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A AGRICULTURA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Terça-feira, 25.03.14

“Esta malandragem de hoje não quer mesmo trabalhar, não quer fazer nada. Quer é boa vida e passar as tardes a descansar à Praça ou na banqueta da Casa de Espírito Santo de Baixo, na conversa e no mexerico ou, o que ainda é pior, no café da Chica a beber aguardente, traçados e cerveja. No meu tempo não era nada disto. Nem café havia e parar à Praça só em dias de muito mau tempo e aos domingos. Nos outros, dias, era trabalhar de sol a sol e muitas vezes pela noite dentro e alta madrugada. Antigamente, não havia pedaço de terra que não fosse cultivado. Mas não era só junto das casas. Muitos campos que hoje são relvas de pastagem e alguns até terras de mato, no meu tempo eram aproveitados para cultivar milho, batatas-doces, abóboras e feijão. Além disso, também se semeava trevo, erva da casta e alcacel nessas terras onde se amarrava o gado à estaca, nos meses de Março e Abril. Por isso é que dava gosto ver os estaleiros cheios de milho e as lojas cheias de batatas-doces.

Era uma alegria ver aqueles campos cheios de milho, de bata-doce, de alcacel, de trevo e, alguns, até de favas. Muitos eram grandes serrados, como aquele do Tomé, na Alagoinha que hoje é uma relva. Era uma lindeza ver estes serrados enormes, cheios de milho muito verdinho e bem tratado, muito bem sachados, mondados, abarbados e cuidados. Até no mato, os filhos do José Teodósio cultivavam milho.

Aproveitavam-se para a agricultura todas as belgas e niquinhas de terra nas ladeiras do Covão, da Bandeja, da Tronqueira e até do Calhau Miúdo e das Águas que produziam sobretudo batata-doce e feijão, mas que também eram muito bem tratadas e estrumadas com sargaço ou esterco dos palheiros do gado. E era tudo acarretado à costas pois não havia carros de bois e os corsões não chegavam a muitos sítios, pois só havia canadas onde não cabia uma junta de vacas. Trabalhava-se muito! Todas belgas e currais eram trabalhados e produziam boas colheitas. Os serrados junto das habitações assim como os das Furnas, do Areal e do Porto, na altura em que não tinham milho eram destinados também às couves que serviam de alimento aos animais. Até os cantos das terras, onde o arado não chegava se cavavam e eram aproveitados para o feijão, a ervilha, a fava, o alho e o milho de vassoura. Lá para cima, nos Paus Brancos, Pocestinho, Cabaceira e Espigão é que havia terras de mato, cheias de faias e, sobretudo de incensos que, para além de fornecerem a lenha eram aproveitados, sobretudo os incensos, para alimento do gado, no Inverno. Pelo meio havia inhames que precisavam de ser trabalhados e feitos e cana roca que também eram ceifados e aproveitados para cama do gado nos palheiros e para os currais dos porcos. Hoje muito disto mudou. Em muitas terras já não se cultiva nada. Eu é que já não posso e fico muito triste ao olhar para algumas terras que noutros tempos eram bonzíssimas para milho e hoje só dão lenha e inhames. A agricultura do meu tempo era muito trabalhosa mas tínhamos sempre os nossos estaleiros bem cheiinhos de milho. Meu pai geralmente tinha que fazer um de tripé porque o grande não levava o milho todo. Eram outros tempos…”

 

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publicado por picodavigia2 às 10:59

O DIABO E A ESCURIDÃO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Segunda-feira, 17.02.14

Quando eu era criança meu avô contava uma outra estória que muito me assustava. Aos anos que isto foi…Era mais ou menos assim:

“Era uma vez uma ilha onde não existiam nem estrelas nem lua e, por isso, todas as noites eram tão escuras, tão escuras que todos os habitantes da ilha, durante a noite, se fechavam a sete chaves dentro de suas casas, com medo da escuridão que se fazia cá fora.

Mas vivia naquela ilha, retirada e longe das outras casas, uma mulher que não tinha medo da noite sem estrelas e sem lua, pois não temia a escuridão que ali reinava, todas as noites. Era uma mulher jovem, bela e muito bonita, mas era diferente de todas as outras mulheres da ilha. E por ser diferente, e por não ter medo de andar sozinha de noite, no escuro, nenhum habitante da ilha a queria tomar por esposa, e as outras mulheres recusavam-se a conversar com ela. Cuidavam as pessoas que a escuridão era obra do Diabo e, assim, quem andasse no escuro, caminhava sob a protecção do mafarrico. Sentindo-se só, a jovem, porque não tinha medo da escuridão, começou, cada vez mais, a sair de casa e deambular sozinha pelas noites escuras.

Mas, naquela ilha, havia uma outra mulher, muito feia e má, que, olhando para a beleza e audácia daquela jovem, ficou cheia de raiva e de inveja, decidindo que a havia de a castigar. Para o fazer, decidiu também sair de casa numa noite escura como todas as outras. Mas enquanto caminhava, como não estava habituada à escuridão, tropeçou numas pedras e caiu, ficando assustada, sobretudo muito barulho que lhe parecia ouvir à sua volta.

Cheia de medo e de raiva, chamou pelo Demónio, dono e senhor da escuridão, das trevas e da noite e pediu-lhe que transformasse a jovem tal jovem, a culpada da sua desgraça, na mulher mais feia e detestável daquela ilha e que ninguém mais gostasse dela, lhe desse ouvidos ou a ajudasse. Foi o que o Diabo quis ouvir, ele que está sempre pronto, à espera de fazer mal a uns e a outros. Por isso, de imediato, pôs-se, muito atento, à espera que a jovem saísse de casa, em mais uma noite de escuridão.

Na noite seguinte, logo após bater a última pancada da meia-noite, a jovem bela e bondosa, saiu de casa. Só que trazia sempre consigo, preso ao peito com um cordão de ouro, um cruxifixo, que, antes de sair de casa, beijava com fé, pedindo a Deus que nunca a abandonasse, sobretudo, nos momentos de perigo. Por isso quando o Diabo se cruzou com ela para a agarrar, sentiu a força da cruz, sendo assim, através desta, impedido de o fazer. O Diabo tem medo da cruz e quando vê uma foge a sete pés para bem longe.

A mulher invejosa ficou furibunda mas mais nada pode fazer do que correr para junto do mar e atirar-se lá para o fundo dos infernos, onde mora o Diabo. Antes porém contou a uma vizinha o que se passara e a estória correu por toda a ilha. Então o povo, sabendo o que se passara arrependeu-se da sua atitude, pois sabendo que aquela jovem era crente e temente a Deus e que a força e coragem que possuía vinha de Deus, nunca mais a desprezou. Dizem que, a partir desse dia, começou a haver estrelas no céu e a lua começou a iluminar a noite.

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publicado por picodavigia2 às 14:08

AS FEITICEIRAS (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 02.02.14

Meu pai contava que quando era criança, aqui na Fajã Grande as pessoas mais idosas diziam que no seu tempo havia muitas feiticeiras, as quais só saíam de casa entre a meia-noite e a uma da madrugada. Dizia-se que quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo, era para as feiticeiras se casarem. Também se dizia que elas se encontravam umas com as outras junto das fontes e nos cruzamentos dos caminhos onde dançavam nuas, mas ninguém asvia, pois eram invisíveis e nem sequer se conheciam, umas às outras. Se batesse a pancada da uma hora num relógio e elas não tivessem recolhido a casa, já não podiam mais entrar e tinham que ficar na rua para sempre e eram estas, pelos vistos, que depois andavam por aqui e por ali a fazer das suas. Como elas não sabiam que não podiam ser vistas mesmo de dia, escondiam-se em furnas e buracos aí para cima, na rocha e nos matos ou então no baixio, junto do mar.

Meu pai também contava que uma vez houve uma feiticeira que se descuidou e deixou que batesse a uma hora da manhã sem ir para casa. A pobre desgraçada foi apanhada por um homem, toda nua, que a reconheceu e viu que era sua própria mulher. Desesperada, a maldita fugiu e atirou.se ao mar e nunca mais apareceu. Também contava meu pai que outra vez uma mulher, numa noite, estando na cama, de repente, começou a sentir uma coisa muito pesada em cima de si. Ficou muito agoniada e aflita mas não conseguiu gritar nem sequer falar. Apenas conseguiu dizer baixinho a palavra “credo”. Nesse momento começou a sentir o peso a diminuir e a ficar menos agoniada. De seguida, benzeu-se três vezes, uma em nome do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo e meteu-se debaixo dos cobertores, com a cabeça coberta e nunca mais voltou a ser importunada por nada semelhante. Outra vez, contava ainda meu pai, um homem saiu de casa à meia-noite e encontrou uma galinha preta. Começou a enxotá-la mas a galinha cada vez mais se aproximava dele. Então o homem começou a dar-lhe pontapés e a cada pancada que se lhe dava, a galinha cantava. Foi então que ele viu que era uma feiticeira que estava metida no corpo da galinha. Meu pai contava muitas mais estórias de feiticeiras, que aconteceram, antigamente, aqui na Fajã Grande. Ainda me lembro de outra. Contava ele que há já muitos anos uma mulher que foi cozer o seu pão a casa de uma amiga, que lhe emprestara o seu forno, pois dizem que antigamente havia poucos fornos e era luxo que os pobres não podiam ter. Mas como a amiga precisava do forno, a mulher só pode cozer o pão de noite. Quando se veio embora para a sua casa com o cesto do pão à cabeça, faltavam cinco minutos para a uma hora da madrugada. A mulher seguia o seu caminho quando, de repente, viu um cavalo a correr atrás de si e muito aflita fugiu para um balcão de pedra de uma casa que ali se encontrava. O cavalo foi atrás dela mas assim que soou a badalada da uma da manhã, o cavalo desapareceu misteriosamente. A mulher nunca mais o viu e lá seguiu, cheia de medo, para a sua casa, mas nunca mais saiu de casa sozinha nem para cozer pão nem para nenhuma outra coisa.

Era assim antigamente! Estórias e mais estórias de feiticeiras não faltavam, aqui na Fajã Grande!”

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publicado por picodavigia2 às 22:39

A MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 24.01.14

17 de Janeiro de 1947

 

“Tenho tantas saudades da minha Benfeita… Ela era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha da minha Benfeita! É que cedo, ainda era uma bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já lavrava o meu cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio, tornava-se muito rija com os rigores do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas tinha que o puxar de canguinha, pois eu não tinha mais nenhuma rês. Ela porém lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste. Seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao cerrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Atrelava-a ao arado e ela traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do terreno. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita seguia sozinha, sem ninguém diante. Parava quando era preciso alisar algum torrão e virava, no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a de novo a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

É verdade que passadas umas semanas havia de consolar-se com as sobras do desbaste e mais tarde com a espiga e no Inverno com a rama seca. Ajudou-me muito a minha Benfeita. Mas nunca lhe faltei com erva fresquinha que lhe ia buscar de madrugada à lagoa das Covas, com incensos que acarretava da Cabaceira e com couves e rama de batata-doce que lhe trazia das Furnas.

Um homem afeiçoa-se tanto aos animais, que só Deus o sabe. E hoje chorei que nem uma Madalena, pois tive que ir levar a minha Benfeita à Vila, para a embarcar para Lisboa. O animal estava a ficar velho e, além disso, o outro dia ao descer a ladeira do Covão “pegou” no rapaz do Furtado. Durante toda a viagem até Santa Cruz, a pobrezinha não parou de berrar a berrar. Parecia que sabia para que estava destinada e para onde eu a levava.

Custou-me tanto, tanto separar-me dela que nem calculam.”

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publicado por picodavigia2 às 22:06

A ÁGUA DA FAZENDA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Terça-feira, 21.01.14

“Meu pai contava que quando era pequeno ouvia contar que há muitos, muitos anos o povo da Fazenda Vila, andava muito entusiasmado porque estava finalmente a realizar um sonho já velho: construir a sua igreja, dedicada a Nossa Senhora de Lourdes. Tinham escolhido um lugar alto e vistoso, de onde se podia avistar não só quase todas as casas do lugar mas também os terrenos verdes salpicados do azul das hortênsias, na Primavera e Verão ou ainda de onde podiam ver e observar o mar até ao horizonte.

Aquela gente andava muito contente mas também muito cansada porque tinha de fazer os seus trabalhos nas terras e não eram poucos mas tinham também que ajudar nas obras da sua igreja. Mas o pior é que não havia água nas redondezas, tinham que a ir buscar muito longe, o que dificultava ainda mais os seus trabalhos. Enquanto os homens iam levantando as paredes com os mestres, as mulheres e as crianças caminhavam de latas e baldes de madeira à cabeça para a Ribeira de Além, buscar água. De lá traziam, com grande esforço sacrifício, a água que os homens precisavam para ir fazendo a argamassa. Várias vezes, durante a viagem, debaixo de um calor intenso, as mulheres pediram a Nossa Senhora de Lourdes que lhes deparasse uma coisinha de água, ali mais perto. E não +e que Nossa Senhora fez o milagre…

 Uma certa noite, enquanto todos dormiam profundamente e descansavam de um dia de muito trabalho, a água nasceu na rocha e começou a correr com abundância ao pé do lugar onde estavam a levantar as paredes da igreja. De manhã, ao chegarem, os trabalhadores ficaram muito admirados com toda aquela força de água. Então as pessoas da Fazenda, animados na sua fé, trabalharam ainda com mais vontade, até acabar a construção da sua igreja.

 Mas a água continuou a correr numa fonte debaixo da sacristia da igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Os florenses, em geral e os fazendenses em particular,  começaram a sentir uma veneração muito especial por esta água fresca que, para além de os ajudar na construção da igreja, curou muitas doenças às pessoas, algumas vindas de freguesias distantes só para beber a milagrosa água de Nossa Senhora de Lourdes.

Passaram-se muitos anos. A igreja precisava de ser pintada. Pois o povo daquele lugar, ensaiou umas belas músicas e percorreu a ilha toda a pedir ajuda para conseguirem o dinheiro para comprar as tintas. Também vieram aqui à Fajã. Pernoitavam em casas de pessoas amigas e cantavam assim pelas portas de todas as casas:

Nossa Senhora de Lourdes,

É que vos há-de abençoar,

Se derdes a vossa esmola

P´ra pintar o seu altar.”

Correram a ilha inteira e pediram em todas as casas. Cada um dava como podia e, assim, conseguiram, restaurar a sua igreja,”

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publicado por picodavigia2 às 14:45

A REVOLTA E O CASTIGO DE LUCIFER (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sábado, 18.01.14

Uma “estória” muito interessante que meu avô me contava muitas vezes era a da revolta e do castigo de Lucifer, o anjo bom que vivia junto de Deus e que se tornou no diabo, sendo lançado no Inferno.

Segundo ele me contava, Lucifer era o mais belo, o mais bonito e o mais maravilhoso anjo do Paraíso. O seu nome significava: portador da luz e estava sentado ao lado de deus, beneficiando das suas graças, benevolências, dádivas e favores permanentes.

Lucifer possuía muitas qualidades, algumas um tanto ou quanto estranhas: era tão belo e de aspecto tão delicado que o seu rosto parecia o de uma donzela, os seus cabelos possuíam um brilho dourado e os seus olhos eram azuis e brilhavam mais do que as estrelas. Era esbelto de corpo, elegante no andar e desenvolto nas suas atitudes. Mas, o que mais chamava a atenção dos que com ele conviviam, eram as suas extravagantes botas que calçava: eram vermelhas, de cano longo e com um salto tão delgado que parecia uma agulha.

Além disso Lúcifer gozava da confiança plena de deus. Era o anjo da beleza suprema, exercendo, na corte celeste, algumas funções de grande responsabilidade: era o estilista-mor, o costureiro principal, o chefe dos bailarinos e o cabeleireiro privativo do seu chefe. Mas Lucifer também tinha defeitos e o principal era ser muito vaidoso e ambicioso.

Um certo dia, olhando-se ao espelho, encantado com a sua beleza, exclamou:

- Como sou bonito! Sou tão lindo que mereço um paraíso só para mim!

Decidiu, então, Lúcifer, ir ter com deus, dizendo-lhe:

- Meu deus e meu senhor! Como vedes sou o anjo mais bonito, mais elegante, mais esbelto e mais habilidoso de quantos existem nesta corte celeste. Sou tão belo e tão bonito como tu, por isso eu quero ser igual a ti, em força, em glória, em esplendor e em poder. Quero ter uma corte celestial semelhante à tua, ter coros de anjos e arcanjos ao meu redor, que me obedeçam e sirvam. Quero ser, em tudo, igual ou superior a ti.

Deus ouviu e, embora não cumprindo os seus pedidos, prometeu que se ele ali permanecesse lhe havia de dar mais poder, mais glória e mais exaltação. Mas Lucifer, não aceitou. A sua ambição era infinita e os seus desejos incontroláveis. Por isso Deus, furioso, decidiu castigá-lo severamente.

- A tua ganância e a tua ambição pelo poder perderam-te. Vai-te daqui para fora, vai para o inferno.

De repente abriu-se um enorme buraco no universo, no fundo do qual ardia um lume intenso e devorador, para onde Lucifer foi atirado e onde permaneceu para sempre, junto com os outros anjos maus que o acompanharam na sua revolta contra deus.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:07

O COELHO SEM RABO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 14.01.14

Um outro dos contos engraçados que meu pai me contava e que, por sua vez meu avô lhe contava, já lá vão mais de cem anos era o seguinte:

“No tempo em que os animais falavam, um coelho e um gato combinaram dar um passeio, juntos, pelo campo. Enquanto o coelho comia erva verde e fresquinha, o gato, não encontrando nada com que se entreter nem muito menos com que matar a fome, sentou-se e começou a roer o rabo do coelho, deixando-lhe, no fim, apenas um coto. O coelho bem pedia ao gato que lhe restituísse o seu muito estimado rabo:

- Ó gato, dá-me o meu rabo, por favor dá-me o meu rabo.

Ao que o gato retorquiu:

- Só se me deres leite para eu beber. Tu tens a erva para comer e eu não tenho nada com que me possa alimentar.

 O coelho, que o que mais queria era voltar a ter o seu rabo, foi ter com a vaca, que passava por ali perto, pedindo que lhe desse leite, para dar ao gato, para o gato lhe dar rabo.

A vaca disse-lhe que lhe dava o leite se ele lhe arranjasse alguma erva daquela relva, ali ao lado, pois também tinha muita fome.

Foi o coelho ter com a relva do lado e pediu-lhe erva para dar à vaca, para que a vaca desse leite, para o dar o leite ao gato, para que o gato lhe desse o seu rabo.

- Só te dou erva – respondeu a relva - se pedires à chuva para me regar, a fim de que eu possa ficar muito verde, fresquinha e apetitosa.

O coelho foi ter com a chuva e pediu-lhe que regasse a relva, para que ela produzisse erva fresquinha, para alimentar a vaca, para a vaca dar leite, para dar o leite ao gato, para que o gato lhe desse o rabo.

A chuva disse-lhe:

- Só se fores pedir à nuvem que me autorize a cair, a transformar-me em gotas, para poder alimentar a erva.

 Foi ter o coelho ter com a nuvem e pediu-lhe

- Nuvem deixa que a chuva que tens em ti se transforme em gotas, para que as gotas caiam e alimentem a relva, para a relva produza erva fresquinha para alimentar a vaca, para a vaca dar leite, para o leite alimentar o gato, para o gato me dar o rabo.

A nuvem disse-lhe;

- Eu te darei chuva se pedires ao vento que me desfaça para me transformar em gotas.

Mas o vento era muito forte e resolveu soprar com toda a sua força que levou o gato e o coelho pelos ares, ficando o coelho, para sempre, sem o seu elegante rabo.”

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publicado por picodavigia2 às 00:33

A VACA LOUCA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 12.01.14

“Hoje vou contar mais uma “estória” muito antiga que meu pai me contava quando eu era bem pequeno.

Há muitos, muitos anos - contava ele - na Cuada, vivia um homem que passava todo o seu santo dia a tratar das duas vaquinhas leiteiras que tinha e que eram o seu sustento e da sua família. Tratava-as com tanto cuidado e carinho que elas, para ele, eram quase como se fossem pessoas da sua família. Eram as meninas dos seus olhos. Ai tal amor, aquele homem tinha às suas vacas! No Inverno levava-as aos pastos, durante o dia e à noite recolhia-as ao palheiro, protegendo-as dos temporais e do frio e alimentando-as com maçarocas de milho e erva bem verde e fresquinha que ele próprio acarretava às costas, das lagoas do Curralinho. No Verão, para que elas não sofressem o calor do dia, guardava-as no estábulo e levava-as a pastar aos campos pela frescura da noite.

Ora aconteceu que um certo dia, um das vacas, quando ele as ia levar a um pasto que tinha nos Lavadouros, ao passar pelo Calhau do Tufo, junto à canada que dá para a Fajã das Faias, assustou-se por qualquer razão e desata a correr a toda a velocidade por aquela canada a baixo, na direcção da Ribeira Grande. Parecia que estava louca, a “cramilhana”. Tinha o diabo no corpo, a maldita. O lavrador ficou preocupado, pois não tinha pastos para aquelas bandas e a vaca nunca tinha passado naquela canada. Por isso começou a chamar por ela:

 — Formosa! Formosa! Ó Formosa? Que diabo terá acontecido a esta vaca?

Prendeu a outra vaca à beira do caminho, num galho duma faeira e desata a correr tanto quanto podia, pela canada abaixo, atrás da rês, até que conseguiu agarrar-lhe o rabo, lá em baixo, já quase junto à Ribeira Grande. Mas não foi capaz de aguentá-la, nem impedi-la de continuar a correr como louca, a fugir, a caminhar desnorteada e a entrar por uma grandessíssima furna dentro, arrastando o domo atrás de si.

 Correu, correu sem parar, pela furna dentro e o dono sempre atrás a puxar por ela, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo homem. Lá muito para dentro, bem no interior da furna corriam, saltavam, andavam de um lado para o outro muitos homens, mas eram muito pequeninos e tinham muitas vacas, umas com galhos enormes, outras “moichas”. Havia também muita roupa estendida ao sol nas beiras dos caminhos e muitos galos também a correr de um lado para o outro e a cantar.

 O animal entretanto tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão que andava misturada com os animais domésticos. O homem nunca mais a viu, por isso, cada vez mais admirado, nem sabia como sair dali.

 Enquanto andava por ali, à deriva e sem saber o que fazer, viu pelas beiras do caminho umas plantas muito estranhas que nunca tinha visto na Cuada.

 Agarrou numa, puxou com toda a força e por fim arrancou-a. Vendo que não encontrava a vaca que o tinha arrastado até ali, resolveu voltar ao sítio onde deixara a outra, pelo mesmo lugar por onde tinha ido, trazendo na mão uma planta muito estranha, mas que seria a prova de que tinha ido aquele lugar misterioso.

 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava a planta que tinha trazido consigo e que as pessoas nunca tinham visto igual. A furna, por onde o lavrador entrou, já lá não está visível mas a planta que o lavrador trouxe passou a crescer na Cuada e só desapareceu, misteriosamente, depois da morte do lavrador.

Se esta estória é verdadeira ou falsa, não sei, mas era assim que meu avô a contava.

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publicado por picodavigia2 às 11:05

A LENDA DA LAGOA SECA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 10.01.14

Domingo, 21 de Setembro de 1946

“Esta nossa ilha das Flores está repleta de ribeiras, lagoas, poços muito fundos, grotas e regos de água por toda a parte. É uma ilha repleta de sombras, esconderijos e mistérios a que se associam muitas estórias e lendas. Além disso é um lugar onde chove muito o seu solo é muito húmido e o subsolo repleto de água, donde brotam muitas nascentes, algumas com água bem fresquinha e saborosa, como é a Fonte Vermelha, aqui na rocha da Fajã ou o Rossio ali no centro da Fajãzinha. Mas existem muitas outras nascentes, algumas delas pequeninas como uma que tenho na minha lagoa das Covas, outras bem maiores e muitas delas a brotarem tanta água que se transformaram em ribeiras, grotas e lagoas de todos os tamanhos, formas e feitios, a abarrotar de água e de frescura por toda a ilha e por todo o território geográfico da freguesia da Fajã Grande, entre o mar e os elevados montes do Queiroal, da Água Branca e Rochão do Junco, desde da Caldeirinha e do Risco até à Ribeira Grande. São locais muito bonitos, espaços paradisíacos, pedaços do céu que remendam a terra e dão a esta freguesia uma áurea de sublimidade, de encantamento e de graciosidade. No entanto e no meio de toda este conjunto de belezas aquáticas e paisagens naturais, existe uma, mas uma apenas que a natureza encravou no subsolo, tão profunda, tão aberta, tão redonda e tão bem edificada nos contrafortes das rochas e montes circundantes, que pura e simplesmente não tem nascente, nem tem água. Está seca e ninguém se lembra de alguma vez ter armazenado no seu seio qualquer quantidade de água. Um fenómeno natural muito difícil de explicar. Como é que numa terra onde chove tanto e onde existe tanta água no subsolo existe uma lagoa seca, sem água? Até porque é em tudo igual às outras lagoas, simplesmente não tem água e, por isso, lhe puseram o nome de Lagoa Seca.

Situada nas proximidades das restantes lagoas que ocupam o território da Fajã Grande, já na fronteira com Santa Cruz, a Lagoa Seca, precisamente por ser seca, ainda hoje constitui um enigma difícil de decifrar. Porquê seca se sobre ela cai tanta chuva como nas restantes? Porquê seca se o subsolo ao seu redor parece ter as mesmas nascentes que as outras têm, uma vez que se situam ali perto? Pois meu pai, quando eu era criança, contava-me uma estória bem antiga, uma lenda conhecida como a “Lenda da Caldeira Seca” e que era mais ou menos assim:

Contava ele que há muitos, muitos anos, havia ali, naquele lugar, um pequeno povoado. Um certo dia, em que todos os habitantes daquele lugar estavam em festa e se divertiam a bailar e a cantar, uma mulher velha, doente e sem poder sequer socorrer-se a si própria, estando às portas da morte, mandou pedir aos seus conterrâneos que lhe fossem buscar um pouquinho de água, pois morria de sede e dentro do povoado não havia uma única fonte. Mas ninguém daquele lugar, se predispôs a ajudá-la, pois estavam a divertir-se e por nada deste mundo iam deixar aqueles folguedos, muito menos para ir ajudar uma velha tonta e já decrépita, quase a morrer. Era o que lhes havia de faltar: parar o bailarico para ir buscar água para a velha! E ninguém foi ajudar a velhinha, tendo esta, algum tempo depois morrido de fraqueza, de fome e, sobretudo, de sede.

Foi então que depois da sua morte caíram grandes tempestades e fortes cataclismos sobre aquela localidade, a terra abriu-se e dela saiam labaredas. Como não havia uma única gota de água para abrandar aquele fogo infernal, em pouco tempo, tudo foi consumido e desapareceu: pessoas, animais, casas, campos e utensílios. Só quando tudo aquilo acalmou se viu que aquele lugar tinha sido todo queimado, destruído e transformado naquela cova ou buraco que se tornou numa lagoa, bela, frondosa, rodeava de flores e de verdura, em tudo semelhante às outras, mas, simplesmente, sem água - seca.” 

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publicado por picodavigia2 às 15:06

APANHAR O MILHO (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Quinta-feira, 09.01.14

Quinta-feira, 18 de Setembro de 1946

“Está a aproximar-se o tempo de apanhar o milho. Pelo menos o que foi semeado nas terras e serrados junto do mar, que nas outras ainda nem sequer foi desfolhado. Antigamente, quando eu era criança, esta época era uma altura de grande festa e alegria, uma época do ano muito agradável e muito bonita, não só a apanhar o milho, mas também e, sobretudo, o encambulhá-lo e descascar as maçarocas mais verdoengas, o pendurar os cambulhões de milho nos estaleiros ou ainda moer, nos moinhos de mão, as maçarocas que, como se dizia, ainda vertiam e cuja farinha servia para fazer as papas saborosas papas grossas. Ainda hoje a minha Maria as faz e são uma delícia. Pena serem feitas apenas por esta altura do ano.

Os dias de apanhar o milho, antigamente, eram autênticos e verdadeiros dias de trabalho mas também de festa, em casa da maioria dos lavradores. Quando as maçarocas já estavam bem maduros, marcava-se o dia da apanha, para não coincidir com os marcados pelos amigos e familiares, pois todos se ajudavam uns aos outros. Depois procedia-se à apanha das maçarocas, retirando-as dos milheiros e enchendo-as em cestos bem “acaculados”, que depois eram colocados sobre as paredes e, posteriormente acarretado para os corsões puxados pelas vacas. Esse dia era um dia de festa e um dia muito especial. Homens, mulheres e crianças, todos se dedicavam à apanha das maçarocas, ao encher dos cestos e carregá-los às costas para os corsões. Estes eram forrados no fundo com milheiros da própria terra e era-lhes colocado ao redor uma sebe feita de vimes. Uma vez cheios, os corsões eram conduzidos a casa e o milho despejado na cozinha ou na sala. Como geralmente vinha muita gente de fora ajudar, a dona da casa mais uma ou outra mulher ficavam em casa a fazer o jantar que nesse dia era melhorado, e, às vezes, depois de preparado era levado até ao cerrado onde se colhia o milho e as pessoas estavam a trabalhar.

 Era da parte da tarde que geralmente se começava a encambulhar e a descascar as maçarocas, a não ser que o cerrado fosse muito grande ou o dono decidisse apanhar o milho de duas ou mais terras no mesmo dia. Neste caso, aproveitava-se o serão, o que tinha a vantagem de ter muita mais gente a ajudar. Esses serões ainda tornavam a festa ainda mais animada. Cantava-se e geralmente serviam-se uns biscoitinhos com genebra ou aguardente de cinco estrelas. Quando o milho era encambulhado de noite, para o pendurar no estaleiro acendiam-se lanternas e era também muito divertido. Mas muitos não gostavam de pendurar o milho de noite, pois diziam que “o que se faz de noite aparece mal de dia”. Penduravam-no dia seguinte.

Uma parte do milho era descascado, fazendo-se com ele também cambulhões que eram dependuradas geralmente nos tirantes dos quartos de dormir, da sala ou da cozinha para aí se conservarem melhor e até secarem. As maçarocas mais verdoengas descascavam-se, debulhavam-se para depois se moerem os grãos nos moinhos de mão e fazer as papas grossas.

No meu tempo ainda havia muitos lavradores que semeavam e cultivavam o trigo e, por isso não tinham milho ou se o tinham era em pequena quantidade.”

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O BALEEIRO PERDIDO (DIÁRIO DE TI ANTONHO)

Quarta-feira, 08.01.14

24 de Junho de 1946

 

Contavam os antigos, que certo dia, aqui na Fajã, depois do vigia, de lá de cima do Pico, atirar o foguete anunciador de que havia sido descoberta baleia, os homens que andavam na sua faina agrícola diária, de repente, uns largaram o sacho mesmo ali no lugar em que se encontravam, alguns atiraram a foice com que ceifavam fetos e cana roca para um canto, outros abandonaram os animais que andavam a tratar e todos, vindos dos campos de perto ou das terras de longe, correram para o Porto Velho, onde estavam varados os botes baleeiros e em cujo boqueirão estava a lancha que os rebocava. As mulheres, aflitas e espavoridas, corriam para casa a fim de lhes prepararem uma dentada de comida acompanhada com café que os seus homens levassem para o mar e com que se alimentariam o dia inteiro. Depois de tudo preparado lançavam-se também em louca correria na direcção do mar, com a intenção de chegarem antes que partissem. Os homens, sobretudo os mais lestos e que haviam chegado primeiro, arriaram os botes à pressa e, juntando-se aos atrasados, remavam afoitamente, iniciando uma marcha lenta pelo mar fora, enquanto as mulheres de cima dos rochedos do baixio lhes iam atirando os sacos de pão de milho ou bolo, com queijo, linguiça, inhames e peixe frito, uma garrafa com café e num caso ou outro, de sumo ou de vinho. A lancha, esperando pelas sacolas de comida mais atrasadas, iniciava também a sua marcha, aproximando-se dos botes e lá os ia rebocando pelo mar fora, até desaparecerem no horizonte. As mulheres regressavam a casa a abafar suspiros e a avantajar desejos. Os botes, no mar alto, navegando à vela algum tempo, no alto mar para não assustar os cetáceos, avistaram por fim uma gigantesca baleia, que se fosse apanhado daria para cima de cem barris de óleo, despertando assim ainda mais a fúria desesperadora dos baleeiros. Era uma pechincha que não se podia desperdiçar de forma alguma.

Como todos a queriam caçar, gerou-se grande reboliço entre os botes. Apanhar uma baleia daquele tamanho era um acto heróico. Desceram as velas, enrolaram-nas nos mastros e começaram a remar na ânsia de caçar o enorme cetáceo que, pouco depois, como que amedrontado, voltou a mergulhar para aparecer uns bons metros mais fora, lançando para o ar enormes jactos de água que enchiam o mar de ondas e espuma. Um dos botes conseguiu aproximar.se e pôr-se em posição mais vantajosa para atirar. Sob as ordens dooficiale, o trancador, curvando o corpo e fixando o olhar naquela enorme mancha negra, atirou o arpão certeiro ao sítio mais adequado. A alegria enorme mas a confusão ainda foi maior. A baleia, ferida e louca de dor, num instante levou a primeira celha de linha, e depois a segunda. Só que antes da ponta da linha sair da celha, o trancador, apesar de forte e robusto, agarrou-a a amarrou-a ao tronco. Mas de repente, sem que ninguém esperasse, caiu que nem um melro. Preso na linha, num ápice foi arrastado pela borda do bote e engolido pelo mar, enquanto os companheiros ficavam atónitos, aflitos, enterrados num silêncio de morte. Só o oficial dizia: "Não! Não!"

O gasolina passou a triste notícia aos restantes botes e toda a tarde procuraram com tristeza o pobre baleeiro desaparecido. Exaustos, desolados, com uma tristeza de morte a tolher-lhes o rosto, não podendo fazer nada, voltaram, já noite alta para terra.

 A chegada ao Porto Velho foi de grande tristeza e consternação. Todos os baleeiros se abraçavam aos seus e choravam amargamente. Um silêncio profundo enegrecia ainda mais o porto. A família vestiu-se de luto e toda a santa noite as vizinhas choraram e carpiram de dor enquanto os homens contavam em voz baixa, como tudo se tinha passado.

No dia seguinte ainda saíram alguns botes à procura, por descargo de consciência, do corpo do trancador para que lhe dessem enterro digno. Depois de muito andarem, começaram a avistar, ao longe, um negrume no mar e foram para lá. Qual o seu espanto quando avistaram, sobre a grande baleia, já morta, o baleeiro, de pé, encostado ao cabo do arpão fincado no toucinho do animal. Como se nada tivesse acontecido disse para os colegas por quem esperara toda a noite:

 " Só agora é que vocês chegam? Tenho estado aqui toda a noite à vossa espera!". De seguida, perante o pasmo dos outros, saltou para o bote, como se nada fosse. E foi ele que prendeu a baleia ao gasolina para a rebocar para o porto de santa Cruz, porque os outros de tanto medo e pânico que tinham, não foram capazes de o fazer.

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publicado por picodavigia2 às 10:21

DESFOLHAR RAMA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 03.01.14

Sábado, 14 de Setembro de 1946

“Esta noite deitei-me muito tarde, quase nem dormi, e também porque tive que me levantar muito cedo para ir ceifar e buscar um molho de erva à minha lagoa das Covas. As minhas vacas estavam sem comida… O tempo, ontem, esteve muito bom e a noite maravilhosa. Era noite de Lua cheia e era preciso aproveitá-la. Os trabalhos agrícolas devem ser realizados de acordo com as fases da Lua. Há umas luas boas para isto e outras para aquilo, por isso tinha que aproveitar esta Lua cheia para desfolhar o meu milho, além disso como a noite estava muito clara foi fácil fazer o trabalhinho. Felizmente, tive muitos amigos a ajudarem-me. Sozinho não conseguia fazer quase nada. Assim, juntamente com o meu compadre Joaquim e muitos outros amigos, aproveitei para, durante a noite, ir desfolhar a rama do milho do meu cerrado das Furnas. Quando as folhas e o caule do milho começam a alourar e quando as maçarocas principiam a ficar durinhas, resistentes à unha e com a casca amarelada é altura de quebrar as espigas. Mas isso, eu já tinha feito. Como precisava de comida para as vacas lá fui apanhando um molhinho de espigas hoje, outro amanhã e em poucos dias dei cabo delas todas. Mas quebrar a espiga também é uma arte, é preciso saber fazê-lo. Se se fizer bem feito é muito melhor para o milho, pois terá melhor qualidade. Primeiro não se deve quebrar espiga a eito, é preciso ir andando pelo terreno e descobrir quais os pés que já estão prontos para quebrar a espiga. Se não se quebrar a espiga na altura certa, podemos prejudicar ainda o crescimento e o amadurecimento da maçaroca e, consequentemente, dos grãos de milho. Além disso cada espiga ou pendão deve ser quebrada no nó certo e adequado, ou seja, pelo primeiro nó logo acima da maçaroca, devendo para tal obedecer a um toque ou movimento afoito, rápido, destemido e certeiro da mão. Hoje em dia, há muitos rapazes novos e modernos que têm a mania que sabem tudo, mas não sabem quebrar espiga. Se partirmos o milheiro por outro sítio, não o conseguimos quebrar à mão, é preciso usar uma navalha ou uma foice para o cortar. Há muitos rapazes novos que cortam a espiga com uma navalha. mas meu pai dizia que isso não era tão bom para o milho

Mas esta noite, aproveitando o luar, fui desfolhar o meu milho. Felizmente, tive muita ajuda e em poucas horas o milho do cerrado ficou todo desfolhado. Há dias atrás, tinha ido ali acima ao Outeiro, apanhar uma boa gavela de folhas de espadana. Pu-las ao Sol para secarem um pouco e depois cortei-as aos pedacinhos pequeninos, desfiei-os em tiras bem fininhas, amarrando-as em pequenos molhos, para que cada um os pudesse amarrar no suspensório ou a uma alheta das calças e assim dispor melhor das tiras para com as elas ir amarrando as pavias da rama. Depois de amarradas, as pavias são penduradas num ou noutro dos milheiros, junto à maçaroca, para que, sequem melhor. Com aquela gente toda aquilo foi rápido. Por volta da meia-noite o milho do cerrado estava todo desfolhado. Agora as pavias estão penduradas nos milheiros. É necessário esperar alguns dias, para que a rama seque. Daqui a dias com a ajuda da minha Maria hei-de recolhê-las. A minha Maria há-de as ir tirando dos milheiros e eu a fazer molhos que depois hei-de acarretar no corsão de canguinha puxado pela gueixa. Meu compadre Joaquim prometeu que o filho me havia de ajudar. Se assim for, tanto melhor. Como a carga, apesar de volumosa, é muito leve, não é necessário encangar uma junta e assim vou poupando as vacas leiteiras. Já se sabe que as vacas quanto mais trabalham menos leite dão. Mas hoje ainda vou voltar ao cerrado a fim de ver como é que aquilo ficou feito. Meu pai dizia que o que é feito de noite se vê de dia. É que desfolhar rama não é tarefa fácil, exigia-se que a folha seja arrancada do milheiro com a bainha, o que, sobretudo para os menos experientes é difícil e então de noite. Não me admiro até se um pé ou outro de milho não ficou por desfolhar… Mas eu tive bons desfolhadores e sei que fizeram o serviço bem feito. Alguns nem precisavam dos fios de espadana, conseguiam amarrar as pavias de folhas com uma outra folha.

A rama depois de seca e enxuta vai ser acarretada e guardada na minha casa velha, pois bem vou precisar dela para a alimentar o gado no Inverno, sobretudo nos dias de mau tempo durante os quais eu não puder ir buscar comida fresca às minhas terras.”

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publicado por picodavigia2 às 00:05

DIA DE NATAL (DIÁRIO DE TI ANTONHO)

Quarta-feira, 25.12.13

25 de Dezembro de 1946

“Hoje é um dia muito especial. Como me lembro deste dia, como ele era antigamente, quando eu ainda era «monço» pequeno. Os sinos da nossa igreja não paravam de repicar, neste dia. Nessa altura, aqui na Fajã Grande, viviam dois padres e, como no dia de Natal cada um podia e devia dizer três missas, aquilo nunca mais acabava. Eram missas e missas atrás umas das outras, toda a manhã. Começava à meia-noite com a missa do Galo, celebrada pelo vice vigário, o padre José Francisco Morais, um homem muito inteligente e que mais tarde foi chamado pelo bispo para a Terceira, para ser professor no Seminário. No dia de Natal as missas começavam logo de madruga. A primeira era celebrada ainda de noite e destinava-se os que não tinham ido à missa do galo e era celebrada pelo cura coadjutor o padre Manuel Alfredo Goulart, de quem também ainda me lembro. Era um dia extraordinário e muito bonito. Os padres faziam longos sermões, durante os quais explicavam como o Natal devia ser celebrado, com muita alegria e paz, na simplicidade cristã do povo de Deus. Explicavam também com tudo aconteceu há quase 2000 anos, numa gruta, em Belém. Foi ali que nasceu, rodeado de Nossa Senhora e são José, um burrinho e uma vaca e muitos pastores e anjos. Uns dias mais tarde, chegaram os três Reis do Oriente.

Naqueles tempos as pessoas iam muito à igreja e assistiam às missas e a todas cerimónias religiosas. Na noite de Natal, então, a nossa igreja enchia-se. A missa era cantada e com sermão e os padres vestiam as roupas melhores, muito brancas e amarelas. O vigário celebrava e o cura pregava. Assim que o sino dava as badaladas, todos corriam para a igreja, a fim de chegarem a tempo e ouvirem o sacerdote cantar o “Glória in excelsis Deo” que era, segundo diziam, o momento em que Menino Jesus nascia. Nessa altura é que os sinos não paravam de repicar. A igreja ficava totalmente iluminada porque nesse momento as pessoas levantavam os pavios das lanternas de petróleo que levavam para a igreja. Era um momento muito bonito.

No fim da missa o padre ia buscar a imagem do Menino Jesus a um presépio que faziam de baixo do altar lateral, onde havia casas, montes, ribeiras, vales, terras de relva e lagoas como as dos nossos matos. Havia também pastores trazendo ovelhas e cordeiros às costas, pessoas a levarem ofertas, os reis Magos, São José, Nossa Senhora e o Menino Jesus deitado nas palhas de uma manjedoira. Havia sempre a casa de Barbearias, que foi quem deu o lume a São José para aquecer a água para dar o banho ao Menino Jesus.

No final da missa o padre ia junto presépio, pegava na imagem do Menino e colocava-se à grade para o “beija-pé” do Menino. Nas nossas casas também se faziam presépios com as figurinhas todas e com o burrinho e a vaquinha. Eram as crianças que ficavam muito contentes e se alegravam com tudo, pois passavam horas e horas diante do presépio a ver o Menino Jesus, Sua Mãe e S. José, com o burrinho, a vaquinha e os pastores ao lado. Para elas tudo era um encanto.

Nesse tempo nem havia presentes como agora. Em regressando a casa, depois da missa, cada um ia para cama, sonhar com o que vira e ouvira na igreja.

Depois de jantar, geralmente linguiça e torresmos com inhames, às vezes ainda morcela ou restos do galo que se comia na ceia do dia anterior, as mulheres faziam visitas aos familiares e às amigas e passavam a tarde nas casas umas das outras. Nós, os “monços” pequenos juntávamo-nos em ranchos a cantar pelas casas, neste dia, no de Ano Novo e no de Reis

Como era diferente o Natal de outros tempos! Hoje é tudo modernices. Muitos já nem à missa vão.

 

E porque é dia Natal, vou passar o dia em minha casa, com a minha Maria que este ano até fez filoses. Desejo, a todos, um Natal muito Feliz.

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publicado por picodavigia2 às 11:51

A PRAÇA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 22.12.13

Domingo, 8 de Setembro de 1946

“Hoje é domingo e esteve um dia de muito bom tempo. Afinal ainda estamos no Verão, mas aqui nas Flores e na Fajã Grande, por vezes, em Setembro, chove como Deus a dá e o vento sopra com tanta força que quase nem se pode sair de casa. Mas hoje esteve um dia de muito bom tempo, por isso, de tarde, fui sentar-me à Praça, como é costume aqui na Fajã Grande. Lá estavam muitos homens da minha idade, os velhos de hoje, que foram as crianças de ontem. Mas também lá estavam alguns bem mais novos e até algumas crianças. Mas estas não paravam em ramo verde. Sempre a correr, a brincar e a saltar, Da minha idade, mais ano menos ano, estavam o João Barbeiro, o Mateus Felizardo, o José Batelameiro, o Manuel Dowling, o Caixeiro, o José Pureza, o João Augusto, o Antonho Joaquim, o José Eduardo, o Antonho do Alagoeiro, o José André, o António Maria e muitos outros. Ali passámos a tarde inteira, umas vezes a dormir, outras a conversar e a falquejar. Apenas, de vez em quando, umou outro se levantava para ir ao seu palheiro, deitar comida às vacas.

Mas a Praça hoje já não é o que era no meu tempo de criança e de rapaz, antes de eu ir para a América, embora ali ainda se juntem muitos homens, sobretudo aos Domingos e durante as tardes de muito calor. Mas antigamente aquilo é que era! A Praça era muito diferente do que é hoje, estava sempre cheia de homens, era um espécie de lugar mítico, bastante maior do que agora e rodeada de casas, sendo uma delas, aquela que hoje serve de arrumos ao Laureano Cardoso, a casa onde moravam os avós deste rapaz aqui da Fajã, que se tem revelado um grande poeta e escritor e também um opositor ao regime do Salazar, o Pedro das Mendonças. E sobre isto mais não digo, porque as paredes têm ouvidos. É que dizem que a guarda tem andado por aí, a pedir informações a uns e a outros sobre o que o rapaz diz e escreve contra o Governo de Salazar. Parece que o querem engaiolar. Por isso voltemos à nossa conversa sobre a Praça, um dos mais belos e emblemáticos lugares da Fajã Grande.

Era ali que, quando eu era pequeno se reuniam os homens mais velhos, alguns até tinham apelidos bastante interessantes: o Ti Capãozinho, o Antonho Anina, Ti Antonho Fanha, o tenente Rodrigues Freitas, o José Sailé, o Manuel Inácio Xibante, o senhor padre António José de Freitas, Ti Antonho Silveira, Ti Manuel Ferreiro, Ti João Aço, Ti Manuel Cavala, Ti António George e tantos outros. Ali ficavam tardes e tardes inteiras, a falar, a conversar, a contar estórias da América, coisas de outros tempos. Era também ali que decidiam quando seria o dia de Fio, quem iria juntar as ovelhas por este ou por aquele sítio, quem devia fazer as testadas, em que dia, cada um usava a água dos regos das lagoas da Figueira e das Covas e muitas outras coisas. Era também na Praça que se escolhia o gado para matar pelo Espírito Santo, os interesses e as necessidades da freguesia que tinha sido separada da Fajazinha há poucos anos, o que era preciso construir e quem havia de o fazer. Falava-se dos ataques dos piratas, de naufrágios, das embarcações que paravam nas ribeiras para se abastecer de água e dos que fugiam para a América a bordo delas e das baleeiras. Era ali também que se fazia justiça, se pregava a moral e os bons costumes, que se decidiam as partilhas dos que não se entendiam e se falava da religião. Era também ali que se previa o tempo, lendo nas nuvens como estaria o tempo no dia de amanhã, de que lado sopraria o vento e se iria ou não chover, no dia seguinte. A Praça ainda era uma espécie de tribunal, pois era lá que se julgavam e condenavam uns e outros por actos, gestos e falas menos correctas. Mas o melhor da Praça era que lá se descansava e, às vezes, até se dormia. Que saudades eu tenho da Praça dos meus tempos de criança”

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publicado por picodavigia2 às 15:47

NATAL (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Quarta-feira, 18.12.13

{#emotions_dlg.gift}Segunda-Feira, 2 de Setembro de 1946

Em Dezembro, logo a seguir à matança do porco chegava o Natal. Embora ainda estejamos muito longe da festa do Natal, deste ano de 1946, apeteceu-me, hoje, falar do meu Natal, do dia de Natal quando eu era criança e quando ainda não havia estas modernices de agora Já se passaram tantos e tantos anos… Ainda estávamos no século passado, no tempo dos reis. Nessa altura o Natal era diferente do de agora, porque a vida antigamente não era como a vida de hoje, com estas modernices todas como a de darem presentes às crianças e enganá-las, dizendo que é o Menino Jesus que os oferece. Quando eu era criança não havia nada disso. O que era mais importante naquela altura era irmos todos à meia-noite à missa do galo. Era uma noite da qual nunca mais me esqueci. A gente ceava mais tarde um bocadinho. Minha mãe pelo Natal matava sempre um galo bem gordo que guisava depois de lhe fazer avinha d’alhos, cozia um grande caldeirão de inhames e fritava torresmos e linguiça. O que a gente mais gostava era de se consolar nessa noite a comer todas estas iguarias, embora fosse minha mãe que fizesse o prato de cada um, deitando-lhe apenas um pedacinho de frango, outro de linguiça e um torresmo. Que fartura de comidinha boa havia naquela noite! Havia muitos inhames na mesa, naquela noite e agente comia todos os que quiséssemos e nos apetecesse. A seguir comiam-se laranjas e uma talhadinha de arroz doce. Era tão bom aquele arroz muito amarelo, muito doce e coberto com canela. Depois a gente ia deitar-se um instantinho até que a minha mãe nos acordava para irmos à missa. Eu acho que toda a gente da freguesia se levantava e acorria à igreja para a missa do galo, pois esta, naquela noite, encontrava-se normalmente cheia. Nessa altura o pároco desta freguesia era o senhor padre Mariano do Nascimento, natural de Santa Maria e que esteve pouco tempo aqui, nas Flores. Logo que ele aparecia, saindo da sacristia, a subir o altar vestido com paramentos brancos, o sacristão tocava uma enorme campainha. As pessoas, embora muito desafinadas cantavam cânticos próprios de Natal. Precisamente no momento em que um velho relógio colocado no cruzeiro da capela-mor dava as doze badaladas, o sacerdote, dirigindo-se para o meio do altar abria os braços e cantava em alta voz «Glória in excelsis Deo». Na sineira os sinos tocavam um longo repique. A igreja que até aí estava às escuras, ficava totalmente iluminada pois acendiam-se velas em todos os altares e subiam os pavios das lanternas de petróleo que as pessoas traziam de casa. Nessa altura umas cortinas pretas que vedavam o Presépio grande, abriam-se e aparecia a gruta ao lado da qual se perfilavam as casas, os montes e os vales, as pastagens e os lagos, com as figuras de pastores trazendo ovelhas e cordeiros ao Menino Jesus que permanecia reclinado nas palhas de uma manjedoira, ao lado de Nossa Senhora e São José. No final da missa seguia-se o “beija-pé” do Menino Jesus, apresentado pelo celebrante a todas as pessoas. Nesse momento principalmente as crianças corriam para junto do Presépio a ver o Menino Jesus, Sua Mãe e S. José, com o burrinho e a vaquinha ao lado. Para elas tudo era um encanto.

O resto do dia era passado normalmente como se de um domingo se tratasse. Ao almoço comia-se o que sobrava da noite. De tarde grupos de rapazes andavam pelas casas e, a propósito de desejar um bom natal, aproveitavam para provar o «chichi” do Menino. Finalmente, tudo terminava ao cair da noite, com o toque das Trindades, apenas ficava a recordação de um dia diferente dos outros em que, mesmo não sendo domingo, não se trabalhava e comia-se um pouquinho melhor.”

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publicado por picodavigia2 às 23:30

A SERRA PRADA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sábado, 14.12.13

Quarta Feira, 31 de Julho de1946

 

“Hoje vou falar duma serra da Califórnia que conheço muito bem, mas que poucos conhecem, a Serra Prada. Esta serra pertence ao monte «Vitenei», situado no condado de Inio, na Califórnia, Aos anos que por lá andei… mas ainda me lembro muito bem dos nomes de todos estes lugares, mas sei muito bem que não é assim que se escrevem. Eu não os sei escrever em americano. O tal monte «Witenei» era altíssimo, era uma altura que era uma coisa feia, parecia uma coisa do outro mundo! Diziam que tinha mais de quatro mil metros. Quando lá estive só um homem tinha conseguido subi-lo até lá acima, Ele é um daqueles montes que estão à volta da Serra Nevada, situada no interior da Califórnia. Os americanos dizem que é uma «mountain range» que em português significa cordilheira! Por lá andei muitos anos, da segunda vez que fui à América e conheço muito bem aqueles sítios. Ainda me lembro daquilo como se fosse hoje! Lá chove como Deus a dá e os montes estão cobertos de «senou» quase todo o ano. Lembrei.me desta serra porque hoje eu soube que, há dias, morreu em Ponta Delgada o Bernardo, um grande amigo com quem por lá andei. Muitos dos que são da minha idade já vão morrendo!

Vou pois falar da Serra Prada onde vivi mais de meia dúzia de anos a pastorear gado, juntamente, com o meu amigo Bernardo. A serra fica voltada, para oeste, isto é para o lado mar, por isso lá chove muito e cresce muita vegetação. Deste lado, a serra parece uma enorme manta verde, onde existem muitas espécies de animais e, sobretudo, muitas plantas, algumas que eu nunca vi por aqui. O solo é muito húmido, quente e profundo e nele as árvores de grande porte podem cravar muito bem as suas enormes e espessas raízes e as plantas mais pequeninas encontram, ali, as condições ideais para viver. Nas zonas mais altas e frias, existe uma grande abundância de abetos, pinheiros, e muitas outras árvores que os americanos chamavam «coníferous trees», que são árvores que conseguem sobreviver aos rigores e às tempestades dos Invernos gelados. Mas com o «senou» que cai no Inverno, todos os dias, a serra fica muito branquinha e parece um cobertor branco, que, a pouco e pouco, se vai tornando esverdeado, à medida que os blocos do «senou? vão deslizando pelos caules e pelas folhas das árvores. Nas zonas mais baixas e quentes, hostis às investidas invernais dos nevões, surgem, por todo o lado, freixos, faias, ulmeiros, carvalhos e outras árvores de folhas largas, mas que também não resistem às intempéries dos Invernos mais rigorosos, misturando as suas folhas caídas com as camadas arbustivas de aveleiras e espinheiros e com as ervas e plantas mais pequenas, como fetos, campainhas, prímulas, anémonas e violetas que, na Primavera, tornam a serra muito bonita, dão-lhe um tom colorido de amarelo, lilás, azul e anil. A serra é, assim, um manto de beleza infinita e infindável, encimada por dois montes, em forma de cone, talvez dois grandes vulcões, como temos aqui na ilha do Pico. Mas ninguém se lembra de quando é que aqueles vulcões deitaram fogo, Dizem que foi há milhões de anos! Também existem por ali mutos animais. A fauna daquela serra é rica e diversificada. O chão, repleto de folhas amarelas, alaranjadas, e castanhas, é povoado por uma infinidade de borboletas multicolores, insectos azulados e muitos outros bicharocos muito pequenos, mas activos e laboriosos como as formigas, que se alimentam de flores e dos frutos. As plantas e os animais minúsculos, por sua vez, servem de alimento aos maiores, nomeadamente aos mamíferos e às aves.

A Serra Prada era muito bonita. Já naquela altura como que atraia os que a procuravam, porque era duma beleza rara, radiante, enternecedora e transcendente. A natureza deu-lhe tudo. Regatos e rios correm por ali suavemente, por vezes entremeados por pequenas cascatas que lhe conferem uma graciosidade ainda maior, ou, então, perdem-se, formando pequenos lagos no meio da intensa e variada vida que se orgulha de manifestar.

A sua maior riqueza, no entanto, residia nas suas pastagens de erva tenrinha e fresca É verdade que eram boas pastagens para vacas, mas eram sobretudo rebanhos de ovelhas que ali se criavam e foi a pastorear rebanhos que mais trabalhei. Mas também trabalhei nas terras de fruta que há muita por ali: cerejas, amoras, framboesas, groselhas, morangos, maçãs, alperces, nectarinas, damascos, etc. Nas terras mais baixas cultivam-se muitas outras árvores de frutos e até há frutos selvagens.

Aquela serra era um autêntico Paraíso Terreal, tal qual aquele onde viveram os nossos primeiros pais, Adão e Eva. Como me lembro daquela serra e dos anos que lá passei a trabalhar mais o meu amigo Bernardo Que Deus o tenha na Sua Santa Glória.”

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publicado por picodavigia2 às 22:11

A ILHA DAS FLORES (DIÁRIO DE TIO ANTONHO)

Quinta-feira, 12.12.13

Terça-Feira, 23 de Julho de 1946

 

“Para aqueles que a não conhecem eu, hoje gostava de falar sobre a ilha das Flores, nos Açores, pois é a ilha onde eu nasci, onde fui criado e onde estou a viver desde que voltei das Américas. É uma ilha pequenina e distante das outras ilhas dos Açores, excepto do Corvo que fica aqui mesmo ao lado. É uma ilha onde existe muita verduras e está sempre coberta de flores e onde muitas ribeiras correm com as suas águas transparentes e cristalinas e os montes e os picos estão, continuamente, cobertos não apenas de ervas, musgos e arbustos mas também de muitas árvores frondosas, muitas delas cheias de frutos adocicados e apetecíveis. Uma ilha que o mar acaricia suavemente em cada dia e em cada hora e onde as manhãs nascem claras mas repleta de incertezas, de insegurança e de falta de tudo e onde, à tarde, o Sol se torna amarelado e pardacento e se esconde no horizonte infinito. As Flores é uma ilha onde o mar como que desafia o destino desta gente e deste povo e onde as tempestades se sobrepõem à bonança. No Inverno, o vento, misturado com relâmpagos e trovões, ruge feroz e assustadoramente, tornando-a mais pequenina, mais distante, mais só e cada vez mais pardacenta e escura. Por vezes, até temos medo do Inverno. Mas no Verão, o vento como que se veste de púrpura e sopra, mas levemente e como que embalando uma brisa doce e suave. E a ilha pequenina, distante mas coberta de flores veste-se de claridade e de esperança. O Sol desce alegremente sobre os casebres, pinta os campos de um verde amarelado e amadurece os milhos semeados nas belgas mais soalheiras e nos campos mais férteis. E à noitinha, nesta ilha pequenina e distante mas coberta de flores, nas torres das igrejas, ouve-se o toque das trindades. Os homens com as mãos calejadas e os ombros doloridos, regressam dos matos carregados com latas de leite, suspensas em troncos de araçá, tapadas com ramos de queirós, tiram, solenemente, o boné e simulam breves orações. As mulheres, robustas e mal vestidas, cansadas dos trabalhos dos campos, recolhem-se às suas casa, com molhos de lenha ou de couves à cabeça, acompanhadas de garotos descalços, com ranho a escorrer-lhes pelo nariz, agarrados aos saiotes das mães. As velhinhas, viúvas, vestidas de negro e lenço a tapar-lhe a cara, sentadas às janelas de suas casas, por de trás das cortinas de pano esbranquiçado, esbagoam as contas do rosário, bichanando Padre Nossos e Avé Marias

Pois esta é que é a ilha onde eu nasci, onde vivo e que se chama ilha das Flores.”

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publicado por picodavigia2 às 11:21

MAS QUE GRANDE PESCARIA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 10.12.13

Domingo, 14 de Julho de 1946

“Hoje é domingo e como manda a Santa Madre Igreja, não devemos trabalhar ao domingo. Se o fizermos e realizarmos trabalhos mais pesados, como aqueles que realizamos durante a semana, estamos a pecar. Mas há trabalhos e trabalhos. Há trabalhos leves que temos que fazer todos os dias, como tratar dos animais, levá-los às relvas e arranjar os alimentos de que necessitamos, com por exemplo ir à pesca. Pois como hoje era domingo e não é pecado pescar, lá fui eu e, confesso, que apanhei bastante peixe.

De manhã fui buscar as vacas à relva da Escada-Mar, tirei o leite e deitei-lhes comida, pois tinha muita erva e couves no palheiro. De seguida, fui à missa, almocei uma boa sopa de agrião com uma talhada de toucinho que fez a minha Maria e, de tarde, resolvi ir pescar. Eu não sou nem nunca fui pescador, nem nunca me afeiçoei muito ao mar, mas de vez em quando gosto de ir pescar sozinho e de pedra. Para além de apanhar algum peixe, um homem distrai-se, espraiceia, descansa, esquece as desgraças desta vida e alivia-se de problemas e consumições.

Hoje resolvi ir pescar às vejas. É uma pesca difícil e trabalhosa, para a qual é preciso ter muita paciência. Primeiro temos que calcorrear o Rolo, quase de uma ponta à outra e ir esgravatando ente as pedras para ir apanhando as mouras. Mas as malditas, para além de nos morderem, por vezes, fogem da gente como o diabo da cruz e escapolem pela borda do balde. Mas eu hoje não deixei que fugissem, pois levei uma meia velha, que a outra já estava toda rota e, logo que as apanhava, metia-as dentro da meia e dali não fugiam. Demorei um bom bocado de tempo até encher a meia. Depois fui buscar a cana e os preparos que deixara na minha lagoa da Ribeira das Casas, fui beber água fresquinha a uma nascente que lá existe, enchendo-a numa folha de inhame e vim para o Pesqueiro de Terra, que é bom sítio para vejas.

Primeiro comecei a engodar. Masquei umas mouras e lá as fui atirando esmagadas e desfeitas, para o mar. Não tardou muito e, como a água estava muito limpinha, comecei a vê-las por aqui e por acolá, umas vermelhas, outras cinzentas, a petiscar os pedaços das mouras que eu ia atirando para a água. Depois meti uma moura inteira no anzol e atirei-o para o mar, Ainda demorou um bocado mas lá começaram a picar, eu a puxar elas a picarem, até que finalmente lá veio a primeira, muito grande e vermelhinha, a saltar, a pular, como doida. Meti-lhe a navalha nos miolos e… zás. Quedou-se por completo e meti-a no balde. Era uma bela veja! Daí a pouco mais uma e outra, mais outra e, por fim, já eram tantas, que lhes perdi a conta. Pelo meio ainda vieram umas castanhetas e dois sargos.

Estava prestes a terminar a pesca, cuidando que já tinha peixe que chegasse, quando sinto um puxanço muito forte que parecia que me levava o caniço e tudo. Até cuidei que fosse um marracho. Mas puxei, puxei e… zumba! Pesquei um polvo enorme. Claro, como os polvos gostam de caranguejos, atirou-se à moura e o anzol ficou-lhe bem preso nas goelas. Virei-lhe logo o capucho, ele esperneou que se fartou, mas estava ali, lavadinho e pronto a ser guisado. Voltei para casa muito contente, com onze vejas, cinco castanhetas, dois sargos e um polvo Mas que grande pescaria!

A minha Maria cozinhou o polvo para o jantar. Estava uma delícia e, como não necessitava daquelas vejas todas, dei duas ao meu compadre Inácio, lasquei as outras e salguei-as para as por a secar ao Sol. Ficam que nem bacalhau! Amanhã vamos almoçar as castanhetas e os sargos. Afinal hoje ganhei bem o meu dia!”

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publicado por picodavigia2 às 14:12

SACHAR O MILHO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 08.12.13

Quarta-feira, 3 de Julho de 1946

“Hoje foi um dia muito cansativo para mim e para algumas pessoas que me foram ajudar. Foi o dia de sachar o milho do meu cerrado do Mimoio. É que sachar milho já é um trabalho levado dos diabos, mas com este calor e num campo daquele tamanho… é de dar cabo dum homem da minha idade. Este meu cerrado do Mimoio é uma terra de cultivo muito grande, a maior que eu tenho e uma das maiores da Fajã. Talvez maior do que o meu, só o cerrado de Ti’Antonho do Alagoeiro, nas Queimadas. Isto, claro, para não falar das terras junto do mar, onde também existem cerrados muito grandes. Mas como o meu Mimoio há poucos! Aquilo é terreno bom pra milho, pra trevo e erva da casta, para batata-doce, para tudo. O pior é acarretar o milho para casa, pois o acesso às terras do Mimoio é feito por canadas muito estreitas e em mau estado, onde não passa nem carro de bois nem corsão. Assim o milho tem que ser todo trazido às costas para o largo da Ribeira das Casas, onde é carregado em carro de bois e transportado para casa. Uma trabalheira! Mas sachar um cerrado deste tamanho também dá muito trabalho e provoca grandes canseiras. A minha sorte foi ter tido muita ajuda. Meu compadre Mateus e a comadre Inácia, como sempre, não faltaram. Também foram ajudar-me as minhas cunhadas, duas amigas da minha Maria e um dos rapazes do Bernardo Greves que dá dias para fora. É um bom trabalhador, este rapaz e leva apenas um alqueire de milho ou o seu valor em dinheiro que é de dezasseis escudos, por cada dia de trabalho, como é costume aqui na Fajã. As mulheres que lá estavam também ajudaram muito e por isso foi mais rápido. Eu sozinho a sachar aquelas campinas, nem daqui a um mês tinha aquilo pronto. Além disso o trabalho em conjunto parece render muito mais. Um homem pra ali a trabalhar sozinho não rende nada, desanima, não dá gosto nenhum. Agora um rancho como aquele que esteve hoje no meu Mimoio dá gosto ver. As mulheres até cantavam umas quadras brejeiras e antiquíssimas que eu já ouvia no meu tempo de criança. Mas não pensem que lá por estarem a cantar as mulheres não trabalhavam. Trabalhavam sim senhor, pois mesmo falando, cantando e rindo, todas estavam a levar a tarefa de sachar o milho muito a sério! Parecia que o trabalho até se tornava mais leve e mais suave. Eu pouco sachei, pois tinha que ir à frente desbastando o milho, ou seja, arrancando os pés mais fracos que estavam muito perto de outros e cujo crescimento iria prejudicar. Ainda me deu uns quantos molhitos de pés de milho que muito jeito me vão dar para alimentar a vaca e a gueixa durante uns dias.

A minha Maria e a irmã da comadre Inácia ficaram em casa, mas não estiveram de braços cruzados. Antes pelo contrário. Começaram logo de madrugada a preparar o almoço que haviam de nos ir levar ao Mimoio. Logo de manhã cozeram um caldeirão de inhames que raspei e preparei ontem à noite. Depois cozeram bolo no tijolo, guisaram um frango fritaram postas de peixe, torresmos e linguiça e fizeram dois grandes bules de café. Ainda há pouco o Sol tinha começado a dar na Rocha das Águas e elas chegavam, cada uma com o seu cesto à cabeça e um cabaz numa das mãos, enquanto com a outra segurava o cesto sobre a rodilha. Traziam inhames, batatas-doces e brancas, tudo já cozido e descascado, o conduto, um grande queijo e um cabaz de maçãs. Nos cabazes traziam os pratos, os garfos, as facas, as tigelas e dois bules de café, um com leite e açúcar e outro com café mais forte e só com açúcar. É que aqui na Fajã bebe-se muito café e há quem goste dele bem forte e preto, isto é, sem ter leite misturado.

Parámos o trabalho, sentámo-nos nos degraus do portal, puseram umas toalhas no chão e a comida em cima e todos comeram até se fartarem… e ainda ficou muita comida que foi guardada nos cestos para comermos a meio da tarde.

A seguir, com o pandulho bem cheiinho, voltamos ao trabalho, eu, à frente, a desbastar e os outros a sachar e a arrancar algum pé de monda que lhe aparecesse pela frente. Aqui na Fajã sacha-se o milho, não em pé mas com as costas dobradas ou de cócoras. È verdade que é bem mais cansativo, mas o trabalho fica muito mais perfeito, pois uma mão puxa o sacho e a outra arranca e sacode a terra da monda, atirando-a para um monte ou deixando-a em cima da terra para que ela seque e apodreça. Além disso ainda se junta sempre um montinho de terra para junto de cada pé de milho, a fim de que possa resistir aos ventos e temporais vindos ali do norte, de cima da Rocha da Ponta.

É muito cansativo este trabalho de sachar, sobretudo quando nos esforçamos para que o trabalho fique perfeito.”

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publicado por picodavigia2 às 22:38

O MILHO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 03.12.13

No meu tempo também era nestas alturas, nos fins de Setembro que se apanhavam os milhos das terras que ficavam à beira-mar. Em Outubro os das terras do interior, pois estando estas mais longe do mar, e tendo que ser trilhadas o milho também era semeado mais tarde. Era uma época muito bonita e agradável, esta em que se procedia às apanhas dos milhos. Eram autênticos dias de festa nas casas dos lavradores.

Quando as maçarocas, depois de desfolhados os milheirais, estavam maduras, marcava-se o dia da apanha e acarretar das maçarocas para as ou para as lojas, para de imediato as encambulhar e pendurar nos estaleiros. E esse dia era um dia especial e devia ser marcado com antecedência para não coincidir com os dias em que os vizinhos e amigos também apanhavam o seu milho, a fim de se poderem ajudar uns aos outros. Homens, mulheres e crianças, nesses tempos as crianças ainda não iam para a escola como hoje em dia, alta madrugada, muitas vezes ainda noite escura, demandavam a terra ou cerrado. Uns começavam a apanha e outros iam carregando os cestos para os carros de bois com as “ceiras” de vimes que iam enchendo a “acaculando bem acaculadas” até fazer enormes carradas. Se as terras eram mais pequenas ou ficavam perto de casa o milho era acarretado às costas. Os carros eram puxados por vacas a quem se iam dando maçarocas para as compensar. Uma ou duas mulheres a meio da manhã vinham para casa para fazer o almoço a que todos os que ajudavam tinham direito. Às vezes quando a apanha era muito demorada e se prolongava pela tarde, as mulheres iam levar o jantar ao serrado onde se colhia o milho.

De tarde e à noite era a hora de encambulhar. O milho era colocado, geralmente na cozinha, formando um grande monte em forma de pirâmide. As pessoas sentavam-se à volta em cima do fundo de um cesto ou de pequenos bancos de lavar os pés. Munidas de um molho de fios de espadana, iam escolhendo as maçarocas as maçarocas uma a uma, separando as maiores e mais bem protegidas de casca. Puxavam-lhe uma folha de casca, juntavam umas quinze ou vinte, juntavam-lhes as folhas retiradas, enrolavam-nas bem enroladas, torciam o rolo na ponta e amarravam-no com um fio de espadana. Estava feito o cambulhão. Amontoados num canto da cozinha aguardavam que as crianças os transportassem para junto dos estaleiros onde seriam dependurados, tarefa geralmente executada pelo dono da casa. Se não se conseguia encambulhar todo de dia aproveitava-se o serão e a ajuda de amigos e vizinhos. Era também à noite que descascavam as maçarocas rejeitadas para os cambulhões. Mas deixava-se uma folha presa em cada massaroca, afim de com ela também se fazerem cambulhões, bem mais pequenos e que eram pendurados dentro do estaleiro, de baixo dos que tinham casca, a fim de que estes os protegessem da chuva. Se a dona da casa já não tinha milho velho aproveitava estas maçarocas e, descascando-as por completo, acendia o forno e depois de cozer o pão ou as escaldadas, secava-as lá dentro. Outras vezes e se o tempo estava bom, o milho, já debulhado, era despejado nos pátios e secado ao Sol, sendo que havia de estar sempre de vigia, uma criança, a enxotar as pombas que se atiravam a ele desalmadamente.

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A LENDA DAS LAGOAS DAS LAJES (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 03.12.13

Sábado, 15 de Junho de 1946

Contava meu pai que havia, nas Lajes, um homem muito rico e que possuía muitas terras. Esse homem tinha dois filhos que viveram sempre em paz e alegria. Porém, após a morte do pai tudo se alterou na vida daqueles irmãos, passando os dois a tornarem-se gananciosos, odiando-se um ao outro e tornando-se grandes inimigos. Cada um desejava ficar com toda a herança que o pai lhes havia deixado, ficando o outro sem nada. Por isso cada um deles, sem que o outro soubesse, correu com uma demanda no tribunal. Mas nada conseguiu, nem um nem outro. Segundo as decisões  do juiz, a herança deveria ser dividida equitativamente pelos dois. Não havia volta a dar-lhe. Apesar de tudo a ambição, a inveja e o ódio ainda mais aumentaram, o que fez com que cada um deles ficasse a pensar e arquitectar a maneira como havia de se livrar do outro, sem ninguém desconfiar.

 Certo dia resolveram ambos ir visitar duas belas pastagens que o pai lhes havia deixado nos matos, para além da Boca da Baleia, já quase por cima do Lajedo. Cada um deles planeou matar o outro, assim que lá chegasse e assim tornava-se o único herdeiro da riqueza paterna.

Iniciaram a viagem e caminharam lado a lado, sem falar um com o outro para que não se denunciassem. Ao chegarem às pastagens, ambos ficaram admirados e surpreendidos pela ausência das terras, pois no seu lugar existiam agora duas lagoas, uma de margens altas e com verde dos arvoredos a reflectirem-se nas suas águas límpidas e transparentes e a outra rasa, a confundir-se com os pardos verdejantes que a rodeavam e com o azul celeste a reflectir-se na sua superfície.

Os dois irmãos compreenderam a mensagem que uma e outra visão lhes transmitiam. Era um aviso do pai para que fizessem as pazes, cessassem as invejas e os ódios e se tornassem amigos.

 Regressaram a casa, felizes e contentes e, algum tempo depois, dividiram entre si as restantes propriedades que o pai lhes deixara. Mas as duas lagoas lá permaneceram tal e qual os irmãos as viram e assim perduram, até hoje.

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À PROCURA DE UM GUEIXO PERDIDO NO MATO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sábado, 30.11.13

Domingo, 30 de Junho de 1946

“Estou cansadíssimo. Ainda bem que hoje é domingo para eu descansar um bocado. Ontem, passei o dia inteiro a calcorrear os matos da Fajã, à procura do gueixo do meu compadre Joaquim. O meu compadre Joaquim tem uma relva no Queiroal, que fica muito longe do Cimo da Rocha, lá quase para o meio da ilha, já pertence ao concelho de Santa Cruz. Só para lá chegar foi o cabo dos trabalhos. Mas pior do que isso, foi a caminhada que tivemos que fazer, durante todo o dia, por outras relvas e pelo concelho até encontrar o maldito do gueixo. O meu compadre, naquela relva, apenas cria gado alfeiro, uma vez que, ficando tão distante e com caminhos tão maus para lá chegar, é impossível colocar e manter lá vacas leiteiras, obrigando-o a ir à ordenha todos os dias. Como só vai lá de vez em quando, a última vez que lá foi é que deu pela falta do gueixo. Não o encontrou na relva, procurou ali à volta, mas nada. Muito aflito, no dia seguinte, voltou à relva sozinho, vasculhou tudo à volta… mas nada. Ficou tristíssimo o meu compadre. Era um prejuízo muito grande, pois é um touro que já vale um bom dinheiro. Eu mais um grupo de homens aqui da Fajã oferecemo-nos, de imediato, para o ir ajudar a procurar o animal. Morto ou vivo, havíamos de encontrá-lo. Nós aqui, na Fajã Grande, somos assim. Sempre que alguém tem um problema grave, todos se oferecem para ajudar. Os nossos antepassados ensinaram-nos a ajudarmo-nos uns aos outros, sobretudo nos momentos de grande dificuldade.

E lá partimos. Éramos prá i uma dúzia de homens. Saímos de casa muito cedo, a noite estava escura como breu e os galos ainda não cantavam, por isso, quando amanheceu já estávamos para lá do Caldeirão da Ribeira das Casas. Daí a pouco estávamos a vasculhar o mato todo. Uns foram pelo Curral das Ovelhas até à Burrinha, Eu e os restantes fomos precisamente pelo Queiroal. Mas dispersámo-nos depressa, primeiro porque alguns eram monços novos e muito valentes e outros velhos e trôpegos como eu e, em segundo lugar, porque se fôssemos todos juntos procurávamos todos no mesmo sítio e isso pouco adiantava. Andámos toda a manhã a procurar por tudo o que era sítio, desde da Caldeirinha até à Água Branca, mas nada de encontrar o maldito. A nossa sorte foi que alguns, adivinhando o pior, levaram bolo, queijo e fruta que fomos repartindo uns com os outros e bebendo água fresquinha das nascentes. Voltamos a procurar por toda a santa tarde. Corremos o concelho inteiro como se fosse dia de fio, pois sabíamos que nas relvas que tem dono ele não estava. Só à noitinha, quando já tínhamos perdido as esperanças, o maldito apareceu, lá para os lados das Pontas Brancas, escondido nuns montes, por trás de uns cedros e de umas moitas de junça brava. Os que o encontraram começaram a gritar pelos outros e, com a ajuda dos cães, lá nos juntámos todos. Mas para o amarrar foi muito difícil. Criado no mato, o bezerro estava levado dos diabos, muito bravo e a arremeter contra todos. Foram uns monços mais triqueiros que lhe lançaram uma corda enlaçada pela cabeça e prenderam-no pelo pescoço. Mas foi difícil amarrá-lo e segurá-lo, por que ele é muito forte. Mas por fim, todos juntos lá o conseguimos parar e amansar. Depois meteram-lhe uma argola com uma corda no nariz, passaram-lhe a corda à cabeça e lá o trouxemos até ao Cimo da Rocha. Meu compadre achou que era melhor ele ficar ali amarrado durante a noite. Era muito perigoso o animal descer a Rocha de noite, ainda por cima, estava muito escuro. Hoje de manhã lá o foram buscar e meu compadre já o tem amarrado à manjedoura, no palheiro.

É um bonito gueixo! Meu compadre está muito contente, pois o animal anafado e gordo como está, com mais dois ou três meses a dar-lhe erva e maçarocas, há-de dar perto de um conto de reis.

Esqueci-me de dizer que a minha comadre Inácia prometeu um gueixo de massa sovada de cinco quilos, ao Senhor Santo Amaro e como o gueixo apareceu são e salvo vai cumprir a sua promessa, no dia da festa, em Janeiro, por isso, já hoje andava preocupada com a maneira como havia de guardar tantos ovos para a massa, sem eles se estragarem de tanto tempo guardados.”

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publicado por picodavigia2 às 17:06

UM ATAQUE DE PIRATAS (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 29.11.13

Uma outra “estória” que meu avô contava era a de que há muitos anos, ali para os lados do Canto do Areal, por fora da Poça das Salemas, muito antes da Barca Bidarta ali se afundar, ancorou um navio muito grande e estranho. O povo percebeu logo que se tratava de um navio de piratas e ficou muito alarmado porque todos sabiam que eles queriam roubar e levar consigo tudo o que pudessem.

As pessoas começaram a fugir para o mato, levando o que podiam e deixando o resto para os piratas. Era sempre bom deixar alguma coisa de valor, batatas, milho, hortaliças, alguma cabra ou ovelha, ou alguns porquinhos, até porque não podiam levar consigo ou esconder tudo o que possuíam. As pessoas sabiam que se os piratas não ficassem satisfeitos com o que encontrassem, destruíam tudo, lançando fogo às casas, matando quem apanhassem pela frente.

O povo ainda mais se assustou quando ouviu o navio disparar, na direcção da rocha, tiros de canhão. Os malditos dos piratas tinham percebido que as pessoas fugiam para se esconderem e protegerem lá no alto e, por isso, começavam a atirar. As pessoas lá foram subindo a rocha, de maneira que não fossem vistas, escondendo-se nas furnas e nas abas das paredes, mas os piratas insistiram nos tiros e arriaram de bordo alguns botes conduzindo um grupo de piratas armados para terra, os quais desembarcaram mesmo junto à Poça das Salemas. Bem armados, entraram pelas casas, destruíram muitas e largaram fogo a outras, antes porém tiraram e roubaram tudo o que lhes interessava. E o povo, escondido, lá em cima, a ver destruído e saqueado tudo o que era seu e sem poder fazer nada. Meu avô contava que tinham entrado em todas as casas, a certificarem-se de que não havia ninguém e pilharam, à vontade, e levaram tudo o que as pessoas tinham deixado, ao fugirem para o mato. As pessoas, muito caladas e cheias de medo, espreitavam lá de longe por entre os ramos das árvores. As mães acalentavam os bebés ao colo para eles não chorarem. Os homens, furiosos, de não lhes poder resistir, rogavam pragas terríveis aos piratas, “diabos vos levem”,” “raios vos partam”,“bandidos”! “Um fogo vos abrase”! Só os cães é que não se calavam, ladravam como danados, rosnavam, latiam.

E ninguém tinha coragem de descer a rocha e aproximar-se das casas, ou de se expor à violência dos malditos piratas.

Depois de darem a volta ao povoado e de entrarem em todas as casas, os piratas voltaram ao navio e foram, buscar várias vasilhas e sacos. Voltaram a terra, juntaram muitos animais, sobretudo as galinhas dos currais e muito do que havia nos campos o milho dos estaleiros, as batatas, o feijão e as cebolas guardadas nas lojas e até foram aos moinhos roubar os sacos de farinha que lá estavam à espera que os donos os fossem buscar. Depois levaram tudo para o navio. Meu avô contava que não ficou uma única galinha viva.

As pessoas esperavam que à noitinha, o navio de piratas se fosse embora, a fim de poderem regressar às suas casas, pelo menos às que não tinham sido destruídas ou incendiadas. Mas isso não aconteceu. O navio ficou ali toda a noite, pois os piratas esperavam que as pessoas descessem, ao anoitecer, para durante a noite atacar de surpresa e matá-las. Por isso mesmo, só na tarde do dia seguinte, depois de o navio desaparecer no horizonte, por de trás do Monchique, as pessoas desceram à povoação. Primeiro soltaram os cães que desceram correndo, a ladrar, depois desceram os homens, e por fim os velhos e as mulheres com as crianças. E o povo começou, então, a trabalhar na reconstrução das suas casa e muitos tiveram que construir outras novas, pois muitas tinham sido incendiadas e totalmente destruídas.

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publicado por picodavigia2 às 17:16

A LENDA DAS SETE CALDEIRAS DAS FLORES (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Quinta-feira, 28.11.13

Domingo, 23 de Junho de 1946

Outra estória que a minha avó contava era esta sobre a maneira como se formaram as lindas lagoas que temos nesta nossa ilha das Flores. Contava ela que havia nesta ilha um homem que tinha um filho que se chamava João, um nome muito usado por aqui. O monço era muito sonhador, mas simples e bom, como era toda esta gente da ilha das Flores.

Ora um belo dia o pequeno caminhou para esses matos, sozinho, carregando duas bilhas de água às costas para dar de beber ao seu gado que tinha lá pra riba. O rapaz tinha ido buscar a água longe, lá prás bandas da Burrinha. Ia sozinho e a sonhar, com os pés na terra e a cabeça na Lua, como é natural na maioria dos rapazes da sua idade. Ao chegar ao mato encontrou, a certa altura, um buraco no caminho e disse em voz alta, para si mesmo:

 - Dizem que nas outras ilhas e em muitos lugares por esse mundo fora há lagoas e caldeiras muito bonitas. Porque será que aqui na minha ilha das Flores não as há? Pois eu vou mas é deitar esta água neste buraco pra fazer uma lagoa bem bonita.

Se bem o pensou melhor o fez e aproximou-se do buraco, pegou numa das bilhas de barro que trazia cheia de água e despejou-a no buraco que encontrara no chão. Com a facilidade com que tinha sonhado em fazer as lagoas, logo se formou a primeira caldeira. O monço deu pulos de contentamento e logo pensou: "Sempre que encontrar buracos no chão, vou fazer o mesmo!"

 Ali ao lado estava outro buraco, ainda mais fundo e o rapaz, com confiança, vazou-lhe dentro a outra bilha de água. Formou-se outra vez uma lagoa, muito funda mas também muito bonita. Cada vez mais animado com o que via o moço voltou atrás e foi de novo encher as bilhas. Levado pelo sonho, foi andando, andando, pela ilha, tendo encontrado mais cinco buracos, onde foi deitando a água das bilhas. Assim se foram formando todas as sete caldeiras da ilha das Flores: a Caldeira Funda das Lajes, a Caldeira Rasa, a Caldeira da Água Branca, a Comprida, a Funda, a da Lomba e a Seca, porque para esta o monço já estava muito cansado e sem forças para ir buscar mais água para deitar no último buraco que encontrou.

Assim nasceram as sete lagoas das Flores, todas elas muito diferentes, mas muito bonitas, de águas limpas e transparentes, como foi desejo daquele rapaz, chamado João, que as sonhou e as fez.

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publicado por picodavigia2 às 16:31

OS TRABALHOS, AS CANSEIRAS E O FIM DA MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 26.11.13

13 de Novembro de 1946

“Que saudades eu tenho da minha Benfeita. Era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante muitos anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha! É que cedo, ainda era bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já calcorreara o cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio. Tornava-se muito rija com os rigores climatéricos do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas aquela valente tinha que o puxar de canguinha. Ela lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos, lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste e sofrimento. Sim, porque os animais também sofrem e não se queixam. Depois seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à uma grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao serrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Eu voltava a atrelá-la ao arado e ela, sozinha e sem ninguém diante, traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do serrado. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita parava quando era preciso alisar algum torrão com a aguilhada e virava no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. No fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a, mais uma vez, a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

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VIAGEM À ÍNDIA NUMA NOITE (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Quarta-feira, 20.11.13

Segunda-feira, 17 de Junho de 1946                                                              

Uma outra “estória”, que a minha avó me contava era aquela do homem que foi à Índia numa noite num pequeno barco. Contou-ma tantas vezes que jamais a esqueci. Sentada no banquinho de lavar os pés, na cozinha, minha avó contava assim:

Era uma vez um pescador que tinha um pequeno barco, com o qual todos os dias arreava para o mar a fim de apanhar algum peixe para o seu sustento e o da sua família, que era pobre e muito numerosa. Sempre que regressava da pesca, depois de tirar o peixe para terra, lavava o barco, varava-o e guardava-o numa pequena ramada, sem porta, para que secasse durante a noite. No dia seguinte, de madrugada, quando voltava para o mar, o barco estava seco, brilhante e limpo.

Certa manhã, ainda escuro como breu, o pescador dirigiu-se ao porto e verificou que o seu barco estava todo molhado e sujo, como se tivesse sido lançado à água durante a noite. Ficou muito admirado, ainda mais porque, na manhã seguinte, verificou que tinha acontecido o mesmo ao barco, apesar de o deixar bem limpo e seco na véspera. O mesmo aconteceu em todas as manhãs dos dias seguintes. Começou então a pensar na maneira de descobrir quem arreava o seu barco de noite e para onde iam com ele. Por isso, uma noite, pensou esconder-se debaixo da proa, na esperança de descobrir o que realmente acontecia ao barco para aparecer naquele estado todas as manhãs.

Se bem o pensou, melhor o fez e, numa noite, lá foi acaçapar-se bem escondido debaixo da proa. Esperou algum tempo e, por fim, viu aparecer duas mulheres que saltaram para o barco e o arrearam com um à vontade e ligeireza invejáveis.

Sem demoras iniciaram a viagem, na direcção do alto mar, enquanto o pescador, no seu esconderijo, pasmava pois nunca tinha feito uma viagem tão rápida. O pequeno barco parecia que tinha asas e voava. Em breves minutos estavam numa terra. As mulheres, que afinal eram duas feiticeiras, vararam o barco num grande areal e desapareceram. O homem saiu do seu esconderijo e percebeu que estavam na Índia. Decidiu saltar do barco, apanhar um punhado de areia e guardá-lo no bolso do seu casaco. Daí a algum tempo as feiticeiras voltaram para o barco e iniciaram a viagem de regresso. Passados poucos minutos o homem percebeu que tinham chegado ao porto, pois ouviu o cantar dos galos.

Chegaram pois as feiticeiras ao Porto, vararam o barco, meteram-no na ramada e fugiram. O homem saiu do seu esconderijo e foi para casa, ainda estonteado pelo que lhe tinha acontecido.

No dia seguinte contou a toda a gente da freguesia o que lhe tinha sucedido na noite anterior, mas ninguém acreditou, só quando mostrou a areia que pelo aspecto era mesmo da Índia, todos acreditaram que não mentia e que, naquela noite, tinha ido à Índia, no seu barco, juntamente com as duas feiticeiras. Mas para azar do pescador todos ficaram cheios de medo e não mais compraram peixe pescado com aquele barco. Por isso, o pescador teve que desfazer-se do barco, construir um novo e fechá-lo a sete chaves na ramada, todas as noites.

Esta “estória” tem algumas parecenças com a lenda da Cana-da-Índia mas é um pouco diferente.

Era assim que a minha avó a contava.

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O PADRE E O SACRISTÃO (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Segunda-feira, 18.11.13

           Quarta feira, 12 de Junho de 1946

Quando eu era criança, tinha os meus sete ou oito anos, minha avó contava-me muitas “estórias”, sempre que lhe pedia. Minha avó, nessa altura tinha quase oitenta anos e dizia-me que ouvira contar estas “estórias” quando era criança a uma velhinha que morava perto da sua casa. Lembro-me de uma ou outra, mas esqueci a maior parte delas. Uma que me lembro é aquela de “ O Padre e o Sacristão”. Dizem que é um conto tradicional, aqui da ilha das Flores. A “estória” reza assim:

 “Era uma vez um padre que tinha uma horta junto de sua casa

Certo dia foram dizer-lhe que o sacristão lhe andava a roubar a fruta. Por isso resolveu chamá-lo para que se confessasse, tentando assim não apenas pôr termo à roubalheira mas também certificar-se de que ele era o verdadeiro ladrão Enquanto o confessava, perguntou-lhe:

- Sabes quem é que rouba a fruta da minha horta?

O sacristão, do outro lado do confessionário, respondeu:   o

- Eu não estou a ouvi-lo. Pode falar um pouco mais alto.

- É muito estranho – disse-lhe o padre e, elevando a voz, perguntou novamente: – Eu estou a perguntar-te se sabes quem roubou a fruta na minha horta?

- Não ouço nada! – Respondeu, de novo, o sacristão

. Isto é mesmo muito estranho - disse padre. – És a única pessoa que, ajoelhada desse lado não ouve as minhas perguntas.

- Realmente é muito estranho, - concluiu o sacristão - até parecem coisas do diabo, mas realmente deste lado não se ouve nada, mesmo nada do que o senhor padre pergunta.

- Eu não acredito – disse o padre.

- Ai não, não acredita? Então venha para este lado que eu vou para aí, para ver se é verdade ou não.

O padre querendo ter a certeza de que o sacristão estava a falar verdade resolveu mudar de sítio. Quando estavam já os dois nos lugares trocados, perguntou-lhe o sacristão:

- Quem é que anda a meter-se com a mulher do sacristão?

- O quê? – Perguntou o padre.

- Quem é que anda a meter-se com a minha mulher? – Repetiu o sacristão.

- Tens toda a razão! Realmente deste lado não se ouve nada – respondeu o padre.”

E por hoje é tudo.

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publicado por picodavigia2 às 23:52

A MINHA GUEIXA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Quarta-feira, 13.11.13

Sexta-feira, 17 de Maio de1946

“Hoje estou muito contente. A minha gueixa alfeira apanhou boi, já está coberta e vai dar cria lá para Fevereiro. Eu andava muito triste com esta gueixa. Já tinha pensado até embarca-la para Lisboa. Só não o fiz porque ela ajuda-me muito nas lavouras, trabalha muito bem, quer de junta quer de canguinha. Não a quis matar quando ela nasceu, como muitas vezes se faz aqui aos bezerros logo que nascem. Matam-nos porque, para os criar, eles têm que beber o leite das vacas que o pariram, o que para nós, lavradores é um grande prejuízo. Além disso ninguém os quer comprar porque aqui não se come a carne dos vitelos, como na Califórnia. Mas esta bezerra, eu quis criá-la, embora me tenha dado muito trabalho e muito prejuízo. Deu-me muito trabalho a alimentá-la e a ensiná-la a trabalhar, mas valeu a pena. Ela ajuda-me muito a lavrar e gradear os campos, a semear o milho e ainda a puxar o corsão. Mas há uma outra razão porque a criei e ainda não a embarquei: foi por ela ser filha da minha Benfeita, a melhor vaca que tive até hoje, e uma das melhores de toda a Fajã. Mansa, trabalhadeira, boa de leite e de cria e ainda de boa boca. Come de tudo. Mas agora, que está velha tenho que embarcar aquece cramelhano. Sei que me vai custar muito, mas tem que ser e o que tem que ser tem muita força. Agora que a filha se vai fazer vaca, já não vou ter tanta pena de me separar da minha Benfeita. Vou ficar com uma filha dela, que, de certeza, fará com que nunca a esqueça. Oxalá a filha seja em tudo como a mãe. Mas lá que vou ter um desgosto muito grande, lá isso vou.

Eu já andava desconfiado que a maldita da gueixa, mais dia menos dia, ia querer boi. Por isso andava muito atento, sempre de olho nela. Hoje quando a fui levar, a ela e às duas vacas, às Águas, mal chegou à relva, a atrevida atirou-se para cima da outra vaca, da Toucada, Depois corria, saltava e pulava que até parecia doida. Já nem a deixei na relva que ela ia saltar as paredes de tão maluca que estava. Amarrei-a, para ela não me fazer asneiras e lá a levei ao palheiro do Cardoso, ao boi da Junta. Aquilo foi logo, pegou que nem tinha. Tenho a certeza que ficou coberta e há-de dar cria lá para Fevereiro. Assim vou ter que mandar a Benfeita ver os Senhores de Bengala quanto antes. Sei que me vai custar muito… mas lá terá que ser. Eu não tenho erva suficiente nas minhas relvas para três rezes. Por isso assim que vier o arrolador de Santa Cruz arrolar gado para embarcar, a minha Benfeita vai logo. Espero que me dê ainda algum dinheiro.”

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publicado por picodavigia2 às 08:48

NOVEMBRO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 10.11.13

Domingo, 5 de Novembro de 1946

Novembro é o mês do ano de que menos gosto. Nunca me agradou muito. Primeiro porque aqui na nossa ilha das Flores é um mês de muito mau tempo, de muita chuva e de muitas ventanias. Os dias em Novembro são muito pequenos, mesmo que esteja bom tempo, de tal maneira que permita ir trabalhar para os campos, o dia não chega para nada. Mal amanhece daí a pouco é noite escura. Além disso, Novembro parece um mês triste, pois para além de escuro, cinzento, negro, é o mês dos defuntos. É verdade que nos devemos lembrar dos nossos, dos que já morreram, mas os sinos a tocarem a finados logo desde o dia dois, as novenas das almas, as idas ao cemitério, tudo me faz ficar triste, muito triste, lembrando-me dos familiares que já partiram, sobretudo dos meus pais. Novembro é o mês dos finados, da tristeza, da saudade e da dor.

Aqui na nossa freguesia há um costume muito antigo que já meu avô falava que existia no teu tempo de criança. Na igreja, todos os dias à noite fazia-se a novena das almas. A igreja, segundo ele contava, enchia-se de gente como se fosse domingo. Até muitos que nem aos domingos entravam na igreja iam à novena das almas. No cruzeiro da igreja colocavam o catafalco coberto com um pano negro, com uma cruz amarela. Desenhada ao meio. Vestido com uma capa preta, o pároco rezava responsos em latim pelos mortos de todas as famílias, mas com uma certa ordem. Depois de dividir as famílias pelos dias do mês, no dia três começava no Cimo da Assomada, terminando na Via d’Água, no final do mês. No fim da novena rezava por todos os fiéis defuntos uma oração em latim que era mais ou menos assim: "Requiem aeterna dona eis, dona" e o povo respondia: “Et luz perpétua luziat’eius”. No fim o sacerdote concluía: “Anima omnium fidelium defunctorum requiescão in paxe”. Hoje já é tudo muito mais moderno, mas ainda continua a haver novena das almas para lembrar os nossos mortos e rezar pelas suas almas. O povo tinha muita devoção e muito respeito pelas almas do Purgatório. Mas nós, os mais pequenos, até nos assustávamos com aquelas rezas e aquele luto, assim como o virar dos sinos, sobretudo no dia dois em que se fazia o enterro do velho Laranjinho.

Meu avô contava que antigamente, em algumas casas, durante este mês deixava-se desocupada uma cadeira que era o lugar do último familiar que falecera naquele ano e muitas pessoas ofereciam a um pobre a refeição que deveria ser do falecido se ele estivesse vivo. Também, no Dia dos Defuntos, tiravam uma derrama pela freguesia, chamada “Esmola Prás Alma”. Com o dinheiro que se recolhia e com o resultante da venda dos produtos doados, mandavam-se celebrar missas por todos os defuntos da freguesia.

No entanto, em Novembro, se o tempo o permite, já se realizam alguns trabalhos nos campos e, antigamente, faziam-se algumas sementeiras como o trigo que nesse tempo era muito cultivado pois havia pouco milho, semeavam-se as favas, plantavam-se as couves, os alhos e as cebolas. Por isso havia um provérbio na Fajã Grande que dizia “Pelo São Martinho, mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.”

E por falar em porquinho era realmente neste mês que se começava a preparar tudo para a matança do porco que em breve chegará. Isto era o que Novembro tinha de melhor.

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publicado por picodavigia2 às 15:28

A MINHA VIDA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Segunda-feira, 21.10.13

Quinta-feira, 2 de Maio de 1946

Há muita gente que anda a querer saber quem eu sou, quando nasci e como foi a minha vida até hoje. Pois a minha vida contada dava um romance, Eu nasci no dia vinte três de Setembro de 1868, já lá vão 78 anos. Acho que era uma quarta-feira. Nasci aqui na Fajã Grande, numa canada da Assomada, numa casa que ficava em frente ao actual poço do gado beber e que hoje é um palheiro e uma casa de arrumos. Ainda muito novo pirei-me para a América, onde fui duas vezes, uma em solteiro e outra depois de casado. Quando vim da América, da primeira vez, e casei é que fiz esta casinha onde sempre morei com a minha Maria e onde nasceram os meus filhos, também aqui na Assomada. Os meus padrinhos de baptismo foram o senhor José Laureano da Silveira e a sua mulher Maria Claudina e quem me baptizou foi o pároco da altura, o padre António José de Freitas. Era um homem já de idade avançada, mas boa pessoa e gostava muito da sua terra, pois ele nasceu mesmo aqui na Fajã, em 1808. Era filho de um alferes de Santa Cruz, chamado José Inácio de Freitas e de sua mulher Maria de Jesus. Ordenou-se sacerdote em 1841 e foi colocado de reitor na Lomba. Alguns anos depois veio para a Fajã onde esteve apenas três anos. Em 1851 foi colocado no Mosteiro e em 1958 voltou para a Fajã Grande, onde esteve de pároco até 1981, ano em que faleceu. Era um bom homem e foi ele que casou meu pai e minha mãe. A mim quem me casou foi o padre Francisco José Constantino Flores. Este sim era um rapaz novo. Era natural das Lajes e ordenou-se apenas com 25 anos, em 1886 e foi colocado logo na Fajã mas como cura. Em 1887 foi colocado a paroquiar no Lajedo, mas no ano seguinte voltou para a Fajã, agora como pároco. Eu casei um ano antes, ou seja em 1886, logo que voltei da Califórnia. Nesse ano houve mais onze casamentos, aqui na Fajã: o Francisco Lourenço Fagundes, o João António Valadão, o João Cândido de Freitas, o João Fragueiro Cardoso, o João Furtado Luís, o João Joaquim da Silveira, o José António de Freitas, o José Caetano de Freitas Júnior, o José Joaquim Cardoso, o Luciano de Freitas Fragueiro e o Luís Pereira Lopes. Mas o padre Constantino Flores já nem os casou todos, pois a meio do ano fez o que eu também fiz outra vez, algum tempo depois de me casar: pirou-se para a América e por lá se ficou.

Afinal pouco falei de mim, mas hoje não tenho tempo para mais. Eu depois de me casar também tive que partir outra vez para a América. O dinheiro que trouxera da primeira vez gastei-o todo na casa. Precisava de dinheiro para comprar uns bocados de terra e, além disso, a minha Maria era muito doente e de um momento para o outro podia ter que sair da ilha para se tratar. Eu tinha que ir trabalhar para ganhar dinheiro. Só na América… e lá fui outra vez. Ainda hei-de contar tudo o que penei nestas minhas viagens. Mas uma coisa é certa: se não tivesse ido aos States, hoje não tinha nada de meu.

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