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A SENHORA PROFESSORA

Domingo, 02.08.15

Chegou no Carvalho setembro. Vinha do Faial. Trazia, para além de uma enorme vontade de ensinar as primeiras letras à ganapada, uma juventude inebriante, uma desenvolta sagacidade e uma deslumbrante sublimidade. Uma beleza enlouquecedora, uma simpatia enternecedora! É verdade que não conhecia ninguém na freguesia mas depressa se afeiçoou a todos. Só quem nunca se cruzou com ela ou quem não tinha um mínimo de sensibilidade e bom gosto é que podia abster-se de admirá-la, de louvá-la, de bendizê-la. Por recomendação de um amigo do pai que fora guarda-fiscal na Horta, hospedou-se na Assomada, em casa da tia Anastácia que vivia com a filha Filomena. E não apenas a Assomada mas a freguesia toda se deslumbrou de tanta beleza, encanto e jovialidade. Os rapazes desejavam-na com concupiscência e as raparigas olhavam-na com inveja. Os velhos auguravam-lhe inebriante predestinação e as crianças, sobretudo as que frequentava a escola e com as quais convivia o dia inteiro, adoravam-na. Nunca se vira na freguesia tanta graça, tanto encanto, tanta formosura. Além disso era muito dada, falava com todos e sem uma fibra de vaidade. Um fascínio! Partilhava com todos estes dotes uma enorme simplicidade e uma deslumbrante humildade. Trazia consigo, apenas uma pequena mala de couro, onde guardava um ou dois lenços, um perfume suave, as chaves de casa e da escola e outras pequenas bugigangas. Era sobretudo, na escola, durante as aulas que cativava todos. Conhecia as crianças uma a uma e amava-as e tratava-as como se de filhos se tratassem. Vezes sem conta sentava os da primeira classe no seu próprio colo e quando o filho da Gertrudes deitou um pé fora do lugar foi levá-lo às cavalitas a casa, perante o encolhimento da mãe, toda envergonhada. Era como se Nosso Senhor lhe entrasse pela casa dentro. Lamentava-se apenas duma saudade medonha que, a cada momento, lhe atormentava o coração. Os pais, sozinhos, lá longe, em Castelo Branco não lhes saíam da cabeça e, para cúmulo o Carvalho, sempre com uma cartinha e uma caixinha de mimos da mãe, visitava a ilha de mês a mês. Quatro semanas e às vezes mais, vazias de notícias. Pior! Um mês sem lhes poder dar uma palavra de carinho ou ter um gesto de ternura, ou partilhar um afeto.

Embora recebesse de todos os habitantes da freguesia, que até enchiam a casa da velha Anastácia de cestinhas de batatas e cebolas, de litros de leite, de queijos frescos e quartos de bolo, por vezes ainda a fumegar, grande amizade, estima e consideração, eram as saudades dos pais que mais a atordoavam. Da própria pasmaceira da freguesia, do bafo da unissonância que a envolvia nunca se havia de aborrecer. A solidão nunca lhe fora tormento, de tal modo se embriagara no quotidiano morno e monótono da mais ocidental povoação da Europa, que a via correr para a escola de manhã e regressar apenas à noitinha, como se esta fosse e era de facto a única razão de ser da sua presença ali, debaixo daquelas rochas a abarrotar de barrocas e quedas de água. E a senhora professora adaptou-se muito bem aos hábitos e costumes da freguesia, à monotonia daquele pequeno lugarejo encastoado entre o mar e a rocha. Todos a adoravam, rodos a queriam ali para sempre.

Certo dia, porém, o destino modificou-lhe tão desusada vivência. Chegou à freguesia, de visita, um americano. Solteiro, bom rapaz, honrado, filho de pais honestos e bonito, muito bonito. Além disso dizia-se à boca pequena que nadava em dinheiro. Apaixonaram-se loucamente. Dizia, quem privou com eles que foi amor à primeira vista. E passado um mês a senhora professora deixou a escola, as crianças, a casa da tia Anastácia, a freguesia, a ilha e até os pais sozinhos em Castelo Branco e pisgou-se com o americano para a América.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A CHEGADA DA TELEVISÃO

Quarta-feira, 29.07.15

Tudo mudou em casa do Cambado quando ele regressou de Santa Cruz com um enorme caixote às costas. Dentro trazia uma televisão.

Desde há algum tempo que havia sido colocada uma antena retransmissora bem lá no alto do Pico da Vigia, onde ainda permanecia muito bem conservada a casota que durante anos e anos servira de vigia da baleia. O Senhor Padre, os comerciantes, o faroleiro e as casas mais abastadas da freguesia já se haviam munido da caixa mágica que todos os dias, à tardinha e durante o serão lhes enchia a casa, com filmes, notícias do mundo, desenhos animados, telenovelas e até jogos de futebol. Os filhos do Cambado bem se insurgiam contra o carracismo do pai em não adquirir um aparelho e a mulher, sem querer contrariar o marido, todas as noites corria para casa da vizinha Ester, para ver a telenovela que dava todos os dias, a seguir ao telejornal. O Cambado, no entanto, ia resistindo como podia, opondo-se, determinantemente, a uma compra caríssima e sem interesse. Preferia passar as noites encafuado no café da Engrácia, a cavaquear com uns e outros, a jogar à sueca ou à bisca, a beber uns copos de vinho ou uns tragos de traçado. Os filhos que gostavam de ver sobretudo os macaquinhos e os jogos do Benfica iam, por aqui e por ali, por vezes até espreitando através duma janela da casa do pároco. Passavam todo tempo pasmados, depois de sair da escola diante daquela caixa mágica e, ao chegar a casa, bem se empertigavam contra o pai que não havia maneira de se decidir pela compra da caixa que lhes havia de mudar os costumes. Tanto barafustaram, tanto insistiram, tanto suplicaram e pediram que o pai lá se decidiu pela compra do aparelho.

Veio o Chico da Aninhas pregar-lhe uma antena no telhado. Tanto procurou, rodou, desandou, escavacou e ligou fios que, por fim, encontrou o lugar certo. Os filhos do Cambado de pescoço torcido, a olhar para cima da casa como se estivessem a ver passar um avião, à espera do momento mágico. Podiam ligar! Estava sintonizado, o aparelho.

Os filhos, a mulher e até o próprio Cambado nem cearam na noite desse memorável dia. Sentaram-se em frente ao aparelho e passaram a noite toda a ver, a olhar, a ouvir o que percebiam e o que não entendiam. Deitaram-se alta madrugada e, no dia seguinte, como era domingo, ninguém despegou de casa. Nem a mulher foi à missa, nem os filhos à catequese, nem o Cambado foi sentar o rabo no café. No dia seguinte, no outro e no outro, a coisa foi avagando, mas sempre com um entusiasmo danado, a ver o que dava no aparelho. Em muitos outros dias. Viam quando regressavam da escola ou do trabalho dos campos, à noite, depois do jantar e, durante o fim-de-semana, passavam o tempo diante daquela caixa, pese embora por vezes ela se enchesse de tremeliques e outras transmitisse apenas chuva. Os filhos que andavam na escola não faziam os deveres, não iam brincar com os amigos, os mais velhos deixavam as vacas à fome e a Emerenciana, a mulher do Cambado, deixou, muitas vezes o leite entornar-se sobre o lume, o bolo queimar no tijolo e as batatas apegarem-se ao fundo do caldeirão. E, sempre por causa da porcaria da televisão.

O Cambado é que não gostava nada daquilo. Depressa se arrependeu, desejando que tivesse partido as pernas no malfadado dia em que partiu para Santa Cruz para ir comprar o maldito aparelho.

Finalmente, um dia, em que mais uma vez ficou sem ceia, por o bolo esturricar por completo sobre o tijolo, o Cambado enfureceu-se. Arrancou os cabos e a antena da televisão, levou-a para o andar de cima e guardou-a num armário fechado a sete chaves.

- A partir de agora, só aos domingos vocês vão ver televisão.

Os filhos mais velhos enfureceram, os mais novos choraram e a Emerenciana jurou que ele havia de pagá-las. Ai, se havia.

Durou poucos dias a casmurrice do Cambado. A mulher passava as noites fora de casa e os filhos em casa dos amigos. Ceia nikles. Assim não podia continuar, pelo que decidiu o Cambado desbloquear o aparelho, trazê-lo do sótão e coloca-lo no lugar de onde nunca devia ter saído. O pior é que a televisão era muito pesada e o Cambado, ao descer as escadas tropeçou, caiu nos degraus e, na tentativa de salvar o aparelho, quase que partiu a cabeça. Maldisse a sua sorte!

Mas a verdade é que passado um ano o fervor pela televisão, em casa do Cambado, já era muito menor do que nos primeiros dias em que a trouxe de Santa Cruz. Dois anos depois os filhos iam passear com os amigos atá ao Porto, em vez de ficarem em casa, sentados frente ao aparelho, a ver os macaquinhos e a mulher, todas as noites, preferia ir fazer serão a casa da vizinha. O Cambado voltou a ter ceia pronta a horas e nunca mais o leite se derramou sobre o lume ou o bolo queimou no tijolo.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

TIRAPUXAS

Sábado, 25.07.15

Álvaro chegou a casa em grande correria. Abriu a porta de rompante e deu de caras com o pai e os irmãos já sentados à mesa.

Foi a Amélia que, em tom ríspido, o interrogou em primeiro lugar. Como ele não respondesse, levantou-se da mesa e apertando-lhe um dos braços, indagou com vigor:

– Só agora!? Este tempo todo para ir ao Outeiro Grande? Só agora? Só? – e, pegando num garrancho de incenso, retirado do monte de lenha guardada debaixo do lar, começou a bater-lhe nas pernas. Dos bolsos das calças curtas caiam maçãs em catadupa. – Toma, toma para andares mais depressa. E ainda por cima com as algibeiras cheias de maçãs. Está vendo pai? Eu não lhe disse? Está aqui a prova. Onde as foste roubar?

Álvaro, voltando-se para o pai, choramingando começou a gritar:

 – Ai! Ai! Ó pai, não vê? Ela está-me batendo! Ai! Ai! Eu não as roubei. Foram do Delgado d’avó. Tia Juliana já me disse que quando passar por lá posso apanhar a fruta que quiser.

Logo o Alípio interveio em favor do vergastado, solicitando:

 – Amélia, para! – Depois, voltando-se para o irmão - Se vieste pelo Delgado podias ter ido ter connosco à Cabaceira e ajudar a ceifar os feitos e a cana roca.

Álvaro retorquiu:

- Eu não sabia que vocês estavam lá!... Nem tinha foice…

- Ai! Que espertinho! Não tinhas foice… Mas podias a ir atrás fazendo as mancheias.- Retorquiu o Justino.

Passados alguns momentos, o pai, quebrando o silêncio, indagou:

- Álvaro diz a verdade. Onde apanhaste as maçãs?

- Pai, já disse. Foi no Delgado d’avó.

E porque é que vieste pelo Delgado? É muito mais longe …

Álvaro calou-se, Passados alguns momentos, embora de forma hesitante e comprometedora:

 – É que…eu…

O pai insistiu, num misto de carinho e autoridade:

- Diz lá porque é que muitas vezes, quando vais levar as vacas ao Outeiro Grande, no regresso, vens pelo Delgado? Pelo Covão é muito mais depressa. Pelo Delgado demoras muito mais… E sabes que fazes falta em casa, para ajudar a tua irmã. Diz lá porque é que vieste pelo Delgado?

- Eu venho pelo Delgado porque tenho medo de passar junto ao Calhau das Feiticeiras. Dizem que elas aparecem lá todos os dias e tem as marcas dos pés bem marcadas pelo calhau acima.

Os outros riam às gargalhadas, recusando acreditar em tal patranha.

- Olha o medroso! – Disse o Alípio em ar de gozo. - Haviam era comer-te. Ó pai ele com as vacas passa e não tem medo. Sem as vacas é que tem medo…

- Eu com as vacas não tenho medo por causa das campainhas. As feiticeiras ouvindo as campainhas das vacas fogem logo. Quando não ouvem barulho é que aparecem…

Todos voltam a rir, mas cada vez mais indignados.

– E pai acredita nisso?

- Olha que já me vieram dizer que deitas paredes abaixo, que abres portais e não os tapas e que atiras pedras às ovelhas do Delfim. Isso não pode continuar assim…

- Ó pai, não atirei pedras às ovelhas do Delfim, foi só ao carneiro. Ele assim que me vê vem pendurar-se ao portal do curral e começa a dar marradas nas vacas.

Álvaro, apesar de revoltado com as culpas que lhe eram imputadas e de que a muito custo conseguia defender-se, sentou-se à mesa e pegando numa fatia de pão, queixou-se:

 – Não deixaram queijo nenhum para mim. – Depois voltando-se para o Justino – Foste tu que o comeste todo. És um grande lambão!

Mas o Justino não se conteve e ameaçou-o com veemência:

- Olha que levas… Só comi o meu bocado. E era bem pequeno…

- Come pão sem nada e é se queres. Vou já arrumar a mesa. – Dizia a Amélia, preparando-se para levantar a mesa.

- Para quem não trabalha, pão sem nada já é bem bom.

- É, mas se eu não fosse levar as vacas do primo Luís ele não vos cortava o cabelo de graça…

Foi o pai que, com algum vigor, pôs termo à discussão:

- Basta! Calem-se e deixem-no comer. Ele bem precisa… Eu vou agora a Ponta Delgada e ele vai comigo.

Álvaro, deu um pulo e, saltando da mesa muito contente, exclamou, cantarolando:

 – Ui! Já não tenho fome! Já não quero comer! – Vou com pai a Pon-ta Del-ga-da.! Zica-zica… Vou com pai para Ponta Delgada e vocês não vão-ão-ão…

O Alípio e o Justino juntaram-se em contestação. Que o pai nunca se importava com eles. Que nunca os levava a lado nenhum… Que só os mandava trabalhar… Que tinham que fazer tudo… E ele só a passear e sem fazer nada…

- Quando pai foi comprar o bácoro ao Lajedo, foi ele que foi consigo. – Lembrava o Justino.

- Quando foi levar o Boi Lavrado aos Terreiros para o embarcar no Carvalho, também foi ele que foi. – Acrescentou o Alípio.

E a Amélia ainda a lançar mais lenha na fogueira;

- A cunhada de tio Onofre pediu a pai para um de nós ir com ela às Lajes e foi ele que pai deixou ir.

O pai muito a custo lá tentou esclarecer:

- Então vocês não entendem que ele é o mais novo e se fica em casa não faz nada e eu não quero atravessar os matos da ilha de noite, sozinho.

- Pai, mas já é tão tarde! Como é que as estas horas pode ir e vir ainda hoje, a Ponta Delgada? Não é possível! Vá antes amanhã… - Interrogou a Amélia num misto de preocupação e desânimo:

- Está aí um barco de Ponta Delgada, o S. Pedro, de Mestre Gregório. Ele leva-nos para lá. Para cá vimos a pé.

- E o que é que pai vai fazer a Ponta Delgada, com este badameco? – Interrogou o Alípio.

O pai, então, esclareceu:

 – Vocês não se lembram porque eram muito pequenos e os mais pequenos ainda nem tinham nascido, mas quando, há anos, eu vim da Terceira de me operar ao estômago, o nosso conhecido de Ponta Delgada, o mestre António Algarvio, veio de propósito aqui à Fajã para me ver. Por mais que eu viva nunca me vou esquecer. E, além disso, devo-lhe muitos favores. Agora, infelizmente, aconteceu-lhe o mesmo. Ele chegou da Terceira, de se operar, no último Carvalho, por isso tenho que lhe ir fazer uma visita e ver como ele está.

- Mas mãe morreu e ele nunca veio ver pai. E os nossos conhecidos de outras freguesias vieram quase todos, até os das Lajes. – Interpelou o Justino.

- Ele não veio porque não podia. Nessa altura já estava muito doente.- Esclareceu o pai.

Enquanto levantava a mesa, a Amélia ia murmurando:

- Favor que lhe façam, pai nunca se esquece de pagar. – Depois implorando - Mas já é tão tarde, mesmo de barco, vão chegar a casa muito tarde e o Álvaro não aguenta a viagem de noite.

- Olha! Fala por ti! Aguento, aguento. Vou levar os sapatos da missa. Nem os estrago, vamos de barco… - Afirmava Álvaro.

- Era o que faltava levares os sapatos bons. Leva os outros, os de pele-de-cabra, que te comprei na loja da senhora Glória, que ainda estão bem bons e estão quase a deixar de te servir. – Ordenava Amélia, enquanto Álvaro protestava;

- Não levo, não senhor. Eles já estão todos rotos e estragados e os monços vendo-me com eles começam a chamar-me “chinelinha”. Levo é os do domingo e pronto. E levo a roupa da missa: as calças castanhas e a camisa cor-de-rosa que o luto por mãe já acabou.

- Vais passear e ainda queres ir de roupa boa. Olha p’ra ele.

- Levas a roupa da escola e os sapatos de pele de cabra ou então vais com essa e descalço. E acabou-se.

– Não! E não e não!

- Álvaro! Faz o que tua irmã manda. Vai vestir-te que o barco deve estar quase a partir.

Álvaro saiu a correr. Depois, voltando, perguntou ao pai:

– O S. Pedro está no Porto Velho ou no Cais?

- No Cais. – E voltando-se para os outros filhos – Ainda é cedo. Vocês os dois vão ao Pocestinho. As últimas belgas têm muita lenha e já há pouca em casa. Tragam cada um o seu molho. Quando chegarem tirem o leite às vacas. E tu, Alípio vais levá-las. Elas hoje vão para a relva da Pedra d’Água. Vem pela Bandeja e traz um molho de incensos, para o gueixo que está à engorda, comer de noite. E tu Justino tiras o esterco do palheiro das vacas e despejas a poça que já está muito cheia. Deita-a no canteiro da batata-doce. E tu Amélia vais à Máquina levar o leite. Mas tira dois ou três litros para fazeres o queijo e como vai sobrar pouco, deita o desnatado ao porco. E não te preocupes se demorarmos. Eu com o pequeno não posso andar muito.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:05

FIEL À COOPERATIVA

Terça-feira, 16.06.15

Sentados à mesa, tendo como cardápio pão de milho e queijo, Amélia advertia o pai:

- Está vendo pai? É preciso por cobro nisto. A Maria Fangueiro inventa muita coisa, mas esta da ovelha fugir para cima dos morangueiros…

- Tenho que falar com ele. É melhor a ovelha passar a andar amarrada.

- Ó pai, não adianta nada! – Esclareceu o Alípio. - Ele é um caganita! Não a aguenta um gato preso pelo rabo, muito menos uma ovelha forte como a nossa.

A Amélia, depois de recriminar o Justino por não deixar o maior pedaço de queijo para o pai, prosseguiu as queixas:

- Pai! Olhe que não há mais queijo. Logo à noite posso tirar dois ou três litros do que vai para a Máquina para fazer um queijo?

- Este mês já se tem tirado muito… Mas olha, como já estão há três meses sem pagar, o melhor é ficar com ele em casa para bebermos e fazer queijo.

E o Justino, de imediato:

- O melhor era deixar a Cooperativa e mudarmos para a Máquina de Cima. O Martins & Rebelo paga todos os meses e paga mais cinco centavos por litro do que a Máquina de Baixo. Muitos já se passaram para a de Cima

- Isso é que nunca! – Contrariou o pai. - Sempre estive na Cooperativa e dela nunca vou sair. O Martins & Rebelo o que quer é destruir a Cooperativa. Paga mais agora e depois quando a Cooperativa acabar e cair na desgraça vai pagar o leite ao preço que quiser. Os que mudam estão a vender-se, estão a destruir a Cooperativa por cinco ou dez centavos. E o trabalho e sacrifício que foi para a criar!... Eu fui um dos fundadores e de lá nunca vou sair. Para esse ladrão do Martins & Rebelo é que nunca vou. Prefiro dar o leite inteiro aos bezerros e ao porco.

Na sua inocência, Amélia a quem incumbia gerir o pouco dinheiro que havia em casa, na compra do café, do petróleo, do sabão e pouco mais, bem aconselhava o pai:

- Pai! Não diga isso! Sei que não gosta do Martins e Rebelo. Mas…É melhor então fazer queijos e até podemos vender alguns.

Ele, porém, permanecia fiel à Cooperativa que ajudara a fundar.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:51

A SAFRA DO SARGAÇO

Quarta-feira, 13.05.15

Meu pai levantava-se, todos os dias, muito cedo. Alta madrugada! No Inverno, ainda noite escura. Calçava umas botas de borracha, pegava num bordão, numa corda e numa foice e ia à lagoa das Covas, para os lados da Ponta, ceifar um molho de erva que trazia às costas, a pingar e a verter-lhe água pelo corpo. Era o alimento do gado leiteiro, que o alfeiro não merecia tão grandes sacrifícios. A maioria das vezes quando eu e meus irmãos nos levantávamos, ele já tinha ido e voltado, com a tarefa eximiamente cumprida, pese embora chegasse a casa todo molhado.

Esta rotina diária era quebrada quatro, cinco ou seis vezes por ano. No Inverno. Era nos dias em que, após o arrancar das profundezas do oceano, a maré da madrugada, acossada pelo marulhar das ondas, enchia o Rolo de sargaço. Nesses dias, meu pai, ao chegar à Ribeira das Casas, mudava o seu rumo. Alterava o seu destino. Dirigia-se para o Rolo. Como era dos primeiros a chegar, fixava-se logo ali, a seguir ao ilhéu do Constantino, local onde a safra era mais proveitosa. Depois de chegar delimitava o seu terreno, demarcando-o com uns pedaços de cana, de paus ou até com uma ou outra peça de roupa. Muitos outros homens seguiam-lhe o exemplo. Alguns, até, antes dele. De seguida, pedia a alguém que nos avisasse da sua inexorável mudança de planos. Que lhe levássemos os garfos de tirar esterco, cestos e café com pão. Então começava a trânsfuga do sargaço que as ondas traziam, atirando-o mais para cima, para sítio em que a maré, quando voltasse a subir, com as suas altivas e bravias ondas não lhe chegasse e, assim como o tinham trazido, o levasse. Nós acordávamos sobressaltados e corríamos ansiosos, à frente, com os cestos e os garfos. Minha irmã, atrás, com o bule do café, um pedaço de pão e queijo ou doce de laranja. A manhã era toda para a trânsfuga. A maré, ao subir, mesmo que as ondas acalmassem, levava todo o sargaço que não tivesse sido acautelado. Às vezes, com um pouco de sorte, caldeado com o sargaço, vinha um polvo, ainda vivo. Meu pai, com agilidade, virava-lhe o capucho e havíamos de o comer à ceia, guisado com batata branca.

Minha irmã voltava a casa e, antes das badaladas do meio-dia, na torre da igreja, já lá estava, com um cesto carregado de pão, torresmos, toros de linguiça ou tortas de ovos e inhames, pão e um bule de café.

Nós, famintos, recebíamo-la em festa. Ao redor já muitas famílias se sentavam para o bródio. Era sobre o sargaço, castanho e perfumado a maresia que nos sentávamos, ao redor da toalha. Era como se fosse dia de festa.

De tarde o trabalho era bem mais árduo. Todo aquele sargaço tinha que ser transportado em cestos, acarretados às costas, a pingarem água, para o lago. Cada família tinha o seu lago. Os lagos eram pequenos cubículos de terreno, entre o Rolo e o caminho da Ponta, divididos com pedras do rolo, ordenados e organizados, ladeando pequenos corredores, formando autênticas ruas. Uma central e mais larga, outras transversais, mais estreitas. À medida que os montes subiam, formando altos paralelepípedos, transformavam-se em espécies de casas ou edifícios, que ainda mais caracterizavam aquele local, assemelhando-o a um pequeno povoado. Cada qual pretendia ter um monte mais alto do que o do vizinho mas todos acalcavam muito bem o seu sargaço para que este aquecesse bem, fermentasse e apodrecesse transformando-se em excelente estrume para os campos.

De tarde o calor era muito. A sede grassava. Meu pai mandava-me buscar água. Ali bem perto, mesmo ao lado da Ribeira das Casas havia uma lagoa que pertencia ao Fernando de Ti Manuel Rosa. Era meu vizinho e isso facilitava-me a entrada numa propriedade privada. La num canto, protegido por uma enorme parede voltada a nordeste havia uma nascente que abastecia a lagoa. A água era fresquíssima e muito saborosa. Pegava na maior folha de inhame que ali havia e transformava-a num recipiente que enchia e trazia a meu pai. Ele fazia um furo na folha. A água esguichava e ele bebia como se fosse duma torneira. Bebia e voltava a beber. Depois passava a meus irmãos que também se deliciavam com a água. A noite chegava. Minha irmã regressava com a ceia e com duas lanternas. Bolo frito, queijo e café. Depois, meu pai acendia as lanternas. Uma ficava no rolo, onde se continuavam a encher os cestos. Outra no lago cada vez mais alto. Alguns só com escada. O Rolo era agora um mar de luzes a petróleo e petromax. Um espetáculo verdadeiramente deslumbrante.

Terminada a safra do sargaço, já noite adiantada, cansados mas felizes e contentes, voltávamos a casa.

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publicado por picodavigia2 às 09:13

O PÃO COM MANCHAS DE SANGUE

Sexta-feira, 08.05.15

Era um alvoroço desusado lá em casa. À sexta-feira mãe e filhas acendiam o forno, amassavam, talhavam e enchiam o forno de pão, Terminada a cozedura e depois de o cobrir durante algumas horas com grossos cobertores quando o iam partir para comer, todos os pães no meio tinham uma enorme mancha de sangue. Primeiro as mulheres, depois os homens quando chegavam a casa, regressados dos campos. Todos ficavam admiradas e, olhando uns para os outros, sem perceber o que se passava. Depois perguntavam e procuravam saber se alguma mulher que o tivesse amassado não teria um corte ou feridas ou qualquer sangue nas mãos, Mas nada, E na sexta-feira seguinte e em muitas outras, apesar de lavarem muito bem as mãos antes de o amassar e de o tender, acontecia o mesmo. Muito espantadas e nervosas, as mulheres perguntavam:

- De onde virá este sangue?

Calaram-se muito bem, pois cuidavam que era um castigo divino, por expiação de pecados antigos.

Certo dia umas vizinhas vieram contar uma notícia estranha. Em casa de uns parentes, para os lados da Rua Nova acontecia o mesmo. Era mesmo sangue. Era um castigo. Só poderia ter sido um cunhado da Cuada. Fizera uma promessa ao Senhor Espírito Santo e nunca a cumpria.

- Que o fossem castigar a ele e aos filhos.

Mas a tragédia continuava. Chegaram a oferecer um pão. Espanto dos espantos. Esse não tinha sangue. Apenas na própria casa, quando partiam o pão, ao meio, havia sempre uma mancha de sangue. Ai, em casa, o pão aparecia sempre ensopado com uma mancha de sangue. Esta insustentável e dolorosa situação durou muitos meses. Bem se interrogavam, bem questionavam e pediam a Deus para que aquilo acabasse… Mas nada! Sempre o pão raiado de sangue. Não encontravam resposta para tamanha tragédia:

- Mas que diabo é isto? – Perguntavam os homens que não acreditavam em patranhas.

- Que mistério é este. Será um castigo de Deus? – Interrogavam as mulheres. - Que desgraça é esta que nos bateu à porta? Nós não temos culpa dos outros não cumprirem o que prometeram ao Senhor Espírito Santo.

Sabiam agora que o pão que uma filha do cunhado que fizera a promessa cozia também tinha sempre sangue. Por isso, só podia ser por causa da promessa não cumprida. Era um sinal, um aviso…

Mas verdade é que precisavam de comer o pão, apesar do medo. A princípio cortavam a parte onde havia o sangue e comiam a restante. Mas por fim já não o queriam comer. Tinham nojo embora soubessem que o amassavam com muita limpeza.

Um dia uma vizinha veio de visita e ofereceu-se para amassar o pão.

- Hoje sou eu que lhe amasso o pão! Vamos lá ver se é só nas vossas mãos ou se o que eu amassar também vai ter sangue. Vamos desfazer este mistério.

A mulher lá foi e amassou o pão. O sangue continuou a aparecer. Uma grande manha lá no interior do pão. Mas porquê se a mulher não tinha nenhuma ferida nas mãos. Veio outra vizinha e depois outra. Cozeram mais pão. Sempre que o cortavam ao meio, lá estava a mancha de sangue. Parecia castigo! Aquilo não é boa coisa, já assustava.

Felizmente, alguns meses depois cessou. O pão depois de cozido, ao partir-se estava absolutamente normal. Sem qualquer mancha de sangue.

Nunca se soube a razão de tão estranho fenómeno, porque afinal a promessa não foi paga.

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publicado por picodavigia2 às 08:59

NO MOINHO DE TIO MANUEL LUÍS

Sexta-feira, 17.04.15

A Maria e o José foram incumbidos de ir levar a moenda ao moinho de Tio Manuel Luís enquanto os pais iam, como de costume, trabalhar os campos. Como a moenda fosse grande e pesada os pais dividiram-na por dois sacos mais pequenos, colocando um às costas do José e o outro à cabeça da Maria. De seguida avisaram-nos. Que tivessem muito cuidado, sobretudo ao subir a canada da Ribeira das Casas e ao atravessar a ponte e que esperassem que o Tio Manuel Luís lhes moesse o milho para trazerem os sacos de volta, cheios de farinha. É que a mãe precisava da farinha para a fornada da tarde. Ao chegar a casa haviam de ir buscar o António e o Carlos, à Fontinha, a casa da avó. Viriam com eles para casa e haviam de esperar que o pai e a mãe, regressassem da Cabaceira onde iam sachar e mondar duas belgas de inhames. Trariam dois cestos deles.

A distância entre a sua casa, na Assomada, e os moinhos, para lá da Ribeira das Casas era bastante longa e era preciso ir com cuidado, sobretudo para o José não tropeçar nalguma pedra e fazer mais uma tupada num dedo ou até cair. Além disso deviam ir bem agasalhados, pois era inverno e fazia muito frio. Além disso, junto à ribeira era sempre mais fresco.

Orgulhosos, pezinhos descalços, as duas crianças, o José de nove e a maria de oito, partiram. Para encurtar caminho, decidiram subir a Fontinha, até ao palheiro de Tio José Teodósio. Aí, entraram na canada que dava para o Mimoio, onde os pais tinham um cerrado de milho. Depois seguiram até à Ribeira das Casas. Era só atravessar a ponte e subir a canada paralela à ribeira, até ao Moinho de Baixo, como a mãe havia sugerido.

O Mimoio era um lugar muito bonito e da canada via-se muito bem a torre da igreja e as casas da Rua Direita, da Via d’Água e, sobretudo as da Tronqueira que ficavam bem mais perto. Uma bela vista que se estendia pelo rolo, até ao Ilhéu do Cão e à Ponta. Lá longe a Baixa Rasa, o Monchique e um outro navio, a atravessar o Atlântico, talvez vindo da América e que ia não se sabia para onde.

As duas crianças iam muito contentes, embora tremessem de frio. As moendas eram pesadas mas a Maria bem chamava o José, sempre muito lento e desejoso de olhar para todos os lados, para que se apressasse, a fim de que fossem dos primeiros a chegar ao moinho e tio Manuel Luís os despachasse bem cedo. Alem disso, andar de pressa era uma boa maneira de aquecer o corpo e sentir menos frio.

Depois de algum tempo de caminhada, muito cansaditos, chegaram ao moinho. A canada que lhe dava acesso também era muito bonita e a Maria adorava ouvir o correr da água por entre as pedras, ver os passarinhos a saltitar do ribeira para as relvas, a depenicar aqui e acolá cantarolando, e, sobretudo, apreciar o cair da água pela rocha abaixo até encher o Poço do Bacalhau. Mas deste tinha medo. Nunca se havia de aproximar dele. Diziam que, de noite, se ouviam gritos, de um homem mau que, antigamente, tinha sido atirado lá para dentro, precisamente por ter sido muito mau em vida.

Quando chegaram ao moinho, apareceu-lhes o tio Manuel Luiz. Parecia que tinha sido pintado de branco do cocuruto aos pés, pois estava com a cabeça, a cara, as mãos e a roupa toda salpicada de farinha. Mas era muito bondoso. E, ao vê-los, veio, de imediato, tirar-lhes os sacos de milho.

- Então meninos! Foram vocês que vieram hoje trazer a moenda? Podem ir embora e vir amanhã buscar as sacas. Logo de manhã estarão prontas.

- Mas a minha mãe precisava da farinha para cozer o pão hoje. – Disse a Maria um pouco tímida. - Já não temos nem pão nem bolo para a ceia.

- Nem farinha para fazer papas. – Acrescentou o José que se pelava por papas com leite.

- Bom, - disse tio Manuel Luís, limpando a farinha da face com as costas da mão. – Sendo assim, há aqui uma moenda que pode esperar para a manhã. Vou moer a vossa na vez dela. Enquanto a moer vocês podem aproveitar para ver o moinho e dar um passeio pelos campos. Mas se preferirem podem ficar aqui sentadinhos.

Sentaram-se os dois num banquinho que existia ao lado da porta, observando toda aquela geringonça e o barulho que fazia. Um barulho infernal. Tio Manuel Luís pegou nas duas moendas, cortou-lhes os cordões e despejou todo o milho numa enorme caixa, em forma de pirâmide invertida e que estava presa aos tirantes do moinho, descaída sobre uma grande mó que rodava sobre uma pedra redonda com bordos ao redor. Os grãos de milho, através dum leve movimento, saíam da caixa por uma calha que, estremecendo, os ia deixando cair, lentamente, num buraco redondo que existia no meio da grande mó. A farinha, branquinha como a neve, ia saindo debaixo da mó e era apanhada numa caixa, colocada no chão. De vez em quando tio Manuel Luís pegava num punhado de farinha, passava pelas mãos, a fim de saber se estava grossa. Neste caso, subia uns degraus ao lado da mó. Ia afiná-la, a fim de que a farinha saísse mais fina.

O moinho era um interessante mecanismo que aproveitava a força da água para se mover, permitindo moer grãos de milho. A água que caía da rocha e deslizava pela ribeira era desviada por uma levada, uma espécie de rego que havia sido construído e onde a água se projetava sobre uma enorme roda com rodízios e que a movimentava. Era o movimento desta roda que punha em ação toda a engrenagem do moinho. O José e a Maria observavam tudo isto, muito admirados. Tio Manuel Luís ainda os levou ao inferno do moinho, ou seja a uma loja que existia por baixo, a que se tinha acesso por uma porta exterior, e onde existiam uma série de rodas dentadas que com o impulso da roda exterior se iam movimentando umas às outras, fazendo um barulho infernal. Eram estas rodas que faziam mover a mó. No andar de cima existia uma velha cama onde tio Manuel Luís dormia. Tinha que ficar ali de noite e lá dormir porque quando acabava uma moenda eles tinha que encher a caixa com o milho d’outra.

Por fim tio Manuel Luís pegou-lhes nos sacos e encheu-os de farinha, depois de retirar a sua maquia, seja, meia quarta de farinha que tirava sempre de cada moenda para o pagamento de a moer. De seguida e sempre muito paciente amarrou-lhes os sacos colocando um às costas do José e outro à cabeça da Maria, dizendo-lhes:

- Estou a ficar velho, já quase não posso pegar numa moenda. Qualquer dia vou entregar o moinho ao meu filho Tobias. Ele é que vai ficar aqui no meu lugar. Ele inventou e está a construir uma engenhoca com a qual não é preciso dormir aqui, porque quando acabar uma moenda ele amarra uma corda à mó que está presa a uma prancha de madeira, la fora. A corda deita a prancha abaixo e a água é desviada e deixa de ir para cima da roda e o moinho para por si. Assim já podemos dormir em casa. Modernices! – Concluiu o tio Manuel Luís, limpando a farinha da cara e despedindo-se das duas crianças. – Vão com cuidado! Ouviram?

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publicado por picodavigia2 às 00:05

PERDIDOS NO MATO

Quinta-feira, 16.04.15

A noite era escura, muito escura. O céu estava de tal forma encoberto que nem se via uma única estrela. Álvaro e o pai caminhavam nos matos, atravessando a ilha, ora andando sobre a fresca alfombra das pastagens ora furando tapumes, saltando valados e grotões, trilhando veredas e atalhos sinuosos. Haviam partido de Ponta Delgada, à noitinha, com destino à Fajã Grande. A certa altura, Álvaro, muito a medo, quebrando silêncio, interrogou o pai:

- Ó pai, no fim da missa o senhor padre reza uma oração para afugentar os espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas… É verdade que aparecem espíritos ou almas do outro mundo, durante a noite?

O pai, mais preocupado com as dificuldades de tão ignóbil caminhada, nem lhe respondeu. Mas uns momentos depois, ou porque o miúdo insistisse ou porque outro assunto o preocupasse, parou e disse-lhe:

- Espera! Olha Álvaro, perdidos estamos nós. Mas não te preocupes. Antes de chegarmos às relvas vínhamos por um atalho. Era fácil encontrá-lo. Agora entramos nas pastagens, andamos por carreiros formados pelos passos das pessoas, através da erva, separadas por cancelas, tapumes de hortênsias e por grotões e ribeiras. É difícil seguir pelo carreiro certo sem nos desviarmos. Mas vamos voltar a encontrá-lo. Não te preocupes.

- Ai, meu Deus! Tenho tanto medo, pai! E agora? Perdidos no mato! Vamos ficar aqui até de manhã?

- Não. Temos que seguir para nossa casa. Vamos procurar o caminho e vamos encontrá-lo. – Calou-se, por uns momentos. Pouco depois, prosseguiu: – Olha filho, há aqui um tapume de hortênsias. Perto deve haver a cancela que dá para a relva seguinte… Vamos procurá-la.

Calaram-se, novamente. Foi o miúdo, de novo, a quebrar o silêncio:

- Pai, encontrou alguma cancela?

- Não, Infelizmente, não. Estamos mesmo perdidos Mas acalma-te. Vamos resolver isto.

De novo reinou um silêncio temeroso entre eles, interrompido de vez em quando pelo bramido de uma ou outra onda mais afoita, lá ao longe, a desmoronar-se contra os rochedos. Pouco depois o pai, como se acordasse de um pesadelo, ordenou:

- Vamo-nos sentar um pouco.

- Pai, a erva está molhada!

- É do sereno. Senta-te em cima da minha froca.

- Ó pai, cada vez tenho mais medo. Vamos ficar aqui toda a noite?

- Não. Vamos resolver isto e já. Descalça os sapatos!

- Ó pai! Para quê? Tenho os pés quentes e a relva está toda molhada…

- Faz o que te digo. Descalça-te e dá-me os sapatos. Vou guardá-los na manga da minha froca, até ao Risco, onde acabam as relvas. Do Risco para lá já os podes calçar. Agora vais andando à minha frente, muito devagar, caminhando com cuidado de modo a sentires a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o carreiro, onde ela está amachucada. Estás habituado a andar descalço. Passa muita gente por aqui. A erva está muito amachucada no sítio onde as pessoas passam. Assim, com os teus pés, vais conseguir encontrar o carreiro.

- Agora percebo. Dê-me a mão, que tenho tanto medo. Mas descanse, pai, que eu vou encontrar o carreiro.

- Vamos! Vai andando devagar, arrastando os pés… Assim…

Seguiu novo e prolongado silêncio. Até o marulhar das ondes parecia ter-se perdido. O pai insistia com Álvaro, animando-o, incutindo-lhe ânimo:

- Coragem, Álvaro. Não desistas! Segue devagarinho… Procurando bem…

De repente Álvaro emite um enorme grito de alegria:

- Pai! Encontrei! É aqui! Olhe, apalpe com as suas mãos e veja. É aqui, não é?

- É! É! Bravo! Estás a ver como foi fácil. Agora vai sempre direitinho, à minha frente, pelo carreiro adiante…

- Pai, mas eu queria ir ao seu lado, queria ir de mão dada consigo. Tenho medo. Olhe ali um vulto. É uma vaca deitada? Eu tenho tanto medo.

- Só deves ter medo de nos perdermos outra vez… E eu acho que continuamos perdidos. Estamos a andar na direção de Ponta Delgada e não na direção da Fajã.

- Ó pai! Outra vez perdidos! Nunca mais chegamos a casa. E agora? O que vamos fazer?

- Agora vamos ter que resolver outra vez. Mas a noite está muito escura e não se vê nem a Ursa Maior nem a Estrela Polar… Não sabemos para onde fica o norte e por isso não sabemos se vamos na direção da Fajã. Mas vamos continuar a andar e quando encontrares uma parede, paras.

- Está bem, pai.

Novo silêncio, até que uma pequena parede, de pedras toscas, cobertas de musgo lhes obstruiu a caminhada:

 – Olhe! Estamos com sorte. Há aqui uma parede.

- Então vamos parar.

Álvaro sentou-se. Era uma criança. Tinha pouco mais do que sete anos. Para além de cansado, começava a sentir sono. O pai, aproximando-se da parede, acariciou-a com as mãos de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza, disse:

 - Íamos enganados, pois íamos. Nesta direção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direção contrária.

- Como é que meu pai descobriu.

O pai, pacientemente, explicou:

- Eu nunca andei na escola, mal sei ler e escrever, mas durante a minha vida, aprendi muito, com o trabalho e com meu pai, teu avô, que já morreu há muitos anos. Ele ensinou-me que quando há nevoeiro ou andamos numa noite escura no mato e não se vê nada, nos podemos orientar pelas paredes, porque as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e têm mais musgos e mais ervas. Foi isso que eu descobri, quando estive a apalpar a parede. Fiquei a saber para que lado fica o norte. Ora nós íamos a andar para o norte e como a Fajã fica para sul, foi só voltar ao contrário. Agora tenho a certeza que vamos na direção certa.

- Boa, pai! E agora? Demoramos muito, até chegar acima da Rocha da Ponta? Já deve ser muito tarde. Deve ser quase meia-noite.

- Ainda não. Mas se fosse, qual era o problema?

- É que toda a gente diz que a meia-noite é a hora má, é a hora do demónio, em que ele aparece e aparecem muitas outras coisas. Avó até sabe uma oração que reza para o afugentar para longe, quando está acordada à meia-noite. Tenho tanto medo pai e ainda falta tanto para chegarmos a casa.

- Já te disse para não acreditares em nada disso. Tudo são coisas que as pessoas inventam:

- E, depois de passar na Ponta, a ainda temos que descer a ladeira das Covas…

- E o que tem a ladeira das Covas?

- Pai não sabe? As pessoas quando passam lá ouvem gemidos. Acredite, pai! Toda a gente que passa lá ouve. Até o Senhor Padre Silvestre quando vai dizer missa à Ponta ouve. Ele ficou cheio de medo. Agora até leva sempre dois homens com ele e dizem que os três ouviram os gemidos. A tia Juliana diz que aquela ladeira tem coisas do outro mundo porque Tia Fraga contava que antigamente um homem viu lá uma mulher com pés e mãos de cabra.

- Isso são tudo tolices! Já foi descoberto o que eram os gemidos que toda a gente ouvia. Era a Ana do José Felício que andava por lá a gemer. Ontem um grupo de homens foi-lhe fazer uma espera, na relva do João Cristóvão. Esconderam-se toda a tarde na relva e à noitinha viram-na chegar e esconder-se numa furna. Eles calaram-se bem calados. Quando ela sentia alguém passar na ladeira, punha-se logo a gemer e a gritar. Eles pensavam que era apenas para assustar o senhor padre Silvestre. Mas depois apanharam-na e deram-lhe uma sova e ela lá explicou que só queria que as pessoas da Ponta tivessem medo de passar por ali, para não irem levar a moenda ao moinho do André e as deixassem no seu, que ficava para além da ribeira do Cão. Presta atenção ao carreiro e não penses mais nas tolices que te metem na cabeça.

- Fico mais descansado… Mas já deve ser tão tarde… E ainda falta tanto para chegarmos acima da Rocha da Ponta. E aquela rocha é muito difícil de descer… e assim às escuras…

- Ou eu me engano muito ou quando chegarmos acima da rocha já vamos ter Lua. Vai é com cuidado e atenção para não caíres e não nos perdermos outra vez. Tua irmã deve estar muito preocupada. Temos que andar mais depressa.

- Vamos, pai! – Disse Álvaro cada vez mais sonolento

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publicado por picodavigia2 às 10:10

AS TÂMARAS DO GIL

Quarta-feira, 08.04.15

O Gil morava na Rua Direita. No entanto, como a casa ficava um pouco afastada da rua, com a casa de Tio José Luís pela frente, a casa do Gil tinha dois acessos que a ligavam à rua Direita. Um deles era uma pequena canada em forma de L, com o vértice no curral do porco, paredes meias com o lado norte do adro da igreja. Era por aí que se tinha acesso à porta da cozinha e também era por aí que o Gil entrava e saía com as vacas uma vez que o palheiro e a casa de arrumos ficava ao lado da casa. Acresce dizer-se que as vacas do Gil usavam belas campainhas, com sons inconfundíveis e belíssimos, Era também por esta canada que se tinha acesso à cozinha do José Natal. De resto mais nada por ali. O outro acesso à casa do Gil, o principal e o mais importante, era feito através de um estreito e comprido pátio, contiguo a um chafariz que havia na empena sul da Casa do Espírito Santo de Baixo e que ligava a porta da sala da casa à Rua Direita. Era pois a entrada nobre, por onde entrava a Coroa do Espírito Santo ou saía um funeral. Junto ao portão desse pátio, à direita de quem entrava, havia uma enorme tamareira, árvore pouco vulgar e muito rara na Fajã Grande, uma vez que se trata de uma espécie com habitat em climas mais quentes. Era, no entanto, uma tamareira diferente das do deserto, assemelhando-se a ima árvore mediterrânea. Nesses tempos da década de cinquenta, a escola primária que já era mista, funcionava no edifício da Casa do Espírito Santo de Baixo. A tamareira era uma enorme árvore que dava uns belos frutos chamados tâmaras. Quando maduros eram muito saborosos, tinham uma cor amarelada e um cheiro delicioso. Mesmo apanhadas verdes elas amadureciam facilmente, sobretudo se colocadas no escuro.

Ora a tamareira do Gil para além de dar uma fresca sombra a quem ali se sentasse a descansar, na primavera enchia-se de pequenas flores, que pouco depois se transformavam em belos e apetitosos frutos. A ganapada da escola, durante os recreios é que não lhes dava tréguas. Uns atrás dos outros, por vezes dois a dois, mas sempre às escondidas do Gil ou da sua irmã, a zelosa Ricardina, os garotos mais triqueiros subiam a árvore, papavam todas as tâmaras maduras e enchiam tudo quanto eram bolsos das calças e mangas de froca amarradas na ponta com as verdes que depois guardavam em casa, geralmente, no escuro, entre roupa, até elas amadurecerem As caixas e os armários onde as guardavam cheiravam que era um consolo. O pobre do Gil é que ficava a ver navios, isto é, sem tâmaras maduras ou sequer verdes. O Gil, por altura dos recreios escolares, geralmente, não estava em casa. Era a irmã, a Ricardina que vinha enxotá-los. Como era um pouco lenta, quando chegava junto da árvore de garrancho na mão, xou xou como se estivesse a enxotar galinhas, já os monços haviam fugido a sete pés, de bolsos cheios de tâmaras. O Gil era mais rápido e em vez de garrancho trazia um forte bordão de nespereira. Bem mais perigoso. Muitas vezes nem havia garotada na árvore. Só para ver a Ricardina de garrancho ou Gil de bordão assomarem à porta, bem gritavam, do meio da rua:

- Ó Giiiiiiiiiiiiiiiiil! Olha os monços nas tâmaras.

O Gil ao aperceber-se do embuste ainda mais furioso ficava:

- Deixa estar que ainda te vou apanhar um dia e vou pegar-te pelo papel da barriga e dar contigo contra uma parede, grande sanababicha.

Então de longe para não serem apanhados, lá vinha a cantilena, uma espécie de “Hino do Gil” que a ganapada toda sabia de cor:

 

Gil da Costa,

Caga bosta,

Tem um cão

Que caga pão,

Tem uma gata

Que caga nata,

Tem uma velha

com um facão 

Que rapa merda

Todo verão.                     

 

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publicado por picodavigia2 às 05:00

A CHORA SOPAS

Quarta-feira, 04.03.15

Na ampla e velha sala, António Mortágua, sentado num enorme cadeirão e enrolado num cobertor de lã avermelhado, dormitava. Ao lado a mulher, de cardas em punho, implicava com a demora da Muda, em abrir a porta. Uma atrasada! Demora mais a abrir uma porta do que a Aninhas do Bento a cozer uma fornada de pão. Mas abrir a porta era o que a Muda há muito tinha feito. Explicar quem estava lá fora, à espera de licença para entrar, é que era um bico-de-obra para a Muda. Voltava-se para dentro, depois para fora e tornava a voltar-se para dentro. Nada lhe saía perfeito ou melhor nenhum sinal fazia que se fizesse entender. Por fim fez utilizando os dedos indicadores e esfregando-os nos olhos, fazia sinais de que alguém estava ali a chorar. - Quem é, mulher? Gente a chorar! Ai credo! Querem ver que morreu alguém! – Proferiu Dona Josefa, sem tirar os olhos das cardas. A Muda bem abanava a cabeça, a fazer sinais negativos. Depois, voltando à sinalética inicial, repetia, ininterruptamente, sinais de choro e, levando a mão à boca parecia querer dizer que alguém chorava por comida. Mas Dona Josefa continuava a não a entender - Então? Alguém está a chorar porque levou uma tareia? E a Muda a negar, abanando a cabeça para um lado e para o outro, com quantas força tinha. Bem continuava a fazer sinais de choro, com mais insistência: - Ai mulher que não te explicas com jeito! É alguém que está a chorar com fome? Foi o miúdo mais novo do Gervásio que, perspicazmente, a entendeu. Acompanhara o pai que tinha vindo acertar umas rendas com o senhor Mortágua: - Já sei! – Disse o garoto exultando de contentamento como se duma vitória se tratasse. - É a Chora-Sopas! Anda a pedir pelas portas. - Ih! Ih! - Chiava a Muda, muito contente, apontando para o rapaz: - Ora essa! Era só o que faltava agora! – Barafustava dona Josefa. - É todos os dias isto… E às vezes mais do que uma vez por dia, gente à porta a pedir. Manda-a embora que não há nada. - Josefa! Isso é que caridade!? Isso é agir de acordo com a religião que praticas? Muda, diz-lhe para entrar que se lhe há-de dar uma côdea de pão e um pedaço de queijo. Não entendo a tua religião mulher… E logo o Gervásio: - É uma caridade! Ela é uma desgraçada, António. Não tem nada nem ninguém e corre a ilha toda a pedir. Ainda há dias andou na Fajã. Percebia-se que estava cheia de fome… Com o beneplácito de Dona Josefa, a mulher entrou. Tinha a roupa muito suja, o cabelo despenteado, agarrava-se a um bordão balanceando o corpo e trazia um saco de serapilheira a tiracolo. Falando ciosa e com os lábios muito salientes, lá se foi explicando como muito bem podia: - Poxo entá? Poxo entá? Xô Anxoninho, ua exoxuxinha pux xeux… - Depois dando de caras com o Gervásio e o miúdo - Ui voxês nom xom da Faxã? Tanban andom a pedi. Xouxade xexa Deux. Uma exoxuxinha pux xeus. Uma exoxuxinha pu alma dox xeus. - Muda, traz-lhe uma boa fatia de pão com doce e um pedaço de queijo. – Ordenou o Mortágua e dirigindo-se à mulher: - Queres uma tigela de leite, Chora-Sopas? - Xo xe fô café. Café. Nom goxo leixe, brr, brr. Leixe nom pexa. - Olha a finória! Não gosta de leite! E ainda há-de ser o que ela quer e pão com doce! Havia ser era massa sovada… Muda leva-a para a cozinha… E ela que saia pela porta da cozinha. Sim senhor, ainda vem bater à porta da sala, como se fosse uma visita importante. É uma desavergonhada é o que ela é! E sabem onde fica de noite, quando vem, aqui, para Ponta Delgada? Sabem? É em casa do Cacho Maduro e dizem que pelos vistos fica na mesma cama dele e da mulher. Isto é o fim do mundo! – (Dona Josefa benzia-se vezes sem conta) - Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado. -Josefa! Tem tento na língua, olha o que dizes… - Eu não ponho famas nem aleives a ninguém. Só digo o que oiço dizer. Olha, vou é tratar da ceia que se faz tarde.

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publicado por picodavigia2 às 15:43

O PADRE, O CÃO E A CESTA COM A CHAVE DO SACRÁRIO

Domingo, 15.02.15

Tio Francisco Inácio era um dos homens mais respeitados e dignos de crédito da freguesia. Pai de dois sacerdotes e de mais de meia dezena de filhos, todos muito muito respeitadores e educados, era consultado em demandas, chamado a impedir desavenças, procurado em malogros e, além disso, sempre disposto a ajudar e a dar conselhos a quem mais precisava ou lhos pedia. Todos acreditavam nas suas sábias palavras, aceitavam os seus bons conselhos e tinham por ele uma imensurável consideração.

Certo dia Tio Francisco Inácio deslocou-se, sozinho a Santa Cruz. Partiu de madrugada, ainda noite escura que a caminhada era longa. Calcorreou o Caminho da Missa, atravessou a Fajãzinha, subiu a Rocha da Figueira e chegou aos Terreiros. Aí, rumou a norte, tomando o caminho que dava para Santa Cruz, atravessando os matos da ilha, de lés-a-lés. Em Santa Cruz, a tratar de assuntos aqui, uma ou compra acolá, conversa com algum conhecido à Praça e ter-se-á demorado mais do que estava previsto, abandonando a vila bastante tarde. Quando anoiteceu, mal tinha acabado de subir a ladeira da Ventosa, pelo que atravessou os matos da ilha, no regresso à Fajã, já pela noite dentro. A noite, porém, estava muito escura e os matos cobertos de um denso nevoeiro. Tio Francisco Inácio pouco via à sua frente, pelo que ainda mais atrasou a sua caminhada.

Ao chegar aos Terreiros já passava da meia-noite. No entanto, o nevoeiro era menos intenso, permitindo-lhe visionar com mais facilidade quer os obstáculos do caminho quer animais que pastavam na fresca alfombra daqueles descampados.

Foi precisamente nos Terreiros, antes da vereda que dava para a Caldeira e para o Mosteiro que tio Francisco Inácio foi surpreendido por uma estranha visão: à sua frente, em passos lestos, atravessou-se um padre, acompanhado de um cão e este levava uma cesta na boca, dentro da qual estava uma chave. Aparentemente seria a chave do sacrário, pois estava presa com uma fita, na qual estavam gravados símbolos religiosos. Tio Francisco Inácio, inicialmente, cuidou que fosse o pároco da Fajãzinha, que tivesse sido chamado a meio da noite para sacramentar algum moribundo da Caldeira ou do Mosteiro e chamou por ele. O padre, porém, não lhe deu ouvidos e parecia que quanto mais Tio Francisco Inácio o chamava mais ele fugia. Ainda tentou numa corrida, alcança-lo, mas nada conseguiu. O padre andava muito lesto e sumira-se por entre o nevoeiro, no negrume da noite, deixando tio Francisco Inácio atónito e num grande sufoco. Mais se espantou ainda quando, ao chegar à Fajãzinha, soube que o pároco dormia descansadamente na sua cama e não fora chamado para administrar os Sacramentos da Santa Madre Igreja a nenhum moribundo. Caindo em si, percebeu que aquilo só poderia ter sido uma visão. Uma alma do outro mundo que lhe aparecera. Na verdade, sabia-se que um padre que há muitos anos paroquiara na Fajãzinha deslocava-se, com muita frequência, ao Mosteiro, que nessa altura ainda não era paróquia, sempre acompanhado do seu cão. Tio Francisco Inácio vira alguém que morrera há muitos anos. Como era um homem muito sério, ninguém duvidou das suas palavras. A partir de então, muitas pessoas da freguesia tinham um medo enorme de passar naquele lugar, onde tinha aparecido o padre e o cão com a cesta na boca, contendo a chave do sacrário

Segundo a hipótese mais provável e a ser verdadeira a visão de Tio Francisco Inácio, tratar-se ia do padre Alexandre Pimentel de Mesquita, natural de Santa Cruz e que em 1750 já era cura na Fajãzinha, sendo, mais tarde, vice vigário da mesma paróquia, cargo que manteve até falecer em 11 de Março de 1786.

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publicado por picodavigia2 às 00:19

A ROSA MAIATA

Sábado, 30.08.14

A Rosa Maiata era a maior alcoviteira da freguesia e uma primorosa “queixinhas”. Queixava  de tudo e de todos, por isto e aquilo, pelo que lhe faziam ou pelo que ela cuidava e imaginava que lhe fazia, Eu era a principal vítima das suas queixas, junto do meu progenitor. Mas a Maiata era uma espertalhona e “bem-sabida” pois aproveitava para fazer queixa de mim ao meu pai, quando eu não estava por perto, De contrário a vingança estava assegurada e a Maiata sabia-o, melhor do que ninguém.

Certo dia em que fora levar as vacas ao Outeiro Grande, e regressara pela Cabaceira, demorando-me bastante, a Maiata não esperou. Apanhando-me ausente logo se dirigiu a minha casa, com a denodada intenção de, mais uma vez, me denunciar. Meu pai e meus irmãos já estavam â mesa. Sorrateira, a Malata bateu à porta. Foi minha irmã Amélia que, levantando-se, de imediato a veio abrir, exclamando, num misto de espanto e condenação, sabendo a bisca que ela era: Rosa Maiata muito exaltada).

- Ah! É a senhora Rosa. . e por entre dentes - Entre, entre.

A Rosa Maiata, espetada à porta, muito exaltada:

- Nem é preciso entrar que não tenho tempo. Teu pai está? Não me vou demorar. É só uma palavrinha com ele.

Lá do fundo da cozinha, sem levantar os olhos do prato da sopa, meu pai indagou:

- Estou sim Rosa, entra. Que me queres?

Continuando à porta, a Maiata cada vez mais se empolgava;

- Antonho, passaste há pouco tempo na minha do Pico? Junto ao bardo das faias do norte tinha um eito com uma grandeza de morangos. Não sei se chegaste a vê-los? Era uma lindeza! Sabes o que aconteceu?

- Não sei. Nem percebo o que tenho a ver com isso.

A Maiata cada vez mais exaltada, endurecendo o tom de voz, continuou as lamúrias:

- Ai não tens, não! Isso é o que vamos ver! Pois olha, foi a Maria Fangueiro que me veio contar tim-tim-por-tim, que o monço piqueno, o Álvaro, vinha com a ovelha do Canto do Areal. A maldita fugiu-lhe, foi para cima dos morangos e deu-me cabo deles todos. E agora? Quem mos paga? E tu dizes que não tens nada a ver com isto!

Minha irmã bem a tentava acalma;r

- A sra Rosa sabe bem que a Maria Fangueiro é uma grande mexeriqueira e inventa muitas coisas…

E meu pai, finalmente suspendendo a frugal refeição e voltando-se para a porta onde a Maiata continuava pregada:

- Rosa. Viste alguma coisa? Viste alguém meu lá? Não viste, pois não? Então não podes acreditar no que se diz. Diz-se tanta mentira nesta freguesia…

- Ah! É assim. Pois vou fazer queixa ao regedor.

- Vai-te queixar ao diabo-que-te-carregue. – E levantando-se, fechou-lhe a porta na cara

De seguida voltaram a sentar-se todos, mas minha irmã não se conteve:

- Está vendo pai? É preciso por cobro nisto. A Maria Fangueiro inventa muita coisa, mas esta da ovelha fugir para cima dos morangueiros…

- Tenho que falar com ele. É melhor a ovelha passar a andar amarrada.

- Oh pai, não adianta nada! – acrescentou o Alípio, com a boca cheia. - Ele é um caganita! Não a aguenta!

Minha irmã bem se queixava:

- Pai! Olhe que não há mais queijo. – e logo para o Justino.  - Justino não sabes que esse bocado maior é para pai.

Depois, voltou a interrogar o pai:

- Logo à noite posso tirar dois ou três litros do que vai para a Máquina para fazer um queijo?

- Este mês já se tem tirado muito… Mas olha, como já estão há três meses sem pagar, o melhor é ficar com o leite em casa para bebermos e fazer queijo.

- O melhor era deixar a Cooperativa e mudarmos para a Máquina de Cima. – propôs o Justino. - O Martins & Rebelo paga todos os meses e paga mais cinco centavos por litro do que a Máquina de Baixo. Muitos já se passaram para a de Cima

- Isso é que nunca!... – disse meu pai, batendo com a mão sobre a mesa. Sempre estive na Cooperativa e dela nunca hei-de sair. O Martins & Rebelo o que quer é destruir a Cooperativa. Paga mais agora e depois quando a Cooperativa acabar vai pagar o leite ao preço que quiser. Os que mudam estão a vender-se, estão a destruir a Cooperativa por cinco ou dez centavos. E o trabalho e sacrifício que foi para a criar!... Eu fui um dos fundadores e de lá nunca hei-de sair. Para esse ladrão do Martins & Rebelo é que nunca vou. Prefiro dar o leite inteiro aos bezerros e ao porco.

- Pai! Não diga isso! Sei que não gosta do Martins e Rebelo. Mas…É melhor então fazer queijos e até podemos vender alguns. – propunha minha irmã, com intenção de acalmar o meu progenitor

Nessa altura entrei. Olhando para mim com espanto, todos se calaram.

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publicado por picodavigia2 às 00:35

LAMÚRIAS

Sábado, 09.08.14

O Justino e o Alípio   chegaram a casa muito cansados, mas, cmo sempre, dispostos a queixarem-se ao pais, das estroinices do rebento mais novo.. Foice aos ombros, cordas a tiracolo e bordão na mão, foi o Alípio a anunciar:

- Pai, a Cabaceira ficou pronta, os feitos estão todos cortados.

- E também ceifaram a canarroca da belga do lado do Caminho Velho como vos mandei?

Agora foi o Justino, sempre mais atrasado, a esclarecer;

- Também ficou toda cortada. Ficou tudo pronto como pai mandou. E ainda cortámos umas faeiras que estavam lá muito bastas, por entre os inhames… p’ra lenha.

- E separaram a canarroca dos feitos? É que o outro dia, na Cancelinha, vocês misturaram tudo e depois foi o cabo dos trabalhos… Não viram o vosso irmão?

-Ele ainda não chegou do Outeiro Grande, de levar as vacas do Luís? - Insistiu o Justino.

- Claro que não chegou. Estás a vê-lo? Ele vai e vem é a brincar. Agora tem a mania de levar uma aguilhada e diz que vai tocando as suas vacas. Fala com elas e tudo, o palerma. – acrescentava o Justino ao mesmo tempo que tira um bocado de pão de cima da mesa, comendo-o com sofreguidão..

Logo a irmã, batendo-lhe na mão, ordenava, recriminando:

- Está quieto! Tens mais pressa do que os outros?

- Não mandas em mim! ripostava o Alípio, comendo o pão e continuando o chorrilho de queixas contra o irmão - O José Coutinho contou-me que o viu o outro dia: quando vem a descer o Covão, faz de conta que vem a tocar a Moirata e o Damasco, encangados, puxando um carro de incensos. Depois, de vez em quando para e põe-se de cócoras, a fazer de conta que está apertar ou alargar, os parafusos dos queicões. Parece um toleirão!

- É mesmo tolo! – acrescentava o Justino. - Precisava era duns toitições bem dados. Quando não vai ao Outeiro Grande é só brincar: é com a ovelha, é com vacas de madeira, é de baixo do estaleiro a fazer que está a lavrar…. Passa a vida a brincar e nós…

E como se isso não bastasse para encher os ouvidos do progenitor a própria irmã atirava mais lenha para a fogueira.

- E está sempre a fugir para ir brincar com os amigos à pesca da baleia, ao pai-velho e sei lá o quê… O que sei é que nunca pára em casa…

O pai, em vez de se revoltar, bem os tentava acalmar;

- Ele ainda é uma criança. É muito mais novo do que vocês.

E logo o Justino:

-É muito novo mas já anda a fazer das suas… O Paulino já me disse que ele lhe abriu o portal da relva da Ladeira, para passar com a ovelha e depois pôs-se a andar e não o tapou.

- E o Delfim diz que ele lhe atira pedras às ovelhas. E elas têm crias…

-E demora uma manhã para ir levar as vacas e uma tarde para as ir buscar. E eu é que tenho que ir buscar a água à fonte, acartar lenha e deitar comida às galinhas… Fazer tudo…

- Ele podia bem pegar numa foice e ir connosco… Podia ir ajudar-nos a ceifar feitos. Ou pelo menos ir atrás de nós fazendo as mancheias. A gente a ceifar e ele a fazer as mancheias  era muito mais rápido.

- E podia andar mais depressa… Meia hora dá para ir e vir ao Outeiro Grande…

- E o primo Luís diz que ele sobe o Covão agarrado ao rabo das vacas e a bater-lhes desalmadamente.

- Elas andam que se fartam. Não há vacas na Fajã que subam o Covão tão depressa como as do primo Luís e foi ele que as pôs assim. E a Trigueira deu leite há bem pouco tempo.

Por fim foi a Amélia que suplicou;

- Pai tem que por cobro nisto!... Venham para a mesa que o pão e o queijo já estão partidos. Não vale a pena esperar por ele. Quem não está não come.

E sentaram-se à mesa, saboreando uma boa sopa de feijão,  com um pequeno naco de toucinho.

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publicado por picodavigia2 às 10:56

MEMÓRIAS VIVAS DO DANIEL

Segunda-feira, 21.07.14

Recordo-me de meia dúzia de estórias que, quando criança, ia ouvindo aos mais velhos e, algumas, que lia. Apenas tenho o exame da quarta classe feito nas Lajes, em 1941, Todos os meus irmãos mais velhos também o fizeram, assim como as minhas irmãs, com excepção da mais velha. A minha mãe, nascida na última década do século XIX, frequentou a escola primária, que na altura era paga, por isso lia e escrevia muito melhor do que eu. Por sua vez, o meu pai apenas sabia escrever o seu nome e pouco mais.

Recordo-me, também, que, na Fajã Grande, antigamente, havia alguns pessoas que nem o nome sabiam escrever mas eram os que mais se ufanavam e vangloriavam, os que mais erguiam o pescoço, considerando-se os maiores, os mais importantes e os mais inteligentes. Também havia alguns “patrões” que cuidavam que sabiam tudo, governando-se com que era alheio, sendo seu hábito berrar e gritar com os que lhes eram submissos e que tremiam só de ouvi-los. Foram mal desenhados e pintados de noite.

O meu pai ficou órfão da mãe, Maria José Teodósio, aos seis anos, a vossa avó com dois  e a tia Glória da Cuada, com dez dias. O nosso bisavô, José Maria de Sousa, residente na Cuada, aos 41 ficou viúvo e com 11 filhos. O facto de ficar órfão em criança, afecta e marca as pessoas para sempre. O meu pai, mesmo assim, era um homem forte e trabalhador, como diziam alguns de língua solta, que ele andava a trabalhar já sem poder, pois dezasseis meses antes de falecer ainda foi ver umas ovelhas que tínhamos na Tapada, a relva mais próxima ao Morro Alto.

Mas já tudo vai longe! Estão todos petrificados e não foi nenhum deles que inventou a Álgebra, pois nem sequer sabiam o significado do Cosmo. A vossa avó foi criada por aquele casal que tinha perdido o filho com dezanove anos, num acidente, na rocha, por volta do ano de 1890. O meu pai também foi entregue pelo pai a pessoas estranhas, passando a viver com pessoas de duas famílias, que ainda eram primos dele. Destas famílias, houve um filho emigrou para o Rio de Janeiro mas morreu pouco depois e três outros rapazes da mesma família emigraram para a América e de lá voltaram tuberculoses, nas décadas dos 60 e 70 do século XIX. Todas estas pessoas com quem meu pai foi criado viviam com tristeza e já eram velhas. O homem que criou a vossa avó, chamava-se José Cristino Ramos e era primo em primeiro grau com o avô do Urbano, José António Ramos e com um outro irmão que vivia um pouco mais acima da Fonte Velha. José Cristiano também era primo, embora afastado, com Manuel Coelho Ramos que era o avô do José Caetano Pimentel, conhecido por “Coelho”. Este homem regressou da América, em 1930, com muito dinheiro. Comprou terras e construiu uma casa, gastando grande parte do que havia ganho. No entanto uma certa família, considerada muito importante na freguesia, fez com que ele gastasse algum no Tribunal. A matriarca dessa família era oriunda de S. Miguel ou de Sta. Maria. O pai do Coelho era de S. Miguel e era o melhor pedreiro da Fajã. José Cristiano tinha sido excelente homem do mar, sendo baleeiro, pescador, apanhador de lapas, etc. Ele adorava contar lendas, algumas inventadas por ele. Ia ao peixe num barco que possuía, juntamente com o primo Manuel Coelho Ramos. Por sua vez o outro primo, José Ramos também possuía uma lancha de pesca, indo juntos para o mar. Outro notável pescador da freguesia, naqueles tempos era o avo do José Pereira, António Augusto da Silva, possuidor de um barco e natural do Faial. Este era de meu tempo. Outro bom pescador, ainda do meu tempo era tio José Caetano, conhecido pelo Tesoureiro, vizinho de José Cristiano e, mais tarde dos vossos avós.

Vou descrever, agora, o pouco que sei a cerca da família do meu primo Pedro da Silveira. Nasceu a 5 de Setembro de 1922 e faleceu a 13 de Abril de 2003. Era filho de José Laureano da Silveira, e de Luísa Matilde Mendonça. José L. da Silveira nasceu a 27 de Abril de 1864 e faleceu em 1931. A esposa, minha tia Luísa, nasceu em 1893 e faleceu a 8 de Maio de 1969. José L. da Silveira era filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira. Casaram em 1862, ele com 35 anos e ela com 29. Ele faleceu em 1901 e ela, alguns anos, depois. Era neto paterno de Laureano José da Silveira e de Inácia de Jesus. Dizia o Pedro que os Silveiras eram todos parentes dele, os da Fajã, alguns da Ponta, outros da Fajazinha e alguns de St. Cruz. Estes eram os Armas da Silveira, entre eles o Dr. Armas, o irmão Roberto, o Fernando e outros. Dizia, também o Pedro, que o seu pai tinha emigrado para a América com 15 anos, juntamente com os irmãos. Aa chegar à Califórnia, como tantos outros, foi guardar rebanhos de ovelhas no local onde, hoje se está edificada a cidade de Fresno. Porém, após receber o primeiro salario, pôs-se a caminho da cidade de São Francisco, onde passou a trabalhar. Contava ele que o pai talvez tivesse emigrado para a América umas 5 ou 6 vezes e cada vez que regressava à Fajã vendia uma terra, certamente porque tinha muitas. O pai do meu primo Pedro foi às Flores ver a mãe e uma irmã, esta já casada, isto na primeira década do seculo 20. A irmã era casada com Joaquim Oliveira, que tinha ido para as Flores como Grumete da Armada, sendo de S. Miguel. Tiveram dois filhos que também emigraram. O mesmo aconteceu com o pai do António Vieira e o pai do José Eduardo, mas havia muitos outros homens residentes na Fajã, onde casaram, oriundos do continente, da Madeira e de outas ilhas. O Pedro tinha dois tios, irmãos do pai. Um também se chamava Pedro e vivia no Oakland. Teve um jornal e faleceu em 1943, com 74 anos. O outro chamava-se António e era casado com uma senhora de apelido Fagundes, descendente de gente da Fajã e que terá morrido por volta de 1930. O pai do Pedro confiara 30 mil dólares ao irmão António para ele investir da melhor forma, mas, a mulher gastava demasiado, e consta que terá gasto todo este dinheiro. Assim José Laureano perdeu não só todo este dinheiro mas ainda mais mil dólares que emprestou a um homem da Fajãzinha, o qual nunca mais lho pagou. O Pedro dizia que a família do pai era oriunda do Pico e do Faial e um dos seus trisavôs era do Corvo.

O pai do Pedro, na Califórnia, tinha um negócio com um amigo, natural da Arménia, negócio que seria uma Pensão ou Clube, muito possivelmente um bordel. Por sua vez, José Laureano tinha um filho que morreu em combate com os alemães na Itália, em 1918. A mãe seria Flamenga e tinha uma outra filha, duma mulher de Santa Maria. Ela mais o marido andaram na Segunda Guerra Mundial e foram presos no Pacifico, pelo que o Pedro, segundo dizia, que perdeu o contacto com eles. José Laureano terá ido para as Flores em 1920, para casa da irmã que era dona da casa que, mais tarde, o Francisco Tome comprou. A irmã faleceu em 1930. Os filhos morreram novos, na Califórnia.

Isto, o pouco que me recordo acerca de José Laureano. Toda a família morreu com doenças do coração. O Pedro também sofria do coração, mas foi operado em 2000, viveu mais alguns anos. Casou duas vezes. A primeira mulher era natural de Macau. Faleceu derivado um acidente de automóvel. A segunda mulher era de Angola, filha de pai Grego.

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publicado por picodavigia2 às 12:09

BOIS DE SABUGO

Sexta-feira, 11.07.14

O sobrado da velha cozinha da minha casa era o meu mundo. Mundo débil, abstruso, indefinido e obliterado mas fantasmagórico, cativante e sedutor. Mundo exíguo, aborrido, impetuoso e esburacado mas desvairado, quimérico e encantador.

A madeira do soalho, com o tempo e com o sucessivo e quotidiano sapateado de quatro ou cinco gerações, corrompera-se, apodrecendo aqui e além, adquirindo enormes e descomunais buracos que meu pai ia tapando. Para tal, pregava-lhes em cima pedaços de madeira, uns trazidos pelo mar e que ele ia encontrando e recolhendo, nas suas idas e vindas ao cerrado das Furnas ou ao curral do Canto do Areal, outros retirados das caixas de sabão que um outro comerciante, de vez em quando se desfazia, oferecendo-as a quem chegava primeiro ou a quem tinha o rol da caderneta limpo, que era o caso de meu progenitor. O sobrado adquirida, assim, uma irregularidade abominável e uma sinuosidade irreverente, sobretudo para a minha mãe, que em dias de lavagem da cozinha era forçada a escarafunchar com mais cuidado e redobrada atenção os recônditos dos remendos. Como consequência, ora esgarçava uma ou outra unha ora espetava algum estrepe nos dedos, resultante da aspereza dos pedaços de madeira. Como meu pai não tinha plaina, pregava-os na sua pureza original… com farripas e tudo. Até meu pai, apesar de autor daquela aberrante, invulgar e indesejada proeza, também se chateava de sobremaneira, quando empeçava num ou chavascava os dedos dos pés noutro.

Eu é que nada me ralava com aquele acervo de irregulares saliências e maquiavélicos altos-relevos. Antes pelo contrário adorava-os e por nada deste mundo os substituía pelo que quer que fosse. Eles eram a obra perfeita e inédita do meu mundo. Eles consubstanciavam a excelsa plenitude dos meus sonhos. Eles maculavam de mitos enigmáticos e sublimes o meu imaginário.

É que de baixo do lar, ao lado das achas de lenha picada e empilhada e dos garranchos de incenso amontoados em desalinho momentâneo, havia, nos dias subsequentes à debulha do milho para a moenda, um cesto com os sabugos que restavam das maçarocas e que a minha mãe utilizava para, depois de os encharcar em petróleo, acender o lume.

Então eu ia lá e, revirando o cesto até ao fundo, procurava os melhores, os mais felpudos, os mais inebriantes. Se houvesse um vermelho era um delírio!

Pegava, então em dois deles, anafava-os, alisava-lhes o pelo e, transformando-os em bois, baptizava-os. O mais pequeno ou o vermelho se o houvesse, era o Damasco. O outro, o maior e mais corpulento, o Gigante. Depois, amarrava-os na parte que fora a extremidade superior da maçaroca com um fiado que, muito a custo, roubava â minha mãe, de modo a que ficassem presos lado a lado, simulando uma junta de bois, jungida. De se seguida, amarrava outro pedaço de fiado a um pequeno garrancho de incenso em forma de vê, com uma das pontas mais curta e prendia esta pequena e simples geringonça à simulada canga dos meus bois. E lá ia, conduzindo-os e tangendo-os com uma aguilhada, até às minhas terras, retratadas nos remendos de madeira do velho sobrado. Bem no centro da cozinha, uma, resultante de um remendo quadrado, com uma tira num dos lados a fazer de canada e portal de entrada. Era tal e qual o Descansadouro do meu pai. Outro, junto à porta da frente, resultante de duas tábuas pregadas ao lado uma da outra. Tal e qual a Bandeja do meu avô, muito fértil em batata-doce.

E passava eu horas e horas, com a minha junta de bois de sabugo e o meu arado de garrancho de incenso, a lavrar, a gradear e a semear as minhas terras. Depois, o milho crescia, sachava-o e entremeava-lhe trevo e erva da casta para, após a apanha do cereal e o corte dos milheiros, colocar os meus bois, amarrados à estaca, refastelando-se, não apenas com as forrageiras mas também com carradas de incenso e erva que eles próprios acarretavam das terras de mato e das lagoas, personificados noutros remendos mais pequenos e distantes, apesar da indignação da minha mãe, que nos seus intensos afazeres e lides domésticas, de vez em quando, tropeçava em min, anestesiado pela sublimidade das minhas brincadeiras, a arrastar-me, ininterruptamente, pelo velho sobrado.

Mas um dia, uma enorme catástrofe havia de abater-se, pondo termo aos meus sonhos e cerceando, definitivamente, todas as minhas brincadeiras. É que meu pai, farto daquela degradante penúria, pôs à engorda um gueixo e vendeu-o a fim de ser embarcado para Lisboa, decidindo que o dinheiro que ele desse, havia de destinar-se a um soalho novo para a cozinha. Se bem o pensou, melhor o fez…

E lá vieram os homens, com martelos, pés-de-cabra, plainas, enxós, pregos e tábuas aplainadas… Arrancaram o velho soalho, substituíram uma ou outra trave também carcomida e pregaram um soalho novo na minha cozinha, destruindo, desfazendo e acabando de vez com os meus sonhos, com o meu mundo e com os meus bois de sabugo. 

 

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publicado por picodavigia2 às 18:18

FREI PAPINHA

Sexta-feira, 04.07.14

Um dos filmes que logo nos primeiros meses foi projectado no corredor/salão de recreio do Seminário Menor de Ponta Delgada e a que todos assistimos, com grande alegria e contentamento, foi o “Marcelino Pão e Vinho”. Tratava-se de uma obra a preto e branco, realizada, três anos antes, pelo espanhol Ladislau Vajda e baseado no livro com mesmo nome, escrito por José María Sánchez Silva. A história do filme era simples e resumia-se ao seguinte: um frade franciscano contava a uma menina, doente a “estória” de Marcelino, um bebé que foi deixado na porta de um mosteiro e criado pelos frades que ali viviam. Após frustradas tentativas, por parte dos frades, de entregá-lo para adopção, o menino acabou por ser criado pelos doze monges, residentes no convento. Marcelino cresceu, tornou-se rebelde e fazia muitas travessuras, levando os frades quase à loucura com sua desobediência e com as diabruras resultantes da sua fértil imaginação. Devido à solidão de que era vítima e a falta de crianças de sua idade para brincar, Marcelino divertia-se pregando partidas e inventando apelidos para os frades. Entre estes, pela sua bondade e simpatia, mas bastante desajeitado e bonacheirão, destacava-se um, interpretado pelo actor Juan Calvo. Era Frei Papinha.

Alguns dias depois, o padre José Baptista, numa aula de Desenho, talvez porque eu fosse desajeitado nas práticas daquela disciplina, talvez devido à minha cara, branquinha, bochechuda, redondinha e com aspecto, aparentemente, inofensivo e angélico, talvez por isto e por aquilo, cismou que eu era parecido com o tal frei Papinha, passando, na brincadeira, a designar-me por aquela alcunha. Os meus colegas acharam graça, cuidaram que o epíteto me assentava que nem uma luva e para arrelia e aborrecimento meu, passaram, desde aquele dia, a chamar-me, “Frei Papinha”. Eu é que não achei graça nenhuma em carregar mais um apelido, pese embora a figura do fradinho fosse bastante simpática e generosa. E no meu íntimo revoltei-me. Já não bastava os apelidos que eu tinha na Fajã, “Cevada”, que herdara de meu avô materno, “Chinelo” proveniente de meu pai e “Xoupajam” com que meus irmãos me brindavam em casa. Agora, no Seminário, havia de levar com o epíteto do bondoso e angélico “Frei Papinha”

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publicado por picodavigia2 às 08:57

CIRCUNDANDO O ILHÉU DE MARIA VAZ

Quinta-feira, 03.07.14

O São Pedro vogava ronceiro, aproximando-se do ilhéu de Maria Vaz também chamado da Gadelha. O silêncio das ravinas era apenas cortado pelo roncar, trépido, do velho e cansado motor.

- Eh António. O pequeno vai acordado? Aqui, na baía dos Fanais o mar está muito manso. Vou passar com o barco por dentro do ilhéu, para baloiçar menos. Diz ao pequeno que se levante para ver isto. – Propôs mestre Gregório. E o Jacinto logo:

- Para mim é o sítio mais bonito de toda a costa da ilha das Flores

Meu pai, pegou-me com cuidado extremoso, retirando-me do leito em que jazia;

- Álvaro levanta-te, para veres a baía dos Fanais e o Ilhéu de Maria Vaz.

A muito custo lá me levantei, apesar de um pouco tonto.

- Já chegamos a Ponta Delgada, pai!? O barco parece que está parado! – Indagava confuso-

- Não. Estamos na baía dos Fanais. Levanta-te para ver o ilhéu de Maria Vaz. O mar aqui está muito mansinho.

Levantei-me. À minha frente um enorme, descomunal e abrupto ilhéu. Nunca tal imaginara. Por isso. Muito espantado, apontando, exclamei:

- Ih! Que grande. É muito maior do que o ilhéu do Cão. Parece uma ilha. Deve ser quase do tamanho do Corvo.

- Não exageres rapaz. Mas lá que é grande, é?

- O mar está tão mansinho aqui! Vive alguém neste ilhéu, Sr Gregório?

- Não! Antigamente ainda havia cabras e ovelhas. Os donos vinham cá trazê-las de barco. Mas começaram a roubá-las… e agora já ninguém as vem cá por.

- Só se for tolo! Para ficar sem elas…

O Mulato esclarecia:

- Isto aqui é bom é para lapas e para pescar. Ali, no rolo dos Fanais, as lapas são como a palma da minha mão! O pior é descer a rocha para as apanhar.

- E aqui, no ilhéu, os ratos são do tamanho de cães.

Cheio de medo, agarrei-me ainda mais a meu pai:

- Ó pai, é verdade! Eu tenho tanto medo…

Voltando-se para o Manuel da Ana, a rir dos medos, mestre Gregório reprendia-o:

- Oh Manel, para de dizer asneiras e meter medo ao pequeno. Presta mais atenção a essas cordas! – Depois voltando-se para mim tentava acalmar-me; – Olha Álvaro: aqui é um dos locais mais belos da ilha das Flores. Tenho passado aqui muitas vezes e já vim pescar ali para aquelas rochas. Ali, naquelas baixas, há muitas vejas, rateiros, e peixes-reis. Lá dentro, no rolo, também há muita moreia. Antes de andar no mar, vinha pescar para ali com meu pai. Ele descia aquela rocha com os olhos fechados… e ela não é fácil de descer. Conhecia o caminho como a palma das mãos! Vês aquela queda de água, parecida com as da Fajã? É a ribeira da Francela. Lá em cima vêem-se as relvas onde o gado pasta. Aquelas lá ao longe já são de Ponta Delgada, estas de cá são da Ponta.

- Logo, quando viermos para casa, vamos atravessá-las todas. . Corroborou o meu progenitor.

- E de lá de cima vê-se o ilhéu?

- Se viermos com dia… havemos de vê-lo…

Mestre Gregório dava ordens;

- Eh pessoal, a partir da ponta do Albarnaz temos o vento  pela ré. Vamos aproveitá-lo. Mulato, apaga o motor. Manel, içar a vela. Antonho deita o pequeno outra vez. Para além do mar estar pior, a navegação à vela é pior para quem se dá mal no mar. Eh rapazes vamos a isto! Há que aproveitar o vento e poupar o gasóleo.

Voltei a deitar-me. Mas ainda perguntei ao homem do leme;

- Óh senhor  Gregório, daqui a Ponta Delgada ainda demora muito?

- Com a ajuda de Deus e deste vento dentro dentro de meia hora estamos lá. Eh Manel, olha-me essas cordas. Cuidado Mulato, tapa o motor que vai respingar muita água. Olha Antonho, já se avista o Corvo.

Algum tempo depois, meu pai propôs:

- Álvaro, levanta-te para veres o Corvo!

Levantei-me, a muito custo e cambaleando;

- Ui ! Então é verdade o que me dizia o Câncio: do Albarnaz vê-se o Corvo. Ui! Mas é uma ilha tão pequenina. Oh pai, com aquelas nuvens por cima parece um biscoito, saído do forno, ainda a fumegar. Ai! Ai. Quero ir para terra! Esta maldita viagem nunca mais acaba! (Volta a deitar-se.)

- Deita-te, deita-te. Não sabes o que te espera. Daqui até ao porto vai bater um bocado.

M.GREGÓRIO- Pode ser que ele durma. Com estes balanços! Pessoal! Com este vento vamos à vela até Ponta Delgada. Como vão sem fazer nada, podem lançar as linhas e pescar. Isto é mar para serras.

- Já adormeceu!

- Ainda bem Antonho. Com este mar e a navegar à vela até Ponta Delgada, ele ia dar-te que fazer. Linhas prá água! Vamos ver se arranjo ceia p’rà minha Maria e para os meus pequenos.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:48

CHEGADA A SÃO JORGE

Sábado, 28.06.14

Alta madrugada, o Carvalho levantou ferro do Cais do Pico e aproou às Velas. O mar estava calmo e a Lua surgia agora na sua máxima força, clarificando a noite e definindo com maior rigor os contornos escurecidos das três ilhas até então confundidas e misturadas com o negrume nocturno. O luar por sua vez, projectava-se no mar, transformando-o num espécie de espelho prateado e cristalino que o Carvalho, impulsionado pelo propulsar das suas potentes máquinas, ia quebrando, num ritmado e ronceiro marulhar.

À medida que o barco se aproximava de S. Jorge, eu cismava com a minha saída naquela ilha. Era lá, nas Velas, que vivia a Dona Hermínia e eu não podia deixar de ir a terra visitá-la.

A Dona Hermínia era alguns anos mais velha do que eu. Saíra das Flores e viera estudar para o colégio de Santo António, na Horta. Ao terminar o quinto ano concorreu para os Correios e foi colocada em S. Jorge, precisamente na vila das Velas, onde já trabalhava havia três anos. No Verão ia sempre passar férias às Flores. Encontrara-a, no mês de Agosto, em casa de uma prima que era costureira e onde ela vinha, de vez em quando, encomendar alguma roupa. Quando no final de Agosto se despediu de mim, antes de partir para São Jorge, ao saber que eu ia viajar, no Carvalho seguinte para S. Miguel, disse-me com convicção:

- Espero por ti em São Jorge. Tens que ir aos Correios das Velas, visitar-me. Não te esqueças.

Já era dia claro quando o Carvalho fundeou na baía das Velas. Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe observava distraída e displicentemente a maior e mais importante vila de S. Jorge, as Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras mais ao longe, encastoadas nas encostas sobranceiras e misturadas com as pastagens e as terras de mato galvanizadas de um verde muito verde e prolongadas indefinidamente até interior da ilha. O paquete lentamente voltou a popa a Sul e obrigou-me a mudar para estibordo, a fim de continuar a ver a vila e a ilha.

Pouco depois de o navio fundear na enorme e calma baía das Velas, ali mesmo em frente à vila, desci o convés da primeira e aproximei-me do portaló, com a denodada intenção de abalar para terra, logo na primeira lancha. A saída estava facilitada, pois o número de passageiros que pretendiam desembarcar em S. Jorge era reduzidíssimo. Ambicionava assim ver a Dona Hermínia e estar com ela durante todo o tempo possível. De repente lembrei-me que não devia fazê-lo sem primeiro dar conhecimento ou até mesmo pedir autorização ao meu marítimo paraninfo. Voltei ao convés e percorri o navio todo a ver se encontrava o Senhor Natal. Mas nada! Esperei impacientemente mais de uma hora e nada… Logo hoje é que o homem havia de demorar-se… Esperei, esperei, percorri novamente e voltei a percorrer o navio de lés-a-lés. O Senhor Natal continuava sem aparecer. Já passava das dez quando, finalmente, o encontrei. Manifestei-lhe a minha decisão de ir a terra, visitar a Dona Hermínia, a qual de imediato sofreu forte contestação por parte dele. Que nem pensasse numa coisa dessas. Que se vinha ao seu cuidado só sairia para terra quando e onde ele saísse. E que tirasse o cavalinho da chuva que a São Jorge é que ele não havia de ir. Eu, porém, tanto barafustei, tanto gritei e tanto berrei que o homem lá cedeu, mas com uma condição: - Tinha que estar a bordo sem falta, antes do meio-dia.

Voltei ao portaló num ápice e apanhei o primeiro batel que encostou ao navio e parti para terra, investindo quase metade do dinheiro que trazia comigo na compra do bilhete.

Ao chegar ao cais, deparei-me logo com o edifício dos Correios. Tímido e ansioso, entrei. O coração pulou-me de contentamento ao ver a Dona Hermínia do lado de dentro do balcão, juntamente com outras empregadas. Sem que ela me visse aproximei-me do cliché como se fosse comprar selos ou enviar uma carta. Quando chegou a minha vez a empregada que atendia os clientes perguntou-me o queria. Informei-a de que não queria nada ou melhor queria apenas falar com aquela senhora e apontei para a Dona Hermínia que continuava sentada a uma mesa, a ler uns papéis, sem dar conta da minha presença.

Assim que me viu, aproximou-se do balcão, levantou-lhe o tampo, saiu para a parte reservada ao público, beijou-me em ambas as faces, fez-me uma série de perguntas sobre a viagem e, colocando-me o braço por cima do ombro, com muito carinho, conduziu-me para dentro do balcão e apresentou-me às suas colegas de trabalho e à chefe.

- Olhem a encomendinha que me chegou das Flores, no Carvalho – dizia ela, apresentando-me a umas e outras.

Eu, envergonhadíssimo e vermelho que nem um pêro, lá fui respondendo timidamente às perguntas que me faziam, sobre o meu nome, a minha idade, como tinha corrido a viagem, se tinha vomitado muito e se gostava de ir para o Seminário. Uma delas, mais nova e com ar mais atrevidote, atirou-me de rompante:

- Para o Seminário?! Hum! Não tens olho de padre.

Ao lado uma outra comentava:

- Tão perfeitinho! Podes crer que é um desperdício ires para o Seminário.

A Dona Hermínia, porém, não as ouvia. Conversou com a chefe, demorou mais um pouco a arrumar uns papéis dispersos sobre a sua secretária, enquanto a chefe, levantando-se, vinha ter comigo, como que a entreter-me, propondo que, a partir de agora, sempre que passasse por S. Jorge, fosse visitá-las.

Só quando ultrapassámos a porta dos Correios percebi que a Dona Hermínia me iria acompanhar numa visita às Velas. É que a chefe autorizara-a a suspender o seu trabalho por alguns momentos, a fim de estar comigo e me acompanhar até que eu regressasse ao navio.

Passeámos pela vila, visitámos a Matriz e sentámo-nos no Jardim da Praça da República. Depois, adivinhando a fome que eu devia sentir ao fim de dois dias de encerramento naquela maldita terceira classe do Carvalho, levou-me a almoçar a um restaurante da vila, pagou a conta, exigiu que a não tratasse mais por “Dona”, voltou comigo aos Correios para me despedir da chefe e das outras meninas, acompanhou-me até ao cais e, como se tudo isso não bastasse, ainda comprou e pagou o meu bilhete de regresso a bordo. Mas a Dona Hermínia não me parecia uma pessoa muito apressada e, além disso, sabia muito bem a que horas o navio havia de partir para a Graciosa. Por isso demorou-se um tempo sem fim em cima do cais, conversando comigo e pedindo-me que lhe prometesse que havia de visitá-la sempre que por ali passasse. Para cúmulo, enviou-me para bordo precisamente na última lancha, apesar de eu manifestar uma enorme mas simulada preocupação.

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publicado por picodavigia2 às 09:28

O BONECO DE SANTO AMARO

Domingo, 01.06.14

- A velha do Corvo trouxe mais um menino para a nossa freguesia! – Gritava a Augusta Moleira, ao portão da sua casa, lá para os lados da Fontinha.  

- Cala a boca mulher! Foi, antes uma bênção Deus para Umblinda que de tanta idade já cuidava que não havia de ser mãe. – Retorquia a Fuinha, de avental ao peito e lenço de clafate a correr para casa da mais recente parturiente da freguesia. – Bem precisa ela de ajuda, coitada.

Foi posto ao menino o mesmo nome do seu pai, Manuel, e como lhe foi acrescentado Inácio Menezes, precisamente igual ao pai, teve que ser Júnior. Nasceu saudável e com a força e a robustez suficientes para sobreviver à mortalidade infantil da época. Mas, para desgosto da progenitora, trazia só um pequeno defeito: na mão esquerda. A meio da falange do dedo mínimo, tinha implantado um outro dedo, pequenino e que não articulava. Era uma excrescência desnecessária e inútil, que no futuro lhe traria até algum desgosto, o que provocava uma enorme angústia na progenitora.

Mal a Fuinha assomou à porta do pequeno cubículo onde se reclinava a Umblinda com o rebento a seu lado e se apercebeu da angústia da mãe e da tumescência que o rebento trouxera consigo ao chegar a este mundo, não se fez rogada. Perante os medos e gritos da Umblina, pegou numa tesoura, desinfectou-a com álcool, procurou o ponto ósseo de inserção do dedo desnecessário e zás. Num ápice cortou cerce o que julgava que estava a mais e que haveria de incomodar o garoto por toda a vida. De seguida fez-lhe um penso com papas de linhaça e embrulhou muito bem a mãozita do pequerrucho.

- Que Deus te cure e conserve. – Profetizou a corajosa curandeira.

- Se o menino escapar – prometia a mãe chorosa e aflita – hei-de fazer um boneco hei-de cozer e oferecer ao Senhor Santo Amaro um boneco de massa sovada do tamanho e do peso do menino.

Mas o garoto era de boa carnadura e, rapidamente, sarou, pese embora os gritos e choros que no momento emitiu. Cresceu saudável, forte e robusto e, pela festa de Santo Amaro do ano seguinte, o maior boneco oferecido a Santo Amaro e a ser arrematado, no adro da igreja, perante o sorriso embevecido da Fuinha, era o da Umblina, que representava o seu Manel.

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publicado por picodavigia2 às 10:35

NA DEMANDA DE SÃO MIGUEL

Sexta-feira, 30.05.14

À tardinha começou o embarque dos passageiros que, em grande número, viajavam da Terceira para S. Miguel, para Lisboa ou até para a Madeira. Havia também muita gente que de terra se deslocava a bordo para acompanhar os familiares, ou simplesmente para visitar o navio. Debrucei-me mais uma vez sobre a amarra do convés a observar toda aquela movimentação de gentes e de bagagens. Não é que entre os passageiros me aparece o Shilfering. Mal me viu veio ter comigo e, coincidência das coincidências, disse-me que também ia para o Seminário. Eu conhecia o Shilfering da Fajã, onde ainda viviam os seus avós paternos e alguns tios e primos. Ele morava no Corvo com os pais, embora se deslocasse à Fajã, de vez em quando. O pai era Cabo do Mar na mais pequenina ilha açoriana. Explicou-me porque embarcara em Angra. O pai já estava no Corvo há muitos anos e queria mudar-se para as Flores, onde agora havia uma vaga. Viera à Terceira meter a papelada a fim de pedir a transferência para Santa Cruz. Como tinha um amigo que era Cabo do Mar na Praia da Vitória, vieram todos passar um mês a casa desse amigo. Os pais tinham partido para o Corvo, enquanto ele ficara na Praia, à espera do regresso do Carvalho, para agora seguir definitivamente para S. Miguel. Mas o Shilfering tinha uma sorte danada, pois viajava em condições muito superiores e melhores do que as minhas: o pai comprara-lhe passagem em segunda classe, tinha acomodação apesar de a viagem demorar só uma noite e, a pedido directo do pai, viajava aos cuidados do Senhor Imediato. Invejei-o, não tanto pela protecção do Imediato mas pela acomodação e, sobretudo, pelo jantar que o esperava na segunda.

O Shilfering para além dum nome esquisito, tinha um feitio danado e, por vezes, exagerava nas brincadeiras. O avô, o velho Shilfering, chegara à Fajã havia muitos anos, vindo, não se sabia donde. Tinha olhos e traços asiáticos e fez constar pela freguesia que vinha da Madeira, embora falasse muitas vezes nas “Terras Canecas”, região do globo terrestre que nunca ninguém soube bem ao certo onde se situava, mas por onde ele tinha andado. Porém, fixou-se, definitivamente, na Fajã Grande, casou, teve filhos e netos. Como o fazia sempre que ia à Fajã, meteu-se comigo, chateou-me, aborreceu-me e pior do que isso, sem que eu o pudesse evitar, a dada altura, surripiou-me as chaves da mala e do baú que trazia comigo nos bolsos e, sem dó nem piedade, atirou-as para o fundo do mar.

Estarreci! Escondi-me para que me não visse chorar. Como ia ser ao chegar a S. Miguel, sem conhecer quem quer que fosse, com as malas fechadas e sem chave? Ao chegar ao Seminário, na manhã seguinte, como poderia mudar de roupa e fazer a cama? Estava rigorosamente tramado. Passei o resto da noite entre choros e soluços, maldizendo a minha sorte, evitando o Shilfering, para não me atirar a ele de unhas e dentes, sem sequer arranjar sítio onde me sentar, quer no convés da primeira ou no da segunda, quer em outro sítio qualquer, pois o navio estava a abarrotar com os passageiros oriundos da Terceira. Além disso estava previsto mau tempo para a noite que se aproximava, e o vento forte já começava a agravar o estado do mar, que piorava a cada momento, provocando um balancear contínuo e exagerado do velho paquete. Comecei, novamente, a enjoar, a sentir tonturas, vómitos e enormes dificuldades em segurar-me em pé, tal como acontecera na noite anterior, na Graciosa. O Carvalho navegava agora açulado pelo forte vento e com um ranger assustador dilacerava ondas enormes e altivas, provocando grandes balanços e sucessivos solavancos, que amedrontavam mulheres e crianças. Sentindo que ia vomitar e não tendo onde, desloquei-me para a terceira classe na tentativa de descobrir lugar onde me recostasse e onde, à socapa, me aliviasse. Entrei na sala de jantar estava repleta de crianças a chorar, de mulheres a gritar e de homens a gemer. Quase todos vomitavam e muitos outros estavam prestes a fazê-lo. A sala exalava um cheiro insuportável e o ar lá dentro era pestilento a ponto de sufocar. Saí cá para fora, para respirar o ar puro e fresco, acompanhado dos salpicos do mar. Mas sentia-me em piores condições do que quando entrei na sala. O mar piorava a cada momento o que agravava as condições de navegabilidade do navio que balouçava mais assustadoramente. À minha volta a maior parte dos passageiros vomitava. Eu não pude evitá-lo. Novamente aquela vasca nauseativa se apoderou-se de mim e o meu corpo, trémulo e inerte, estatelou-se no chão duro e molhado do convés. Ali fiquei por algum tempo. Salpicado com os respingos da água salgada que a proa do navio ao sulcar as ondas projectava no ar e que caíam em chuveiro sobre o convés e sobre mim, reanimei e tomei consciência da minha situação. Decidi aproximar-me mais da borda do navio e permanecer ali com o rosto exposto ao ar frio da noite e à água salgada. Assim sentia-me mais aliviado. Mas o meu corpo continuava inerte e sem forças. Um marinheiro viu-me e veio tirar-me dali, avisando que era perigoso, pois, na opinião dele, alguma vaga maior poderia molhar-me por completo ou até arrastar-me. Amparado pelo homem, sentei-me em cima de uns sacos molhados que por ali estavam mas onde continuava a ser bafejado pelo fresco da noite que me ia aliviando a náusea e a aflição.

Deitado, de costas entretinha-me a contemplar os salpicos da água a projectarem-se sobre a proa do navio e a reflectirem-se nas luzes, formando pequenas bolinhas vermelhas, alaranjadas, amarelas, verdes, azuis e violetas, como as do Arco-íris. Os barulhos das máquinas assemelhavam agora a um sussurrar longínquo, suave e doce. O Carvalho seguia em grande velocidade, com os motores parados, parecia que voava. Um forte vento agitava-me, levantava-me e eu sentia que me atirava pela borda, para fora do navio. Em grande aflição, agarrava-me com ambas as mãos à amarra do convés, evitando cair no fundo mar. O Shilfering numa risota pegada e gozosa, calcava-me as mãos com os pés, obrigando-me a despegar da borda da amarra do convés e eu caía no mar, estatelando-me no abismo. De repente a Dona Celina conduzindo uma pequena chata semelhante à que viera atracar o Carvalho na Horta, corria a grande velocidade, na tentativa de me salvar. A muito custo agarrava-me e puxava-me para dentro da embarcação, encostava-me a ela, enxugava-me a roupa molhada e o corpo a pingar de água salgada e de espuma do mar e, num ápice, conduzia-me ao cais das Lajes das Flores, em cima do qual me colocava. Eu ficava sozinho, triste e macambúzio a acenar-lhe e a vê-la partir. Depois iniciava uma enorme correria pela vila, galgando-a de lés-a-lés, procurando ansiosamente meu pai, mas não via. Largava, então, sozinho, no escuro da noite pelo interior da ilha, até à ladeira da Boca da Baleia, no cimo do qual estava escondido, por trás de uma moita de hortênsias, o Adão que, colocando-se à minha frente me apanhava de surpresa. Segurando-me pela gola do casaco, ameaçava-me:

- Ah! Seu grande mariola! Ias a fugir com medo dos padres.

Depois, pegando-me à força metia-me novamente no Carvalho, repleto de pessoas a vomitar, de crianças a chorar e de vacas a mugir, conduzindo-me definitivamente para São Miguel. Um marinheiro de maleta a tiracolo, vinha cobrar-me o dinheiro do bilhete da viagem, mas eu não o tinha. Para me castigar por não ter dinheiro para o bilhete, o marinheiro atracava o navio numa ilha estranha e escura, iluminada apenas por uma ténue coluna de fogo, onde me deixava sozinho. De repente a ilha enchia-se de água e começavam a aparecer padres de todos os lados e entre eles estava o Senhor Natal, de tesouras em punho, a repreender-me exasperadamente.

Acordei assustadíssimo com os três estridentes apitos do Carvalho. Levantei-me sobressaltado. Já era dia claro. Olhei á direita e vi o mar. Olhei à esquerda e vi uma cidade enorme, enevoada e coberta duma chuva miudinha. Era Ponta Delgada e eu estava com a roupa toda encharcada.

Aproximei-me da borda do navio. A doca estava pejada de gente com guarda-chuvas abertos, de guindastes à espera de carga e de carga à espera de guindaste.

Ao redor apercebi-me de outras crianças da minha idade que teriam destino igual ao meu e apontavam lá para o fundo onde se via uma padre, ainda jovem, cabelo muito negro e ondulado, batina preta e coberta com uma gabardina azul, a proteger-se da chuva por um enorme guarda-chuva.

Saí do navio e segui os outros que se dirigiam na direcção do padre.

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publicado por picodavigia2 às 21:28

O MACHADO E O RAIO

Segunda-feira, 19.05.14

Antigamente, na Fajã Grande, havia muito medo das trovoadas e, sobretudo dos relâmpagos. Dizia que os relâmpagos, quando faiscavam, emitiam raios perigosíssimos, sobretudo se se reflectissem em espelhos ou no gume de um machado. Assim, sempre que começasse a relampejar deviam tapar-se todos os espelhos e quem transportasse um machado, tanto ao ombro, como nas mãos, devia libertar-se do mesmo, atirando-o para bem longe. Outros objectos, no entanto, também podiam atrair os raios emanados dos relâmpagos, como máquinas de costura, aivecas de arados, sachos, facas, etc. Mas mau, mau eram os espelhos e os machados.

Para ilustrar tais crenças, contava-se que Ti’Antonho Joaquim, que se ufanava de não ter medo de nada nem de coisa nenhuma, muito menos de raios, relâmpagos ou trovões, certo dia, de baixo de uma enorme trovoada, que, a julgar pelo pouco tempo que separava o faiscar do relâmpago do ribombar do trovão, deveria estar muito próxima, o que tornava tudo muito mais perigoso, resolveu pegar num machado, sair de casa e caminhar rumo a uma terra que tinha no Pocestinho, a fim de ir cortar lenha. Ao passar à Praça, alguns homens que ali estavam a descansar e abrigar-se da trovoado, ao ver aquela loucura, bem o avisaram:

- Ó home, já tens idade para tê juíze! Arruma-me esse machade, nã vês a relampada qu’está pr’ai a fazê?! Cum ess’idade, num sabes que debaixe de trovoade nunca se deve pegá num machade! Durante uma trovoada nã se deve pegar num machade, home dos diabes!

 Ele, continuando o seu caminho, respondeu:

- Nã tenhe mede nenhum, nim de nada, muito menes de raios. Raios vos partim é a vocês, qu’istão par’i sentades, sim fazê coisa nehua. Ca pur mim tenhe mazé que trabalhá. Precise de lenha, o cepe está sem nenhua. A minha Adelina qué fazer lume e nã tem cunquê.

E lá foi à sua vida, enquanto os outros ficavam ali pasmados, até porque a trovoada parecia aumentar cada vez mais. Ti’Antonho Joaquim subiu a Fontinha, seguiu até ao Alagoeiro, sempre com o machado às costas. Enfiou-se pela Canada da Fontecima e chegou ao Batel. Subiu a ladeira, abrigando-se junto às altas abas das paredes. Ao chegar ao cimo, junto ao Descansadouro, postou-se no alto, em pé, a olhar o povoado, como se nada estivesse a acontecer, embora, cada vez, trovejasse com mais intensidade.

De repente sentiu um estrondo medonho e um choque terrível percorreu-lhe todo o corpo, fulminando-o e deitando-o por terra, inanimado. Ao lado, o metal do machado derretera por completo. Um raio, emanado de um relâmpago, a que se seguiu um estrondoso trovão, atraído pelo metal reluzente do gume, caíra-lhe sobre o machado provocando uma enorme descarga eléctrica, atordoando-o por completo. Foram uns homens que por ali passaram, algum tempo depois, que o recolheram e o trouxeram em ombros até a casa, ficando alguns dias de cama, até se recompor por completo.

Mas o susto foi tão grande e o perigo de morrer tão eminente que Ti’Antonho Joaquim, em dias de trovoada, nunca mais saiu de casa, nem muito menos, pegou num machado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02

SEM BELICHE

Sábado, 17.05.14

Realizava a minha primeira viagem no Carvalho Araújo.

Logo de pois de embarcar, dirigi-me, juntamente com meu pai que me acompanhava no embarque, para a sala de jantar da terceira classe. Logo ao entrar, deparei com uma enorme fila. na direcção do senhor Artur, que, sentado a uma das mesas, ia registando o número dos beliches e dos camarotes nos bilhetes dos que haviam chegado primeiro. Ainda nem tinha atendido metade dos que estavam à minha frente, quando se levantou e anunciou em tom autoritário e definitivo:

- A partir de agora não há mais beliches para os homens. Só há para senhoras e vou dar prioridade às que têm crianças de tenra idade.

Estarreci. Não havia rigorosamente nada a fazer. Meu pai ainda tentou aproximar-se do homem, mas sem sucesso. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Das Flores a S. Miguel eram três dias e três noites de viagem e eu sem ter onde me deitar ou uma cama para dormir… Meu pai apercebendo-se da minha aflição, tentando ocultar a sua mágoa, explicou-me que a partir da meia-noite, depois dos passageiros de primeira se deitarem nos seus camarotes, ficavam sempre no convés daquela classe algumas cadeiras vagas, onde me poderia encostar e dormir. Normalmente a tripulação, a essa hora, já era mais condescendente e não expulsava de lá os das outras classes.

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publicado por picodavigia2 às 19:46

A VELHA E OS PIRATAS

Sexta-feira, 16.05.14

Em tempos de outrora a Fajã Grande, assim como toda a ilha das Flores, era, frequentemente, assaltada por navios de piratas, os quais, a maioria das vezes, roubavam, violavam as mulheres, destruíam as habitações e até matavam as pessoas. Uma ou outra vez, porém, a população salvava-se, graças à astúcia e esperteza de um ou outro dos seus habitantes. Dessas singulares façanhas, contavam-se, antigamente, muitas estórias, uma das quais era a seguinte:

Há muitos e muitos anos, havia um casal que morava numa casa muito isolada das restantes da freguesia, lá para além das margens da Ribeira das Casas, num lugar chamado o Rego do Burro. O casal não tinha filhos e havia construído a sua casa ali, por não ter terreno noutro sítio. Além disso assim ficavam mais perto das suas terras para melhor e mais fácil deslocação, a fim de as tratarem, de maneira que, produzissem muito e, também, por ficarem junto dos seus animais que ali podiam pastar. E naquele lugar, apesar de ermo, viviam na paz de Deus, sem medos nem consumições, tudo seguindo conforme os seus planos.

Certa noite de inverno, quando já toda a freguesia dormia, o homem e a mulher ainda estavam acordados. Tinham acabado de jantar, o homem tinha ido ao palheiro dar comida e cama às duas vaquinhas que tinha. De seguida, rezaram o terço e deitaram-se na paz de Deus, adormecendo, descansadamente. No entanto, pela noite dentro, a mulher acordou e ouviu um barulho muito estranho, fora da porta da sua casa. Espreitando por uma pequena fresta, viu um barco ancorado ali por fora, na direcção da Baixa Rasa e um grupo de homens, com roupas estranhas e com armas, fora da sua porta. Percebendo logo que era um barco de piratas e que estes se preparavam para os assaltar, despojar dos seus bens e matá-los, a mulher encheu-se de coragem, abriu logo a porta e, dirigindo-se aos homens, pediu-lhes, delicadamente, que entrassem, disponibilizando-lhes não só casa para descansar mas também, comida para se alimentarem. Decerto que àquela hora, aqueles senhores, vindos de longes terras, deveriam estar cheios de fome. Sem se perturbar, perante o pasmo dos piratas, a mulher abriu-lhes a porta, pedindo-lhes que se sentassem à vontade, que lhes iria preparar uma bela refeição, pois, àquela hora da noite, deviam estar esfomeados. Com esta hospitalidade, os piratas tentaram acomodar-se o melhor possível, deixando as armas na cozinha, empilhadas junto ao lar, onde a velha acendera o lume, cuidando que haviam de aproveitar primeiro para comer o que aquela estúpida velha lhes oferecia e então, depois, haviam de a roubar, retirando-lhe tudo o que tinha e até matá-la, antes que ela chamasse por alguém e pedisse socorro. Alegando ir buscar uma galinha para matar e preparar uma boa ceia, a mulher foi ao quarto onde o marido, que por nada dera e ainda dormia, avisá-lo de que saísse pela porta de trás, sem ser notado, insistindo para que, às escondidas, se dirigisse à Ponta, o lugar povoado mais próximo, chamar homens que os viessem socorrer. O homem assim fez.

No entanto, enquanto cozinhava a galinha, aproveitando a distracção dos piratas que riam e conversavam muito contentes, sem se aperceberem da astúcia de velhota, foi deitando para dentro dos canos das armas, canecos e canecos de água, com o fim de impedir o seu uso aquando da chegada dos homens que haviam de vir bem armados com varapaus e cães. Quando os piratas já se regalavam a comer a apetitosa ceia que lhes havia sido preparada, chegou um magote de homens. Os piratas, surpreendidos, ao ouvir o barulho dos homens e dos cães, sacaram das amas, que de nada lhes serviram, pois não disparavam por estarem todas encharcadas. Começaram então a fugir, mas alguns ainda levaram umas boas pauladas e outros, dentadas dos cães, até que chegaram ao barquinho que tinham deixado preso no Rolo, fugindo assim dali, como o diabo da cruz. Pouco depois o barco pôs-se em marcha, zarpou dali, na direcção das Américas e a esperteza da velha foi muito falada por toda a freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 17:19

A PROMESSA

Quarta-feira, 14.05.14

Francisco nascera e vivera na Cuada, onde também casou. Lugar pequeno, pobre, sem as condições mínimas, capazes de garantirem um futuro risonho e promissor para os filhos que, logo após o casamento, começaram a chegar em catadupa. A América, apesar de muito longe e distante, era um mito, um sonho que se podia, muito bem, tornar real. Uma hipótese, quase certa e segura, de mudar, não a sua via, que isso não era o mais importante, mas a dos filhos.

Como muitos outros da freguesia e de toda a ilha, Francisco partiu à aventura, numa noite escura como breu. Escondeu-se nas margens duma ribeira, e quando a primeira baleeira fundeou na enorme baía, em frente ao povoado, a fim de se prover de água e víveres, pegou num barril, colocou-o às costas, misturou-se com os marinheiros e tentou a sua sorte. Mas do Forte, ali bem situado, junto às escadas do Varadouro, os guardas aperceberam-se do embuste e antes que Francisco demandasse a baleeira, atiraram forte, sobre a pequena chata que ligava a ilha à embarcação. Entre rajadas de tiros contínuos, emerso numa enorme aflição, Francisco cuidou que a sua vida terminava ali. Homem de fé, naquele enorme momento de alegria, nada mais podia fazer do que implorar o auxílio divino. De bordo a baleeira ripostava. Só por milagre escaparia às balas assassinas dos guardas que faziam ricochete contínuo nas águas, num tiroteio cada vez mais intenso. Se o Senhor Espírito Santo o ajudasse havia de dar um jantar em sua honra, do Portal ao Risco.

E salvou-se Francisco, nunca se esquecendo da promessa que fizera em tão grande momento de aflição.

A vida, no entanto, na terra de tio Sam, não lhe correu favorável. Saudades da mulher, dos filhos, da sua Cuada, forçaram-no a voltar. Regressou como tinha partido: pobre.

Mas as terras que possuía na Cuada eram poucas e pequenas. Não tinha dinheiro para comprar outras. Trabalho muito, para sustentar os filhos. Mas tudo o que produzia e cultivava era pouco para o sustento de tantas bocas, pese embora os mais velhos já o ajudassem nas lides domésticas. Desesperou. Os anos passavam, Não conseguia libertar-se da miséria e da pobreza que o perseguira toda a vida. Assustava-se e temia. Cada vez se tornava mais difícil pagar a promessa.

E Francisco morreu sem conseguir pagar a promessa.

O povo, porém, sabia da promessa. A sentença condenatória não se fez esperar. Se prometeu tinha que ter cumprido, até porque era voz comum na freguesia e na ilha que o Senhor Espírito Santo era vingativo. A maldição eterna e o castigo divino haviam de cair sobre ele.

E o povo, ingénuo ou malfazejo, depois de o condenar, começou a imaginar e prever o pior. Tragédias atrás de tragédias haviam de acontecer. Sinais da raiva e indignação divina não faltavam, na boca de todos. O pão, não apenas na casa onde vivera, como na de muitos familiares e parentes mais próximos, ao sair do forno e ao partir-se, vinha raiado com nódoas de sangue. Cortava-se uma nódoa, deitavam-na fora e, de imediato, aparecia uma outra. O medo e o terror dominavam todos. Ninguém comia uma nica daquele pão assinalado com anátema. Bem espantavam o anátema.

Doenças, maleitas, achaques perseguiram a família por toda a vida. Desgraças e castigos não cessaram de aparecer. Até que o pior cenário aconteceu. Um inesperado incêndio destruiu-lhe a casa, onde moravam a viúva e os filhos, juntamente com o gado e todos os bens que possuíam. Uma tragédia tremenda, uma desgraça como nunca se vira na freguesia. Ficaram, sem nada.

E na freguesia acentuava-se cada vez mais a convicção de que com o Senhor Espírito Santo não se brinca. Quem faz uma promessa tem que a cumprir, mesmo que por mais que se esforce não o consiga.

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publicado por picodavigia2 às 16:27

ENJOO

Quinta-feira, 01.05.14

Álvaro viajava no S. Pedro, vogando a noroeste da ilha das Flores, entre a Fajã e o ilhéu de Maria Vaz, rumo a Ponta Delgada. O barco, inicialmente, navegara a motor, mas cuidava-se que na recta final da viagem, entre a Ponta do Albarnaz e o porto de Ponta Delgada, o vento havia de lhe bater na popa, pelo que o mestre havia de mandar içar a vela. Sentado à ré com a cana do leme na mão, calças arregaçadas. Mestre Gregório ordena

- Ó Antonho, senta-me esse pequeno ao pé de ti, home. Com os balanços do barco não vá o diabo tecê-las.

O Manuel da Ana, metia conversa com o petiz, na tentativa de o abstrair do dolente marasmo em que emergira:

- Então é a primeira vez que andas de barco?

- É sim senhor. E estou a gostar muito. Mas agora, já estou a ficar um pouco mal disposto.

 O João do Alto bem segredava ao mulato:

– Ou me engano muito ou do ilhéu p’ra diante vais gostar pouco… Áh! Se vais…

O miúdo indagava:

- Pai, o mar vai estar sempre assim calmo, até Ponta Delgada?

O Jacinto, olhando para as nuvens, sentenciava, ao mesmo tempo que franzia o nariz:

 – Hum!... O vento está a rodar para sudoeste. Da ponta do Albarnaz para lá vai meter umas vagas grandotas. Até à baía dos Fanais talvez se mantenha assim…

.- Ó Jacinto, parece que nunca andaste no mar, home. Da ponta do Albarnaz para lá? Com que então? Parece que estás cego! Olha como as nuvens correm para cima da terra. Não enganes o homem! Isto vai mexer bem, vai!

- Olhe, pai, olhe como se vê a Fajã daqui. É tão diferente. Estou a ver a casa d’avó, acolá.

- E a tua? Não a vês? – Indagou o Mulato, com ironia

- Não, não a pode ver. Fica na Assomada, por trás daquele Outeiro, que tem a cruz no alto.

- Vê-se muito bem é a igreja e a torre do chileno? A Fajã vista daqui parece um navio. É tal e qual o Carvalho Araújo, quando vem fazer serviço aqui para a baía: a Ponta do Baixio é a proa e depois é o convés com as casinhas brancas e as torres da igreja e da casa do chileno.

- Sim senhor, muita imaginação. Mas o que é isso da torre da casa do chileno?

- É aquela casa muito alta com uma torre.  Mas não sei porque se chama assim. Talvez meu pai saiba.

Foi o pai que esclareceu:

- Há uns anos atrás houve um homem de cá que emigrou para o Chile. Lá, pelos vistos, a vida correu-lhe às mil maravilhas. Fez fortuna… Passados muitos anos voltou riquíssimo, dizem que milionário, e então construiu aquela casa enorme, com uma torre em cima. É a casa maior da freguesia e toda a gente a conhece pela “casa do chileno”.

- Pai, estamos a passar a rocha das Covas. Olhe a nossa terra, vê-se bem daqui. Foi ali… Lembra-se?

- O que aconteceu ali rapaz? – Perguntou o Manuel da Ana. - Tu sabes muitas histórias, mas teu pai é que as conta? Então diz lá? O que aconteceu ali?

- O pai, conte!

- Foi um grande susto que apanhámos. Eu tenho ali uma terra, mesmo bem junto à rocha. Há uns dias atrás, ele veio comigo apanhar erva-santa. Estávamos mesmo bem encostados à rocha, ali, junta aquelas faeiras, quando começaram a cair pedras, calhaus enormes. Vimos a morte pintada! Não fossem os gritos do Constantino, de cá de baixo, a dizer para ficarmos junto da rocha, hoje não estaríamos aqui.

- Tiveste sorte rapaz! Olha se apanhavas com aqueles marmelos!

- Estas rochas são muito perigosas, não são?

- Perigosíssimas! Quase todos os dias caem pedras ou ribanceiras. E eu tenho muitas terras junto à rocha. Tenho aquela de mato, tenho mais abaixo uma lagoa de erva, tenho tês relvas, mais além, nas Águas e ainda tenho outra lá para cima, nos Paus Brancos. Tudo debaixo da rocha. Mas há quem esteja pior…

- Eu agora já sei como se deve fazer, quando estamos junto da rocha: se estiverem a cair pedras devemos fugir para junto da rocha. Se for ribanceira é que é pior.

- Tem morrido muita gente? – indagou o Mulato, apreensivo

- Meu pai contava que antigamente morria mais. Mas hoje em dia, não. Nos últimos anos, que me lembre, morreram três pessoas. Aquela ribeira chama-se Ribeira das Casas. Os antigos diziam que era por antigamente haver ali casas que foram cobertas por aquela ribanceira que ali se vê, à nossa esquerda, mesmo no sírio da minha terra. Mas não acredito muito…e se tal aconteceu já foi há muitos anos.

- Ponta Delgada também fica assim debaixo duma rocha? – perguntou Álvaro, cada vez mais descorado. Foi o Jacinto que esclareceu:

- Não. A freguesia de Ponta Delgada fica no cimo duma encosta tem um cais muito bonito e grande e uma pequena baía ladeada por uma ponta que também se chama Ponta Delgada, e que deu o nome à freguesia e pela Ponta do Ilhéu e estende-se por uma grande planície, cheia de casinhas pintadas de branco. É muito mais bonita do que a Fajã. Nunca lá foste, pois não? Vais gostar muito… Ainda ficas é lá…

E o Mulato com ar de maroto:

- Não tem é assim uma torre como o do chileno ou lá o que é…

Mas lá da ré, mestre Gregório, sempre atento ao que se passava dentro do pequeno batel, avisava

- Mulato, mais atenção ao que vais a fazer. Vê se não respinga água salgada para cima do motor.

Nesse momento, Álvaro, encostando-se ao pai, começou a ficar, de veras, enjoado. Num misto de dor e aflição, interrogava o progenitor

 – Pai, ainda falta muito para chegarmos a Ponta Delgada?

- Ui!... Acabámos de passar a Baixa-Rasa e o ilhéu do Cão! Eu bem me parecia que a tua boa disposição ia acabar de pressa…

- Não desanimes rapaz. Conta mais histórias para te distraíres.

E a chacota avolumava-se, enquanto Álvaro, muito angustiado, suplicava:

– Pai, vamos para trás, quero ir p´ra nossa casa. Estou a ficar muito mal disposto.

- Paciência! E tanta alegria que tiveste quando soubeste que vinhas…

Mestre Gregório, agora em pé, esbracejava:

 – Jacinto, agarra bem o miúdo. Não vês que ele vai vomitar.

- Brr. Ai! Ai! Oh pai! –

Nada mais havia a fazer. O pai e o Jacinto agarram-no, inclinando-o para a borda do barco. Álvaro vomitou, ao mesmo tempo que gritava, numa medonha aflição:

 – Ai! Ai Jesus que eu morro. Quero ir para casa. Ai. Ai. Não quero andar mais de barco. Ai! Ai! Ai que eu morro!

- Não morres coisa nenhuma. Isto acontece a todos. É só nas primeiras vezes. Ainda vais ser um grande marinheiro, quando fores grande.

- Bravo! Assim é que se aprende! Eu também comecei assim. Vais ver que para a próxima vai ser melhor.

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publicado por picodavigia2 às 13:34

A SENHORA DA SAÚDE

Quinta-feira, 24.04.14

Foi muito provavelmente à Praça, areópago de crítica e berçário de projectos, onde os homens descansavam à sombra nas tardes escaldantes de Verão, que nasceu a ideia de criar uma Filarmónica na Fajã Grande.

Inicialmente poucos apoiavam tão ousado desiderato. Com o tempo, porém, tão grande foi a insistência dum pequeno grupo que pouco a pouco a ideia foi germinando, nas mentes dos mais afoitos: comprar uma Filarmónica não era um projecto de todo impossível, para a freguesia. Para isso bastava que todas as casas oferecessem o leite do primeiro domingo de cada mês. As contas eram fáceis: mais ou menos duzentas casas a uma média de dez litros de leite por mês, eram dois mil litros. Em doze meses seriam vinte e quatro mil litros. Se todos entrassem, daria à volta de trinta e cinco a quarenta contos por ano. Em nove ou dez anos, porque havia que pagar os juros, a Filarmónica estaria paga.

O plano era aliciante. Para a sua concretização bastou que, num domingo, no fim da missa, o pároco anunciasse da grade:

- Hoje à tarde há uma reunião na Casa do Espírito Santo de Cima, na qual devem participar todos os chefes de família. Vamos decidir se a freguesia vai comprar uma Filarmónica. Basta que cada um ofereça o leite do primeiro domingo de cada mês, durante alguns anos. Os poucos que, como eu, não têm vacas, darão o valor correspondente em dinheiro. É preciso é que todos participem!

No Verão seguinte houve grande agitação em toda a freguesia. Os instrumentos estavam a chegar. Vinham de Lisboa, no Carvalho de Julho.

Um grupo de jovens com melhor ouvido e mais apetência para a Música, já há muito que se havia iniciado no solfejo, enquanto outros aperfeiçoavam o que tinham aprendido na tropa.

Finalmente chegaram os instrumentos! Vinham dentro de enormes caixotes, protegidos com palha e farripas e brilhavam como prata! Dois contrabaixos, dois bombardinos, duas trompetes, dois trombones, duas trompas, dois cornetins, um saxofone, cinco clarinetes, uma requinta, o bombo, a tarola e os pratos. Tudo direitinho e em óptimas condições.

Distribuíram-se pelos diversos músicos, de acordo com as capacidades de cada um e intensificaram-se os ensaios, agora sob a orientação de um professor de Música do Seminário de Angra, que vinha habitualmente, passar férias à Fajã, donde era natural.

No fim de Agosto estava tudo preparado e afinado. A banda estava, na abalizada opinião do maestro, preparadíssima para actuar. A inauguração e a primeira apresentação em público foram agendadas para o dia da festa da Senhora da Saúde, a maior festa que se realizava na freguesia e uma das maiores da ilha.

A festa foi de arromba! Vieram, como convidadas, todas as Bandas Musicais das Flores e até Lira Corvense! Veio clero e povo de toda a ilha.

Na Casa do Espírito Santo de Cima, os músicos fardados a rigor, calças e boné brancos, casaco azul com botões amarelados, acotovelavam-se nervosos, apreensivos e de instrumento em riste. Fora as restantes Filarmónicas esperavam pacientemente que o cortejo se organizasse. O Ouvidor das Lajes, paramentado a rigor, leu algumas orações em latim e aspergiu água benta sobre homens e instrumentos, traçando, vezes sem conta, cruzes no ar.

Pouco depois formou-se o cortejo em que seguiam as bandas convidadas. As ruas estavam engalanadas com bandeiras multicolores e o chão atapetado de pétalas e verdura, como se duma procissão se tratasse. Das varandas e janelas pendiam colchas de seda, no ar estalejavam foguetes e os sinos repicavam festivamente.

A seguir à missa, num coreto provisório, colocado no adro da igreja, as bandas tocaram à porfia. E a opinião era unânime: - a que melhor tocava era da Fajã. Pudera! Se os instrumentos estavam tão fresquinhos…

Passou a chamar-se “ Filarmónica Senhora da Saúde” e a partir de então abrilhantava todas as festas da freguesia, sendo muitas vezes convidada para tocar noutras partes da ilha, enquanto o leite do primeiro domingo de cada mês, com que quase todos contribuíam, ia pagando os juros.

Os anos passaram e a Filarmónica foi paga com o dinheiro de todos. Dezenas e dezenas de jovens aprenderam música, para substituir os que se ausentavam ou simplesmente desistiam. Todos se orgulhavam da “Senhora da Saúde” e acarinhavam-na, porquanto consideravam a importância que ela tivera no desenvolvimento sócio cultural da freguesia.  

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publicado por picodavigia2 às 07:29

ABSOLUTA NORMALIDADE

Terça-feira, 22.04.14

As férias passaram velozes e cedo se impôs o regresso ao Seminário de Ponta Delgada. A viagem entre as Flores e São Miguel, agora já com experiência acumulada do ano anterior, decorreu muito bem, até porque a partir do Faial tive a companhia do Manuel Faria e dos meus colegas das outras ilhas. Na viagem, para as Flores, em Junho, também tivera muita sorte, pois a partir de Angra, viajara junto com a minha vizinha Lucinda, a mãe de meu padrinho, que muito me apoiou e auxiliou.

Ao reentrar no Seminário, também, já conhecíamos a casa, por conseguinte já nada nos indignava, surpreendia ou sequer atemorizava. Agora que éramos os mais velhos, com experiência acumulada, como que nos sentíamos donos e senhores do velho casarão, revelando alguma disfarçada superioridade sobre os alunos que o demandavam pela primeira vez. Ocupámos as camaratas do segundo ano, escolhemos as melhores camas, optámos pelos lugares mais atractivos e até decidimos que as carteiras maiores seriam nossas.

No entanto, a chegada dos alunos de São Miguel veio alterar tudo isto. Os prefeitos entenderam que seriam eles a decidir sobre as nossas opções e, como o segundo ano não cabia todo nas camaratas que lhe eram reservadas, optaram por mandar os mais pequenos para a camarata do primeiro ano. Para tristeza minha, eu fui um deles, embora me tenha sido permitido colocar a minha cama logo à entrada da porta. No entanto, custou muito, separar-me dos meus colegas e abdicar do lugar inicialmente escolhido.

Procedimento idêntico teve um dos prefeitos, relativamente às carteiras. Retiraram aos mais pequenos as carteiras grandes, para as entregar aos mais velhos, maiores e, talvez, com mais aproveitamento escolar, mas não mais aplicados do que nós. Estes procedimentos discriminatórios provocaram alguma revolta nos mais pequenos, entre os quais se incluíam, para além de mim, o Jorge Nascimento, o Manuel Faria, o Lima Oliveira, o Humberto Clementino e o José Augusto.

O ano lectivo, no entanto decorreu como muita naturalidade e sem os sobressaltos, os temores e as contrariedades dos primeiros tempos, do ano anterior. Abandonei a infância e transformei-me, de repente, num homenzinho. O meu corpo transformou-se, radicalmente, e comecei a perceber que, afinal, o mundo era composto por ideias, por costumes, por atitudes e, também, por seres humanos diferentes: homens e mulheres. Numa palavra: tonei-me um homenzinho.

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REGRESSO ÀS FLORES

Quarta-feira, 16.04.14

O final do ano lectivo trouxe um pequeno problema aos professores do Seminário. É que a data pré-estabelecida e marcada para termo das actividades lectivas e para o consequente encerramento do Seminário, durante os três meses de férias de Verão, não coincidia com a passagem do Carvalho Araújo por São Miguel, vindo de Lisboa, no seu roteiro mensal pelas ilhas, incluindo as Flores e o Corvo. Para os alunos residentes nas ilhas do grupo central, tudo estava facilitado. Seguiriam, na data prevista, numa das viagens intercalares que o Cedros, habitualmente, realizava, mas que tinha o seu termo no Faial. Mas para as Flores, onde apenas o Carvalho demandava a ilha de mês a mês, o caso fiava mais fino. Assim os professores depararam-se com duas alternativas: ou eu, depois de acabados os exames, ficava sozinho no Seminário mais quinze dias, exigindo ali a presença, pelo menos, de um professor e do cozinheiro, ou tinha que partir para as Flores no Carvalho, quinze dias mais cedo do que a data prevista para encerramento do Seminário. Embora sem me consultar, mas para gáudio meu, os professores decidiram-se pela segunda hipótese. Eu seguiria para as Flores no próximo Carvalho, abandonando o Seminário quinze dias antes dos outros alunos. Mas um senão pesava contra esta decisão: eu tinha que fazer todos os exames escritos e orais em catadupa, isto é, tinha que os realizar todos numa semana, uns atrás dos outros, sozinho e antes dos restantes alunos os fazerem. Assim, em menos de uma semana, sem os habituais e exigíveis espaços entre uns e outros, para descansar e sobretudo para os preparar, os professores submeteram-me a exames em todas as disciplinas que os exigiam: provas escritas e orais em Português, Latim, Francês, Matemática e Ciências e ainda uma prova oral de Música e uma prática de Desenho Geométrico. Mas talvez porque compreendessem a situação de “sufoco” em que, sem serem culpados, me haviam encafuado, os professores fizeram exames mais acessíveis e mais fáceis, até porque conheciam o meu aproveitamento escolar ao longo do ano. Assim tirei, na maioria das disciplinas, umas notitas muito boas. Excepção para o famigerado Latim, para a Música e para o Desenho, disciplinas de que gostava menos e nas quais andei pelos dozes. Nas outras lá bem mais para cima, embora longe do topo da escala.

De seguida fiz a malinha e ala para as Flores, todo contente e feliz. Os meus colegas é que não acharam muita graça a isto. Eu com os exames todos feitos, aprovado em todas as disciplinas e a caminho de férias e eles com mais duas semanas de trabalho árduo, de estudos excessivos, a preparar, em horas e horas seguidas de estudo, com recreios reduzidos e sem passeios, com zelo, empenho e meticulosidade os exames das disciplinas que ainda lhes faltava fazer.

Creio que, pelo menos no dia do meu embarque, muitos seminaristas, roídos de inveja, desejaram ser das Flores.

As primeiras férias que passei nas Flores, foram de enlevo, encanto e fascinação. Embora sem a presença de meu pai que continuava internado na Casa de Saúde de São Rafael, encontrava-me na companhia de meus irmãos, agora responsáveis por todas as actividades, trabalhos agrícolas e governo da casa. Assim embora substituindo o sacristão na missa diária, passava os dias com eles a trabalhar nos campos, a levar as vacas às pastagens, a ceifar feitos, a acarretar molhos lenha e cestos de batatas, a tratar das galinhas e sobretudo, cuidar da minha ovelha, enfim, realizando todas as actividades e trabalhos como antes de sair das Flores. Além disso, meus irmãos, alegando que eu estava “descansado”, iam tentando atirar-me para o lombo molhos mais pesados e os cestos mais cheios, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vidinha que levaste durante o Inverno.

 De manhã à noite, partilhava, trabalhos, refeições e canseiras com os meus irmãos Como a casa era exígua e só havia três barras, até a cama dividia com um deles.

No entanto, levava algumas recomendações do Seminário sobre aquilo que deveria fazer nas férias, algumas delas contidas no célebre livrinho “O Bom Seminarista em Férias – Manual de Meditações” da autoria do padre Justino Buorgonovo. Entre essas recomendações, para além da meditação (esta só nos primeiros dias), da missa e do terço diário – este em casa da minha avó que o rezava em família todas as noites - havia uma outra tarefa que deveria fazer, mas que me arreliava bastante. Era a visita ao pároco, pelo menos, dia sim, dia não.

Na hora marcada, la vestia uma roupinha melhor e dirigia-me ao presbitério. O Senhor Padre Pimentel é que geralmente não estava em casa e, se estivesse, tinha sempre que fazer ou saía de imediato, acabando eu por ficar a fazer a visita à sua irmã, a Dona Maria, que me ia fazendo algumas perguntas sobre a vida no Seminário, os professores, os estudos, a oração e a disciplina, a que eu respondia, sem grande entusiasmo ou interesse, geralmente com um “sim ou “não”. Por vezes dava-me conselhos e fazia-me recomendações tão exigentes ou mais do que as que eram feitas no próprio Seminário. Enfim, uma verdadeira maçada, uma hora enfadonha, desinteressante, que, para inquietação minha, demorava muito a passar.

De resto, o tempo que tinha livre passava-o na companhia dos meus amigos de infância, muitos dos quais ainda viviam na freguesia, a fazer os mesmos jogos e brincadeiras que fazíamos antes de eu ir para o Seminário.

Apesar de me imiscuir, de alma e coração, em tudo, sem manias ou petulâncias e de ajudar meus irmãos nas tarefas do campo ou até de acarretar os baldes de água para casa e de partilhar a vida deles e de conviver com os meus amigos como sempre o fizera, certo dia em que ia para a missa calçado e vestidinho com o fato e gravata e bem arranjadinho, ao lado de meus irmãos que andavam descalço, o velho Pureza, cruzando-se comigo na rua, atirou-me de soslaio, em tom de crítica mordaz e ironia moldada: “Um! Os pauzinhos do mato, uns nascem para serem adorados e outros para serem queimados.”

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publicado por picodavigia2 às 09:19

OS RELATOS DE FUTEBOL

Domingo, 13.04.14

Nas férias da Páscoa, no Seminário Menor de Ponta Delgada, nos anos cinquenta, o futebol era rei, uma vez que, naquela altura, se realizava o campeonato açoriano, em que participavam os clubes, representantes de cada uma das três associações açorianas – Ponta Delgada, Angra e Horta - de que haviam sido respectivamente os campeões distritais. Um ano em Ponta Delgada, noutro em Angra e outro na Horta. A Associação de Futebol de Ponta Delgada era geralmente representada pela União Micaelense ou pelo Santa Clara, a de Angra pelo Lusitânia ou pelo Angrense e a do Faial pelo Angústias Atlético ou pelo Fayal Sport. Em São Miguel, no entanto existiam outros clubes, a cujos jogos assistíamos regularmente: o Micaelense, o Marítimo, a União Sportiva e o Operário da Lagoa. Eu não percebia nada de futebol, não sabia os nomes da maioria dos clubes, nem muito menos as cores das suas camisolas ou identificação dos jogadores. Mas como o Manuel Faria era um profundo conhecedor da modalidade, eu, mesmo que não quisesse, aprendia tudo com ele e, se quando saí das Flores não sabia o nome de um único jogador de futebol do Benfica, agora já identificava a cor das camisolas dos principais clubes e até já decorara a célebre linha avançada do glorioso, de que o Manuel Faria tinha um orgulho enorme: José Augusto, Santana, Águas, Coluna e Cavém. Como na Fajã Grande existia um clube, o Atlético, que vestia camisola azul e calção branco, o Manuel Faria motivou-me a simpatizar com os clubes com a mesma cor da camisola do clube da minha freguesia., pelo que, m São Miguel eu era do Micaelense, enquanto, a nível nacional, o clube da minha preferência era o Belenenses. Assim e como o Micaelense, cujas iniciais do nome eram precisamente iguais às do nome dele – M. F. C., - nunca era campeão de São Miguel e consequentemente, nunca iria disputar o campeonato açoriano, eu estaria sempre a apoiar as equipas do Faial.

Era no quarto do padre José Franco que nos juntávamos para ouvir os relatos. Como era altura de férias da Páscoa, os alunos de São Miguel tinham-se ausentado para as suas freguesias e os das ilhas cabiam lá todos, embora alguns, como eu, pouco interessados na modalidade, ficassem à porta ou a brincar no corredor. Geralmente era a Terceira ou São Miguel que ganhava, ficando o representante da Horta em último lugar o que muito molestava e entristecia o Manuel Faria.

Ainda antes do fim do ano o Manuel Faria havia de ter um outro desgosto. É que nesse ano o Porto foi o campeão, enquanto o Benfica ficava em segundo lugar, provocando-lhe, no entanto, dias depois, uma pequena alegria, ao ganhar a Taça, vencendo o Porto na final por 1-0. O Belenenses, nesse ano, ficou em 3º lugar, por conseguinte à frente do Sporting.

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publicado por picodavigia2 às 12:18

UM PRÉMIO

Sexta-feira, 11.04.14

No Seminário Menor de Ponta Delgada, durante as horas de estudo, sobretudo às quintas e domingos de manhã, dias em que não havia aulas, era costume, que um ou outro dos prefeitos, reunisse os alunos à volta da sua secretária a fim de lhes ler alguns livros de biografias, histórias e aventuras, sobretudo de missionários, relatando-se a sua vida em África. Num desses livros contava-se a história da luta, do esforço e dos trabalhos de um missionário para formar uma comunidade cristã entre os nativos. Ao fim de algum tempo, tendo já aderido ao cristianismo um grande número de fiéis, conseguiu, juntamente com eles, construir uma pequena igreja, edificada com material semelhante ao das tabancas dos nativos. Quando a obra já estava pronta, vieram os inimigos da fé e, incendiando-a, destruíram-na a por completo.

Terminada a leitura, o prefeito ordenou que todos e cada um de nós, devia fazer um desenho sobre o livro que ouvíramos ler e que o melhor trabalho seria premiado. Como era desajeitado em Desenho, pouco me entusiasmei com a tarefa proposta e a ela aderi sem grande esforço e com pouca motivação. No entanto lá peguei na folha, no lápis, nos guaches, nos godés e nos pincéis e comecei o desenho. Às tantas aquilo, como já esperava, começou tudo a correr-me mal e ainda por cima derramei uma parte da mistura de tintas de um godé sobre a folha. Aborrecido e sem vontade de recomeçar tudo de novo, optei por atirar as sobras das tintas, com alguma rebeldia, para cima da folha, resultando da mistura uma espécie de fogueira. Depois escrevi por baixo, como título: “O Incêndio da Capelinha”.

Os desenhos, anónimos, foram expostos ao longo da parede do corredor que servia de sala de recreio e, posteriormente, avaliados pelo professor de Desenho, o senhor padre Baptista. Para espanto meu e estupefacção de todos, o meu desenho ficou classificado em primeiro lugar e eu fui o vencedor do prémio – um livro sobre a vida de Pierre Currie e sua mulher Madame Currie. Quem não me perdoou foi o Eugénio Melo que, habituado a desenhar barcos com o seu pai, em Santo Amaro do Pico, era, incontestavelmente, o melhor aluno de Desenho e, consequentemente, o verdadeiro candidato a vencer o galardão.

A notícia foi muito divulgada e chegou às Flores e à Fajã Grande, através do jornal “Euntes”, tendo o senhor padre Pimentel, pároco da freguesia, me enviado um postal de felicitações. Claro que, com tudo isto, fiquei todo vaidoso, mas verdade é que o prémio em nada contribuiu para aperfeiçoar o meu desempenho na disciplina de Desenho.

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publicado por picodavigia2 às 17:47





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