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O MARTÍRIO DO GLORIOSO BONABOIÃO

Quinta-feira, 06.02.14

Passaram-se alguns anos. D. Paio de Farroncóbias foi avisado de que deveria voltar para norte. D. Afonso Henriques havia sido gravemente ferido em Badajoz. Ao tentar conquistar uma praça fulcral na linha do Guadiana, caiu numa armadilha, sendo ferido e preso pelo rei de Leão. Era necessário estabelecer conversações com o inimigo para obter a libertação do rei. De tal tarefa foi encarregado D. Paio de Farroncóbias, que para tal se deslocou à Galiza. Celebradas as condições de resgate, D. Paio no regresso pernoitou em Cangas, onde Iluminata tinha um grandioso palácio, tendo lhe sido apresentado um canudo de sabugueiro, que tinha sido encontrado na praia e que se destinava ao nobre alcaide de Trancoso. D. Paio, apreensivo, abriu-o. No interior havia um pergaminho, que continha, de um lado excertos da crónica de Johannes Beltrasanas e do outro escrito em letrinhas góticas, uma mensagem de Iluminata, onde ela proclamava a sua inocência e se queixava da injustiça que o seu esposo havia cometido para com ela, jurando pela sua honra que estava inocente, que Gemildo é que a tentara e que com todas as suas forças se opusera aos seus intentos maldosos, por fidelidade a seu marido e senhor. Fora por não ceder, que Gemildo, por vingança, a caluniara. Como prova da sua inocência estava ali, depois de tantos e tantos anos, sem ter sido contagiada pela lepra, milagre operado por Deus, comprovativo da sua inocência. Por fim, solicitava a D. Paio que dali a tirasse.

Ao receber tal notícia o coração de D. Paio de Farroncóbias encheu-se de remorsos e arrependimento, de ternura e de saudade. De imediato, mandou preparar um escaler o mais luxuoso que encontrou em Cangas e arredores e demandou a ilha dos leprosos, com intenção óbvia de recolher a que fora a sua amada esposa, Iluminata. Perdoaram-se reciprocamente, caíram nos braços um do outro, perante o olhar estupefacto e triste de Banaboião, que desistira de matar D. Paio, como havia combinado com Iluminata. D. Paio de Farroncóbias e Iluminata regressaram a Cangas. Iluminata partiu para Trancoso, enquanto D. Paio de Farroncóbias, agora que el-rei D. Afonso Henriques havia sido liberado das prisões do rei de Leão, pese embora, devido à fractura que contraíra na peleja, ficasse incapaz de combater por algum tempo, regressou, rapidamente, para o Alentejo, pois chegara-lhe notícia de que os sarracenos infiéis haviam, de novo tomado Beja e outras praças importantes.

Mas os mouros, porém, tendo conhecimento da inoperância bélica de D. Afonso Henriques não atacaram apenas o Alentejo e a fronteira sul. Avançaram por todo o reino e já demandavam o norte, destruindo tudo e matando todos por onde passavam, espalhando o pânico e o terror por todas as aldeias, vilas e cidades. Na maioria das povoações, despojadas de guerreiros que se haviam deslocado para sul, era impossível a defesa. Mortes, saques destruição total, eram uma constante. É que, assim como D. Paio de Farroncóbias, muitos outros guerreiros, encontravam-se mobilizados na defesa do Alentejo, estando, portanto, impedidos de voltar para o norte, defendendo as suas povoações, os seus lares e os seus familiares. A desolação era total.

D. Afonso Henriques, no entanto, persistia em ordenar que se recuperassem as principais praças alentejanas, tarefa quase de todo impossível dado o crescendo bélico dos árabes. Os fronteiros, em vão, bem tentavam cumprir as ordens de el-rei. Seguiram-se tentativas e tentativas todas elas frustradas, de recuperar aquelas praças. O número de portugueses que morriam às mãos da moirama, era cada vez maior. D. Paio de Farroncóbias decidiu, então empreender, novas tentativas sobre Lisboa, Évora, Beja e Alcácer-do-Sal. Esta última, porém, ser-lhe-ia fatal. O valoroso guerreiro D. Paio de Farroncóbias sucumbiu em combate, quando já tinha entrado dentro de Alcácer-do-Sal.

Com a morte do mais temível guerreiro português, os mouros ainda avançaram mais para norte. Aldeias e aldeias foram tomadas. Al-bucadiam, emir de Badajoz, avançou com um poderoso exército de mais de cinco mil homens, entre gente de pé e a cavalo e ultrapassou Coimbra, o rio Águeda, Viseu e acabou por entrar na própria cidade de Trancoso!

Dias antes, Iluminata tivera conhecimento de que um santinho de Deus, de nome Banaboião, homem de grandes virtudes e dons sobrenaturais chegara à cidade e se instalara numa estrebaria dos arrabaldes, em grande pobreza e mortificação. Cobrindo o próprio rosto, para que lhe não vissem as feridas que já lhe dilaceravam todo o corpo. Iluminata dirigiu-se para o refúgio onde se encontrava o santo anacoreta. Depois de se amarem Iluminata bem lhe explicou os perigos que corria, se permanecesse ali. Nem acabou de falar. E eis senão quando dois mouros, de espada em riste, entrando de rompante, decapitam os dois...

 

Passaram-se alguns anos. Em Roma, Sua Santidade o Papa Liberino III, revestido de paramentos vermelhos, de báculo na mão e tiara na cabeça, proclamando o poder que lhe fora concedido por Deus, anunciava a toda a cristandade e decretava solenemente e para sempre o bem-aventurado Banaboião como santo de Deus, pela sua vida de virtude e santidade e pelo seu glorioso martírio e inscrevia o seu nome no dístico do sagrado cânon, autorizando que, a partir desse dia, os fiéis lhe prestassem veneração.

Nos dias seguintes, em todas as igrejas, de Trancoso a Viseu, os sinos repicaram festivamente, enquanto D. Gonçalo Guterres, agora bispo de Lamego, na catedral daquela cidade, entoava a Ladainha de todos os santos, cantando a determinada altura:

- Sancte Banaboionis, anachoreta et martir.

- Ora pro nobis  – respondia o povo em grande alarido.

 

Fonte – Aquilino Ribeiro, São Bonaboião Anacoreta e Mártir.

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publicado por picodavigia2 às 18:20

INTRIGAS

Segunda-feira, 03.02.14

Iluminata aguardava, ansiosa, novas de seu amo. Deu-lhas Gemildo:

- Vosso estimado esposo, o meu amo e alcaide deste castelo não regressará, tão cedo a Trancoso. A moirama voltou a atacar e não desarma. Muitas das praças que havíamos conquistado, para além de Coimbra e Leiria, foram tomadas pelos mouros. D. Afonso Henriques, está para Zamora e não pode deslocar-se para o sul. Pretende reunir-se com o rei de Leão, para que este o reconheça definitivamente como rei e Portugal como reino independente Estará para breve a assinatura de um tratado para que tal determinação perdure pelos séculos dos séculos. El-rei e nosso senhor entregou a defesa da fronteira ao vosso esposo, o valoroso D. Paio de Farroncóbias, que por essa razão não pode regressar a Trancoso para vos ver e abraçar. Mandou-me a mim, com uma companhia de besteiros para vos trazer novas. Pelo caminho, porém fomos atacados pela moirama e um dos nossos homens ficou ferido. Mas por vontade de Deus Nosso senhor e intercessão de um dos seus servos, Joahannes Beltrasanas, a cujo enterro assistimos, foi curado.

Iluminata ao ouvir o nome de Beltrasanas tremeu. Interrogando o lugar-tenente se, não estaria em sua companhia um jovem discípulo do servo de Deus, de nome Banaboião, do qual queria saber novas.

Gemildo respondeu que fora Banaboião que aconselhara o guerreiro e o acompanhara ao túmulo do santinho, enchendo-lhe o peito de fé. Como Iluminata persistisse em saber mais notícias e o interrogasse contínua e persistentemente sobre Banaboião e manifestasse mais interesse em saber mais novas acerca dele do que do seu esposo D. Paio de Farroncóbias, Gemildo percebeu que um sentimento estranho trespassava o coração de Iluminata. Cuidando ele que estando Iluminata tanto tempo longe e afastada de seu esposo se teria aventurado em andanças amorosas que de contrário não indagaria tão pertinazmente sobre um estranho, decidiu ele aventurar-se amorosamente com a esposa de seu amo, senhora de Cangas e Freixomil, atirando-se a ela como Santiago aos mouros.

Iluminata ripostou radicalmente as exigências de Gemildo e repudiou-o gravosamente jurando por sua honra logo ali enviar emissários que informassem D. Paio dos vis intentos de seu servo, para que fosse ele  dar-lhe a merecida paga. O tredo Gemildo não se deu por vencido e perante damas, lacaios e criados do castelo, denunciou Iluminata, movendo contra ela a mais insidiosa calúnia, acusando-a de ter sido infiel para com o seu valoroso e nobre esposo o ilustre fronteiro, D. Paio de Farroncóbias, que combatia em terras das Beiras, com um tal Banaboião. De imediato mandou emissários a D. Paio a informá-lo de tão grande indignidade e tão vil afrontamento.

D. Paio de Farroncóbias recebeu a notícia do adultério da esposa com enorme dor, raiva e ódio. Apenas ouvindo o acusador, jurou vingar-se. Ao vil tredo que havia beliscado a sua honra, lavrou trágica sentença:

- Banaboião, filho de Pero Fogaça e de Aldonça, em casa de quem pernoitei no regresso de Ourique, será chicoteado 47 vezes, publicamente e enforcado, para que todos saibam quanta ofensa constituiu tal afronta e conheçam o que acontece aos traidores que ofendam a honra e a dignidade de D. Paio de Farroncóbias, que combateu ao lado de El-rei D. Afonso Henriques, alcaide de Trancoso, fronteiro de El-rei, portador de vinte gilvazes e balsão.

Por sua vez, para a impúdica, adúltera e ingrata esposa, Iluminata, D. Paio decretou:

- Será imediatamente enviada para uma gafaria, na ilha dos leprosos, tendo apenas o direito levar consigo um baú com a roupa necessária e um punhal para se defender, caso seja atacada opor algum leproso.

Pouco depois o honrado e nobre fronteiro seguiu, por ordens de Afonso Henriques, para o Alentejo à conquista de Beja.

 

Fonte – Aquilino Ribeiro, São Bonaboião Anacoreta e Mártir.

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publicado por picodavigia2 às 08:09

O REGRESSO DOS DUPONT

Quinta-feira, 30.01.14

O Peugeot dos Dupont seguia a alta velocidade na A4 em direcção ao Porto O GPS indicava onde deviam sair e depois virar à esquerda. Mariana sentia uma grande ansiedade. Dentro em breve iria percorrer os caminhos e as vielas dos tempos de infância, recordando assim os lugares onde tinha nascido e fora criada. Em França, sobretudo depois do casamento com Pierre Dupont e da mudança de Clermont-Ferrant para Aurillac, poucas informações recebia de Portugal. Mas duma coisa tinha a certeza – tudo estaria muito diferente. À medida que se aproximava o coração apertava-se-lhe mais. É que a oportunidade de ver e talvez até de entrar na pequena casinha onde tinha nascido podia estar prestes a concretizar-se. Os semáforos à entrada da cidade causavam-lhe alguma confusão, mas configuravam grandes mudanças.

Voltaram à esquerda, tornaram a voltar à direita e seguiram em frente na direcção do sítio onde presumivelmente estaria a velha casita. Mais umas voltas e chegaram ao pequeno largo em frente à velha igreja, cuja fachada exterior semelhante a um castelo medieval, ainda tinha bem presente na memória. Não estaria muito longe, pois lembrava-se que, muitas vezes, à noitinha, da janela do seu quarto via, por cima dos telhados das casas circundantes, a torre da igreja. Vinha então debruçar-se à janela para ouvir o toque das Trindades. A avó havia-lhe ensinado as orações que devia rezar entre as lentas e demoradas badaladas do sino. Mais adiante estendia-se uma área enorme de terreno plano onde se misturavam prédios já construídos e outros em construção. Algumas escavadoras reviravam a terra e removiam enormes calhaus que eram retirados dali por camiões. Muito isolada, num dos cantos do grande eirado, com paredes e muros parcialmente destruídos, apenas uma casa, em tudo muito semelhante à sua. Era de uma amiga de escola, a Joaninha, lembrava-se bem. Passava por ali todos os dias, parava e chamava por ela. Depois lá iam, de malas a tiracolo, saltando e cantando pelos campos para encurtar caminho, apanhando flores com que faziam um ramo para oferecer à Dona Ermelinda. Grande parte das casas ao redor já tinham sido derrubadas e era nos seus lugares que edificavam aqueles prédios modernos e abriam novas ruas. Mais além as outras aldeias e o rio. É verdade que também as suas águas já não eram tão limpas, transparentes e cristalinas como as de outrora, muitos moinhos e azenhas haviam desaparecido e ao seu redor os campos já não se enchiam de milho e de couves repolhudas, já não havia matança de porcos, desfolhadas e as vindimas já não eram como outrora. Os homens já não se agarravam, de manhã à noite, à rabiça do arado e as mulheres já não sachavam e mondavam sob o calor tórrido do estio. Mas, em contra partida, nascera ali ao lado uma cidade, uma cidade grande e moderna que crescera graças à força, coragem e determinação de um povo.

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publicado por picodavigia2 às 15:58

A MORTE DUM SERVO DE DEUS

Quarta-feira, 29.01.14

Bonaboião e Iluminata partiram para Santiago de Compostela, mas em peregrinações separadas. No entanto, durante a viagem acabaram por encontrar-se, unificando as peregrinações. Durante a viagem, Iluminata aproximava-se, sempre que lhe era possível, cada vez mais de Banaboião, enquanto este lhe ia contando como decidira iniciar a vida de asceta, depois do encontro, em Lubisonda, com o seu ilustre esposo, D. Paio de Farroncóbias, que o pretendera integrar na sua mesnada.

 D. Paio de Farroncóbias chegara a Valdevez, na altura em que a comitiva de Iluminata, integrando Bonaboião, se aproximava de Compostela. E no preciso momento em que D. Paio de Farroncóbias, cumprindo os anseios do seu amo e senhor, D. Afonso Henriques, enfiava, em Valdevez, a primeira lança num leonês, deitando-o por terra, a mão de Iluminata que havia acampado em Legonhes por uma noite, pairava sobre o corpo de Banaboião, pese embora este a afastasse delicadamente, evitando tocar, mesmo ao de leve, o corpo da sua benemérita e protectora, a virtuosa esposa do nobre D. Paio de Farroncóbias, diante de quem dois anos antes se havia ajoelhado.

- Socorro! Socorro! – Ouviu-se simultaneamente gritar em Valdevez e Legonhes. Eram, no entanto, gritos diferentes. O primeiro, um grito de estertor, o segundo de vingança. É que sentindo que Banaboião não correspondia aos seus lascivos desejos, Iluminata, aos gritos, começou a acusá-lo de ele a ter assediado, ofendendo assim a honra do nobre fronteiro que naquela hora lutava, bravamente, pela independência de Portugal, em Valdevez, ao lado de D. Afonso Henriques.

Os dois eremitas foram presos e Iluminata seguiu viagem...

Terminada a peleja em Valdevez, D. Paio de Farroncóbias dirigiu-se, a mando de D. Afonso Henriques, para o sul. A moirama começava de novo a ameaçar. Restabelecidos da trágica derrota de Ourique, os sarracenos infiéis reorganizavam-se, agora, formando novos reinos taifas surgindo, por todo o sul uma vaga de rebeliões e revoltas contra as praças e fortificações já conquistadas por D. Afonso Henriques. D. Paio de Farroncóbias foi incumbido de, no regresso de Valdevez, sair para o sul, até Coimbra e Leiria, a fim de se aperceber da situação e por termo aos focos de revolta que por aí se verificavam, cada vez em maior número. Tal decisão adiou bastante o regresso a Trancoso, pelo que Iluminata depois de voltar de Compostela permaneceu, meses sem conta, à espera do esposo amado, que tardava em regressar.

Como demorasse a peleja por terras de Leiria e arredores e, como não fosse fácil dominar a moirama que apostava cada vez mais em investir contra as terras já cristãs e conquistadas por D. Afonso Henriques, D. Paio de Farroncóbias foi forçado a ficar por ali comandando a peleja. Preocupado, porém, com os destinos não só da cidade de que era alcaide, Trancoso, mas sobretudo com o abandono a que votava a Iluminata, mandou a Trancoso uma companhia de besteiros, chefiada pelo seu homem de confiança, o lugar-tenente Gemildo, inteirar-se da vida do castelo e da cidade e levar notícias suas à sua bem-amada Iluminata.

De passagem pela Penha-Fria, onde Banaboião vivia desde há muito, na companhia dos servos de Deus Beltrasanas e Guindibaldo, Gemildo e os seus homens depararam-se com um funeral de grande acompanhamento e choradeira, no qual se havia integrado muita gente da fidalguia. Logo se informaram e lhes foi dito que era o enterro do muito venerável e justo servo de Deus, Joahannes Beltrasanas, que morrera na maior das virtudes e da santidade e que se já em vida fizera muitos milagres, agora depois de morto eles aconteciam em maior número.

Gemildo decidiu acompanhar com os seus homens tão ilustre finado, porque esse decerto seria o desejo de seu ilustre e nobre amo, o alcaide de Trancoso. Além disso cuidava que sendo o finado tão santo e tão milagroso, decerto que se lhe rogasse ele havia de curar um dos seus homens, que ferido em combate, seguia, na sua comitiva, em muito más condições. Logo desfraldou balsões e foi então que todos, ao identificarem as armas e símbolos de D. Paio de Farroncóbias, reconheceram ainda mais o mérito e santidade de Beltrasanas, que em sua morte era acompanhado por tantos nobres e ilustres, entre os quais os besteiros do ilustre e nobre fronteiro de D. Afonso Henriques.

Banaboião, já acompanhado pelo novo companheiro de eremitério, Gundibaldo, ao ver o balsão com as armas de D. Paio de Farroncóbias, - cinco estrelas de ouro de cinco pontas cada uma, postas em aspa, à volta de três castelos, por timbre um gato preto assanhado com uma estrela vermelha na espádua, armado de azul – interrogou um dos besteiros, perguntando-lhe se D. Paio de Farroncóbias ou sua ilustre esposa, a virtuosa Iluminata estariam por ali, sendo-lhe dito, de imediato, que o alcaide se encontrava em Leiria e a senhora de Cangas e Freixomil permanecia em Trancoso, aguardando, em seu castelo ansiosamente novas do esposo amado de que eles próprios eram mensageiros.

Terminada a cerimónia fúnebre e depositado o cadáver num buraco da rocha, ajustou-se a tampa e o santo começou logo a operar milagres. O besteiro de D. Paio que trazia uma enorme e ruim ferida num sovaco, recebida em combate, foi conduzido por Banaboião junto da rocha e, tocando com ambas as mãos no sepulcro do santo de Deus, ficou logo curado, para espanto dos seus companheiros de armas. Gemildo e os besteiros de D. Paio retiraram-se felizes seguindo para Trancoso.

 

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir.

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publicado por picodavigia2 às 09:28

A FUGA

Sábado, 25.01.14

Foi na véspera dos anos de Mariana que ela, os pais e o irmão partiram para a França. Para os vizinhos e amigos iam às Caldas, a casa dos avós maternos, passar o aniversário da menina.

Quando chegaram a Bragança, um tipo de aspecto esquisito aproximou-se, recebeu-os e, ostentando disfarçadamente uma premeditada intenção, ofereceu-se, como taxista, para os levar a Gimonde. Que esperassem um pouco sem dar muito nas vistas. A viagem era curta e só à meia-noite em ponto deviam estar em Talhinhas junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ao dar a meia-noite, lá estavam juntando-se a eles dois desconhecidos, com quem teriam que efectuar uma longa e perigosa viagem. Pouco depois, chegou o guia que, disfarçadamente, os acompanhou e conduziu até à fronteira.

Era Outubro. As noites já eram grandes e frescas. As crianças começaram a sentir fome e frio. O pai de Mariana, pensando nos pequenos, prevenira-se com comida, em Bragança, mas o Zezito não se calava e, em vão, pedia leite. O choro e a impaciência começavam a importunar. A mãe, vezes sem conta, arrependia-se de ter partido.

Na manhã seguinte, uns a dormir e outros acordados, chegaram a Puebla de Sanábria, em Espanha, juntando-se a alguns pequenos grupos que tinham passado a fronteira noutros locais. Alguns dias depois estavam em Dancharie na França, onde o último guia os deixou.

- Agora tomem o comboio e sigam os vossos destinos conforme as instruções que vos deram. Governem-se, como puderem – e virou costas.

O comboio ainda parou em Puyoô e em Agen onde saíram alguns portugueses. Apenas um pequeno grupo seguiu para Clermont-Ferrand.

Na capital de Auvergne o pai de Mariana procurou o Cardoso, que morava na rua de La Rotunde e desde há muito estava radicado em França. Os conhecimentos que tinha junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que fosse arranjando alguns empregos e residências para os que o Ramalho lhe recambiava de Portugal. Era uma maneira de, à socapa, ganhar mais algum. O que tinha disponível de momento era numa fábrica de pneus. Não era nada mau.

- O trabalho é pesado, mas vais ganhar bem. És novo e forte. Se com o teu trabalho agradares aos patrões, tens promoção pela certa. Já sabes que para aqui não se vem passar férias.

O alojamento é que estava um pouco complicado. Para já só conseguira um quarto, um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. A mulher podia usar a cozinha e o preço era acessível. Em breve lhe arranjaria uma casita. Havia um tipo de Viana que, em breve, ia tentar melhor sorte em Paris e deixava casa vaga. Já a tinha “apalavrada”. Quando ele fosse embora ficaram de vez com a casa.

E no dia seguinte, o pai de Mariana começou a trabalhar na fábrica de pneus “ La Souquete”.

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publicado por picodavigia2 às 12:31

A PEREGRINAÇÃO

Sexta-feira, 24.01.14

Mataram-se porcos e carneiros, trouxe-se do melhor vinho dos arredores, cozeu-se pão nos melhores fornos da região, chamaram-se jograis e cantadores, fez-se festança como jamais outrora Lubisonda conhecera, pese embora o fronteiro de tanta canseira e abatimento, cedo se recolhesse aos aposentos que Pero Fogaça lhe disponibilizava. A festa, porem, prolongou-se fora dos umbrais de Lubisonda. Depressa e célere correu pelas redondezas notícia de tão grandioso evento. De perto e de longe começaram a chegar grupos de ricos-homens e camponeses, uns ávidos de oferecer préstimos a D. Paio de Farroncóbias, outros apenas curiosos de ver ao de perto a temível espada a que os infiéis não resistiam.

Na manhã do dia seguinte, alta madrugada, D. Paio de Farroncóbias partia, à frente da sua mesnada. Esperavam-no em Trancoso os braços ternos, meigos e amorosos de Iluminata, sua doce e amada esposa.

Algum tempo depois, recebeu D. Paio de Farroncóbias notícias de que Afonso Henriques, como aliás era seu intento, reiniciara peleja com o rei de Leão, Afonso VII. A missiva ainda mais dizia que Afonso Henriques quebrara a paz de Tui, recusava-se a continuar a prestar vassalagem ao monarca de Leão e como se isso não bastasse invadira a Galiza. Corriam, no entanto, rumores de que D. Afonso VII entrara em terras portuguesas vingando-se, arrasando castelos e, descendo as montanhas do Suajo, dirigia-se para Valdevez. Deviam seleccionar-se os melhores cavaleiros e guerreiros portugueses. As ordens eram para que o alcaide de Trancoso, partisse de imediato, juntasse tropas pelas terras circundantes e comandasse a peleja, enquanto o príncipe não regressasse. O zeloso fronteiro e alcaide de Trancoso avisou, de imediato, todos os seus homens de Penas Róias até Guarda, para que se reunissem e recrutassem todos os jovens que por ali existiam e preparou-se para partir, com destino a Valdevez.

Iluminata chorava perdidamente. Ainda não havia muito que o seu esposo amado e guerreiro valoroso chegara de Ourique, para onde se ausentara durante meses e meses. Agora, partia outra vez. E ela ficaria novamente ali, fechada no castelo, dias e noites, sozinha, sem amor, sem paixão, sem os braços de seu esposo querido. Iluminata era muito nova. A paixão ardia-lhe no peito e os sentidos impeliam-na para a aventura. Amava e necessitava de ser amada

D. Paio de Farroncóbias, quer porque acedesse às lamúrias mais que justas de Iluminata, quer porque temesse seriamente o confronto com o rei de Leão, ordenou-lhe que, uma vez que se aproximava a festa de São Tiago, em Compostela e, além disso, era ano de indulgência plenária, se preparasse para uma romaria aquela cidade. Levaria lacaios e guardas que a protegeriam a ela e a todo o seu séquito.

Aprontaram-se as duas comitivas. A mesnada de D. Paio de Farroncóbias foi a primeira a partir. Depois a comitiva de Iluminata: “Era tudo gente de cavalo e ela ia montada em soberba mula branca, no meio de muitos pajens e donzelas. Trazia manto de ciclaton, guarnecido de pele de marta, suspenso do ombro direito por uma fíbula de oiro, gorjeira de topázios e berilos que luziam como sóis, e doidejava-lhe acima dos cabelos um penacho tremulante e furta-cores de gemas de aljofres. De envolta fraldejavam belas capas de pano ingrês, gorras vermelhas, saios de bom ruão dos cavaleiros, zorames da famulagem...”

Seguiram ambos destinos diferentes. D. Paio encaminhou-se para Valdevez, onde o esperava dura peleja com os exércitos de Afonso VII. Iluminata tomou o rumo de Compostela. Durante a viagem, porém, a comitiva encontrou um velho e um jovem que seguiam idêntico destino, caminhando em míseras condições. Eram Beltrasanas e Banaboião que também se dirigiam em peregrinação a S. Tiago de Compostela na mira de indulgência plenária. Caminhavam a pé, sem comida nem sítio para dormir. Viviam das esmolas que o povo das diversas aldeias por onde passavam lhes dava porque deles se apiedavam ou trabalhavam nos campos, rachavam lenha, cavavam uma horta, malhavam uma eirada, cegavam feno, roçavam o tojo ou aqueciam um forno de pão para em troca lhes ser dada comida. Dormiam aqui e ali, ao relento, em estábulos estrebarias ou grutas. Além disso sofriam injúria e vitupérios de outros viandantes. Vendo-os em tal estado de abandono e tão cansados da caminhada e do trabalho que diariamente executavam, Iluminata apiedou-se deles e integrou-os na sua comitiva, não tanto por piedade do velho mas sobretudo por sedução pelo jovem. Como levava muitas mulas e jumentos de reserva, ordenou que dessem uma burra ao velho Beltrasanas e um robusto cavalo ao jovem Banaboião. Além disso passou a alimentá-los e a dar-lhes guarida em ricas tendas. Os servos de Deus bem recusavam o que Iluminata lhes oferecia, porque pensavam que tais luxos e requintes não eram agradáveis aos olhos de Deus Nosso Senhor e além disso excediam as exigências que haviam imposto à sua promessa. Mas era a nobre dama, Iluminata, esposa de D. Paio de Farroncóbias que ordenava e os servos de Deus tiveram que aceitar, passando a usufruir de tais luxos e conforto.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 11:36

DÚVIDAS

Sexta-feira, 24.01.14

Durante o ano havia várias festas na vila. A maior era a festa em Honra do Divino Salvador. É que para além das celebrações religiosas havia muitas outras actividades que Mariana adorava. Na feira eram os carrosséis alguns destinados apenas às crianças, os artesãos expondo uma grande variedade de produtos artesanais e as barracas das farturas e de comes e bebes que proliferavam por toda a parte. A vila engalanava-se toda com bandeiras, luzes, arcos e balões. No domingo eram as celebrações litúrgicas que tinham lugar de realce. De manha missa cantada com sermão, com a Matriz a abarrotar de gente e de calor. À tarde era a procissão. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para a procissão do Divino Salvador nunca havia de faltar.

Os domingos eram dias diferentes, mas apenas da parte da manhã. As tardes, porém, eram ainda de mais labuta do que os dias de semana. Os pais reservavam para as tardes domingueiras os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara algumas tentativas de arranjar emprego nalgumas fábricas de móveis, que começavam a surgir por ali. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido por falta de qualificação. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego em Valongo e até no Porto, mas recusara-os. Os transportes eram muito caros e demorados, obrigando-o a sair alta madrugada e regressar a casa pela noite dentro. Assim ficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados propostos eram muito baixos, quase nem chegavam para os transportes.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada, lá nas Caldas da Rainha. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe lhe estava sempre a dizer que ela não nascera para princesa.

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publicado por picodavigia2 às 10:46

BONABOIÃO

Quinta-feira, 23.01.14

Enquanto o fronteiro, D. Paio de Farroncóbias, embainhava a espada, Pedro Fogaça aproveitava para se ir informando sobre as intenções de el-rei de Leão, D. Afonso VII, relativamente a uma possível aceitação da independência do Condado. O fronteiro esclareceu:

- D. Afonso VII está preocupado com as ataques do rei de Navarra e com a necessidade de os travar e impedir, por isso, não pode, pelo menos nos próximos tempos, atacar-nos. Foi essa a razão por que D. Afonso Henriques lhe prestou vassalagem e assinou com ele a paz, em Tui. Sabe muito bem o Príncipe que el-rei de Leão, nestes últimos tempos, não o atacará e, por isso mesmo, pôde voltar-se para sul, com o intuito de afastar os infiéis sarracenos e alargar as fronteiras do nosso Condado. E em boa hora o fez, pois com esta retumbante vitória, decerto que os sarracenos irão cessar, pelo menos durante algum tempo, os seus combates e o primo há-de temê-lo cada vez mais. A assinatura com D. Afonso VII de um Tratado de Paz e a vassalagem que lhe prestou, foram apenas estratégias, reveladoras da grande perspicácia do Príncipe, para conseguir obter uma paz periódica que permita uma investida a sul. Tratou-se de um tratado de interesses, ilustre Pero Fogaça, senhor de Lubisonda - e batia-lhe com a palma da mão nas costas, – de um verdadeiro tratado de interesses, ao qual de facto D. Afonso Henriques não se submeteu nem se submeterá jamais. Por isso, não desistimos, nem nunca desistiremos da independência deste Condado. Viva Portugal! Viva El-rei D. Afonso Henriques! Além disso, várias mesnadas de muitos ricos-homens se têm levantado contra os galegos. Há dois dias que me separei de sua Alteza, porque ele pretende voltar à Galiza, para exigir de Afonso VII a independência. Eu, amanhã, seguirei para a minha querida cidade Trancoso, a fim de impedir quaisquer levantamentos que por ali se façam.

Pernoitou D. Paio de Farroncóbias na humilde mas abastada casa do honrado Pêro Fogaça. O alcaide de Trancoso, ao entrar, foi recebido pelo filho de Pedro Fogaça, o jovem Banaboião que não cabia em si de contentamento, pois pela primeira vez via o temível fronteiro, esposo de Iluminata, que ostentava no rosto várias das vinte cicatrizes que lhe cobriam o corpo de guerreiro valoroso. Acolheram-no também a mulher de Pedro Fogaça, Aldonça e seu tio Gonçalo Guterres, vigário da Vacariça. Ao ser-lhe apresentado o clérigo, perguntou-lhe D. Paio se, por ter o mesmo nome, descendia da nobre e ilustre família de D. Hermínio Guterres que outrora fora adaião da Sé de Braga, seu confessor quando criança e que fora ele quem, ao lado do Arcebispo Primaz, D. Germano de Santamaria, o baptizara, na mesma Sé de Braga. Ao que o vigário Gonçalo Guterres respondeu afirmativamente, informando-o de que D. Hermínio Guterres, seu tio, morrera, aos noventa e cinco anos, com fama de virtude e santidade. O fronteiro vangloriou-se por estar na presença de uma família tão cristã e com tão grande luzimento de virtudes teologais.

Pero Fogaça, embevecido por tão sublimes elogios, retorquiu que fora já no pendor da vida tão repleto de bens que não os media nem os merecia, que nem conhecia ou sabia o que tinha de seu, mas que, durante muitos anos, grande desventura caíra sobre si e sobre sua esposa, a virtuosa D. Aldonça. Queixara-se, anos a fio, da esterilidade de sua esposa o que lhe pesava como praga ou castigo divino. Mas que enfim, Deus Nosso Senhor e Pai Omnipotente, não tanto em seu merecimento mas antes em sua misericórdia infinita e suprema bondade, se apiedara deles e que, tal e qual fizera outrora a Zacarias e Isabel que na sua velhice haviam concebido, gerado e criado o precursor messiânico - S. João Baptista, - também a ele e a sua esposa, a humilde e virtuosa D. Aldonça, fora dada a graça, não tanto por seus méritos e virtudes, mas por intercessão junto de Deus Padre Nosso Senhor e do seu muito virtuoso tio D. Hermínio Guterres, a graça de na sua velhice terem um filho varão, aquele jovem que ali estava, na presença do mui nobre cavaleiro - Banaboião. Deus amerceara-se deles e com alguma razão o fizera, pois servos de Deus mais submissos e obedientes ao Criador não os havia por Lubisonda e arredores. Davam esmolas aos pobres, cumpriam os mandamentos da Santa Lei de Deus e as determinações da Santa Igreja de Roma. A sua generosidade era tanta que poucos por ali não eram seus afilhados, repartindo com todos os seus bens e haveres

Banaboião ajoelhou-se diante do nobre cavaleiro e este colocando-lhe a mão de guerreiro experiente sobre o ombro interrogou-o de seus intentos bélicos e a vontade de o seguir na sua mesnada.

Pêro Fogaça logo se antecipou, informando-o de que sua estimada e casta esposa Aldonça em seu desespero de esterilidade prometera vezes sem conta a Deus, à Virgem e aos Santos de suas devoções, que a ter um filho varão ele havia de consagrar-se ao Altíssimo e subir o altar para celebrar os santos mistérios. Mais acrescentava o generoso e honesto mercador que sempre se opusera a tal sacrossanta intenção, sabendo mesmo que poderia ofender a Deus Nosso Senhor e que por sua vontade Banaboião havia de seguir era a carreira de mercador, dando continuidade aos seus negócios como ele dera aos de seu pai e este aos de seu avô, sempre com honra, dignidade e a mais nobre solicitude. Um filho que Deus lhe desse, haveria de continuar-lhe os negócios. Porém se a promessa de Aldonça se concretizasse e Banaboião subisse ao altar teria na mesma a sua bênção. Aldonça rogara-lhe pela sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que não afastasse o filho do regaço materno, não o deixasse seguir para Salamanca, nem sequer o mandasse tirar graus com os Cónegos de Santa Cruz, nem muito menos o iniciasse nas lides comerciais, apagando-lhe os fulgores da vocação religiosa. Por isso o afastava de todo o convívio com o sexo feminino, exceptuando-se sua mãe e a jovem Ximena, casta e pura como cecém.

Banaboião corou.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 16:27

O PRINCÍPIO

Segunda-feira, 20.01.14

Quando o Belarmino terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam as inúmeras dificuldades que havia sentido ao longo do percurso que agora terminava e que, a muito custo, se orgulhava de ter ultrapassado.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe. Impunha-se-lhe, como a outros da sua idade, o destino de ficar ali, na ilha, vergado ao peso da enxada, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, condenado aos trabalhos inerentes a uma mísera agricultura de subsistência.

Cedo, porém, tentou libertar-se. Mas não foi fácil. Eram os entraves paternos, afirmando que trabalho digno de tal nome só o agrícola e eram os irmãos, acomodados às lides dos campos, que teimavam em contrariar adegeneração do último rebento.

Foi a D. Ilda, que o acompanhara desde a primeira classe e que não cessava de louvar a inteligência do garoto, que demoveu o pai da sua persistente teimosia. Era o Bernardino  a caminho do Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia, e os irmãos de enxada às costas e foice na mão, a percorrer os íngremes caminhos da Eira-daQuada e dos Lavadouros.

 Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros ainda mais se agarravam à rabiça do arado e às enxadas, que agora não era só o sustento da casa... Não era bem aquilo que o Bernardino queria mas Universidade nos Açores era um mito...Quem optasse por estudar tinha apenas duas alternativas: o Magistério ou o Seminário. A escolha, para o Belarmino, foi inequívoca.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão... Livros emprestados... Gastos supérfluos, nem pensar... Além disso, pesavam  constantemente, as ameaças  paternas:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e nos Paus Brancos!...

Nas férias, matava-se a trabalhar. Os outros atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos mais cheios, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vida que levas durante o inverno.

Chegou o fim e com ele o concurso. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar as ilhas, até porque a família também o faria, partindo, em breve para a América, resolveu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com  o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais miseráveis  e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge...

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade, até que as listas saíssem. Saíram... No átrio da Delegação Escolar da Horta, os recém-formados acotovelavam-se, na ânsia da certeza duma colocação. Como era impossível ver fosse o que fosse, o Gregório ia apregoando:

- Judite Maria Ferreira Borges – Barro Branco, Graciosa.

- Manuel Belarmino Rodrigues - Sazes de Lorvão.

O Belarmino ficou branco e mudo.

- Marão?! Isso é em Trás-os-Montes, eu bem te dizia... – balbuciou a Graça

- Não é Marão, é Lorvão, Sazes de Lorvão, Penacova – esclareceu o Gregório, perante a indignação dos que ainda não tinham ouvido o seu nome.

À volta ninguém sabia onde ficava.

- Lá sítio bom, não deve ser - comentava uma outra colega. – Pelo nome... Antes a Fajã da Sanguinha em S. Jorge ou a Ponta da Achada em S Miguel...

Foi o Guedes, que pondo-lhe o braço sobre o ombro, aconselhou:

- Calma Bernardino! Olha que não deve ser tão mau como isso... Acho que Penacova fica perto de Coimbra. Mas quem te pode informar melhor é o professor de Didáctica, o Dr San-Bento. Ele é de Coimbra.

E foi o Dr San-Bento que o esclareceu e acalmou. Que sim senhor, que tinha tido uma grande sorte. Penacova era uma terra linda e maravilhosa, pertinho de Coimbra, aí a uns 20 quilómetros...  Que era uma terra de sonho, de encanto paisagístico e de história, sobretudo de história, o que era mais importante do que a beleza paisagística. Era lá que ficava o mosteiro de Lorvão. Além disso, afirmava o Dr San-Bento que o povo era extraordinário e hospitaleiro. Que ele ia adorar. Depois interrogava:

- Foste colocado mesmo em Lorvão?

- Em  Sazes de Lorvão...

- É lá perto – acrescentava o Dr San-Bento. – Sazes de Lorvão fica a uns dez quilómetros de Penacova. Também é uma terra muito bonita, embora não tenha uma história tão viva como Lorvão. Mas terás muitas oportunidades de vir a Lorvão e ver o admirável monumento que é o mosteiro de Santa Maria, um convento de grandes tradições históricas, de grandes lendas, fundado muito antes da nacionalidade, mas que teve, também, um papel importante na consolidação desta. Depois há pormenores interessantíssimo, que não podes esquecer quando lá fores. No sec. XII, os frades foram expulsos e  o mosteiro foi ocupado por monjas, sob as ordens da Infanta D. Teresa, filha do nosso rei D. Sancho I. Ora existe lá um pluvial ou capa de asperges, daquelas que os só os padres e os bispos usam, que é a única que existe no mundo usada, oficialmente, por uma mulher, a abadessa do mosteiro. Usava-a por privilégio especial, concedido pelo papa, ao mosteiro. Outro pormenor interessante é o coro, separado da igreja por uma formosa grade de ferro, e que possui um magnífico cadeiral, constituído por cem cadeiras, o que também é recorde nacional. É um monumento fabuloso.

O Dr. San-Bento ainda acrescentou que se tratava dum concelho rural, mas muito desenvolvido e de grande atracção turística, com muito artesanato, com destaque para os palitos de Lorvão e que o concelho constituía um polo de interesse paisagístico muito interessante. Era atravessado pelo rio Mondego, predominando as culturas da vinha, do milho e da batata e a criação de gado suíno.  E que ele iria encontrar crianças muito dóceis e amáveis. E, despedindo-se, concluiu:

- Terás óptimas condições para iniciar o exercício do magistério da melhor forma. Vais ter um princípio ideal. E é isso que te desejo.

A pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, amigo do filho, veio receber o Bernardino a Coimbra e levou-o a Penacova, com a recomendação de, o mais cedo possível, realizar um périplo que o levasse à descoberta do concelho. Fê-lo no próprio dia.

Partiram de Coimbra, entrando em Penacova pelo Caneiro. O Rodrigo cedo se mostrou um excelente cicerone:

- O concelho de Penacova, começa aqui. Esta aldeia pertence a Lorvão – e acrescentava – Mas vamos primeiro dar uma volta pela vila, até Oliveira ou Friúmes e depois, então, vamos para a freguesia, onde vais principiar a trabalhar.

Aos olhos do Bernardino, porém, apresentava-se uma paisagem deslumbrante e bela. Serpeando um profundo vale, ladeado pela serras da Aveleira e de Gavinhos, entre um verde muito verde, salpicado de manchas brancas aqui e além, descia calmo, sereno e esverdeado, o Mondego. Nas encostas mais baixas campos cultivados, entrelaçados com pequenas habitações, protegidos por enormes pinhais perdendo-se e confundindo-se com o azul do firmamento. Depois os penhascos desérticos, sem o branco dos casarios, mas com um verde quase mítico. Mais além, casas isoladas, como que perdidas no verde da floresta. Seguindo sempre ao lado do rio, cedo apareceu Rebordosa, com as suas casas espalhadas por uma encosta verdejante, como que a empurrar o Mondego, obrigando a mais uma curva, a proporcionar aos campos de milho e às vides que se alargassem e estendessem mais facilmente pelo vale.

- Esta estrada dá para Lorvão – explicou o Rodrigo. – É perto. E dá para Sazes, mas a estrada por Penacova é melhor e passamos junto aos célebres moinhos de Gavinhos.

Penacova não tardou a aparecer, enquanto o Mondego, lá no fundo do vale, persistia em acompanhá-los. O casario agora concentrava-se mais, sobretudo na margem direita do rio.

 O Rodrigo, vendo-o cada vez mais entusiasmado, à medida que ia apreciando as belezas maravilhosas da paisagem que surgiam em cada curva da estrada, explicava:

- Penacova, como o nome indica, é uma terra de contrastes e contradições. Porque é ao mesmo tempo altura e cova. Vista daqui de baixo é altura, nos penhascos e montes que a rodeiam enquanto vista de lá de cima é uma cova.

E a viagem continuou pelos miradouros de Emídio da Silva e do Penedo do Castro. Aí o Bernardino exclamou:

- Deslumbrante, meu amigo! Se a beleza suprema existe, ela está aqui!

- Bom - comentava o Rodrigo – isto dito por um açoriano é digno de crédito...

Depois do passeio a pé por algumas ruas típicas de Penacova, deixando o Mondego por algum tempo, dirigiram-se para Riba de Baixo, Miró, Vale Maior e depois para  Friúmes,  junto ao rio Alva. De regresso a Penacova, o Rodrigo ia explicando que mais a norte ficavam outras freguesias também de muito interesse: São Pedro de Alva, a terra onde nasceu o Presidente da República Dr. António José de Almeida, Paradela, Travanca, S. Pedro de Alva, S. Paio e Oliveira. E acrescentava:

- Antigamente, estas duas freguesias chamavam-se Oliveira de Farinha Podre e S. Paio de Farinha Podre. Mas o povo não gostava de tais nomes e conseguiu que o governo os mudasse. Parece que antigamente havia aqui um concelho com esse nome. Em Oliveira fica a barragem de Raiva. Antigamente havia lá um porto, quando rio era navegável. Mais acima, já fora do concelho, fica outra barragem, a da Aguieira.

O Sol começava a descer e a tarde aproximava-se do fim. Regressando a Penacova o Rodrigo propôs:

- O melhor é irmos até Sazes. Hoje não temos tempo para mais. Terás muitos dias para descobrires e conheceres o resto do concelho.

E meteram pela estrada do Buçaco. Pouco depois Midões. Viraram à esquerda. Surpreendentemente surgiu Sazes de Lorvão. O Bernardino exclamou, emocionado:

- Por mais terras que conheça, por mais escolas onde trabalhe, nunca esquecerei este dia em que cheguei àquela terra que marcará, para sempre, o princípio da minha vida profissional – Sazes de Lorvão!

À sua frente surgia-lhe uma aguarela maravilhosa: o verde das hortas e dos campos entrelaçado com as casas brancas, verdes, azuladas, separadas por ruelas e caminhos, à volta da pequena igreja de Santo André, que se impunha silenciosamente, com a sua torre sineira. Depois a ribeira de Sazes, mais campos, mais hortas, mais vides e sobretudo mais verde. Finalmente ao fundo, ainda mais verde, a imensa floresta, anunciando a serra do Buçaco.

O Rodrigo já lhe havia garantido alojamento. Mas foi depois de se despedirem, quando ficou só, que o Bernardino entendeu verdadeiramente que começara ali o princípio da nova etapa da sua nova vida, como professor.

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publicado por picodavigia2 às 00:15

O DESCANSO DO GUERREIRO

Domingo, 19.01.14

D. Paio de Farroncóbias, fronteiro de D. Afonso Henriques, chegou a Lubisonda, sem que ninguém o esperasse. Por isso, logo que a sua comitiva ultrapassou a muralha, começaram a sair dos humildes casebres, homens, mulheres e crianças, com ar de espanto e susto. De repente as ruas e praças encheram-se de povo que aclamava os guerreiros, congratulando-se com a sua chegada e orgulhando-se de acolher aqueles que haviam lutado ao lado do seu valoroso príncipe. Era ali, na humilde vila de Lubisonda que iriam pernoitar os heróicos guerreiros que haviam acompanhado o glorioso príncipe na batalha de Ourique.

Lubisonda era agora um mar de gente. Os guerreiros haviam-se reunido numa pequena praça, em frente ao templo românico, com um portal de arco redondo e paredes escuras, cujas portas se haviam aberto. Os sinos repicavam festivamente, como se de grande festa se tratasse. Ao lado, do templo e da meia dúzia de casas de ricos-homens erguia a mansão do honrado Pêro Fogaça. Era uma casa enorme e esbranquiçada, a contrastar com o escuro do templo e dos casebres de Lubisonda. A frente, voltada para uma pequena praça, era precedida de um ádito e rodeado por um muro coberto de heras, begónias e robínias, rasgada por diversas janelas e duas enormes portas. A maior abria-se apenas em dias de grande solenidade e dava para um corredor escuro e comprido, ladeado por portas que conduziam aos quartos e salas. Ao fundo, do lado direito de quem entrava, uma enorme sala, com uma mesa monumental, onde eram servidos os lautos banquetes durante as festanças em que o quotidiano do honrado comerciante era profícuo. Do lado esquerdo a cozinha.

Foi este pequeno palacete, que D. Paio de Farroncóbias de tanto cansaço de peleja e viagem, decidiu escolher para pernoitar. Pêro Fogaça e os restantes habitantes da aldeia não cabiam em si de contentamento. A alegria do comerciante, no entanto, ultrapassou em demasia a dos restantes lubisondenses e excedeu todas as limitações, quando soube que D. Paio de Farroncóbias escolhera para pernoitar a sua própria mansão. Há muito que ali se contavam os feitos vitoriosos do famoso conquistador, flagelo dos infiéis, ilustre fronteiro do ditoso príncipe, as suas vitórias sobre os infiéis e as suas investidas, cada vez mais intensivas, para libertar o Condado Portucalense do jugo do monarca leonino e transformá-lo em reino independente. Agora, era a fama da vitória de Ourique que se espalhara por todo o condado e que também já havia chegado a Lubisonda.

Ainda o fronteiro e o seu séquito não tinham ultrapassado os umbrais da pequena fortaleza que rodeava Lubisonda e já alguns ricos-homens, à frente dos quais estava Dom Pero Fogaça, vieram recebê-lo. Foi o marido de Dona Aldonça e pai do jovem Banaboião quem primeiro se aproximou de D. Paio e, ajoelhando-se a seus pés, com humilde espontaneidade, gritou:

- Meu senhor! Ilustre fronteiro do Rei de Portugal, sede bem-vindo a Lubisonda!.

Os outros aclamaram de imediato:

- Viva o nosso rei! Viva D. Afonso Henriques, rei de Portugal. Viva D. Paio de Farroncóbias, seu ilustre guerreiro.

Ao ouvir pronunciar aquelas palavras de exaltação do seu amo e senhor, D. Paio de Farroncóbias encheu-se de regozijo e contentamento Depois da vitória em Ourique, aquelas palavras repetiam-se como que por eco e magia. Até então, excepto os que estavam em Ourique, nenhum vassalo ou habitante do condado portucalense, tratara o príncipe de tal forma. E agora ali, aquele povo humilde fazia-o com tamanha espontaneidade e sinceridade como eles próprios o haviam feito em Ourique. Por isso, de ouvi-los, o coração do foreiro encheu-se de júbilo e regozijo. Assim, D. Paio de Farroncóbias, manifestando a sua alegria, contava-lhes como depois daquela gloriosa batalha, na qual para além da força e do valor dos seus homens, o príncipe recebera a protecção e ajuda de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhe aparecera em sonhos, pregado na cruz, sangrando nas suas cinco divinas chagas. Foi tanta a emoção que o esposo da senhora de Cangas e de Freixomil sentiu ao ouvi-lo que, D. Paio de Farroncóbias, aproximando-se, abraçou-o fraternalmente, não permitindo que permanecesse ajoelhado por mais tempo a seus pés. Depois fixando-o seriamente, disse-lhe:

- Honrado cidadão de Lubisonda, D. Paio de Farroncóbias. Foste o primeiro, depois de mim e dos outros valentes guerreiros que com o príncipe combateram em Ourique, que nestas terras portucalenses, tiveste a coragem e a honra de chamar ao valoroso príncipe, rei de Portugal. E tendes razão. Como sabeis, desde há muito que ele deseja ser rei. Não é loucura, é força, vontade e luta. Agora, depois desta retumbante vitória sobre tão vis infiéis, até porque eram muito mais numerosos do que nós e comandados por cinco reis, posso de facto e com verdade, eu um humilde servo do príncipe meu senhor, orgulhar-me também de lhe chamar rei de Portugal e louvar-vos-ei por isso, porque afinal, ele próprio assim já se intitula – D. Afonso Henriques, rei de Portugal. Na realidade só um verdadeiro rei poderia lutar contra cinco reis mouros e derrotá-los copiosamente. Tendes razão, Dom Paio. A partir de agora todos devem reconhecê-lo e aclamá-lo rei, inclusivamente seu primo D. Afonso VII, rei de Leão e Sua Santidade o Papa Celestino II, Sumo Pontífice da Santa Igreja Católica de Roma. Ambos serão obrigados a reconhecê-lo como rei, em breve. Peço-te, agora, que me conduzas à tua casa, e me dês guarida, se isso te apraz, a mim e ao meu servo e fiel escudeiro Gesismundo, durante uma noite. Peço-te que arranjes ainda abrigo para estes valorosos guerreiros da minha mesnada. Amanhã, ao romper do dia, retomaremos a nossa caminhada até Trancoso. O nosso destino, agora que a moirama está assustada e não voltará a atacar-nos tão cedo, é o reino de Leão. Afonso VII vai ser forçado a reconhecer Afonso Henriques, rei de Portugal e a conceder-lhe a independência, transformando este condado num reino independente como já o são Aragão e Navarra – o Reino de Portugal. Se o não fizer de bom grado há-de fazê-lo por força desta espada.

E tirando a espada da bainha, desenhava com ela no ar movimentos convulsivos e maquinais como se estivesse a lutar.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 15:22

TIA JACINTA

Terça-feira, 14.01.14

Eu nasci na Ribeira Grande, ilha de São Miguel, no início da década de trinta do século passado. Nasci numa sexta-feira e tanto gemi, chorei, gritei e berrei, que sendo a casa dos meus pais situada ao lado da igreja, até o senhor padre-cura se admirou e espantou de tão grande escarcéu. Cresci e calcorreei caminhos, atalhos e veredas, pezinho descalço, saca de serapilheira a tiracolo, na demanda da escola. Ainda criança, fui, várias vezes, a Vila Franca, com a minha avó, santa e bondosa velhinha que, temendo ser assaltada por ladrões, ao atravessar a ilha, levava sempre consigo a tranca da porta da sala, feita de marmeleiro rijo. Ladrão que lhe aparecesse pela frente era desancado debaixo a cima, mas, nos momentos de tréguas, eu aproveitava para, na brincadeira, me escanchar em cima da tranca, imaginando que ela era meu cavalo de verdade. Vila Franca, à altura, era terra próspera, produtiva e rica de toda a espécie de animais, sobretudo galinhas, patos, porcos e até macacos, estes trazidos da África por soldados da marinha, em barcos que ali ancoravam, de vez em quando.

Cresci e namorei a moça mais bonita da minha rua. Mas de tão bonita que era muitos outros rapazes por ela também se apaixonaram. Foi grande a confusão, por isso decidi ir casar às Capelas. A mulher com quem casei não era tão bonita como a primeira mas era bela de modos e costumes e tinha um coração de ouro. Essa a razão por que recebi parabéns pelo casamento que fiz, por parte de muitos parentes, amigos e conhecidos Até uns primos que viviam bem distantes, numa das Fajãs de São Jorge, me enviaram um telegrama de felicitações.

Mas a minha vida em São Miguel não me agradava, sobretudo depois da minha sogra se desentender comigo. Ela que até parecia uma raia, foi morar para a Lomba da Maia, mas tinha-me tanta reixa que resolveu ir fazer queixa de mim ao tribunal da Povoação. A todos chamava canalha e antes que mo chamasse a mim, decidi, no final da década de quarenta, vir morar para Lisboa. A guerra havia terminado, mas deixara marcas terríveis na vida, nos costumes e sobretudo na economia da cidade.

Ora, certo dia, necessitando eu, urgentemente, de uns calções, não os encontrei à venda em toda a cidade de Lisboa e, pior do que isso, não havia quem os fizesse. Soube então que em Sintra, havia uma sábia e experiente costureira, conhecida pela “Tia Jacinta” que era mui hábil na manufacturação dos ditos cujos. Desloquei de Lisboa a Sintra, a casa da famosa “Tia Jacinta”, na mira de lhe encomendar uns calções. Medidas tiradas, preço acertado e marcada a data em que eu havia voltar a Sintra, regressei a Lisboa e, na data combinada, voltei a Sintra. Recebi o embrulhinho contendo os calções e paguei.

Qual não foi o meu espanto quando, ao regressar a casa, ao vesti-los verifiquei, que eram completamente fechados à frente, sem braguilha ou qualquer outro tipo de abertura. Furioso, regressei a Sintra, reclamando junto da tia Jacinta que era inadmissível que me tivesse feito uns calções, esquecendo-se de uma abertura, à frente, para as minhas “precisões”:

Resposta imediata da experiente e douta Tia Jacinta, que pelos vistos até costurava calções e outras indumentárias para o Marechal Carmona e para outras altas figuras da sociedade lisbonense da época:

- Ai, menine! Caredo! Qu’ingnorância a sua! Ei nã m’esqueci d’abertura ninhua. Vê-se logue que o menine veie duis Açores há pouque tempe! Antão o menine ainda nã sabe c’aqui, a moda agora é ui sinhores de Lisboa fazerim as suas precisães mesme incoirinho.

Só então percebi que afinal a tia Jacinta também era natural dos Açores e, a julgar pelo seu falar, muito provavelmente, seria da ilha das Flores. E regressei, feliz com os meus calções, prometendo à tia Jacinta que, a partir de agora, em todas as minhas “precisões” havia de seguir, sempre e com rigor, o exemplo dos senhores de Lisboa.

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publicado por picodavigia2 às 20:32

SONHO MEDIEVAL

Segunda-feira, 13.01.14

Quando terminei a leitura do “S. Banaboião, Anacoreta e Mártir” de Aquilino estava exausto. Recostei-me, no sofá e, de seguida, adormeci.

Pouco depois, deambulava, a custo e timidamente, por um caminho ermo e solitário, ladeado por árvores gigantescas e sombrias. Aqui e além, alguns transeuntes, mudos, de olhar esbugalhado e ansioso, embrulhados em farrapos acinzentados, amparando-se a grossos bordões, caminhavam vagarosamente. O caminho aos poucos ia-se tornando mais apertado e esconso, até que terminava. À minha frente uma enorme muralha. Trepei-a a custo. Lá dentro um povoado vetusto e escuro sob um céu pardacento e acinzentado. A toda a sua volta a alta e grossa muralha que eu acabava de transpor, como que protegendo e defendendo os pequenos e esconsos casebres. No centro e à volta da minúscula igreja também escura, umas casas maiores e esbranquiçadas. As ruas eram estreitas, enviesadas e estavam quase desertas.

Nesse preciso momento, do lado contrário ao que me encontrava, pela porta de armas, entrou uma mesnada de besteiros. Reconheci de imediato D. Paio de Farroncóbias, que regressava de Ourique, onde tinha combatido, ao lado de D. Afonso Henriques, ainda jovem e, embora contrariado, súbdito de Afonso VII de Leão. Desde há algum tempo que D. Paio de Farroncóbias lutava ao lado do príncipe, quer contra os infiéis sarracenos que teimavam em não o deixar alargar as fronteiras do seu condado para sul, quer contra o rei de Leão, na tentativa de obter definitivamente independência do Condado.

As hostes afonsinas regressavam apressadamente para norte. Vinham desfalcadas e a arfar de cansaço mas felizes. O príncipe, os fronteiros, os ricos-homens e senhores de pendão e caldeira, chefes de mesnadas, cavaleiros, peões e peonagem caminhavam exaustos mas plenos de regozijo e satisfação. Esmar, rei de Santarém, juntamente com outros quatro reis havia sido derrotado, no dia 25 de Julho, dia do glorioso mártir São Tiago, sem apelo nem agravo, em Ourique, numa memorável batalha, em que o inimigo incluía no seu ciclópico exército forças conjuntas das praças mouras de Sevilha, Badajoz, Évora e Beja, para além das de Santarém.

A viagem, de regresso, havia sido longa e o destino dos guerreiros, ao chegar a Coimbra, fora diferente. O príncipe D. Afonso Henriques encaminhava-se apressadamente para o Minho. Alguns tempos atrás havia como que sido obrigado a suspender a peleja contra Afonso VII e a curvar-se perante aquele monarca, assinando, com ele, um tratado de Paz, em Tui, desistindo, assim, das pretensões de se tornar rei independente, prestando vassalagem ao suserano de Leão. Fizera-o, no entanto, apenas por razões de ordem político-militar. Os mouros atacavam forte a sul. Daí a suspensão das hostilidades a norte e o empreendimento de Ourique do qual, agora, regressava vitorioso.

Como, no entanto, alguns barões da Galiza leonesa se tivessem sublevado contra o rei de Leão e demandassem o condado, o príncipe ordenou a D. Paio de Farroncóbias, por ser o seu homem de confiança, que se separasse da comitiva, a partir de Coimbra. O príncipe seguia pelo litoral, pelo Porto e Guimarães, com a maioria das tropas, enquanto ele, D. Paio de Farroncóbias, seguiria por Viseu, até Trancoso.

Encaminhava-se, pois, D. Paio de Farroncóbias, com a sua mesnada, para Trancoso. Aquela era uma das várias noites em que durou a longa viagem. Cansada da viagem e sobretudo da guerra, a comitiva bélica de D. Paio havia sido forçada a pernoitar em Lubisonda

 

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publicado por picodavigia2 às 07:57

A RAZÃO DE SER

Domingo, 12.01.14

O Aires entrou no “Margem Direita” e sentou-se sozinho. O empregado demorou a trazer-lhe o café e isso obrigou-o a acender um cigarro. Finalmente, o moço, meio a olhar para a televisão, meio a olhar para a rua, dirigiu-se, lentamente, para a mesa, poisando-lhe em cima a chávena, assinalada pelo “Sical”. Contrariado, esmagou o cigarro quase inteiro, desfazendo-o na borda amarelada do cinzeiro. O café esfriara, mas tomou-o assim e sem açúcar. Por fim afastou a chávena a pingar de borra e acendeu outro cigarro, enquanto aguardava, pacientemente, uma vaga para o jornal. Todos os dias a mesma encenação!

Olhou ao redor. Um tipo, já de idade avançada apoderara-se do jornal, açambarcava-o como se fosse seu, usufruindo, regaladamente, toda a informação ali contida. Pairava agora, no ar, um silêncio enigmático, entrecortado apenas pelo som da televisão e pelo roncar dos carros que transitavam na rua. O empregado estagnara, de há muito, junto ao balcão, à espera de clientes. Entravam espaçados. Um agora, depois outro e finalmente um terceiro. Tomavam um café ao balcão, acendiam um cigarro e saíam. E o Aires acabou por ficar outra vez, sozinho, com o empregado e o homem que se assenhoreara do jornal e nunca mais o largava. Hesitou entre ir-se embora ou esperar. Aparentemente a leitura aproximava-se do fim; o tipo já ia nas páginas dos anúncios. O empregado continuava estagnado e indeciso, junto ao balcão De vez em quando, pegava no comando da televisão e ia mudando de canal. Depois vinha à porta e voltava para junto do balcão, num redemoinho lento e indeciso.

Finalmente, o homem desembaraçou-se do jornal. O Aires levantou-se, de rompante, na tentativa de o capturar. Porém o empregado, adivinhando-lhe a intenção, antecipou-se e colocou-lho, prazenteiramente, sobre a mesa, num gesto já estudado e com o qual denunciava uma vontade mal ensaiada de agradar aos clientes.

Agora era o Aires o dono e senhor de toda aquela informação, o detentor do que se passara no país e no mundo. Folheou páginas a fio. Leu tudo e não leu coisa nenhuma. A maioria das manchetes e dos títulos revoltavam-no: “Criança recém-nascida abandonada em contentor”, “Senhora assaltada em plena rua”, “Idosa violada e roubada”, “Escola sem pavilhão”, “Falta de chuva preocupa os agricultores do Alentejo”, “Mais de cem trabalhadores da Pedauto despedidos”, “Governo de costas viradas para os Sindicatos”, “Tiroteios aumentam na Tchechenia”, “ Liberdade para Pinochet”... Cansou-se depressa... Suspendeu a leitura... Olhou, através da montra enevoada e sentiu uma enorme revolta...

Voltou ao jornal. Saltou colunas, desfolhou páginas e nem olhou para os anúncios. Por fim optou pelas notícias regionais, “De Norte a Sul”, naquelas páginas onde se percorre o país de lés-a-lés, onde se relata o mais ínfimo pormenor do que se passa na mais pequena e recôndita aldeia do país. Saltava de título em título, de coluna em coluna e de página em página, como se, numa viagem fantástica, percorresse todas as vilas e aldeias de Portugal. Eram notícias sucintas, mas algumas prenderam a sua atenção. Curiosamente sentiu que havia um tema que se repetia página após página, coluna após coluna e fixou-se aí, sem saber porquê... Talvez porque andasse com a ideia de escrever uma história para os Jogos Florais de Ílhavo, cujo regulamento recebera dias antes. Agarrou-se mais firmemente ao jornal e fixou-se mais na leitura dos pequenos títulos que curiosamente se repetiam quase sem cessar: “Banda prepara procissão da festa da Sra da Ventura, em Ciradela”... Mais abaixo: “Procissão do Sr da Graça não sai por falta de Banda”, e logo a seguir: “Banda dos Bombeiros de Viatodos acompanha procissão dos Capuchos” e ainda: “Pároco contra Banda, por causa da procissão da Fradela”. Na página seguinte voltava ao tema: “Em Vila Gariz, o povo revolta-se contra procissão sem Banda”; mais abaixo: “Banda de Tabuado na procissão dos Passos”; e, no canto inferior esquerdo, em espaço ainda mais reduzido: “Em Juncal, povo revoltado! Sem Banda não há procissão”. Finalmente a última página das regiões referia: “Procissão da Ventura, pela primeira vez sem Banda”, e, por fim, “Banda de Ferraz na procissão do Terço”...

Saltou para a página de “Opinião”. Novamente um título lhe chamou a atenção: “Bandas Musicais, um património a defender”. Interessou-se e começou a ler aqui e além, o que mais lhe prendia a atenção: “...Desde os tempos mais remotos que a música andou associada a todas as manifestações festivas do homem, quer no aspecto religioso, quer no profano... A música está pois inerente a toda a vida humana, quer no seu aspecto lúdico, quer no religioso, quer até no social, cultural e, porque não, no laboral. Por isso mesmo, ela não pode ser apenas património de artistas e intelectuais ou de grandes cidades ou centros populacionais onde a vida cultural é mais intensa. Ela também pertence ao povo humilde, talvez mesmo analfabeto, das pequenas aldeias e dos lugares mais recônditos, mas que têm uma sensibilidade e um gosto musical, como os grandes génios da música, embora se manifeste de forma muito diferente e atinja outros objectivos... As Bandas de Música, em muitas localidades também chamadas Filarmónicas, são uma das formas de preservar esta riqueza cultural do nosso povo. A sua criação resulta, geralmente, dum conjunto de esforços comuns, dum trabalho de grupo, por isso mesmo elas têm também uma componente social muito grande, pois congregam esforços e sacrifícios, para que representem dignamente a comunidade em que estão inseridas. É sobretudo nas pequenas aldeias, onde infelizmente rareiam os espectáculos e as realizações culturais e entre povo simples e humilde, mas dotado de grande sensibilidade e riqueza musical, que as Bandas Musicais são a expressão mais pura duma verdadeira cultura musical. Elas permitem, também, uma aproximação das pessoas, uma conjugação harmónica de valores e interesses, indiciam uma notável forma de cultura popular e permitem uma procura acentuada de padrões de interesse comum...” Saltou mais umas linhas... Mais adiante: “...É sobretudo nas festas e arraiais populares que esta riqueza cultural se manifesta, mas é nas fervorosas procissões de cada festa religiosa que ela tem o seu epicentro...” Por fim, concluía o articulista: ”Banda e procissão, um binómio que a cultura popular enraizou e desenvolveu, que agregam e conjugam um sensibilidade artística, uma criatividade espontânea e uma fé inaudita.”

- Bom – respirou o Aires, fechando e dobrando pausadamente o jornal – e eu a cismar que o tema escolhido para os Jogos Florais de Ílhavo não tinha razão de ser!...

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publicado por picodavigia2 às 22:40

O MITO DE ALVALADE OU A RAZÃO DE O RIO SADO CORRER DE SUL PARA NORTE

Domingo, 05.01.14

 Os romanos chamaram-lhe Calipus, os árabes Xâter e os portugueses Sado. Nasce na serra do Caldeirão, passa ao lado de Ourique, correndo para oeste, na direcção do mar. Ao chegar à vila de Alvalade, porém, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

A explicação desta suposta irregularidade fluvial, poderá justificar-se assim. Segundo um mito pre-Abbevilense, Eros, filho de Erebo e da Noite, força suprema, invisível e omnipotente, elemento primordial do universo, ter-se-á, certo dia, envolvido de ternuras e amores com Afrodite, atraiçoando Caos, sua natural e originária companheira, dona e senhora do espaço sobrenatural e infinito. Desta adúltera relação nasceu Saláceo.

Para proteger o filho das iras de Caos, Eros e Afrodite esconderam Saláceo num bosque, situado numa pequena serra alentejana, precisamente naquela que hoje é denominada por serra do Caldeirão. Caos, no entanto, descobriu o embuste. Furiosa, quis vingar-se. Para isso procurou o ilegítimo rebento, escondido nos barrocais e contrafortes do Caldeirão, transformando-o num pequeno e ténue fiozinho de água, que, brotando daquela serra, começou a correr, lenta e vagarosamente, ao longo da enorme planície alentejana, dirigindo-se para o Oceano, onde seria totalmente destruído e desfeito, para desespero dos seus progenitores.

E o jovem Saláceo, alheado das intenções malévolas de Caos, iniciou, alegremente, o seu percurso a caminho do mar, descendo encostas e barrocais, perdendo-se entre florestas e barrancos, atravessando campinas e prados, seguindo o destino que, maquiavelicamente, lhe fora imposto: caminhar em direcção à sua própria destruição.

Porém., ao chegar à enorme planície que hoje abrange as terras de Alvalade, surgiu-lhe a caminho o jovem Aladde, filho do Oceano e duma Nuvem, disposto a salvá-lo, impedindo-o de continuar, o caminho para o Oceano e, consequentemente, para a sua própria destruição.

Os ódios de Caos, porém, voltaram a acender-se e a incendiar-se. Os dias tornaram-se escuros e as noites trevas contínuas e, sobre a face da terra começaram a cair, incessantemente, durante quarenta dias e quarenta noites, chuvas diluvianas, que encheram os lagos e fizeram transbordar os rios. As águas do Oceano também se revoltaram e, transformando-se em ondas gigantescas, mais altas do que árvores e maiores do que montanhas, ameaçavam, impiedosamente, galgar e destruir a Terra. Estas ondas, acompanhadas de tumultos estrondosos e do ribombar de trovões, invadiram a Terra, na ânsia de a engolir, desfazendo-se e misturando-se à restante água que cobria a outra parte da superfície terrestre, em horrível tremedal. O Oceano transformou-se, assim, num terror infinito e a terra foi condenada a uma destruição total.

Mas Eros não desistiu e voltou a tentar salvar Saláceo das iras ameaçadoras de Caos. Para isso, chamou Aladde, que vivia desesperado. Eros atribuiu-lhe a incumbência de ordenar, acalmar e a apaziguar todas as águas existentes sobre superfície da terra alentejana – dos lagos, dos rios e das fontes - permitindo assim que a calma e a tranquilidade voltassem à superfície da Terra e Saláceo fosse salvo.

Aladde bem tentava pôr termo a estes horrores e a estas ondas destruidoras, ignorando o destino da enorme planície, agora transformada em medonho escarcéu, quase condenada à destruição, mas sentia-se impotente para dominar aquelas forças que destruiriam tudo, incluindo o jovem Saláceo. Para o ajudar, Eros voltou, mais uma vez à Terra, trazendo-lhe Alba, a mais bela, a mais brilhante e a mais poderosa estrela do firmamento, por quem Aladde, de imediato, se apaixonou. Alba brilhava no universo infinito, com uma intensidade invulgar e um poder extraordinário, desafiando os próprios deuses, que temiam a sua luminosidade e grandeza. Quando se aproximou de Aladde este solicitou-lhe auxílio e socorro para quantos se viam vítimas daquelas catastróficas enxurradas.

A estrela condoeu-se de quantos sofriam as iras infinitas de Caos. E regressando ao firmamento, voltou, pouco depois, montada em nédia hacaneia, acompanhada de um enorme séquito, onde pontificavam carros de fogo, puxados por escorpiões e protegidos por gerifaltes, transportando miríades de gigantes. Lançando o seu brilhante e luminoso poder sobre todas as águas, tanto as que cobriam a superfície da Terra, como as que emergiam do Oceano, expulsou-as da extensa planície. Depois, fazendo descer os gigantes dos carros de fogo, construiu, para defesa e protecção da grande planície, um enorme e alto muro, que mais tarde se transformou em montanha, de que a actual serra do Cercal é um resíduo.

Mas o pobre e ainda frágil Saláceo, apesar de salvo das águas diluvianas e daquele medonho escarcéu, devido à construção de tão imponente montanha, ficou totalmente impedido de seguir o seu lento e vagaroso curso para o mar. Então Alba e Aladde, decidiram mudar-lhe o destino, fazendo-o deslizar para norte e fortaleceram o seu caudal, juntando-lhe as águas que, sobrando do dilúvio, escoriam ainda pelas encostas do Cercal, com outras que continuavam a brotar das cercanias e que hoje formam os rios de Campilhas, Alvalade e S. Domingos.

E Saláceo, ou melhor o rio Sado, seguiu, o seu rumo para norte, alimentando e dando vida a toda a planície alentejana, enquanto Alba e Aladde, verdadeiramente apaixonados, uniam os seus destinos e, para vigiar Saláceo, fixaram-se, mesmo ali, naquele campo cercado pelo enorme muro, no sítio onde hoje é a vila de Alvalade.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:48

UM SOLIPSISTA GIMNOSOFISTA

Sexta-feira, 03.01.14

Chegou numa manhã, cálida, fulva e etérea de Outono e era um viajante solipsista, misterioso e invulgar. Solipsista porque era filósofo e, vivendo em solidão absoluta, defendia o seguinte aforisma: “nada existe fora do pensamento individual, tudo aquilo que o ser humano julga perceber não passa de uma espécie de sonho que se tem transitoriamente”. Misterioso porque envolto em enigmas e incongruências transcendentes. Invulgar porque era, simplesmente um anão. Vinha de longe, de muito longe e cuidava que existia apenas um Eu que comanda o Mundo, que é controlado consciente ou inconscientemente pelo Ser. Devido a isso, a única certeza de existência que tinha era a de que o pensamento é instância psíquica que controla a vontade. O mundo ao redor é apenas um esboço virtual do que o Ser imagina. Além disso considerava que o corpo do próprio Ser era algo virtual, pois tudo é uma reprodução, uma vez que não se pode ter confiança nos sentidos mas apenas nos pensamentos, como fonte de certeza de existência.

Percorrera mares, andurriais e páramos, suportando tempestades e procelas, saltando montanhas de espuma e de submissão, sentando-se à sombra de árvores sem folhas e sem esperança, perdendo-se ininterruptamente em ilhas desertas e em oásis mistificados. Atravessara, com extenuante lucubração, um grande e tórrido deserto, com rios de fogo e pináculos de estranha adoração, onde se perdera e onde, simultaneamente, enlapara muitos dos seus sonhos e fantasias. Mas trazia consigo a experiência da liberdade, a fragrância da dignidade, a auréola da fraternidade, a estranheza da sublimidade e do amor, sobretudo do amor. Sonhava que as estrelas eram de prata, e que para além de cada oceano, havia sempre um outro mar. Ensinava que as nuvens quando se desfazem não pretendem apenas jorrar sobre os mortais a incomodidade da chuva, pelo contrário, solidificam o insustentável desmoronar da humanidade. Aprendera nos campos e nos bosques e estudara com as flores e os pássaros. Acolhia com sorriso as manhãs sombrias, escuras, enevoadas e chuvosas. Era amigo da esperança e das florestas. Pernoitava nos bosques, ao relento, dialogando com o destino e com a solidão. Alimentava-se do perfume das flores e dos frutos. Possuía um coração com aromas de alecrim e sabor a hortelã. Mas tinha um grande defeito: dependia total e exclusivamente do Sol, para quem olhava constantemente, sonhando poder, um dia, voar ao seu encontro.

Mais! Para além de solipsista também era gimnosofista, o anão. Pois vivia permanentemente nas florestas, abstraído das multidões, convivendo com a frescura e a mansidão dos bosques. Considerava a "noite" como a origem de todos os males e produtora de todas as limitações, e a "escuridão" a filha única da ignorância universal. Cuidava ele, solipsista e gimnosofista, que a fuga a estas maléficas divindades – noite e escuridão - se adquire através da sabedoria, filha da claridade, mas que permanece afastada do ser humano e quase inatingível pela sua mente, porque libertadora de sucessivas, contínuas e constantes migrações, e que consiste, apenas e simplesmente, na capacidade equívoca de fugir aos pesadelos escuros e tétricos da nossa existência atormentada. Isto apenas se consegue mediante um isolamento total e uma entrega às "hamadríades", ou seja, às ninfas dos bosques, que nascem simultaneamente com as árvores, nunca se desvinculando das mesmas, vivendo e morrendo com elas. A vida duma árvore ninfada ou duma ninfa arborizada é, no entanto, perene e infinita, porque umas e outras dependem da única fonte de vida do universo - o Sol. Por essa razão, o solipsista anão entendia, que as árvores nunca deviam ser destruídas, pois o aroma das suas folhas, o perfume das suas flores e o sumo dos seus frutos constituem o alimento primordial e único de todo a raça carracena, pelo que a vida depende, necessariamente e em último grau, da luz emanada pelo astro-rei. Este é um armazém infinito de poder e beleza, receptor tranquilizante de todas as inquietudes. Somente através dele é possível atingir a sublimação da beleza absoluta e, consequentemente, atingir a simplicidade. Assim toda e qualquer oposição à força e à beleza solar devia ser eliminada.

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publicado por picodavigia2 às 18:07

SANTO ANTÓNIO

Quarta-feira, 01.01.14

Velhinha, alquebrada, a arrastar-se pelos caminhos, com as abas das paredes a servirem-lhe de abrigo e as canas abandonadas no caminho utilizadas como bordão, caminhava por aqui e por além, na demanda do sustento de cada dia. Sustento dela e do marido, inerte, preso a uma cama de dor, de sofrimento e de falta de tudo. Ela velhinha, alquebrada e arrastar-se pelos caminhos, a fazer de mulher e de homem da casa. Ele doente, dorido, preso a uma cama, como se apenas servisse para coisa nenhuma.

Era ela que cavava, sachava, plantava e semeava uma pequena courela junto à porta da cozinha e que, apesar de tudo, ia dando couves fresquinhas, batatas suculentas, cebolas repolhudas e outras miudezas que lhe iam garantindo o parco sustento quotidiano. Era ela que acarretava à cabeça pequenos molhos de lenha da Cabaceira, que a cortava e picava. Mas era ela também que ao regressar dos campos, arquejante e fatigada, arrumava a casa, fazia o lume e cozinhava. Era ela que ia buscar a água à fonte, que lavava, varria, arrumava e limpava a casa, enquanto o seu homem, já quase cego e impedido de andar, de sair de casa, de se levantar, de fazer o que quer que fosse, a não ser cramar, gemer e chamar por ela.

Um dia ela partiu para a Cabaceira, à lenha. Em casa nem um garrancho e o café no bule havia terminado. Chovia, trovejava, ventava que metia medo. À Volta do Delgado já estava toda encharcada dos pés à cabeça, pese embora se encostasse à aba de uma ou outra parede e se protegesse com um saco de serapilheira, enfiado na cabeça, a fazer de capuz. Ao redor não se via alma viva. Com um tempo daqueles ninguém arriscava sair de casa. Na ladeira do Delgado, uma ressaca enorme de vento pegou-lhe como se fosse uma pena de ave e atirou-a ao chão. Dorida, angustiada, encharcada, muito custo levantou-se. A terra da Cabaceira ainda era longe, mas o caminho, a partir dali mais protegido de ventos e chuvas pelas altas paredes dos terrenos circundantes. Finalmente chegou ao Descansadouro de Santo António e parou junto à imagem do Santo, pousada ali, num pequeno nicho, sobre o enorme portão de uma horta. Fixou a imagem que lhe pareceu estar solidarizada com seu sofrimento. Afinal Ele, Santo António também estava ali, como ela, não apenas naquela tarde mas todos os dias e todas as noites, à chuva, ao vento, ao frio, às tempestades, carregando o Menino ao colo. Ele, ela e o Menino encharcados de água, de solidão, de sofrimento e de cansaço.

De repente, sem que nada o previsse, fez-se um Sol resplandecente e enternecedor e a natureza como que se ergueu a aconchegar, proteger e apoiar o Menino, o Santo e a velhinha. E ela, rejubilando de alegria, sentiu a roupa a secar-lhe no corpo, as forças a redobrarem-lhe e o ânimo a renascer, mais pujante, mais altivo e mais regenerador. Como se tivesse asas, voou até à Cabaceira e dali até a casa, com um grande molhito de lenha, seca, que havia dar para muitos dias. A lenha estava enxuta, seca, pronta a acender o lume e a fazer o café para o marido que jazia na sua velha enxerga de musgo e pragana, acariciado pelos raios de Sol que lhe entravam pela janela e lhe cobriam o rosto com um manto de tranquilidade de que há muito não usufruía.

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publicado por picodavigia2 às 23:14

ESPÍRITO DE NATAL

Domingo, 22.12.13

(O texto que se segue foi escrito baseado num conto de Saviour Pirotta, que por sua vez se inspirou numa antiga lenda norte-americana.)

 

Era uma vez uma menina que vivia, com o pai, numa cidade, junto ao mar. O pai era pescador e a mãe já tinha falecido. O pai trabalhava muito mas ganhava pouco e, por isso, tinha muitas dificuldades em criar a filhinha.

Certo ano, ao aproximar-se o Inverno, o pai, muito triste, disse-lhe que tinha que se ausentar para os mares de longe, porque ali, no mar daquela cidade, não havia peixe, nem o tempo estava bom para pescar. A menina ficou muito triste e começou a chorar, lembrando-se logo do Natal, que estava a aproximar-se. Como seria difícil ficar sozinha e passar o Natal, separada do pai, de quem tanto gostava.

O pai acalmou-a dizendo-lhe que ela iria passar o Inverno e o Natal para a montanha, numa pequenina aldeia, onde vivia sua avó. Mas a menina não se conformava.

Foi então que o pai, tentando consolá-la e encorajá-la lhe disse uma frase que ela jamais esqueceu: “Por vezes temos que fazer coisas que achamos muito difíceis, mas temos mesmo que as fazer.”

E a menina lá se foi conformando e acabou por aceitar que iria passar o próximo Natal, longe do pai, com a avó, numa pequenina aldeia da montanha. Antes de partir, porém, foram às compras, a fim de levar algumas prendas, não só para a avó mas também para outros parentes que lá viviam. Mas o pai tinha pouco dinheiro e, por isso, não podiam comprar prendas caras nem a menina conseguia ir muito carregada. Compraram, simplesmente, um xaile para a avó e lenços para os primos.

O pai preparou tudo, comprou o bilhete para ela ir numa carroça e a menina partiu para a montanha.

A viagem foi muito longa e demorada. Depois de chegar a uma pequenina cidade longe do mar, a carroça já não conseguia seguir, e a menina tinha que subir a montanha a pé até chegar à pequenina aldeia onde morava a avó. Ao aproximar-se da montanha, no entanto, teve sorte porque o farmacêutico também ia para a mesma aldeia e levou-a em cima do seu cavalo. Já noite, chegou à aldeia. Junto de uma árvore estavam algumas pessoas com lanternas acesas à sua espera, pois não havia luz naquela aldeia. No meio das pessoas estava uma velhinha que assim que viu a menina veio a correr ter com ela, abraçou-a muito e disse-lhe que era sua avó, a qual, de imediato, lhe apresentou os seus parentes.

Depois foram para casa da avó onde estava uma mesa posta com muita comidinha à moda daquela terra e a menina distribuiu as prendas que levava pela avó e pelos primos. Ficaram todos muito contentes e agradecidos. A menina ficou então muito feliz e sentia-se ali muito bem pois toda a gente gostava muito dela.

No dia seguinte a avó mostrou-lhe a aldeia, as casas, as árvores, os animais e as montanhas cobertas de neve. Ao jantar explicou-lhe os costumes daquela terra, sobretudo, os daquele dia que era véspera de Natal. À noite todas as pessoas iam à igreja, ver o presépio e adorar o Menino Jesus e era costume cada pessoa levar uma prenda para oferecer ao Menino.

A menina ficou muito, muito aflita. É que ela não tinha nenhuma prenda para dar ao Menino, nem dinheiro para a comprar. A avó disse-lhe que não se preocupasse pois ela era um visitante e podia não levar prenda. Mas ela não concordou com a ideia da avó. Também queria levar uma prenda.

Então a avó disse-lhe que não se preocupasse mais, pois tinha um saquinho de amêndoas para oferecer, que o ia dividir a meio, cada uma levaria metade.

Novamente, a menina não aceitou a ideia da avó. Queria dar uma prenda sua. Então lembrou-se que a única coisa que podia oferecer ao Menino era um ramo de flores. Por isso foi para a montanha ver se encontrava flores bonitas. Andou, andou, procurou e nada. Era Inverno e as poucas flores que existiam tinham sido apanhadas no dia anterior para enfeitar a igreja e o altar do Menino. Desgostosa voltou para casa. Como ia ser. Tinha que levar um presente. Voltou à rua e pensou que a única coisa que podia oferecer era um raminho com aquelas ervas daninhas que abundavam por ali, que só fazem mal às outras e não as deixam crescer. Pensou que se levasse um ramo daqueles o Menino não se havia de aborrecer.

Voltou para casa e contou o seu segredo à sua avó que lhe embrulhou o ramo num véu para que ninguém visse o que era.

A igreja estava cheia de luzes, de cânticos e de alegria. Depois da missa as pessoas formaram uma fila para ir oferecer as suas prendas ao menino. Os ricos, prendas valiosas: ouro, e prata, perfumes, etc. Os pobres os produtos da sua terra: galinhas, coelhos, batatas, nozes, amêndoas, etc.

Chegou a sua vez e a menina seguia atrás da avó. Custava-lhe oferecer ao Menino Jesus aquela prenda tão má e tão pobre. Ele até poderia ficar zangado com ela.

Mas lá foi e quando chegou a sua vez depositou o embrulho com o ramo dentro, diante da imagem do Menino. Um senhor que estava ao lado pediu-lhe que abrisse o embrulho e ela disse simplesmente, “Não posso”. O senhor, pensando que ela não tinha força para abrir o embrulho, pegou nele e abriu-o. Toda a gente ficou espantada e admirada porque lá dentro estava um lindo ramo de rosas que o senhor lhe entregou para ela oferecer ao Menino Jesus.

A menina ficou emocionadíssima e sem saber o que se passava. Apenas a avó percebeu o milagre que o Menino Jesus fizera por que ela oferecera um presente verdadeiro, um presente de coração.

Mas guardaram aquele segredo para si. Como eram flores muito bonitas que não existiam naquela aldeia, algumas pessoas tiraram um raminho e levaram-no para as suas casas para plantar nos seus quintais. Algum tempo depois nasceram plantas belas e no Natal do ano seguinte flores muito bonitas que as pessoas não sabiam o nome e por isso chamaram “Espírito de Natal”.

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publicado por picodavigia2 às 12:00

DIÁRIO PERDIDO

Domingo, 22.12.13

Jumbu Madé foi fuzilado em Gabu, Guiné-Bissau, no dia 28 de Setembro de 1974, depois de ter sido julgado militarmente e condenado por crime de traição à Pátria.

Quando, cravejado de balas, caiu por terra, de um bolso saiu-lhe um pequeno bloco de notas, que alguém timidamente recolheu, mantendo-o guardado durante muitos anos e cujo conteúdo a seguir se transcreve:

17 de Novembro de 1972

Hoje alistei-me no exército português. Foi uma decisão muito difícil, a minha. Aliás, bem vistas as coisas, nem fui eu que decidi. Meu pai há muito que reclamava sobre a pequenez da tabanca, o pouco arroz da bolanha... Sim, foi ele que decidiu por mim. Dizia-se por Guimansu e arredores que o exército português pagava bem... E creio que foi isso que levou meu pai a tomar tal decisão. Fui para guerra para ganhar dinheiro e ajudar meu pai a sustentar a sua numerosa família!

Alistei-me no quartel de Mansoa. Já tinha estado várias vezes em Mansoa e sabia onde era o quartel, mas nunca lá tinha entrado. Comigo, alistaram-se mais quarenta e quatro jovens, todos de raça negra. Alguns eram de Mansoa, outras de Bindoro, Jugudul, Encheia, Enquida, Cutiá, Mefregim e eu, só eu, de Guimansu.

Fui atendido por um oficial, um médico e dois soldados. Mandaram-me despir, pesaram-me, mediram-me, viram-me os dentes e ordenaram-me que fosse tomar banho. Depois deram-me roupa diferente da minha: uma farda, uma boina, uns calções e uma camisola. Entregaram-me ainda alguns papéis com o meu nome, riram-se de mim e mandaram-me para Nhacra, fazer a recruta.

17 de Fevereiro de 1973

A minha recruta em Nhacra chegou ao fim! Que alívio! Mas só após esta terminar, me apercebi verdadeiramente de que agora vou começar a guerra e, pior do que isso, de que vou fazer uma guerra fratricida.

Prepararam-me física e psicologicamente para a guerra. Matar, matar os meus irmãos de raça, de cor, de sangue, será agora o meu destino... E eu não quero!... Quero voltar atrás, abdicar da guerra e não posso. Agora sou forçado a seguir em frente, a fazer a guerra!...

25 de Fevereiro de 1973

Hoje iniciei-me, contra a minha vontade, na guerra. Deslocávamo-nos em coluna de Cutiá para Mansabá, no já denominado “carreiro da morte”. Uma emboscada!...

Uma mina explodiu, depois outra e ainda outra. Foi a confusão entre as dez viaturas que seguiam, ao longo da estrada. Preocupados em socorrer os feridos e juntar os mortos, não pensámos no que nos esperava, a seguir. Rajadas de metralhadora começaram a fazer-se ouvir de um e de outro lado da estrada em que circulávamos. Continuaram a cair corpos por terra. O apoio aéreo de Bissorã chegou tarde e gerou maior pânico. De Mansabá também vieram em nosso auxílio, mas chegaram tarde, muito tarde.

26 de Fevereiro de 1973

No ataque de ontem morreram nove soldados brancos e dois de cor. Os feridos foram mais de vinte. A sorte, porém, bafejou-me. Nada sofri, a não ser a dor e angústia de ver irmãos morrerem de maneira tão incrível e inaceitável.

15 de Março de 1973

Mudaram-me para Inghonhé. O comandante é uma pessoa despida de sentimentos. A mim e aos meus irmãos de cor trata-nos pior do que animais. O nosso abrigo é uma lura escavada na terra, sem condições. Dormimos no chão e, muitas vezes, comemos o que sobra dos soldados brancos. Por sermos de cor, somos desprezados e marginalizados. Para além de considerar estas e outras atitudes um atentado ao verdadeiro espírito militar, chego a pensar que são reveladoras duma clara manifestação de racismo.

Para além dos horrores da guerra, nós, os soldados negros, somos condenados a sofrer os vitupérios da discriminação e do racismo.

27 de Março de 1973

Hoje é dia de descanso. Apetece-me falar de mim e da minha pequena aldeia.

Eu nasci em Guimansu, um pequeno povoado guineense, perto da estrada que liga Mansoa a Nhacra.

Meu pai é um mandinga de língua Fu, do grupo dos filjincas. Tem quatro mulheres, a terceira das quais é minha mãe.

Cresci, pois, em Guimansu, junto com meus irmãos e irmãs, enquanto meu pai se ausentava para negociar e minha mãe e as outras mulheres se dedicavam ao cultivo dos campos, como é costume entre os mandingas, quer plantando o arroz nas bolanhas, junto ao rio Mansoa, quer semeando trigo e cultivando legumes nos campos circundantes à nossa tabanca. Embora sem passar fome, verdade é que nunca tivemos muita abundância. Comíamos sobretudo o arroz que a bolanha produzia.

Meu pai deixou-me frequentar a escola, onde, felizmente, aprendi a ler, a escrever português e a ver as coisas de outra forma. Gosto muito de escrever. Gostava de ser escritor, como os que escreveram alguns livros que li, quando andava na escola.

4 de Maio de 1973

Esta guerra cada vez me magoa e faz sofrer mais. O meu sofrimento, porém, não é por ter sido atingido por bala, mina, obus ou metralhadora. É sobretudo por ver meus irmãos a morrerem lutando por uma causa justa – a independência do meu país, da minha Guiné. Como eu gostaria que a guerra terminasse e lhes fosse dada a razão. É verdade que os meus antepassados mandingas tinham uma índole aguerrida, eram belicosos e guerreiros, mas tinham um espírito pacífico. Foi esse que eu herdei. Não quero a guerra, não gosto da guerra. Não faço esta guerra por minha vontade.

7 de Julho de 1973

A guerra é cada vez mais cruel. Ontem, o nosso quartel foi atacado mais uma vez. Foi a resposta ao assalto a uma povoação dos arredores, onde grande parte da população foi massacrada por soldados portugueses. Foi a vingança! Os mortos do lado das tropas portuguesas foram sete. Agora que sou obrigado a fazer esta guerra, sinto que preferia estar do outro lado. Confesso que (página rasgada).

18 de Setembro de 1973

Que alívio! Uma tabanca inteira foi poupada a um massacre. Todos fugiram a tempo. A quantas crianças, mulheres e velhos inocentes eu poupei a vida! Não posso explicar porquê...

23 de Setembro de 1973

Vou desertar! Vou fugir! Mas não posso revelá-lo a ninguém. Choro de dor e de raiva ao ver e, sobretudo, ao ser obrigado a colaborar em ataques fratricidas. Sinto um enorme peso na minha consciência. Resta-me a consolação de estar nesta guerra sem ser por vontade própria. Mas tenho que desertar, embora saiba que será muito difícil fazê-lo sem ser capturado e preso, como outros irmãos meus já foram.

19 de Outubro de 1973

Finalmente, amanhã vou tentar a fuga. Se tiver que continuar a guerra será do lado dos meus irmãos de raça. O meu desejo, porém, é acabar com esta guerra. Não quero combater, nem de um lado, nem do outro. Não quero ver mais mortos ou feridos. Quero a paz e acredito numa Guiné livre e independente. Quero a paz para o meu país e para todo o mundo. A guerra é o pior que pode acontecer a um povo ou a um país. Há muitos irmãos meus, brancos e de cor, que não querem esta guerra.

20 de Outubro de 19973

Tentei fugir, mas fracassei. Fui descoberto, julgado e condenado. Não vou poder escrever durante estes 60 dias de prisão.

21 de Dezembro de 1973

Finalmente voltei a ser livre. Terminou o meu cativeiro. Só eu sei o que sofri. Um quarto sem luz, com um pequeno orifício por onde apenas introduziam a alimentação. Alimentação? Não. Pão, água e restos de comida, de vez em quando. As fezes e a urina eram guardadas num balde, apenas despejado uma vez por semana. A cama era um colchão velho colocado no chão. Várias vezes tive que repartir este cubículo com outros prisioneiros! Foram 60 dias terríveis e amargos. Não posso (palavra imperceptível em fim de página).

23 de Dezembro de 1973

Como não bastassem os 60 dias de prisão, voltei a ser ainda mais castigado. Fui transferido para bem longe, para Cuntima, para lá de Farim, junto à fronteira com o Senegal. Agora é impossível fugir. Mas, em contrapartida, o comandante da companhia é um jovem, o capitão Alçada, muito humano e compreensivo, amigo igualmente de todos, independente da cor ou da raça. Creio que ele também é contra esta guerra!

15 de Fevereiro de 1994

Fui transferido para Mansoa, agora que já me habituara a Cuntia, onde tinha muitos amigos, entre os quais “o meu capitão” Alçada.. (Página rasgada).

17 de Março de 1974

Há rumores, muitos rumores de que alguma coisa vai mudar nesta guerra. Afinal não sou apenas eu que não concordo com ela. Há muitos soldados brancos e até alguns oficiais que, assim como “o meu capitão” Alçada, também não concordam com esta guerra. Mas dizem que de Lisboa vem ordens para continuar. Começo a pensar em fugir novamente. Mas sou totalmente impedido de o fazer.

5 de Abril de 1974

Apanhei vinte dias de prisão por supostamente ter dado informações a alguns civis.

25 de Abril de 1974

Fui posto em liberdade. Soube, também, que hoje foi dada a liberdade aos portugueses. Houve uma revolução em Portugal. O regime político, em Portugal, vai mudar. Todos acreditam que será o fim desta guerra. Eu porém estou muito apreensivo. Se for verdade, se Portugal ceder, se terminar a guerra e aceitar a independência à Guiné, o que será de nós, soldados nativos, que combatemos do lado dos portugueses, designados por colonialistas, contra os nossos irmãos de raça e de sangue, contra a independência do nosso país? Começo a ter medo, muito medo…

1 de Maio de 1974

A euforia é cada vez maior entre os soldados brancos. Terminou a guerra. Todos pensam que em breve regressarão ao seu país. Muitos dos negros que combateram ao lado dos portugueses fugiram outros começaram a ter problemas, a serem ameaçados de morte. Reina o temor, impera o medo e surgem, com frequência, ameaças terríveis. Aguardo com muita expectativa o meu futuro. Não sei o que me espera... Mas tenho medo, muito medo.

17 de Junho de 1974

Fui preso novamente, mas agora por adeptos do PAIGC.

25 de Setembro de 194

Depois de mais de três meses preso, em condições, piores do que os 60 dias de Inchalé, fui julgado por um grupo de militares do PAIGC, sem direito a defesa e fui condenado à morte por traição!

27 de Setembro de 1974

Vou ser fuzilado, amanhã,  (resto de página imperceptível).

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publicado por picodavigia2 às 10:43

PREDESTINADO

Terça-feira, 17.12.13

Desde há muito que os mitos da inocência se haviam dispersado na mente de Banaboião que já despertara para o fascínio do mundo. Todas as donzelas de Lubisonda o desejavam, e ele, no seu íntimo, ripostava a esses desejos. Os seus apetites, instintos e paixões faziam tremer os sacrossantos desígnios de sua mãe, D. Aldonça, desígnios que quase ruíram, quando o coração de Bonabaião, sedento de amor e paixão, se abriu a Ximena, filha do sócio de seu pai Rigoberto Frojaz. Agora altar, ermitério e cenóbio eram miragem. D. Aldonça, no entanto, de nada se apercebera e continuava a acreditar piamente que o seu unigénito havia de seguir as pegadas de Jesus Cristo, Nosso Senhor.

D. Paio de Farroncóbias não apoiava tão nobre intenção, antes a contrariou, embora elogiasse a nobreza e dignidade de vida dos que, afastando-se dos prazeres e glórias mundanas, se entregam ao serviço de Deus Nosso Senhor. Porém, na opinião do alcaide de Trancoso, Banaboião era jovem e belo e decerto conquistaria o coração de muitas donzelas como ele próprio conquistara o da sua muito amada Iluminata. Além disso, era forte e bem constituído de corpo e de espírito, por isso o aconselhou e encorajou a seguir a carreira de armas e a lutar ao lado do rei de Portugal, D. Afonso Henriques, que assim tanto necessitava de jovens e valorosos guerreiros para que libertasse o reino dos infiéis sarracenos e se combatessem os inimigos da fé e que isso era um desígnio tão agradável a Deus como era o de subir ao altar e celebrar os santos mistérios da nossa Redenção ou o de se retirar para um eremitério para se entregar à penitência e ao sacrifício, unindo a sua vida à paixão e morte do nosso Redentor. Mais acrescentava que se fosse vontade de Banaboião e dos seus progenitores, seguir a vida de guerreiro, aceitá-lo-ia de bom grado na sua mesnada.

D. Aldonça protestava timidamente. Nunca deixaria o seu menino seguir tal destino. Que lhe perdoasse o ilustre guerreiro. Contava depois as noites e dias de preces sucessivas do seu tio D. Hermínio Guterres e dela própria, durante os seus anos de esterilidade. Finalmente Deus apiedara-se dela e dera-lhe Banaboião por isso o menino estava destinado ao serviço de Deus. Nascera numa manhã de Verão, rubente como uma peónia como que por milagre e durante o seu nascimento vários outros milagres aconteceram: ela não sofreu dores nenhumas, os sinos repicaram sem que ninguém os tocasse, o céu cobriu-se de pombas brancas, o aparecimento tardio e repentino de leite nos seus seios que na altura do nascimento estavam secos, o olhar fixo e contínuo do menino para imagem de Cristo enquanto se baptizava ainda só com oito dias de existência. Tudo isto eram indícios de que Banaboião nascera para se consagrar totalmente a Deus Nosso Senhor, ou antes, nascera já consagrado. Além disso, tudo nele era perfeito como ainda agora se podia observar: alvo de neve, olhos negros, proporção admirável de todos os seus membros, enfim, a perfeição completa o que vinha confirmar que Deus Nosso Senhor o havia escolhido para seu eleito como desde logo após o seu nascimento o confirmara seu tio Hermínio Guterres. Numa palavra, o seu menino era mais anjo do que criatura humana. Por isso não podia seguir as pegadas de D. Paio. Depois - continuava a explicar Aldonça, tentando demover D. Paio de Farroncóbias de tão drástica intenção - muito era o empenho e esmero que tinha posto na sua educação. Escolhera-lhe os melhores mestres que mais iluminados do que arcanjos cedo lhe ensinaram as primeiras letras, enquanto com ela e com vigário Guterres ele tinha aprendido os Mandamentos da Santa Lei de Deus e as Leis da Santa Igreja Romana. Mesmo agora, Aldonça considerava-o um espelho de virtudes pois que se lhe mantinham puros os instintos e os impulsos do coração como os sentidos se firmavam refractários aos engodos do apetite. Com mulheres apenas convivia com ela, sua mãe e com a jovem Ximena, mocinha jucunda, descuidada e nada mais igual à boninha que era ele. Tudo nele era orientado para que se dedicasse à vida monástica e ascética e ao serviço de Deus Nosso Senhor e não para combater fosse ao lado de quem fosse. Perante tais evidências e sobretudo por conselho do vigário Guterres ela sabia que ele era consagrado a Deus e assim como não o deixara seguir os negócios do pai também se opunha a que seguisse a carreira de armas.

D. Paio de Farroncóbias compreendeu e regozijou-se por estar em frente de tão predestinado jovem, desistindo assim de desviar para a guerra o que fora talhado para anunciar os mistérios de Deus Nosso Senhor.

 

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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O SALTO

Terça-feira, 10.12.13

A última carta que o Rui Durvalino recebeu do Santana fora escrita em Badjocunda. Na Guiné a situação era dramática. Uma guerra sangrenta e cruel. Não havia dia sem bombardeamentos aos quartéis, ataques a colunas, emboscadas no mato e mortes consecutivas. Agora, estava ali, isolado, sendo impossível deslocar-se a Pirada ou, pior ainda, a Gam-Quelifá. Só em coluna, uma vez que as pontes estavam destruídas e as picadas repletas de minas. E mais não dizia!

- É o costume! Tem medo que as cartas sejam apreendidas pelos Pides – comentou o Durvalino, dobrando-a e colocando-a na gavetinha duma velha cómoda da sala.

Amigos de infância e colegas de escola, embora o Santana fosse um pouco mais velho, doeu-lhes a separação.

A vida, em Lagoa, até o Santana ser chamado para a tropa, fora repleta de contrastes: ora transbordante de amizade e alegria, ora sulcada de trabalho e sacrifícios. Passavam os dias calcorreando os contrafortes das serras de Bornes e de Mogadouro, quer pastoreando ovelhas e cabras, quer apanhando azeitona e castanha. Haviam-se habituado, assim, ao trabalho árduo e ao esforço contínuo e sacrificado que a vida em Trás-os-Montes exigia. Noutras ocasiões eram festas, folguedos e flostrias: a compensação frenética das limitações fogosas em que o destino de nascer para além do Marão os havia marcado. Mas amavam a sua aldeia e tinham-se afeiçoado a ela, sobretudo agora, depois de começarem o namorico e dela não queriam sair. Cultivavam, desde miúdos, uma amizade intensa e duradoira que os unia no trabalho e no lazer. O Santana, desde há muito, que se prendera de amores pela Rosalina. O Durvalino seguiu-lhe o exemplo. Foi na festa de Santo André, em Morais, que conheceu e se apaixonou pela Maria Albertina. Mas a teimosa oposição do seu biltre progenitor, que entendia que a filha não era para o primeiro pobretanas que lhe aparecesse à porta e a distância entre Lagoa e Peredo, dificultavam encontros mas aumentavam a paixão.

Quando a idade das sortes se aproximou, a certeza de serem destacados para o Ultramar aterrorizou-os de sobremaneira.

O Santana, motivado pelo Durvalino, ainda esboçou alguns projectos de fuga. Mas meteram-lhe medo: “A França, para muitos, tem sido numa aldeia lá para os lados de Bragança. Os tipos recebem a massa, levam-nos até à fronteira e dizem-lhes que já estão em França. Não é mentira, pois estão na aldeia de França. E lá se vai o dinheiro e a verdadeira França. O remédio é voltar para trás.”

- E ainda há a guarda fronteiriça...

- E os Pides...

- Passar da Espanha para a França também não é fácil...

- E arranjar emprego na França?

- Uns tipos, lá de cima, de Espadanedo e Podence, perderam-se e dois morreram na viagem...

Tais desconfianças levaram o Santana a abdicar dos planos de fuga. Resultado: foi chamado para a tropa, para o quartel das Caldas, onde o esperava o Ultramar.

Algum tempo depois, partiu para a Guiné a bordo do Niassa. Uns breves dias em Bissau e seguiu para Nova Lamego e dali para Pirada, em substituição duma Companhia de Caçadores que lá terminara a sua comissão, prestando, também, apoio a duas companhias que se encontravam no interior, uma em Piche e outra em Gam-Quelifá. Era uma zona muito perigosa, já quase toda ocupada e dominada pelo PAIGC que, meses antes, proclamara a independência, perto dali, em Medina de Boé.

O quartel de Pirada ficava a meias com o pequeno povoado. Uma área enorme, onde alguns pavilhões concentravam os diversos serviços e os dormitórios dos oficiais e sargentos. Depois, à volta, protegidos pelo arame farpado e pelo anel das minas, os abrigos dos soldados. O seu era o nove. Virado para Norte, para os lados do Senegal, que distava dali uns escassos quatrocentos metros, era uma lura escavada na terra, ao lado das valas, coberto com terra e pedregulhos e incluía dormitório, cozinha, sala de jantar, latrina e escritório. Ao lado a rua principal do povoado, onde ficavam algumas casas, umas meio destruídas, algumas abandonadas e outras habitadas, na sua maioria, por um pequeno grupo de brancos que se dedicava ao comércio, nomeadamente, ao clandestino. Mais adiante a pequenina capela, também já abandonada e a sede da PIDE. A seguir, a tabanca, onde viviam, em recíproca cumplicidade, fulas e mandingas, uns explorando a terra, outros contrabandeando a guerra.

O Durvalino, porém, nunca lhe perdoou a anuência à guerra. No dia da partida jurou-lhe:

- Garanto-te que a mim não me apanham lá!

Foi o Alípio de Alfândega da Fé que contratou o Durvalino, através de um primo. Para que não se desconfiasse em Lagoa, marcaram o encontro em Macedo de Cavaleiros, longe das vistas de familiares, amigos e curiosos. O Alípio garantiu-lhe que era sério e honrava os seus compromissos. Por isso o preço era alto.

O Durvalino regressou sem firmar contrato. Era muito difícil arranjar quarenta mil... O tipo nem por nada aceitou apenas a entrega de metade da quantia, com a garantia de lhe enviar a outra metade depois de chegar à França e lá organizar a sua vida. Um segundo encontro e o Alípio cedeu. O moço também lhe pareceu sério.

- Dentro duma semana entrego-lhe vinte mil. O restante enviá-lo-ei da França, no prazo máximo de ano e meio.

- Não, não. Trinta mil em notas... – Sentenciou o Alípio, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Não te esqueças, Cler-mont-Fer-rand, lá bem no centro da França. Quando puderes, envias os outros dez mil.

A Maria Albertina só muito tarde teve conhecimento dos planos da fuga. A intenção foi poupá-la. Mas teve que lhe dizer, tornando-a sua confidente e mais directa cúmplice. A notícia entrou-lhe no peito como uma bala. Morreria de saudades. Depois era o incerto, o desconhecido, o obscuro, os perigos que ele corria e, talvez, a possibilidade de nunca mais voltar a Portugal.

- Se eu não puder voltar vais tu ter comigo. Se a vida me correr bem, não demorará muito – segredava-lhe, para a acalmar. Depois num tom de voz mais apreensivo: - Então não achas que era mais perigoso ir para a Guiné ou para Angola? Além disso, eu não concordo com esta guerra maldita. É uma teimosia do Marcelo Caetano. Os tipos querem ser independentes, que o sejam. Lá é que eles não me apanham. Tenho que fugir e, quanto antes.

- Quando? Diz-me ao menos, quando? – Perguntava, ansiosamente, a Albertina.

- Isso, não sei. Aliás, nem eu nem ninguém sabe, nem pode saber, porque estragava tudo. E peço-te que quando deres pela minha ausência não te manifestes, nem chores. Enquanto não passar a fronteira os perigos são muitos.

- E as saudades que vou sentir, sempre que me lembrar de ti e dos nossos encontros? Vou lembrar-me de ti todos os dias...

- Não te esqueças que é sempre doce a saudade – acrescentou em tom jocoso.

E caíram mudos nos braços um do outro.

Foi na véspera de Todos-os-Santos que o Durvalino recebeu recado do Alípio. À meia-noite devia estar, sem falta, em Talhinhas, junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ainda não tinha dado a meia-noite e já lá estavam todos. Eram quatro, mas apenas conhecia três: o Silvério de Saldonha, o Crispim de Vale da Porca, o guia, que chefiava o grupo substituindo o Alípio e um tipo de Macedo. O Alípio tinha ido para Bragança com uma dupla finalidade: encontrar-se com um grupo que vinha dos lados de Vinhais e preparar a passagem pela cidade. Era o sítio mais perigoso. A polícia não perdoava.

- Vamos por Santulhão, até ao Outeiro. Não é o sítio melhor, mas é o mais seguro – esclarecia o substituto do Alípio. E concluía:

- Do Outeiro para Gimonde vamos de camioneta. Temos que encontrar o outro grupo, antes do Sol nascer, para nos escondermos e sairmos à noite para a fronteira... – E, a passos lestos, iniciaram a marcha.

A noite apresentava-se clara, mas infinita e terrificante. O representante do Alípio conhecia perfeitamente caminhos e atalhos alternativos e incentivava-os, na tentativa de ultrapassarem medos e inseguranças e branquearem saudades, cerceando assim a vontade de regressar a casa. Seguiam em fila, apressadamente. O Durvalino era o último. De vez em quando olhava para trás, aterrorizado por ruídos estranhos, que se faziam ouvir no silêncio escuro da noite. A certa altura foi necessário o guia avisar:

- Andem mais depressa, caraças! Quem quiser desistir que desista agora, ainda está a tempo.

- Desistir!? Nem que me matem – murmurou o Durvalino, apressando o passo.

O Sol, em Gimonde, nasceu tímido e ensombrado, disposto a não iluminar as casas graníticas e pardacentos do pequeno povoado. Já se aproximava o meio-dia, quando o astro-rei se decidiu espreitar por entre as nuvens, na ânsia de presidir à junção das águas dos rios de Onor e da Igreja, às do Sabor. Só então, chegou o grupo de Vinhais. As ordens eram: dispersar durante o dia; cada um para seu lado, para não dar nas vistas. À noite voltar-se-iam a reunir e de madrugada já estariam a salvo, na Espanha.

- A partida é às dez, dali, daquela ponte – explicava o guia, apontando para uma ponte romana, uma construção de alvenaria, sobre uma espécie de canal que unia as águas dos dois afluentes do Sabor.

Na manhã seguinte o grupo estava em Puebla de Sanabria, em Espanha e, passados alguns dias, em Dancharie na França, onde o Alípio os deixou.

- Agora governem-se, como puderem – e virou costas.

Para o Durvalino o espectro da guerra morreu ali, mas, naquele mesmo momento nasceu outro: a saudade de Lagoa e, sobretudo, da Albertina.

Em Puyoô o grupo fraccionou-se. A maioria seguiu para norte, para os lados de Bordéus. Apenas o Durvalino e três outros emigrantes fugitivos seguiram para o interior. Foi em Agen que se separaram definitivamente e o Durvalino seguiu sozinho, com destino a Clermont-Ferrand.

Em Clermont-Ferrand, capital da província de Auvergne, o Durvalino procurou, por indicação que levara de Portugal, o Cardoso. Era um tipo alto, magro, de bigode farfalhudo, mas simpático e atencioso. Revelava no entanto um ar tímido e hesitante. Morava na rua de La Rotunde e foi lá que o Durvalino o foi encontrar. Desde há muito que se radicara em França. Os conhecimentos de que usufruía junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que arranjasse alguns empregos para os que o Alípio, de quem era muito amigo, ia recambiando clandestinamente de Portugal. Sempre dava mais uns trocos.

Para o Durvalino e por recomendação explícita do Alípio, tinha reservado uma vaga na “MDS Franchê”, uma fábrica de produtos farmacêuticos. Não era trabalho famoso, mas para principiar, podia ser pior...

- Vais carregar caixotes com medicamentos. Mas são leves, muito leves – garantia o Cardoso. – Com o tempo arranjas melhor. Se o teu trabalho agradar aos patrões, tens promoção pela certa...

O alojamento é que ficava um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. Iria repartir o quarto, que não era lá grande coisa, com o Antunes.

- É um tipo porreiro, é de Braga. Vais dar-te bem com ele – esclarecia o Cardoso. – O Silva de Murça é que vivia lá desde há dois anos, mas foi tentar a sua sorte para Paris... O tipo não gostava disto. Mas dizem que em Paris é tudo muito pior: mais miséria, tudo mais caro e empregos mais sujos. Mas Paris é Paris. Ele é que sabe…Mas pode apanhar pior em Paris, pode apanhar pior. Ai, se pode! Tu tiveste sorte. Olha que por vezes é difícil arranjar-se alguma coisa... Logo ao chegar...

E o Durvalino iniciou a vida de trabalho fabril, em Clermont-Ferrand.

Os dias eram monótonos e sempre iguais, excepto o Domingo. Durante a semana, levantava-se cedo, tomava o autocarro que o levava à MDS Franchê. Carregava e descarregava caixotes e arrumava os medicamentos em prateleiras, por ordem alfabética. Era um trabalho leve mas fastidioso e pouco divertido. Quão diferente das caminhadas pela serra de Bornes, atrás das ovelhas ou das andanças nos contrafortes do Mogadouro a apanhar a azeitona, com as cachopas à porfia. Os sábados também eram de trabalho. Foi o Rodrigues que lhe arranjou um biscate num armazém. Sempre ganhava mais algum e o tempo passava mais rápido. Viera para a França para trabalhar e para ganhar dinheiro e tinha que enviar dez contos ao Alípio...

As lembranças quer da Albertina quer de Lagoa, porém, não o deixavam e apoderavam-se dele, com maior agressividade, aos domingos. Estes tornavam-se infinitos e, por vezes, até dolorosos. De manhã, saía de casa, sozinho, porque o Antunes não era de missas. Seguia por ruas diversas, na procura de igreja que encontrasse aberta. Ir à missa ao Domingo era um hábito que tinha de miúdo. Percorria a Liberation, a Charles De Gaule, atravessava o Place de Jaude e depois entrava numa rua muito estreita, mas muito colorida e repleta de lojas e de montras. Finalmente, subia a Rue Des Gras ao cimo da qual se perfilava, imponente e altiva, a enorme catedral. Era um edifício de pedra negra, teúrgico e ingente, no seu aspecto exterior. Mas o interior convidava à oração e ao silêncio. É verdade que ao princípio, não entendia rigorosamente nada do que o padre dizia. Os gestos, as atitudes, as roupas verdes e a hóstia branca, porém, eram semelhantes aos da igrejinha de Lagoa. Era aí, sobretudo aí que as lembranças das manhãs de Domingo o amarfanhavam. Era a lembrança da igreja de Peredo, onde, à saída da missa, ia esperar a Albertina. Caminhavam, depois, abraçados lado a lado, por caminhos e atalhos até à casa dela, esperando que o futuro sogro o convidasse a entrar, o que raramente acontecia. Agora ali, terminada a missa percorria só e pensativo, alheio a tudo e todos, as ruas turbulentas e os becos afunilados daquela cidade, tão grande, tão estranha, tão desconhecida e tão diferente da sua aldeia, observando as montras e sonhando ter um dia ali a sua casa, onde viveria com a sua Albertina.

De tarde, seguia com o Antunes e com outros portugueses até ao café do Sporting, nos arrabaldes da cidade, onde os portugueses das redondezas se reuniam às dezenas, uns jogando cartas, outros dominó e todos ouvindo os relatos do campeonato português, lendo “A Bola” e conversando. Novamente dele se apoderava a saudade que o transportava, em sonhos, a Peredo, junto ao pátio da casa da Albertina, onde passava as tardes de domingo...

O Café do Sporting, no entanto, deu-lhe oportunidade de conhecer muitos portugueses e de se adaptar melhor à nova vida e ao novo país. Às tardes de Domingo juntaram-se as idas à noite, os jantares nos dias de festa e a comemoração das vitórias leoninas. Era um convívio salutar e uma oportunidade de reacender a lembrança do seu país e de Lagoa. Para onde quer que fosse ou onde quer que estivesse perseguia-o, continuamente, a saudade.

Depressa se adaptou à língua. A assiduidade e a persistência no trabalho levaram o patrão a promovê-lo. Ganhava bastante mais. O Alípio recebeu os dez mil e começou a enviar algum aos pais e à Albertina. Clermont-Ferrand, enfim, ia-se tornando a sua nova cidade e a França, a sua nova pátria. Apenas, misturadas com a lembrança, as saudades e o temor de um dia poder ser apanhado e expatriado para Portugal, onde seria preso, por causa da fuga ao serviço militar...O Rodrigues bem o animava:

- Eh pá! Nem penses nisso! Os portugueses clandestinos, em França, são aos milhares. Não há cadeias em Portugal que cheguem para todos. Além disso, o fascismo não vai durar sempre em Portugal. Aquilo vai mudar, vai ter que mudar... Ainda vais poder voltar ao nosso país livre, livre como um passarinho.

Numa tarde solarenga de verão, na pequena igreja de Santa Catarina, em Peredo, o Rui Durvalio e a Maria Albertina, juraram amar-se para sempre. Em casa dos pais da Albertina, preparou-se festa rija. Alguns dias depois os noivos partiram para a França. Apesar de agora, depois do vinte e cinco de Abril, em Portugal, finalmente, se viver em liberdade e democracia, entendia o Durvalino que a França era bem melhor. Além disso já lá tinha casa e o emprego esperava-o.

Quando se despediu do Santana, este bem lhe ripostou:

- Tiveste cá uma sorte! Mas a mim a deves. Eu é que fui acabar com aquela guerra maldita na Guiné.

E com os olhos repletos de lágrimas, solicitou à Albertina:

- Não se esqueçam de nós!

- Será sempre doce a lembrança dos amigos – concluiu, convictamente, o Durvalino, abraçando-os.

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RENASCER

Sábado, 23.11.13

Reformara-se novo porque começara a trabalhar ainda garoto. Passava parte das manhãs e as tardes arrastando-se pelos carcomidos bancos dos jardins e avenidas. Apenas entrava num ou noutro café, a seguir ao almoço e entretinha-se, durante algum tempo, a passar os olhos pelo jornal. Depois circulava pelas ruas apático e indiferente, abstraído de sentimentos e absorto em indignação. A vida era vazia de sentido e a cidade parecia-lhe um circo povoado de fantasmas, de arquétipos imbecis e de abantesmas que teimosamente tentavam sobrepor-se à aniquilante solidão que o dominava - um espaço abstruso, quase repugnante e até mesmo inútil, conjugado com um tempo infinito, indeterminado e inaudito. Por vezes, inconscientemente, seguia pela rua da Lapa, virava na do Salgueiros e, cortando à direita, entrava na do Monte Cativo. Estava, assim, vezes sem conta, quase sem se aperceber, em frente à porta de entrada da Semilhas L.da, onde encontrava o Almeida e outros antigos companheiros de trabalho, a quem, na hora do almoço, dava sempre dois dedos de conversa.

Pouco depois afastava-se e recomeçava a caminhar só. O burburinho da rua e o circular constante de transeuntes e veículos davam-lhe uma sensação de imobilidade inútil. Os olhos cravavam-se nos reclames florescentes que teimavam indefinidamente em propagar a sua luminosidade na enorme pertinácia da luz solar. Olhava para as janelas dos prédios onde um ou outro vulto de mulher jovem aparecia e, em sua imaginação, como que se demorava a contemplá-lo. Entrava em mais duas ou três ruas e regressava à Avenida, sentando-se num banco, onde se entretinha-se a atirar umas migalhas aos pombos, ensaiando intermináveis e frustradas tentativas de os contar.

À enigmática insignificância das manhãs e das tardes, misturava-se a pertinente solidão das noites e a tristeza das madrugadas que não floresciam. A viuvez antecipara-se à reforma e ambas se conjugavam, agora, numa conspiração destruidora de projectos e sonhos. Carregava sobre si o estigma duma sociedade cada vez mais industrializada, individualista e competitiva, preocupada, sobretudo, com o consumo e galvanizada pelo avanço tecnológico.

Numa tarde de verão, em que encontrou o Almeida na Baixa, depois de tomarem um café, o Abílio, na tímida tentativa de lhe revelar o tédio enfadonho que continuamente o assombrava, desabafou:

- Sinto-me um subproduto nesta sociedade miserável, caracterizada por uma complexidade evolutiva cada vez maior, onde reina a solidão, o anonimato e o carácter superficial das relações humanas e que rejeita os que já não constituem força de trabalho. Pertenço ingloriamente a uma civilização que transforma os seus membros em consumidores famintos e em abutres desenfreados.

O Almeida, apesar de não o entender muito bem, ouviu-o com atenção. Por fim atirou-lhe de chofre:

- Homem, isto não pode continuar assim! Ainda dás em doido. Tens que dar outro rumo à tua vida... A esperança nunca pode morrer. Não podemos ser nós a acabar com a nossa própria vida, a destruirmo-nos a nós próprios, a não a deixar que os outros nos aniquilem. No fim do mês parto de férias. Tu vens comigo. Isto não é um convite, é uma ordem. Tenho uma casa em Dardavaz perto de Tondela, lá para os lados de Viseu. É para lá que vamos!

A insistência do Almeida foi tanta que, passado algum tempo produziu efeitos.

Circulando pelo IP 5, o Porto, agora, diluía-se numa mais que fragilizada imaginação. À sua frente, bem real, a mais caracterizadamente lusitana das províncias portuguesas - a Beira Alta. Pararam, num miradouro. Para trás ficara Oliveira de Frades e Vouzela. A nascente já se avistava São Pedro do Sul, onde entre casas e arvoredos, proliferavam campos agrícolas e pastagens. Ao redor sobressaíam imponentes, altivas e escuras, um conjunto de montanhas que ora se afundavam ora se erguiam, até se diluírem em lombas de suaves declives ou degenerarem em pisos e fragas abruptas. Lá ao fundo, mais para sul, começavam a desenhar-se os contrafortes da Estrela, que, vista de longe, parecia um monstro baço e obscuro. Misturada com o horizonte, apenas se clarificava pelas suas formas fragosas, abstrusas e opacas. A poente, um maciço, menos agreste e de lombas menos declivosas ia, aos poucos, como que se desfazendo e transformando numa enorme planície interposta entre as montanhas e o mar.

- Ultimamente o concelho de São Pedro do Sul tem-se desenvolvido muito, graças à estância termal, já explorada pelos visigodos, pelos romanos e pelo próprio D. Afonso Henriques, que, segundo se diz, ali terá vindo refugiar-se para se curar duma ferida obtida em combate – explicava o Almeida, que se revelava cada vez mais um perito em questões beirãs.

Viseu surgiu pouco depois. A cidade impunha-se altiva e orgulhosa. Guardiã de testemunhos duma intensa vivência histórica e pré-histórica, Viseu estava ali, como cidade paradigma de um contraste entre o passado e o desenvolvimento moderno, fundamentado na riqueza agrícola, pecuária, vinícola, industrial, comercial e até turística, que toda a região beirã e muito especialmente a sub-região do Dão encerra. Uma visita, embora rápida, deu ao Abílio uma visão da magnífica cidade, com paragens obrigatórias na Sé, monumento dos tempos da nacionalidade. Um magnífico templo de três naves, com as duas imponentes torres românicas, ladeando um frontispício seiscentista, onde se acolhiam as imagens dos quatro evangelistas, de Santa Maria da Assunção e a de São Teotónio, padroeiro da cidade. Em frente, a igreja da Misericórdia e o lado o museu Grão Vasco. Apesar de fechado o Almeida bem explicou que ali, no que fora o antigo Paço Episcopal dos Bispos de Viseu, se encontrava agora um valioso acervo de pinturas, com destaque para alguns painéis quinhentistas, da autoria do patrono. Depois um périplo pela cidade, passando em frente à casa onde nasceu D. Duarte e pelas principais ruas e pelo recinto do Fontelo e da Feira de S. Mateus. O Almeida referiu ainda muitos outros locais de interesse, na cidade e arredores. Ficaria para uma próxima oportunidade. Pacientemente esclarecia o Abílio:

- Existem muitos vestígios históricos nesta região: as antas de Mamaltar do Vale das Fachas, em Rio de Loba e as da Lameira do Fojo, na freguesia do Couto de Cima, o pelourinho de Pevolide, a estrada romana ainda existente em Lordosa. O artesanato também é rico: são as flores de papel de Fragosela, os estanhos de Bodiosa, os linhos de Calde, as rendas de bilro de Torredeita e a latoaria, o ferro forjado e a cestaria de Viseu.

- E a gastronomia? – Interrogava o Abílio – Já ouvi dizer que é de se lhe tirar o chapéu.

- Sim, sim - acrescentava o Almeida – há por aqui umas coisitas jeitosas para acompanhar o Dão. O rancho à moda de Viseu, o arroz de carqueja e o de feijão, o entrecosto com grelos, trutas de escabeche, bacalhau na brasa, a vitela assada, o cabrito assado, os rojões com morcela e batata cozida, não esquecendo os doces como as castanhas de ovos de Viseu, pão-de-ló, arroz doce, leite creme, doces de ovos, enfim, é um nunca mais acabar.

- Isso apenas em Viseu ou em toda a região da Beira Alta? – Interrogava o Abílio.

- Estou a referir-me apenas a Viseu e aos arredores da cidade. Se passarmos a Mangualde, Nelas, Oliveira de Frades, Sátão, Penalva do Castelo, Aguiar da Beira, Castro Daire, tudo se diversifica e aumenta, quer no aspecto histórico, quer no artesanal e no gastronómico.

- Esqueceste Tondela – acrescentou o Abílio? – Será modéstia da tua parte?

- Não, não é modéstia. Tondela é mais do que todas as outras, Tondela é tudo para mim, mas quero que sejas tu a descobrir com os teus próprios olhos. É surpresa, por isso, nada te conto.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:26

O BEM E O MAL

Quarta-feira, 20.11.13

O garoto saiu de casa espavorido. Era imperioso regressar com algum. Atravessou o largo de mãos nos bolsos, chutando lata aqui, pedregulho acolá, como quem se revolta contra a indefinição exagerada do destino. Percorreu, titubeante, uma rua escura, esburacada, sem pessoas, sem passeios, sem flores e sem alegria. Chegou ao parque e sentou-se num banco à espera que passasse o primeiro que ostentasse aspecto merecedor da sua ousadia de pedinte. O rosto, salpicado de sujidade, reflectia, simultânea e enigmaticamente, desconfiança e hesitação. Os olhos azulados, mas sem brilho e sem fulgor, revelavam a desesperante inconformidade de esperar nada ou coisa nenhuma. Do nariz escorria-lhe um monco mefítico e escurecido, estancado de vez em quando com as costas da mão. As pernas, integradas num corpo esquelético, balouçavam, aceleradamente, exasperando uma confusa revelia.

A manhã avançava, embora lentamente, mas cerceava as possibilidades de exercitar uma mendigação eficiente e rentável. O sol surgira na máxima força e o calor ameaçava provocá-lo. Procurou outro banco. Por um lado, beneficiava da sombra e por outro parecia-lhe colocar-se em posição mais estratégica.

Tinha razão. Não demorou muito, surgiu o primeiro candidato. Hesitou à primeira, mas aventurou-se... Levantou-se e apenas estendeu a mão... Para quê palavras, a esclarecer um gesto já institucionalizado? Acertouem cheio. Ohomem levou imediatamente a mão ao bolso: cinco escudos. Aparecessem mais como este e regressaria a casa, liberto das contrariedades inerentes ao voltar de mãos vazias.

Os clientes seguintes, no entanto, consubstanciaram autênticos fracassos. Apenas um mocinho, pela sua idade, sem ele entender bem porquê, entrou com cinquenta centavos. A fome começava, no entanto, a fazer-se sentir. Já passava do meio-dia. Empregados, operários, estudantes, regressavam, apressadamente, a casa. Dirigir-se a estes era tempo perdido. Voltar para casa, apenas com aquele dinheiro? Impossível... Não chegava para nada e sujeitava-se a uns valentes tabefes...

O tempo, porém, tornava-se mais quente e sufocado. A tarde avançava e já ia a mais de meio. Uns escudos daqui e outros de acolá e já lhes perdera a conta. Levantou-se. Circundou junto à montra do café e entrou. Era arriscado. Já fora muitas vezes escorraçado dali, mas era local rentável. O primeiro nada. O segundo insultou-o, por entre dentes. Arriscou o terceiro e teve sorte: uma moeda de dez escudos. Saiu apressadamente e veio colocar-se num canto escondido da rua a contar mas sem sucesso. Acertou nas moedas mas errou no dinheiro.

Voltou à montra do café e olhou o cartaz dos gelados. A fome e o calor tentavam. Hesitou... Analisou, demoradamente, a situação... Entrou, saiu e voltou a entrar, aproximando-se do balcão. O homem dos dez escudos já lá não estava. Assim, era mais fácil, pois o seu benemérito não compartilhava a clandestinidade do investimento.

O dono do café, com ar desconfiado e ameaçador, indagou:

- O que queres, pá?

O miúdo apontou timidamente para o gelado pretendido:

- Quero este.

- Tens dinheiro?

Tímido e hesitante, levou a mão ao bolso e colocou em cima do balcão um punhado de moedas. O homem contou-as, pacientemente, uma por uma. Depois, foi buscar o gelado e, quando lhe ia a dar as moedas que sobravam, como visse que o rapaz já se escapulira, nem chamou por ele. Meteu-as na registadora murmurando:

- “Se calhar foram roubadas.”

Cá fora, porém, o garoto iniciava-se, sofregamente,em delícia. Pararafora da porta do café e saboreava sofregamente o gelado.

Mal iniciara o bródio, surge-lhe pela frente o homem dos dez, em tom ameaçador

- Ah! Seu grande tratante! Foi para isso que te dei os dez paus!?

Logo um coro de impropérios organizado por alguns circundantes se formou, em defesa do benemérito traído:

- Estes tipos sabem-na toda!

- Dar-lhe mas era um ponta pé no rabo.

- Falta de trabalho é que é.

- Vadios! Ainda se fosse comida!

Ao longe, uma vizinha acrescia a confusão:

- É para isso que tua mãe te manda? Vais ver, quando chegares a casa!...

A confusão avolumava-se.

Finalmente um polícia que por ali passava, ávido de impor a autoridade, estabelecer a ordem pública e contribuir para a defesa e o bom nome dos cidadãos honrados, interveio com ar arrogante e autoritário:

- Onde é que foste roubar isso, pá?

Como o rapaz não respondesse, acrescentou, agarrando-o pelo braço e apertando sem dó nem piedade:

- Não respondes, pá? Não sabes que te posso prender? Diz lá: onde roubaste essa merda?

Como o garoto permanecesse calado, esboçando contínuas mas frustradas tentativas de libertação das garras do agente da autoridade, este, perdendo a paciência, apertou-lhe o braço com mais violência e sacudiu-o. O gelado caiu no chão, desfazendo-se  por completo.

O grupo dos circundantes dividiu-se, de imediato. Uns, liderados pelo homem dos dez, consideravam que assim é que se impunha a ordem e o respeito, que era preciso acabar com a malandragem e que, se o senhor guarda não tivesse procedido desta forma, o rapaz amanhã faria ainda pior. Outros, associando-se a um velhote que desde o início se mantivera calado, observando a cena, intervieram, condenando radicalmente o guarda, apregoando em alto e bom som, que aquilo não se devia fazer a quem quer que fosse, muito menos a uma criança indefesa.

O miúdo, sem que ninguém desse por isso, aproveitou a confusão reinante para se por na alheta. De vez em quando, de longe, olhava para trás, com ar revoltado e apreensivo. Deambulou pela cidade, lamentando a sua sorte. O desânimo penetrara tão profundamente no seu espírito que decidiu por termo à pedincha.

Continuou, no entanto, a deambular até se perder. Penetrou numa rua de prédios altos, novos e desertos. Transbordava à sua volta um silêncio enigmático e assustador. Aterrava-o o penetrar contínuo e decidido na solidão. Mas quanto mais avançava, mais sentia a abstracção inequívoca do que lhe acontecera. Já não via casas, carros, pessoas… Já não via nada, nem coisa nenhuma.

Chegou, finalmente, a um jardim. Um lago e uma esplanada! Era o princípio do fim da tarde. Clientes, poucos. Apenas sobressaía, bem escarrapachada, numa mesa sobranceira ao lago, uma senhora de idade avançada. Óculos na ponta do nariz, cabelo em estilo rococó, sombrinha esbranquiçada a proteger-se do sol, a velhota vigiava, cuidadosamente, um garoto sentado ao seu lado, muito bem vestido, comendo um enorme gelado de copo, ornamentado com tons de colorido tropical. Perante os protestos da velhota, o rapaz aproximou-se do lago subjacente à esplanada e, num ápice, atirou aos peixinhos o gelado, exasperando mimosamente:

- Eu não gosto deste, avó... Tem gosto a canela... Quero outro... Dá-me outro, avó!...

A velhota ainda ensaiou algumas formas de oposição que, de imediato, esbarraram com a impertinência do garoto. O empregado trouxe novo gelado, em tudo semelhante ao primeiro. O rapaz mimado começou a comê-lo, mas dirigiu-se de novo para a beira do lago, enquanto a avó, cuidando que o segundo gelado teria o mesmo destino do primeiro, corria apressadamente atrás dele, gritando:

- Pedrinho, não voltes a deitar o gelado fora! Ouviste?

A esplanada ficou deserta. Empregado e patrão entretinham-se a contar os trocos na registadora. Em cima da cadeira a velha do penteado rococó deixara a sombrinha esbranquiçada e a mala semiaberta, onde se podiam vislumbrar algumas notas de cem escudos e uma de quinhentos.

O garoto de monco no nariz viu e tremeu... Hesitou e voltou a tremer ainda mais... Mas não teve tempo para reflectir. Ali, à mão!... Era só pegar!... Resolveria o seu problema e ninguém daria por nada. Culpado?! Culpados seriam a mãe, o polícia, o homem dos dez, o dono do café e todos os que o tinham insultado.

Aproximou-se, sorrateiramente, da mesa e tirou uma nota de cem, escapulindo dali com tal rapidez que mais ninguém lhe pôs a vista em cima.

 A velhota, orgulhosa da sua vitória sobre o neto, regressou ao seu lugar, não cessando de vituperar as diabruras do garoto. Nada viu, nem de nada se apercebeu. Sentada de novo, ocupava-se a responder às respeitosas e conspícuas saudações de alguns transeuntes:

- Como tem passado a senhora dona Francisca?

- Senhora dona Francisca, os meus respeitosos cumprimentos!

- Como está senhora dona Francisca? O senhor doutor, seu filho, tem passado bem?

- Ai dona Francisquinha! Há tanto tempo que a não via! Está óptima!...

Longe dali, o garoto de monco no nariz cheio de fome entrou num bar e comeu uma sanduíche de queijo e bebeu um sumol, trocando a nota de cem. Mais adiante, entrou numa pastelaria e comprou um bolo e um pacote de leite achocolatado, pagando com a nota de cinquenta que recebera de troco. Juntou as moedas resultantes de ambas as transacções e fez cinco montinhos mais ou menos idênticos. Ao chegar a casa entregou um à mãe, escondeu os restantes e decidiu tirar férias por cinco dias.

 

*****

O Telejornal das oito, nesse dia, entre a inauguração de um troço de autoestrada e a abertura de uma campanha eleitoral, anunciava mais um caso de corrupção e facturas falsas. Era a firma “Melo & Saraiva L.da”, de que era gerente e principal accionista, o doutor Pedro Lucas Saraiva de Melo. Essa a razão por que a velhota de penteado rococó e sombrinha esbranquiçada não deixou, nessa noite, que o Pedrinho visse televisão.

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publicado por picodavigia2 às 00:08

ESCALÉRIA

Quinta-feira, 14.11.13

A serra, vista de longe, é um monstro baço, negro e obscuro. Misturada com o horizonte, define-se e clarifica-se pelas suas formas fragosas, abstrusas e opacas. Envolto num enigma edénico e bucólico, o seu perfil austero e gigantesco aparenta um enorme e chavasco cenotáfio.

Quando observada mais de perto, porém, a serra surge como um ténue e esverdeado manto, salpicado aqui e além por pequenas manchas esbranquiçadas, envoltas por um matiz acrisolado de cores, de sons, de melodias e de perfumes. Entrecortada por penhascos e ravinas, sulcada por rios e regatos, crivada de verdura e arvoredos, a serra é, quando nela penetramos, um recanto ubérrimo e sublime, um paraíso empavesado e atraente mas agreste e adverso.

A serra é também uma colmeia de pequenas aldeias. Umas dispersais nas encostas soalheiras, outras debruçadas sobre fragas e pináculos.

Escaléria da Serra ou simplesmente Escaléria é uma delas. A sua história perde-se no tempo e a sua origem remonta aos primórdios da fundação da nacionalidade. Concedeu-lhe foral Sancho I. Teve pelourinho e capela românica, fundada pelos monges Premonstratenses, no séc. XII. Isolamento, penúria e demência cultural contribuíram para a destruição de um e o abandono da outra, substituída esta última por uma construção de blocos de cimento, com portas de alumínio. Talvez tenha herdado o nome do espanhol “escalera” que significa degrau, epíteto que se prende com a sua estratégica situação na serra. Segundo uma opinião mais ousada, porém, terá sido uma ilustre dama, chamada Scaléria, que lhe deu nome. Fugindo às atrocidades e sevícias de um marido, janízaro, sem moral e sem consciência, Scaléria ter-se-á ali refugiado, como que transformando a serra no seu ergástulo. A densa vegetação e o isolamento, terão contribuído para dificultar a procura, por parte do sacripanta. O bardino nunca encontrou Scaléria e esta, acompanhada por um reduzido número de escravos, a quem havia dado alforria, fixou-se por ali, definitivamente, dando nome ao povoado.

Escaléria, hoje, é um resíduo enigmático de uma diminuta população em que predominam os idosos, arrastando-se por vielas esconsas, caminhos sinuosos, por aclives e bamburrais, sobrevivendo graças a uma labuta macerada e férvida. As ruas cheiram a silêncio e solidão. Da maioria das casas emerge abandono e escalavramento. A aldeia, perdida nos barrocais da serra, é um mito desfeito, um paradigma de paixões perdidas, um deserto de desejos e projectos.

Enquanto o fumo anunciador de lares ou lareiras, esquivando-se pelos telhados, se perde por entre o acinzentado das manhãs, os homens e as mulheres que ainda se movimentam procuram, nos campos circunvizinhos, o sustento quotidiano, que lhes garanta a sobrevivência. Depois o almoço frugal. De tarde, a exígua população decide-se pelo repouso. Os homens reúnem-se na baiuca do Ti Jerónimo do Lameiro. As mulheres, se é inverno ou chove, aconchegam-se cada qual no seu cardenho. Pelo contrário, nas tardes solarengas da primavera e do verão, juntam-se em alegre contubérnio, nos degraus da pátio da Maria Constança, local central da aldeia, transformando-o ora em areópago de mexericos e má-língua, ora em santuário de murmúrios e lamentações.

A Joaquina Fardola é a primeira a chegar; depois a Perpétua do Tesoureiro, a Florinda da Benta, a Maria Augusta, a viúva do Justino, a própria anfitriã e algumas outras. O diálogo inicia-se geralmente sobre maleitas e sezões, terminando em sonhos perdidos e desejos desfeitos, passando por crónicas de maldizer e críticas mordazes.

- Ai estas pernas que já não me ajudam nada! – Lamenta a Benta para a viúva do Justino.

- Com a tua idade, menina, com a tua idade, dava pulos numa estrela. Ó! Se dava! –Contraria a Maria Constança, que, afinal, não aparenta grande diferença de idade da viúva.

A Augusta, de imediato, intervém:

- Estas catraias de agora não sabem o que é a vida, nem o que é sofrerem. Hoje têm tudo! Não fazem nada. Sabem o que ouvi dizer ao meu José, quando esteve cá? Que lá na França em casa dele têm máquinas para tudo. Até têm uma máquina para lavar a loiça! Já viram vocês? Uma máquina para lavar os pratos e as panelas... A mulher e as filhas não fazem nada!... Isto tem que se lhe diga, meninas... Tem que se lhe diga...

- E admiras-te? – Interrompe a Florinda. – Então o meu Joaquim não tem uma caixinha, assim a modos que preta, com umas luzinhas e uns botões. Ele carrega nos botões e zás! Toca a falar para onde quer. Até fala para a França, para o meu Gilberto! Para a França, vejam lá vocês...

- Modernices! Modernices! – Exclama a Evelina das Cavadas acrescentando - Estas gentes modernas não sabem o que é trabalhar. No nosso tempo é que era!...

- Ah! Pois era! Só que depois do 25 de Abril isto mudou tudo. Trabalho? Quanto menos, melhor! Boa vida, vadiagem e, agora estas drogas, que dizem que andam por toda a parte. Antigamente é que era... Nem à escola meu pai me deixava ir... Só à missa... Mas era ir num pé e voltar no outro! Nada de demoras ou paragens – explica com acentuado denodo a Joaquina Fardola.

A Perpétua do Tesoureiro, cujo apelido fora herdado do pai, que acumulara durante anos e anos as funções de sacristão com as de presidente da Junta de Escaléria, entra de imediato em defesa do seu progenitor acerrimamente:

- Escola!? Escola nem havia. Era no palheiro do José do Monte! Nem janelas tinha...Vocês já não se lembram, mas foi o senhor Salazar, a pedido do meu santo pai, que Deus tenha, que mandou construir aquela ali na Fonte Nova. E que bela escola que era! Um primor! Vocês vêem o estado a que chegou? Vidros partidos, portas arrombadas, tudo destruído. Foram os comunistas, credo em cruz - e benzia-se vezes sem conta – foram os comunistas que deram cabo de tudo. E agora, nem professora temos. Vem um carro buscar os do Aníbal para os levar para a escola de Trelhal. O senhor Salazar é que era um governante como deve ser!

- Foi a seguir ao 25 de Abril!... Deram cabo de tudo - confirma a Fardola.

A Perpétua não desarma:

- Não só deram cabo de tudo como favoreceram os vadios, os preguiçosos, os vigaristas, os drogados, os que não fazem nada. Isto é uma vergonha! Sabem o que a minha Ritinha me disse quando cá veio? Que nessas televisões que agora há por aí, disseram que Portugal era o país do mundo onde havia mais bêbados. Ora vejam lá, mais bêbados...

- Credo menina, credo – contraria a Constança - Mas então nessas Rússias e Américas? Dizem que é muito pior do que aqui. É só guerras e mortes. O meu home diz que, quando esteve no hospital de Trelhal, via muitas vezes as notícias numa televisão que lá tinham, que não é igual a essas das cidades, é a modos que só a preto e branco, mas, mesmo assim, diz que aquilo tinha dias que era um horror. Era mortes, mortes, mortes por esses mundos fora...

- E aqui não há guerras, mas há malandragem e vadiagem! – Sentencia a das Cavadas.

- E abandono. Estamos para aqui abandonados, sem ninguém olhar por nós ou por esta terra. – Acrescenta a Florinda.

- E doença... Doença.... Ai estas pernas – lamenta-se, mais uma vez a Benta, acrescentando com ar fingidamente tristonho - É estar aqui à espera da morte!

- Morte!? Há meses que não vem cá um padre - explica a viúva do Justino, que até então permanecera muda – Nem padre temos para nos “asssacramentar” à hora da morte.

- E médico? Há quantos anos não vem cá um? – Interroga a Benta, ajeitando a anágua.

- Foi o 25 de Abril. Ai estes anos a seguir ao 25 de Abril! – Lamentam em coro.

O Agripino que passava por ali parou e, debruçando-se sobre o muro que dava para o pátio em cujos degraus estavam sentadas as mulheres, intervém meio a sério meio a rir:

- Isto é que é má-língua. As mulheres quando se juntam é sempre para dizer mal. Então não vêem os melhoramentos que se fizeram na nossa aldeia, durante estes anos, a seguir ao 25 de Abril.

- Melhoramentos?! Melhoramentos em Escaléria?! Isso é lá nas cidades e na França! – Explica a Augusta, catedrática presumida em questões francesas - Aqui o que é que vês? Miséria, só miséria...

- E malandragem – acrescenta a Perpétua.

- E abandono – proclamam conjuntamente a viúva e a das Cavadas.

- E doença - acrescenta prontamente a Augusta voltando a lamentar-se -  Ai estas pernas... Qualquer dia nem andar posso.

- Olhem que isso não é bem assim. Então não vêem esta estrada que hoje nos leva até lá abaixo, à estrada que dá para Trelhal? Não se lembram como os caminhos eram antigamente? Nem carro de bois passava... E ali, no largo? As árvores e os bancos que lá puseram. Dizem que a luz vem a caminho, a água virá depois. O cemitério foi melhorado.

- Sim, sim... Caminhos para quem tem automóvel. E cemitério para quê? Depois de mortos não precisamos de nada. Em vivos sim, enquanto estamos vivos é que precisamos de cuidados – acrescenta a Fardola considerada a mais letrada do grupo.

O Agripino bem explicava que afinal a seguir ao 25 de Abril muita coisa tinha mudado e para bem de todos. Se ainda lá não tinha chegado a luz e a água era questão de mais uns anos ou talvez meses. E acrescentava:

- Mas, meninas, o que de melhor temos agora, depois do 25 de Abril, é a democracia e a liberdade em que vivemos, no nosso país. Somos um país democrático e um povo livre. Além disso, o governo agora interessa-se muito mais pelos pobres do que no tempo do Salazar, cujo governo só beneficiava os ricos. Este governo até dá um subsídio às famílias mais pobres. Mas o mais importante de tudo é a liberdade. Olhem, se não houvesse liberdade vocês nem podiam falar assim...

 E voltando-se para a Perpétua do Tesoureiro, interrogou-a com acrimónia:

- Já não te lembras como era no tempo de teu pai? Era ele que mandava em tudo eem todos. Eraum fascista como os da Pide. Não se podia falar mal do governo diante dele, ou dos que lhe iam meter tudo no cu, os que eram como ele. Não havia liberdade. E já não te lembras da guerra do Ultramar? E dos filhos da Joaquina Toina, do Bento do Moleiro e meu sobrinho, que morreram na guerra de Angola?!

A Perpétua bem protestava, implorando que moderasse a língua e respeitasse a memória do seu paizinho, que esse sim, muito fizera por Escaléria e o pagamento era ter sido tratado como foi.

- Um santo! Um santo! – Exclamam as outras, em tom reconfortante.

A noite descia apressadamente sobre o povoado. A viúva do Justino foi a primeira a desertar. As outras, umas isoladas, outras em pares, foram-lhe seguindo o exemplo, recolhendo aos seus lares.

Pouco depois os degraus da Constança ficaram desertos. Sobre Escaléria e sobre a serra caía um silêncio profundo e uma noite cada vez mais escura e mais indefinida. Nas poucas casas habitadas, terminado o caldo no escano junto à lareira, esbagoavam-se camândulas e bichanavam-se ave-marias. Depois, um sono profundo e tranquilo dominava todos até que a manhã, por entre os sombreados esconsos da serra começasse timidamente a clarificar e a definir-se.

E na tarde dos dias seguintes, nos degraus do pátio da Maria Constança, lá estavam, ocupando os mesmos lugares, a Joaquina Fardola, a Perpétua do Tesoureiro, a Florinda da Benta, a Maria Augusta, a viúva do Justino e a Evelina das Cavadas sonhando com o passado, condenando o presente e obliterando o futuro, enquanto a serra se ia tornando cada vez, mais escura, sombria e enigmática, porque mais distante e longínqua.

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publicado por picodavigia2 às 19:01

EXCERTOS DA CARTA ENVIADA PELO CAPITÃO DIOGO DE SILVES AO SENHOR DOM INFANTE SOBRE O ACHAMENTO DE ALGUMAS ILHAS DOS AÇORES

Sábado, 19.10.13

Documento inédito e “desconhecido” até à presente divulgação, com a grafia actualizada.

 

“Eu, Dom Diogo de Silb, capitão (...) tendo-se levantado grande procela, navegámos aterrorizados, sem destino (...) Passados alguns dias chegámos a uma ilha, com uma enorme baía, junto à qual se levantava uma rocha muito alta, repleta de árvores diversas, algumas nossas desconhecidas que as não há em nenhuma parte do reino de Portugal, encimada por uma enorme e negra montanha, que devido aos nevoeiros que cobriam a parte mais alta da dita ilha, muito dificilmente se via. Aportámos à dita baía e alguns dos nossos marinheiros mais destemidos entraram por terra dentro. Ao regressar informaram de que aquela ilha era mui grande e mui alta e que não tinham encontrado pessoa humana nenhuma. Apenas trouxeram consigo frutos diversos, que os há muitos na dita ilha e algumas aves, que mataram e assaram em fogueiras que fizeram à beira do mar, juntamente com o peixe que pescámos e que é abundante naqueles mares. Passados alguns dias, o tempo amainou e largámos dali, navegando para Oeste, percorrendo grande parte da costa sul da dita ilha. Logo adiante avistámos a bombordo uma outra ilha, muito mais baixa e arredondada e, logo dali depois, a estibordo, uma outra ilha muito comprida e escura. Consultando o portulano dos Medici pudemos verificar e saber que a dita primeira ilha a que aportámos era a Li Colombi, mas à qual os nossos marinheiros já tinham posto o nome de ilha de S. Diniz, por mandato do nosso padre capelão. A outra ilha que encontrámos a Oeste era Insule Ventura, à qual pusemos o nome de S. Luís. E não havendo outro nome de santo adequado, para aquela outra dita ilha que se chamava de  San Zorso, houvemos por bem chamar a dita ilha pelo nome de ilha de  S. Jorge (…) Depois de aportarmos a estas ditas ilhas, verificámos que eram, em tudo, mui semelhantes à primeira, isto é, desabitadas e sem vestígios de o terem sido anteriormente, desprovidas de animais, tendo, como a primeira, apenas algumas aves, mas cobertas de densa e mui desconhecida vegetação.  Navegámos, de seguida, para oriente, para os lados do Reino de Portugal, e avistámos mais uma ilha, esbranquiçada, algumas léguas a norte. Como se levantasse de novo grande procela, fomos dar a uma outra ilha que é chamada de Insule Brazi. Como a ela chegámos no primeiro dia de Janeiro, dia do Santíssimo nome de Nosso Senhor Jesus Christo, entrámos em terra onde foi logo celebrada missa e os nossos marinheiros chamaram-lhe ilha de Jesus Christo. Nela permanecemos alguns dias porque é mui fértil em frutos de diversas qualidades e aves mui grandes e abundantes. Ali ficámos porque dela não se viam outras ilhas, para além das já achadas. Passados alguns dias afoitámo-nos, de novo, ao mar e navegamos  para oriente e, guiados por muitas aves que voavam por ali, sendo tais aves terrestres, fomos por elas guiados até encontrarmos as duas ilhas de Cabrera. Foi assim que decidimos enviar a Vossa Alteza e meu Senhor, um batel com alguns dos nossos homens, dando notícia do achamento das ditas ilhas, pois sabemos quanta vontade e desejo Vossa Alteza e meu Senhor tem no dito achamento. Agora, que Vossa Alteza tem e haja as ditas ilhas, como era vosso real desejo desde há muito, podeis enviar, com auxílio do piloto que mandámos para o reino, o vosso nobre e esforçado cavaleiro Dom Frei Gonçalo Velho Cabral, Comendador do Castelo de Almourol, que está sobre o rio Tejo, a estas paragens, para vos tornardes o verdadeiro senhor destas ilhas e aproveitardes os produtos em que são férteis. Como também são mui ricas de plantas diversas e mui verdejantes podereis mandar lançar em todas elas grande quantidade de cabras e ovelhas que nellas pastarão mui bem. Mais assegurámos que poderá Vossa Alteza enviar colonos para as habitar e cultivar, pois todas ellas são de mui bom terreno para cultivo de cereais e de frutos e para criação de animais e tem junto ao mar grandes baías e terrenos planos para se construírem povoados... Deveis solicitar ao senhor vosso pai e el-rei de Portugal, licença para as povoar, o qual mande que vedores da fazenda, corregedores, juizes, justiças e outros quaisquer que isto houverem de ver, que lhas deixem mandar povoar e não lhes ponham sobre ello embargo (…) feito em 3 dias de Março, Anno do senhor de mil iiijc xxviii”.

 

NB - Este suposto “documento” é pura ficção. Qualquer semelhança com o histórico é mera coincidência.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:32

O ROGAS

Quinta-feira, 17.10.13

O Rogas era o homem mais rude e bisbórrias da aldeia. Nasceu sem saber quem era o pai. Abandonado, mais tarde, pela mãe, deambulou, sem destino, até que o Cabral o apanhou, vendo nele mão-de-obra gratuita. Não se enganara, o mariola. O moço, embora raquítico e franzino vinha mesmo a calhar. Deixá-lo vingar e serviria perfeitamente para as lides agrárias, quer tratando de leiras e courelas onde florescia o trigo, a aveia e os legumes, quer pastoreando o gado nas encostas e barrocais da serra, enquanto ele, Cabral, se reservava exclusivamente às tarefas comerciais, no execrável e hediondo botequim que herdara do sogro, o qual profligava dia após dia.

Foi, pois, um investimento razoável, o do Cabral. É que o tratante, na ânsia de enriquecer, tornara-se sovina e larápio. Não havia tostão que lhe saísse do bolso. No botequim vendia de tudo: o autorizado e o não permitido, o gamado e o obtido na candonga. Além disso, reinavam mixórdias e salsadas, entre pesos adulterados e medidas falseadas. Como era profícuo em falta de escrúpulos, a contratação do moço veio mesmo a calhar e estava facilitada, pois o garraio era pouco exigente, contentando-se com cama e mesa, prescindindo da roupa lavada.

O moço, no início, adaptou-se servil e perfeitamente ao trabalho. Levantava-se noite escura, levava uma côdea de pão e um naco de queijo e regressava ao lusco-fusco, com cada tarefa eximiamente cumprida. Não havia vento, chuvada, tempestade, nem muito menos escola que o poupasse e os campos do Cabral floresciam como nunca, enquanto as falcatruas, no botequim proliferavam assim como crescia o pecúlio no cofre.

O Rogas cresceu e tornou-se homem. O empenho desmesurado que colocava nas  lides agrícolas impediam-no de se aventurar nas extravagâncias duma juventude fogosa e trivial. Nem domingos, festas, folguedos ou flostrias. Namoro, apenas passageiro. À cidade viera apenas uma vez. Foi para se inscrever no serviço militar do qual, por influências interesseiras do Cabral, foi dispensado. É que o Rogas, forçado às exigências do biltre, via-se obrigado a abdicar de tudo. Não possuía nada, nem coisa nenhuma. No entanto, com o rolar do tempo, foi-se apercebendo das injustiças de que era vítima e entendeu a promiscuidade que o rodeava e que singrava nos negócios e nas atitudes quotidianas do seu amo. Daí ao grito de libertação foi um ar. Continuar a ser explorado por aquele vigarista, aldrabão e gatuno é que não. O somítico nunca lhe dera uma folga, nem sequer um tostão.

Saiu, pois, do Cabral, pese embora desconhecesse o seu destino. Era certo porém que ninguém aceitaria como fâmulo um embusteiro embalado e formado na doutrina intrujona do Cabral.

Assim deambulou, algum tempo, sem dinheiro e sem destino. O primeiro dia foi de jejum e na primeira noite teve como abrigo as ombreiras da Igreja Matriz. Na noite seguinte, porém, foi despejado dali. Cuidando o zeloso sacristão que tal presença punha em risco a dignidade e decência do templo, escorraçou-o sem dó nem piedade. Restou-lhe como refúgio um casebre à porta de entrada do cemitério.

Nas primeiras noites, escuras como breu, sentiu alguns arrepios. Mas vieram, de seguida, as noites de lua cheia e, com elas, a adaptação a tão tétrico habitáculo.

A comida procurou-a por esmola. Pesava contra ele a malvadez e a sovinice do Cabral, com o qual agora como que era identificado. Por isso, vezes sem conta, lhe atiravam à cara:

- Vai comer para onde trabalhaste!

Granjeara, sem proveito, a fama desprezível do amo. Agora, isolado entre mortos e sepulturas, tornava-se cada vez mais rude, assumindo, além disso, um ar de marginal. Sobre ele despejava-se ódio, abandono e desinteresse. A roupa, sempre a mesma, não via água há meses e, consubstanciada com a barba por fazer e com o cabelo por pentear, atribuía-lhe, inevitavelmente, um perfeito ar de vagabundo, que levava uns a afastarem-se e outros a não lhe manifestarem qualquer auxílio.

Apenas o coveiro lhe dedicava alguma atenção e cuidados, partilhando com ele palavras e alimentos. Porém, a sua morte, tempos depois, redobrou-lhe a solidão e o isolamento, mas fez com que lhe surgissem novas perspectivas É que não havia, na aldeia, candidatos à vagatura. Por isso se generalizou a sentença: - “O Rogas que vá abrindo as sepulturas.”

Teve que aceitar e a primeira cova que abriu foi a do seu antecessor, assumindo o cargo, com dignidade, sonhando que, um dia, haveria de calcar o sovina do Cabral.

O Dr Assumido Paixão ocupava, desde a morte do pai um sumptuoso palácio edificado no centro da aldeia. Era um magnífico e gigantesco edifício, com jardim e grandes escadarias, construído muitos anos antes. O Dr Assumido, que agora dava continuidade às lides agrárias e aos negócios que herdara do avô, tinha uma filha, Isaura. Jovem, bela, crescera isolada entre as grossas paredes e os altos portais de ferro do palácio, pouco conhecedora do mundo que a rodeava. Partira muito nova para Lisboa, para estudar. Regressava à aldeia, apenas nas férias, desconhecendo quase na íntegra, lugares, costumes e pessoas. É que, sem parentes ou amigos, isolava-se no interior do palácio, percorrendo o jardim, contemplando as obras de arte e as espécies botânicas que por ali singravam, graças ao bom gosto artístico e ao amor à natureza do vovô Carmo.

Isaura acabava de terminar mais um ano lectivo, o último antes de entrar para Direito, quando recebeu a notícia do trágico acidente em que morreram o pai e a mãe. Regressou rapidamente à aldeia entre prantos e lamentos. Aprontou-se o funeral. O Rogas, com trabalho redobrado, maldisse a sua sorte. O cortejo fúnebre entrou a passos lentos no cemitério. Atrás dos féretros, Isaura, vestida de negro, era a imagem da dor e do desalento. Uma pequena multidão seguia-a, partilhando o infortúnio e a tristeza.

Terminadas as orações a maioria dos acompanhantes retirou-se. Isaura ficou só. Trémula, lançava-se ora sobre um ora sobre outro dos caixões que jaziam sobre a terra calcada pelos pés dos circundantes. Dos seus olhos rolavam lágrimas de dor e desânimo. Espelhava, no rosto a marca terrificante do infortúnio. De repente, o seu corpo franzino, perdendo o vigor, balançou e caiu por terra.

O Rogas hesitou. Desde há muito que a sua atenção se fixara naquela jovem dolente, amargurada e inconsolável, despertando nele complacência e compreensão. O amor atrofiada desde criança a quando do abandono maternal e a compaixão adormecida desde as sevícias e abusos do Cabral, como que renasceram, naquele momento, explodindo fleumaticamente dentro do seu peito.

Dirigiu-se para junto da jovem e pegando-lhe nas mãos acariciou-lhe tímida mas carinhosamente o rosto pálido. Alguns circundantes mais chegados a Isaura ainda o tentaram afastar mas sem eficácia. Ela, abrindo os olhos, sorriu-lhe, aceitando os eflúvios carinhosos que emanavam daquele ser tão estranho e até então emocionalmente atrofiado.

E do rosto enegrecido e fleumático do Rogas, rolaram lágrimas de dor que perfurando a barba negra, se despegaram do rosto e caindo no chão se misturaram com o dolente sofrimento de Isaura. Pela primeira vez o Rogas chorou!...

A manhã seguinte surgiu cinzenta e enevoada. Entre os dois montes de terra fresca, cobertos de flores e fitas roxas, Isaura ajoelhada, orava.

O Rogas, tímido e hesitante, saiu do seu cubículo e aproximou-se. Nem uma palavra... O seu olhar, porém, revelava uma compreensão infinita e uma complacência sem limites. Ajoelhou-se ao lado... Orou também e chorou de novo.

As manhãs repetiram-se. Quando ela entrava, o Rogas, disponibilizando carinho e compaixão, como que adivinhando-lhe a chegada, já estava ajoelhado entre as duas sepulturas, sobre as quais as flores amareleciam.

Passaram-se dias, passaram-se meses. Entre muitas hesitações, Isaura decidiu continuar a manutenção do palácio de que agora era proprietária, as lides agrárias e os negócios do pai. Parentes, amigos e vizinhos davam conselhos e ofereciam préstimos. Isaura, apercebendo-se de intervenções tão descaradamente interesseiras, que contracenavam, na sua mente, com a imagem simples daquele homem que diariamente a acompanhara no cemitério, ia protelando decisões. Não esquecia a imagem do homem pobre e rude, que, sem a conhecer, sem interesses de qualquer espécie, se colocara humildemente a seu lado, partilhando a sua dor, oferecendo-lhe compaixão...

Estranhamente tomou uma decisão – aquele homem seria o seu capataz. Depois de ele se preparar devidamente, confiar-lhe-ia a gerência não apenas do palácio, mas de todos os seus bens e negócios, libertando-o da miséria e da rudeza em que vivia.

O Rogas recusou. O que aquela menina lhe oferecia era um absurdo. Isaura ultrapassou todos os obstáculos que ele lhe contrapôs. No início ela ajudá-lo-ia, preparando-o devidamente.

E preparou-o. E o Rogas transformou-se radicalmente, depressa se integrando, com grande dedicação e interesse, na gestão dos negócios e bens de sua ama.

Passaram os anos. A doutora Isaura regressou à aldeia licenciadaem Direito. Assumiunão exercer a advocacia, sistematicamente e por profissão. Como, no entanto, muitas pessoas, sobretudo as mais pobres, se dirigissem a ela para resolver os mais diversos assuntos, sempre com auxílio e colaboração do Senhor Rogas, cedo se espalhou, pela aldeia, a fama da sua eficácia e a excelência da sua generosidade. Tais qualidades, aliadas ao facto de fornecer os seus serviços gratuitamente, fizeram com que o palácio fosse sistematicamente procurado para que a senhora doutora resolvesse os assuntos mais complicados e as questões mais inverosímeis, sempre por intercessão do Senhor Rogas.

Certa noite, aproximou-se do portão, um vulto negro de mulher, embrulhado num grosso xaile, que lhe cobria todo o corpo. Tocou ansiosamente a campainha. Como habitualmente, o Rogas veio abrir. Era ele que levava sempre os recados ou as súplicas que julgasse dignas de compaixão, à senhora doutora.

O vulto, ao aproximar-se, retirou o xaile descobrindo o rosto choroso. O Rogas estremeceu. Era a mulher do Cabral. O peito encheu-se-lhe de cólera e de raiva. A mulher, porém, perdida na escuridão da noite, sem se aperceber de que era ele, suplicava incessantemente:

- Peça à senhora doutora que liberte o meu homem! Ai, a senhora que liberte o meu homem, por alma dos seus paisinhos.

O Rogas, sem se dar a conhecer, tremulamente indagou:

- O que se passa? Porque prenderam o seu marido?

A mulher, então, explicou que o seu homem tinha sido preso, junto à fronteira, mas injustamente, por engano, sem ter feito nada. Apenas andava a tratar de uns negócios, nada de contrabando, não senhor, que o seu homem não era desses, que a senhora doutora podia confiar nele e que só uma palavrinha dela o libertaria da prisão.

O Rogas ouviu-a atentamente.

Passado algum tempo o Cabral foi libertado.

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publicado por picodavigia2 às 11:43

ENTRE A ORIGEM E A OPÇÃO

Segunda-feira, 14.10.13

A cidade assemelhara-se-lhe sempre como um mundo indefinido, confuso e enigmático. É verdade que nela nascera, crescera, estudara e, desde há alguns anos, se iniciara no mundo do trabalho. Não a odiava, talvez até a amasse, mas sentia, cada vez mais, que ela sobrepujava o seu quotidiano, ultrapassando os seus sonhos e desejos. Aqueles prédios altíssimos das Avenidas de Roma e dos Estados Unidos, onde, todos os dias, tomava o transporte para o trabalho, a confusão reinante de veículos e transeuntes, os autocarros apinhados de gente, as filas infinitas e as esperas prolongadas, o barulho ensurdecedor da própria rua onde morava, enfim, o congestionamento, a insegurança e a intranquilidade que cada vez mais devoravam a cidade, afligiam-no e atormentavam-no, de dia para dia.

Lisboa, apesar de ser a sua cidade de origem, aos poucos, ia-se tornando como que um enorme pesadelo de que era urgente libertar-se. Como? Não sabia.

Inicialmente segredara-o apenas à Elvira, a companheira com quem, de há muito, partilhava os momentos de alegria, de prazer e as horas de cansaço e de tristeza. Agora, porém e à medida que o tédio aumentava, sentindo-se incapaz de libertar-se, começava a abrir-se com colegas de trabalho e amigos de ocasião.

O Alves, que se sentava todos os dias, na mesa em frente, no escritório, perante as suas lamúrias, ripostava:

- Ó Guedes, sinceramente que não te entendo! Há lá vida melhor que esta, da cidade?! Trabalho pouco e leve. Divertimentos muitos e variados. Lisboa é um mundo, homem! Para além disto não há mais nada. Vais encafuar-te numa aldeola qualquer como um anacoreta da Idade Média? Estás maluco? Tira essas idiotices da cabeça. Isto aqui é que é vida.... Então não vês que os da província emigram para a capital em catadupa?

Mas para demover o Guedes, não havia argumentos, nem do Alves, nem de quem quer que fosse.

Numa tarde de Domingo em que, com a Elvira engripada, havia optado por ficar em casa, a seu lado, folheando, sem grande convicção, o último número da “Reportagem” deparou com um artigo sobre o Alentejo que de imediato lhe chamou a atenção. Leu-o e releu-o com desmesurada curiosidade.

No fim, o autor da reportagem, ilustrada com algumas fotografias, referia que muitos dos actuais proprietários dos montes alentejanos que os haviam adquirido por herança, estavam a vendê-los, dado que muitas pessoas que vivem nas grandes cidades começam a interessar-se por eles e a comprá-los...

E a ideia de adquirir um monte alentejano não saiu mais da cabeça do Guedes, pese embora a oposição manifestada pela Elvira e as dificuldades que tal aquisição acarretaria.

- Sais de Évora para Reguengos de Monsaraz. Depois de passares o cruzamento para S. Manços e Portel, em S. Vicente do Pigeiro, voltas à esquerda e segues para Montoito. Depois apanhas a estrada para as Falcoeiras, andas meia dúzia de quilómetros e encontras uma placa a indicar “Artesanato do Alentejo”. É aí.

Foi assim que o Guedes explicou ao Alves quando, pelo telefone, o convidou, a ele e à Guida a passarem uns dias no seu monte. 

Já há alguns anos que ali se haviam fixado, ele e a Elvira, concretizando o almejado abandono de Lisboa. Fora um anúncio num jornal. Uma opção difícil, mas consciente e determinada. Numa primeira visita ao local, granjeara a condescendência imediata da Elvira. Era um sítio maravilhoso e paradisíaco, ali, perto de Évora, no coração do Alentejo. Uma planície imensa, onde se vislumbravam searas ondeadas e pintadas a ouro, vinhedos, olivais ramalhudos, montados de sobreiros e azinheiras e terras de pousio onde se apascentavam rebanhos e rebanhos de ovelhas. Além, para Noroeste, a serra de Portel. Para Oeste a planície estendia-se ainda mais, até se perder em Évora. Para o Norte a serra de Ossa e para os lados de Espanha os relevos acidentados de Monsaraz, o castelo de Mourão e as terras espanholas. O seu monte, ali nas Falcoeiras, a20 quilómetrosde Redondo, constituía como que o epicentro daquele paraíso de beleza e de grandiosidade. Era um descampado não muito grande, povoado aqui e além por sobreiros e olivais. Na parte mais alta, o casario, cumprindo a tradição alentejana, pintado de branco, debruado com barras amarelas, com um telhado escurecido e uma enorme chaminé. À frente três janelas de vidros axadrezados e duas portas de madeira alaranjada.

Agora, estava ali, à espera do Alves e da Guida, com o seu monte reconstruído, tendo transformado o celeiro e as arrecadações em loja de artesanato, onde abundavam trabalhos em barro, em cortiça, em chifre e pele de Évora, cestaria e objectos de mármore e madeira de Borba, olaria, tecidos, mantas, chocalhos, buinhos de Reguengos,  cerâmica de S. Pedro do Corval, tapetes de Arraiolos e loiças pintadas de Redondo. De Estremoz recolhera olaria decorativa e utilitária, bonecos típicos, peles, cabedais, trapologia, rendaria, bordados, trabalhos em cana, em vidro e cabaças. No início fora difícil a adaptação e o investimento excessivo mas agora tudo lhe corria de feição.

A chegada do Alves e da Guida foi festejada com grande alacridade. Há muito que se não viam. Era a hora de demonstrar a fascinação do Alentejo, de que o Alves sempre duvidara:

- E tu que quase me forçaste a abandonar os meus planos! – Insinuava, orgulhosamente o Guedes e acrescentava – Isto é uma maravilha! Mas ainda não viste tudo. Hoje vamos descansar e saborear uns petiscos. Amanhã daremos um passeio pelos arredores onde poderás ver uma região onde as marcas aberrantes da industrialização ainda se não fizeram sentir e onde a qualidade ambiental se espelha por toda a parte. Uma região plena de recantos insuspeitos onde, para além da beleza paisagística, proliferam monumentos históricos de grande variedade e riqueza.

Na manhã seguinte o périplo prometido e imprescindível. Redondo com a sua Cerca Medieval e as ruínas do Castelo, a Torre de Menagem, o Pelourinho, a igreja Matriz, a Misericórdia e os Paços do Concelho. A seguir Estremoz: o castelo, a Torre de Menagem, o Paço de Audiência de D. Dinis, as capela da Rainha Santa Isabel e do Anjo da Guarda, a Torre das Couraças, o Pelourinho e a porta dos Currais. Depois Borba com as ruínas do Castelo, as igrejas Matriz, de S. Bartolomeu e da Senhora do Sobral, os Paços do Concelho, os Passos da Via-Sacra e a Fonte das Bicas. Vila Viçosa, outrora sede do ducado de Bragança, com o Palácio Ducal, a Igreja Matriz, o Convento das Chagas, a Porta dos Nós e o jantar: gaspacho, carne de porco à alentejana e bolo do fundo do alguidar. No regresso, já noite escura: Alhandroal, Redondo, Montoito e Falcoeiras.

Foi no dia seguinte que o Alves, despedindo-se do Guedes, lhe segredou:

- Meu amigo! Agora sou obrigado a reconhecer que tinhas razão: a trocar por Lisboa, só o Alentejo.

E partiu, com destino à capital, prometendo regressar em breve.

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publicado por picodavigia2 às 19:21

O FOGÃO DA LUZ

Sexta-feira, 11.10.13

Era uma vez um pai que tinha muitos filhos. Era de avançada idade e sentia-se cansado e desiludido, mas era conhecedor profundo da vida e, sobretudo, da forma como resolver, tanto os grandes e esporádicos problemas como as pequenas dificuldades do dia-a-dia. Andava preocupado o bondoso e inteligente ancião, pois, observando as atitudes e comportamentos dos seus filhos, cuidava que não punham muito tino na forma de resolver os problemas, que tomavam decisões impensadas e irreflectidas de que depois se arrependiam e não reflectiam a fim de escolher a melhor, a mais fácil e a mais eficaz forma de resolver esta ou aquela dificuldade. Apenas um dos filhos, o mais novo, era, na opinião do veterano pai, sensato nas suas tomadas de decisões, prudente nas suas atitudes e deliberações, precavido nas acções mais inesperadas, ponderado e cauteloso em tudo o que fazia.

Preocupado em cada dia, em cada hora e em cada momento, o bom pai bem avisava os filhos sobre a necessidade de reflectirem antes de tomarem qualquer decisão a fim de que as suas atitudes não fossem perniciosas e nefastas e delas não se viessem a arrepender mais tarde. Caíam em saco roto, os seus conselhos.

Certa noite, ao deitar-se, colocou um candeeiro a petróleo em cima de uma mesa-de-cabeceira que ali havia, ao lado da velha enxerga de palha e pragana. Acendeu-o com o pavio de tal maneira alto que aqueceu excessivamente o vidro. Depois, quando percebeu que o fogão da luz já pelaria quem o tocasse, chamou o filho mais velho e ordenou-lhe:

- Agarra o fogão desta luz com ambas as mãos.

O rapaz de imediato respondeu:

- Não posso, meu pai. Não vê que está muito quente? – E sentou-se ao lado, por ordem do progenitor, o qual, de imediato, chamou outro filho a quem deu a mesma ordem. A resposta imediata do rapaz foi também a mesma: “Não posso, meu pai, está muito quente!” e sentou-se ao lado do irmão mais velho. O mesmo aconteceu com os restantes irmãos.

Chegou, finalmente, a vez do mais novo. Entrou no quarto e o pai deu-lhe a mesma ordem:

- Agarra o fogão desta luz com ambas as mãos.

O rapaz calou-se durante uns segundos e fechou os olhos, sinal de que estava a pensar. Pouco depois, sorriu, deu um sopro e apagou a luz. Esperou algum tempo, o necessário para que o fogão arrefecesse. Foi então que facilmente agarrou o vidro com ambas as mãos e tirou-o do candeeiro, entregando-o ao pai.

Não foi necessário dizer qualquer palavra. Os outros filhos compreenderam a lição e, a partir de então, tornaram-se mais ponderados nas suas atitudes, mais reflectidos nas suas decisões e mais sensatos nos seus procedimentos. 

 

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publicado por picodavigia2 às 15:26

SIMBAD

Sábado, 28.09.13

(INSPIRADO NUM CONTO TRADICIONAL ÁRABE)

 

Nos dias de Harun al-Rashid, califa de Bagdá, vivia nesta cidade um pobre carregador. Certo dia, o carregador decidiu fazer uma pausa no seu árduo trabalho para descansar, sentando-se junto à casa de um rico comerciante que havia na cidade. Começou, então, a barafustar, em voz alta contra a injustiça do mundo, que permitia que ele fosse um pobre miserável e que o dono daquela casa fosse tão rico. Ao escutar estes lamentos, o comerciante pediu aos criados que lhe trouxessem o pobre carregador para dentro de casa. Depois de se apresentarem um ao outro, descobriram que, por mera coincidência, ambos se chamavam-se Simbad. O Simbad rico contou, então, ao Simbad carregador que também já fora pobre como ele e que se tornou rico por "fortuna e destino", dispondo-se a contar-lhe a história das suas maravilhosas viagens, durante as quais adquiriu toda a sua fortuna.

Começou, então, por contar que, após dilapidar toda a riqueza que recebeu de herança de seu pai, a qual investiu comprando mercadorias, decidiu tentar a sua sorte como comerciante num navio que saiu do porto de al-Basra, com destino ao Oriente. Após uns dias de viagem, o navio aportou numa ilha, que na verdade se revelava ser uma gigantesca baleia adormecida, em cujo dorso cresciam árvores. Passado algum tempo depois de ali chegar, a baleia acordou, devido a uma fogueira acesa sobre ela pelos marinheiros, e, em seguida, mergulhou, desaparecendo nas profundezas do oceano. Na confusão, o navio em que viajava naufragou, deixando-o sozinho no mar, agarrado a uma tina de madeira. Após algum tempo à deriva no oceano, foi parar a uma ilha coberta de exuberante vegetação. Explorando-a, encontrou um serviçal do rei local e ajudou-o a salvar a égua do soberano, evitando que esta se afogasse e fosse levada por um cavalo misterioso que vivia debaixo d'água. Isto fez com que o rei daquela ilha se tornasse seu amigo e, assim, ele, Simbad, passou a ser um dos membros favoritos da corte real.

Um dia, chegou à ilha o navio no qual Simbad havia partido em viagem e ele recuperou sua mercadoria. Decidiu, então, abandonar a ilha, mas antes recebeu ricos presentes do rei. O navio viajou em direcção à Índia, onde Simbad desembarcou e onde fez grandes negócios, e ao retornar, de seguida, a Bagdá, conseguiu grande lucro ao negociar as mercadorias que trouxera do Oriente.

Ao terminar o relato da sua vida, Simbad deu ao carregador 100 moedas de ouro, e pediu-lhe que, no dia seguinte, voltasse a sua casa, a fim de escutar o resto da história da sua vida.

Assim fez o carregador e, no dia seguinte, o rico comerciante continuou a sua narrativa. Contou, então, que, apesar de ter juntado muita riqueza e de levar uma vida de diversão, ainda sentiu vontade de viajar, novamente, pelo mundo, por isso, embarcou noutra aventura comercial, e, acidentalmente, voltou a ser abandonado numa ilha pelos seus companheiros de viagem. Explorando a ilha, Simbad encontrou um enorme objecto, liso e arredondado, que descobriu ser um ovo de um pássaro fabuloso e gigantesco. Pouco depois, o pássaro retornou ao ninho mas não dando pela presença de Simbad, que usando o seu turbante, atou-se à pata do animal, na esperança de fugir daquela ilha deserta e ser levado para um lugar habitado. A ave levantou voo transportando o jovem aventureiro até um vale coberto de diamantes mas habitado por monstruosas serpentes que serviam de alimento aos pássaros. Simbad soltou-se e ficou sozinho no vale, no meio das serpentes, mas logo descobriu uma forma de escapar. É que para conseguir os diamantes que proliferavam naquele vale inacessível, os habitantes da ilha atiravam grandes pedaços de carne para o fundo do vale, a fim de que fossem agarrados pelas aves enormes que os levam aos seus ninhos. Assim, alguns diamantes ficavam agarrados aos pedaços de carne, o que permitia que fossem recuperados pelos homens. Ao ver isto, Simbad também amarrou um pedaço de carne ao seu corpo e, ao ser levado para fora do vale por uma das aves gigantes, trouxe consigo muitos diamantes. Resgatado do ninho por um mercador, voltou a Bagdá, desta feita possuindo uma fortuna em diamantes.

Mas a sua ânsia por novas aventuras, continuou Simbad, não ficou por aqui e, passado algum tempo, zarpou de Baçorá, numa nova expedição. Os ventos levaram o barco em que navegava a uma ilha habitada por homens peludos como macacos, que tomaram o barco e o abandonaram numa outra ilha. Colocados nessa ilha, Simbad e os outros marinheiros chegaram a um palácio habitado por um gigante com forma de homem, pele negra, olhos vermelhos como brasas, uma boca enorme como a de um camelo com longos dentes, orelhas como as de um elefante e longas garras como as das feras. O monstro começou a devorar a tripulação, começando pelo capitão, que era o mais gordo, assando-o na brasa. Simbad, juntamente com os companheiros, inventou nova estratégia para escapar à fúria daquele abutre. Para tal, construíram uma jangada e, quando o monstro dormia, furaram-lhe os olhos com os espetos que ele usava para assar sua comida. Cego e furioso, o gigante saiu do palácio, mas os homens fugiram a tempo, correndo para praia e fugiram na jangada que haviam construído. Após algum tempo de viagem, chegaram a outra ilha, na qual encontraram uma serpente gigante e feroz que comeu todos os companheiros de Simbad, deixando-o sozinho. Apesar de só, Simbab conseguiu ser resgatado pelo mesmo navio, que o havia abandonado na ilha, durante a segunda viagem. Assim conseguiu recuperar a sua mercadoria e voltar a Bagdá ainda mais rico.

Na sua quarta viagem, prosseguiu Simbab, impelido novamente pela sua ânsia de aventura, embarcou num navio que, pouco depois naufrago. Os náufragos foram parar a uma ilha, na qual se confrontaram com selvagens nus e canibais que lhes dão para comer ervas com o poder de enlouquecer os que as provassem, para que depois os comessem. O único que não comeu ervas foi Simbad, que assim conseguiu escapar, sendo transportado e salvo por um grupo de colectores de pimenta de uma ilha, vizinha. Ali, Simbad travou amizade com o rei local que lhe deu como esposa uma bela e rica mulher.

Permanecendo nessa ilha algum tempo, Simbad teve conhecimento de um peculiar costume local, segundo o qual, após a morte de um esposo, o viúvo ou viúva devia ser enterrado vivo com o companheiro ou companheira, sendo ambos vestidos com as melhores roupas e os mais ricos vestidos. A mulher de Simbad adoeceu e morreu, pouco depois, sendo ele Simbad, seu esposo, encerrado vivo numa enorme caverna subterrânea - uma tumba comunitária - com um jarro de água e sete pães. Na altura em que lhe faltou a comida, foi lançado na caverna um cadáver de homem e, juntamente com ele a respectiva viúva é jogada. Simbad pegou no fémur de um cadáver e com ele atacou a  viúva matando-a. De seguida e apoderou-se de sua água e da sua comida e assim sobreviveu mais alguns dias.

Ao longo do tempo, Simbad foi matando outros condenados e apoderando-se da água, do pão e das jóias que os corpos levavam, sem, no entanto, conseguir uma maneira de escapar. Mas um dia, apareceu por ali um animal não-identificado que o guiou até uma saída. Já no exterior, Simbad foi resgatado por um navio que passava por ali e que, após completar a viagem pelo Sudeste da Ásia, o levou até Bagdá, onde regressou riquíssimo.

Passado algum tempo, regressou ao mar. O navio em que viajava Simbad passou junto a uma ilha deserta, onde a tripulação encontrou um ovo gigantesco, que Simbad reconheceu ser de um roca. Os marinheiros, para examinar melhor o ovo, partem-no e comem o filhote que estava por nascer. Simbad, assustado pelo que fizéramos seus colegas, pede-lhes que voltem ao navio, mas as aves gigantes furiosas, apareceram e fizeram rolar enormes rochas sobre o navio, afundando-o. Simbad conseguiu escapar, sendo levado para uma ilha, onde encontro o Velho Homem do Mar, que o torna seu escravo. Uma criatura estranha aproximou-se de Simbad e, colocando-se sobre os seus ombros, aperta-lhe o pescoço com suas pernas, que assumem a forma de ramos secos e impedem Simbad de desvencilhar-se. Passados dias, Simbad, usando, mais uma vez a sua astúcia, preparou uma bebida com vinho e convenceu o Velho do Mar a bebê-la, o qual, logo a seguir, caiu bêbado, permitindo a Simbad matá-lo. Embarcando em outro navio, Simbad foi levado à cidade dos macacos, onde população passavs as noites em barcos no mar, com medo dos macacos que, todos os dias, invadiam a cidade após o pôr-do-sol, matando os homens que encontravam. Simbad recuperou as suas riquezas e, eventualmente, regressou a Bagdá.

Na sua sexta viagem, Simbad e os seus companheiros sofreram, de novo, um naufrágio, pois o navio em que navegavam esbarrou contra uma alta falésia. Assim Simbad e os outros marinheiros foram parar a uma terra onde não havia nenhum tipo de comida, por isso começaram a morrer de fome, uns atrás dos outros. Apenas Simbad sobreviveu. Nessa altura descobriu um rio que corria por dentro da falésia e construiu uma balsa, usando-a para navegar através do rio, salvando-se. Mas o rio, para além de estar coberto de pedras preciosas, levou Simbad até uma cidade do reino de Serendib, na qual os rios estavam cheios de diamantes e os vales de pérolas. O rei local impressionou-se com os relatos que Simbad faz de al-Rashid, e decidiu dar-lhe vários presentes, entre os quais uma taça esculpida numa única pedra de rubi, uma cama feita da pele de uma serpente que havia engolido um elefante, e uma linda e bela escrava. Simbad voltou para Badgá com os presentes, riquíssimo.

Simbad ainda fez mais uma viagem, mas o navio em que viajava navegando voltou a naufragar. Desta vez, foram três monstruosos peixes que atacaram e destruíram o navio. Simbad foi parar a uma numa ilha, onde travou amizade com o mais importante mercador dessa ilha. Travaram amizade e, passado algum tempo Simbad casou com a filha do mercador, que morreu pouco depois, tornando-se, assim, Simbad o seu herdeiro. Simbad viveu feliz, na ilha, com a esposa até que, um dia, descobriu que os homens daquele lugar passavam por uma estranha transformação, dado que, uma vez por mês lhes cresciam asas e voavam até o céu, retornando depois. Intrigado, Simbad convenceu um deles para que o carregasse no voo que fizesse e, no mês seguinte, Simbad é levado ao céu por um dos homens alados. Lá no alto, Simbad viu anjos que cantavam louvores a Alá. Emocionado, Simbad exclama "Glória a Deus!", o que irritou enormemente os homens alados, que, assim, conseguiram abandona o cimo da montanha, onde se encontrava. Deixado sozinho, Simbad encontrou dois adoradores do Senhor, que lhe entregam uma bengala de ouro a qual utilizou, no regresso, para libertar um homem que estava a ser atacado por uma serpente gigante. Após isto, Simbad conseguiu voltar à cidade, onde teve conhecimento, pela mulher, que os homens alados pertenciam a uma raça de demónios, mas que ela e seu falecido pai são pessoas normais. Simbad decide, então, abandonar a ilha, partindo com sua mulher numa longa viagem pelos portos da Ásia. Esta viagem, a última que Simbad realizou, durou vinte e sete anos, findos os quais, Simbad regressou a Bagdá. Desta vez, renunciou, definitivamente, às aventuras no mar, arrependido de tantas vezes ter desafiado a sorte e arriscado a vida.

No final de seu relato, Simbad, o comerciante rico, ordenou que dessem mil moedas de ouro a Simbad pobre, dizendo-lhe:

"Não vês que alguém que superou tantas provações merece agora uma vida despreocupada?",

Simbad o pobre respondeu:

"Certamente mereces o ócio e o bem-estar. Vive em paz, e que cada instante te traga a felicidade!".

Agradecendo o ouro que lhe fora dado, Simbad, o carregador, prometeu que havia de tornar-se, ele mesmo, um grandioso mercador.

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publicado por picodavigia2 às 16:49

O VELHO E O MAR

Segunda-feira, 17.06.13

Era uma vez um velho e pobre pescador que passava os seus dias sentado sobre as rochas negras e escarpadas do baixio, olhando indefinidamente o mar. As rugas e cicatrizes do seu rosto prefiguravam as ondas altivas e temerosas do oceano, os seus cabelos brancos selvaticamente desalfinados reflectiam a crispação de ventos e procelas, mas os seus olhos, pérolas azuis que com o tempo haviam perdido o brilho, continuavam a desbravar neblinas e caligens e as suas mãos, detendo-se de forma inquietante em prolongada, tremulação ainda apontavam portos e escolhos.

Perto dali o seu cardenho, refúgio decrépito nos dias chuvosos de Inverno e abrigo remediador das noites escuras e friorentas. Os filhos haviam partido para bem longe, na procura de melhor vida e a companheira que com ele partilhara perigos, consumições e penúrias falecera há muito. Estava só, mas a presença quotidiana do mar obliterava-lhe o sentimento inquietante com que a existência o estigmatizara – a dor. O mar era para ele um retorno contínuo e prolongado aos tempos áureos da faina marítima, em que diariamente partia com o barco cheio de esperanças e desejos e arribava com ele umas vezes carregado de peixe, outras da certeza do amanhã ser melhor e outras de coisa nenhuma. Apenas quando os temporais invernosos o impediam de arriar, se entretinha, em terra, a remendar redes e enchelevares.

Agora passava os seus dias ali, a olhar o horizonte, a ouvir o barulhar das ondas e o canto das gaivotas, a receber as carícias da brisa matinal e os calafrios do vento norte, enrugando-lhe cada vez mais o rosto enegrecido.

E um dia, um dia em que o velho e pobre pescador prolongara a sua estadia sobre as rochas até que a noite descesse por completo sobre o oceano e o luar prateasse a tranquilidade das águas, um dia em que os seus olhos já não vislumbravam horizontes ou marés e as suas mãos já não eram capazes de segurar o caniço, lançar a nassa ou manobrar o leme, o velho pescador viu uma onda enorme e doirada aproximar-se. Cavalgava-a um lindo menino de olhos azuis e cabelos também doirados. A onda, à medida que se aproximava das rochas, ia crescendo, crescendo, até que se transformou num gigantesco barco, que o menino governava com a destreza de um velho marinheiro. O barco fundeou e atracou às rochas com descomunal perícia. O menino aproximou-se a estibordo, estendeu as mãos para o pescador:

- Vem! Vem comigo! Salta para o meu barco que também é teu!

O pescador, sem hesitar, saltou para o barco com tanta agilidade como se tivesse vinte anos. Este afastou-se lentamente das rochas e partiu desbravando as ondas com a velocidade dos raios e a solidez das montanhas. Percorreram oceanos cruzando-se com navios de todos os países e nacionalidades, atracaram em portos abarrotados de paquetes e iates, visitaram cidades grandiosas, alojaram-se em hotéis de luxo e conviveram com homens de todas as raças e cores. E o coração do velho pescador encheu-se de alegria e felicidade.

Mas algum tempo depois, o barco regressou às rochas donde partira e o velho voltou a ouvir o barulhar das ondas, cada vez mais prateadas pelo luar daquela noite que parecia infinita.

E uma nova onda aproximou-se da rocha onde o velho se sentara novamente. Trazia outro menino, lindo como o primeiro, mas com os cabelos castanhos e os olhos pretos como as azeitonas. Como a outra, a nova onda começou a crescer, a crescer, até se metamorfosear num enorme avião, que se aproximou lentamente das rochas. Abriu-se uma porta e estendeu-se uma escada para sítio onde pobre pescador permanecia. No cimo da escada, o menino de cabelos castanhos e olhos pretos, acenou-lhe e chamou-o. O velho não hesitou e entrou com a mesma agilidade com que entrara no barco. Sob o comando do menino o avião descolou e partiu, voando sobre as nuvens, com a velocidade do vento e a tranquilidade das estrelas. E o velho pescador voltou a sentir-se jovem, muito jovem. Aterraram em aeroportos de inúmeros países e de vários continentes, visitaram cidades com castelos medievais e catedrais renascentistas, percorreram ruas repletas de arranha-céus e estradas ladeadas por árvores frondosas, sentaram-se em esplanadas coloridas e tropicais, nadaram em praias cálidas e de águas cristalinas, sob o calor tórrido do Sol equatorial. Mas, assim como o barco, também o avião regressou e o velho voltou a sentar-se sobre a rocha.

A noite já ia longa, mas o pobre pescador ainda viu aproximar-se uma terceira onda, maior do que as outras, que inesperadamente se transformou num enorme edifício. Era um prédio altíssimo, com telhado de marfim, varandas de ébano e janelas de cristal. Sobre a enorme porta de entrada, uma placa iluminada com tons de azul, violeta e vermelho anunciava - ARGONAUTA, Lar de Terceira Idade, para Pescadores. A porta abriu-se e surgiu uma menina com tranças de cetim e olhos de safira. Abriu os braços na direcção do pescador e convidou-o entrar. E o velho sentiu-se ainda mais jovem do que durante as viagens que acabara de fazer. A menina conduziu-o por corredores e salas onde muitos outros jovens, uns desconhecidos, outros seus antigos companheiros da faina marítima, dançavam ao som de doces melodias. Todos irradiavam felicidade, alegria e bem-estar, E o velho pescador sentiu-se como se estivesse na sua própria casa e aquelas pessoas fossem a sua família. Finalmente, a menina deu-lhe a mão e conduziu-o à última sala. Abriu a porta e o velho pode ver os outros dois meninos, que o haviam acompanhado nas viagens de barco e de avião. As três crianças formaram um circo em volta do velho pescador e em uníssono cantavam e dançavam:

- Viemos para te dizer que neste reino a idade não conta, porque não há guerras, não há ódio, nem há mentira. Não há novos nem velhos, nem ricos nem pobres, nem tristes ou desgraçados. Todos somos felizes porque todos possuímos a inocência da paz, a dignidade do amor e a doçura da verdade.

De repente os meninos desapareceram e uma estranha mas suave música se fez ouvir e o velho pescador voltando a sentar-se na rocha, encostou-se a uma pedra e, fechando os olhos, olhou indefinidamente o mar.

E só quando o crepúsculo se desvaneceu por completo e o Sol apareceu a iluminar um novo dia, a voz de uma outra criança de pés descalços e monco a escorrer-lhe pelo nariz e que não sabia comandar barcos, nem pilotar aviões, nem sequer cantar ao redor dum velhinho, apontando para as rochas onde o pescador permanecia sentado, anunciava pelas vielas da pequena aldeia piscatória:

- Morreu o ti Manel Eiró! O ti Manel Eiró morreu!

 

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publicado por picodavigia2 às 10:21





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