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UMA VACA POR VINTE ESCUDOS

Terça-feira, 03.12.13

O Freitas tinha apenas uma vaca, uma só vaca. As relvas que herdara, uma dos pais lá para as bandas da Alagoinha e uma outra, ali bem perto, no Batel que os sogros lhe haviam deixado não chegavam para mais. Apesar de tudo o animal andava gordo, bonito e anafado que era um regalo ver. Era a menina bonita dos seus olhos e jurava a pés juntos que não a venderia nunca, nem por todo o dinheiro do mundo. Um exagerado, este Freitas! Mas verdade é que a sua Lavrada andava limpa que era um primor, bem tratada que nem uma princesa, mantinha-a asseada que nem uma donzela e, além disso, era boa de leite e de crias. A Lavrada do Freitas era, sem sombra de dúvidas, uma das melhores, mais bonitas e mais valiosas vacas de quantas existiam na Fajã.

Mas o Freitas era um gabarola e não cessava de exorbitar atributos e qualidades que o animal não possuía. Tais exageros faziam com que, ao passar com ela à Praça, nas idas e vindas para a Alagoinha ou para o Batel, os rapazes se metessem com ele, insinuando que aquilo nem era vaca de andar pelos caminhos de tão magra e pestilenta que era, que havia de ter vergonha de trazer aquele “cramelhano” pelas ruas que nem “mojo” tinha que se visse ou que desse leite para saciar a fome dum pinto.

O Freitas ia ouvindo, com resignação, afrontas e insultos diários, cuidando, no entanto, que aquilo era inveja, inveja pura. E já quase nem lhes dava ouvidos. Eles, porém, insistiam cada vez mais, na esperança de que um dia a paciência do Freitas havia de rebentar de vez.

Certa tarde, em que o Freitas, cansado das lides diárias e atribulado com as consumições caseiras e já quase noite escura, levava a vaca ao Batel, o Albino, sentado na banqueta da Casa do Espírito Santo de Baixo, para o açular ainda mais, atirou de rompante:

- Essa vaca não vale nada! Queres vinte escudos por ela?

O Freitas que sabia bem que o Albino era um pé rapado e cuidando que ele, como sempre, não tinha tostão consigo, na tentativa de anular a afronta retorquindo com uma outra que calasse aquele impostor de uma vez para sempre, contra atacou, com um sorriso de gozo e escárnio:

- Se os tens aí, é para já!

Palavras não eram ditas, o Albino levanta-se de um pulo, aproxima-se do Freitas e retira de um dos bolsos das calças, uma nota vinte escudos, exclamando:

- Estão aqui! A vaca é minha!

O Freitas ficou lívido que nem um defunto e branco que nem a cal. Emudeceu por completo! Parecia que a Rocha, desde as Águas ao Curralinho, lhe caíra em cima, amassando-o e destruindo-o por completo. Era um homem desgraçado!... O homem mais desgraçado do mundo!... Mas era um homem de palavra e, como o Albino, com ar muito sério, permanecesse ali na sua frente com uma mão a estender-lhe a nota e com a outra a pegar-lhe na corda da vaca, exigindo que cumprisse o contrato, pasmado, mudo, incrédulo, com ar apatetado, cedeu. Recebeu os vinte escudos e, com os olhos rasos de lágrimas, entregou o animal. O Albino passou-lhe uma corda pela cabeça e, perante o espanto de todos que tentavam, infrutiferamente, acalmar o Freitas, levou-a para o seu palheiro.

O Freitas passou três dias de sofrimento e amargura e outras tantas noites de insónia e desassossego. Não comia, não dormia, não trabalhava, não descansava, enlouquecia de dia para dia.

Mas o Albino que guardara a vaca no seu palheiro, tratando-a como se fosse sua, ao fim de três dias, com receio de que o Freitas definhasse por completo, veio trazer-lhe o animal. O Freitas nem queria acreditar e, abraçando-o, jurou que não mais se meteria noutra semelhante.

Mas verdade é que por toda a freguesia o Freitas foi elogiado por ser “um verdadeiro homem de palavra”.

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publicado por picodavigia2 às 11:42

O NAITIGÃO

Segunda-feira, 02.12.13

Há semanas que ela andava excessivamente entusiasmada com a preparação do enxoval para o seu casamento. Pais comerciantes e sogros lavradores remediados conjugavam as condições necessárias e os meios adequados para que a festa fosse de arromba e o enxoval de luxo ou que ao menos ombreassem com os melhores que, até então, a freguesia inteira tinha presenciado.

Desde há muito que se haviam apaixonado um pelo outro e iniciado o namoro. Sem grande oposição dos progenitores, ambos de boas famílias, ambos com comportamento exemplar e com algumas posses, começaram a frequentar a casa de um e do outro e, algum tempo depois, foi feito o pedido, foram anunciados os proclamas nas missas dos três domingos da praxe e, por fim, marcada a data do casamento. A mãe dela, que o pai já havia falecido, como era costume na Fajã, pagava as despesas mas os pais dele também se comprometiam a colaborar empenhadamente nos arranjos e a ajudar nos preparativos para boda. Mas o enxoval era totalmente da sua responsabilidade. Havia de ser ela própria a escolher os tecidos, a seleccionar os modelos, a conjugar as cores, enfim a indicar e a escolher tudo o que mais gostasse e, em sua opinião, lhe ficasse melhor. Com vestidos, casacos e blusas até nem se preocuparia muito. Mas havia duas coisas de que não podia abdicar de se esmerar na escolha: o vestido de noiva e o “naitigão” para a noite de núpcias.

O vestido, porém, não trouxe grandes dificuldades, desassossegos ou consumições. A senhora Elizinha, a costureira escolhida pela família, tinha muitas revistas, algumas até vindas da América, com vestidos de noiva para todos os gostos e de todos os feitios, por isso, a escolha foi fácil e acessível. Agora o “naitigão”, esse fiava mais fino, era mais difícil de optar, apesar de ela saber muito bem o que queria e desejava. Havia ser de tule, de um tule discreto, de cor creme e pouco transparente e havia ser curto, bastante curto, por meia perna e cavado… sem mangas. Sonhava que assim se lhe apresentaria naquela noite única e mágica, mais sensual, mais atraente, mais apetecível, mais mulher. A Irene, a amiga de sempre, havia-lhe jurado a pés juntos que, na noite de núpcias, havia noivos que até tiravam a camisola interior e ficavam em tronco nu. Talvez ele também o fizesse e com um “naitigão” de cavas havia de poder abraçá-lo melhor, sentir o calor do seu corpo, o carinho dos seus braços, a excelência da sua ternura, o enlevo do seu carinho. E ele também havia de gostar de a ver assim, apreciar a sua beleza, excitar-se coma suavidade da sua pele, talvez até lhe beijasse os braços, como tentara fazer certo dia, numa aba mais escondida de uma parede da ladeira das Covas, quando regressavam da Ponta, da festa da Senhora do Carmo. Ele puxou-a para a frente dos outros, começaram a correr como se fossem loucos sem, no entanto, conseguir esquivar-se por completo do grupo.

Em casa da senhora Elizinha o vestido e o “naitigão” começavam a tomar forma e feitio. Já tinha feito duas provas e preparava-se para a terceira. Estava tudo quase pronto. Mas era sobretudo o “naitigão” mais do que o vestido que começava a ser gabado, elogiado e cobiçado por amigas e vizinhas que o viam e a invejavam cada vez mais. Só que entre as candidatas a apreciadoras de tão excelsas e invulgares vestimentas, apareceu, certa tarde, uma futura cunhada. Uns anos mais velha do que ela, solteira, assumidamente casta, presumivelmente virgem, muito da igreja, muito de missas, de novenas e de devoções e, como se isso não bastasse, muito mandona e muito habituada a ser ela a decidir e a resolver tudo o que à sua família dizia respeito, de acordo com os seus princípios religiosos e os seus valores morais.

Ao entrar em casa da Elizinha, ao apreciar o enxoval e ao deparar com o “naitigão” de cavas desesperou, exasperou, gritou e berrou de tal modo que ninguém a calava. Que aquilo era uma grande pouca-vergonha, que era um descalabro, um horror. Mas aquilo não ficava assim. Ai não ficava não. Havia que impor dignidade, decência e respeito e se, a mãe dela o não fizesse, havia de ser ela própria a fazê-lo. Por isso procurou, de imediato, a futura noiva, com a denodada intenção de a demover de tão vil, energúmeno e quase sacrílego “naitigão”.

- Um “naitigão” de cavas, e ainda por cima curto e transparente! Nem pensar! Isso são coisas do demónio, desejos do “coiso-mau”. Lembra-te que o teu corpo é morada de Deus e da Santíssima Trindade. Nunca o hás-de profanar com tão grande, vil, indigna e imunda pouca-vergonha.

E voltando a casa da Elizinha, deu ordens rigorosas e indiscutíveis de que fizesse um “naitigão” decente, de flanela, mas da boa, comprido até aos artelhos e com mangas, como era apanágio das meninas de bem da freguesia.

- Com mangas, ouviu bem? Com mangas e bem compridas. – Repetiu vezes sem conta à Elizinha.

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publicado por picodavigia2 às 10:32

TRÊS OVINHOS

Sexta-feira, 29.11.13

Ele era o benjamim da família e o “Ai Jesus” da mãe. Quando nasceu já os irmãos mais velhos acarretavam molhos de incensos e de lenha da Cabaceira e as irmãs iam lavar roupa à Ribeiradas das Casas, sozinhas. Por isso mesmo, açambarcava, em regime de exclusividade, todos os desvelos e carinhos maternais e conjugava com a benevolência excessiva do pai uma fuga contínua e pertinaz a trabalhos, sacrifícios e canseiras. Como consequência, à robustez e corpulência físicas, o petiz aliava uma personalidade maleável, um temperamento acarinhado e uma desenvoltura fragilizada. Amigos e colegas de escola, apercebendo-se da débil e instável personalidade do garoto, cedo se apressaram a ripostar com gracejos às suas atitudes, a macerar com vitupérios as suas intervenções e a desfazer-lhe sonhos e desejos com graçolas e gozo.

Sufocado pelo excessivo proteccionismo maternal e atordoado pelas exprobrações e pelo burlesco a que os amigos o expunham, lá foi sonhando que um dia havia de mostrar e provar a todo o mundo de que também era de fibra rija como eles, tão capaz como os outros de subir a Rocha, de mergulhar da ponta do Cais, ou de trepar à mais alta árvore da Fajã para ir tirar os ovos dum ninho.

Mas pensou melhor. Subir a Rocha era perigoso e afinal nenhum da sua idade o fazia sozinho. Mergulhos na ponta do Cais, que tirassem o cavalinho da chuva que só os rapazes pouco antes de irem às sortes o faziam. Agora subir uma árvore para tirar os ovos de um ninho era tarefa comum e generalizada entre os da sua idade e por isso mesmo havia de conseguir. A mãe empalideceu quando lhe adivinhou o desejo primordial: “Que não senhor! Que nem pensasse tal coisa! Ovos, tinha ela muitos em casa, e grandes.” Mas o projecto já estava delineado e em curso na sua mente. Ele até já sabia que o ninho estava na terra do Espigão, no cimo de um pau-branco muito alto e esguio. Havia de subi-lo, havia de retirar de lá o ninho e até os da quarta classe iriam ficar com a boca aberta, ao ver os ovos. Ai se iam!

Um dia a mãe teve que ir à Ponta. O pai ceifava “feitos” no Pocestinho. O fedelho, vendo-se só, aproveitou e zarpou a caminho do Espigão. As pernas tremiam-lhe como varas verdes e vezes sem conta sentiu uma enorme vontade de voltar para casa. Mas uma voz interior mandava-o seguir em frente. Depressa chegou ao Espigão, saltou o portal e entrou na terra. Deu mais uns passos e aproximou-se da árvore. Um susto enorme dominou-o, desfazendo-lhe sonhos e bloqueando desejos. Afinal nada de grave! Era o pássaro que, ouvindo ruído ali próximo, escapulira do ninho. Se disparassem um tiro de espingarda não fugiria mais rápido. Mas pode ver, para espanto e gáudio seu, que era uma galinhola. A coragem redobrou, a força renasceu e restaurou-se-lhe uma enorme capacidade de subir a árvore e retirar os ovos, até porque ovos de galinhola não era qualquer um que os conseguia.

Abraçou-se à árvore, olhou para o alto e, confiante, iniciou a subida. Era longe, muito longe, lá bem no alto, nos últimos galhos já muito frágeis e maleáveis. As mãos ardiam-lhe e os pés pareciam-lhe fugir. Mas, de nó em nó, já ia a meio e agora era impossível regressar ao chão. Dentro em pouco, teria os ovos na mão. De repente estremeceu e quase se desprendeu das frágeis vergônteas: “E se o ninho não tivesse ovos? E se a galinhola ainda lá não os tivesse posto? Todo aquele esforço seria em vão.” Esqueceu a dúvida, desfez o susto e continuou a subir. E tanto se agarrou, tanto se prendeu, tanto se segurou e tanto subiu que lá chegou. Estava junto do ninho. E o ninho, para gáudio seu, tinha ovos, três ovinhos de galinhola.

A alegria da conquista, a satisfação do sucesso e o contentamento da vitória fizeram-lhe esquecer o perigo da descida. Agora sim! Sonhava que havia de mostrar a toda a gente aquele troféu conquistado com a sua força, com a sua coragem e com ele havia de provar aos da quarta, à Senhora Professora, à própria mãe e a todos que era tão corajoso, tão destemido, tão capaz de conseguir o que queria e de atingir o que desejava, como todos os da sua idade e até como muitos mais velhos do que ele.

Cheio de alegria, exasperando felicidade, regressou a casa, colocando os ovos nas palmas das mãos, gritando em alto e bom para que todos vissem e ouvissem:

- “Olhem! Olhem! Três ovinhos! Três ovinhos de galinhola!

E é verdade que perante toda a garotada da freguesia ganhou fama de forte, robusto e corajoso, recuperou o estatuto de valente, desenrascado e destemido mas não se livrou de conquistar e ficar para sempre com o indelével e estranho apelido de  o “Três Ovinhos”

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publicado por picodavigia2 às 09:36

VACAS DE MADEIRA

Segunda-feira, 25.11.13

Quando eu era criança, a minha principal brincadeira eram as vacas. Tentando imitar a actividade quotidiana dos adultos, fazia-as com o material mais diversificado e de todos os tamanhos, formas, cores e feitios. Umas vezes construía-as com todo e qualquer objecto que se lhes assemelhasse, desde os sabugos de milho às vagens das favas, outras, simplesmente, imaginava-as. Mas foi precisamente quando o meu tio Luís reconstruiu e assoalhou a sua casa na Via d’Água, que o meu pueril e jocoso pecúlio, em termos de bovinos enriqueceu substancialmente e o meu currículo recreador se transformou, melhorando a olhos vistos.

Das pontas das tábuas que sobraram do soalho, havia eu de encontrar um pequeno rectângulo de madeira. Como tudo o que via se me assemelhava a vaca ou a algo que nela se transformasse, aquele minúsculo toro permitiu-me logo concluir que, depois de devidamente trabalhado, transformar-se-ia numa linda vaquinha e, assim, eu havia por termo definitivamente a sabugos, favas e a vacas virtuais. Para facilitar o meu trabalho, o pedacinho de madeira era de criptoméria e, consequentemente, muito mais dúctil e fácil de trabalhar com um pequeno e frágil canivete.

 Mal tinha começado a executar o plano arquitectado, quando meu tio se apercebeu das minhas intenções. Vendo que eu não atava nem desatava, aproximou-se de mim, olhou o pequeno paralelepípedo e perguntou-me:

- O que queres fazer com isto?

- Uma vaca. – Respondi, de imediato.

Então meu tio, sem dizer palavra e cheio de paciência, tirou-me das mãos aquele pedacinho de criptoméria e com uma navalha, bem melhor do que o meu canivete, e com outras ferramentas que o carpinteiro ali deixara, cortou, falquejou, aplainou, arredondou, raspou, alisou e em breve o transformou no corpo de um bovino com cabeça e tudo. Depois fez-lhe quatro buraquitos na barriga, espetou-lhes outros tantos pauzinhos a fazer de pés e pregou-lhe duas tachas na cabeça a simular os cornos com as respectivas cabeças a parecerem ponteiras. Para que a obra ainda ficasse mais perfeita, bela e completa pregou-lhe um pedacinho de corda fina, na parte de trás a fazer de rabo. Uma perfeição suprema! Uma obra de arte! Uma vaca como eu nunca imaginara possuir. Coloquei-a no chão. Só lhe faltava andar. Agora concluía que era realmente o fim da era dos sabugos, das favas e das vacas virtuais.

Regressei a casa feliz e guardei muito bem a minha “Formosa”, pois era assim que ela se havia de chamar. Fiz-lhe um palheiro, com manjedoura, rego, poça e tudo.

Mas uma vaca era pouco para as minhas brincadeiras quotidianas. Necessitava pelo menos de duas e um ou dois bezerros. É verdade que arranjei umas tiras de madeira, mas duras e pouco adequadas. É verdade que fiz dois ou três bezerros e uma vaca, mas esta saiu-me um autêntico “cramilhano”. Feia, magra, mal feita, quase não se aguentando em pé. Parecia realmente uma autêntica vaca velha, sobretudo porque ao lado da outra, da “Formosa” que era nova e bonita. Mas eram ambas as minhas vacas de madeira com as quais brinquei tantos anos e que hoje gostava muito de voltar a possuir

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publicado por picodavigia2 às 17:04

JOÃO LIZANDRO E ESTRADA DA PONTA DA FAJÃ

Sábado, 23.11.13

No lugar da Ponta da Fajã vivia antigamente um homem já de idade avançada, chamado João Lizandro. Casado e pai de um filho, apesar de constar pela freguesia de que teria muito dinheiro, vivia, no entanto com aspecto de pobre. Mas tinha bom coração o João Lizandro e era tão religioso que até mandou construir, a expensas suas, uma pequenina capela, em madeira, bem junto à Rocha e dedicada à Senhora de Fátima. Cuidava, o devoto senhor, que se os que subiam a Rocha invocassem a protecção da Virgem, haviam de ser livres de quedas, derrocadas e outros perigos, que ali eram frequentes.

O João Lizandro vestia sempre a mesma roupa, andava habitualmente descalço e com a barba por fazer, locomovendo-se amparado a um enorme e grosso bordão, apesar de o fazer ainda com bastante agilidade. Mas o que mais caracterizava esta enigmática figura era o interesse que colocava continuamente na defesa dos interesses da localidade onde vivia, ou seja, da Ponta. Esta enorme vontade de defender a sua terra de tudo e de todos, de lutar pelo seu progresso e pelo bem-estar da sua população, levou-o, segundo se dizia, a iniciar uma série de troca de correspondência com Salazar. Pelos vistos o Chefe do Governo Português da altura, possivelmente através de algum secretário, respondia-lhe sempre e João Lisandro foi adquirindo aos poucos, a fama e o estatuto de defensor-mor da dignidade, da verdade e da honestidade, junto do Presidente do Conselho de Portugal. Uma espécie de bastião na luta contra a corrupção, pois sempre que necessário, por este ou por aquele motivo, escrevia a Salazar.

Quando o Almirante Américo Tomás, no início da década de sessenta, visitou a ilha das Flores, deslocou-se também à Fajã Grande, acompanhado do ministro da Obras Públicas, engenheiro Arantes Oliveira, do Governador Civil da Horta, Freitas Pimentel e de todas as autoridades políticas, militares e religiosas da ilha. Acompanhado de toda esta comitiva, Sua Excelência apeou-se à Praça, onde o esperava muito povo. Desceu a rua Direita, toda engalanada e com os sinos a repicar, a Senhora da Saúde a tocar, abanando a uns e sorrindo a outros, terminando o percurso pedestre em frente ao portão do Gil, junto à Casa do Espírito Santo de Baixo. Foi então que João Lizandro, descalço e com a roupinha toda rota e remendada, de bordão na mão e casaco ao ombro, furou a segurança e aproximou-se do mais alto magistrado da nação. Alguns elementos da guarda-fiscal ainda tentaram impedi-lo, mas sem sucesso, dado que Américo Tomás, talvez impressionado pelo aspecto original e genuinamente popular daquele ancião, já o chamara para junto a si, cumprimentando-o. João Lizandro estendeu a mão suja e calejada ao presidente e, sem demoras, apontando para Rocha da Ponta, solicitou-lhe:

- O sinhô tá a vê aquela rocha. Pois eu e mais de cem pessoas moramos ali debaixo daquela desgraça e nam temos sequer ua estradinha pra lá chegar, temos que vir a pé prá qui pa depois apanhá um carre prá vila ou prás lajes. E os doentes tem que sê carregados às costas. O sinhô, por alma dos seus, mande fazer uma estradinha prá gente da Ponta.

Américo Tomás ouviu, atentamente, mantendo a mão do velho Lizandro apertada pela sua e, quando ele terminou, olhou de soslaio para o ministro Arantes Oliveira que logo fez um gesto assertivo com a cabeça, enquanto Freitas Pimentel, furioso, batia com o pé no chão, dizendo:

- Querem uma estrada?! Então já não têm aqui uma, bem nova e bem boa!?

O Presidente entrou para o automóvel e seguiu até ao Porto, onde parou, junto ao farol, para apreciar o mar, a rocha, as quedas de água e o verde dos socalcos e andurriais. De seguida partiu para as Lajes.

Passado algum tempo foi construída a estrada para a Ponta. Se foi ou não devido ao pedido do João Lizandro nunca se saberá. Mas o facto é que na altura, na freguesia, todos acreditavam que a estrada se construiu graças ao pedido que João Lizando fizera ao senhor Presidente da República, quando ele visitou a Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 20:16

CAFÉ SIM

Terça-feira, 19.11.13

A Tia Cristóvão tinha por hábito passar os dias fora de casa. De manhã, na igreja, de tarde, em casa das vizinhas e amigas. Na igreja, assistia à missa logo pela madrugada, que o pároco levantava-se cedo e, depois por ali ficava quase até à hora do almoço. Novena a Santa Teresinha, ofício menor da Senhora do Carmo, coroinha do Sagrado Coração de Jesus, Padre Nossos em catadupa, por alma de uns de outros, Avé Marias em louvor de todos os anjos e santos do Céu, uma confissão dia sim, dia não, alternando-a com um exame de consciência e uma oração ao Anjo da Guarda. Oração agora e jaculatória de seguida e estava a manhã toda ocupada. Regressava a casa, por volta das onze embrulhada no seu xaile de lã e com um bioco na cabeça a cobrir-lhe uma boa parte do rosto. Pelo caminho dois dedos de conversa aqui, uma alcoviteirice acolá, uma “miradela” às casa das vizinhas e, como a sua ficava bem distante, lá para os fundos das Courelas, já quase no Areal, chegava ao seu cardenho tão tarde que já nem se predispunha a fazer almoço. Se pouco lhe apetecia, menos ainda podia pois as forças já eram poucas e o dinheiro quase nenhum. Umas vezes umas sopas de café, outras, alguma coisa que sobrasse da véspera ou apenas umas batatas sem nada. Por tudo isso, a maioria das suas tardes eram duma fome desnaturada a que se aliava uma consequente e inexaurível debilidade, até porque as mesmas se consubstanciavam em corrupios intensos, persistentes e desmesurados pelas casas das vizinhas e amigas a visitar umas e a bisbilhotar e mexericar com outras.

Certa tarde em que se alapou em casa da viúva de Ti José Luís, de tão fraca que estava e de tanta fome de que padecia, decidiu-se por simular um desmaio. Era uma casa farta, onde havia de tudo. Era, pois, uma oportunidade de petiscar alguma coisa, pois a viúva era de mãos largas, sempre solícita e sempre generosa, capaz de dar o que vestia a quem dele precisasse. Mas, por azar, foi a Evelina, a filha que ainda permanecia solteira em casa da mãe, mas mais somítica e menos generosa quem a socorreu. Além disso, muito aflita, não dando pelo embuste e julgando-a desmaiada de verdade, logo lhe trouxe um simples copo de água, cuidando que com isso a Cristóvão havia de vir a si. Mas a velha, esbugalhando os olhos, ao pressentir nos lábios o fresco da água, de imediato ripostou:

- Água não, não. Café sim! E, já agora, com uns bisc

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publicado por picodavigia2 às 00:03

ESTRANHO ESQUECIMENTO

Sábado, 16.11.13

O Cardoso estacionou o carro de praça, junto à porta da casa do senhor padre. O reverendo solicitara-lhe, veementemente, na véspera, que estivesse às dez em ponto. Sem falta! O Cardoso cumpria sempre à risca as exigências das propostas solicitadas pelos clientes. Mais se esmerava, ainda, quando se tratava de um eclesiástico. Apesar de ser o único carro de praça existente na Fajã Grande, era preciso agradar a todos, sobretudo aos que o solicitavam com mais frequência. Cumprir, cumprir sem falhas era o seu lema. O pároco era o pároco e era um bom cliente!

Assim um pouco antes das dez lá estava o Cardoso, de boné, gravata e tudo. Estacionou mesmo em frente à porta que dava para o saguão que conduzia ao andar superior da residência hierática e, como a porta estava semiaberta, nem sequer parou o motor, cuidando que o reverendo não havia demorar a descer.

Apesar de tudo, aguardou uns bons momentos, passados os quais ficou surpreendido com um estranho barulho. Pareciam vozes altas, exaltadas, vindas, aparentemente, de dentro, da residência do pároco. Nada de anormal, pois toda a gente sabia que o reverendo, já avançado em anos, frequentemente se inquietava e enervava com coisas de somenos importância. Por isso e como o senhor padre demorasse, o Cardoso desligou o motor. Pode então confirmar melhor que aquele ruído de vozes alteradas, espezinhadas e ressequidas, vinha mesmo dali. Pouco depois o pároco, com um notável aborrecimento a emanar-lhe do rosto e com um excessivo enervamento a saltar-lhe do espírito, vermelho que nem um pêro, a escorrer suores e a bufar imprecações, desceu as escadas, transpôs a porta da rua, entrou no carro, baqueando a porta, sem tugir nem mugir.

O Cardoso, abstraindo-se do ar estranho e misterioso que o clérigo aparentava, sem dizer palavra, ligou o motor, pôs o veículo em movimento e subiu a Assomada, o Descansadouro, o Delgado e a Cabaceira, em direcção à Fajãzinha, sem que um ou outro dissesse qualquer palavra que fosse. Era condutor de um carro de praça e, por isso, estava ali para servir os clientes e não para conversar, nem muito menos se meter na vida ou nos problemas dos passageiros, pensou consigo. Por isso, em silêncio, prosseguiram a viagem até ao Vale Fundo.

Foi então que, junto à ponte da Ribeira do Ferreiro, o padre, levando as mãos à cabeça e quebrando tão invulgar silêncio, ordenou:

- José, volta para trás!

Estranhando tão esquisita e inesperada decisão, o Cardoso tirou o pé do acelerador, reduziu a marcha e indagou:

- Mas… o senhor padre já não quer ir à Fajãzinha?

O prebendado, voltou a ordenar, com mais veemência;

- José, já te disse, volta para trás! – E levando, de novo, desta feita apenas a mão direita à cabeça, justificou a razão de tão estranha deliberação: – Esqueci-me da paspalhona da minha afilhada.

E o Cardoso, contendo o riso muito a custo, inverteu a marcha no largo do caminho que dava para o Curralinho, e regressou à Fajã. Pouco depois, dando a volta à Praça e recuando até à porta da residência paroquial, pode ver a Juliana, sozinha, chorosa, muito triste, aflitíssima e excessivamente atrapalhada, junto a uma ombreira da porta de entrada. Lesto que nem um láparo, saiu e, sem dizer nada, veio abrir-lhe a porta de trás do veículo, fazendo um gesto assertivo com a cabeça, como que a convidá-la a entrar.

Já dentro do carro, a Juliana, mais aliviada, com voz trémula e hesitante, desabafou:

- Obrigado, padrinho! Eu pensei que já não queria que eu fosse consigo à Fajãzinha.

Um silêncio medroso voltou ao interior do automóvel.

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publicado por picodavigia2 às 21:48

O EMBARQUE

Sexta-feira, 15.11.13

Em cima do cais das Lajes, no meio de uma confusa miscelânea de pessoas animais, bagagens e mercadorias, aguardava a minha vez de embarcar no velhinho Carvalho Araújo, ancorado ao largo da ampla baía, mas estava, momentaneamente, impedido, parcialmente de o fazer. É que para além duma mala castanha, levava comigo um pequeno baú, que por rigorosa determinação do senhor Jerónimo, o agente da “Insulana” nas Lajes, tinha que ir no porão. Por isso esperei horas a fio. É que a bagagem de porão para as ilhas só poderia ser carregada depois de toda a mercadoria que se destinava ao continente estar devidamente colocada e arrumada nos fundos dos porões do navio.

Abracei-me a meu pai e comecei a chorar e a esmoncar-me. Olhava para a carga amontoada em cima do cais e concluía que a minha viagem começava ali a complicar-se. Muito provavelmente só seguiria para bordo numa das últimas lanchas e o meu progenitor já não me poderia acompanhar. Assim não chegaria a tempo de arranjar beliche. Foi o senhor Aurélio, aos cuidados de quem eu havia de viajar até à Terceira, que me salvou. O senhor Aurélio há muitos anos que era o porteiro do Seminário de Angra, onde vivia durante todo o ano. Tinha casa na Fajã e ali vinha passar os meses de Verão. Comprava sempre passagem de ida e volta, mas em Angra, onde era mais fácil arranjar acomodação. Já tinha o beliche marcado no seu bilhete e não necessitava de pressas para embarcar, por isso sugeriu a meu pai que seguisse comigo para bordo e que fosse falar com o Senhor Artur, o responsável pela terceira classe, a ver se ainda havia um beliche livre para mim. Ele ficava em terra e comprometia-se a embarcar apenas quando tivesse a certeza de que o meu baú já seguira para bordo.

Por entre apertos e empurrões, entrei no primeiro batel que encostou ao cais, seguido de meu pai que carregava a minha mala às costas. Apertados como sardinha dentro de lata, com o barco a transbordar de gente e de bagagem, com a água quase a dar-lhe pela borda, seguia temeroso, atravessando aquele troço de mar, que à medida que a embarcação se afastava de terra parecia ir tornando-se cada vez mais agitado. Ao fim de algum tempo, por entre solavancos e tropeções, o batel aproximou-se do monstruoso e vetusto paquete, ao redor do qual o mar parecia tornar-se mais calmo e mais tranquilo, transformando o navio numa espécie de rochedo encravado ali, na enorme baía, bem em frente à vila das Lajes. A barcaça encostou-se ao vapor. Esperei pela minha vez e, amedrontado, subi as escadas. Através dos vãos via lá em baixo o mar liso, azulado e escuro e sentia um medo terrível. Não fosse algum pé escorregar-me e eu escapulir-me-ia por ali abaixo, perdendo-me definitivamente no fundo do Oceano. Por isso, à medida que subia as escadas, agarrava-me ao corrimão de lona, dúctil e maleável, com ambas as mãos. Ao portaló o Imediato e outros tripulantes, vestidos de farda branca e boné da mesma cor, davam a mão aos passageiros mais enrascados e temerosos e as boas vindas a todos. Entrei no corredor do velho paquete, a abarrotar de malas e caixotes, como se penetrasse num mundo estrambólico e tenebroso e onde tudo me era desconhecido e estranho. Esperei por meu pai que subia um pouco atrás carregando a minha mala.

Iniciava ali a minha primeira grande aventura.

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publicado por picodavigia2 às 16:40

TI'ANA TENENTA

Terça-feira, 12.11.13

Ana de seu nome e Tenenta de apelido, Ti’Ana Tenenta vivia numa casa situada numa das canadas da Fontinha, naquela que ficava logo a seguir à Fonte Velha, casa que mais tarde serviu de palheiro para o gado do António Vieira. De avançada idade, portadora de algumas doenças crónicas e outras tantas fortuitas e com uma lucidez bastante limitada, Ti’Ana Tenenta morava sozinha, numa casa muito velha, com escassos meios de vida e, como se isso não bastasse, em condições de extrema pobreza e acentuada precariedade. Também não se lhe conheciam parentes, não tinha amigos e apenas um outro vizinho mais benevolente e compreensivo, lhe abonava uma demão a cortar os garranchos de lenha para acender o lume, lhe oferecia uma cesta de batatas, uma pinguita de leite ou um quarto de bolo. Além disso, quer porque a vida já não lho permitisse, quer porque granjeava poucas simpatias por parte dos vizinhos e porque nem sequer tivesse amigos ou parentes chegados, Ti’Ana Tenenta pouco saía de casa e menos ainda convivia com quem quer que fosse, sendo o seu dia a dia quase ignorado e desconhecido por parte de quantos passavam à sua porta. Se a velha não aparecia a espreitar por dentro da janela, onde já havia mais vidros partidos do que inteiros, era porque estava deitada na enxerga ou sentada numa cadeira a dormitar. Assim a sua ausência de casa nunca era notada por quem quer que fosse.

Certo dia, ao anoitecer, sem que ninguém se apercebesse, Ti’Ana Tenenta saiu de casa, subiu a Fontinha até ao Alagoeiro, tomando rumo na direcção da Ribeira com a denodada intenção de subir a Rocha, com destino a Santa Cruz. Andou, andou, subiu degraus e sentou-se a descansar em todos os apeadeiros e furnas. Bebeu água fresquinha na Fonte Vermelha e chegou ao cimo da Rocha ainda a noite era escura como breu. Voltou a sentar-se e, pouco depois, tomou o rumo do Curral das Ovelhas e da Burrinha, sem nunca se perder. Nem alma viva encontrara ao longo de todo este longo percurso que lhe tolhesse os passos ou a impedisse de percorrer tão cansativa caminhada àquela hora da noite. Já ia a subir o Rochão do Junco quando começou a amanhecer e o dia, lá por trás do Queiroal, começou a clarear, permanecendo, no entanto, no ar uma densa neblina matinal. Pouco depois iniciou a descida da Burrinha, na direcção da caldeira da Água Branca. Já por ali passara muitas vezes, atravessando a caldeira sobre paus de cedro a fim de descansar da longa caminhada e encurtar caminho para a Vila. Naquela manhã porém como não encontrasse por ali perto tronco de cedro ou de outra árvore qualquer que lhe servisse de jangada, decidiu-se por atravessar a pé a caldeira. Já ia a uns bons metros da margem, com a água a dar-lhe pelo peito quando foi avistada por dois homens da Lomba que andavam por ali a juntar gado alfeiro que havia saltado os tapumes e fugido das relvas. Bem chamaram, bem gritaram e ainda melhor berraram mas a velha cada vez mais se enterrava na caldeira, cheia de lodo e de ervas e com a água já a dar-lhe pelo pescoço. Numa correria louca com o intuito de salvar a pobrezinha, os homens dirigiram-se na direcção da caldeira. No entanto e quando se aproximaram da borda da mesma já nenhum vestígio da velhota conseguiram lobrigar. Aflitos, atónitos, sem saber que fazer e cuidando que atirarem-se à caldeira era suicidar-se, pois nunca mais encontrariam a pobre velha e corriam sérios riscos de se afogar pois nenhum deles sabia nadar. Iniciaram então uma desusada correria na direcção da Fajã, com o intuito de chamar alguém que os ajudasse. Passadas algumas horas de descidas e subidas, chegaram à caldeia os primeiros homens da Fajã… mas da velha nem vestígios. Além disso, mesmo que a encontrassem, aquela hora já estaria morta. Esperaram um dia, dois dias três dias, procuram e voltaram a procurar mas o cadáver da velha nunca veio à superfície e nunca foi encontrado, encerrando-se, finalmente, as buscas. Mas os da Fajãzinha é que jamais se calaram. Que não podia ficar ali um cadáver, pois era a água daquela caldeira que alimentava as nascentes da Fajãzinha, nomeadamente as fontes do Rossio, onde todos bebiam e ninguém estava disposto a beber água que viesse de onde estava o cadáver de um ser humano a apodrecer. Tirassem o cavalinho da chuva, os da Fajã: se a velha era deles, eram eles que tinham que a tirar da caldeira! Olaré se tinham! De contrário a questão seria resolvida no tribunal de Santa Cruz. E os da Fajã tiveram mesmo que ir tirar Ti’Ana Tenenta da caldeira da Água Branca. Um grupo de homens equipou-se com garfos de tirar esterco, ancinhos, paus, cabos, cordas e até um caixão e dirigiram-se para a Água Branca. Construíram jangadas, sob as quais percorreram toda a caldeira, pesquisando o fundo com paus, fueiros e aguilhadas, durante dias e dias. Mas nada. Cansados, desanimados, esfomeados e desmotivados, devido ao mais que evidente insucesso da tarefa, decidiram terminar as buscas. Mas os da Fajãzinha? Como se acalmariam e aquietariam? Foi então que resolveram simular o aparecimento do cadáver com grande efusão e naturalidade. Enchendo o caixão com paus e pedras mais ou menos do peso do corpo da velha, conduziram-no aos ombros até ao povoado, simularam um funeral e convenceram os da Fajãzinha de que podiam beber à vontade as águas das suas nascentes, pois o corpo de Ti’Ana Tenenta finalmente tinha sido retirado da caldeira da Água Branca e sepultado com exéquias, missa do terceiro dia, responsos e tudo.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:38

A MALEIRA

Sexta-feira, 08.11.13

Mais veloz do que o vento norte e tão ágil e lesta como as brisas matinais, a Maleira da Fajã partia, duas vezes por semana, com destino traçado às Lajes, com o único objectivo de levar e trazer o correio juntamente com um ou outro recado e com este ou aquele mandalete. Morava na Ponta, logo nas primeiras casas e partia, alta madrugada, a pé e descalça, quando muitos galos ainda não haviam iniciado os seus cocorocós matinais e a escuridão teimava em não se deixar vencer pelos primeiros raios da aurora. Não se furtava às intempéries, não temia os ventos frígidos e fortes, não se abrigava das chuvas por mais intensas e fustigantes que fossem, nem se acobardava a tempestades. Caminhava a passo firme, ríspido, sereno e convincente. Diziam os que com ela, por vezes, faziam viagens, quer nas idas quer nas vindas, que era quase de todo impossível acompanhar-lhe a pedalada. Saía da Ponta, atravessava a Fajã, seguia pelo Caminho da Missa, Ladeira do Biscoito e passava a Ribeira Grande, mesmo em dias de grande caudal, com uma perna às costas. Na Fajãzinha acertavam os relógios à sua passagem e ao amanhecer já subira os Bredos e demandara os Terreiros. Atravessava os matos para encurtar caminhos e antes das oito já estava sentada no muro da igreja das Lajes à espera que o Correio abrisse. Depois era despejar as cartas da Fajã e da Ponta, sobretudo com destino à América, e encher a mala com as que de lá e de outros recantos do mundo vinham. Depressa se despachava e antes das onze, com um bocado de pão e outro de queijo já comidos, regressava à Fajã.

Caminhava bem mais carregadinha no dia seguinte à chegada do Carvalho, em que a mala, de cuja fechadura havia apenas uma chave no Correio da Fajã e outra no das Lajes, vinha mesmo a abarrotar. Na viagem seguinte, embora não tão cheia, lá vinha uma ou outra carta atrasada por descuido de algum funcionário e os célebres avisos amarelos a anunciar as encomendas vindas da América.

Nesses dias, ao regressar, era esperada com grande ansiedade. Mal aparecia no cimo da Assomada, um rancho de gente vinda de todas as ruas e canadas da freguesia acompanhavam-na até ao sagão do José Natal. Aí esperavam uma eternidade, enquanto o homem, lento que nem uma lesma, abria, remexia e sacudia a mala e, de seguida, separava, juntava, amontoava e voltava a separar envelopes e avisos, até se decidir, por entre grande indignação, tumulto, zanga e reclamação dos que ali esperavam estacados, a ler os nomes dos destinatários estampados em cada envelope ou aviso. A essa hora a Viva, como também era apelidada a Maleira, já tinha ido ceifar um molho de erva a uma lagoa que tinha para os lados da Ribeira do Cão, e carregava-o, sob uma rodilha, à cabeça, descalça, com o mesmo saiote que levara para as Lajes, com as pernas repletas de pelos e a escorrerem de água.

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publicado por picodavigia2 às 16:49

A ENCOMENDA

Sexta-feira, 08.11.13

O aviso amarelo chegou três dias após o Carvalho ter demandado a ilha e foi recebido, lá em casa, com enorme alarido e desmesurado alvoroço. Vinha aí uma encomenda da América! Ai vinha, vinha!...

Na manhã seguinte meu pai, aviso no bolso, bordão atravessado sobre os ombros, froca a tiracolo, com um parco farnel numa das mangas, partiu, muito cedo, para as Lajes. Tão cedo que ninguém lá em casa deu por isso, a não ser a minha mãe que se levantou para ir à cozinha aquecer um caneco de alumínio, bem cheio de café, sobre o fogão da luz. Bem precisava o meu progenitor de forças para fazer tão longa caminhada!

Na véspera, meu pai deixara uma boa parte do dia planeado e todas as tarefas muito bem definidas: - O António e eu íamos buscar a Benfeita e os bezerros à Pedra d’Água, enquanto o José limpava o palheiro. Minha mãe tirava o leite à vaca e a Maria ia levá-lo à máquina. Terminada a escola iam todos sachar o milho da Fontinha, que ele havia de chegar quando terminassem.

Embora executando as tarefas com entusiasmo e competência, nenhum deixou de pensar na encomenda, durante todo o dia, por um único momento que fosse. Por isso, despachamo-nos do milho da Fontinha e, cedo, viemos esperar meu pai, sentadinhos na soleta da porta da sala. Uma encomenda da América era de se lhe tirar o chapéu e cada um já se imaginava com um vestido ou uma camisa nova, uns alvarozes, com uma froca, umas calças de angrim, um beltro, um caneta e, quem sabe, talvez um brinquedo e muitos candis. Bem desejávamos ir esperar meu pai ao Cimo da Assomada, à Eira da Cuada ou, se pudéssemos, à Ribeira Grande mas… a minha mãe não deixou.

Finalmente, quase ao fim da tarde, meu pai chegou e trazia às costas uma enorme saca branca, com o seu nome escrito a letras azuis, muito grandes, com muitos selos, etiquetas verdes, carimbos pretos e roxos e com a direcção muito certinha. Era remetida de Turlock, pelo tio Francisco. Atiramo-nos a ela que nem Santiago aos mouros, perante os protestos da minha progenitora que com a tesoura da costura tentava, com dificuldade, abrir o saco sem o danificar, pois daria muito jeito e serviria perfeitamente para levar a moenda ao moinho de tio Manuel Luís. É que o saco usado, já tinha mais remendos do que lona original. De seguida, com cuidado e perante a nossa exasperada agitação, minha mãe foi tirando as peças de roupa, uma por uma. No fundo do saco, dois pares de sapatos, muito velhos e gastos mas que serviriam ao meu pai, para usar aos domingos. Dentro destes, umas canetas que já nem escreviam, vários lápis usados, borrachas e outras bugigangas, estendendo tudo pelo chão, de maneira que cada um agarrasse no que quisesse, no que lhe apetecesse ou simplesmente no que os outros deixassem. A sala exalava agora aquele cheirinho tão típico da roupa americana. Parecia que dentro da saca se havia derramado um frasco de perfume. Nós embrenhados não apenas ma escolha e na prova mas sobretudo na pesquisa. É que nos bolsos dos casacos e das calças, ou embrulhados em lenços mas muito bem escondidinhos, vinham sempre “candis”, “pinotes”, rebuçados, chocolates, canivetes, sabonetes e frascos de perfume, alguns até vazios. Mas cheiravam tão bem! Uma vez tudo virado e revirado, vasculhado e apalpado, chegou a hora de dividir o tesouro. Primeiro seleccionaram-se as roupas que serviam, com mais ou menos rigor, em cada um e poucas eram. A partir daí a ordem era cada qual ficar com o que quisesse e lhe apetecesse. Mas a minha mãe havia de supervisionar tudo. Foi um ver se te avias: pega, puxa, larga, tira, deixa, mostra e toma. Foi tal escolher e, de seguida, fazer a prova. Sobre as ordens e orientação da minha progenitora, cada qual ficou com o que melhor lhe serviu, embora desajeitadamente.

Depois de tudo acertado e dividido e da minha mãe se retirar para a cozinha, decidimos que cada um havia de vestir o que lhe ficasse melhor e iriamos à Fontinha, mostrar à avó e às tias aquelas maravilhas da alta-costura americana. O José vestiu um saiote, que lhe arrastava pelos pés, a Maria um vestido muito largo e comprido, apertado à cintura com um cinto preta, o António umas calças verdes tão largas que tinha que as segurar constantemente com ambas as mãos e eu com um vestido de menina e uma camisa de seda cor-de-rosa por cima. Lá fomos todos vaidosos e contentes com tão adequadas e estéticas vestimentas, todos muito felizes, juntinhos e de mãos dadas. Ao rodar à Praça havíamos de encontrar o Maurício que ao ver aquele quadro estapafúrdio desata numa enorme gargalha e a fazer pouco de nós.

A Maria não esteve com meias medidas e, aproximando-se dele, atirou-lhe à cara:

- Estas a rir porque estás roído de inveja!

E seguimos o nosso caminho, muito felizes.

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publicado por picodavigia2 às 08:39

UMA LATINHA DE MILHO

Domingo, 03.11.13

Nos dias seguintes ao naufrágio do Papadiamandis, nos escolhos da Ponta do Baixio, nos mares revoltos e bravios da Fajã Grande, a área circundante ao acidente, quer em terra quer no mar, encheu-se, não apenas de destroços do navio, mas também de todo o tipo de objectos, latas, caixas, caixotes e bugigangas diversas. Como era natural em situações semelhantes, a maioria dos habitantes da freguesia dirigiu-se, depois de salvos os náufragos, para o local do acidente, não apenas para ver e observar de perto os restos do navio naufragado, mas também, para vasculhar o baixio de uma ponta à outra, na esperança de juntar um ou outro objecto que tivesse alguma utilidade ou simplesmente pudesse ser guardado, para a posteridade, como recordação e testemunho de tão trágico evento. É que, para além da destruição do navio, foram vinte e oito vidas que estiveram em perigo durante horas e horas, as quais, a muito custo, foram salvas devido aos esforços e empenho não só das autoridades mas também da população da freguesia.

Perante esta “caça ao tesouro”, cedo se prontificou a Guarda-Fiscal para defender, com unhas e dentes, o local dos “temíveis predadores”. De Santa Cruz, veio uma brigada de homens, que fez círculo àquela zona do baixio, na tentativa de impedir que, quem quer que fosse, tirasse dali coisa nenhuma. Nunca se soube o que cada um conseguiu encontrar e, à socapa dos guardas, levar para casa. Uns terão levado muito, outros, alguma coisa, alguns pouco e a maioria, nada. Francisco, apesar de criança, órfã, frágil e indefesa também tentou a sua sorte. Deslocou-se ao Areal, transpôs a orla negra do baixio e observou, de perto, o navio com o seu casco negro a desfazer-se nos rochedos e as ondas altivas a saltarem-lhe sobre o convés, já quase desfeito. Por fim decidiu regressar a casa, afastando-se do local, sem procurar muito ou se esforçar por encontrar o que quer de fosse. Eis senão quando, de repente, viu, debaixo da aba duma pedra, uma pequena lata. Baixou-se e juntou-a, num misto de alegria e felicidade. Era uma lata, uma pequena lata, uma simples lata, mas era o seu troféu. Talvez levasse apenas um quarto de litro de leite. Mas estranho! As letras que tinha nos papéis que estavam colados naquela lata, eram iguais às que já aprendera na escola, mas não conseguia ler o que ali estava escrito. Grego não era, devia ser americano. Curiosamente no papel, ao lado das letras, estavam desenhadas maçarocas de milho. O enigma estava decifrado: a lata continha milho. Francisco achou aquilo muito esquisito. Então os gregos ou os americanos metem milho dentro de latas!? Ele cuidava que dentro de latas só se metiam sardinhas e atum! Pensou atirar com a lata, pois milho pronto para cozer ou assar tinha ele muito, nas Furnas, no Porto, no Mimoio, na Bandeja e no Descansadouro. Não precisava daquele, nem nunca havia comer milho guardado dentro duma lata. Bom para comer era o milho fresquinho, com a maçaroca bem assada e embrulhada na própria casca, ainda verde. Mas depois lembrou-se do orgulho que seria chegar a casa com aquele pequeno troféu, mostrá-lo aos irmãos, aos tios, aos amigos e até na escola, aos colegas e à senhora professora. Por isso guardou-a muito bem escondida, debaixo da soera, sobre a barriga, o mais disfarçadamente possível. É que um guarda estava mesmo ali, à frente dele, à mão de semear. Este, vendo o fedelho a esquivar-se, desconfiou. Aproximou-se e de imediato, carregando no tom de voz e na postura da autoridade que cuidava representar, gritou:

- Olha lá, ó badameco! Mostra o que levas aí escondido!

- Mas eu não levo nada! – Respondeu a criança, tentando esquivar-se.

- Ai levas, levas – e agarrando-o por um braço, ordenou. – Ora deixa ver o que levas aí debaixo da soera.

Como o garoto teimasse, tentando fugir e resistir às potentes garras da autoridade, o guarda pegou no cacete, atirando-lhe uma forte paulada nas pernas. A lata de milho caiu, rolou pelo chão, enquanto o miúdo, lavado em lágrimas, fugia dali a sete pés, não fosse o guarda dar-lhe uma segunda cacetada, mais forte e mais dolorosa do que a primeira.

Passados alguns dias, toda a Fajã ficou alarmada com o fumo e o fogo que saíam da chaminé duma casa, pertencente aos pais de um dos guardas que tinham feito vigilância ao naufrágio do Papadiamandis. Cuidando que era um incêndio, acorreram os vizinhos, acudiram os transeuntes e até os sinos da igreja tocaram a rebate. Labaredas de lume enormes e alaranjadas saíam pela chaminé, acompanhadas por negros rolos de fumo e de rebentamentos e estalidos estranhos. Nada de grave, afinal. Apenas alguém, inadvertidamente, incendiara alguns very lights retirados do Papadiamandis. Além disso, espalhados por toda a casa, podiam ver-se variadíssimos objectos e bugigangas diversas retirados dos destroços do navio naufragado. Entre eles estavam várias latinhas de milho.

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publicado por picodavigia2 às 18:15

BALEIA À VISTA

Sexta-feira, 01.11.13

Ainda era manhã cedo, pese embora os primeiros raios de Sol começassem a surgir amarelados e tremulantes, lá por cima da Rocha dos Paus Branco. Ruas, vielas, caminhos e canadas já se haviam enchido de pessoas e animais. Os homens dirigiam-se para as suas terras, para ceifar erva, para cortar feitos, para sachar o milho, para cavar uma courela, para apanhar batatas ou plantar “coivinha”. Rapazes e crianças conduziam o gado às relvas e depois haviam de encaminhar-se para a escola que ficava na Casa do Espírito Santo de Baixo. As mulheres, umas acompanhavam os homens nas idas para os campos, outras ficavam em casa, a lavar, a limpar, a varrer, a por a roupa a corar ou a preparar o almoço que depois haviam de ir levar aos campos.

Subitamente, no alto do Pico da Vigia, soou um foguete, ecoando de seguida na rocha, desde as Águas até aos Lavadouros:

- “Baleia à vista!” – Ouviu-se em uníssono.

- “É cardume, porque foi um foguete.” – Explicavam os mais entendidos.

 De imediato uma boa parte dos homens largaram o que faziam. Os sachos foram atirados para o chão, as enxadas ficaram caídas por terra e as foices espetadas nas paredes. Muita erva ficou por ceifar, as vacas amarradas à pressa e muitos homens iniciaram uma corrida louca em direcção ao Porto, onde estavam varados os botes e fundeado o gasolina.

Muitas das mulheres que estavam nos campos também abalaram para casa a fritar, à pressa, uma posta de peixe ou um toro de linguiça, a partir um pedaço de pão ou de bolo e a preparar uma garrafa de vinho, de água ou uma “termus” de café. Enfiando tudo numa cesta ou numa saca de pano, partiam, também a correr na direcção do Porto Velho, a fim de chegarem a tempo, com a comida que os seus homens haviam de levar, dado que, muito provavelmente, permaneceriam todo o dia todo no mar. No varadouro arreavam-se os botes, sob as ordens dos oficiais e outros baleeiros profissionais que haviam chegado, uns dias antes, vindos do Pico, das Lajes e da Vila. Os homens, à medida que iam chegando, agarravam-se aos botes com unhas e dentes e ajudavam a pô-los na água. Assim que a tripulação de cada um dos botes estava completa, partia. De cima da rocha negra do baixio, circundante ao Boqueirão, as mulheres ficavam aflitas, a abanar, a suspirar e algumas a chorar, conscientes dos perigos que aqueles homens corriam. Os botes, finalmente, iniciavam a marcha lenta, primeiro a remos, carregados de homens e de esperança. Já no mar alto içaram as velas, uma vez que o vento de nordeste beneficiava a sua marcha. Finalmente partiu a “Santa Teresinha”, com os seus três tripulantes, carregada com lanças e arpões suplentes e com os sacos e as cestas dos baleeiros cujas mulheres se tinham atrasado. Não demorou muito e o potente gasolina alcançou os botes, lançou-lhes cabos e começou a rebocá-los, seguindo todos, oceano fora, orientados pelo pano que os vigias haviam estendido nas encostas do Pico do Areal, acabando por se perderem de vista. Mas sabia-se que, algum tempo depois, lancha e botes estavam em cima do cardume.

A lancha afastou-se, para não assustar as baleias com o barulho do motor e os homens dos botes começaram a remar com quanta força tinham, enquanto os mestres mandavam os “trancadores” prepararem-se para atirar o arpão sobre os enormes cetáceos, que resfolgavam, soltavam esguichos de respingos no ar, mergulhavam para voltarem a aparecer metros mais á frente. Um dos botes colocou-se em melhor posição para arpoar. O “trancador” curvou-se para a frente, fez pontaria aquele monstro negro e, sob a ordem do oficial, atirou o arpão, acertando de raspão no cetáceo. A baleia ferida acelerou a sua marcha, afastando-se do bote, a alta velocidade, arrastando-o consigo e levando no corpo o arpão amarrado a uma corda forte, que se ia desenrolando de uma selha no fundo do bote. A corda, porém, não teve comprimento suficiente e o mestre deu ordens que amarrassem uma segunda, enrolada noutra selha. Esta também depressa se escoou pelo fundo do mar. Desesperado o mestre mandou que a cortassem, não fosse o diabo tecê-las. O bote paralisou e a baleia desapareceu por completo nas profundezas do oceano, enquanto o segundo bote permanecia ali perto para o que fosse necessário. A confusão resultante da caça falhada foi medonha. Gritos, berros, remos caídos ao mar, o roncar do motor do gasolina… O cardume afastou-se e, pouco depois, desapareceu. Homens, botes e até a lancha perderam-lhe o rasto. Os almas do diabo haviam-se enfiado nos quintos dos infernos! Agora só mar, céu e lá ao longe a mancha esfumaçada da ilha. Nada mais havia a fazer. Os botes aproximaram-se um do outro, os mestres conversaram e finalmente decidiram. Só havia uma coisa a fazer: voltar para terra, pois naquele dia mais nada lhes era possível. Rebocados pelo gasolina voltaram ao Porto Velho e vararam, na esperança de que o dia seguinte não fosse apenas mais um dia de “baleia à vista” mas sim um dia de “baleia trancada”.

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publicado por picodavigia2 às 14:06

QUEM NOS CRIOU

Quarta-feira, 30.10.13

Quase todos os domingos, a seguir à missa, as crianças da catequese de todas as idades tinham que permanecer na igreja por mais algum tempo, a fim de prestarem contas das aprendizagens da doutrina que iam fazendo, semana após semana, em casa das suas catequistas. É que o pároco aproveitava esse momento para inspeccionar a forma como tinham decorrido as horas de catequese semanais e para avaliar as crianças sobre o que tinham ou não tinham aprendido, seleccionando assim, os que possuíam os requisitos mínimos para fazer a primeira comunhão, a comunhão solene ou para crismar.

Depois de ir à sacristia retirar os paramentos, o padre Pimentel dirigia-se até ao cruzeiro, envergando a sua batina negra, com um botão ou outra por abotoar e, começando a andar de lá para cá, ia interrogando uns e outros, como que fazendo uma espécie de exame oral a todos. As crianças sentavam-se nos dois primeiros bancos da frente: as meninas do lado da epístola e os rapazes do lado do evangelho. As catequistas, uma ou outra beata, algumas mães e outros familiares esperavam sentados, por aqui e por acolá, espalhados por toda a igreja. O reverendo, exigindo silêncio absoluto, iniciava o interrogatório e, regra geral, os resultados eram muito bons. Quase todos tinham na ponta da língua e papagueavam as respostas do catecismo e cada um, na sua vez, respondia tintim por tintim às perguntas que o reverendo fazia, tal e qual estavam escarrapachadas no catecismo e que haviam decorado ao longo de semanas e semanas, com a ajuda das senhoras catequistas. Um ou outro entupia, um ou outro enganava-se, um ou outro deixava uma palavra atrás, mas quase todos lá se iam desenrascando, com um ou outro erro, sem que o prebendado desse muito por isso ou se aborrecesse, até porque era por demais evidente, que não estava ali para muitas demoras. Por isso olvidava ou fazia por olvidar, as falhas os enganos e os engasgamentos. Coisas de somenos importância. Nada que rondasse a heresia ou que cheirasse a apostasia.

Certo domingo, porém, ao perguntar ao Antonino da Cuada “Quem nos criou?”, o fedelho que, pelos vistos ou não estudara nada nas últimas semanas ou esquecera aquela parte do catecismo, ficou mudo e quedo.

- Então? – Insistiu o reverendo. – Não sabes quem te criou?

 O Antonino, depois de reflectir um pouco, saiu-se com esta;

- Ah! Quem me criou?! Foi meu pai, minha mãe, o leite da nossa Benfeita e o dinheiro da caixa verde!

Quebrando a tolerância habitual a pequenos erros e a uma ou outra incorrecção, o reverendo, desta feita, foi aos arames. Chamou-lhe paspalho, ameaçou puxar-lhe as orelhas se a cena se repetisse, mandou-o estudar e, no domingo seguinte, na homilia feita da grade, antes da missa, os da Cuada levaram um grande raspanete, por, alegadamente, não cumprirem um dos mais importantes e elementares mandamentos da Santa Madre Igreja, ou seja, ensinar a doutrina cristã aos seus filhos ou, pior do que isso, não os enviar a casa das catequistas que as havia na freguesia, muito competentes e sempre dispostas a ensinar a doutrina cristã.

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publicado por picodavigia2 às 17:59

ABRAÃO VAI PERDIDO

Terça-feira, 29.10.13

Os nevoeiros, as brumas, as tempestades e os temporais que surgiam frequentemente nos matos da Fajã, para além de perigosos eram, por vezes, aterradores e já alguns homens e rapazes que nesses dias tenebrosos demandavam aqueles andurriais, se haviam perdido, embora, na maioria dos casos, apenas temporariamente.

Mas homem prevenido vale por dois. Baseado nesse princípio e temendo que, mais dia menos dia, lhe pudesse acontecer o mesmo, isto é, que também havia chegar a sua vez de se perder no mato, no meio de um nevoeiro ou envolto numa tempestade, o velho Abraão, sem o confessar a quem quer que fosse, dia após dia, lá foi escrevendo, a letras garrafais, numa quantidade de tirinhas de papel julgada necessária, a seguinte frase: “Abraão vai perdido.” Guardou-as muito bem guardadas nos caninhos de uma caixa e, a partir de então, sempre que ia para o mato, quer estivesse sol de rachar, quer se previsse nevoeiro ou se adivinhasse temporal, lá ia Abraão, de cordas ao ombro e bordão em riste, com os papelinhos escritos, bem escondidos num dos bolsos.

E não é que o previsto aconteceu! Ia Abraão, certo dia, com destino a Santa Cruz, atravessando o Rochão Grande, prestes a chegar à Burrinha. Um forte nevoeiro tapou-lhe os olhos, tolheu-lhe os passos e entonteceu-o de tal modo que perdeu o rumo. Estava completamente perdido mas muito animado, recorrendo de imediato ao seu segredo, aos papéis que continha num bolso. Lá foi deixando cair os papéis um após outro, enquanto deambulava sem saber o rumo. Passou a noite numa furna, onde facilmente o encontraram aqueles que, seguindo os papelinhos, na manhã seguinte, o foram procurar.

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publicado por picodavigia2 às 20:14

DO SONHO À REALIDADE

Terça-feira, 29.10.13

Sentado num degrau do Descansadouro, a meio da Rocha que se sobrepunha ao povoado, o António Balafanha maldizia, consigo próprio, a sua sorte.

A mãe falecera, não havia muito. O pai, olvidando cedo a memória da defunta, voltava-se de amores pela Conceição Fragueiro. Não demoraria muito, daria em novo casamento. Por um lado compreendia-o. Ainda era novo e bem precisava duma mulher que lhe tratasse da casa e lhe desse uma demão nas “semeaduras”. Mas caramba! Era muito pouco tempo! Bem podia esperar pelo menos um ano!... E ele? O que seria dele? Viver com uma madrasta, não lhe agradava rigorosamente nada. Além disso, sabia-se que o feitio da Conceição não era propriamente o duma santa... Depois viriam outros filhos... O irmão mais velho, o Francisco safara-se a tempo... A sua vida também tinha que mudar e seria ele próprio a resolvê-la...Tinha que ser ele a decidir o seu próprio futuro.

Levantou-se com intenção de continuar a íngreme subida. A vontade, porém, era quase nula. Todos os dias, calcorreava aquele íngreme e escarpado alcantil, sobranceiro à freguesia, que dava para os matos de relvas verdejantes, onde o gado, no verão, pastava tranquilamente. Se havia vacas leiteiras, era aquele castigo todos os dias: subir a Rocha e percorrer os matos, por entre veredas e atalhos, saltando “grotões” e tapumes, abrindo e fechando cancelas, até ao Queiroal. Depois, proceder à ordenha e descer aquelas dezenas de voltas e centenas de degraus, carregando duas pesadas latas de leite, suspensas num pau de araçá. E a relva do pai era muito distante do cimo da Rocha, já em terrenos do concelho de Santa Cruz. A última da Fajã!...

Voltou a sentar-se, olhando o oceano azulado que, ao fundo da ampla fajã, contornava a mancha escura do baixio. Depois as terras de milho, de couves e de batatas, a ladear as casitas, a maioria delas ainda cobertas de colmo, muito agrupadas, muito juntas, muito alinhadas na direcção da nova igreja, que agora se erguia imponente e altiva, a substituir a velha, humilde e pequenina capela do serrado do Lincate, ali mesmo junto à casa dos Freitas Henriques.

Mas foi o mar, porém, que mais uma vez, despertou a sua atenção. O mar, revolto e inquieto, a impor-se com um sussurrar roufenho ao nostálgico silêncio da ilha. Desde pequeno que sonhava com o mar. É verdade que na família não havia, que se soubesse, tradições marítimas. Ao avô e, agora, ao pai, o mar só lhes interessava para ir ao Caneiro das Furnas apanhar polvos e moreias ou ao Pesqueiro de Terra pescar uns “sarguitos” e umas vejas. Sempre se voltaram para a terra, para o trabalho agrícola e para o gado. Para quê? Para não ter nada! Apenas umas belgas de milho e couves, um curral de trigo no Canto do Areal, a relva da Escada Mar, a da Alagoínha e aquele maldito Queiroal, que não sustentava mais do que duas rezes. Como herança tinham miséria e pobreza, trabalhando de sol a sol, subindo rochas e outeiros, carregando latas de leite, molhos de incensos e de lenha ou cestos de inhames e batatas. A vida, na ilha, era de escravo, como lhe dissera um dia o padre António. O mar, pelo contrário, com o seu horizonte infinito, dava-lhe uma sensação de liberdade, de aventura, de grandeza e, talvez, de fortuna. Além disso, o mar era o caminho para a América. E agora, que as baleeiras americanas demandavam a ilha com mais frequência, o seu sonho era embarcar numa e tornar-se marinheiro, talvez no Ariôche.

E os seus olhos, por algum tempo, fixaram-se, indefinidos, na imensidão infinita e azulada do oceano.

O Chico Balaio veio acordá-lo. Costumavam, a maior parte dos dias, subir a Rocha juntos, embora, sendo a relva do Balaio, muito mais perto, logo a seguir ao Caldeirão da Ribeira das Casas, este reservasse, muitas vezes, o direito de partir para a ordenha bastante mais tarde. Haviam, no entanto, combinado que, quando não subissem juntos, o primeiro que, no regresso, chegasse ao Cimo da Rocha, havia de esperar pelo outro. Naquela tarde, porém, fora a relutância e fraca fogosidade do Balafanha que os juntara, ali, no Descansadouro, precisamente a meio da rocha.

O Balaio, mal o viu, gritou-lhe:

 - Eh, Pá! Acorda!... Já sei no que estás a matutar!... Sempre no mesmo. Não há maneira de alguém te tirar essas ideias da cabeça.

- Não te enganaste – confirmou o Balafanha, convidando-o a sentar-se. – Desistir não é comigo. Cada dia que passa tenho mais certeza do que quero e do que vou fazer.

- Mesmo agora, depois de saberes que uma das patrulhas do exército que estavaem Santa Cruz, se veio aquartelar aqui, na Fajã, ali para os lados do Vale do Linho? Os tipos atiram a matar.

- Quantos se têm safado!... Eles atiram mas é em quem anda a dormir...

- Mas se te safares sem seres apanhado por eles, ainda corres um perigo maior, o perigo de seres baleado pela corveta, que anda por aí a vigiar a ilha. Não te lembras daqueles tipos do Mosteiro, que, o ano passado, foram baleados, já no mar alto? Antigamente era fácil!... Embarcavam muitos, não havia patrulhas e as corvetas eram raras. Mas hoje em dia, os perigos são muitos...

- Uma campanha nas baleeiras durante dois anos são cem dólares, cem dólares Chico, cem dólares e podemos ser pagos em águias. Como gosto do mar, faço cinco ou seis anos de marinheiro nas baleeiras e depois vou para o Ariôche, ganhar mais. Mas mesmo com quinhentos ou seiscentos dólares já fico na América. Com o que ganho nas campanhas faço vida na América. Hei-de voltar a esta terra, mas rico, muito rico....

- E os perigos que corres António? – Insistia o Balaio na tentativa de o demover da sua persistente teimosia. - Sabes o que é andar seis anos no mar?! Olha, os desastres que nos últimos anos aconteceram, aqui nas Flores. Só na Fajã, que me lembro, foram cinco ou seis. Lembras-te? No Inverno passado, aquele lugre francês, que se chamava Alixis, ou qualquer coisa parecida, que encalhou ali, por fora do Respingadouro e ficou todo desfeito, só se salvando um tripulante. Até o comandante morreu... Há dois anos foi um brigue inglês, o Concórdia, que encalhou na Poça do Cobre. A tripulação salvou-se mas com muita dificuldade e o barco perdeu toda a carga. E não te lembras do dia de Natal de 1869, há quatro anos, quando encalhou, no Canto do Areal, um bergantim francês? Já nem me lembro do nome dele. E tantos e tantos outros que não têm conta, Toino! E não só aqui na Fajã, mas em toda a ilha e até no mar alto.

O Balafanha, tentando mudar de assunto, retorquiu:

- Em toda a parte está o perigo! Ainda queres perigo maior do que o subir e descer esta maldita Rocha todos os dias... Mas já sabes que nada me demove do meu sonho… Ninguém sabe disto! Só tu e peço-te que não contes os meus planos a ninguém. Sabes bem que só se pode embarcar pelo alto da noite, às escondidas... E meu pai não pode saber de nada.

E levantando-se, propôs autoritariamente:

- Vamos à ordenha que se faz tarde! Olha o Sol onde já vai... E eu vou para bem mais longe do que tu.

Recomeçaram a subida, latas ao ombro, calados e macambúzios. O Balaio conhecia bem o Tonho. Sabia que coisa que se lhe metesse na cabeça dificilmente se lhe havia de tirar. Tinha, pois, a certeza de que ele partiria, como muitos outros, ultimamente, o tinham feito. Desde há mais de uma centena de anos que as baleeiras americanas visitavam as Flores, na procura de marinheiros. Estas baleeiras comercializavam na ilha e completavam a sua tripulação com habitantes locais. Contavam-se às centenas os que nos últimos anos tinham fugido à pobreza, ao isolamento e à miséria que reinavam na ilha, levados pelo sonho americano.

Quando, no regresso, chegaram ao Alagoeiro, vergados ao peso das latas a transbordar de leite, já era noite. Por entre o colmo das primeiras casas da Fontinha, saía um fumo esbranquiçado, anunciador de que se estavam a ultimar as ceias. Ao chegar à casa do Balafanha, um pouco mais abaixo, o Chico sussurrou-lhe:

- Até à manhã Toino! E vê se me tiras essas ideias malucas da cabeça!

- Psich! Não vês que meu pai pode ouvir! Não te esqueças de que ninguém pode saber de nada! – Disse-lhe quase ao ouvido. E entrou no velho casebre, onde o pai o esperava.

A casa do Alfredo Balafanha era das mais pobres da freguesia. Ficava a meio da Fontinha. Era um edifício de pedra negra, com dois andares. O superior, destinado às pessoas, e a loja, ou piso inferior, onde os animais pernoitavam no Inverno. O superior, ocupado pelos Balafanha, fora herdado dos avós e possuía apenas duas divisões: a cozinha e a sala. A primeira, que continha apenas uma janela e o forno, era escura e quase terrificante. A mobília era constituída por uma mesa, meia dúzia de bancos e um pequeno armário em que as portas eram uns panos escuros e pardacentos, muito sujos e ensebados, onde guardavam os pratos, as tigelas, os caldeirões e outros utensílios. Pelo chão abundavam sacos de serapilheira com batatas, inhames e cebolas, mas tudo num perfeito desarrumo. A lenha picada e empilhada de baixo do lar, constituía o sector de maior arrumação da casa. Era lá também que tinha habitáculo, o Farrusco, guardião eficiente da ratazana. A cozinha dava para a sala, por uma porta a desfazer-se, que já nem se abria ou fechava. Era nesta, divida por uma lençol branco, preso aos tirantes, ainda no tempo da mãe, que dormiam pai e filho. Tinha apenas uma janela e uma porta, a de serventia da casa.

Quando o António entrou o Farrusco veio de imediato ao seu encontro, miando, atirando-se-lhe aos pés e lambendo-lhe as mãos. O pai praguejava, maldizendo a sua sorte e a sua vida. É que os garranchos de faia e incenso, que dispunha, estavam verdes, não pegavam. Assim, tinham sido infrutíferas as diversas e sucessivas tentativas efectuadas para acender o lume e ferver o leite.

- O leite que trazes ainda deve estar quente! Vamos bebê-lo assim! – Sentenciou o pai, decidido a encerrar por ali as suas frustradas tarefas culinárias.

Sentaram-se à mesa, à luz da velha candeia, totalmente forrada de tisna e alimentada a enxúndia de galinha. O António abriu uma das latas e encheu de leite duas tigelas, nas quais cada um esmiolou metade do pão de milho que a Conceição, de tarde, lhes viera trazer. Um grande queijo, fresco e esbranquiçado, acabado de tirar da forma, completava o cardápio.

 

Passados alguns meses, o Lourenço Petrana, de Ponta Delgada, chegou à Fajã, com boas notícias, mas que apenas eram transmitidas de boca em boca. A “Eleanor” estava escondida, na baía dos Fanais, encoberta pelo ilhéu de Maria Vaz. Muitos de Ponta Delgada já estavam a bordo. Também alguns da Ponta, porque acharam que lá era local mais seguro para o embarque, já iam, por terra, a caminho dos Fanais. Para disfarçar, levavam caniços de pesca. O Lourenço garantia também que a baleeira estaria no Sábado à noite, na Fajã, frente à Ribeira das Casas, para se abastecer de água. Bastava estarem escondidos ao longo da Ribeira das Casas e juntarem-se aos que regressavam a bordo, carregando a água. Era muito fácil e absolutamente seguro.

O Balafanha passou os dias seguintes entre sobressaltos e hesitações. Era absolutamente necessário que o pai não se apercebesse de nada, nem tivesse a menor suspeita ou desconfiança. Na véspera procurou o vigário. Queria confessar-se, perante a estranheza do reverendo. Mas o padre, que manifestara sempre grande compreensão para com ele, acabou por lhe dar razão, absolvê-lo e até encorajá-lo. Finalmente, abraçando-o, aconselhou:

- Porta-te bem rapaz! Onde quer que estejas ou para onde quer que vás, lembra-te sempre de que és cristão. Respeita os outros e serás respeitado. Não te esqueças, todas as noites, das tuas orações! Deus te abençoe e te acompanhe.

No Sábado de manhã, a pretexto de ir ao moinho levar uma moenda, encaminhou-se para a Ribeira das Casas. Embrulhou algumas roupas e meteu-as num saco. Ia escondê-las na aba duma pedra. Sair com um saco, durante a noite, seria comprometedor. Subiu, pois, a Fontinha até à casa de Tio Antonho Silveira. Depois tomou o caminho do Mimoio. Porém, antes de chegar ao cruzamento da Ribeira das Casas, sentou-se sobre uma pedra, olhando as casinhas negras e brancas que rodeavam a nova igreja.

- Só Deus sabe se voltarei! – Murmurou. E hesitou por alguns momentos. - Não, voltar atrás, é que nunca! – E levantando-se, seguiu o seu destino.

À noite, antes de partir, sentado frente à tigela das sopas, quase chorou. E quando o pai, antes de se deitar, lhe deu as boas-noites, ao pedir-lhe a bênção, muito dificilmente resistiu ao instinto de o abraçar. Apenas lhe disse:

 - Pai!... Vou dar uma volta com o Chico... Não se preocupe, se eu chegar tarde.

A noite estava escura, mas calma e estrelada. Ao longo da ribeira começaram a delinear-se vultos diversos, uns carregando enormes bilhas de barro, outros ajudando-os no transporte das mesmas.

O Balafanha cedo se integrou num grupo e chegou a bordo da “Eleanor”, sem dificuldade e sem ser visto por alguém.

Alta madrugada a baleeira partiu. Nem patrulha, nem corveta. Um mocito de cor, com uma pronúncia esquisita, avisou os intrusos da Fajã, que deviam dirigir-se à sala do capitão. Era um cubículo muito apertado, pequeno e sujo, onde couberam com dificuldade. Lá estavam, também, o Pineireira, o Chico da Maria Cambada, o Mateus Borrego, o Brilha da Fajazinha, e tantos outros.

 

Na Fontinha, numa pequena courela, junto à velha e abandonada casa do Alfredo Balafanha, falecido há um ano, o filho, o António, recentemente regressado da América, na logra “Forest Fairy”, vigiava as obras de construção da sua nova casa. Paredes caiadas de branco, janelas em abundância e cobertura de telha. O interior, dividido com madeira nova, era constituído por um piso superior, com sala, quarto de jantar e cozinha. Um saguão ligava-o à loja que se destinava a quarto de cama. Já tinha o casamento marcado com a Joaquina Greves, a moça mais bonita da freguesia e comprara várias terras, entre as quais o Cerrado da Corredoura, nas Furnas. Ao que se dizia pela freguesia, tinha vindo riquíssimo da América.

Quando, algum amigo menos íntimo, um parente mais afastado, ou outra pessoa qualquer o interrogava sobre o porquê do seu sucesso, respondia, tranquila e sorridentemente, com uma pequena frase:

- Foi o “meu sonho de marinheiro”.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

A MALA PERDIDA

Segunda-feira, 28.10.13

O padre Pimentel decidiu-se por umas férias. Uma visita aos Estados Unidos, mais concretamente à Califórnia. É verdade que na Fajã as ovelhas não eram muitas, como noutras paróquias dos Açores. Mas davam trabalhinho, ai se davam, até porque distribuídas por duas localidades, com uma igreja em cada uma delas – Fajã e Ponta. E ainda havia a Cuada. Na Fajã era o serviço religioso diário, com a igreja, ali, pertinho de casa. Mas à Ponta tinha que se deslocar aos domingos, aos dias santos de guarda, aos abolidos e às primeiras sextas-feiras para celebrar missa, ou então sempre que alguém o chamava para administrar o Viático e a Extrema-Unção e para realizar os funerais. Casamentos e baptizados eram os da Ponta que à Fajã deviam vir. Mas todas as idas à Ponta eram realizadas a pé, por caminhos sinuosos, com ladeiras e aclives, atravessando grotas, regatos e ribeiras. Quando chovia só de botas de cano. Um martírio, embora soubesse da vida dura, dolente e sofrida dos seus paroquianos.

Decidiu-se pois o reverendo por partir para os Estados Unidos. Iria visitar familiares, antigos paroquianos e solicitaria a todos o dinheiro necessário para a compra de um órgão, porque o existente no coro da igreja da Fajã já “não dava uma p’ra a caixa”. Estava a desfazer-se de podre e tocava que parecia uma cana rachada. Nada que abonasse a excelência envolvente das celebrações litúrgicas mais solenes.

Pedida autorização ao senhor bispo, concedidos o “celebrate”, o passaporte e o visto, partiu o pároco, sendo substituído nas suas funções pastorais, aos domingos e sempre que alguém estivesse nas últimas, pelo senhor padre da Fajãzinha.

A ausência do pároco foi muito sentida e o seu regresso muito desejado. Talvez trouxesse uns candins, um embrulho de pinotes, uma peça de roupa para este ou para aquele. Sabia-se lá… Por isso quando se teve conhecimento da data do seu regresso, em dia de Carvalho, preparou-se uma grande recepção à Praça. Sinos a repicar, filarmónica a tocar, crianças a oferecerem ramos de flores e o povo a dar uma grande salva de palmas.

Dirigindo-se aos paroquianos, apinhados ao seu redor, em inocente esperança, o pároco não esteve com meias medidas. Em poucas palavras informou de que para além de muito cansado, estava muito triste, tinha um desgosto muito grande:

- Sabem porquê? É que perdi uma mala e, por azar, foi a mala das ofertas.

E recolheu-se de imediato ao passal

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publicado por picodavigia2 às 13:50

A FACE DO SENHOR

Domingo, 27.10.13

O Caixeiro chegou a casa exausto, esfomeado e, sobretudo, consumido, rabugento e furioso, como nunca. Enquanto fora apanhar uns incensos à Horta das Abóboras, a maldita da Lavrada, à cordada na belga do Batel, havia arrancado a estaca, saltado a parede, enfiando-se pela ribeira abaixo até aos quintos dos infernos. Foi o cabo dos trabalhos para a apanhar, amarrar e trazê-la de novo para o Batel. Parecia que tinha o diabo no corpo! Além disso, a maldita entrou numa terra do José Pureza, desfazendo-lhe uma boa parte do milho e da batata-doce. Parecia que estava doida, aquele estafermo!

Entrou, pois, pela porta dentro, a bradar, a praguejar, a blasfemar e a resmungar consigo mesmo e com quem o quisesse ouvir. “Alma do diabo” para baixo, “raios-te-partam” para cima, “sanababicha” para um lado, “mas o diabo não te comesse viva” para o outro, enfim um interminável rol de impropérios e insultos que nunca mais acabava.  

A Rosária, a tia com quem vivia desde miúdo, atarefada nas lides domésticas e afeita a tamanha impertinência e a tão habitual desrespeito, não tugiu nem mugiu e o sobrinho, pouco depois calou-se, emudecendo por completo. Mudos sentaram-se à mesa para a ceia, já lusco-fusco. A Rosária pôs-lhe na frente a tigela do leite e atirou-lhe para cima da mesa um quarto de bolo, acabadinho de cozer no tijolo, ainda a fumegar. Mas no ar pairava um cheiro a queimado, a que o Caixeiro não se alheou, pese embora a face do bolo voltada para cima estivesse perfeitamente cozida. Nem muito clara, nem muito escura.

Mas o Caixeiro desconfiou do embuste e, antes de migar o bolo na tigela do leite, voltou-lhe a face oculta para cima. Horror dos horrores! O Bolo estava negro como a ferrugem! Preto que nem carvão! O bolo, na realidade, estava totalmente queimado.

O Caixeiro, mais furioso do que quando entrara em casa, não tanto pelo excesso de cozedura do bolo mas sobretudo pela atitude simuladora da tia, levantou-se de rompante, gritou, berrou, praguejou e, pegando no bolo, atirou-o com tanta força e tamanho desespero pela porta fora que o dito cujo se foi estampar na parede da casa que ficava em frente, do outro lado da rua, onde morava o Cabral, pois nessa altura o Caixeiro e a tia Rosária moravam na Assomada, num casa muito velha, que mais tarde foi palheiro do Trancão.

A Rosária aflita e de mãos postas, vendo o seu trabalho, cujo produto final ela considerava quase sagrado, tratado tão vil e covardemente, exasperou o sobrinho, gritando:

- Pedaço de malcriado! Atiraste a “Face do Senhor” às empenas de Cabral.

E não lhe cozeu mais bolo, naquele dia, nem nos seguintes.

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publicado por picodavigia2 às 08:57

NAUFRAGAR NA RAMADA

Sábado, 26.10.13

O José Pereira era um exímio, dinâmico e competente pescador. Talvez mesmo o melhor pescador da Fajã Grande, de todos os tempos. Começou muito novo nas lides do mar, iniciando a faina marítima num pequeno e frágil batel. No entanto, com o tempo, o negócio da apanha e venda de peixe foi vigorando, fortalecendo e crescendo, até porque a concorrência, na freguesia, era quase nula. Muniu-se de lanchas maiores e com motores mais potentes, modernizou os apetrechos de pesca e de navegação e adquiriu, até partir para o Canadá, o estatuto de grande e excelente pescador.

Para além duma desmesurada eficiência na arte da pesca e duma inquestionável competência no desempenho da actividade marítima, uma outra qualidade enriquecia e dignificava o currículo piscatório do Pereira - a segurança no mar. Nunca teve um acidente, nunca virou a lancha, nunca bateu com ela em laredos ou baixios, agindo quotidianamente com uma destreza invejável e com uma segurança extraordinária. Um modelo para todos os que na Fajã, eventualmente, quisessem dedicar-se à faina marítima.

Mas as desgraças acontecem a todos e o José Pereira, também, havia, uma vez, uma única vez, de denegrir e ensombrar o seu distinto e respeitável percurso marítimo.

Certo dia ao regressar com a lancha bem carregadinha de peixe, com o mar muito manso e o tempo muito calmo, entrou no Calhau da Barra, atravessou o Boqueirão e encostou a embarcação a uma banqueta que existia no varadouro do Porto Velho e que servia para os pescadores se apoiarem e saltarem para terra, sem se molharem ou sequer apanharem uns respingos de água salgada, antes de vararem as embarcações, para as arrumarem nas ramadas, depois de retirar, escolher e dividir o peixe. O mar não mexia e, por isso, o Pereira saltou para terra muito descontraído e a pensar no peixe que havia engodado e perdido. Só que ao fazê-lo, o cuidado foi tão pouco e a atenção tão descuidada que pôs o pé em falso. A lancha deu um grande solavanco e virou de quilha para o ar, enquanto o Pereira caía ao mar, juntamente com o peixe, perdendo-se todo este por completo.

A notícia correu célere pela freguesia. Um escândalo para uns, uma pena para outros e um espanto para todos! Como é que um homem tão experiente nas lides marítimas foi naufragar, mesmo ali, no porto, com o tempo tão bom e o mar tão manso? Não corria uma aragem e o mar parecia um espelho… Mas… havia de ter paciência. No melhor pano cai a nódoa.

Passado algum tempo o António Machado decidiu tirar a carta de mestre. Quem passava as cédulas marítimas e as cartas de mestre, na Fajã, era o senhor Arnaldo que, conjuntamente com as funções de faroleiro exercia também as de cabo do mar.

Dirigiu-se pois o Machado ao senhor Arnaldo a pedir que lhe passasse a carta. Resposta pronta do “Senhor de Matosinhos”:

- Passar-te a carta!? Nem pensar. Se o José Pereira naufragou no porto, tu naufragas mesmo na ramada.

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publicado por picodavigia2 às 20:38

O PRANTO

Quinta-feira, 24.10.13

Já tinham batido as três da madrugada. Na sala mantinha-se uma escuridão suavemente desfeita por um rastilho de luz emanado de um pequeno e velho candeeiro a petróleo, de vidro tisnado, com o pavio muito baixo, colocado em cima da cómoda. Ao lado um crucifixo e uma pagela da Senhora do Carmo. Num dos cantos, muitas fotos e, no outro, alguns santos. Numa cama, paralela à cómoda, o velho Gomes finava-se.

Paira um silêncio medonho, entrecortado, de vez em quando, muito levemente, pelos soluços e orações dos assistentes, pelo pranto da candidata a viúva e pelos estertores do moribundo. A mulher do Gomes está à cabeceira da cama, vestida de escuro e ao redor da sala amontoam-se bancos e cadeiras, onde as filhas, alguns parentes e muitos vizinhos estão sentados. Uns dormitam, outros rezam e alguns soluçam, enquanto o Gomes agoniza. Está prestes a entregar a alma ao criador! A Lisandra, dos presentes, a mais experiente em rezas adequadas a estas circunstâncias, pontifica:

- Glória ao Pai ao Filho e ao Espírito Santo.

Os que ainda se mantêm acordados lá vão murmurando desajeitadamente:

- Assim como era no princípio agora e sempre e por todos os séculos dos séculos. Ámen.

A Lisandra prossegue, pese embora o número de sonâmbulos aumente:

- Ó meu Jesus, perdoai-o e livrai-o do fogo do inferno… - E as rezas vão continuando cada vez mais indecifráveis até se esfumarem e perderem por completo.

Perante o silêncio dos circundantes, é a Lisandra que remata a sua própria invocação:

- E levai para o Céu as almas mais abandonadas. – Depois continua, na esperança de um ou outro mais desperto responder:

- Amado Jesus, José e Maria.

- Assisti-me na última agonia.

- Amado Jesus, José e Maria.

- Expire em paz e entre Vós a alma minha.

- Ò Virgem Santíssima, não permitais tal: Que eu não viva nem morra em pecado mortal.

- Em pecado mortal não hei-de morrer, porque a Virgem Maria me há-de valer.

- Que a sua alma descanse em paz.

Volta-se ao silêncio. O número dos que dormem parece aumentar. O Gomes lança o último estertor... Pouco depois parece expirar. Os amigos soluçam, os parentes choram e as filhas, desvairadas e em altos berros, gritam pelo pai. É então que a viúva inicia pranto:

- Jesuíno! Ò Jesuíno do meu coração! Ainda me ouves? Aperta pelo menos a minha mão, se me estás a ouvir…Não filha, não senti nada. Ai que desgraça a nossa! O que nos havia de acontecer! De repente, sem ninguém fazer conta… E eu que tinha tanta fé. Pus-lhe o escapulário do Carmo. Nossa Senhora do Carmo há dar-lhe um lugarzinho no Céu. Ele está nas últimas?! Está… Está. O meu coração diz-me que sim. O que vai ser de mim e dos meus filhos?… Ele era a luz desta casa… Nunca nos faltou com nada… Era das terras para casa e de casa para as terras. Sempre o primeiro a se levantar… Sempre o primeiro a chegar a tudo… Caminhava para as terras ainda de noite… Voltava depois das Trindades. Nunca fugiu ao trabalho… Nunca parava… Só se fosse p’ra falar com um amigo. Mas mesmo para isso nunca tinha tempo… Nunca faltou com nada aos pequenos… Ai meu querido marido! Ai meu rico Jesuino! As nossas terras sempre mondadas… Trazia tudo num mimo: as relvas, as terras de mato, as terras de milho… Toda a gente o gabava… Em casa sempre pronto a deitar mão a tudo… Era a lenha sempre no cepo… Era debulhar o milho… Era fazer os “cambulhões”… Ele é que tratava do porco e das galinhas… Nunca estava parado… Sempre a trabalhar… Sempre com o juízo nisto e naquilo, para que nada nos faltasse…O pobrezinho sentiu-se mal depois do jantar. De manhã, ainda foi à nossa terra da Grota, apanhar um cesto de inhames… E o desgraçado ainda trouxe o cesto às costas… Veio carregadíssimo, coitadinho…Sabem como ele era... Era sempre a trabalhar, a trabalhar. Mas ele já não podia… Chegou a casa, por volta do meio-dia…Sentou-se à mesa e não comeu quase nada: “e não tenho fome, e não tenho fome, não me apetece comer, e não sei o que tenho e dói-me aqui, tenho uma dor muito grande na barriga…” E nós numa aflição... Sem saber o que fazer… Fez-se um chá de erva-néveda, mas nada... Fez chá de poejo e nada. Fez-se chá de “mastrunços” e ele nada. Não havia maneira de ficar bom. Fizemos chás de tudo: de poejo, de cidreira, de macela, de funcho e nada... Ele deitou-se e nós numa aflição cada vez maior, sem poder fazer nada. E agora partiu para sempre. O meu Jesuíno foi juntar-se ao coro dos anjos e dos santos. O senhor padre já cá veio, mas só lhe deu a Santa Unção. Ele já nem falava, nem ouvia. Já não pode confessar-se, o pobrezinho, nem receber o Sagrado Viático. Mas Deus há-de recebê-lo na sua Santa Glória. Isto foi uma grande desgraça. Um homem que, desde que o conheci, nunca teve nenhuma doença, nunca tomou sequer um comprimido, nem uma injecção, nunca teve uma dor de dentes, nunca teve uma gripe, nunca teve nada... E de repente foi isto... Apagou-se…Foi como uma luz que se fosse apagando aos poucos.

Regresso ao silêncio e pouco depois a Lizandra, agora com todos acordados, inicia o terço, anunciando-o por alma do falecido: - Pai Nosso que estais no céu…

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publicado por picodavigia2 às 20:32

UMA LIÇÃO DE HISTÓRIA

Quarta-feira, 23.10.13

Quando a minha professora da 4ª classe explicou os Descobrimentos já o ano ia a mais de meio. Delirei! É que, a propósito da descoberta dos Açores, falou de um tal Diogo de Silves, que, em sua opinião, teria sido o verdadeiro descobridor das ilhas açorianas e não Gonçalo Velho Cabral, como rezavam os livros mais antigos:

- Os Açores foram descobertos ou melhor, reencontrados, em 1427 por Diogo de Silves, um dos muitos navegadores portugueses, natural de Silves, que o Infante D. Henrique, mandou procurar novas terras, na costa ocidental africana. – Explicou.

E, levantando-se, de seguida, apontou num mapa, toda a costa de África, de Marrocos até à Guiné. Depois, desenhando uma linha oval, imaginária, acrescentou:

- Numa destas viagens, devido a um enorme temporal, a armada que Diogo Silves comandava, perdeu-se, no alto mar, e foi, por sorte, parar a umas ilhas, que possivelmente muitos anos antes, no tempo de D. Dinis ou de D. Afonso IV, já tinha sido encontradas por marinheiros portugueses e italianos, estes contratados para a armada portuguesa, sob as ordens de Manuel Pessanha. No entanto, não se sabia rigorosamente onde ficavam estas ilhas, embora o Infante Dom Henrique, desde há muito, tivesse notícias delas e as procurasse. Eram as ilhas dos Açores. Os seus nomes, porém, não eram os mesmos de hoje.

E mudando-se para um mapa dos Açores, que ocupava lugar de destaque na parede, logo por baixo das fotografias de Craveiro Lopes e de Salazar, que ladeavam, ao alto, um enorme crucifixo, explicou, apontando para cada uma das ilhas:

- Santa Maria e S. Miguel chamavam-se as ilhas Cabrera e a Terceira ilha Brazil.

- Ah! É por isso que ainda assim se chama o Monte Brasil – acrescentou, todo vaidoso, o Câncio, o único da escola que tinha saído das Flores, pois tinha ido com a mãe, à Terceira, durante um mês. – Eu já lá estive! Do Padrão vê-se toda a cidade de Angra do Heroísmo!

Dona Madalena, aceitando as explicações do Câncio, continuou:

- O Faial chamava-se Ventura, S. Jorge Sanzorso e o Pico ilha Columbis.

Então, nós todos em coro, perguntámos:

- E as Flores, senhora professora, e as Flores, como se chamava?

- As Flores juntamente com o Corvo eram as ilhas Corvis Marinis, que quer dizer ilhas dos Corvos Marinhos. Mas as ilhas do Grupo Ocidental não foram encontradas por Diogo de Silves, mas sim por Diogo de Teive, mais tarde, em 1452, também descobertas por acaso, quando aquele navegador regressava duma viagem, vindo da Terra Nova, com destino a Portugal.

Eu, porém, armando-me em sabichão, contrariei:

- Senhora professora, a nossa professora do ano passado ensinou-nos que foi Gonçalo Velho Cabral quem descobriu os Açores.

Então Dona Madalena, abriu cuidadosamente a gaveta da sua secretária e tirou um pequeno livro, acrescentando:

- Na realidade Frei Gonçalo Velho Cabral chegou aos Açores, em 1431, por ordem do Infante D. Henrique, não para descobrir as ilhas, mas sim para as ocupar e começar a povoar as que de facto tinham sido encontradas ou redescobertas, quatro anos antes, por Diogo de Silves. É que Diogo de Silves, não podia regressar ao reino, tinha que continuar a sua viagem para o Sul, por isso, enviou uma carta a dar conhecimento ao Infante D. Henrique da descoberta ou ou encontro de sete ilhas, para que ele enviasse alguém para as povoar e assim se tornasse dono e senhor delas. Foi então que o Infante D. Henrique enviou o seu nobre e esforçado cavaleiro, Dom Gonçalo Velho Cabral, Comendador do Castelo de Almourol, para que as povoasse, cultivasse e governasse em seu nome.

A hora do recreio chegava, a senhora professora terminava a lição e eu ficava com tanta pena.

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publicado por picodavigia2 às 15:08

LIÇÕES DE COR

Terça-feira, 22.10.13

No segundo ano em que me matriculei na quarta classe, já lá vão mais de cinquenta anos, chegou à Fajã Grande uma nova professora.

No ano anterior instalara-se a confusão na freguesia e, sobretudo, na escola. A acentuada diminuição da população originara a que a, até então, “Escola Mista” da Fajã Grande das Flores fosse, por decisão governamental, transformada em “Posto Escolar”, perdendo, consequentemente, o direito a ter uma professora diplomada, sendo a mesma substituída por uma regente escolar.

Tal despromoção provocou no povo uma sistemática e contínua onda de protestos, rebuliços, tumultos e manifestações que geraram um ódio acentuado contra a referida regente, o qual se avolumou, excessivamente, depois da sua chegada, dado que o seu feitio e temperamento não abonavam nada a favor de quem já antes de ser conhecida era contestada e execrada. O ano escolar, especialmente para mim, foi uma catástrofe! Faltas, tareias, participações, queixas, deslocações às Lajes, ao Delegado Escolar... Uma desgraça atrás doutra!...

Ao povo, porém, fora garantido que tudo regressaria ao normal. No ano seguinte, viria novamente uma professora diplomada para a freguesia. Eu ansiava a sua chegada!

E chegou! No Carvalho de Setembro, já quase a meio do mês e vinha do Faial, mais concretamente de Castelo Branco.

A Dona Madalena hospedou-se na Assomada, em casa da Maria da Saúde. Mesmo ali, na minha rua e relativamente perto da minha casa. Tal vizinhança e o meu acentuado e manifesto interesse por aprender geraram entre nós um carinho e amor excessivos. Eu adorava-a e ela gostava imenso de mim. Fora da escola, fazia-lhe alguns recados e algumas vezes, ia levar-lhe meio litro de leite ou um quarto de bolo, quentinho, acabadinho de sair do tijolo. Ela solicitava-me, então, que entrasse e eu, embora tímido e envergonhado, aceitava o seu convite. Mas era sobretudo na escola que eu mais a apreciava. Habituado, no ano anterior, a uma preguiça institucionalizada e a um desinteresse imposto, não aprendera nada, nem fui fazer o segundo exame. Agora, porém, tinha uma vontade titânica e gigantesca de aprender tudo o que a Dona Madalena, de modos tão meigos e ternos, me ensinava. Aboliu a palmatória e, embora mantendo o caniço, usava-o apenas para bater levemente nas carteiras, chamando a atenção dos mais distraídos e acordar os dorminhocos. Nas aulas de leitura, chamava-nos para junto de si e, sentando-nos à sua volta, mandava-nos ler à vez. O que lesse melhor sentava-se junto dela, enquanto os outros eram ordenados a partir daí, de acordo com a qualidade da leitura que haviam manifestado.

Mas era sobretudo nas lições de cor que ela mais se distinguia. Era exímia! Sabia, sem recorrer aos livros, as definições das Ciências, os rios e as capitais da Geografia e, sobretudo, as datas e os acontecimentos da História.

Eu ouvia-a atentamente e aprendia tudo com uma vontade enorme.

Quando, em Ciências, me interrogava sobre o Coração, eu, num ápice, vomitava:

- “O Coração tem a forma de um cone com o vértice voltado para baixo e está divido em quatro partes: dois aurículas e dois ventríloquos. Cada aurícula comunica com o ventríloquo do mesmo lado, por meio duma válvula mitral que se abre de cima para baixo para que o sangue possa passar do aurícula para o ventríloquo e nunca do ventríloquo para o aurícula”.

Em Geografia, os afluentes do Douro saíam direitinhos, tanto os duma margem como da outra:

- Sabor, Tua, Pinhão, Corgo, Tâmega e Sousa -  na margem direita e na esquerda - Côa, Torto, Távora, Paiva e Arda.

Mas era sobretudo durante as lições de História, que eu mais a admirava a Dona Madalena. Reis, batalhas, conquistas, descobertas e invenções, tudo com datas precisas e explicações pormenorizadas e cativantes. Nada faltava!

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publicado por picodavigia2 às 15:22

UM VALENTE SUSTO

Domingo, 20.10.13

Meu pai tinha uma terra de mato nas Covas. Arquétipo do medo, zimbório do pavor, alforge de insegurança, o lugar das Covas ficava bem juntinho à Rocha. A inclinação acentuada do terreno, vestígio claríssimo duma antiga ribanceira que ali desabara em tempos idos, aliada à infertilidade do solo, onde predominavam mais calhaus e pedregulhos do que terra arável, as Covas, camufladas em belgas e estruturadas em socalcos, consubstanciavam uma avassaladora pobreza produtiva aliada aos perigos de derrocadas eminentes que a natureza anunciava com persistência. Meu pai raramente procurava aquele tugúrio de escombros! Se o fazia era por necessidade absoluta. Àqueles andurriais, apenas havia de extorquir, de vez em quando, uns braçados de incensos, uns molhos de lenha ou uns sacos de erva-santa pr’ás galinhas. Cá fora, longe da Rocha, na frondosa fajã, terras fartas de milho, relvas viçosas, lagoas de inhame a agrião. Depois, rolo e mar.

Certa tarde, lá fomos, numa dessas esporádicas e, para mim, tão pouco desejadas idas à terra das Covas. Apenas eu e o meu progenitor. Acabáramos de cortar e ajeitar um molho de incensos que ele próprio traria às costas, quando meu pai se preparava, com a minha frágil e desafeiçoada ajuda, para apanhar e encher um saquito de erva-santa, esclarecendo:

- É para que não vás de “mãos a abanar” e a, como de costume, andares “ a meter o bico onde não és chamado”!

Estávamos encostados à Rocha, na apanha da erva-santa. De repente ouvem-se ruídos estrondosos, retumbantes e assustadores. Atónitos e estarrecidos, olhámos um para o outro, para o lado, olhámos para baixo e olhámos para cima. Só então vimos algo de estranho, assombroso e aterrador. Eram pedregulhos enormes, cascalhos grandíssimos, calhaus de todos os tamanhos e feitios, a cair lá do alto da rocha, em enorme quantidade e a rolarem, em catadupa, sobre as nossas cabeças, como se fossem aviões russos a lançar torpedos, enquanto a Rocha ao redor estremecia, estrondosamente, abalroada por uma misteriosa força telúrica, projectando ecos que ressoavam ao perto e, depois ao longe, parecendo transformar-se noutros ecos. Perplexos, aterrorizados, aflitos, embasbacados, “cágados” de medo, ficámos como que inconscientes, sem saber o que fazer, à espera de tudo e de coisa nenhuma. Eu… sem saber se corria, se gritava, se chorava, se fugia, se morria! Meu pai… a tentar ver se me protegia, se vínhamos embora, se ficávamos ali, à espera do pior. O Cardosinho, a ceifar feitos numa relva do Vale do Linho e o Jesuíno da Ponta a subir a ladeira que dava para a Ponta, acompanhado de um jerico carregado de moendas, estancaram e gritavam, em simultâneo:

 - João! Não fujas! Agarra o pequeno! Aproxima-te da rocha com o pequeno! Aproxima-te mais da rocha, João! São apenas pedras! João, ouviste! São pedras, aproxima-te da rocha!

Foram instantes que pareceram uma eternidade!...

Finalmente, o rolar das pedras por aquele alcantil, sobre as nossas cabeças, parou! Durante os momentos seguintes ouviram-se ecos e depois, já muito ao longe, mais ecos dos ecos. Finalmente, depois do último eco, vago e longínquo, fez-se um silêncio temível e, aparentemente, mais aterrador do que o ribombar dos ecos. Esperámos que o silêncio continuasse e se tornasse menos terrificante. Só então meu pai, de rompante, me agarrou por um braço. Fugimos dali a sete pés, sem molho de incensos, sem saco de erva-santa, sem frocas, sem bordões, sem nada…

E só paramos no fim da canada do Vinhacre, ao caminho que dava para a Ponta, onde o Cardosinho e o Jesuíno já reunidos e pasmados, esperavam por nós. Foi então que o Cardosinho esclareceu:

- Quando estamos junto à rocha, se cair uma ribanceira, há que fugir o mais depressa possível mas o mais provável é ficarmos soterrados. Não há nada a fazer. Mas se forem apenas pedras a cair, como foi o caso, devemos aproximarmo-nos da rocha, por que assim elas não nos tocam.

Naquela tarde, eu e meu pai, apanhámos um valente susto, mas as pedras apenas passaram sobre nós como se fossem pássaros gigantes e loucos.

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publicado por picodavigia2 às 17:32

VENDAM-ME A CABRA

Sábado, 19.10.13

Desde há muito que o Júlio andava com a ideia de comprar e criar uma cabra. É que a criação e o trato duma cabra não se comparava, nem de perto nem de longe, com os trabalhos e canseiras de criar uma vaca. Além disso, o tempo que lhe sobrava do cultivo e amanho das terras dos pais era mais que suficiente para apanhar uns gravetos de faia por aqui e por ali ou de a levar a pastar a qualquer belga ou canada. Poupava em canseiras e trabalhos e o resultado era o mesmo: leite fresquinho todos os dias e, ainda por cima, mais saudável.

Se bem o pensou melhor o fez. E certa tarde lá foi a Ponta Delgada, de mãos a abanar e apenas com uns tostões nos bolsos, regressando, todo feliz, com a cabra, à qual, a partir de então, não faltaram cuidados, atenções e sobretudo comida, muita comida. A cabra cresceu, engordou, tornou-se num belo animal, o “Ai Jesus” do Lúcio, que jurava a pés juntos, na Praça, no Alagoeiro, em Cima da Rocha, que nunca havia de a vender, pese embora o animal fosse cada vez mais cobiçado e admirado por todos na freguesia.

Mas lá chegou o dia em que o Lúcio foi às Lajes, às sortes e… ficou apurado. Passados alguns meses nada mais teve que fazer do que preparar as malas, embarcar no Lima e marchar para Angra, onde se aquartelou no velhinho castelo de S. João Baptista, lá para os lados do Monte Brasil.

No quartel, porém, não havia muito que fazer. Viviam-se tempos de paz, após a 2ª guerra mundial. O Lúcio, para além das simples e curtas tarefas quotidianas que se impunham aos soldados, tinha muito tempo livre. Daí que juntamente com os outros militares se deslocasse frequentemente à cidade, passeando por aqui e por além, entrando num café ou tasca, assistindo aos duelos futebolísticos entre o Lusitânia e o Angrense, frequentando esta ou aquela casa de divertimento, benesses de que na Fajã nunca desfrutara. Mas o dinheiro era pouco ou nulo e a vontade de se divertir muita.

Foi então que o Júlio se lembrou da cabra. Esqueceu promessas e juras e, de imediato, escreveu aos pais solicitando-lhes sem hesitação: “Vendam-me a cabra e mandem-me o dinheiro para Angra do Heroísmo, Terceira, Açores. Não há nada que enganar.”

Como, na Fajã, as notícias deste tipo se espalhavam com alguma facilidade, esta não fugiu à regra e, em breve, toda a gente soube que Lúcio escrevera aos pais a pedir-lhes que lhe vendessem a cabra, da qual jurara nunca desvincular-se, granjeando, no seu regresso da tropa, o epíteto de “Vendam-me a cabra” e não se livrando de muito gozo e outra tanta chacota.

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publicado por picodavigia2 às 15:27

O EXAME DA QUARTA

Sexta-feira, 18.10.13

No fim da minha quarta classe na Escola Mista da Fajã Grande, como era habitual, tive que ir fazer o exame às Lajes. As últimas semanas de escola foram de grande agitação e reboliço, para os que tinham feito provas positivas e que, por conseguinte, tinham ficado apurados para exame, entre os quais, obviamente eu estava incluído. Fizemos revisões de todas as lições de cor, lemos e relemos todos os textos do livro de leitura de fio a pavio, exercitamos contas das quatro operações, resolvemos problemas de todo o tipo e feitio, decoramos a tabuada, fizemos uma infinidade de ditados e, na verdade, ficámos com tudo na ponta da língua. Mas o que iria sair no exame, ou os conteúdos com que cada um seria confrontado e em que ia por à prova a sua sabedoria, eram desconhecidos. Por isso tivemos que estudar e ficar a saber tudo. Simplesmente tudo! Um mimo! A única certeza que tínhamos, no entanto, é que teríamos duas provas, uma escrita e outra oral.

Partimos, a pé, em rancho, para as Lajes, acompanhados por familiares e pela senhora professora. Uma romaria!...

Dormimos em casa de conhecidos e, manhãzinha cedo, lá estávamos fora da porta da escola. Na escrita safei-me bem. A minha professora esteve presente, como vigilante. Circulou pelas carteiras, esclareceu algumas dúvidas, enfim, inspirou-me muita confiança. Na oral, porém, estava muito apreensivo e nervoso, pois sabia-se que o presidente do júri, que possivelmente me faria as perguntas, seria uma professora das Lajes, por conseguinte estranha para mim e para os das outras freguesias e que, ainda por cima, tinha fama de má e de muito exigente.

A escola das Lajes, onde decorriam os exames, era a casa do Espírito Santo. As carteiras, estavam dispostas de tal maneira que, para estarmos voltados para o júri, ficávamos de costas para o altar do Divino. Entrei entre suores e desânimos. Lá estava o temível e terrível júri, composto por três professores. Ao centro a presidente, a tal professora estranha e exigente, a dona Adozinda. De um lado o professor Galvão, de fato, gravata e óculos escuros e do outro, o terceiro elemento, a dona Glória, que professora no Lajedo. A minha professora fora excluída, pois nenhum professor podia examinar, na oral, os seus próprios alunos.

A dona Adozinda, sem demoras ou sequer cumprimentar-me, ordenou formalmente:

- Menino, abra o seu livro de leitura na página 39!

Nervoso, tacteei, voltei atrás, à frente, de novo atrás e lá encontrei a 39. Que alívio! “Aljubarrota”! Era o texto que mais gostava e que lera mais vezes e que até já sabia de cor:

- “ALJUBARROTA”. “Raiou finalmente o glorioso dia 14 de Agosto de 1385. De um lado o poderoso exército castelhano, do outro, a pequena hoste portuguesa. Já ia o dia a mais de meio quando o exército castelhano....” – e continuei numa leitura senga e eloquente, que deixou o júri boquiaberto.

Terminada a leitura, de que se havia de lembrar a Dona Adozinda? De me perguntar qual a dinastia que se tinha formado depois da vitória do Condestável na batalha referida no texto e os nomes e cognomes de todos os seus reis. Era o que eu queria, pois era o que sabia melhor. Por isso desembuchei com segurança:

- Foi a 2ª dinastia ou de Avis. O primeiro rei foi o Mestre de Avis, D. João I, o de Boa Memória. O segundo D. Duarte, o Eloquente – e enumerei-os todos, tintim por tintim, até D. Henrique, o Casto.

 Depois, sem me aperceber, passou aos descobrimentos. Aqui também eu navegava à vontade!

- Quem descobriu a Madeira?

- João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira!

- E os Açores?

Que sorte! Nisto é que não falhava de certeza. E, durante dez minutos, lancei ao júri tudo o que sabia e que a senhora professora me ensinara sobre a descoberta dos Açores.

A dona Adozinda, manifestando alguma apreensão, cochichou, por uns momentos, com o professor Galvão. Pouco depois, mandou-me sair, enquanto a dona Glória, pondo os óculos e pegando na lista, chamava:

- João Câncio Fragueiro da Silveira.

Este, ao cruzar-se comigo, sussurrou-me:

- “Tiveste cá uma sorte!”

E tive, porque fiquei distinto e ele à beira de apanhar uma raposa.

Na viagem de regresso à Fajã, a senhora professora segredou-me que o Delegado Escolar, o senhor professor Galvão, lhe tinha dado os parabéns pelo brilhante exame que eu fizera.

    

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publicado por picodavigia2 às 15:43

O EMPRÉSTIMO

Sábado, 12.10.13

O Valério nasceu de pai incógnito e de mãe solteira. Criado pela progenitora durante os seus primeiros anos de vida, cedo se emancipou, passando a viver por sua conta e risco. Arrendou uma casa na rua Direita, mesmo ali ao lado da igreja, afastada do adro apenas pela entrada do Gil. Era uma casa alta, de dois andares, geminada com uma outra que pertencia a Tio José Luís, a qual segundo a tradição, em tempos remotos, teria pertencido à família do capitão Freitas Henriques e, na altura, seria dotada de uma ponte que a ligava a uma primitiva capela ali existente, antes da construção da actual igreja.

O Valério não era muito dado ao trabalho agrícola, alegando maleitas diversas, umas reais outras fictícias. Entendia que o seu futuro não passava por acarretar molhos de erva das Covas, cestos de batatas do Areal ou cargas de lenha e incensos do Pocestinho. Havia que ganhar a vida de forma mais leve, mais descansada e mais lucrativa.

Ora o primeiro andar da casa, que comunicava com o segundo por um enorme “saguão” de pedra, estava dividido em duas lojas que outrora haviam sido estabelecimento comercial, por isso possuíam balcão, prateleiras, secretária e outras bugigangas necessárias para montar negócio. “Aí está o teu futuro, Valério!” – Dizia para os seus botões. O problema estava somente no dinheiro para investir quer em pequenas obras de modernização da loja quer no pagamento das primeiras remessas de mercadoria encomendadas aos armazenistas de Santa Cruz e das Lajes, que não vendiam fiado.

Na Fajã poucos tinham dinheiro e quase ninguém o emprestava. O padre Silvestre recusava-se fazê-lo por razões canónicas, o Senhor Claudino porque tinha a filha a estudar em Lisboa, a Senhora Rosa tinha que investir no seu próprio negócio e assim por diante. Quem se dizia que tinha muito dinheiro e já emprestara algum era a Inácia e o marido. Mas eram uns sovinas, “uns porcos” e de juros bem altos não se havia de livrar. Apesar de tudo, encheu-se de ânimo e lá foi bater à porta da Inácia.

A velhota a princípio mostrou-se renitente e pouco disposta a abrir os cordões à bolsa. Mas como o Valério explicasse que era para negócio com lucros garantidos e que lhe pagava com os juros que ela quisesse, a Inácia, mesmo sem consultar o esposo, cedeu, mas com uma condição:

- Só com papel assinado por ambos. Sem papel, nada feito. Emprestar sem assinatura bastou com o Ventura da Ponta e deu no que deu!...

O Valério, que não era preciso, que não era como o Ventura, que confiasse nele, que era homem sério e de palavra, que papéis só davam trabalho e maçada e não adiantavam nada. Era a sua palavra que valia mais do que todos os papéis do mundo.

- Não senhor! Ou com papel ou não há dinheiro para ninguém.

E o Valério, cuidando que sem o dinheiro da Inácia “adeus negócio”, teve que anuir, ficando combinado que o empréstimo seria de cinco contos e que a Senhora Inácia é que havia de fixar os juros conforme a sua consciência e também havia de ser ela a tratar dos papéis, que ele disso não percebia nada, nem tinha tempo. Só assinava depois de tudo pronto.

No dia seguinte a Inácia partiu para a Cuada, para casa do José Pimentel, homem letrado e hábil, seguro em contas e que até usava óculos para as fazer, a quem pediu que lhe preenchesse os papéis e lhe fixasse os juros de modo a que não perdesse nem dez reis do seu dinheirinho. A balança tinha que pender sempre era para o seu lado.

A Inácia voltou da Cuada com tudo direitinho, foi a casa buscar, de entre os colchões, os cinco contos de rei e lá foi levar dinheiro e papéis a casa do Valério. Os juros que iria receber, só por si justificavam todas estas passadas. Ainda por cima, estava tudo garantidinho… por causa do papel.

Chegou junto do Valério, ocupado já no arranjo da loja e, entregando-lhe o dinheiro, prazenteira, apontou-lhe o lugar onde ele devia assinar. Ela só assinaria depois dele, não fosse o diabo tecê-las! O Valério olhou admirado para o papel, esboçou um leve sorriso e, agradecendo-lhe, rabiscou o seu nome onde ela lhe indicara e guardou o dinheiro. A Inácia gatafunhou a seguir.

O negócio do Valério floresceu mais do que o esperado. O Correio de que também passou a ser administrador, atraía muitos clientes.

Passaram-se meses e anos. O tempo estipulado para o empréstimo expirar e a Inácia, sem demora, procurou o Valério, sentado ao balcão da sua loja, à espera de clientes. Um ali estava, a senhora Inácia. Mas a velha não desejava nada, queria sim o seu dinheiro e os respectivos juros, conforme o que estava ali escrito no papel que ela lhe apresentava.

O Valério deu uma gargalhada, virou costas e apenas disse:

- O teu dinheirinho!? Hei-de t’o dar quando muito bem quiser e entender.

A Inácia enraiveceu:

- Ai vais dar, vais! Tenho aqui o papel e de duas uma: ou me dás já o dinheiro já ou vou daqui direitinha para o Regedor.

Como o Valério nem lhe respondesse, a velha saiu dali, entre vitupérios e imprecauções, e rumou direitinha à Assomada, a casa do José Caetano, então Regedor da Fajã. Bateu à porta, entrou, sentou-se na cozinha e esperou horas, excruciando a cabeça da Filomena. Quando chegou, o Caetano, assumindo com solenidade o seu papel de legítima autoridade, ouviu-a, leu e releu os papéis e, com ar de espanto e animosidade, disse-lhe:

- Ó Inácia, as coisas não estão fáceis para ti. Pelo que aqui está escrito tu é que deves cinco contos ao Valério e terás também que lhe pagar os juros.

A Inácia, emudeceu. Esbranquiçou-lhe o rosto, arroxearam-se os lábios e os olhos ficaram esbugalhados como maçãs podres. Parecia que perdera o tino. Foi uma chávena de café quente e forte que a Filomena, com a ajuda do marido, lhe enfiou pelas goelas abaixo que a trouxe a si.

Tentaram acalmá-la, sem nenhum resultado. A velha bufava, gemia, gritava, berrava e até roncava, lançando as mais temíveis ameaças, vitupérios e imprecações sobre o Valério: “Que a terra o havia de comer vivo. Mas que isto não ficava assim, não senhor.”

Constava que o Valério, apesar de tudo, passados uns tempos e com a Inácia mais amansada, lá lhe ia dando algumas compras de borla e que ainda, de acordo com a sua consciência, lhe devolveu uma boa parte do dinheiro.

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publicado por picodavigia2 às 20:47

A FOLHINHA

Sábado, 12.10.13

Antigamente, nos tempos em que a missa ainda era celebrada em latim, existia nas sacristias das igrejas um pequeno livro, vulgarmente denominado por “A Folhinha” que continha indicações muito concretas e normas muito precisas, rigorosas e necessárias aos sacerdotes para que estes pudessem celebrar o Santo Sacrifício de acordo com a liturgia de cada dia. A Folhinha estava escrita em latim, à base de abreviaturas e, para além das indicações e normas necessárias à celebração da Eucaristia, desde a cor dos paramentos até às orações e leituras próprias ou classe da festividade de cada dia, ainda continha indicações relativas à leitura do Breviário para as diversas horas litúrgicas diárias.

Certo dia o Padre Pimentel, numa altura em que já resignara das suas tarefas de pároco e residia na Terceira como manente, foi de férias à Fajã Grande e decidiu ir celebrar missa a meio da manhã. Tocou o sino e voltou a tocá-lo, mas o tardio da hora impediu que o sacristão ou quem quer que fosse conhecedor dos meandros da sacristia ali não aparecesse. Na igreja apenas meia dúzia de mulheres de idade avançada e que pouco mais sabiam de Liturgia do que bichanar Padre Nossos e Ave Marias.

Com o avançado dos anos a alterarem-lhe o discernimento, com o nervosismo e a excitação que sempre possuíra, Padre Pimentel procurou em armários, revirou gavetas, abriu gavetões e voltou a procurar em todos cantos e prateleiras da sacristia… mas nada de encontrar “A Folhinha”. Assim via-se impedido de celebrar o Santo Sacrifício. Desesperado, aflito, atabalhoado, paramentado apenas com o amito, a alva e cíngulo, assomou à grade da capela-mor e, dirigindo-se ao pequeno, enigmático e silencioso grupo de velhinhas que esperava expectante o início da celebração, exclamou em altos brados:

- Alguém sabe da Folhinha? Preciso da Folhinha! Preciso da Folhinha!

Aflitas, espantadas e pasmadas as velhotas olharam umas para as outras, encolhendo os ombros, sem saber o que dizer ou, muito menos, o que fazer. A Glória Fagundes, outrora vizinha do reverendo e frequentadora assídua do passal, sentada ao fundo da igreja, mesmo à porta do tapa vento, muito habituada a meter o nariz em tudo e a inventar e procurar soluções para os problemas alheios, murmurou para os seus botões:

- Ah! Precisas duma folha! Espera que vou buscar uma.

Levantando-se, de imediato, dirigiu-se ali ao lado, à loja da Senhora Dias, aproveitou o exterior do templo para meter mais duas pitadas de tabaco de cheirar no nariz, pediu uma folha de papel almaço de trinta e cinco linhas ao Caetano e, toda contente, arrastando uns chinelos mais velhos do que o Padre Eterno, lá foi muito prazenteira, à sacristia, levá-la ao reverendo.

- Paspalhona! Ignorante! Apedeuta! Não é essa folha que eu quero. - Bradava o eclesiástico, cada vez mais desesperado e colérico. Tanto berrou, tanto gritou e tanto exasperou que a Glória Fagundes saiu da sacristia com os olhos arrasados de lágrimas, perante um cada vez maior pasmo e espanto dos restantes elementos da pequena assembleia litúrgica. Indignada e constrangida com o insucesso da tarefa, realizada com tanta dedicação e tão grande boa vontade, acusando o reverendo de mal-educado e “desagradecido”, sentou-se ao lado da Maria Cristóvão, contando-lhe, em segredo, as suas mágoas. Esta, abstraiu-se das rezas, reflectiu uns segundos e, de imediato, cochichou:

- “Ah! Mulhê! Sabes do que m’alembrei, agora? Nam será que ele quer mesme é uma folhinha de coive? Por que nam vais pedir ua ali, a tua subrinha?”

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publicado por picodavigia2 às 10:17

A MULHER COM PÉS DE CABRA DA LADEIRA DAS COVAS

Quinta-feira, 10.10.13

O Bigorna chegou a casa espavorido, misantropo, desfeito, esgazeado, a tremer como varas verdes e branco que nem cal. Enfiou-se na cama vestido, recusou-se a comer ou a beber o que quer que fosse, rejeitou a travesseira e cobriu a cabeça com os cobertores. Não tugiu nem mugiu durante o resto do dia. Um caco!

A mulher sabia que ele se levantara bastante cedo para ir ceifar um molho de erva à lagoa das Covas e, muito provavelmente, havia de demorar-se por lá algum tempo, como era seu hábito. Por isso, quando o viu entrar pela porta dentro, àquela hora e naquele estado, abriu a boca até aos ouvidos, perdeu a fala e ficou estancada na cozinha qual estátua de gesso. Depois, despertando de tão inaudita letargia, de um salto, abriu a porta do quarto, abanou o homem, sacudiu-o, balanceou-o, tentou descobri-lo e forçou-o a levantar-se. Mas nada. Parecia morto. É que quanto mais o sacudia mais ele se aquietava, quanto mais o remexia mais ele afrouxava e quanto mais o puxava para fora dos cobertores mais ele se encafuava quedo e mudo por entre os sulcos das folhas de casca que enchiam o colchão da velha enxerga.

A mulher, de consumida passou a alvoraçada, de alvoraçada a tresloucada e, cuidando que solavancos, repelões e lambadas naquele corpo inerte de nada valeriam para avivar tão estranho e repentino entorpecimento, desata pela vizinhança a gritar, a berrar e a pedir socorro. “Que lhe acudissem. Que acontecera uma grande desgraça. Que o seu homem estava a morrer. Que nunca se vira uma coisa assim.” Tanto foi o alarido e tão grande o berreiro que, em breve, a casa se encheu de vizinhas, de préstimos, de conselhos, mas também de lamentações e, até, de suspeitas e de desconfianças. Ali havia gato. Olaré se havia!

E os alvitres começaram a disparar: “Chama o senhor padre, faz-lhe chá “mastrunços”, põe-lhe um crucifixo nas mãos, tira-lhe os cobertores, põe-lhe um pano molhado na testa, promete um boneco a Santo Amaro, acende uma vela a Santa Luzia, dá-lhe canja de galinha…” Uma enxurrada de sugestões que não tinham fim. Fez-se de tudo e até o vigário veio, com cruz, água benta e livro de exorcismos. Mas nada… O Bigorna quedava-se recolhido no leito, mudo, inerte, estático, indiferente a tudo e a todos, perante o cada vez maior desespero da mulher e o inacreditável espanto dos circundantes.

Passaram-se dois dias, três dias de angústias extremas e de preocupações galopantes e nada. Ao quarto dia, mandada vir do Lajedo de propósito, apareceu por ali a Georgina Benta, muito entendida e experiente em bruxedos e maus olhares. Observou o doente e sentenciou de imediato:

- Há aqui o dedo do mafarrico! Se há… Ou eu não me chamo Georgina Benta. Aqui há bruxedo e dos graúdos. Posso garantir que isto só lhe passa com uma oração do livro de São Cipriano.

A mulher do Bigorna, muito da igreja e muito conceituada junto do pároco e de sua irmã, a princípio não aceitou muito bem a ideia. Mas era o seu homem que definhava dia a pós dia. “Só quem passa por isto é que sabe. Venha de lá a Benta e traga o livro de São Cipriano e todos os livros que quiser e entender. Primeiro que tudo está a saúde do meu homem.”

Entrou-lhe pois, a Benta do Lajedo, pela porta dentro, de vassoura e balde cheio de água benta. Não esteve com meias medidas e atira para cima do Bigorna a oração da “Cabra Preta”, enquanto o ia salpicando com respingues da água retirados do balde e atirados com a vassoura: “Cabra preta milagrosa que pelo monte fugiu, trazei-me o Bigorna que de minha mão sumiu (…) Bigorna, com dois te vejo, Bigorna com três te prendo, com Caifaz, Satanás, Ferrabás. Ámen!”

Não demorou muito. O Bigorna, ou pelo fresco da água ou pela intercessão de São Cipriano, lá foi escapulindo lentamente da letargia em que se encontrava. Esperneou, contorceu-se, escabujou, esticou o corpo prolongadamente, arregalou os olhos, atirou com os cobertores às urtigas e veio pôr-se à janela, a olhar admirado para a meia dúzia de mirones que lhe haviam parado em frente da casa.

Nunca se soube a quem o Bigorna contou o seu segredo. Mas toda a freguesia, algum tempo mais tarde, teve conhecimento do que acontecera naquela iníqua madrugada: o Bigorna cruzara-se na ladeira das Covas com uma mulher, jovem e bela, mas que não conheceu. Voltando-se para trás, por mera curiosidade, seguiu-a durante uns segundos. Foi então que a mulher também se voltou e o Bigorna, estarrecido de medo, viu que da cintura para baixo, tinha o corpo coberto de pêlo negro que parecia pêlo de cabra e os pés, esses eram mesmo bem iguaizinhos aos pés de uma cabra.

A parir de então muita gente da Fajã e da Ponta tinha um medo enorme de passar na Ladeira das Covas, onde uma misteriosa mulher, com pés de cabra, aparecera ao Bigorna.

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publicado por picodavigia2 às 10:15

TERRA MALDITA TERRA BENDITA

Terça-feira, 08.10.13

Não havia dia em que o Luís do José Bento não fosse às Águas, mais do que uma vez. Era levar a Moirata à relva, onde florescia a erva já gasta e amarelada, era apanhar os inhames, na parte superior, junto à rocha, era subir a própria rocha, no corte de lenha para o lume.

Juntamente com a belga do Pico do Areal, as Águas eram o que os pais lhe haviam dado, quando casara e abandonara definitivamente o lar paterno. Era uma terra fraquita, junto à rocha, dividida em três partes. A parte mais baixa, que dava para a canada de serventia por um portal de pedra, era a erva, mas uma erva pouco tenra, onde a Moirata pastava nas noites frescas de Verão e nos dias chuvosos do Inverno. Mais acima, separada por uma parede baixa e alguns pequenos arbustos, a terra dos inhames, por entre os quais corriam alguns fios de água vindos das “grotas” da rocha. Na parte superior, e já pelas encostas da rocha, a terra de lenha, onde cresciam faias, incensos, alguns álamos e queirós.

Terra pobre e perigosa! Vezes sem conta, pela rocha rolavam enormes calhaus e ribanceiras que punham em risco as vidas do Luís e da Moirata. Ele, porém, já se habituara:

- É preciso é estar sempre atento. Quando elas caem um homem tem que fugir é p’ra junto da rocha. Se forem pedras escapamos... Se for ribanceira, tanto nos apanha longe como perto.

E lá ia, dia após dia, lamentando a sua sorte e o pouco que os pais lhe haviam dado relativamente ao que possuíam. Fora por isso, por lhe darem somente aquelas duas “niqinhas”, sem valerem quase nada e uma delas debaixo da rocha, que o Luís, a pouco e pouco, deixara de entrar em casa dos pais e já quase nem falava aos irmãos. Não fosse o cerrado do Porto, junto à casa, que a Amparo herdara da mãe e não teria milho, couves e batatas para sustento dos pequerruchos, que nasciamem catadupa. Vinhaaí o quarto!

Casara com a Maria do Amparo, abandonada pela mãe desde que nascera, sem conhecer o pai e criada em casa dos Fragarias. Os pais torceram o nariz a tal casamento... É que a Maria nada tinha de seu, a não ser o cerrado do Porto com a casa a cair e, além disso, era a filha da Engrácia, uma bendita que, pelos vistos, nem sabia quem era o pai da filha. A paixão, no entanto, não sem alguns amargos de boca, sobrepusera-se e ultrapassara os interesseiros caprichos paternais. O Luís, antes de casar, restaurara a casa. A mão-de-obra fora sua e de um ou dois amigos. Mas para comprar a madeira, o cimento e o restante material, teve que vender uma grande parte do cerrado, que muita falta lhe fez

Com a chegada dos filhos a vida tornou-se muito mais difícil e a casa pequena. O leite da Moirata, que a Amparo vinha todos os dias levar ao Martins & Rebelo, agora era quase todo para eles. O milho não chegava... E depois, ainda havia que comprar o açúcar, o café, o sabão, o petróleo... Apenas a roupa dos pequenos chegava da América...

- Da América!... A América!... Como será a América? – Perguntava o Luís, certo dia, ao Gancho, que há alguns anos para lá partira e agora regressara para vir casar. Sentados no Descansadouro do Batel, observavam um enorme e esbranquiçado paquete, que surgira da rocha da Ponta e se encaminhava para trás do Monchique.

- Aquele vai direitinho para a América! Aquilo é que é uma terra! – Dizia o Gancho e, num discurso imponente e convicto, descrevia-lhe, não sem lhe encravar alguma laracha e uma ou outra mentira pelo meio, a terra do Tio Sam.

O Luís ouvia-o mudo e pensativo.

Desde desse dia, porém, que a América não lhe saía da cabeça. O Gancho tinha razão. Ali na ilha, na Fajã, debaixo daquelas rochas, trilhando aqueles caminhos sinuosos, carregando cestos e molhos pesadíssimos, naquela terra maldita, era trabalhar, trabalhar, trabalhar, para não ter nada e ver os filhos a chorar de fome. A América sim! Aquilo é que é uma terra, uma terra para se viver à farta. É verdade que não se juntam dólares na rua, mas quem trabalha ganha o que quer. O tanso do José do Outeiro, que aqui nem sabia conduzir um carro de bois, já comprou um automóvel; o Augusto Amorim anda a varrer lixo, já comprou duas casas e manda montes de dinheiro aos pais. Ele próprio estava riquíssimo e para lá tinha partido há quatro anos, a trabalhar num rancho...

- Num rancho. Isto é que eu queria – cismava o Luís. - Trabalhar num rancho, na Califórnia, com dezenas, talvez centenas de vacas, tirar o leite com “mechins”, criar bezerros, ter uma vida farta, viver naquela terra bendita – pensava em voz alta.

Certo dia, depois de tanto matutar naquilo, terminando a ceia – um caldo de couves com uma talhada de toucinho e um quarto de bolo que a Amparo cozera à pressa - atirou-lhe, de soslaio:

- Maria, vamos para a América!

- Credo, home! Parece que não estás bom do juízo!

O Luís expôs-lhe, então, com clareza, todo o plano que, durante algum tempo, arquitectara, ultrapassando decidida e convictamente todas as dificuldades e obstáculos que a Amparo contrapunha, inclusindo o da falta de dinheiro para as passagens.

- Já falei com meu padrinho. Ele descansou-me e disse-me que tudo se há-de arranjar. Depois temos a Moirata e o bezerro que darão algum, mais a casa e este bocado do cerrado...

A Amparo não se continha:

- A casa?!... Vais vender a nossa casa!?... E depois, se chegamos a S. Miguel, não arranjamos os papéis e temos que voltar para trás?!...

Naquela noite não dormiram, mas, de madrugada, a decisão estava tomada.

O Carvalho chegou às Lajes já noite escura. Demorara muito no Corvo, pois, trazia um Senhor Secretário de Estado de Salazar, acompanhado de numerosa comitiva, que vinha inaugurar o novo edifício dos Paços do Concelho. De certo que iria demorarem Santa Cruze, sobretudo nas Lajes, onde ficaria à espera de Sua Ex.cia, que tinha jantar agendado nas Flores. Os passageiros, no entanto, embarcaram imediatamente. Na última lancha, seguiu o Luís com a Aida num braço e o José Luís noutro, enquanto a Amparo sentava a seu lado a mais velha, a Ana e apertava no colo o Augusto, que nascera poucos meses antes. Ao aproximarem-se do velho paquete, a carita de espanto dos miúdos contracenava com as lágrimas da mãe. O vulto negro do Carvalho, onde entraram temerosos e inseguros, estava ali, flutuando sobre as águas calmas do oceano, como um monstro tenebroso e temível, que os engolia sem piedade. No convés e nas torres dezenas de luzes projectavam-se na noite escura e reflectiam-se nas águas mansas e límpidas da baía das Lajes. Do outro lado, a vila e a ilha, distanciando-se cada vez mais.

O navio levantou ferro já depois da meia-noite. Viajando em terceira classe, apenas a Amparo e os pequenos tiveram direito a um beliche, por condescendência especial do senhor Imediato. O Luís tinha que pernoitar no convés, numa cadeira que apanhasse livre. Como não encontrasse nenhuma, dirigiu-se para a borda do vapor, que, iniciava uma marcha lenta, enquanto, cada vez mais longe, a mancha escura da ilha, delineada pelos reflexos dos faróis das Lajes e do Albarnaz, se ia perdendo no infinito, até desaparecer

Agora só o roncar turbulento das máquinas, o marejar sincronizada do oceano, a incerteza escura da noite. O Luís perdera o sono. Debruçado sobre a borda do navio, observava a ilha cada vez mais longe, mais pequenina e mais perdida na escuridão.

Em Ponta Delgada fixaram-se na Rua do Arquinho. Um quarto pequeno, com duas camas. Era caro mas a Amparo podia utilizar a cozinha, o que tornaria a estadiaem São Miguel, não se sabia por quanto tempo, mais barata, embora agora tivesse que comprar tudo, até o leite, as batatas e o pão. Além disso o Consulado da América era perto, ali na avenida dos Milionários, e o Luís poderia deslocar-se a pé, sempre que necessitasse.

Os dias, porém, teimavam em passar sem nada se decidir. No Consulado eram horas e horas de espera para no fim ouvir: - “Volte amanhã.” ou “Olhe, ainda não chegou nada.” Ao regressar ao quarto eram os pequenos trancados no quarto, desassossegados, inquietos, pegados uns com os outros, era a Amparo aflita, sem pão, sem leite, sem açúcar e, pior do que tudo, sem esperança... Não raras vezes atirava-lhe à cara a precipitação em vender a Moirata, a casa e as terras:

- Eu devia ter ficado com os pequenos na Fajã e tu vinhas sozinho! Se conseguisses vínhamos ter contigo. Assim o que vai ser de nós? Vamos voltar para trás sem nada, desgraçados!... Totalmente desgraçados! Lágrimas amargas corriam-lhe pelos olhos, enquanto apertava ao peito o mais pequeno, que se desfazia em acentuado berreiro.

O Luís, já nem a ouvia! Permanecia mudo, apático e indiferente.

Os dias eram passados no pequeno cubículo. Deixar as crianças virem arejar e brincar para a rua no meio de tantos carros? Nem pensar!... A maioria das refeições eram pão e leite, porque esses não podiam faltar aos pequenos. O Luís saía de manhã, ia ao Consulado, trazia o pão e ali ficavam a tarde inteira, fechados no quarto, pensativos, tristes, misturados no reboliço dos filhos, Numa tarde, em que os três mais novos dormiam e a Ana saíra a convite duma filha da dona da casa, a Amparo resvalando dum passageiro e agora pouco vulgar rescaldo amoroso, timidamente, adiantou:

- Tenho, desde há muito, uma coisa para te dizer e não tenho coragem...

O Luís, assustado e estupefacto levou as mãos à cabeça:

- Vem aí outro?! Não faltava mais nada!

- Credo home! Vira-me a boca para o lado. Não é nada disso. É que antes de sair da Fajã, fiz uma grande promessa.

- Ora! Todos os que vão para América fazem promessas! Qual foi a que fizeste?

- Um jantar ao Senhor Espírito Santo... do Portal ao Risco!

- Fajãzinha, Cuada, Fajã e Ponta!?

- Sim, carne e pão em todas as casas, em louvor do Senhor Espírito Santo.

O Luís emudeceu. Sabes por quanto isso fica, Maria? Só a carne é uma fortuna! São precisos quatro bois!.. E temos que o vir dar? E as passagens?

A Amparo não pensara em nada disso. Apenas prometera, no meio de uma grande aflição, quando o vira vender a Moirata, a casa e o cerrado. Só o Senhor Espírito Santo os poderia salvar. Se tudo lhes corresse bem não teriam problemas. Não havia ninguém que fosse para a América com promessa e não viesse pagá-la.

- Pois – concluía o Luís – mas do Portal ao Risco, não é qualquer um.

E o milagre aconteceu. Finalmente chegou a tão almejada notícia! O Luís entrou no quarto efusivamente, saltando, abraçando a Amparo e esquecendo os filhos que, apáticos, não entendiam muito bem a razão de tão grande alarido. O Luís, aos soluços, num misto de alegria e sofrimento, exclamava:

- Eu sabia! Eu sabia que iríamos conseguir!

- Louvado seja o Senhor Espírito Santo!

- P’ra sempre seja louvado! – Rematou o Luís, acrescentando -  Assim que pudermos havemos de voltar todos para pagar a promessa.

A Agência “Melo & Cabral” tratou das viagens e dos passaportes. O dinheiro que sobrou da longa e penosa estadiaem S. Miguelquase nem deu para o carro de praça que os levou ao Aeroporto. Assim como o Carvalho, fundeado na baía das Lajes, os engolira naquela noite em que partiram das Flores, agora era o avião da SATA que os transportava até Santa Maria, para então tomarem o Boing da TAP, com destino a Boston. Voando sobre o Atlântico, enquanto os pequenos dormiam, a Amparo constrangida e amedrontada voltava-se, novamente, para o Divino Espírito Santo. O Comandante anunciava:

- Senhores passageiros, muito boa tarde. O nosso voo até Boston demorará cerca de quatro horas. Neste momento estamos a sobrevoar a ilha das Flores.

A Amparo de olhos fechados, fingindo dormir, nem o ouviu. O coração do Luís, porém, deu um enorme baque. Olhou pela pequena janela. O avião sobrevoava a parte sudoeste da ilha: as Lajes, a Fajã de Lopo Vaz, a Rocha Alta, um enorme alcantil escarpado, sobranceiro ao mar. Depois umas casitas isoladas, devia ser a Costa. Logo a seguir o Lajedo, o Mosteiro e lá ao fundo a ponta negra do baixio, estendida pela ilha fora, com as casinhas brancas, muito alinhadas e agrupadas. Por trás, como que a protegê-las, as escarpas do Outeiro e, finalmente, a rocha – era a Fajã!

Os olhos do Luís encheram-se de lágrimas, lágrimas de dor e lágrimas de raiva. Se não via, podia ao menos imaginar os caminhos que percorrera carregando molhos de erva, de incensos, de lenha, cestos de inhames, de milho e de esterco. Quanto sofrera, debaixo daquelas rochas, calcorreando aqueles atalhos, sem horas de descanso! Quanto trabalhara de enxada ou sacho na mão naquelas terras, semeando batatas, mondando o milho e plantando couves! Nunca tivera um tostão! Saíra de lá mas endividado! É verdade que era a sua terra, era a terra onde nascera, que lhe estava no corpo, mas era a terra maldita, que não lhe dera, nem nunca lhe daria aquilo com que tanto sonhava – fartura, não tanto para si, mas sobretudo para os filhos.

A Ampara, agarrando-se a ele, apenas perguntou:

- Vês a nossa casa?

- Não vejo nem quero ver – respondeu o Luís baixando o cortinado da janela.

No aeroporto de Boston a confusão estava institucionalizada. Dezenas de portugueses ali desembarcaram, nas condições do Luís. À maior parte, ou seja os que ali faziam escala para San Francisco, com destino à Califórnia, foram dadas ordens para não sair do avião. Um dos mais espevitados, com ar de “espertalhote”, experimentado em tais andanças, explicou, com ar de sabichão:

- Temos que sair. A TAP não voa para San Francisco, temos que mudar para a “Amaricana Arlaite”.

Nada, porém, se resolvia e os insultos começaram a chover:

- Tratam-nos como animais!

- Só lhes interessa o nosso dinheirinho!

- Depois de terem a massa no bolso não ligam a ninguém.

Algum tempo depois, uma senhora, de meia-idade, esquelética, cabelo louro, vestindo uma farda azulada, com um lenço azul e vermelho ao pescoço, entrou no avião e gritou com voz inglesada:

- Can va parra San Francisco siga-me porr favorr. Van semprre atrraz de mi.

Os portugueses, nos quais se incluía o Luís, a Amparo e os filhos, formaram uma fila compacta, amontoando-se e atropelando-se uns aos outros. Saindo do avião, percorreram corredores infindáveis por onde deslizavam funcionários fardados, passageiros em trânsito, de raças e nacionalidades diversas, carregando malas e sacos, num baralhar-se contínuo. A senhora da pronúncia americanizada, ao chegar à sala de embarque, avisou-os de que esperassem ali, até ser feita a chamada para o voo da TWA, com destino a San Francisco.

Este porém tardou. A noite já se aproximava. Na sala reinava a impaciência. As crianças choravam com fome e os adultos protestavam sem que ninguém os atendesse. Finalmente outra funcionária, falando português pior do que a primeira, entrou na sala e conduziu-os ao avião. Quatro horas mais tarde aterravam no aeroporto de San Francisco.

Depois de alguns dias em Vallejo, em casa da irmã Alice, o Luís, a Amparo e os pequenos rumaram para o Fresno, no Vale de S. Joaquim. Fora um primo do cunhado Heriberto que arranjara o emprego, precisamente o que o Luís queria. O ranho pertencia a um italiano, que passava mais tempo no seu país do que nos Estados Unidos. Assim era-lhe atribuída toda a responsabilidade de trabalho e a guarda do mesmo. Para além duma casa enorme, tinha direito ao leite que precisasse, poderia criar os bezerros que entendesse e cultivar o que lhe interessasse, nos campos circundantes. O patrão passaria por ali, apenas, uma vez por ano.

Um sonho! Uma maravilha! Era exactamente o que o Luís pretendia. A América, mais concretamente a Califórnia, era, realmente, a Terra bendita com que tanto sonhara.

O acentuado interesse pela agricultura e pela criação de gado que o Luís sempre revelara, concretizava-se agora de forma objectiva. Além disso conjugava o trabalho de que gostava com o ganho e a fortuna com que sonhava. Em casa não faltava nada! Pão, leite, batatas couves e carne sobretudo carne!... E no fim do mês os dólares. A Amparo tratava da casa e da horta. Ele ordenhava dezenas e dezenas de vacas, carregava o leite num pickup que ele próprio conduzia e tratava de todas como se fosse a sua Moirata. Tudo ali, perto de casa, sem grande esforço, com “mechins” de todas as espécies e até com um automóvel para passeios e compras. Os filhos cresciam, iam para a escola e já falavam melhor inglês do que português. Aos quatro levados dos Açores juntaram-se mais quatro. As dívidas estavam pagas e já havia muitos dólares no banco. A Ana casou e veio o primeiro neto.

Era altura de voltar às Flores para pagar a promessa ao Senhor Espírito Santo. Isso não podia falhar!

Na véspera da partida, porém, a tragédia sobrepôs-se à continuada concretização do sonho de sempre, agora tornado realidade. O Luís sucumbia, vítima de um ataque cardíaco. Ali, naquela Terra bendita, mas que, apesar de tudo, fora incapaz de lhe segurar a vida.

Passaram-se os anos. Numa manhã cálida e cinzenta de Outono, em todas as casas da Ponta, da Fajã, da Cuada e da Fajãzinha fumegava, quer em velhos caldeirões de ferro quer em modernas panelas de pressão, carne guisada e sobre a mesa, um, dois ou três pães.

Era o jantar oferecido pela viúva do Luís de José Bent

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publicado por picodavigia2 às 14:59

XOU PAJAM

Segunda-feira, 07.10.13

No primeiro ano em que comecei a frequentar a catequese, na igreja paroquial da Fajã, ainda antes de entrar para escola primária, a Dona Maria, irmã do Senhor Padre Pimentel, decidiu ensaiar uma peça de teatro sobre o Nascimento de Jesus, a qual seria apresentada ao público na altura do Natal e do Ano Novo.

Primeiro foi escolhida a peça, cujo cenário principal se centrava na sala do trono do palácio do rei Herodes. A obra seleccionada contemplava, no entanto, uma ou outra cena, noutros locais, incluindo, como não podia deixar de ser, um presépio ao vivo. De seguida e, identificadas as personagens, foram seleccionados os actores e figurantes, que deviam ser escolhidos entre todos os meninos e meninas da catequese. Os mais velhos, sobretudo os mais dotados intelectualmente, ou os referenciados pela senhora professora que, juntamente com as catequistas, também ia colaborar nos ensaios, foram escolhidos para os papéis de maior responsabilidade e, muito especialmente, para o daquelas personagens que “falavam mais” e que os actores teriam um texto maior a decorar. Aos mais pequenos, aos da primeira e da segunda classe seriam atribuídas papéis de personagens secundárias, que apenas proferiam uma ou outra frase. Finalmente os mais pequenitos, grupo em que eu estava incluído, seriam apenas meros figurantes.

A distribuição dos papéis começou com grande expectativa e suspense. Todos estavam ansiosos e inquietos à espera da personagem que lhe seria atribuída e que cada qual teria que desempenhar com o empenho e a competência possíveis. O Salomão do Luís Fraga, talvez pelo monárquico e bíblico nome que possuía, foi escolhido para Rei Herodes, a Vitória do Francisco Inácio, provavelmente pela sua beleza e bondade, foi escolhida para Nossa Senhora, o José Lourenço para São José e por aí abaixo, até que chegou a vez dos mais pequeninos. Eu estava impaciente… O que seria…? Pastorinho, anjinho, menino pobre? E não é que, para espanto meu, a Dona Maria me espeta com a honrosa nomeação de “pajem” do perverso e malvado mas poderoso rei Herodes! Fiquei doido de alegria e louco de contentamento. Muito bem vestidinho, iria sentar-me num banquinho forrado com papel de seda, sem dizer palavrinha, mesmo ali, bem ao lado do trono do poderosíssimo monarca! Que maravilha!

Cheguei a casa muito feliz e com uma enorme vontade de desabafar o meu contentamento e inquieto para anunciar a todos a grande notícia. Como era cioso e pronunciava mal algumas palavras, ao entrar na cozinha, quando já todos estavam sentados à mesa a comer a sopinha de agrião com uma talhada de toucinho e pão de milho, gritei com todas as minhas forças extravasando o contentamento que me ia na alma:

- “Xou pajam”! “Xou pajam”! “Xou pajam”!

E não é que lá em casa, a partir de então, pese embora a peça nunca tenha sido representada, fiquei com o apelido do “Xou pajam”, suplício que tive que suportar durante toda a minha infância.

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publicado por picodavigia2 às 14:26





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