelas portas das casas, tocando gaita, ferrinhos e cantando, a fim de que a dona da casa desse uma moedita, um copinho de licor ou um punhadito de figos passados.

Sempre integrei o grupo dos mais novos que alguns anos depois se desfez, sobretudo porque a maior parte abandonou a ilha com destino à América e ao Canadá. Recordo-me que o líder do meu grupo era o José Nunes, que morava na Fontinha, perto da casa da minha avó e tocava muito bem gaita. Era na loja dele que ensaiávamos e era lá também que terminado o périplo pela freguesia nos juntávamos para contar e dividir o dinheiro, sempre com grande rigor e sem trafulhices ou batota, Faziam parte do grupo para além do José Nunes e de mim, o Heitor, o José do Urbano, o José Tobias, o Antonino Lourenço e o José Gabriel.

Chegados juntos da casa cantávamos a primeira quadra desejando aos donos Bom Anos:

 

Anos Bons e tão Bons Anos,

Deus vos dê de melhorados,

Tudo isto passou Cristo

Perdoai nossos pecados.

 

Ó senhora dona da casa

Raminho da salsa crua

Lá aos pés da sua cama

Nasce o Sol e põe-se a Lua

 

         Se a porta se abria logo, sinal de que nos haviam de dar alguma coisa, cantava-se esta quadra:

 

A senhora Mariquinhas

Assentada na cadeira

Parece um botão de rosa

Apanhado na roseira.

 

         Se a porta demorava em abrir-se ou nem sequer se abria, sabendo nós que a dona estava em casa, cantavam-se estas:

 

Ò Senhora Mariquinhas

Meu raminho de tremoço

Venha-nos abrir a porta

Se não canto até ao’almoço.

 

Ò Senhora Mariquinhas

Coração de pedra dura,

Venha-nos abrir aporta

Estou co’a mão na fechadura.

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publicado por picodavigia2 às 11:05

JUNTAS DE BOIS

Domingo, 29.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, havia poucas juntas de bois. A maioria dos agricultores, para puxar o carro, o corção ou o arado, utilizava vacas de leite ou gueixas alfeiras que eram criadas para mais tarde delas se fazerem vacas, substituindo as mais velhas que assim “eram emaladas” para Lisboa. Apenas quem dava dias para fora, ou seja quem ia lavrar as terras de outrem, sobretudo dos que não tinham gado ou queriam poupar as suas vacas para que dessem mais leite, tinha junta de bois, utilizando-a também, obviamente, para lavrar as suas próprias terras e fazer todos os outros serviços agrícolas e carregamento de todos os produtos, quer os que os campos produziam quer o estrume e o sargaço para adubar as colheitas.

Na Fajã Grande, apenas o Francisco Inácio e o Raulino Fragueiro tinham juntas de bois para trabalhar. Dos restantes agricultores, somente um ou outro tinha um e, muito raramente, dois touros, mas à engorda, isto é, fechados dia e noite no palheiro, poupados ao trabalho, às intempéries dos campos e aos dias de chuva e frio, alimentados com muita e boa comidinha para que, quando vendidos ou embarcados, pesassem muito e dessem bom dinheiro. Meu pai chegou a criar um boi nestas condições.

Quer o Francisco Inácio quer o Raulino Fragueiro, no entanto, tinham geralmente belas, valentes e bem tratadas juntas de bois. O Francisco Inácio tinha dois bois avermelhados e fuscos, de raça menos comum na ilha das Flores, mas muito mansos, bem tratados, com o pelo sedoso e luzidio e muito bem habituados à canga e ao trabalho. Dava dias para fora, sobretudo lavrando as terras daqueles que não tinham gado para o fazer. O mesmo acontecia com o Raulino Fragueiro, embora, neste caso, fossem os filhos que trabalhassem com os bois, também estes eram muito mansos e bem tratados, habituados ao trabalho, mas de raça “austina”, caracterizada pela cor lavrada de preto e branco. Num e noutro caso estes bois, depois de muitos anos de trabalho, também eram postos à engorda e embarcados ou vendidos para abate.

Estes bois de trabalho eram guardados permanentemente nos palheiros, excepto quando trabalhavam, pois assim estavam sempre disponíveis para qualquer tipo de trabalho que fosse solicitado aos seus donos, pois eram eles que realizavam a grande maioria das tarefas agrícolas: lavravam os terrenos para as sementeiras, carreavam as lenhas e os produtos agrícolas e puxavam o corsão. Eram geralmente estas juntas de bois que também acarretavam as mercadorias dos comerciantes, desde os Terreiros até à Fajã Grande, antes de ser aberta a estrada, chegando mesmo a levarem mercadorias da Fajã para as Lajes, nos dias em que o Carvalho fazia serviço no porto da Fajã Grande. Por vezes, também eram contratados para acarretar lenha para quem necessitasse dela e não tivesse meios de o fazer e até acarretavam pedras e outro material para construção de casas. Eram uma espécie de assalariados rurais, estas juntas de bois,

Em ambos os casos estes bois eram animais muito mansos e pachorrentos, conhecendo bem o dono, que os tratava pelos seus nomes que eles conheciam e que, na Fajã Grande, geralmente, eram: Damasco, Gigante, Trigueiro e Lavrado. Os donos conduziam-nos com uma aguilhada, cuidavam e tratavam muito bem deles, limpando-os e enfeitando-os com ponteiras de metal nos chifres e campainhas de meia laranja e afinados sons penduradas ao pescoço, com “estrape” e fivela. A campainha com o som mais baixo devia ser usada pelo boi que trabalhava pela esquerda e a de som mais agudo, no do lado direito, sendo que as fivelas deviam ficar sempre do lado de fora. Os bois conheciam muito bem o seu dono, o lado em que eram encangados, assim como os caminhos em que circulavam e as propriedades que trabalhavam. Além disso, lavravam sem ninguém diante, obedecendo e respeitando as ordens e orientações do dono que falava com eles como se fossem pessoas e companheiros de j

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publicado por picodavigia2 às 18:20

O RELÓGIO DA ROCHA DAS ÁGUAS

Domingo, 22.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, praticamente existiam, em todas as casas, relógios de parede. Muitos tinham vindo da América, fabricados numa das mais conceituadas e famosas empresas de fabrico de relógios do mundo, a “Ansonia Clok Company” que em meados do século XIX fora fundada em Connecticut, transitando no final do mesmo século para Nova York. A maioria deles, eram belos exemplares do tipo “Terry & Andrews”, geralmente adquiridos pelos emigrantes fajãgrandenses que haviam demandado a Califórnia e regressado aos Açores, nas primeiras décadas do século passado. Depois de um trabalho árduo e por vezes pouco lucrativo, naquele longínquo Estado da costa oeste dos Estados Unidos, regressavam à sua terra natal, geralmente trazendo na bagagem sonhos desfeitos e algumas bugigangas, umas mais outras menos valiosas. Atravessando o vasto continente da América de Norte, de lés-a-lés, paravam nas cidades da costa leste, onde adquiriam a maior parte de quanto traziam consigo, sobretudo, máquinas, relógios, utensílios agrícolas e domésticos, evitando assim carregar com tudo aquilo, durante a demorada e longa travessia do continente americano.

Portanto em suas casas, na década de cinquenta, a população da Fajã Grande tinha como orientar-se no tempo. Durante o dia, bastava olhar para os barulhentos exemplares da “Ansonia Clock”, colocados, geralmente, na sala, em lugar de destaque, quer em cima duma pequena peanha ou prateleira afixada na parede, como os santos na igreja, quer simplesmente colocado sobre uma cómoda, à volta do qual abundavam fotografias, um oratório e algumas frivolidades. Ao longo da noite, era aquele “tic-tac” persistente e continuo, por vezes irritante e a gerar insónias, intercalado com o “tau, tau, tau” solene e harmonioso do bater das horas. Por isso mesmo, assim como durante o dia, também de noite havia, dentro das próprias casas, uma informação horária, contínua, segura, permanente e sempre disponível, a não ser que o dono ou dona do dito cujo se esquecesse de lhe dar corda, uma vez por semana.

Mas longe de casa, quer de dia quer de noite, outro galo cantava. Relógios de pulso, havia muito poucos e eram praticamente um luxo, de uso exclusivo aos domingos e dias santos, incluindo os abolidos, que os já havia na altura. Relógios de bolso, existiam bastantes mais, mas constituíam uma espécie de “reserva hereditária” de cada família. A maioria deles, também havia sido trazida da América ou de lá tinham sido enviados por algum familiar. Estes relógios, diga-se em abono de verdade, muito bonitos e muito valiosos, eram geralmente encravados em estojos redondos galvanizados em ouro ou prata e presos com iguais correias ao cinto ou às alhetas das calças. Mas sendo “bens de família”, ainda por cima, banhados a ouro e prata, existiam mais para serem guardados nos caninos das caixas do que propriamente para andarem aos tropeções por entre rochas e calhaus, à chuva e à maresia, a roçar em pedregulhos, a encharcar-se de água ou de salmoura e correndo sérias possibilidades de se desprenderem das correntes e se perderem para sempre. Por isso, fora de casa, andava-se às aranhas, isto é, praticamente não havia forma de se saber as horas. A interrupção dos trabalhos nos campos, para o almoço ou para o que quer que fosse, os momentos combinados para isto ou para aquilo, o rigor dos compromissos assumidos, as horas marcadas para algum encontro, eram avaliados por estimativa, o que tornava tudo muito inseguro, pouco fidedigno e dotado de uma margem de erro bastante grande.

Mas havia, na Fajã Grande, uma forma certa, segura e rigorosa de, durante o dia, se saber as horas. Era a Rocha das Águas, um relógio natural, que embora sem os sons harmoniosas dos velhos “Ansonias”, dava as horas com um rigor ainda maior. Mas com duas limitações: apenas uma vez por dia e se houvesse Sol.

Assim quando o Sol, que na Fajã nascia lá para os lados de Santa Cruz, começava a despontar nos matos e, algum tempo depois, batia de chofre na Rocha das Águas, iluminando-a por completo, eram, sem sombra de dúvida, dez horas em ponto. A Rocha das Águas era pois um autêntico relógio, bem vivível e disponível para todos. Homens e mulheres, nas lides dos campos e no tratamento do gado, por ali se orientavam, delineando e planeando mais facilmente as várias tarefas que ao longo do dia tinha que realizar.

Pena realmente que o relógio da Rocha das Águas só indicasse as horas, apenas uma vez por dia e… nos dias em que havia Sol.  

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publicado por picodavigia2 às 09:54

QUANDO AS VACAS ARRANCAVAM AS ESTACAS

Sexta-feira, 20.12.13

Na Fajã Grade, antigamente, era costume por parte dos criadores de gado bovino, nos meses de Abril. Maio e Junho, colocar os animais no “oitono”. Designava-se, com esta palavra, própria e creio que exclusiva da gíria fajagrandense, os terrenos onde, depois da apanha do milho, floresciam o trevo, a erva-da-casta e, por vezes o alcacel ou as favas. Estas forrageiras eram semeadas sobretudo nas terras de lavradio do interior, ou seja nas que se situavam entre as casas e a zona das relvas e das terras de mato e que existiam, sobretudo e em maior número, no Mimoio, na Bandeja, nas Queimadas, no Alagoeiro, na Ribeira, na Fontecima, no Batel, no Tanque e no Vale da Vaca.

O gado, nestes campos, estava permanentemente amarrado por uma das mãos, com uma corrente que era divida em as duas partes, sendo, a mais próxima da mão da rês, mais curta e mais delgada, ligadas por um “suevo”, a fim de evitar que se enrolasse, impedindo o animal de se movimentar. Do lado oposto, onde se situava a parte mais grossa e comprida, a corrente tinha uma argola, na qual se enfiava uma estaca de ferro. Era esta estaca que, cravada no terreno, prendia o animal.

Ao longo do dia, os donos do gado, de vez em quando, ia mudando as estacas, batendo-as com um maço de madeira de grandes dimensões, a fim de que cada animal usufruísse de uma “cordada” condigna, ou seja, de uma área delineada, em semicírculo que continha a quantidade de forrageira necessária para alimentar a rês e que esta pudesse alcançar, embora, esticando-se em demasia para o fazer.

As “cordadas” porém não eram muito folgadas. Pelo contrário, por vezes, até eram muito curtas e reduzidas, pois havia que poupar nas rações, até porque, sobretudo à noite, eram reforçadas com erva, incensos e outros alimentos recolhidos noutras paragens. Pretendia-se, assim, por um lado, poupar na forrageira e, por outro, “trilhar” bem o terreno, isto é, estrumar bem o campo a fim de que estivesse apto para a próxima sementeira, uma vez que, regra geral, não iria receber mais estrume, sargaço ou adubo.

Só que havia vaquinhas que eram fortes, muito fortes e as estacas, pelo contrário, eram pequenas e frágeis e, por vezes, enterradas em terra húmida e amolecida pela chuva. Ora uma vaca forte, com uma ”cordada” reduzida, e com a fome a apertar, começava a puxar, a puxar, a puxar e a esticar-se toda para apanhar a maior quantidade de forrageira possível. As correntes eram fortes e raramente rebentavam. Mas as estacas de reduzida dimensão, de desmedida fragilidade e enfiadas na terra mole… Não tardava nada e começavam a dar de si. Daí a saírem da terá era um ápice. Uma tragédia! Na manhã seguinte lá estava uma ou outra vaca, com a estaca arrancada, a dar cabo do “oitono”, a depenicá-lo aqui e além, como se fosse uma galinha, onde bem quisesse e lhe apetecesse, a sujá-lo e sobretudo a deitar-lhe bosta em cima, de forma que as outras vacas já mais lhe tocassem ou sequer olhassem para ele.

Vaca que se soltasse numa terra de “oitono” era um grande prejuízo. Para evitar tragédias semelhantes, embora muitas vezes só depois de estarem consumadas, os lavradores precaviam-se, colocando pesados calhaus em cima das estacas ou então, de maneira mais segura, compravam estacas maiores, que havia ferreiro na Fajã que as fazia, do tamanho que cada qual pretendesse.

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publicado por picodavigia2 às 17:40

AS PELES DAS OVELHAS

Quinta-feira, 19.12.13

Na Fajã Grande, salvo raras excepções, as ovelhas eram criadas no mato, à solta, todas em conjunto, sendo recolhidas para a tosquia duas vezes por ano, nos chamados dias de “Fio”. Um em Março outro em Setembro.

Muitas famílias, num ou noutro desses dias, para além de sacos e sacos de lã, traziam do mato para casa uma ovelha ou um carneiro, para abater, conseguindo, assim, melhorar o seu cardápio, nos dias subsequentes ao “Fio” ou então guardavam e alimentavam o ovino até à altura da festa mais próxima ou mais importante, a fim de, nesses dias, garantir refeições melhoradas, uma vez que a carne de vaca, para além de cara, rareava na freguesia.

Mas não era apenas a carne que se aproveitava do ovino abatido. Primeiro a ovelha ou carneiro era tosquiado com muito cuidado, a fim de que a pouca lã que lhe sobrasse no corpo ficasse muito bem aparada e direitinha. Só então se matava o bicho, esfolando-o também com tal cuidado que a sua pele ficasse totalmente inteira e sã, a fim de ser aproveitada para uso doméstico. Para tal, limpava-se muito bem do sangue e das gorduras e depois esticava-se com umas canas pontiagudas nas extremidades. Duas prendiam-se na pele correspondente às patas dianteiras, cruzavam-se sobre o lombo e voltavam a prender-se nas patas traseiras, formando um X. Depois e com uma terceira cana esticavam-se as pontas abertas da barriga, cruzando-a sobre as primeiras de forma a formar uma espécie de papagaio de papel. Assim, bem esticada, a pele aguardava por um dia que fosse de cozer pão, a fim de que, retiradas as brasas, depois do forno estar aquecido, estas fossem colocadas sobre a pele, queimando-a e secando-a como se fosse a pele de um tambor. Esta operação repetia-se tantas vezes quantas fossem necessária para a pele ficar bem seca, bem queimada e bem esticada. Finalmente a pele era muito bem lavada de ambos os lados e colocada ao sol, a secar. Estava assim conseguido uma espécie de pequeno lençol que era colocado sobre os colchões de casca ou de palha dos berços dos bebés ou das camas de alguma criança maior, mas ainda incontinente. A pele da ovelha funcionava assim como uma espécie de lençol, acolchoado e impermeável que tinha uma dupla função: aquecer o corpinho do pequerrucho e impedir que o chichi, eventualmente expelido durante a noite, não alagasse os lençóis e os colchões das camas ou dos berços.

Na Fajã Grande, as peles das ovelhas, os primeiros animais a serem domesticados pelo homem, cerca de 9000 anos antes do Nascimento de Cristo, para quem não tinha crianças ou abatia mais do que uma ovelha, eram utilizadas como capachos e tapetes, colocados sobretudo nas salas e mais ainda nos quartos de dormir, onde as pessoas geralmente andavam descalças e com os pés lavados. Acrescente-se que estes tapetes eram de grande utilidade por quanto a lã das ovelhas para além de repelir as nódoas era muito resistente, pelo que estes tapetes e capachos tinham longa duração. Para os obter, o processo de secagem das peles era igual ao realizado para transformar as peles em lençóis para os berços.

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publicado por picodavigia2 às 10:19

NOVENAS DO NATAL

Terça-feira, 17.12.13

{#emotions_dlg.painatal}Outrora, na Fajã Grande e possivelmente em muitas outras ou talvez até em quase todas as aldeias, freguesias e pequenas vilas de Portugal, que nas cidades e nas grandes vilas era um pouquinho diferente, o Natal não se anunciava através da persistente publicidade televisiva, da desenfreada corrida aos shopings, da enxurrada de prendas a serem compradas em loucas correrias, nos fins-de-semana e feriados de Dezembro, de emails repletos de interessantíssimas imagens natalícias ou de um sem número de lâmpadas multicolores a piscarem nas árvores dos jardins e nos arcos que ornamentam as ruas ou nos telhados, nas janelas e nos frontispícios das casas, das igrejas e até dos monumentos. Nessa altura, o Natal, embora já sendo a enorme e importante festa que é hoje, na Fajã Grande e, muito provavelmente, em todos os mais pequenos recônditos de Portugal, sobretudo nos mais isolados no espaço e extirpados no tempo, anunciava-se e preparava-se através das “Novenas de Natal” que tinham início precisamente no dia dezasseis de Dezembro, ou seja, como o próprio nome indica, exactamente nove dias antes do Natal.

Na Fajã Grande, para além do seu conteúdo religioso orientado no sentido de anunciar preparar os fiéis para a celebração de tão majestoso acontecimento cristão, as Novenas do Natal tinham uma característica interessantíssima: eram celebradas de madrugada, muito antes do romper do dia ou do despontar da aurora. Esse ancestral hábito dava-lhes um sentido especial, um significado transcendente, fazendo com que fossem amplamente desejadas por todos. Alta madrugada, éramos acordados pelos adultos. Levantávamo-nos à pressa, passávamos um pingo de água pela cara, que não se devia sair para o frio da madrugada com o rosto quente da cama, vestíamos umas roupas seleccionadas de véspera e, bem agasalhados para nos prevenirmos dos rigores do Inverno, de lanterna de petróleo na mão, caminhávamos na noite escura, em direcção à igreja, acompanhados pelo alegre repicar dos sinos. As ruas enchiam-se de pequenas e trémulas luzinhas e de vultos apressados. O templo, num de repente, enchia-se de gente e iluminava-se com as titubeantes luzes emanadas das frouxas lanternas de candeeiros tisnados, com o pavio muito baixo a formar uma espécie de penumbra e a exalar um mefítico cheiro a petróleo mas como que a simbolizarem que estávamos à espera da verdadeira luz que havia de chegar em breve.

Entre preces, cânticos e orações ali ficávamos uma boa meia hora, por vezes quase a dormitar, à espera que os rituais, os cânticos e as orações, liturgicamente, apresentados pelo pároco se esgotassem, para regressarmos a casa ainda mais apressados e voltar para a cama nem que fosse mais uma pequenina nesga de tempo. Antes porém cantava-se o mágico e deslumbrante canto final, verdadeiro precursor da grande festa que dias depois havia de vir:

 

“Quando virá senhor o dia,

Em que apareça o Salvador,

E se efectue a profecia:

- Nasceu no mundo o Redentor?

 

Aquele dia prometido,

Da antiga fé dos nossos pais,

Dia em que o mal será banido,

Mudando em risos nossos ais.”

 

Quando virá senhor o dia,

Da suspirada redenção,

Encha-se o mundo de alegria,

De Deus se faça a encarnação."

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publicado por picodavigia2 às 09:14

COMEÇAVAM AS NOVENAS DO NATAL

Segunda-feira, 16.12.13

{#emotions_dlg.gift}Era precisamente no dia de hoje, dezasseis de Dezembro que, outrora, na Fajã Grande, começavam as novenas do Natal, ou seja, a partir de hoje iniciava-se, durante os nove dias, a preparação da maior festa da Igreja Católica e dos cristãos, depois da Páscoa. Sobretudo para as crianças, o Natal era uma festa muito desejada porque era a festa do Presépio e do Menino Jesus que, se nos portássemos bem, havia de trazer-nos uma prenda, por mais pequenina e pobre que fosse. Mas não era apenas a prenda do Menino Jesus o único motivo de satisfação agregado ao Natal. Nem se ficava por aqui a alegria da petizada inerente à festa do nascimento de Jesus. Tudo o que envolvia a construção do presépio e o arranjo do material necessário, assim como a participação nas novenas eram motivos de grande alegria e satisfação. Na Fajã Grande, mandava a tradição que as novenas se realizassem pela madrugada, muito antes do romper do Sol, muito antes de despontar o dia ou do raiar da aurora. E talvez fosse por isso, por constituírem algo de diferente e estranho na nossa rotina habitual que as mesmas tinham um “sabor” tão especial e eram amplamente desejadas por todos, mas sobretudo pelos mais novos. Miúdos e graúdos saíam da cama muito cedo e dirigiam-se, em ranchos, para a igreja, resguardados do frio com bons agasalhos. No templo, cheio de escuridão, de tossidelas e de arrastar de cadeiras, aguardávamos que todos chegassem e que a novena começasse. O pároco não era muito pontual e, quando chegava, geralmente a igreja já estava a abarrotar de gente, iluminando-se apenas com as velas dos altares que o sacristão acendera e com as titubeantes luzes emanadas das frouxas lanternas com candeeiros tisnados, com o pavio muito baixo e a tresandarem a petróleo, que vinham de casa. O pároco dava início à cerimónia, entoavam-se cânticos apropriados, dirigiam-se preces a Deus, liam-se passagens do Antigo e do Novo Testamento, umas a profetizarem a chegada do Messias e outras a relatar as palavras do Baptista «Endireitai os caminhos do Senhor, porque Ele está próximo.» O pároco, revestido de capa de asperges branca, falava da festa que se aproximava. Todos deviam preparar-se para a vinda do Salvador, imitando os Profetas e João Baptista. O Natal era a festa da paz e do amor, a festa da esperança, e como tal, devia ser preparada com esmero, dedicação e carinho. Maria, Mãe de Jesus, com o seu sim e a sua entrega total para servir a Deus e São José, pai putativo de Jesus, homem obediente e humilde, haviam de ser exemplo para todos. Maria e José haviam de lembrar aos cristãos a necessidade de viverem segundo a vontade de Deus, o nosso Pai do Céu. As novenas, na opinião do reverendo eram a melhor forma de estimularem à conversão aos caminhos do Senhor, de despertarem os fiéis para a espera vigilante do Messias e de disporem os cristãos a receber com fé e alegria o Deus que veio, que vem continuamente e que ainda virá, conforme Jesus prometeu. Santas, sensatas e bíblicas palavras que quase ninguém ouvia. É que, alguns adormeciam, outros dormitavam e os que se mantinham acordados ocupavam-se mais em subir um pouquinho os pavios das lanternas para que não definhassem de todo, a cochichar um segredo à vizinha do lado ou, até, nalguns casos, a bichanar, individualmente e por iniciativa própria, Padre-Nossos e Jaculatórias. Só quando o pároco terminava, e pedia que se levantassem para o cântico final, todos acordavam, erguiam-se e, quase em uníssono, os que sabiam, podiam e queriam cantavam:

«Ó ´céus do alto rociai;

O justo, ó nuvens chovei;

Germine a Terra seu Deus;

Ó Adonai, nascei, nascei.

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publicado por picodavigia2 às 11:46

CARREGAR DE ABÓBORAS

Domingo, 15.12.13

Na Fajã Grande, quando um par de namorados acabava o namoro, quer fosse o rapaz a deixar a rapariga ou esta a abandonar aquele, dizia-se que aquele dos dois que decidia terminar o namoro, quer fosse ele quer fosse ela “carregava de abóboras” o outro.

Só que esta expressão “carregar de abóboras” era, geralmente utilizada com um sentido depreciativo, talvez mesmo humilhante, ou até com a premeditada intenção de apoucar aquele ou aquela que era abandonado e que ficava só e triste, enquanto o seu parceiro ou parceira já tinha estabelecido ou optado por um novo relacionamento amoroso e, por isso mesmo, vivia feliz e realizado. Na realidade ninguém gostava de ser “carregado de abóboras”, nem sequer de supostamente ser acusado de tal facto. 

Não é fácil, no entanto, encontrar a origem de tal expressão. A abóbora na Fajã, contrariamente a outras localidades do país, era pouco apreciada como alimento pelos humanos, sendo mais utilizada no cardápio dos animais, especialmente dos porcos. Geralmente não se fazia sopa de abóbora e o doce elaborado com aquela cucurbitácea rareava. Apenas, de vez em quando, se comia abóbora cozida, sendo partida aos pedaços, limpa de pevides e posta a cozer juntamento com a batata branca. Eram os suínos os principais consumidores de abóbora, comendo-a diariamente, mas crua. Quando cozida, as sobras da abóbora eram amassadas juntamente com as batatas, farelo e couves picadas para fazer a célebre “bola” para alimentar as galinhas.

Seria este uso pouco requintado e quase insignificante da abóbora na alimentação das pessoas, tendo em conta que a sua produção nas terras da Fajã Grande era bastante significativa, que estaria na origem desta metáfora. Por outras palavras, como havia muita produção de abóboras na freguesia e como estas eram pouco apreciadas como alimento, havia que lhes dar consumo e atirá-las, em ar de gozo, para as costas de alguém que se encontrasse em estado de choque ou de nítida insatisfação, devido ao doloroso abandono por parte da pessoa amada. Que servissem, ao menos, para carregar os que haviam ficado “a ver navios” em questão de namoro.

Não parece muito plausível esta interpretação mas apresenta-se como a mais lógica.     

De resto o único e principal simbolismo que, em quase todo o mundo, se dá à abóbora está ligado ao Halloween, celebração, na altura, desconhecida, por completo, na Fajã Grande. Também nunca se ouvira contar a célebre lenda, segundo a qual, após a sua morte, Jack, um conhecido brincalhão irlandês, foi proibido de entrar no céu por conta das suas brincadeiras, e também foi recusado entrar no inferno por ter enganado o diabo, que, muito bondoso, lhe deu uma pedaço de carvão aceso para iluminar seu caminho pela escuridão. O carvão estava dentro de um nabo oco, para que a sua chama durasse mais tempo, fazendo com que ele ficasse conhecido como Jack O'Lantern. Os irlandeses usavam nabos para fazer as suas decorações, mas quando emigraram para a América descobriram que as abóboras eram muito mais abundantes e práticas, e passaram a utilizá-las em vez dos nabos. Assim nasceu a tradição de se colocarem velas dentro de abóboras, transformando-as em rostos humanos. Tudo isto, porém, era desconhecido na Fajã Grande dos anos cinquenta, assim como não havia conhecimento de outras superstições sobre abóboras, tais como: “Comer abóboras, por serem redondas, na passagem do ano dava sorte.”, ou “As abóboras significam fertilidade, abundância.” e esta outra “Sonhar com abóboras significava herança próxima, lucros inesperados.”

Parece pois, que a explicação inicialmente referida será, não apenas, a mais razoável mas também a única, para se entender o porquê da metáfora tão frequentemente utilizada na Fajã Grande: “carregar de abóboras”.

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publicado por picodavigia2 às 10:32

OS ESTALEIROS DA FAJÃ GRANDE

Sábado, 14.12.13

Nos anos cinquenta, a Fajã Grande era terra de produção de muito milho, uma vez que este era praticamente o único cereal cultivado em todos os campos da freguesia e estava na base da alimentação de pessoas e animais. Semeava-se milho em todas as terras de cultivo que rodeavam as casas, quer nas que ficavam junto ao mar quer nas do interior e ainda em muitas outras, junto das relvas ou encravadas entre as terras de mato, algumas já bastante distantes das casas. Houve inclusivamente, em anos anteriores, quem semeasse milho no Mato, substituindo a erva das pastagens pela cultura deste cereal. Era pois enorme a quantidade de milho produzido em toda a freguesia. A sua guarda e arrumo, de maneira que se conservasse e mantivesse em excelente qualidade, ao longo do ano, afastado dos ratos e protegido do gorgulho, era um problema que urgia solucionar da forma mais prática e eficiente.

Na Fajã nunca foi costume secar o milho no forno, depois de o apanhar para de seguida o debulhar e, então, guardá-lo em recipiente adequado, dentro de casa. Este costume, vulgar em muitas outras localidades açorianas, na Fajã era praticado muito raramente e apenas quando faltava o milho armazenado do ano anterior e o do ano em curso ainda estava verde e, consequentemente, incapaz de ser moído. Assim a maior parte do milho produzido em toda a freguesia era guardado ao ar livre e com a casca, para o que se construíam os estaleiros, onde se penduravam as maçarocas, presas e amarradas em “cambulhões” de forma organizada. Os “cambulhões” eram conjuntos de maçarocas revestidas com a casca, presas umas às outras por uma fita retirada de uma das folhas, devidamente torcidas e amarradas conjuntamente nas extremidades com um fio de espadana.

Na Fajã Grande construíam-se três tipos de estaleiros, cada qual deles, no entanto com mais do que uma variante.

Os estaleiros mais pequenos e mais fáceis de construir eram uma espécie de grade, feita com dois, três ou quatro paus de lenha com várias tiras de madeira pregadas. A sua construção era simples. Os paus eram colocados paralelos uns aos outros e equidistantes e de seguida neles se pregavam as ripas ou tiras de madeira - às vezes até eram utilizadas canas, porque eram mais baratas - formando uma espécie de grade, deixando, no entanto, numa das extremidades um espaço de cerca de um metro livre de tiras, sendo esta a parte que assentaria no chão e serviria de pés. Estes estaleiros eram encostados às empenas das casas e neles se iam pendurando os “cambulhões”. Para que os ratos não subissem pelos paus até às maçarocas, em cada um deles, logo abaixo das tiras, era enfiada um pedaço de lata velha, devidamente furada e presa de modo a não cair. Se fosse necessário, podia aumentar-se a capacidade destes estaleiros, juntando-se-lhes conjuntos de dois três ou mais paus e que eram encostados ao lado dos primeiros.

Uma segunda modalidade era o estaleiro chamado de “pé de cabra”. A sua construção também era simples, mas com maior grau de dificuldade do que os anteriores. Para a sua construção eram precisos quatro paus do mesmo tamanho e taliscas de madeira. Os paus eram amarrados conjuntamente na extremidade mais delgada, sendo depois abertos de forma a afastar as extremidades opostas, simulando uma espécie de pirâmide, em que estas partes serviriam de pés e que seriam enterrados profundamente na terra, de forma ao estaleiro resistir a ventos e temporais. Depois eram pregadas as taliscas de madeira nas diversas faces da pirâmide, a fim de nelas se pendurarem os “cambulhões”. Para proteger o milho dos ratos utilizava-se uma estratégia igual às dos estaleiros anteriores. Uma variante deste estaleiro era a construção de um igual em tudo, mas apenas com três pés, o que reduzia, significativamente, a capacidade de armazenar o milho

Finalmente havia um terceiro tipo de estaleiro mais utilizado, com maior capacidade e de mais difícil construção. Era o estaleiro tradicional, constituído por uma estrutura de madeira assente sobre quatro ou seis pegões de cimento, muito lisos e cimentados, para evitar a subida dos ratos. Por sua vez a estrutura de madeira que se encastoava em cima dos pegões tinha a forma do telhado duma casa, mas muito mais inclinada. Um conjunto de barrotes eram ligados a uma trolha pela parte superior e pregadas numa base rectangular. Apenas nas faces laterais eram pregadas as tiras onde se penduravam os “cambulhões”, sendo que as fazes das extremidades ficavam livres para a circulação do ar. No interior do estaleiro e paralelas à trolha superior, geralmente eram pregados barrotes com tiras ou taliscas onde eram pendurados os “cambulhões” com as maçarocas descascadas, que eram em pequena quantidade, uma vez que resultavam apenas das maçarocas cuja casca era menos resistente ou que menos protegia os grãos. Uma segunda variante deste estaleiro, embora menos utilizada, era diferenciada apenas na estrutura de madeira e na disposição dos pés que eram apenas quatro e dispondo-se sempre em forma de quadrado. A estrutura de madeira que assentava sobre eles tinha a forma de um cubo, aberto na base e na face superior, sendo as ripas pregadas nas quatro faces restantes. Esta variante de estaleiros era de mais simples e fácil construção e julgando-se, por isso mesmo, que representariam um modelo mais ancestral e primitivo do verdadeiro e tradicional estaleiro fajãgrandense.

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publicado por picodavigia2 às 08:09

MASCARADOS

Quinta-feira, 12.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, nas semanas que antecediam o Carnaval, quase todos os dias à noite, mas sobretudo e com maior profusão aos sábados e domingos, as ruas da freguesia enchiam-se de grupos de mascarados que visitavam a maioria das casas, ou melhor a maioria daquelas donde emanava por entre os cortinados das janelas da sala uma nesga de luz baça, ténue, proveniente de um candeeiro a petróleo ou duma candeia, a anunciar que ali se seroava.

Devidamente fantasiados com as roupas mais extravagantes e inéditas possíveis a cobrir-lhes o corpo da ponta dos pés ao cocuruto da cabeça, com excepção da cara que era tapada com uma máscara, os mascarados deambulavam pelas ruas escuras e sinuosas até entrarem nas lojas que estavam abertas ou nas casas que lhes abriam a porta. Para que ninguém os identificasse, ou para que até os mais perspicazes demorassem a acertar-lhes o nome, os mascarados vestiam uns trapinhos velhos e pouco costumeiros, há muito não usados por eles ou por quem quer que fosse da família ou até umas roupitas novas a cheirar à América, acabadinhas de chegar numa encomenda vinda da Califórnia e ainda não estreadas. As máscaras, por sua vez, eram compradas nas lojas, mas muito às escondidas, para que dificultasse a identificação ou, nalguns casos, feitas pelo próprio ou por algum familiar, recorrendo geralmente a uma caixa de sapatos de papelão bem grosso. Poupava-se dinheiro e facilitava-se a disfarce.

Os mascarados tinham objectivos muito claros e consuetudinariamente bem definidos: gostavam de ser vistos pelo maior número de pessoas possível, investiam seriamente no seu disfarce a fim de que a sua identificação demorasse a maior quantidade de tempo possível, adoravam fazer palhaçadas, brincadeiras jocosas e pregar partidas e, sobretudo, apostavam em meter medo aos mais pequenos. Se soubessem que um garotelho qualquer tinha medo, então é que nunca mais o largavam.

Confesso que entre os pequerruchos da minha idade eu era dos que tinha mais medo. Se os mascarados entrassem em minha casa ou na da minha avó e eu lá estivesse, escondia-me e trancava-se a sete chaves num buraco qualquer ou em lugar que ninguém me visse. Nessas noites sair de casa, mesmo que fosse apenas da minha para a da minha avó, sozinho, nem pensar. Só o faria se acompanhado com um adulto da minha confiança e que me garantisse protecção e amparo. Aquelas máscaras disformes, tétricas, macabras e, por vezes, cadavéricas metiam um medo terrível. Além disso, haviam de atacar sempre as podres crianças indefesas e amedrontadas…

Muitas portas não se abriam aos mascarados. Aquelas que o faziam, no entanto, ao ouvirem bater à porta e antes de se abrirem, perguntavam de dentro: “Quem é?” E eles cá de fora com aquela voz muito rouca e disfarçada, simulando eco: Mascaraaaados”. Só então a porta se abria, mas mesmo assim todos eles, antes de entrarem teriam que se identificar em segredo, apenas ao dono da casa, prometendo também que, terminada a visita, todos tirariam a máscara. Ia lá entrar-nos a dentro de portas alguém desconhecido!? Havia de se meter pela casa dentro um inimigo ou algum meliante que andasse a cobiçar e a seduzir as filhas!?

Durante a visita tentava-se adivinhar quem se encobriria em tão estranhos disfarces. Era o adivinhas! “Quem será? Quem não será? Conheço-lhe as mãos! Pelo andar deve ser fulano! Pelos trejeitos deve ser sicrano!” E assim se passavam alguns momentos divertidos, com eles a disfarçarem atitudes e palavras, a fazer palhaçadas e a meterem com as raparigas e com os medrosos e os da casa a tentarem descobrir-lhes a identidade.

 No fim todos tiravam a máscara e muitas vezes havia grandes surpresas.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:45

O CAIXÃO COMUM

Segunda-feira, 09.12.13

Nas traseiras da igreja paroquial da Fajã Grande, encostada à capela-mor, do lado do Evangelho ou seja a Sul, porque a igreja da Fajã como quase todas as da ilha das Flores tinham a porta de entrada voltada para o nascente, e paredes meias com o cemitério havia uma arrecadação, relativamente grande e que mais tarde veio a servir de casa do motor, onde se guardavam vários objectos que, embora não sendo de culto ou de uso litúrgico, eram utilizados por altura das festas, no espaço exterior. Era o caso do quiosque para a quermesse, do boneco de revirar às boladas, das tábuas e suportes do coreto e de outros adereços utilizados, sobretudo, por altura das festas da Senhora da Saúde e de São José. Mas o que mais enchia aquele vetusto e abandonado pardieiro era um conjunto de velharias já sem utilidade alguma, mas que ali haviam sido colocadas e por ali tinham ficado a perder-se no tempo. Mesas partidas, ralos de confessionários esquartejados, andores sem barrotes, lanternas com os vidros estilhaçados, cruzes de madeira desfeitas e muitas outras bugigangas, entre as quais, pasme-se, um caixão, sem tampa mas feito em madeira de cedro e em muito bom estado de conservação.

Mas este caixão, embora abandonado ali por já não ser de uso corrente, tinha a sua história. Na realidade e de acordo com testemunhos de pessoas mais idosas, antigamente, na Fajã Grande, rareava a madeira e ainda mais o dinheiro para comprá-la. Daí que, para muitas famílias, de tão pobres e necessitadas que o eram, fosse impossível mandar fazer e, sobretudo, pagar um caixão para sepultar os seus familiares. Para superar essas dificuldades, mandou a paróquia, com o objectivo de ajudar os seus fregueses, fazer um caixão de boa madeira de cedro, mas comum, isto é, um caixão que servisse para sepultar todos aqueles cujos familiares tinham problemas económicos e eram pobres e ainda os que o quisessem fazer, por vontade expressa dos familiares. Assim o morto era simplesmente embrulhado pela família num lençol e colocado dentro do caixão comum, onde era velado, transportado para a igreja e depois sepultado, nos primeiros anos da paróquia na própria igreja ou, mais tarde, no cemitério para tal construído. Sendo assim os defuntos eram sepultados apenas embrulhados num lençol, enquanto o caixão comum, depois de cada funeral, voltava para a arrecadação da igreja à espera de novo defunto.

O caixão comum! Um marco importante e significativo, talvez bastante esquecido, na história da Fajã Grande!

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publicado por picodavigia2 às 14:18

AS TÊMPORAS DE SETEMBRO E AS ROGAÇÔES

Sábado, 07.12.13

As Têmporas eram dias de penitência e oração estabelecidos pela Igreja Católica e que, outrora constavam no calendário litúrgico. Foram estabelecidas pelo papa Gregório VII, em 1078 e celebravam-se quatro vezes no ano, coincidindo, mais ou menos, com os equinócios e os solstícios. Assim tínhamos têmporas na 3ª semana do Advento (Dezembro), na 1ª semana da Quaresma (Março), na semana a seguir ao Pentecostes (Junho) e, finalmente, na 3ª semana de Setembro.

Os dias semanais dedicados às Têmporas eram a quarta, a sexta e o sábado, sendo a sexta o dia “mais forte” e que, como tal, tinha estatuto igual ou semelhante ao das sextas-feiras da Quaresma, incluindo a obrigação da abstinência, dado que a do jejum, nestes dias, era abolida com a compra das bulas e dos indultos papais. A cor litúrgica era o roxo, inclusive nas Têmporas do Pentecostes e nas de Setembro.

Crê-se que as Têmporas tenham tido a sua origem nos préstitos e sacrifícios que os pagãos costumavam fazer ao longo do ano e por altura do semear e do recolher dos produtos agrícolas, para, no primeiro caso, pedirem aos deuses boas colheitas e, no segundo, para lhes agradecer a eficiente recolha das mesmas. Daí que as Têmporas, nomeadamente as de Setembro, tenham estado, depois de cristianizadas, geralmente ligadas ao trabalho dos campos, incluindo procissões através dos campos, chamadas Rogações.

Na Fajã Grande e, provavelmente, em todas as freguesias açorianas, as Têmporas mais celebradas eram as de Setembro. As do Advento e as da Quaresma enquadravam-se em tempos litúrgicos já de si dedicados à oração e à penitência e onde predominava o roxo, como cor litúrgica. As do Pentecostes seriam naturalmente pouco notadas devido à grandiosidade e durabilidade que as festas de Espírito Santo tinham e têm, nos Açores. Daí que as de Setembro, agendadas num tempo litúrgico em que mais nada se celebrava, tivessem maior relevo e fossem mais solenizadas. Acrescente-se ainda o facto de se realizarem por altura das colheitas, no fim do Verão, quando geralmente se verificavam dias e dias sem chover, o que obviamente prejudicava a produção agrícola. Daí as Rogações, realizadas todos os anos por esta altura e que eram vestígios claros dos préstitos pagãos acima referidos, nos quais tiveram, obviamente, origem.

Assim, nos dias de Têmporas de Setembro, de manhãzinha, muito cedo, após a missa, que tinha uma afluência muito semelhante à dos Domingos, organizavam-se as “Rogações”. Eram procissões de penitência e oração, sem Santos e sem andores, onde apenas seguia a cruz paroquial, revestida de manga roxa. Depois os homens, a maior parte de opas, as mulheres de cabeça coberta e no fim o pároco, revestido de pluvial roxo e de hissope em riste, que ia, sucessivamente, molhando na caldeirinha que o sacristão segurava e com o qual aspergia e benzia os campos por onde a procissão passava, ao mesmo tempo que entoava, em latim e enquanto os sinos dobravam, a ladainha de todos os santos. Entre muitas outras invocações o pároco cantava:

- “Ut fructus terrae dare et conservare digneris.”. (Que Vos digneis dar-nos e conservar os frutos da terra).

- “Te rogamus audi nós.” (Nós Vos rogamos, ouvi-nos) – implorava o povo.

Por vezes, noutras alturas do ano e sempre que faltava chuva, originando períodos de seca prolongada que prejudicavam seriamente a produção agrícola e, indirectamente, a pecuária, também havia Rogações mas com pequenas diferenças das realizadas nas Têmporas: eram pedidas pelo povo e o pároco levava uma pequenina e velha imagem de Sant’Ana, (substituída mais tarde por uma nova, tendo a primitiva desaparecido misteriosamente), à qual se dirigiam vários cânticos e preces, seguidas das ladainhas.

As procissões das Rogações normalmente percorriam as Courelas, Rua Nova, a Via d´Agua e a Tronqueira, ou seja as zonas onde as terras eram mais próximas do mar, atingidas pela salmoira, mais secas e onde a recolha dos produtos agrícolas se verificava mais cedo.

Para gáudio de todos e para fortalecimento e solidificação da fé, geralmente chovia, alguns dias após as Rogações. Não estivéssemos em Setembro e nos Açores!

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publicado por picodavigia2 às 00:15

O CULTIVO DO TRIGO NA FAJÃ GRANDE

Quinta-feira, 28.11.13

Nos anos cinquenta já eram poucos os agricultores que cultivavam trigo na Fajã Grande, fazendo-o apenas numa ou outra terra, lá para as bandas do Areal, onde os terrenos eram mais arenosos, mais pobres, mais vulneráveis à salmoura e, consequentemente, menos rentáveis para as outras culturas. Em tempos idos, no entanto, não teria sido assim. Na, realidade, no         séc XIX e no primeiro quartel do séc XX, o trigo era rei e senhor na Fajã Grande. Diziam os antigos que no Verão, era bonito de se ver a maioria dos campos da beira-mar vestidos de um amarelo doirado, com caules de trigo a abarrotar de espigas louras, entrecortados, apenas, por um ou outro serrado de milho, ornado, paradoxalmente, com o verde fresco e esperançoso dos folhedos e o branco adocicado das espigas e com algumas courelas atulhados de couves ou de batata-doce, também muito verdes e espevitadas.  

A existência, nos anos cinquenta, na freguesia, de um bom número de eiras era a prova provada do domínio adquirido por aquele cereal durante as décadas anteriores. Acredita-se que o trigo tenha sido o principal cereal que os primeiros povoadores trouxeram para a ilha das Flores e mais concretamente para a Fajã Grande, embora cultivado apenas nos terrenos mais próximos do mar, mais concretamente, nas Furnas, no Areal, no Porto, no Estaleiro e até na Cambada.

O cultivo do trigo era bastante diferente do cultivo do milho e até mais fácil e menos trabalhoso. Depois de preparado o terreno e semeado, o trigo não necessitava de tantos cuidados e trabalhos como o milho e a única razão que terá originado a que, mais tarde, a cultura do milho se sobrepusesse e acabasse por reduzir quase a zero a do trigo foi, muito provavelmente, a de uma melhor adaptação daquele cereal aos terrenos da Fajã, o que acarretava obviamente uma maior e mais rentável produtividade. Além disso, os trabalhos posteriores ao cultivo, no caso do trigo eram bem mais trabalhosos e difíceis do que os do milho. O trigo, uma vez amadurecido, era ceifado e emolhado em grandes “pavias”, amarradas com fios de espadana e colocadas durante alguns dias, junto às paredes dos serrados, a fim de enxugarem e secarem melhor. Depois, as “pavias” eram transportadas para as eiras em carros de bois, se fosse muito, ou às costas dos homens e à cabeça das mulheres, se a produção fosse menor. Nas eiras procedia-se à debulha. O trigo era espalhado no chão da eira, ao redor do malhão, â volta do qual rodava a grade de madeira, puxada geralmente por uma junta de vacas, com os olhos tapados, a fim de que de tanto andar à roda não caíssem de tontas. Antes de iniciar a debulha, as mulheres escolhiam as melhores palhinhas para delas fazerem chapéus e cestinhas. Para que a grade ficasse mais pesada e debulhasse melhor e mais rapidamente o trigo, colocava-se-lhe em cima calhaus, crianças, o condutor do gado e um auxiliar, que devia estar sempre muito atento e que transportava uma vasilha adequada, com o qual tentava “apanhar” os excrementos e a urina do gado. Se o não conseguisse fazer, havia que parar de imediato a debulha, a fim de se retirar o trigo sobre o qual, inadvertidamente, caíra a bosta ou a urina. Terminada a debulha e retirados os animais e a grade, era junta a palha, guardando-se a mais desfeita para encher colchões e travesseiras. Depois, o trigo era “avantajado”, isto é, colocado na joeira ou crivo e joeirado, ou seja sacudido contra o vento, de forma a que os grãos se separassem da moinha, operação que se repetia tantas vezes quantas fossem necessárias para que o trigo ficasse totalmente limpo. O trigo, finalmente, era guardado em sacos até ser moído e a moinha era recolhida e guardada para alimento das galinhas. Apesar de ser um dia de muito trabalho, o dia da debulha era um dia de festa, de alegria, de cantorias, de refeições melhoradas e de ajuda recíproca, como geralmente eram os dias de mais intensa e prolongada actividade agrícola.

Nos anos cinquenta, porque rara, a farinha de trigo era utilizada para cozer o pão de trigo apenas nas vésperas das festas, nomeadamente na do Espírito Santo e da Senhora da Saúdes e nos dias de matança do porco. Era também com a farinha deste trigo caseiro que, obrigatoriamente, se faziam as hóstias para a celebração das missas nas igrejas da Fajã e da Ponta. 

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publicado por picodavigia2 às 13:51

RETRETES E CASINHAS

Domingo, 17.11.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, havia apenas uma habitação ou duas que gozavam do privilégio de dispor de quarto de banho e ficávamos por aqui, em termos de instalações sanitárias. Daí as parcas e limitadíssimas condições de higiene e as consequências gravosas que eventualmente tinham quer na saúde individual quer na pública.

No que concerne à higiene pessoal, todas as casas tinham, geralmente na cozinha, uma lavatório que servia apenas para lavar as mãos e a cara, embora com o senão de a água, regra geral, não ser renovada com muita frequência. Estes lavatórios, na maioria dos casos, eram de ferro forjado, com sítios anexos para neles se fixar um espelho, pendurar uma ou duas toalhas e, nalguns casos, colocar um jarro para a água. As bacias destes lavatórios, assim como os jarros, quando os havia, nas casas mais pobres, eram de esmalte e nas mais ricas de louça ou cerâmica, sendo algumas ornamentadas com pinturas e sempre acompanhadas pelo respectivo jarro com o mesmo estilo ou desenho. Estes lavatórios assim como as respectivas bacias, sobretudo as de louça, são actualmente muito procurados como peças de adorno com o seu cunho de singularidade histórica e de antiguidade.

Para lavar os pés, limpeza obrigatória diária para a maioria dos que habitualmente andavam descalço antes de se deitarem, havia umas celhas de madeira, designadas precisamente por “celhas se lavar os pés”, acompanhadas quase sempre de um respectivo banquinho, feito de madeira de criptoméria. Geralmente era esta celha que servia também para se tomar uma espécie de banho geral, mas às prestações, nas vésperas de festa, no dia de exame da quarta classe, da comunhão solene, do casamento ou no dia em que se ia à inspecção para a tropa ou se levava a bandeira do Senhor Espírito Santo.

No que às necessidades fisiológicas dizia respeito, umas casas tinham retretes e outras, as mais ricas, as casinhas. Quarto de banho, apenas o da residência do senhor padre. As retretes situavam-se geralmente numa loja de arrumos que ficava no primeiro andar da habitação e eram constituídas por uma ou duas canecas de madeira, geralmente isoladas num canto da loja e separadas por um biombo, por um pano ou por um “taipau” de tábuas velhas, remendadas com tiras dos caixotes de sabão. As canecas tinham, por vezes, uma tampa, mas na maioria dos casos estavam destapadas à espera das moscas varejeiras. Quando rigorosamente cheias tinham que ser transportadas às costas ou à cabeça e eram levadas geralmente para um terreno, não muito longe de casa, de preferência onde houvesse couves ou caseiras. Por sua vez, a limpeza do rabiosque era feita, algumas vezes com sabugos, outras com casca de milho ou feitos secos e, a maioria das vezes, com um pano velho que ia sendo usado por uns, por outros e por todos e que, por fim, ficava tão borrifado, tão atafulhado e tão cheio de sujidade, assemelhava-se a uma espécie de mapa da Polinésia, que já não havia ponta por onde se lhe pegar, nem muito menos sítio para limpar o dito cujo. Por sua vez, nas casas mais ricas havia, geralmente ao lado das mesmas um pequeno cubículo, chamado “casinha”, coberto com telha ou com cimento, onde se colocavam as respectivas canecas, sendo os restantes procedimentos idênticos aos das retretes, tendo apenas a vantagem de ser um local um pouco mais limpo e arejado, impedindo também que os cheiros e os odores se infiltrassem pelo soalho acima e atingissem a moradia, onde as pessoas dormiam, descansavam, cozinhavam e se alimentavam.

Acrescente-se, no entanto, que os campos, sobretudo as terras de mato ou as de milho quando este já estava crescido, possuíam recantos bastante encobertos e muito adequados ao largar da “poia”, constituindo, assim, uma sustentável alternativa às retretes e casinhas.

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publicado por picodavigia2 às 11:54

O MÊS DE NOVEMBRO E AS NOVENAS DAS ALMAS

Domingo, 03.11.13

A devoção e o culto das almas ocupavam literalmente um lugar de relevo no top da religiosidade e das celebrações litúrgicas, na Fajã Grande. Havia entre toda a população uma muito acentuada espécie de “cultura do além”, repleta, por um lado, de mitos, lendas, tradições, extravagâncias, ingenuidades e medos, mas, por outro, eivada de convicções embora limitadas, certezas geralmente inconsequentes, esperanças inexplicavelmente obscuras e de quotidianas e convictas realizações. Daí que o mês de Novembro se tornasse um mês especial, uma espécie de mês mítico, do além, por ser o mês das almas. Todos os dias, com excepção dos dias um e dois e dos domingos, realizava-se, na igreja paroquial, a “novena das almas”. Tratava-se logicamente de uma expressão popular pouco correcta, uma vez que as celebrações não se limitavam aos tradicionais nove dias próprios das novenas, mas prolongavam-se por todo o mês. Por isso, o mês de Novembro também era chamado mês das almas.

Já noite escura a igreja enchia-se de gente como se de domingo se tratasse e era celebrada missa, geralmente missa dos defuntos, excepto nos dias em que tal não era permitido liturgicamente, por se tratar duma festividade de 1ª classe. A igreja permanecia propositadamente escurecida, sendo apenas iluminada pelas velas do altar-mor e por outras seis encravadas em outros tantos gigantescos castiçais colocados ao redor de um enorme tapete preto debruado a amarelo, estendido bem no centro do cruzeiro, logo a seguir à capela-mor. A escuridão do templo, por um lado, convidava e proporcionava aos crentes um ambiente mais propício à oração e à reflexão sobre o mistério da sua própria morte e, por outro encenava uma espécie de enquadramento daquilo porque todos, sem distinção, já tinham passado – a lembrança da morte de algum familiar.

De seguida o pároco envergando a capa de asperges preta e barrete de três quinas, colocava-se estrategicamente à cabeceira do tapete e, voltado para o povo, rezava um responso por cada um dos agregados familiares da Fajã, agrupados ao longo dos vários dias, desde o cimo da Assomada e até ao fim Via d’Água. Como as famílias obviamente eram muitas mais do que os dias do mês, o pároco agrupava em cada dia o número razoável e adequado de agregados familiares, sendo que, no entanto, rezava separadamente os responsos, ou seja um pelos defuntos de cada família. Entre a reza de cada responso o pároco pegando no hissope encharcava-o na caldeirinha da água benta que o sacristão lhe apresentava, dava uma volta ao tapete e aspergia-o em cruzes sucessivas dos quatro lados, enquanto os sinos dobravam a finados.

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MILHO PR'ÁS ALMAS

Sexta-feira, 01.11.13

Todos os anos, no dia de todos os Santos, grupos de homens munidos de cestos ou sacos de serapilheira percorriam as ruas da Fajã Grande, desde a primeira casa da Assomada até à última da Via d’Água e, batendo à porta de todas e cada uma das casas, gritavam: “Milho pr’ás almas”. Era um costume ancestral e que tinha como objectivo recolher as ofertas de milho destinadas às benditas almas do purgatório ou seja aos seus próprios defuntos. Esta actividade era devidamente planificada e programada pela mordoma das almas, cargo que durante as décadas de quarenta e cinquenta foi desempenhado pela minha avó, por ser a mãe do sacristão. Dias antes minha avó requisitava os homens que julgava serem necessários para executar com sucesso e eficiência o peditório, disponibilizando, aos que os não tinham, os cestos ou sacos julgados necessários. Convidava também uma grande quantidade de mulheres para, durante e após o peditório, recolher o milho, debulhá-lo e enchê-loem sacos. As pessoas nas suas casas já tinham seleccionado e descascado a quantidade do milho que pretendiam oferecer, muito ou pouco, consoante as posses que tinham. Casa que não cultivasse milho deveria dar o equivalenteem dinheiro. O milho era trazido para casa da minha avó e colocado na sala que se enchia com as maçarocas quase até ao tecto. Sentadas ao redor as mulheres debulhavam-no e colocavam os grãos dentro de cestos e balaios, enquanto a criançada ia escorregando sobre os montes das maçarocas. Minha avó muito atarefada recolhia o dinheiro e, com algumas ajudantes, media o milho com razoiras e enchi-oem sacos. Alguns sacos tinham comprador imediato, enquanto outros eram colocados na casa velha a fim de serem vendidos nos dias seguintes. Por vezes até vinham compradores doutras freguesias comprá-lo. É que, devido à enorme concorrência, sobretudo nos anos em que havia muito milho, o das almas era, geralmente, mais barato. Todo o dinheiro, quer oferecido directamente quer resultante da venda do milho, era guardado pela mordoma que o ia entregar ao pároco. Destinava a celebrar missas e rezar os responsos dos defuntos, todos os dias, durante o mês de Novembro, por alma dos defuntos de todas as famílias da Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 09:24

NOVEMBRO

Sexta-feira, 01.11.13

Na ilha das Flores, como provavelmente noutras do arquipélago açoriano, na década de cinquenta, Novembro era um mês estranho, esconso, mítico, repleto de ritos arrepiantes, de emoções tenebrosas e de celebrações fúnebres. É que, para além de, sob o ponto vista meteorológico, ser um mês de mau tempo, de dias invernosos, curtos e escuros, Novembro era o mês da devoção e do culto das almas do purgatório, o mês durante o qual, quer com missas e outras celebrações na igreja, quer com preces e orações em casa, quer ainda com romagens e visitas ao cemitério, devíamos sufragar as almas dos nossos parentes falecidos e pedir pelas almas do purgatório, em geral, “principalmente as mais abandonadas e que mais sofriam ou não tivessem quem intercedesse por elas”.

O mês iniciava-se com a festa de todos os Santos, celebrada exactamente no dia um, e que, mais do que festejar os eleitos que já “gozavam a santa glória” de Deus, se destinava à preparação, limpeza e ornamentação do cemitério e das sepulturas dos nossos antepassados que haviam falecido nos últimos anos, caso ainda não tivessem sido abertas. Mas o que mais caracterizava a festa dos Santos, era o facto de ser nesse dia que se realizava a “derrama” das almas. Sob as ordens e orientação da “Mordoma das Almas”, um grupo de homens corriam todas as casas recolhendo as ofertas de milho para as almas, que iam transportando em cestos e sacos para casa da mordoma. Aqui juntavam-se as mulheres e, formando uma enorme roda à volta das maçarocas que eram recolhidas já descascadas, iam-nas debulhando e enchendo os grãos em sacas de serapilheira, devidamente pesadas, a fim de se venderem mais tarde. O dinheiro resultante dessa venda era destinado a celebrar missas pelas almas do purgatório. Esta operação implicava uma grande movimentação de gentes e recolhia grandes quantidades de milho. Quem não o tivesse ou, se assim o entendesse, oferecia um valor equivalente em dinheiro.

Por sua vez, o dia seguinte, chamado dia de Finados ou dos Defuntos, era um dia de luto, de missas, de orações e de visitas ao cemitério. Nesse dia celebravam-se, durante a manhã três missas, intercaladas com visitas ao cemitério, durante as quais, o pároco paramentado de negro, por entre orações, súplicas, rezas e pregações ia recordando os três “Novíssimos” que constavam do catecismo e que eram: Morte, Juízo e Inferno ou Paraíso. Era também durante este dia que, segundo se dizia, se comemorava a morte e o enterro do “Velho Laranjinho”, uma figura mítica e lendária que morria todos os anos e que simbolizava todos os mortos de cada freguesia. Era montado um catafalco no cruzeiro da igreja, à volta do qual se celebravam os ritos fúnebres como se de um funeral de verdade se tratasse. Os sinos dobravam a finados de manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite, convidando ao silêncio, à oração pelas almas e à reflexão sobre a nossa própria morte, que havia de chegar um dia.

 Durante os restantes dias do mês, com excepção dos domingos, realizava-se, na igreja paroquial, a devoção ou novena das almas. Já noite escura a igreja enchia-se de gente como se de domingo se tratasse e era celebrada missa, geralmente a chamada pelo Missal Romano “missa quotidiana dos defuntos”. A igreja permanecia propositadamente escurecida, sendo apenas iluminada pelas velas do altar-mor e por outras seis encravadas em outros tantos gigantescos castiçais dourados, colocados ao redor de um enorme tapete preto, debruado a amarelo e com uma enorme cruz a meio, estendido bem no centro do cruzeiro, logo a seguir à capela-mor. A escuridão do templo, por um lado, convidava e proporcionava aos crentes um ambiente mais propício à oração e à reflexão sobre o mistério da sua própria morte e, por outro, encenava uma espécie de enquadramento daquilo porque todos, sem distinção, já tinham passado – a lembrança da morte de algum familiar. De seguida o pároco envergando a capa de asperges preta e barrete de três quinas, colocava-se estrategicamente à cabeceira do tapete e, voltado para o povo, rezava um responso por cada um dos agregados familiares da freguesia, agrupados ao longo dos vários dias. Como as famílias obviamente eram em número superior ao dos dias do mês, o pároco agrupava em cada dia um número razoável e adequado de agregados familiares, sendo que, no entanto, rezava separadamente os responsos, ou seja um pelos defuntos de cada família. Entre a reza de cada responso, o pároco pegando no hissope encharcava-o na caldeirinha da água benta que o sacristão lhe apresentava, dava uma volta ao tapete e aspergia-o em cruzes sucessivas dos quatro lados, enquanto os sinos dobravam a finados.

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