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O CHORO DO ÚLTIMO BALEEIRO

Sábado, 21.09.13

De quem são aquelas sombras entontecidas e trôpegas, que parecem nuvens gigantes a sulcarem o infinito?

Quem são aqueles vultos entrelaçados entre as distâncias azuladas do horizonte e os escolhos submersos pelas marés cheias?

De quem são aqueles respingos amordaçados e entontecidos, polvilhados com o sabor acre da salmoura, semelhantes a jactos de lava vulcânica, incandescente e destruidora, que caem sobre as ondas moribundas e amordaçam o canto embevecido das gaivotas?

E aquele mar pejado de botes esvaziados de vigor, despejados de baleeiros, de velas enoveladas nos mastros derrubados, à deriva sobre a perene perplexidade das ondas, como se fossem destroços de navios naufragados?

 

Já não se ouve o ribombar do foguete, no alto da vigia, que, assustando os tentilhões açulados pelo amadurecer dos trigais, apontava a senda da esperança que sobrava do rasto repetitivo das baleias.

Já não se ouvem gritos nas madrugadas que buliam em silêncio e os remos, agora, descansam, pausadamente, sobre as caibros das ramadas, em sonolento apodrecer.

O arrear dos botes transformou-se num vaivém de pesadelos e memórias e o içar das velas num hino de aventuras agonizantes.

A força dos remos é agora um suplício paramentado de negro, um sonho castrado, dolente e destruidor, acorrentado às incongruentes vitórias das tempestades.

Outrora atraente, o sabor das marés verteu-se, em vão e sem proveito, sobre o cais deserto, como se fosse lava que secou ao sabor de um Sol, estranhamente, arrefecido.

Sobre os pedregulhos soltos do varadouro, apenas se arrastam ecos de memórias amordaçadas e envoltas no vaivém contínuo das marés.

Porque se não abrem, sobre o mar, aquelas janelas que, mesmo sem cortinas, deixavam esvoaçar as andorinhas e ver o horizonte, e agora, nem permitem sequer vislumbrar o Sol, mesmo que sombrio ou a esconder-se entre o sufoco permanente da montanha?

 

Há dias de sobra e noites de lamento!

Mas há também um tempo desprovido e um espaço impotente, onde não se pode permanecer escondido das mágoas enroladas em velas, da nostalgia suspensa nos remos ou das angústias que cerceavam a segurança do leme.

Não se podem rasgar ou sequer esquecer as aventuras escritas, com remos arquejantes, sobre o reboliço das ondas.

Nem se podem apagar ou cilindrar os sulcos gravados, pelas quilhas dos botes, na braveza do oceano.

O vento acarreta o eco persistente de vozes conhecidas, de gritos encorajadores, semelhantes ao canto das cagarras e aos destroços de navios naufragados.

O mestre, à ré, manda, ordena, grita, implora, aconselha, encoraja, mas sacode, inconsciente, um esparrel apodrecido.

E em pé, à proa, o homem do arpão, atira-o na demanda de espantalhos dissipados.

E os olhos derretem-se em vagas tormentosas, angustiantes, abrutas, semelhantes às ondas do oceano embravecido, desfocando os horizontes para sempre perdidos.

 

A última baleia fugiu, livre e destemida, porque os arpões eram feitos com fios de memórias de um passado glorioso, ornado com sentimentos que o tempo e a distância não conseguiram olvidar.

E agora, enquanto as marés se esvaziam abruptamente, todos os baleeiros se perderam como náufragos, entre o reboliço das ondas e a atrocidade da maresia.

O vento enrolou-os como se fossem pássaros com o rumo desfeito, sentou-os à beira-mar, sobre os baixios, onde há apenas uma história para contar:

 – A história do baleeiro que chorou quando a última baleia se perdeu no horizonte.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:12

A NINHADA

Quinta-feira, 19.09.13

O galo Delfim andava numa aflição desmesurada, num tormento incontrolável. Desde há algum tempo que vivia os mais tristes e amargos dias da sua vida. A galinha Codorniz, a sua amada e predilecta entre todas as galinhas da cerca da Senhora Mariana, havia desaparecido.

Ao princípio ainda cuidou que fosse uma aventura amorosa, uma loucura momentânea, um salto esporádico à capoeira da vizinha, para um encontro desavergonhado com aquele “maricas” que era o galo do galinheiro ali ao lado – um badameco que nem cantarolar sabia - como fazia, vezes sem conta, a atrevida e doida da Cor-de-Pomba. Uma desavergonhada que o traía com frequência e o atraiçoava sem escrúpulos! Mas a Codorniz, não. Para além de amiga, fora-lhe sempre fiel.

Séria, trabalhadora e ajuizada, aquilo fora amor à primeira vista. Desde o dia em que a senhora Mariana o comprara à Mariquinhas do Engenho e o atirara, abruptamente, para a cerca que simpatizara com ela. A simpatia foi crescendo, crescendo e de recíproca que era, depressa se transformou em amor e este em paixão. Eram os dois enlaçados dia e noite em acervos amorosos e as outras, coitadas, à espera de oportunidades que, devido à pertinácia da Codorniz, rareavam.

Agora estava ali, mais do que triste, preocupado e sem saber o que fazer. Mas tão longa ausência não era, por certo, um simples salto ao galinheiro da vizinha. Ali, havia “marosca” e da grande.´ ´Oh! Se havia… Andando para trás e para diante como um tolo, saltitando para aqui, pulando para acolá como um labrego, barbela murcha que nem úbere de vaca seca, abanando as asas e esticando a perna esquerda aqui, a direita acolá como se estivesse derreado, o galo Delfim definhava, dia após dia. Não comia, nem dormia. Levantava-se do linheiro, alta madrugada mas já nem conseguia encher os pulmões e atirar, por entre as brumas matinais, a sonoridade inconfundível do seu belo canto.

E o galo Delfim definhou por completo, quando, açulado pelo passar inequívoco dos dias, concluiu que aquilo só podia ter sido faca e alguidar. E, nada mais fez do que chorar e entrar num nojo assumido. A galinha Codorniz, por certo e seguro, havia ido parar ao caldeirão da sanguinária Dona Mariana. Perdera para sempre a sua bem-amada. As outras galinhas, manifestando disfarçadamente alguns laivos de contentamento, bem o tentavam demover da sua consumição, com festanças, cacarejos e provocações. Mas ele nada. Piorava de dia para dia.

Longe dali, na sua loja, a senhora Mariana havia colocado resmas e resmas de palha dentro de um cesto velho, anafara a última camada de forma a fazer uma espécie de linheiro muito fofinho e confortável, colocara-lhe dentro meia-dúzia de ovos, dos melhores que tinha e espetara-lhes, em cima, a galinha Codorniz, completamente choca, a arder em febre. Ao princípio a desnaturada ainda esvoaçou, estrebuchou, cacarejou e bateu as asas como que a querer sair dali, lembrando-se da ternura, do carinho e do amor do galo Delfim, que não via há dois dias. Mas mal sentiu a suavidade suplicante dos ovos, a pedirem-lhe que os aquecesse, acomodou-se com jeito sobre eles e encheu-se de ternura, com modos de galinha genitora.

 E, passados, vinte e um dias, para gaudio da senhora Mariana e felicidade da galinha Codorniz, os ovos começaram a estalar a casca e deles saiam belos e fofinhos pintos, amarelos, alaranjados e cinzentos. Uma bela ninhada! E a mãe toda vaidosa a aquecê-los, a aquentá-los, a envolvê-los debaixo das suas asas, a dar-lhes as primeiras nicas de alimento. Depressa os pintainhos cresceram, transformando em penas a penugem que, inicialmente, lhes cobria os corpitos.

Entendeu então, a senhora Mariana que era altura de os misturar com a restante capoeira. Pegou-lhes um a um e lá os foi deitando na cerca, juntamente com a mãe que, preocupada em os defender das nicadas das invejosas das outras galinhas, nem se apercebeu da alegria e do contentamento do seu galo Delfim que, ressuscitando por completo do marasmo em que jazia, corria, como doido, de um lado para o outro, sem acreditar no que via. Parecia-lhe um sonho. Só mais tarde, quando já mais calmo e crente, se aproximou da mãe que, orgulhosa, lhe foi apresentando os filhotes, um a um, acreditou que, afinal, não estava a sonhar.

E na madrugada seguinte, todo contente, o galo Delfim, levantou.se cedo para a cantoria habitual, que, desde há muito, havia cessado. Não o fez sozinho. Ao seu lado estava um franganote, altivo e elegante, de cor de codorniz, que embora com uma voz ainda frouxa e trémula, lá ia imitando o cantar do seu progenitor.

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publicado por picodavigia2 às 09:43

CASA COM JANELA PARA O MAR

Quarta-feira, 18.09.13

Tia Jerónima sentou-se à janela da sala, apoiando-se com o braço direito, debruçado sobre o peitoril. O Sol há muito que se havia perdido no horizonte mas reinava, ainda, uma claridade, serena, silenciosa e acolhedora. A janela, encravada na empena oeste do minúsculo casebre, abria-se e despejava-se sobre um pequeno e estreito atalho, feito de pedregulhos toscos, emaranhados entre cascalho, desenhado sobre uma rocha a arfar de silvados e vinhedos, ali mesmo em frente e encavalitada sobre o mar. Descaído sobre o oceano, que se estendia como um enorme tapete azulado e fofo, aquele alcantil que, para além de uns canaviais e uma ou outra figueira ressequida, apenas carregava sobre si a casa de Tia Jerónima, assemelhava-se a uma espécie de trincheira natural, contra a qual, sobretudo em dias de vendavais e tempestades, o mar se atirava em laivos de raiva e uivos de ganância.

Naquela noite, porém, o mar estava calmo e sereno. Abraçado à intimidade do anoitecer, apenas fazia sentir a sua presença através de uma ou outra pequena onda que, rolando lentamente, se vinha desfazer, num leve e suave murmúrio, junto ao negro areal que o separava do aclive. Uma irrequieta tranquilidade atraente! Um murmúrio de silêncio enternecedor!

Tia Jerónima permanecia, absorta e alheada, sentada à sua janela com vista sobre o mar, com a mão direita sobreposta ao olhar, como que a tapar-lhe as incandescências que o espectro do astro-rei, no seu ocaso, deixara desenhadas no horizonte em traços amarelos, alaranjados, vermelhos e violetas. Mais além, mas muito longe, um crepúsculo emaranhado crescia muito lentamente e parecia tornar-se madrugada, cobrindo uma enorme cidade, de casas altíssimas, comboios, “mexins”, vapores e soldados, atravessada por rios da cor da esperança.

Sentada à janela, com o braço esquerdo debruçado sobre o peitoril e com a mão direita sobre o olhar, a aclarar-lhe incandescências ofuscadas, tia Jerónima via as casas a erguerem-se ao céu, o burburinho das ruas atafulhadas de pessoas, o fumo que se elevava das fábricas, os comboios que passavam a correr, os rios a deslizarem com suavidade, os barcos a perderem-se no horizonte, os homens a arfarem cansaço e os soldados a partirem para a guerra. No ar surgiam pássaros de espuma e nos rios navegavam barcos de papel, cor de laranja, carregados de lágrimas e soluços. Depois a cidade adormecia, as casas fechavam as janelas, forravam-nas de madeira, vestiam-se de escuro e dos telhados saíam rolos de fumo, negro e estilizado. A cidade adormecida era como se fosse uma grande fábrica, uma espécie de fóssil industrial que homens, sonolentos e com bonés de veludo, enfiados até às orelhas, nas manhãs escuras e friorentas, procuravam com avidez, engolindo-o como se fosse um chocolate gigante. Depois transformava-se numa labareda de fumo aguerrida e devoradora e a cidade regressava à florescência do casario que, agora, sobressaía mais tenazmente, tornando o universo esverdeado e salpicado de manchas brancas. E os homens, transformados em pastores, agarravam, com uma ganância desusada, aquelas manchas, enchendo-as dentro de sacos, carregando-os às costas como se fossem rolos de lã ou de linho. E a tia Jerónima, sentada à janela da sua casa, também deslizava naquele universo como se fosse uma nuvem de papel, caminhava como se fosse a sombra de uma árvore desfolhada, voava como se fosse um pássaro perdido e sem rumo.

E lá, em frente à casa com janela sobre o mar, a noite crescia desalmadamente, tornava-se completamente escura, sem Lua e com as estrelas muito tímidas e hesitantes. Mas a tia Jerónima permanecia sentada à sua janela, com o braço esquerdo debruçado sobre o peitoril e com a mão direita a anafar o silêncio da noite, a açular-lhe sonolências perdidas, a acariciar os sabores do escuro, emaranhada em sonhos ora de encanto e alegria ora de dor e sofrimento. Depois, quebrando um silêncio torturador, tia Jerónima soluçava e estremecia, imaginando o suplicar dos braços agonizantes de alguém que desaparecera, com o Sol, lá no outro lado do Mundo.

E lá pela noite dentro, já quase madrugada, tia Jerónima acordou estrebuchada. Fechou a janela que ficava sobre mar e, na claridade tímida duma vela colocada à cabeceira da sua cama, rezou uma oração crente e purificadora, por alma do seu António que a “Calafónia”, fatalmente, nunca lhe devolvera. 

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publicado por picodavigia2 às 10:21

A LENDA DA MADRESSILVA

Segunda-feira, 16.09.13

Conta a lenda que, nos primórdios do povoamento do Pico, na parte sul da ilha, havia, num povoado que ainda nem freguesia era, vivia uma linda jovem, muito bela e atraente, chamada Mara e de apelido Silva. Mara tinha como diversão predilecta envolver-se em paixões com os seus jovens admiradores, com a única e denodada intenção de se divertir, fazendo-os sofrer.

Ora entre os jovens que Mara tentou seduzir, um houve que, sendo muito rico, lhe ofereceu o mais belo colar que jamais se vira na ilha e que se dizia, havia sido trazido das longínquas paragens do Oriente, por uma das caravelas que de regresso ao reino de Portugal, acostavam à ilha para se abastecerem de água e víveres. O colar era de ouro maciço e dele se suspendia um enorme medalhão cravejado das mais belas pedras preciosas. Mas o rapaz, apesar de rico e generoso, era muito feio e desajeitado de feitio e maneiras, pelo que Mara, depois de lhe tomar o presente e de se adornar com o belo e valioso colar, riu-se dele, escarneceu-o e apoucou-o, humilhando-o e atirando-lhe à cara a sua fealdade e falta de jeito. O rapaz, triste e desesperado com tal ingratidão por parte da sua amada, acabou com a própria vida, atirando-se ao mar, morrendo afogado nas profundezas do oceano. Depois dele muitos outros jovens acabaram por suicidar-se perante os seus amores frustrados e o acentuado gozo da rapariga.

Ao fim de algum tempo, o deus dos oceanos, revoltado com tamanha barbaridade, decidiu por termo a tão grande crueldade, castigando, severamente, a maldade da louca e incauta jovem. O castigo escolhido foi o de fazer com que Mara se apaixonasse perdidamente por um outro jovem, mais belo do que todos os anteriores, mais rico do que os mais ricos, mas que não gostava dela. Assim, Mara desesperava, entristecia-se e desgastava-se, dia após dia, com a indiferença daquele por quem, agora, se apaixonara de verdade. Mais ainda sofreu, chorou e se desgastou quando percebeu e viu que afinal o seu amado estava apaixonado por uma outra donzela e que esta também o amava.

Perturbada, furiosa, quase doida de raiva, Mara subiu a enorme e imponente montanha que existia na ilha e foi procurar o deus que morava lá nas alturas. Ao chegar junto ao trono do altíssimo, prostrou-se e implorou:

- Curai-me, meu deus, porque sofro horrorosamente. Amo um homem e ele não só me despreza como até ama outra mulher.

- É justo esse castigo - respondeu o altíssimo – porque, durante toda a tua vida, tens feito o mesmo aos teus apaixonados. Agora, vai-te daqui. Nada conseguirás, por mais que me implores.

A jovem afastou-se triste e sorumbática. Mas na descida da montanha, passou junto a uma gruta e viu, no seu interior, uma velha que ali vivia só, triste e abandonada, alimentando-se de frutos e raízes silvestres. Ao aproximar-se da gruta, Mara, impressionado com a miséria em que a velha vivia, retirando do pescoço o valioso colar que o seu apaixonado lhe oferecera, entregou-o à velha, a fim de que o vendesse e com o dinheiro passasse a ter uma vida mais digna e confortável. Comovida com a bondade da jovem, a velha disse-lhe:

- Formosa donzela, vou compensar-te deste teu gesto generoso, desta tua caridosa atitude. Sei que és muito desgraçada e infeliz. Vou ajudar-te a vingares o homem que tu amas e que te despreza. Toma este ramo e quando chegares junto do povoado, planta-o no local mais belo que encontrares.

Mara partiu e fez como a velha lhe dissera, plantando o ramo à porta da sua casa, de onde se avistava o mar infinito e azul e a montanha altiva e destemida.

Algum tempo depois, passou por ali seu amado. Mara correu para ele e, quando se aproximou para o abraçar, precisamente no local onde plantara o ramo, o jovem como que desapareceu, transformando-se, de imediato, numa bela e frondosa árvore. Mara compreendeu a promessa da velha: o seu amado, embora nunca a amasse, jamais amaria ou seria amado por outra mulher. Por isso, triste e desconsolada, deitou-se à sombra daquela bela árvore que, de dia para dia, crescia junto à sua casa. Não comia, não bebia, não falava com ninguém, acabando por morrer ao fim de alguns dias. No momento da sua morte, passou por ali a velha da gruta, parou junto da árvore, durante algum tempo, até que se afastou, de imediato, como se fosse um fumo que se evaporasse, ao mesmo tempo que o cadáver da jovem também ia desaparecendo, lentamente, transformando-se numa planta ornada de delicadas folhas e belas flores. Os seus braços enrolaram-se na árvore e a ela ficou agarrada para sempre, como se fosse uma trepadeira, crescendo e produzindo as mais belas, as mais coloridas e as mais perfumadas flores de quantas existiam na ilha.

E foi assim que nasceu a primeira marassilva na ilha do Pico cujo nome, com o rolar dos tempos, evoluiria para maressilva e, mais tarde, para madressilva.

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publicado por picodavigia2 às 17:12

HEMISFÉRIOS

Domingo, 15.09.13

Para além dos clássicos e gigantescos hemisférios terrestres que, sendo dois, uma vez que o Planeta Terra tem uma forma aprimoradamente esférica, acabam por ser quatro – norte e sul, se o planeta é divido pelo equador e ocidental e oriental se demarcado pelo meridiano de Greenwich – existem muitos outros hemisférios, com tamanhos diversos, mas todos com a mesma forma e alguns com funções paralelas. Os mais conhecidos, talvez mesmo os mais inebriantes na história e no desenvolvimento científico da humanidade são os de Magdeburgo, inventados e construídos por um dos burgomestres daquela cidade alemã - Otto von Guericke, também ele o inventor da bomba pneumática.

Antigamente, nas aulas de Físico Química, para provar a existência da “pressão atmosférica”, para além de se referenciarem muitos fenómenos do nosso quotidiano, recorria-se a estes celebérrimos hemisférios, constituídos por duas grandes abóbadas metálicas, ocas, de forma hemisférica que se ajustavam uma com a outra formando uma esfera. Do seu interior extraía-se o ar com uma bomba ou máquina pneumática, provocando-se o vácuo, no seu interior. Para a realização das experiências com o fim de demonstrar a existência da pressão atmosférica, os hemisférios eram justapostos, formando uma esfera oca. O interior da esfera comunicava com o exterior através de uma torneira, permitindo a sua ligação à máquina pneumática. Extraído o ar do seu interior, fechava-se a torneira e suspendia-se a esfera de um tripé apropriado por meio de uma argola existente num dos hemisférios. Do hemisfério inferior suspendiam-se pesos continuamente crescentes, até que os hemisférios se separassem. Ficava-se, assim, a conhecer a força exercida pelo ar atmosférico sobre o hemisfério inferior e, consequentemente, o valor da “pressão atmosférica”.

Outros hemisférios não tão conhecidos, talvez quase totalmente ignorados por muitos, são os hemisférios inventados e construídos por Halec von Cklarr, que, sendo germânico, não era senhor, nem muito menos burgomestre de uma cidade alemã, ou de outro país qualquer. Verdade porém é que os hemisférios por ele construídos também eram compostos por duas grandes abóbadas prateadas, ondulantes, luzidias, embora não ocas. À semelhança dos de Otto von Guericke os hemisférios de Halec von Cklarr também tinham forma hemisférica, estando separados por uma espécie de rilheira, semelhante às que as rodas dos carros de bois deixavam marcadas nas pedras da calçada e que unia as duas abóbadas, numa simbiose perfeita e delirantemente prática, ajustando-as uma com a outra, formando uma autêntica e genuína esfera – um diadema de anseios transcendentes, um espectro de desejos audaciosos, um paradigma de esbatidas esperanças. Do interior destes hemisférios não se extraía rigorosamente nada, ou coisa nenhuma, sendo que a máquina pneumática, supostamente introduzida na rilheira da esfera, no caso destes hemisférios, apenas produzia uma explosão exterior, provocando, assim, uma pressão semelhante à atmosférica, motivo porque Halec von Cklarr havia construído os hemisférios. Para a realização das experiências com o fim de criar a “pressão atmosférica”, os hemisférios deviam ser justapostos, formando uma esfera, que, embora opaca, era perfurada e comunicava com o exterior e vice-versa, como acontecia nos de Magdeburgo, através de uma torneira, permitindo a sua contínua e permanente agitação. A torneira nunca se fechava, apenas quando se suspendia a movimentação e, após ser detectada a existência da “pressão atmosférica”, se quedava, na expectativa duma nova utilização.

Contrariamente aos hemisférios de Otto von Guericke que eram usados no ensino secundário, os de Halec vom Cklarr eram utilizados nalgumas universidades.

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publicado por picodavigia2 às 19:38

A CEIFEIRA

Sexta-feira, 13.09.13

Ermelinda era a mais bela e a mais eficiente ceifeira da freguesia. O pai, um bisbórrias rabugento, tinhoso, abrutalhado e desumano – um sem coração - cismara que a pequena, desde tenra idade, havia de treinar-se no manejo da foice, ajudando-o e, muitas vezes, substituindo-o totalmente na ceifa dos fetos, no corte do restolho ou na apanha e recolha do trigo do Areal.

A moça, em criança, adorava a extravagância do progenitor, envaidecia-se em calcorrear os caminhos com a foice ao ombro, deliciava-se com o seu permanente ziguezaguear no corte de ervas e arbustos, manuseando-a com destreza, maneando-a com habilidade, dedicando-se à ceifa com entusiasmo, carinho e desvelo. Amava o que fazia, empenhava-se com esmero nas tarefas, desempenhava com eficiência os trabalhos, nunca se cortando ou sequer ferindo uma “nisca” que fosse de um dedo. Depois de crescida e, sobretudo, quando espicaçada pelas amigas que, contrariamente, passavam os dias refasteladas em casa a ler romances ou debruçadas à janela a namoriscar, enquanto ela se desgastava pelos campos a cortar, a ceifar a engavelar e a acarretar, começou a manifestar alguma renitência pelo ofício e um claro desinteresse pelas tarefas a que o abantesma do pai, a obrigava, dia após dia.

Mas nada podia fazer, a malfadada ceifeira.

Certa tarde em que o progenitor, depois de apanhado o trevo, a mandara sozinha para a ceifa do restolho no cerrado do Mimoio, enquanto ele tinha a distinta lata de ficar sentado à Praça, em amena cavaqueira e, pior do que isso, a meter-se na vida de uns e outros, passou por ali o Alvim. Sentou-se sobre a parede que separava o enorme cerrado do caminho e, sem que Ermelinda se apercebesse da sua presença, atirou-lhe para a frente do talho, um pequeno pedregulho. Apanhada de surpresa, Ermelinda espantou-se, mexeu-se e desconcentrou-se enquanto a foice já atirada em lance certeiro, pela mão direita, para cortar a mancheia de restolho amarfanhado pela esquerda, se descontrolou e foi enfiar-se-lhe no dedo indicador, abrindo-lhe, na falange, um enorme e fundo golpe.

A moça atirando, instintivamente, a foice para longe, emitiu um grito de dor, enquanto o Alvim, apercebendo-se da asneira, se escapulia dali, a sete pés, a fim de que não fosse visto e julgado culposo.

Ermelinda, forte e corajosa, embrulhou, de imediato, o dedo ferido com o lenço da mão, apertou-o com força para que o sangue estancasse e pôs-se a caminho de casa. O corte era tão grande e profundo que de forma nenhuma poderia continuar a ceifa.

Ao chegar à Praça deu de caras com o pai, ali sentado, a descansar. E perante a aflição e a dor estampada no rosto de Ermelinda e as imprecações do compadre Venâncio, que não cessava de vituperar a indiferença assumida pelo bisbórrias que, virando-se para a filha com um alheamento desmedido, perguntou com desdém:

- Cortaste-te num dedo!? Olha a grande coisa!

A moça, amarfanhada, triste e vilipendiada, virou-lhe costas e dirigiu-se, sozinha, para casa enquanto o bisbórrias cochichava para o Aires, sentado a seu lado:

- Antes no dedo dela do que no meu.

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publicado por picodavigia2 às 17:03

O ANJO DAS SETE BANDEIRAS

Quarta-feira, 11.09.13

Conta uma antiga lenda que, quando Deus criou o Mundo, este não era mais do que uma nebulosa escura, sombria, sem brilho, sem claridade, sem cor e sem som. O “Orbe Terrarum” acumulava uma enigmática taciturnidade, uma estranho negrume, uma destruidora melancolia e uma desoladora inquietude. Eram trevas sobre trevas, escuridão atrás escuridão, sombras envoltas em sombras. Os homens não sabiam construir castelos de sonhos e fantasia, nem palácios encantados, ou sequer plantar uma árvore, saborear a doçura de um fruto ou descortinar o encanto duma flor. Desconheciam a sublimidade das madrugas incandescentes, ignoravam a loucura da sabedoria e a aventura de escrever um poema, mesmo que fosse em tabuinhas de cera. Refugiavam-se em recantos esconsos e obscuros, desprezavam o perfume dulcificado dos jardins floridos e não entendiam que o amanhecer é mais sublime com o canto dos pássaros e com os murmúrios das fontes. Foi então que Deus, na sua infinita plenitude, na sua omnipotência incomparável e na sua bondade transcendente cobriu a Terra de esperança enviando-lhe o seu anjo salvador, entregando-lhe sete bandeiras com que o anjo havia de salvá-la da estagnação em que estava imersa, da escuridão em que havia caído, do desbotamento deslavado de que se havia revestido e do silêncio enigmático e profundo em que jazia. Deus apiedou-se do homem, chamou o seu anjo e enviou-o ao Mundo, durante sete dias consecutivos, entregando-lhe em cada dia, uma bandeira com uma cor diferente: no primeiro dia a bandeira era de cor violeta, no segundo de cor anil, no terceiro azul, no quarto verde, no quinto amarela, no sexto alaranjada e no sétimo e último dia, vermelha.

E o anjo visitou a Terra, sete dias seguidos, desfazendo as trevas e as sombras que a rodeavam, enchendo-a de luz, de som e de sabores. No primeiro dia, o anjo, empunhando a bandeira violeta, com ela tingiu os raios da madrugada, extingui as fogueiras dos vulcões primordiais, secou pântanos, desenhou rios e lagos e aspergiu a frescura das manhãs com o perfume dulcificado das violetas, salpicando-as com os suspiros dos cravos e o sabor das hortênsias. E a Terra recobriu-se com um manto inexaurível de encanto incandescente e com a sublimidade dos entardeceres tropicais. No segundo dia a bandeira do anjo era de anil e o brilhar do Sol tornou-se mais suave e acolhedor, os lagos e os rios encheram-se água e das rochas, abrutas e pétreas, nasceram fontes e floresceram sonhos e encantos. A saudade plantou-se à beirinha do amor. O próprio oceano revestiu-se de perfume a maresia e nos céus desfilaram os primeiros bandos de pássaros. E no dia seguinte, no terceiro, Deus deu ao anjo uma bandeira azul com a qual desofuscou todos os recantos mais esconsos da Terra, iluminou as cavernas mais escuras e as grutas mais tenebrosas e encheu o mundo de um brilho sublime, inebriante e adocicado. O mar revestiu-se de um azul cativante e encheu-se de peixes, de algas e de tesouros. As suas águas transformaram-se em ondas e encharcaram os rochedos com a força inebriante das marés. O céu adquiriu definitivamente a sua cor azulada e, à noite, cobriu-se de estrelas. Na sua quarta vinda à Terra o anjo trouxe uma bandeira verde e com ela embebeu as plantas com um perfume adocicado, tingiu as ervas com um orvalho perfumado, revestiu as árvores com folhas e ramos exuberantes, abriu a Terra de par em par, fortalecendo-a com a frescura dos ares para que nela as sementes germinassem com vigor e serenidade. Com a bandeira verde, o anjo trouxe também a chuva e com ela lavou as pedras, cobriu-as de limos, encheu os lagos, tornou o curso dos rios mais rápidos e velozes e encheu os prados com manadas de bois e rebanhos de ovelhas. No dia seguinte o anjo voltou à Terra segurando uma bandeira amarela e erguendo-a bem alto, pediu ao Sol raios de luz para colorir as manhãs, iluminar as montanhas, tingir o pôr-do-sol, alourar as espigas de trigo, colorir os girassóis e as giestas e iluminar as pedras preciosas. Ao mesmo tempo soltava sobre a Terra um vento suave e benfazejo, cobria as tardes com bandos de aves a esvoaçarem na direcção do horizonte. No sexto dia a bandeira que o anjo transportava tinha uma cor alaranjada. Os campos cobriram-se de flores, as árvores encheram-se de frutos, as águas dos rios e dos lagos encheram-se de beleza e sublimidade e dos beirais das casas pendiam cachos de esperança a confundirem-se com as revoadas das montanhas. Os sinos repicavam o toque das Trindades e dos telhados dos casebres, à noitinha, evolava-se, juntamente com o fumo das lareiras, um cântico de saudade inebriante. Finalmente, no sétimo e último dia, chegou o anjo com uma bandeira vermelha e avisou o mar, o céu, os rios, os lagos, as plantas as flores, enfim toda a criação de que aquela haveria de ser a cor do sangue dos mártires imolados como vítimas inocentes dos crimes violetos e cruéis da humanidade.

E o anjo nunca mais voltou à Terra. Apenas lhe assinalava de longe e agitando as sete bandeiras e misturando as suas sete cores, umas com as outras, em auréolas celestes, as juntava, em semicírculo sobre a Terra, formando Arcos-Íris de esperança.

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publicado por picodavigia2 às 20:28

A GRUTA

Terça-feira, 10.09.13

Quem subir as escaleiras da vereda que liga o porto da Prainha ao Caminho de Cima, deparar-se-á, à esquerda e encastoada na rocha magmática, uma bela e extraordinária gruta, rodeada, exteriormente, por um átrio. A gruta, altiva e sumptuosa, resultou de caprichos primordiais da natureza. O átrio, de postura elegante e encantadora, foi construído por mãos humanas talvez numa interessante e inédita tentativa, de preitear uma imaginária lenda de que não há memória, nem a história da gruta engloba, mas deveria englobar. Mas as lendas, quando as não há, inventam-se, pois nada de excepcional e extraordinário existe no Mundo, que não tenha na sua origem ou existência, uma explicação lendária.

Conta, então a lenda, e se não contou deveria ter contado, que há muitos e muitos anos, vivia na localidade da Prainha, nos primórdios da sua existência, uma rapariga chamada Natalina. Natalina era alegre, forte, folgazona, robusta e saudável. Mas, de repente e sem nenhuma explicação aparente, começou a definhar e a enfraquecer a olhos vistos, alimentando-se mal, perdendo as cores e desfalecendo frequentemente. Parecia que a morte se aproximava. Cuidava-se até que fosse mal olhado. A mãe bem a tentava salvar, dando-lhe chás variados e mezinhas diversas. Mas a moça nada. Piorava de dia para dia, contabescia a cada momento.

A mãe desabafava as suas mágoas junto das suas amigas que, procurando consolá-la, tentando diminuir-lhe as consumições e aliviar-lhe o desassossego, concluíam:

- Não é nada, mulher... Isso são coisas da idade. Ela não está com quinze anos? Então, é isso, mulher!

Mas a rapariga é que não melhorava, antes piorava a olhos vistos. Chamaram-se curandeiros, visitaram-na as bruxas e até o senhor padre foi mandado vir a casa para a assacramentar, mas nada disto veio aliviar o sofrimento de Natalina, nem sequer cercear a crescente consumição de sua mãe. O caso parecia não ter solução e aguardava-se um desfecho fatal.

Ora lá no alto da localidade, já quase nos andurriais da montanha, numa canada erma e sinuosa, vivia um fradinho, estimado e respeitado por todos e reconhecido pela sua generosidade, sabedoria e santidade. Acreditava-se que até milagres fazia, o bondoso e velho ermitão.

Chamado o frade, este olhou a menina com blandícia e pediu aos presentes que se retirassem, ficando a sós com ela, durante largos momentos. Depois retirou-se, silencioso e pensativo, mas não dormiu durante toda a noite.

A visita do frade, a casa da mãe de Natalina, no entanto, correu célere pela redondeza, reunindo, no dia seguinte, uma pequena multidão de curiosos que vinham daqui e de além, até junto à casa de Natalina, na expectativa de presenciar mais um milagre do taumaturgo fradinho. Mais se animaram todos, quando, pela hora do meio-dia viram o frade aproximar-se da casa e, juntamente com Natalina, rumar para as encostas sobranceiras à localidade, na direcção da gruta. Caminhavam trôpegos, arfando cansado, mas com ânimo e confiança escalaram a encosta pedregosa até atingirem a gruta, encravada num íngreme penedo, recoberto de verdura luxuriante, mas rodeada do átrio de entrada. A multidão, hesitante e estupefacta, seguia-os. Ali chegando, o monge ergueu os braços num largo e lento gesto de sinal da cruz e, ao murmúrio de piedosa prece, espargiu para o interior da gruta a água lustral que trouxera consigo numa pequena cabaça, presa a tiracolo por um cordão de “filaça”.

Naquele instante um enorme e violento tremor fez estremecer e abalar a terra, repercutindo-se por toda a ilha, deixando a multidão atónita, aflita, estupefacta e aos gritos. O mar, rugindo em doidas convulsões, projectou-se, violentíssimo, contra a impassibilidade das rochas, para retroceder de seguida, abrindo-se ao meio, dando passagem a um terrível e apocalíptico monstro que, saindo da gruta aos tropeções e em enorme velocidade, rolou pela encosta, caiu por entre as ondas abertas, imergindo e perdendo-se para sempre nas profundezas do oceano.

Narra ainda a lenda que Natalina, de imediato, retomou as suas cores, a sua beleza, a sua robustez e, sobretudo, a sua alegria de viver e que o fradinho, dias depois, morreu com fama de santo. Há quem diga que se alguém se postar à porta da gruta e espreitar um pouco para o seu interior poderá ainda ver, a caírem do tecto, por entre as ranhuras ressequidas da lava basáltica, várias gotículas de água, que os cientistas chamam estalactites, mas que os mais crentes cuidam ser vestígios das gotas de água lustral que o bom do fradinho atirou para o interior da gruta, exorcizando o demónio, oculto sob a forma de monstro e que, miraculosamente, ali permanecem através dos tempos.

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publicado por picodavigia2 às 21:18

O ELOGIO DA ADEGA

Domingo, 08.09.13

No Pico e mais concretamente no lugar da Prainha, freguesia de São Caetano, a adega familiar assumiu, desde os tempos mais remotos, um papel importante e de destaque no quotidiano dos seus habitantes, nos seus costumes, tradições e até na sua própria economia. Embora vocacionada desde sempre como local de fabrico do vinho (ao menos naquelas que tinham no seu interior ou anexo um lagar) e, sobretudo, da sua guarda, a adega foi-se transformando, ao longo dos tempos, numa espécie de granja onde, juntamente com o vinho, o bagaço e a angelica e, misturados com barricas e garrafões, se guardavam murmúrios resplandecentes, devaneios indecifráveis e aromas dulcificados, ou num granel onde, aos odores opacos e perplexos do mosto a fermentar, se adicionavam e misturavam refluxos candentes, ressonâncias mágicas e ecos retumbantes, de memórias e tradições, ou seja, num local de sonhos idílicos, de fascinações extasiantes e de enlevos arrebatadores. Uma espécie de epicentro da sublimidade, do enlevo, das ausências impostas, das negações forçadas e de carências postuladas, tudo isto motivado por uma insularidade rural, assumida, rústica e mística. Por isso é que a adega, ao longo dos tempos, se foi transformando também em local de romarias permanentes e contínuas nas tardes de domingos e feriados, ou de visitas diárias, à noitinha, em dias de semana e de trabalho, umas e outras, prolongadas, estendidas e ramificadas, vezes sem conta, pela noite dentro, por vezes, até pela madrugada. Além disso, muitas vezes, romarias e visitas eram acompanhadas de opíparas refeições, transportadas em cabazes, à cabeça de mulheres robustas, moçoilas empavesadas, onde não faltavam os inhames, a linguiça, os torresmos, o peixe frito ou assado e o bolo do tijolo, enquanto muitas outras se reduziam a um simples mas delicioso e revigorante caldo de peixe, acompanhado com o vinho, bebido nas tradicionais tigelinhas de barro, extraído, directamente, das barricas, ou, outras vezes a estagiar e a criar lastro no canjirão. Muitas, porém, eram as idas à adega, apenas encharcadas de vinho, espevitadas com bagaço ou adocicadas com angelica, mas vazias de vitualhas. Mesmo assim não deixavam de ser alegres e folgazonas. Era a safra destemida e sublime do lazer, ora juntando familiares, ora reunindo amigos. Era o encontro e reencontro, a partilha e a entrega, a troca de afectos, sentimentos e, sobretudo, de palavras. Era sobretudo por altura de aniversários e das festas do Natal, da Passagem do Ano, da Páscoa, do São Martinho, dos Santos e outras que a adega assumia o seu estatuto de “catedral” do convívio, da confraternização, do lazer e da desmitificação, entregando-se a um devaneio por vezes tresloucado, eufórico e alucinado mas sempre generoso, concertante e fraterno.

Mas era sobretudo na época das vindimas e na altura da apanha dos figos que as adegas de São Caetano se enchiam de gente, de trabalho e de folguedos enquanto, nos caminhos circundantes e nas veredas intercalares circulavam pessoas numa labuta árdua e cansativa mas gratificante e desejada. Era por essas alturas que os ares se perfumavam com os odores adocicados do mosto e dos figos a fermentarem, enquanto aqui e além fumegavam, por entre os telhados, sabores magnificentes, gustações sumptuosas e paladares opulentos.

A adega quando assolada pela presença do dono, tinha as suas portas sempre aber

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publicado por picodavigia2 às 11:33

O NAUFRÁGIO

Sábado, 07.09.13

O Francisco Gonçalves, marinheiro experiente, antigo baleeiro, mestre de traineira e profundo conhecedor dos arriscados meandros da faina marítima, bem o avisara: Vinha aí borrasca da grossa, olaré se vinha! Que não fosse para o mar. Que tivesse juizinho… O António da Grota, controlador diário dos movimentos, das estruturas, da altitude das nuvens e da sua relação com ventos e procelas ripostara, veementemente, que aquilo não era tempo de ir para o mar, nem para lado nenhum. O Alves do Redondo especialista em mudanças repentinas de ventos e ameaças de tempestades e ciclones, afirmava, a pés juntos, o mesmo e até o miúdo do Greves, com permanência efectiva e contínua em cima do cais, sempre pronto a ajudar no arrear das embarcações e sempre solícito em agarrar os cabos que enviavam dos barcos para terra e a prendê-los, com agilidade e perícia, nos moitões enferrujados, embutidos sobre o cais, lhe atirara à cara: O sinhô António está doide! Este mar nan tá capaz d’arriá. Está rofe!

Em casa, a mulher, apesar de mais profeta em tragédias virtuais e desgraças presumíveis do que conhecedora de ventos e marés, pedira-lhe, suplicara-lhe, implorara-lhe: Que não fosse. Que aquilo não era tempo para sair de casa, muito menos de ir para o mar. Mas ele, nada. Teimoso que nem um burro, casmurro que nem um tamanco, não dava ouvidos a ninguém, nem por mais que o aconselhassem ou até lhe pedissem, se demovia da sua decisão: havia de ir para o mar naquela noite, fizesse o tempo que fizesse, soprasse o vento que soprasse. Os filhos estavam, ali cheios de fome, a definharem-se. Os filhos que não tinham culpa de ter vindo a este mundo. Ele, sim, é que os fizera… e, agora era sua obrigação alimentá-los. E era no mar que estava a solução. Apenas do mar lhe era possível retirar o sustento da família. Naquela noite, como em tantas outras, havia de encher a sua Veloz de abróteas, de pargos, de congros, de garoupas, de gorazes e de bocas negras e havia de lhes atufar a mesa, havia de lhes colocar consolo nas barriguitas. Havia trocar o peixe excedente por farinha para o bolo que a sua Emília havia de cozer. Peixe e bolo não haviam de faltar no dia seguinte, nem em dia nenhum, sobre a mesa e ele, já refeito da safra, já dormido e acordado, havia de sentar-se na cabeceira da mesa e deliciar-se ao vê-los saborear aquelas cabeças a abarrotar de gordura, aquelas postas do lombo, alvas que nem a neve e a beberem umas valentes tigelas de caldo, tudo acompanhado com o bolo fresquinho, ainda a fumegar. Para os mais pequenitos até lhes havia de migar pedacinhos de bolo dentro do caldo. Juntava-lhes umas fevrinhas de peixe e haviam de consolar-se, os pequerruchos, que nem príncipes.

E já à boquinha da noite, com um céu pejado de nuvens escurras, ameaçadoras, carregadas de chuva e a correrem, como doidas, na direcção do Faial, acompanhadas de um vento intensíssimo, a soprar de leste, a trazer, pela baía dentro, uma ondulação altiva e perturbante, aparelhou e arreou sozinho a Veloz, pese embora o costado se raspasse, vezes sem conta, na aspereza rude do baixio circundante. A pequena embarcação, acossada pelo vento, sacudida pela braveza das ondas e, sobretudo, açudada pelos remos que o Simplício premia com uma força gigantesca, com uma convicção medonha e com uma veemência inaudita, saltava, galgava, pinchava e, até, voava na direcção do mar alto, onde o peixe abundava. Lançou, o Simplício, a apoita, engodou, preparou e atirou para o mar as linhas com os anzóis bem recheados de iscas apetitosas. Não tardou muito e o peixe começou a picar, a pegar e a saltar para a Veloz. Apesar de cada vez ser maior a ondulação e de o tempo piorar a cada momento, o fundo da embarcação começava a cobrir-se de abróteas, garoupas, bocas negras e um ou outro goraz.

Mas o diabo é que o mar piorava a olhos vistos. As ondas cada vez maiores e o vento a aumentar de força intensidade e, pior do que isso, a descair, inevitavelmente, para sueste. Um vento fortíssimo e perigoso. Raios! O pior vento que entrava pela baía e que quando forte, não dava tréguas, nem permitia entrada no porto, nem muito menos deixava encostar ao cais. As ondas agora eram quase gigantes e, umas após as outras, iam toldando o mar por completo, rebentando em crista, acompanhadas de chuva intensa, de trovoada e de um vento terrível que parecia ter o diabo no corpo. Um temporal nunca visto!

Antes que o Simplício se consciencializasse da borrasca em que teimosamente se envolvera, uma onda gigantesca, rebentou-lhe na frente, revirando a Veloz, colocando-a de quilha ao ar, num reboliço terrível e medonho. O Simplício, apesar de atirado ao mar com uma violência horrenda e aterradora, conseguiu agarrar-se de unhas e dentes a uma argola encravada à ré da frágil embarcação. Sem leme, sem remos, nem sequer tentou voltar a Veloz. Seria um esforço inglório e cansativo. Poupava-se para o que aí vinha. Uma única alternativa lhe restava, Agarrar-se como lapa à pedra sobre a quilha e aguardar que o temporal amainasse e as correntes fortuitas das ondas empurrassem a embarcação, à deriva, para mais próximo de terra, de onde, a nado, pudesse alcançar uma qualquer escarpa da costa.

Ao romper da manhã grupos de homens, assolados pelos gritos de dor da Emília, toda a noite sem pregar olho, demandavam a orla costeira na procura do Simplício. As mulheres partilhavam lágrimas, dor e lamento. Ninguém acreditava que o tresloucado do Simplício tivesse escapado à fúria de tão grande temporal que sobre a freguesia se abatera durante a noite.

Foi o grupo do Saldanha que havia demandado, sem esperança, as escarpas da Rocha Alta, que o foi encontrar, todo molhado, enregelado, com a roupa rasgada e com feridas por todo o corpo, mas feliz, muito feliz e sorridente, porque tinha apanhado, nos laredos desertos do baixio, uns bons quilos de lapas para o almoço dos seus pequerruchos.

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publicado por picodavigia2 às 12:08

O MURMÚRIO DOS BÚZIOS

Quarta-feira, 04.09.13

Ele vivia junto ao mar, numa casa simples, pequenina ornada com flores de algas e perfumada com os afagos oscilantes das marés. Mas se quisermos ser mais precisos, afinal, não era ele que morava junto ao mar. Era o mar que morava junto dele, que cercava o seu quotidiano duma maresia persistente, decalcada em ondas baloiçantes, a perderem-se num vaivém irrequieto, umas vezes embravecido outras ternurento, mas sempre a trazer-lhe uma salubridade adocicada, uma brisa inebriante, um resfolgo de liberdade.

Desde pequenino que a avó lhe segredava: o mar, para além de maior e de mais inquietante, também é mais rico do que a terra. Mas não eram os tesouros dos navios encalhados, nem o ouro das caravelas perdidas, nem os cofres dos piratas naufragados, nem sequer o pescado fluente, quotidiano, despejado sobre o cais, a ressuscitar o reboliço da lota. Por nada disso ansiava. Do mar, ele queria apenas os búzios.

Lembrava-se muito bem de ter lido no livro da quarta classe um poema que dizia: Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. Era esse mar salgado, ali presente, paternal e amigo, que lhe atirava respingos de salmoura, o cobria de espuma e o transformava num escudo translúcido que o protegia de nevoeiros e caligens. Belo poema, uma espécie de cântico dos cânticos, um elogia da maresia, talvez o hino daquele torrão azulado, enorme, que, por vezes e em sonhos, lhe parecia tornar o nundo infinito. Mas do mar não queria nem o infinito, nem o azul, nem sequer as lágrimas dos seus heróis, transformadas em cristais de sal. Do mar, ele queria apenas os búzios.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Terminava assim aquele poema. Não sabia o nome do poeta que o escrevera, mas seria, decerto, um poeta grande, autor de muitos outros poemas, porque este era, deveras, belo, mesmo sublime. E um poeta nunca faz só um poema ao mar. E sobre o mar não faz versos apenas um poeta. Talvez até muitos outros poetas tivessem trovado sobre o mar. Quando morrer quero levar comigo um pedacinho do mar, para recuperar o tempo que vivi sem ele. Mas também do mar não queria os poemas, embora se deleitasse a apreciar alguns deles. Do mar, ele queria apenas os búzios.

Até nas madrugadas sombrias e enevoadas escapulia para junto do mar. Era um tormento, uma angústia, uma consumição, ver aquele enorme lençol de água, sem Sol, sem uma réstia de luminosidade que, ao menos, tivesse ficado esquecida do dia anterior, a aureolar-se para aos poucos se ir transformando num clarão, que trouxesse um respirar mais folgado às rochas, aos baixios, aos escolhos e até ao sargaço que, arrancado das profundezas pela força das correntes, flutuava suavemente sobre as águas. Mas não queria as rochas mesmo que o Sol as clarificasse em cada manhã, nem queria baixios, nem escolhos, nem sequer o sargaço, mesmo já postado em terra e a secar, no estio. Do mar, ele queria apenas os búzios.

Depois eram as ondas, umas vezes pequeninas, lisas, sonolentas, outras enormes, gigantescas, altivas, bravias, mas sempre a irem e a virem, num vaivém ritmado, umas vezes mais suave e embelecido outras, agreste, toldado e raivoso, a saltarem por entre os esconderijos das enseadas, repletos de sombras e de mistérios ou a enrolarem-se nos pedestais das baixas e dos ilhéus, cravejados de lapas e assolados por caranguejos. Mas do mar também não queria as ondas, por mais mansas e quietas que fossem, nem a arrogância ingénua dos ilhéus ou negrume basáltico dos baixios. Do mar ele queria, apenas, os búzios.

Estranha obsessão, esta, a dele, de nada mais querer do mar, para além dos búzios. E sabem por que do mar ele, apenas, queria os búzios? Simplesmente para os colocar junto ao ouvido e ali ficar, um minuto que fosse, a ouvir o suave sussurrar do oceano. É que dentro dos meandros cavernosos e enroscados das suas conhas, o mar nunca é revolto, não há tempestades nem bravezas e as ondas, ali, ouvem-se sempre, suaves e doces, como se fosse em eco, porque balançam sempre, num vaivém ternurento e meigo, semelhante, talvez mesmo igual, àquele com que as mães embalam os seus filhos.

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publicado por picodavigia2 às 16:20

ROSA TÂMARA

Terça-feira, 03.09.13

Lá fora soprava um vento terrível. A chuva caía em catadupa sobre o velho casebre e ricocheteava-se no telhado, fazendo um barulho quebrado, persistente e assustador. Ao longe, uma ameaça de tempestade e um ribombar de trovões que, de tão frequentes, se misturava cada um, como eco do anterior. O mar roncava com uma sonoridade aterradora. A tempestade crescia galopante sobre o casario encastoado, aqui e além, no sopé da montanha, a ligar o mar à serra.

Rosa Tâmara, sentara-se desde há muito, junto à mesa da esconsa cozinha, onde um candeeiro a petróleo, com um vidro sujo e defumado, projectava uma luz muito frouxa e titubeante pelos meandros da velha cozinha. Ao redor os filhos, uns a dormitarem, outros a olharem o tecto pintado de tisna e felugem, como se cuidassem que pelas frestas dos telhados pudessem dar ordens ao vento para que acalmasse e à chuva para que amainasse. Apenas o mais velho, o Tóino, já um homenzinho, se mantinha debruçado sobre a mesa, mudo e, inquietantemente, pensativo.

Fora de tarde, a meio da tarde que o José da Ribeira, numa aflição angustiante lhes batera à porta. O pai abriu-a e deu de caras com o da Ribeira, impertinente e peremptório:

- Eh, home, caminha-me já pra esses matos! A tua gueixa vermelha saltou o tapume e entrou na do Barradas. Sabes como ele é, quando o gado de um ou de outro entra no que é dele. Vá por aí acima, home, antes que seja tarde e ele descubra ou alguém lhe venha mexericar… e está o caldo derramado.

Apesar da tempestade que começava a delinear-se, da forte oposição da mãe que por nada deste mundo deixava o seu homem caminhar por ali acima com aquele tempo, o pai não ouviu mais nada. Calçou as botas, vestiu uma froca, encapuzou-se com um saco de serapilheira, meteu um foicinho ao ombro e zarpou pelas íngremes e apedregulhadas veredas que conduziam à serra. Bem caminhou atrás dele até ao portão, bem o chamou e bem lhe pediu para o acompanhar. Mas o pai nada. Apenas um sinal reprovador da sua benevolente intenção.

Depois o tempo piorara, e a tempestade da tarde, ao anoitecer, transformara-se em temporal. Agora estavam ali, àquelas horas, medrosos, inquietos, açulados por aquela intempérie… E o pai sem aparecer…

A mãe, para não amedrontar os mais pequenos, simulava, num sorriso dolente, amortecido e, benevolentemente, maternal, a preocupação que lhe ia na alma e a angústia que lhe trespassava o peito. Cruzavam-se os olhares num silêncio demolidor.

Rosa Tâmara, agora com lágrimas bem visíveis a escorrerem-lhe por uns olhos muito esverdeados, pegou no mais pequeno, enroscou-o no regaço, abraçou-o, beijou-o e foi deitá-lo. Depois a Josefina, o Manel e a Rita. Todos dormiam, excepto ele o Tóino e a mãe.

A chuva parecia ter abrandado mas o vento soprava agora com uma força tão forte e tão avassaladora que parecia balancear o pequeno casebre. Os sopros das rajadas mais fortes entravam pelas frestas do telhado. A luz do candeeiro lambareava, apagando-se e reacendendo-se a cada rajada. Os trovões ribombavam assustadores, misturados com relâmpagos. Parecia que o céu se abria de um extremo ao outro da terra.

Na velha cozinha, o silêncio mantinha-se, tornando o temporal maior, mais pertinente, mais enigmático e mais assustador:

- E aquele homem caminhar assim, com este tempo, por esses matos, por causa de uma rês que saltou para a terra do outro… do outro… do maldito do Barradas.

Tóino, por fim, também adormeceu.

- Aquele homem nunca dá p’lo qu’ei digonunca dá por mim… Razoava Rosa Tâmara, enquanto ia deitar o Tóino, na sala, junto com os outros. As meninas focavam no quarto dos pais.

Rosa Tâmara ficou só, silenciosa, triste e desolado ao redor do barulho intempestivo do temporal e da quietude sonolenta dos pequenos. Decerto que já passava muito da meia-noite. Aqui e além, no meio daquela tenebrosa atribulação matinal, ouvia-se o cantar de um ou outro galo, mais afoito e destemido.

- Aquele homem nunca devia ter caminhado p’ra esses matos… Com este tempo. Padre Nosso qu’estais nos Céus… - e agarrava as mãos uma na outra, como que a tornar a prece mais fervorosa.

Uma rajada de vento fortíssima, acompanhada de um enorme clarão, fez estremecer a casa, como se de um abalo de terra se tratasse. Um rugido aterrador e fatídico. Rosa Tâmara deu um grito de terror, de mágoa, de mau augúrio e estranho presságio. A luz, ou porque o petróleo faltasse ou porque o vento soprasse mais forte, extinguiu-se definitivamente e Rosa Tâmara não quis mais acendê-la. Ao longe, cães uivavam.

 

A madrugada ainda não havia clareado de todo e o tempo ainda se mantinha revolto, embrulhado numa neblina escura e ameaçadora. Na rua um burburinho aflitivo, preocupante e desolador:

- Um homem fora encontrado caído num valado, na serra. Havia sido atirado por uma rajada de vento e atingido por um raio fulminante.

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publicado por picodavigia2 às 12:02

A PROMESSA

Segunda-feira, 02.09.13

A casa do Cambado explodiu de alegria e contentamento quando, através duma carta vinda da América, recebeu a notícia de que o mano Augusto, no próximo Verão, vinha de visita à Fajã, com a intenção de pagar uma promessa feita há muitos anos: um jantar de pão e carne, a toda a freguesia, em louvor do Senhor Espírito Santo. Apalavrasse o mano, quanto antes, duas reses ou que ele próprio as criasse que depois, quando chegasse, lhas havia de pagar. Queria-as de boa raça, bem gordas e anafadas. E mais não dizia!

Ufanou-se o Cambado, regozijou-se a mulher e exultaram de contentamento os filhos. Mas quem mais se inebriou de regozijo foi a filha mais velha, a Verónica que, a partir desse dia não deixou de sonhar com a promessa do tio Augusto. É verdade que mal se lembrava dele, que a carta ocultava todos os outros pormenores, relativos quer à festa, quer à estadia deles e a tudo o mais. Mas, caramba! Ele não tinha filhas, apenas dois rapazes que, ao que se sabia ainda não namoravam e, do lado do pai, o parente mais chegado, não havia nenhuma outra rapariga com idade apropriada para levar a corroa no cortejo. Havia de ser ela. Olaré, se havia!

Todos os anos, pelas festas do Espírito Santo, eram as meninas mais ricas da freguesia, as filhas dos senhores mais importantes, que levavam a coroa, durante os cortejos. Ela desfazia-se em tristezas e acabrunhava-se em mágoas. Tantas vezes sonhara que, um dia a haviam de a convidar. Mas nada! Chegava-se ao dia da festa e lá ia a mesma do ano anterior ou uma outra das meninas mais finas e chiques da freguesia, trajando vestido de tule branco, em tudo semelhante aos das noivas, capa de veludo avermelhado, diademas de prata e brilhantes na cabeça, transportando, entre o quadro das varas, ao som dulcificante da Filarmónica, intercalado com o solene cantar dos foliões e o repicar dos sinos, o símbolo do Paráclito nas ilhas – a coroa. Desfilavam como princesas, ostentavam-se como rainhas e sorriam como fadas, numa sobranceria vaidosa, arrogante e presumida. E ela, ali postada na beira do caminho, a vê-las passar, acabrunhada, triste, sentindo-se até como que vilipendiada mas cuidando, em sonhos, que um dia havia de ser ela a pisar aquela passadeira de encanto, de fascínio e de glória. Agora era a promessa do tio a espevitar-lhe a flama da esperança. Ela postava-se como candidata primeira, única e natural para transportar a coroa e o ceptro da glorificação.

Os meses seguintes, que mediaram a chegada do tio foram de um sonhar permanente e de um arquitectar constante de projectos, de imagens e de fantasias. O vestido, a capa, o diadema, tudo havia de ser trazido da América e haviam de ultrapassar em brilho, em grandiosidade, em fascinação e em riqueza todos os que ao longo dos anos haviam desfilado pela rua Direita, tanto no cortejo da Casa de Cima como, sobretudo, no da de Baixo. Ela seria, incontestavelmente, a mais bela “rainha” de sempre e as outras, sobretudo as que outrora haviam ocupado o trono da sublimidade, agora haviam de ser elas a postarem-se ao lado do caminho, roídas de inveja, apoucadas com a sua sumptuosidade, desfeitas com a sua fascinação, humilhadas com a imponência dos seus trajes e a renderem-se à indiscutível opulência da sua beleza.

Os meses deslizaram vagarosos e os dias decorreram lentos. Parecia que o tempo não passava e aquele dia nunca mais chegava. O pai, a mãe, ela e os irmãos haviam-se envolvido no arranjo e preparação da chegada de tão desejados visitantes. Os americanos haviam de ser muito bem recebidos. Para além das duas reses destinadas ao cumprimento da promessa, o Cambado comprou um bácoro e colocou-o à engorda, a mulher, a Júlia, pôs uma galinha de choco e criou uma ninhada de pintos e os filhos fartaram-se de sachar e cobrir inhames na Cabaceira e no Moledo Grosso. Mais perto da chegada, caiou-se a casa, deu-se um arranjo na retrete, compraram-se pratos e tijelas novos, uma celha de madeira para os banhos e uma cadeira de vimes, para a sala, onde o mano havia de gostar de se sentar, talvez a fumar o seu charuto. Na véspera da chegada, matou-se um carneiro, cozeu-se pão de trigo, deu-se uma barrela â casa duma ponta à outra e colocaram-se os melhores lençóis e as mais belas colchas nas camas em que os americanos haviam de dormir.

Finalmente chegou o dia do Carvalho. O Cambado e os dois filhos mais velhos, alta madrugada abalaram, a pé, para Santa Cruz. No regresso, a partir dos Terreiros, carregaram, malas e malotes e toda a bagagem que os americanos traziam. A Verónica e os mais novos foram esperá-los à Eira da Cuada enquanto a mãe ficou em casa a guisar o carneiro, a fritar a linguiça e os torremos e a cozer os inhames.

Ao chegar à Fajã, no entanto, o mano Augusto, alegando que não queria dar trabalho à cunhada, nem incómodos à família do irmão que muito prezava, informou que decidira hospedar-se, juntamente com a mulher e os filhos, em casa do compadre Honório. Que ali ficava mais à larga, que a casa era bem maior, que incomodava menos o irmão e a família e que há muito que o compadre os havia convidado para lá ficarem. Que o mano  não lhe levasse a mal, mas não lhe passava pela cabeça fazer uma desfeita daquelas ao seu compadre e amigo, a quem já devia muitos favores.

E no dia do pagamento da promessa, durante o cortejo do Espírito Santo, foi a filha do compadre Honório que, a abarrotar de vaidade e arrogância, trajando um vestido de tule branco, capa de veludo vermelho e diadema de prata na cabeça, tudo trazido da América nas malas que o Cambado e os filhos haviam acarretado dos Terreiros até à Fajã, entre o quadro de varas e acompanhada do som da Filarmónica, do cantar dos foliões e do repicar dos sinos, transportou os inequívocos símbolos do Paráclito nas ilhas – a coroa e o ceptro.

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publicado por picodavigia2 às 11:43

A ASSENTADORA DO LEITE

Domingo, 01.09.13

Quando o velho Pineira informou a Cooperativa de que cessava as suas funções como “desnatador” da Máquina de Baixo, depressa se empolgaram os responsáveis da Cooperativa, na pesquisa de alguém que o substituísse. A máquina de desnatar leite não podia parar! Mas não foi fácil, encontrar alguém disponível. A uns faltava tempo, a outros força e engenho, pelo que, os contactos iam, sucessivamente, saindo frustrados. Todos se recusavam. É que o “desnatador” do leite tinha que estar ali, a dar à manivela, umas boas duas horas seguidas de manhã e outras tantas à tarde e disponibilizar mais uma boa meia hora, para desmontar e lavar toda aquela maquinaria. Precisava-se, pois, de bons braços, de muito tempo disponível e de uma paciência esmagadora. Além disso, era necessário, ter na família, alguém de confiança, astuto em contas e hábil na escrita, que assentasse o leite.  

Bateram a várias portas, mas todos se recusaram. É verdade que era uma maneira de se ganhar algum dinheiro, pois a Cooperativa pagava sempre a todos os seus trabalhadores. Mas uns não tinham tempo – o gado e as terras não davam tréguas – outros já não tinham braços e a maioria nem sequer tinha alguém que fizesse os registos.

A última porta a que demandaram foi à do José Manso. Braços, tinha ele que valiam por quatro! Tempo, é verdade que não tinha muito, mas arranjava-se sempre algum e se fosse para trazer dinheiro para casa, ainda melhor. Então não andava ele, de vez em quando, a dar dias para fora, a trabalhar para outros, para ganhar algum!? Sendo assim, menos uns dias ou horas que desse na agricultura e o dinheiro estava garantido. O pior, interrogava-se o Manso, coçando a cabeça com ambas as mãos, o pior é que não tinha quem medisse e assentasse o leite… A mulher, sempre em casa, a lavar, a cozinhar e a tratar dos pimpolhos mais pequenos. Além disso não sabia escrever, nem muito menos fazer contas. Meter uma pessoa estranha, era o diabo e não seria de confiar.

A única alternativa que lhe sobrava era a filha mais velha, a Elisa, já uma mulherzinha, quase a sair da escola, muito hábil na escrita e capaz de fazer contas de qualquer uma das quatro operações e até de lhes tirar a prova dos nove. Que sim, que estavam plenamente de acordo, que era uma questão da “piquena” ver uns mapas de registo e havia de crescer e habituar-se. Dentro em breve, tudo faria com facilidade.

Acertaram-se os honorários e, no primeiro dia do mês seguinte, foi o Manso que, muito orgulhoso, abriu a porta da Máquina, montou toda aquela engenharia e, de seguida, pôs-se cá fora, de búzio em riste – bouuuuu, bouuuuu - como sempre fizera o seu antecessor, a fim de anunciar a toda a freguesia que podiam trazer o leite, pois a Máquina já estava aberta. Lá dentro, a filha, a Eliza, muito nervosa, agarrada a uma grande placa de madeira, sobre a qual prendera, com molas de roupa, uma enorme folha de papel. Do lado esquerdo da folha e, ordenados alfabeticamente, os nomes dos fornecedores de leite. Na coluna superior e por cima dos números ordenados, de um a trinta, o mês, a que ela com a sua caligrafia elegante e redondinha, acrescentou, de imediato – Junho. Por baixo de cada número, duas colunas, encimadas, uma pela letra M e a outra por um T. Na primeira registaria o leite da manhã, na segunda, o da tarde. Depois… Bem, depois era só fazer contas.

Enquanto o pai colocava o búzio numa prateleira, Eliza ia simulando registar, numa espécie de treino, na coluna apropriada, um número fictício, enquanto traulitava em voz baixa;

- João Joaquim Fagundes Júnior – e seguindo com o dedo na largura da folha - dia 14: de manhã, 16 e de tarde, 12. – A soma, na outra extremidade da folha, dava um total de 28. Tudo muito fácil, sim senhor. Somar o total dos dias do mês, é que era mais complicado… Mas havia de lá chegar.

Não demorou muitos dias. O leite caía no balde em catadupa, enfiava-lhe a varinha medidora dividida e zumba! Era só registar na folha, no espaço adequado; 12, 10, 7, 15, 8…etc.

Depressa cresceu Eliza e se afeiçoou à tarefa que por nada deste mundo havia de abandonar. Ao mesmo tempo explodia em beleza, exorbitava-se em elegância, aspergia ternura e sublimidade, despoletando em quantos ali levavam o leite os mais díspares sentimentos: nos homens anseios lascivos e desejos reprimidos, nas mulheres invejas brejeiras e mexericos vexatórios.

Mais se empolgou Eliza quando, certa tarde, viu entrar porta dentro o Tónio do Eiras. O rapaz andava a estudar no Faial e agora passava as férias na Fajã, ajudando os pais nas lides agrárias e na criação do gado. Conhecia-o de pequeno, mas agora estava diferente e ela também. Um e outro, ao crescer, haviam-se transformado por completo. Ele, um rapagão, robusto, enternecedor, meigo e afectuoso, a espargir flagrância e a emanar uma sedução dulcificante. Ela elegante, bela, sublime, como se fosse uma deusa, de formas airosas e atraentes, cândida de costumes, a irradiar fascinação, a evolar-se numa doce aquiescência e a expelir uma pulcritude ímpar e singular.

Entrou, pois, o Tónio, carregando duas pesadas latas a abarrotar de leite. Ao chegar a sua vez, aproximou-se do balde contíguo à desnatadeira e, ao mesmo tempo que se inclinava para vazar o leite no respectivo recipiente, Eliza também se curvava, a fim de ali colocar a varinha medidora. Foi então que, num estranho murmúrio de silêncio e de dramatismo, se deu conta, Eliza, de uma tamanha tremulação e de um inusitado suspiro por parte do rapaz, quando os seus rostos quase se colaram um no outro, como se fossem beijar-se. Estranhamente, aquele suspiro, espontâneo e emotivo do Tónio, também despertou nela um inebriante delírio, símbolo duma ânsia incompreensível e inexplicável. Nos dias seguintes não o tirava do pensamento. Se ele estava perto, tímida e amedrontada, com medo de se revelar, desejava-o longe, se ele estava longe, desejosa, languescida e temerosa de o perder, queria-o o perto e desejava-o ainda mais. Aguardava, sufocante, a sua chegada, fascinava-se, cada vez mais, com a sua presença e arrebatava-se com o seu olhar. Tinha-o presente, no pensamento, dia e noite. Numa palavra: amava-o de verdade.

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publicado por picodavigia2 às 11:01

FUGA

Sexta-feira, 30.08.13

Júlia voltara-se e rebolara-se na cama vezes sem conta. Inicialmente parecia um sonho, depois um imaginar sonolento de algo muito ténue e longínquo e, logo a seguir, um barulho estranho e esquisito a despertá-la definitivamente e a trespassar-lhe o peito, como se fosse um raio. Por fim, já completamente acordada, uma certeza absoluta e irrevogável: eram tiros. Nem sequer esperou para ouvir uma segunda vez ou para se certificar melhor. Levantou-se de rompante, abriu a porta da sala, de maneira a que os pais e os irmãos não dessem pela abalada e deu consigo quase tresloucada, na no meio da rua, imersa numa madrugada ingente e apavorante, sem saber bem o que fazer ou para onde ir.

Era Maio e a noite estava muito escura e fria. Júlia cobriu os ombros quase nus com um xaile de lã que agarrara à pressa, antes de sair, e rumou, incerta, Fontinha a cima. Os sons martelados e secos de armas, prolongando-se por aqui e por além, cada vez pareciam mais nítidos, mais reais, mais aterradores, estampando-se em eco nas rochas das Covas e das Águas, deixando no ar um rasto de pólvora fumegante,

Ao chegar ao cimo da Fontinha, Júlia, cada vez mais convicta de que o barulho dos tiros vinha do lado mar, arrepiou-se mais e desatou numa correria louca, pela canada que dava para o Mimóio. No início, porém, a vereda muito sinuosa, alcantilada de pedregulhos e ladeada com paredes altíssimas, a vedar os pequenos cerrados de milho, as compridas belgas de batata-doce e uma ou outra courela a abarrotar de favas já floridas, não deixava ver o mar mas permitia que o martelar contínuo dos tiros se encafuasse ainda mais naqueles meandros, tornando-os mais reais, mais atribuladores, mais temíveis, mais angustiantes. Agora, se dúvida alguma ainda existisse, desfazia-a por completo no constante ribombar das carabinas e dos fuzis. A sua única preocupação era a de saber se o seu António estaria envolvido naquele aberrante, desmedido e despropositado tiroteio, a quebrar o silêncio íntegro, global, puro e profundo da noite que a penumbra enigmática da rocha lançava sobre a enorme fajã e sobre a baía circundante.

Desde há muito que Júlia e António se amavam como ninguém, se desejavam reciprocamente com ardor, arquitectando construir, dentro em breve, com harmonia e sublimidade, um lar de felicidade, de bem-estar, de alegria e de amor. Júlia sabia muito bem da oposição cerrada que os seus progenitores lhe haviam de fazer quando se apercebessem do seu relacionamento com o filho do Chibante. Mais se oporiam, ainda mais a impediriam, quando soubessem que ali havia muito amor, havia uma grande paixão e que se conjugavam planos de construírem, em conjunto, o futuro. Talvez por isso é que ele tomara aquela abruta e radical decisão, por saber que era pobre, muito pobre e que os pais dela haviam sempre de cuidar e de sentir que ele nunca havia de sair da miséria, de um pé rapado, de um badameco de meia tigela e que por isso mesmo nunca haviam de autorizar aquele casamento, é que ele, o seu António, decidira partir, em busca da aventura, do sucesso, do necessário para um dia, ao regressar das Américas, lhes aniquilar e desfazer por completo arrelias, consumições e de lhes atirar à cara aleivosias. Mas Júlia também nunca concordara com aquela partida, para tão longe, para a América e ainda por cima, naquelas condições – fugindo, às escondidas, no escuro da noite, envolvendo-se com os aguadeiros de um bergantim, como se fosse um criminoso. Depois era o perigo mais real do que possível de uma fuga clandestina e que, afinal, agora estava ali bem estampada naquele fatídico e malfadado tiroteio.

Ao chegar ao sítio da canada que encimava a Tronqueira, já quase no Mimóio, desfizeram-se as dúvidas por completo. Dali ela via tudo e o cenário era bem real: a uma pequena distância da Baixa Rasa, um enorme bergantim, todo branco, com três altíssimos mastros e velas triangulares, aguardava uma pequena chata que momentos antes saíra do Rolo, junto à Ribeira das Casas, carregando homens e barris de água. A lutar contra os socalcos das ondas provocados pelo contínuo ricocheto dos projécteis na água, numa frustrada fuga, a chata era contínua e permanentemente alvejada por tiros emanados pela guarda costeira do Forte do Estaleiro cruzados alternadamente com outros vindos do Castelo da Ponta. Alguns homens já se haviam atirado à água e, ora mergulhando, ora vindo á tona para respirar, lá se iam esquivando ao desfechar contínuo das balas, por vezes incerto, dos azougados artilheiros. A ordem era atirar a matar.

Júlia, numa aflição inexaurível e num sofrimento terrífico, assistia a tudo lá de longe, do alto do Mimóio, no escuro da noite, apenas clarificada momentaneamente pelo fulminar contínuo da pólvora, sem poder fazer nada ou coisa nenhuma. Assistia impotente e dorida, aquele terrífico e dramático espectáculo. Apenas uma certeza: o seu António estava ali e havia de se salvar.

No meio daquela aflição desmedida e daquela agonia inexaurível uma pequenina e ténue réstia de esperança trespassou-lhe o peito, dulcificando-lhe, momentaneamente, a dor e espevitando-lhe, como em sonho, a alegria: um vulto negro aproximava-se do bergantim e, agarrando-se às grossas escadas de corda que lhe atiravam para o mar, num ápice saltava a amuara da embarcação, onde se refugiava definitivamente. Pouco depois o bergantim voltava-se e zarpava para Oeste. O seu António estava salvo!

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publicado por picodavigia2 às 20:58

WALKING TO PEDRA D´ÁGUA

Quinta-feira, 29.08.13

Caminhavam num silêncio contínuo, persistente e inquietante. Era como se a manhã ainda permanecesse uma madrugada escura, sem o canto dos pássaros e sem o desabrochar perfumado e colorido das flores. O destino não estava linearmente bem definido mas a vontade de encontrar e desfazer sombras perdidas e enigmas mistificados era segura, confiante e destemida. O trajecto, quer fosse por ali, quer fosse por outro sítio qualquer, era o menos importante.

A Pedra d’Água era um bom justificativo, a marca significante duma perplexidade confusa, um miradouro aureolado de mistério, onde a simples esperança do abraço final, infinito e ajustado, se confundia com a vontade escondida de encontrar um destino nascente, vivificante, mas magoado, e, aparentemente, para sempre perdido. Além disso, chegar à Pedra d’Água era demasiado fácil para ele, habituado deste pequeno à sinuosidade inóspita daqueles andurriais e ao descalabro inexaurível daquelas veredas. Havia de ajudá-la quando ela languidescesse entre os canaviais amarelados que atabafavam a rudeza rebelde dos campos circundantes. Havia de ampará-la se ela resvalasse nos seixos que, soltos, engrandeciam a irregularidade sinuosa e áspera das veredas. Haviam de comungar, na subida daquele emaranhado de degraus e na irreverência desoladora dos atalhos, suspiros de perplexidade, gestos de encorajamento recíproco, palavras destruidoras da indiferença a gerarem alento, sonho e magia e talvez trocassem até um leve, simples e intencional roçar de ombros. Na complexa arduidade da subida haviam de encontrar o bálsamo purificante da ajuda mútua, no incómodo dorido do rastejar, sentiriam o bafo perfumado da tolerância há tanto desmistificada e no arrastar cansativo das passadas, haviam de pressagiar uma pequena nica, que fosse, do manto ternurento e sedutor que já haviam tecido, com as malhas condicionantes da sua imaginação.

O Calhau das Feiticeiras, encastoado a meio do percurso, consubstanciava mitos, perplexidades e inquietudes, mas convidava, no sopé, a um repouso gratificante e auspicioso a que se seguiria uma enigmática e perturbante explicação: elas, as demoníacas feiticeiras escalonavam o arrogante e temeroso tufo, dia e noite, para cima e para baixo, para baixo e para cima, carregando os facínoras, os déspotas, os traidores e atirando-os por ali a baixo, a eles e a todos aqueles que, em vida, haviam praticado o mal como alternativa ao bem. As marcas dos pés das malditas, estampadas ao longo de todo o enorme calhau, eram a prova de que elas não se aquietavam. Tanto subiam, tanto desciam e tanto carregavam, que o tufo, apesar de pétreo, fora cravejado de estigmas que anunciavam a contumácia de tão inebriantes personagens… tão dolentes e tão sofridas, como que a profetizarem o descalabro desagregado de toda aquela subida.

E a Pedra d’Água ainda não era ali. Mas agora eclipsara-se o desaguisado tormento da subida e a perturbante inquietude da sinuosidade. A vereda seguia rectilínea e sagaz por entre o emaranhado de paredes construídas com pedregulhos ásperos, aqui e além forrados de musgo aveludado, sobre um chão tisnado com uma passadeira verdejante, perfumado de funcho, rosmaninho e madressilva, numa audaz e sublime glorificação das glórias imaginadas e dos triunfos que não se conjugam com a indiferença.

Finalmente a chegada triunfante ao pináculo da sublimidade! Uma vista a prolongar-se por horizontes infinitos, insondáveis e indefinidos e o cume envolto num nevoeiro, branco mas aureolado de sombras cinzentas, confusas e ligeiramente sinistras. Depois a descida, emersa num entardecer, demorado, lento e teimosamente agarrado a uma enorme segurança de que tudo havia de renascer e repetir-se.

 

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publicado por picodavigia2 às 21:29

A FONTE

Quarta-feira, 28.08.13

Quando eu era criança, em minha casa não havia água, a não ser a da chuva, que penetrava por um ou outro buraco existente no telhado, ou pela janela da sala, quando, por esquecimento, a deixávamos aberta e o vento soprava de oeste. Para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para se passar um pingo de água nos olhos pela manhã e limpar as ramelas, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha era preciso ir buscar água à fonte, tarefa de que, lá em casa, eu era incumbido vezes sem conta.

Mas eu adorava ir à fonte, pese embora muitas vezes tivesse que o fazer carregando, dois pesadíssimos baldes de madeira cheios de água. A minha sorte e fortuna era de que a fonte, para além de ficar perto da minha casa, nunca secava, tinha sempre água fresquinha, sempre a correr, sempre a jorrar, sempre a respingar sobre o pedestal onde se colocavam os baldes, sempre a perder-se por entre pedregulhos e esgotos, sempre disponível para que eu, quando ali fosse, enchesse os baldes e saciasse a minha sede.

Na realidade eu ia à fonte, muitas vezes. Umas, para encher, até transbordar, o vasilhame que transportava vazio e que, no regresso, teria que carregar bem cheio e pesado, outras apenas para locupletar-me naquele manancial de frescura voluptuosa, deslumbrante e infinita. O ir à fonte era um vai e vêm contínuo, frenético e fascinante, apesar de cansativo e perturbador. É que da fonte, para além do fiozinho que, permanentemente, corria ténue e transparente, emanavam eflúvios sibilantes, provinham súplicas desfeitas, exalavam sonhos de nostalgia e perfumes de transparência. Na verdade, eu sentia que a fonte, com o seu fiozinho cristalino e diáfano, também derramava murmúrios estranhos, ora perdidos entre os musgos esverdeados da peanha, ora suspensos das abóbadas de cimento esbranquiçado que a rodeavam e protegiam. A fonte, com o seu murmurar silencioso, contínuo e permanente, desfazia dissabores, solidificava vivências e permitia que as sombras enigmáticas e confusas do devir, se transformassem em sonhos de magia, em perplexidades inebriantes, em arrebatamentos sublimes e transcendentes.

Um dia a estrada passou por ali., no sítio onde existia a fonte. Nas casas, incluindo a minha, agora, já havia água em abundância, mesmo que as janelas estivessem fechadas e as telhas quebradas tivessem sido substituídas. Entenderam os arquitectos e construtores da nova e larga estrada, que a fonte estava a mais, já não era necessária ali, porque água, havia muita por todos os lados e até dentro das casas. Mudaram-lhe o destino, aqueles imbecis, insensatos e inconscientes. Estes arquitectos e os próprios construtores da estrada, afinal, não sabiam ou não queriam perceber ou entender, que para além daquele fiozinho de água, da fonte também corria um manancial de sublimidade, de ternura e de envolvimento de pessoas. Desconheciam que a fonte também era um lugar de encontros, de vivências, de suspiros e, por vezes, de tormentas, que a fonte era um sortilégio quase metafísico, um abrigo de tempestades e intempéries, um recurso permanente a encontros e fascinações.

A fonte desapareceu! Agora apenas ficou uma outra no cimo da Rocha, lá bem no alto, mas sempre com o seu fiozinho ténue, cristalino, diáfano e transparente. A fonte agora está embutida no alto de um monte, altivo e abrupto, difícil de escalar, perdida entre as brumas adormecidas, dispersa entre o emaranhado aflitivo das madrugadas, suspensa no espectro multicolor do arco-íris. A fonte que os imbecis arquitectos e estouvados construtores da estrada não puderam destruir!

Mas mesmo longe, distante, encastoada nos andurriais escarpados da Rocha, ainda vou à fonte, como ia tantas vezes outrora, quando a fonte ficava mesmo ali, ao lado da minha casa. É verdade que já não acarreto baldes e baldes à abarrotar de água para cozinhar, para lavar a roupa e a casa, para passar um pingo de água nos olhos pela manhã, para fazer o café da madrugada, para dar de beber às galinhas e ao porco e até para limpar as tetas das vacas antes da ordenha, nem sequer para matar a sede. Agora apenas vou à fonte saborear o perfume adocicado daquele fiozinho suave, cristalino, diáfano e transparente antes que ele, jorrando dia e noite, bem lá do interior da Rocha, se perca por completo, ao cair, solitário, entre os socalcos pedregosos.

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publicado por picodavigia2 às 08:29

A LAVADEIRA

Domingo, 25.08.13

Todas as manhãs, quando ainda bem tisnadas de escuro, lá ia ela, Fontinha acima, cesto de vimes brancos a abarrotar de roupa à cabeça, braços em arco, as mãos amparadas nos quadris e o corpo num baloiço contínuo, inseguro, e desusado mas elegante, arrebatado e transcendentemente sublime. Vestia blusa de flanela branca e saia de chita avermelhada, lenço amarelado, de “clafate”, a deixar sair, na frente, duas madeixas de ouro encastoadas no mármore da testa. Meia de algodão níveo e galochas de madeira a batucar sobre a calçada – ploc, ploc, ploc, - despacha-te moçoila, não que seja tarde, mas é preciso chegar a tempo de me assenhorear do meu lavadouro – ploc, ploc, ploc – que se as outras chegam primeiro, lá fico eu “a ver navios”.

A tia Almerinda, postada à Fonte Velha, à espera de alcovitices e de que a bilha se enchesse de água, bem pedia conversa. Não senhora. Novidades?! Não as há, nem as sei! Era o que me havia de faltar, a esta hora da manhã, a dar conversa a umas e a outras. Sim, porque agora era a tia Almerinda, mas depois havia de ser a Ana Benta, a senhora Floripes, a Lídia do Caetano e todas as que havia de encontrar até à Ribeira, sempre ávidas de tudo querer saber, sempre desejosas de se meterem na vida de uns e outros – ploc, ploc, ploc - que não há tempo para conversas com ninguém. É preciso chegar cedo a casa. Depois da Ribeira, ainda há o pai na Cabaceira, a ceifar, a cavar, a sachar - todo o santo dia, meu Deus - à espera que ela lhe leve um bocado de pão, uma nica de queijo e um bule de café, a mãe doente, impedida de sair de casa e a avó acamada - ploc, ploc, ploc – depressa, mais depressa, rapariga. Que a vida não se compadece com demoras. E ele, o lavadouro da Ribeira, à espera.

Chegou ao Alagoeiro, já o Sol quase raiava por cima da Rocha. Tanto que lhe custava passar por ali. Se houvesse outro caminho para a Ribeira… Mesmo que fosse mais longe… Evitava, definitivamente, encontrar aqueles bisbórrias – uns bananas - sempre ali sentados à espera de nada, sempre a segui-la com olhares maliciosos, sempre a mandar-lhe bocas infames, sempre a verberar indignidade e malícia. Bem avolumava o batucar das galochas na calçada, a ver se abafava os grunhidos daquela corja - ploc, ploc, ploc – mas até parecia que o bater mais forte do sapateado lhes espevitava a concupiscência. Sempre uns mal-educados, uns canalhas, uns inconvenientes e a Ribeira ainda distante – ploc, ploc, ploc – que é tarde, muito tarde.

Depois de subir a Fontinha e ultrapassar aquele martírio do Alagoeiro, o caminho era mais fácil, ninguém lhe aparecia, ninguém a importunava, coisa nenhuma fazia com que se atrasasse, sempre com o cesto da roupa suja à cabeça, agora mais ligeira e expedita – ploc, ploc, ploc - que a Ribeira é já ali, a seguir àquela curva. Ela é a primeira a chegar e o seu lavadouro eleito, preferido e desejado, já ali está, postado entre as margens do açude, à espera dela. Felizmente, ninguém o ocupara.

A água caía da Rocha, em cascatas, sussurrante, transparente e cristalina, misturando-se com o verde dos socalcos e andurriais. Depois de cair no chão, deslizava suave e sibilante, na direcção do mar, por ténues e esguios veios, formando aqui e acolá pequenos lagos, onde cresciam agriões, prosperavam inhames e floresciam nenúfares e, depois, corria célere até se desfazer e transformar num enorme açude, ladeado de pedregulhos tingidos de limos esverdeados, e de pedras rectangulares, verticalmente encostadas às margens, umas a imitar represas outras a servirem de lavadouros, como se fosse um gigantesco e arquitectado tanque. Há muito que escolhera aquele lavadouro e o elegera como seu. Ao redor as relvas e campos separados por beirais de álamos, faeiras, vimes e salgueiros verdejantes, o tilintar solene das campainhas das vacas, o saltitar perplexo e atribulado da passarada dos salgueiros para os álamos, dos álamos para as faeiras, na mira de acasalamentos. E a roupa já toda encharcada na água fresca e transparente, a desfazer-se do vidrado matinal que a quietude da madrugada edificara.

E o seu lavadouro ali mesmo, à sua espera. Já se afeiçoara a ele, já o adoptara como seu, já se ajoelhara a seu lado e agora, ensaboando a roupa, ia esfregando na face áspera e rugosa daquele rígido pedaço de basalto, peça a peça, num frenético vaivém que lhe sacudia o corpo, lhe exercitava os braços e até deixava antever, por entre o desabotoar desalinhado da blusa, uma nesga marmórea do peito. Chegavam outras e depois outras e ainda mais algumas. Como ela, também despejavam, ali, no açude a sujidade inteira do dia anterior, de outros dias e de muitos dias. Mas nenhuma como ela tinha o seu lavadouro preferido, afeito, conquistado com o desvelo inebriante do despertar das madrugadas, ainda tingidas de negro e que lhe transformava a roupa, tornando-a mais limpa, mais branca e mais perfumada do que a de todas as outras lavadeiras.

Já é tarde, mas o cesto de vimes brancos enche-se, agora, de roupa lavada, fresca e perfumada! São horas de andar. O pai espera-a, cansado faminto, atulhado de canseiras e trabalhos na Cabaceira. E a mãe há-de achar que demorou uma eternidade – ploc, ploc, ploc – a descer a Fontinha.

E o ritual da lavadeira – ploc, ploc, ploc – há-de repetir-se no dia seguinte. Todas as outras manhãs, continuará a subir a Fontinha – ploc, ploc, ploc – cada vez mais rápida, cada dia mais veloz, na ânsia de chegar a tempo, para que ninguém lhe retire o seu lavadouro.

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publicado por picodavigia2 às 11:24

A SENHORA D’ALVA

Sábado, 24.08.13

Todas as manhãs a “Senhora d’Alva” aproava ao velho cais, um tapete agreste, rústico e crispado, feito de cimento amassado com areia e misturado com pedregulhos, atirados e colados sobre as pedras negras e virgens do baixio, bem visíveis nos buracos que se haviam aberto com o passar dos anos, com o cirandar das pessoas e com o rolar de pipas e mercadorias. Depois o mar, ali ao lado, com o constante marulhar das suas ondas, umas vezes revolto, agressivo e destruidor, outras meigo e pacato, mas sempre a agastar, sempre a desfazer, sempre a destruir, numa erosão contínua, permanente e afanosa. 

Alheia às asperezas e desgastes do cais, a “Senhora d’Alva” cruzava o oceano, sulcando as suas águas, umas vezes bravas e altivas, outras mansas e suaves, mas sempre tingidas de um azulado enternecedor, a embalá-la com um misto de afeição e suavidade. Carregava sobre si homens, mulheres, velhos e crianças, uns emaranhados nas tarefas do seu labutar quotidiano, outros encastoados nos caprichos de devaneios e lazeres, mas todos a alcandorarem-se num enlevo maravilhoso, num encanto sublime, num êxtase transcendente. A “Senhora d’Alva”, ao rasgar as águas azuladas do oceano, carregava consigo, à mistura com o feitiço das madrugadas, a magia sublime de um navegar mavioso, deslumbrante e enternecedor. 

Depois e já encostada ao cais, prendia-se a ele como se não tivesse medo. Os velhos e enferrujados moitões, ali plantados há séculos, abraçavam-se a ela, seguravam-na nos seus grossos cabos, roçando-os nos beirais agrestes e nas escadas desgastadas, num vaivém embalador, contínuo e mavioso. Homens, mulheres, velhos, jovens, crianças e até alguns doentes, viajando em macas ou em cadeiras de rodas, evaporavam-se pelo portaló fora, como se o entardecer do mundo inteiro os estivesse a perseguir. Depois era um evadir-se de malas, caixotes, sacos, encomendas e mercadoria diversa. Uma miscelânea de recursos! Uma enchente perplexa que urgia esvaziar. A “Senhora d’Alva”, só, vácua, triste e plangente, emitia sons de sirene, magoados, esbaforidos, que se prolongavam como que em eco e se perdiam sobre o cais, mas logo, sedenta, querençosa e desdenhada, abria-se a abrigar, em nova enchente, os que até então, ali se a haviam postado, à espera de um novo lamento de partida.

E lá ia, noutro recortar de águas, noutro embalar de sonhos, noutra aurora de encantos, noutro desgaste de trabalhos e canseiras. E o mar sempre ali, a seu lado, a bafejá-la com o seu sopro, a acariciá-la com a simulada agressividade das suas ondas e, sobretudo, a encorajá-la com a extravagante força de segurar e prender o seu destino, muitas vezes, cerceado pelas nuvens ou desfeito pelo vento.

Um dia, porém, os homens decidiram que o destino da “Senhora d’Alva” havia de se alterar. Agora atirada, dias e dias a fio, para terras distantes, para mares longínquos, esquecia o velho cais, só o demandando, quando a abarrotar de pescado, sob as ordens de uns marinheiros desconhecidos e estranhos, de calças de cotim arregaçadas pelo joelho, chapéus de palha a contrariar o vento, Urgia aliviar-se e, por isso mesmo, agarrava-se a um cais deserto e abandonado, sem homens, sem mulheres, sem velhos e, sobretudo, sem crianças. Era apenas um patamar seco e árido, sem vida, sem emoção e sem deslumbramento.

Não durou muito este martírio doloroso, apesar de decalcado de esperança inútil. A “Senhora d’Alva”, hoje, jaz em terra, distante do cais, do seu fadário quotidiano, separada daquele mar de ondas bravias mas azuladas, de espuma enfadonha mas adocicada que durante anos a fio lhe traçou as rotas e lhe norteou um destino gratificante, complacente, mavioso e sublime.

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publicado por picodavigia2 às 17:57

A ENXOTADEIRA DOS TENTILHÕES

Sexta-feira, 23.08.13

O pequeno cerrado que o senhor Ambrósio possuía na Assomada, geralmente, não era “trilhado” pelo gado. Como era uma terra forte, soalheira e abrigada do vento, o trevo, ali semeado por entre o milho já espigado, havia de ficar para a semente. Mas o diabo era a passarada. Quando as espigas amadureciam e se tornavam loiras, acinzentadas, à espera que secassem e ficassem prontas para a apanha, bandos e bandos de pássaros, demandavam-no, fustigados pela fome, debicando aqui, escarafunchando acolá, dando cabo de tudo. Um estrago enorme, um prejuízo incalculável, uma catástrofe descomedida, um dano que era imperioso evitar.   

De toda a passarada que, aos poucos, ia depenicando, destruindo e dando cabo das espiguitas que, firmes e hirtas, aguardavam a hora da apanha, a fim de serem guardadas em sacos de serapilheira e ficarem à espera da sementeira do próximo ano, os piores, os mais atrevidos, os que mais comiam e destruíam eram os tentilhões. Biquitos sempre abertos, escorraçados das terras negras e vazias de sementeiras ou acossados das matas pelas ventanias outonais, ali estavam eles, os marotos, acaçapados sobre as paredes, nervosos, a cantarolar para esquecerem a fome, à espera da primeira oportunidade para atacarem massivamente as pobres e indefesas espigas, levemente ondeadas pelo vento, mas bem secas, adocicadas e apetitosas. Os machos eram mais coloridos, com uma coroa azul-acinzentada no cocuruto, a face, peito e barriga de cor vermelha pálida e um manto escuro a cobrir-lhe o dorso e as asas e, distinguiam-se muito bem das fêmeas e dos juvenis, mais pequenitos e com a cabeça e o manto de tons castanho-oliva e o ventre claro. Depois de cheias as barriguitas era um chilrear contínuo, um desassossego alvoraçado, um esvoaçar de um lado para o outro, cruzando os ares em bailados sublimes, em cânticos maviosos, aconchegando-se nos seus afagos amorosos.

O senhor Ambrósio é que não ia nos ajustes. Sempre que por ali passava, enxotava-os, insultava-os, caluniava-os, chamava-lhes nomes e ameaçava-os de que havia de dar cabo deles todos, havia de pilá-los um a um, aqueles malditos, aqueles imbecis, aqueles destruidores da propriedade alheia. Missão impossível, a do senhor Ambrósio, porque, mal virava as costas, os marotos voltavam à safra, a depenicar por aqui e acolá, limpando as espigas de uma ponta a outra.

Nada mais podia a fazer, pensou o senhor Ambrósio, do que pôr-lhes lá uns espantalhos. Muniu-se de canas, de atilhos, de trapos velhos que abundavam lá em casa e toca a amarrar as canas em cruz e a revesti-las com calças, camisas, casacos e lenços de merino, tudo velho e em desuso, mas a simular perfeitas mas estáticas criaturas humanas.

Mas depressa se aperceberam os atrevidotes dos tentilhões de que aquilo era embuste. Quedos e mudos, aqueles figurões podiam ali estar o dia todo que nunca os haviam de incomodar, nem muito menos os impedir de encherem o papo e de se regalarem com tão farta comezaina. O senhor Ambrósio, no dia seguinte voltava à terra e a desgraça ainda parecia maior e a perda mais avassaladora.

Não se dando conta de que havia outro meio de salvar as suas sementes de trevo, o senhor Ambrósio decidiu-se por mandar para a sua terra, a filha, a Josefina, moça esbelta e bonita, mas muito meiga e mais afeita às lides domésticas do que aos trabalhos do campo. De início manifestou decidida recusa, mas perante a insistência autoritária do pai, teve que anuir.

E lá ia, todas as manhãs, Assomada acima, tristonha mas airosa, contrariada mas elegante, revoltada mas graciosa, de varinha na mão, cestinha no braço, disfarçada de “enxotadeira”, na demanda dos tentilhões da terra da Assomada.

Num dos primeiros dias, porém, deparou-se, logo à entrada do terreno, com um tentilhãozito muito pequenino, atirado para o chão, de papo para o ar, a tremer de frio, quase inerte. De certo, que se o não ajudasse, o “piauzinho” havia de morrer. Pachorrenta e cuidadosa, meiga e ternurenta, fez-lhe ali mesmo, na aba duma pedra, um pequenino linheiro, com algumas folhas retiradas do restolho. Aqueceu o infeliz passarito nas suas mãos, bafejou-o com o seu hálito e mimou-o com um carinho excessivo e um afecto desmesurado e, colocando-o no ninho, ia apanhando pequeninos bagos de trevo que lhe enfiava pelo biquito aberto, esfomeado e impertinente. Já farto, o petiz arrebitou e adormeceu. Josefina retirou-se, velando-o de longe. Não tardou muito. Um casal de tentilhões veio, timidamente, poisar nos arredores e, saltando de pedra em pedra, de espiga em espiga, foi-se aproximando do pequeno linheiro, onde o tentilhãozinho dormia sossegado e tranquilo, ao mesmo tempo que um bando de tentilhões, sobrevoava em revoada, entre cânticos e danças, a paraninfa de um dos seus semelhantes. Até parecia que estavam a agradecer-lhe!

O pior foi que, no dia seguinte e para espanto seu, o senhor Ambrósio concluiu que afinal, mais nada havia a fazer, pois os malditos dos tentilhões ainda maior prejuízo lhe haviam dado no trevo que ele com tanto esmero cultivara e cujas espigas pretendia guardar para semear, no ano seguinte.     

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publicado por picodavigia2 às 19:17

GAZELA

Quinta-feira, 22.08.13

Os suspiros matinais eram um estorvo, um empecilho, dir-se-ia uma espécie de sufoco atiçado ao vento, sem convicção, sem vivacidade e sem comprometimento. Uma espécie de martírio, mas um martírio gratificante, sensível e bem delineado. No horizonte perplexo e indefinido, apenas e somente, uma gazela, uma gazela sem asas, mas veloz como o vento e rápida como o pensamento. Corria deslumbrante e perturbadora, nas madrugadas ainda pouco clareadas, por vezes sem luz, muito antes de nascerem aqueles suspiros sufocantes, estilhaçados, a tingirem-se de pranto, a perfumarem-se de temeridade, imersos, definitivamente, numa estranha e perversa mortalha de perplexidade. Gazela das madrugadas, a deslizar por veredas inverosímeis, por ruas desertas, a açular-se em enigmas perfumados, sibilantes, loiros, a provocar encantos maviosos e a verter murmúrios silenciosos, disfarçadamente suplicantes. Mas o arfar das madrugadas era dolente, aflitivo, quase aniquilador.

Depois, a gazela das madrugadas escuras entrava na floresta, ora ocultando hesitações ora lançando-se em êxtases céleres, a sulcar as veredas sinuosas, onde vento soprava com uma intensidade intempestiva, desfazendo neblinas, solidificando sentimentos, imergindo-se em metamorfoses e suplícios, libertando anseios tempestivos. Cada vez mais veloz e voadora, a gazela! Gazela das árvores floridas, dos pântanos a abarrotar de folhas de nenúfar, dos caminhos ermos com as paredes enegrecidas pelos sonhos incoerentes das nuvens, correndo junto às margens de um rio de águas cinzentas.

Perdia-se na floresta, a gazela dos encantos repressivos, mesmo sabendo que o rio estava ali ao seu lado, que podia navegar nas suas águas, caminhar ao longo das suas margens, atravessar as suas pontes, talvez mesmo ouvir o cantar sibilante e dolente das árvores circundantes. Mas limitava-se apenas a atravessar a floresta, veloz como o vento e rápida como o pensamento, esta gazela com o destino preso por um sufocante raio de luz.

Gazela sem rio, sem floresta, sem árvores, sem ruas mas a abarrotar de desejos indefinidos, de aspirações misteriosas, de vontades inexpressáveis!

As madrugadas não eram contínuas, nem sequer sustentáveis mas tinham o sabor acre das noites claras, possuíam o perfume amarelado dos arraiais em festa e alvejavam-se em ondas sonoras de sentimentos adormecidos.

Gazela intrépida e voadora, gazela dos desertos e das cavernas, das florestas e dos bosques, dos rios e das madrugadas. Incoerente, altiva, corajosa, ousada e afoita! Gazela sem medos, sem receios, cuidando que o destino nunca havia de lhe cravar as garras implacáveis, funestas e aniquiladoras.

Mas um dia nefasto, incongruente e destruidor, chegou! Gazela ferida, presa, sem destino, atingida pela crueldade, a cercear os inesgotáveis encantos das suas velozes corridas pelas madrugadas e a confundir e a aniquilar, para sempre, os inesgotáveis e inconsequentes suspiros matinais.

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publicado por picodavigia2 às 09:14

ELOGIO DA LAVA

Quarta-feira, 21.08.13

O Pico, visto de repente e no Inverno, parece um respingue de lava, atirado à toa, para cima do Atlântico. Outrora lava vermelha, incandescente, fumegante e destruidora, mais tarde negra, inturgescida, basáltica e besuntada de enxofre, agora aureolada de verde, benéfica, produtiva, atraente e perfumada de mosto e de salpicos de maresia.

Mas ontem como hoje, esta lava é uma espécie de sangue negro, fecundo e vigoroso, derramado sobre um chão pétreo e consistente, que o alimenta, o tonifica e o transforma em vinhedos, em campos de milho, em pastagens ou em encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto que o vão atapetando do sopé até ao cume, onde, umas vezes, escorrem flocos calcificados de gelo, outras fragmentos caramelizados de neve, e onde sopra sempre um vento destemido, mesmo violento, mas com um ar enternecedor de benfazejo, sobretudo quando acompanhado pelo suave lacrimejar do orvalho acariciador das madrugadas.

A lava é vida neste Pico. A lava é esperança neste mar. A lava é crença deste povo. A lava é suco generoso, é chão amigo. A lava é uma espécie de bálsamo tonificante e fertilizador, que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, destruição em recompensa, o deserto em abundância, o nada em tudo.

A lava, nascida bem lá no fundo da Terra, sobe à tona e alastra por aqui e por além, cobre tudo, verte-se em torrente sobre este chão e nele desliza como se fosse um rio gigantesco e negro, a arfar de desejos inexperientes, sem pontes, sem açudes e a perder-se por entre andurriais angustiantes, a entrincheirar-se entre margens de suplício. Mas um rio cheio de esperança contagiante, a abarrotar de alegria inocente e pura, a transbordar de madrugadas sonhadoras.

A lava do Pico é um rio de espuma incandescente, a deslizar por entre pedaços de chão rachado, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a perder-se, como que envergonhado e tímido, no meio de um oceano de desejos indefinidos, transformando-se em gigantescas marés de graça, de solenidade e de ternura

E a lava negra deste Pico, ontem vermelha e destruidora, transformou-se, por mãos calejadas e dolentes, num gigantesco e pétreo manto verde de esperança.     

 

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publicado por picodavigia2 às 16:55

A MADRINHA

Segunda-feira, 19.08.13

O caminho entre a Assomada e as relvas dos Lavadouros, que ele percorria quase diariamente, era longo, silencioso e sombreado, em grande parte, por árvores enormes, gigantescas, com copas esverdeadas a verterem murmúrios, sobretudo quando assoladas pelos ventos do Norte. E então com uma lesma daquelas que era a Formosa, já velha e alquebrada, a arfar, a soluçar hesitações, a dirimir escorregadelas e a distanciar-se, cada vez mais, da Lavrada e da gueixa alfeira que seguiam lá na frente, céleres e expeditas. Uma infinidade de tempo! Dava para pensar, para imaginar, para sonhar. Por vezes, até se sentava nos degraus do portal duma horta ou nas bancadas dum descansadouro. A Formosa, então, feliz, parava, resfolegava, escorria baba pela boca e estancava muda e queda que nem um calhau. As outras lá na frente a lambiscar em maroiços e a aguçar os chifres nos tufos das paredes e a molengona ali parada que nem uma estátua.

Mas era sobretudo no regresso, quando sozinho, que se sentava sobre as paredes das relvas da Alagoinha, a escutar o sibilante murmurar do vento no denso arvoredo da rocha, a ouvir o canto dos melros a saltar de “faeira” em “faeira”, que o Crisma não lhe saía da cabeça. O pároco já havia anunciado, na igreja. Qualquer dia o bispo estava aí. A Dona Florinda, a catequista, já lhe enchera os ouvidos “A Confirmação ou Crisma é um sacramento muito importante, faz de nós soldados de Cristo.” Nada disso, porém, lhe interessava. Não pretendia ser soldado de Cristo, nem de ninguém. Queria crismar sim, queria mesmo muito crismar, mas simplesmente para ter uma madrinha, que ele próprio já escolhera.

Na realidade, desde há muito que se afeiçoara à Laura e agora tinha por ela um grande amor, uma espécie de paixão infantil e inocente, pese embora ela fosse bastante mais velha e, além disso, já estivesse comprometida. Havia de casar por procuração com o bisbórrias do Deodato que a abandonara, partindo para o Canadá.

A Laura era sua vizinha e, por isso mesmo, com ela convivera desde miúdo. Agora porém outro galo cantava. Já era um homenzinho, começava a perceber que o mundo era composto por homens e mulheres. Inicialmente, sentira por ela um carinho muito estranho, depois uma amizade estonteante e agora uma atracção quase louca, mas inocente. A Laura não lhe saía do pensamento. Ela contribuíra para isso. Todas as tardes vinha sentar-se na escadaria do seu pátio, sozinha, a bordar. Inicialmente, apenas parava quando por ali passava, para a cumprimentar. Um dia, porém, ela convidou-o a subir, a sentar-se, um pouquinho, junto dela. Falaram, conversaram, riram, contaram histórias e ela até encostou o seu corpo ao dele, ombro com ombro. A partir daí eram tardes e tardes inteiras, com o povo a murmurar. Que murmurassem, que pouco lhes interessavam mexericos! A Laura, que até já exigira que a tratasse por tu, não lhe saía da cabeça. Queria-a para si e, na sua inocente intenção, só o poderia fazer de uma única maneira: convidando-a para sua madrinha do Crisma.

Do Baptismo tinha padrinho e madrinha, mas era como se os não tivesse. O primeiro pisgara-se para a América e nunca mais lhe ligara. Nem um canivete! A madrinha, uma chata, sempre a implicar com ele, sempre a recriminá-lo, a condená-lo, descontente com tudo o que fazia. Parecia que o odiava. Havia de vingar-se agora no crisma, escolhendo uma madrinha com jeito, uma madrinha às direitas, uma madrinha que gostasse dele, que o amasse como ele a amava.

Um domingo, depois da missa, o pároco anunciou, sem rodopios, aos que iam crismar: “Os rapazes escolhem um padrinho e as meninas, uma madrinha.”

Ficou lívido, mudo e tresloucado! Um padrinho?! Encheu-se de coragem e indagou: “Porquê um padrinho? Não posso escolher uma madrinha?”

A resposta do prebendado foi clara, decisiva e misturada com alguma repreensão: “Que nem pensasse nisso! Que tivesse juizinho! Eram as normas da Santa Madre Igreja, que nem sequer se podiam discutir, porque o Papa era infalível. Sempre fora assim e sempre havia de ser.”

Revoltou-se, insurgiu-se e até decidiu que não havia de crismar. Mais se indignou, porém, quando, ao chegar a casa, o pai lhe atirou à cara, de chofre: “Vais convidar o senhor Costa para teu padrinho do Crisma. Devo-lhe muitos favores, além disso, é um homem bom, honesto e rico. Ser afilhado dele é uma honra.”

Sem alternativa, com uma fúria desmesurada, foi despejar toda a mágoa e toda a dor no regaço da Laura, que, sorrindo docemente, lhe acariciava o rosto amaciado pelas lágrimas. E baixando o seu corpo sobre o dele, como se o fosse beijar, sussurrou-lhe docemente: “Os nossos padrinhos ou madrinhas do Crisma são quem nós queremos. Eu vou ser a tua madrinha.”

E no dia do Crisma, quando o sucessor dos Apóstolos, de mitra na cabeça e báculo na mão esquerda, lhe desenhava na testa, com o polegar da direita embebido em óleo perfumado, uma cruz, ele sentiu uma mão estranha no seu ombro. Voltando-se, de soslaio, viu, logo ali na primeira fila da frente, a Laura a acenar-lhe, afirmativamente. Sentiu, então, que aquela mão que pousava sobre o seu ombro era precisamente a dela, a da Laura, a sua madrinha do coração.

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publicado por picodavigia2 às 10:42

A GROTA DE TAÍCA

Sábado, 17.08.13

Uma das mais pequeninas, insignificantes e desconhecidas grotas, de quantas caíam em catadupa pelos andurriais escabrosos da rocha, despejando as suas águas frescas e cristalinas sobre as relvas e campos circundantes àquele alcantil escarpado e abrupto, tingindo-os de verde, de galantaria e de abundância, era a grota de Taíca.

A origem deste topónimo, segundo a opinião mais comum e mais generalizada, deverá, naturalmente, procurar-se na sua nomenclatura primitiva, o que, provavelmente, muito terá a ver com o nome “Tia Anica”, personagem mítica e lendária que naquele recanto terá vivido ou, pelo menos, com ele terá estado intimamente relacionada, tal qual como uma outra Ti’Anica, a de Loulé. O povo, no entanto, com a sua original e espontânea capacidade de simplificar e abreviar os nomes, depressa transformou a grota de “Tia Anica” em grota de “Tanica”. Daí a grota de “Taíca”, foi um ápice. Uma evolução fonética popular e simples que não desdiz em nada a essência, não belisca a beleza, nem contraria as virtualidades da referida grota.

A grota de Taíca, apesar de pequena, encoberta e pouco conhecida, era de uma beleza rara, duma excelência assinalável e duma singularidade sem par. As suas águas eram límpidas e transparentes, o seu deslizar suave e ameno e o seu percurso sombrio e enigmático, porque envolto nas copas dos arvoredos e nos mistérios dos rochedos que a rodeavam. Ao longo do seu exíguo trajecto, havia lagos pequenos, mas claros e brilhantes, a reflectirem o espectro das encostas sobranceiras, o verde das folhas das árvores e, por vezes, a bifurcarem-se em minúsculos regatos, cujas águas se perdiam por entre veredas e atalhos. Nas suas margens floresciam arvoredos a abarrotar de copas e folhas, verdes, amarelas, lilases, carregados de murmúrios e de perfumes de outonos, que conferiam à sua água uma frescura leve e adocicada, uma transparência simples e acolhedora. Mas também havia rochedos negros, caiados de musgos, frios, húmidos e latejantes, a abarrotar de silêncios e mistérios.

A meio do seu percurso, porém, a grota de Taíca, alterava o seu deslizar, embrenhando-se entre penhascos, altivos e grotescos que confundiam as suas águas, alienavam a suavidade do seu percurso e lhe transmitiam um desassossego desconfortante e uma ingenuidade desabrida. Mas logo a seguir serenava e, voltava ao seu deslizar de sonho e de magia, serpenteando por entre as sombras das árvores e murmúrios do silêncio, até desfazer-se, junto à foz, em estranhas e múltiplas ramificações que irrigavam campos, alimentavam pequenos arroios, regavam florestas, acabando por perder-se, despejando as suas águas numa enorme ribeira de que a grota de Taíca era um dos mais importantes afluentes.

A grota de Taíca, um fascínio de singularidade a emergir da rocha, um pedaço de transcendências a reflectir o céu, um cordão cristalino e prateado a ornar a terra. A grota da Taíca, um raio aureolado, um fio ténue e cristalino, a irradiar um espontâneo deslizar de águas puras, frescas, inconfundíveis e singulares. A grota da Taíca, um fiozinho de água tímido, hesitante e inibido, a perder-se no ritmo apressado e tempestuoso dos rochedos e matagais, que agitados por ventos, tempestades e intempéries borboletavam ao seu redor, agitando as suas águas puras e cristalinas, desfazendo os seus murmúrios e os seus silêncios, numa persistente tentativa de aniquilar o doce azulado das suas águas e o silêncio sombrio das suas margens.

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publicado por picodavigia2 às 15:34

SANTUÁRIO DE GELO

Quinta-feira, 15.08.13

Alta madrugada! Um cavaleiro, estranho e enigmático, trajando de negro, com um capuz a tapar-lhe a cabeça e a esconder-lhe uma boa parte do rosto, aproximou-se dos muros circundantes de um vetusto mosteiro. Vinha de longe, percorrera praias de areia dourada mas também atravessara oceanos repletos de baixios e escolhos; calcorreara caminhos amaciados com sombras e aureolados com o esplendor das madrugadas mas também enveredara por atalhos sinuosos e tétricos; hospedara-se em cidades modernas, coloridas e cheias de luz mas também vagueara por desertos atulhados de tempestades e nevoeiros. Montava, com audácia e valentia, com garbo e aprumo, um cavalo branco, com selim de prata e arreios de marfim, correndo acelerado em elegante e destemido trote. Dentro do mosteiro havia um santuário e o cavaleiro cuidava que era ali, na sombra e no silêncio, em oração e penitência, em contemplação e clausura que havia de penetrar nos meandros apocalípticos duma sublime transformação. O mosteiro era um enorme edifício, um monumento de rara beleza e excelsa grandiosidade, um cenóbio edificado com excelência e magnanimidade. Rodeado de um alto e portentoso muro, o mosteiro apenas comunicava com o exterior por um robusto portão, a que se seguia um amplo terreiro, com uma escadaria granítica a conduzir à porta de entrada da majestosa e imponente fachada do santuário. Acreditava o cavaleiro que aquele era um santuário de sombras e de silêncios, onde havia de submeter-se ao acto sacramental, à adoração contínua, à iniciação contemplativa e à restauração apocalíptica, na esperança de se redimir e se refugiar da morte ritual. O cavaleiro de negro bateu a aldraba do portão, uma vez, duas vezes, três vezes. De dentro uma voz rouca e, aparentemente, esbranquiçada pediu-lhe a senha. Nem santo, nem senha. O cavaleiro apenas cuidava que dentro daquele lugar de adoração havia sombras e silêncios. Nova investida. Um cavaleiro de bronze, também ali refugiado em clausura, abriu-lhe o portão, indicou-lhe a travessia do átrio e conduziu-o na subida da escadaria granítica, até à porta do santuário, sem proferir palavra. E o cavaleiro trajando de negro, sempre com o capuz a cobrir-lhe a cabeça e a tapar-lhe uma boa parte do rosto, entrou no santuário, na esperança de encontrar silêncios e sombras. Mas no santuário havia apenas uma estátua, aureolada com um diadema de espuma aveludada, surgindo de entre os silêncios e as sombras que o cavaleiro cuidava ver. Tinha na mão direita um ceptro de cristal e na esquerda um livro aberto, onde se podia ler, a letras garrafais; “A percepção é cega e enganadora. O que se vê não é necessariamente o que existe.” Caminhando na direcção do cavaleiro, a estátua tocou-lhe, ao de leve, com o ceptro de cristal, cravando-lhe, na fronte um estigma esverdeado, desaparecendo, de seguida, no meio dos silêncios e das sombras, sem deixar rasto, ao mesmo tempo que o cavaleiro perdia a consciência. Quando a recuperou, percebeu que, afinal, estava num santuário, mas num santuário branco, guardado pelo cavaleiro de bronze e todo revestido de gelo. Afinal naquele enigmático santuário não havia nem sombras nem silêncios, nem ritos sacramentais, nem iniciação contemplativa, nem virtualidades apocalípticas. Só havia gelo. Tudo o que o formava, rodeava, envolvia, amparava, constituía e até iluminava era de gelo. “Se o santuário é de gelo, - pensou o cavaleiro - hei-de envolver-me em espuma, até me congelar. Hei-de assumir como meu, o destino do "Esquife de Gelo", domínio secreto do santuário, onde nenhum outro cavaleiro, mesmo que de ouro, de prata ou outra coisa qualquer, possa nele penetrar. E o cavaleiro de negro refugiou-se, por algum tempo, no santuário, na expectativa de aprender e de dominar as técnicas de domínio, de sobrevivência e de vida no gelo. Mas o seu golpe de congelamento foi de tal modo incurial e extravagante, que provocou uma inesperada rajada de cristais de gelo que, caindo em catadupa, sobre o próprio cavaleiro, o fulminaram mortalmente.

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publicado por picodavigia2 às 17:48

A HORTA DO SENHOR COSTA

Segunda-feira, 12.08.13

HO Senhor Costa tinha uma horta. Tinha uma horta o Senhor Costa. Horta pequena, simples, modesta, singela mas muito fértil e produtiva, porque muito bem trabalhada, extremamente cuidada e ainda melhor zelada pelo Senhor Costa.

Na horta do Senhor Costa havia tudo, mas apenas tudo o que normalmente há em qualquer horta. No entanto, o que mais produzia a horta do Senhor Costa eram frutos. Frutos de várias qualidades, de tamanhos diversos, de formas e feitios diferentes e de sabores diversificados. Frutos coloridos, maduros, apetitosos com os quais o Senhor Costa se regozijava e que faziam crescer água na boca a quantos passavam, caminhavam, rodopiavam e cirandavam junto à horta do Senhor Costa, sem poder lá entrar ou sequer colher um único fruto que fosse. É que o Senhor Costa, para a proteger dos assaltantes, construíra um alto e robusto muro ao redor da sua horta.

O Senhor Costa vivia feliz, com a sua horta. Passava lá os seus dias, não apenas a cavar, a sachar, a arrancar ervas e a juntar pedregulhos mas sobretudo a cuidar das árvores de fruto, a podá-las, a adubá-las, a chegar-lhes terra e estrume e, sobretudo a defendê-la de vendavais e intempéries. Depois, nos dias de bonança, o Senhor Costa sentava-se à sombra das árvores da sua horta, a saborear a frescura reconfortante das suas folhas, a deliciar-se com o perfume adocicado das suas flores, a deleitar-se com o colorido aveludado dos seus frutos ou simplesmente a ouvir o sibilar melódico do vento nos seus ramos.

A horta do Senhor Costa era uma verdadeira maravilha! Um éden, um paraíso!

Mas um dia, o dia mais triste da sua vida, o Senhor Costa, como tantos senhores Costas e muitos senhores com outros nomes, impelido pela necessidade de dar uma vida melhor aos seus filhos, foi obrigado a partir, para longe, isto é, a emigrar para a América. E a horta deixou de pertencer ao Senhor Costa. Vieram senhores Pereiras, senhores Silvas e senhores Machados e vieram senhores com outros nomes, mas nenhum deles cuidou da horta como cuidava o Senhor Costa. E com o passar do tempo e dos anos, na horta dos senhores que não eram Costa, as árvores foram murchando, as folhas amarelecendo, as flores definhando e os frutos apodrecendo. Finalmente veio um Senhor que também se chamava Costa, mas que não era nem parente nem amigo daquele Senhor Costa que no início desta história era o dono da horta, e tão mal cuidou e tanto se desinteressou e tão pouco protegeu a horta que outrora fora do outro Senhor Costa, que ela embraveceu, encheu-se de ervas daninhas, de mondas, de silvados, de cana roca, de faias e de incensos e desfigurou-se de tal maneira que, passados muitos anos, quando o Senhor Costa regressou da sua prolongada estadia na América, podre de rico, já nem sequer reconheceu o local onde outrora se situava a sua horta, a tal horta que tinha sido sua, que cuidara com desvelo e dedicação, que estava sempre a abarrotar de árvores carregadinhas de frutos coloridos, maduros, apetitosos com os quais se regozijava, naqueles tempos e a fazerem crescer água na boca de quantos passavam.

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publicado por picodavigia2 às 16:31

RIO VERDE

Segunda-feira, 12.08.13

O trajecto até ao jardim era curto e sinuoso, mas suficientemente longo e propício a que se quebrasse aquele silêncio estranho, misterioso e angustiante. Ele tentou dar-lhe a mão. Talvez assim recuperasse um gesto, descortinasse um sinal, partilhasse um sorriso ou, quem sabe, até lhe espicaçasse um som, uma palavra. Em vão! O seu estranho alheamento era tamanho, dir-se-ia envolto em tão gigantesca imobilidade, que quase permitia ouvir-se-lhe a respiração e o seu assumido silêncio era tão persistente que parecia perverso.

Agora já bordejavam o vetusto muro do jardim, salpicado de respingos de lama, cravejado de limos e de musgos mas ainda capaz de resistir às investidas de intempéries e salteadores. Finalmente, ela quebrando aquele demolidor suplício: «É aqui! Não percas. São raros os que têm o privilégio de entrar e, sobretudo de comungar, ainda que por breves minutos, esta aparição.»

Tentou, novamente, dar-lhe a mão, dizer-lhe alguma coisa, talvez pedir-lhe explicações, manifestar desejos e confirmar vontades, mas sentiu-se perdido. Nem um olhar afável, nem um gesto de ternura, nem uma palavra de animação, nem, muito menos, uma troca de vontades. Continuava em silêncio, a envolver alheamento, a confirmar indiferença, a expelir mistério, a derrubar esperanças, diluindo-se em enigmas. E o jardim já ali, tão perto, com o portão escancarado, a convidá-lo sem o olhar, a pedir-lhe sem lhe falar, a abraçá-lo sem lhe tocar. «Como é que se pode suportar um silêncio destes e envolver-se em tão estranha indefinição?»

 E o portão, ali mesmo em frente, tão aberto, cada vez mais escancarado… mas a insinuar que havia de fechar-se, em breve, muito em breve…

A manhã crescia a olhos vistos! A cidade, ali ao lado era uma nuvem entontecida, uma torrente de ruídos a destruir aquele estranho silêncio, pintado de verde e salpicado de esperança, de mistérios e de enigmas. Devia ter posto de lado o receio, a hesitação e o medo para, enquanto o portão se mantivesse aberto, poder entrar, ver e sentir aquele estranho universo, sempre a abarrotar de tanto silêncio e de confuso mistério.

Mas era tarde, demasiado tarde e o portão, há pouco aberto, agora de nada lhe servia. Estava a fechar-se. É verdade que, por uma nesga entreaberta, ainda vislumbrou a frescura dos lagos, sentiu o perfume das flores, saboreou o amaciado das pétalas, acariciou a doçura dos frutos e até se emaranhou entre as estranhas sombras das copas das árvores, mas, para espanto seu, ali não era um jardim. Era um enorme, infinito e misterioso rio… Um rio verde, todo verde, traçado pelo fascínio das madrugadas, sulcando planícies desconhecidas, com o leito carregado de correntes imprevisíveis, deslizando suavemente ao sabor de neblinas, de nuvens e do luar, com um enorme e avassalador caudal, porque, na realidade, era bem verde e tinha a sua sina registada nas neblinas, o seu destino escrito nas nuvens e o seu fulgor estampado no luar.

Mas quando chegou a noite, fria e branca, o rio verde desfez-se e desapareceu, deixando atrás de si um rastro de cinza espessa, terrificante, quase déspota, que se apoderou dele, agora a caminhar sozinho, entregue a si próprio, sem silêncio, sem jardim, sem a torrente de ruídos da cidade, sem nada.

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publicado por picodavigia2 às 11:45

PÔR-DO-SOL

Domingo, 11.08.13

Era um velho marinheiro de longas barbas brancas salpicadas de sinuosidade, cabelos soltos e grisalhos a arfarem desejos entontecidos e um rosto petrificado de caligens e nostalgias. O peito, um deserto sulcado de penumbras e enigmas Sentava-se, sem hesitações e devaneios, todos os dias, à janela da sua velha casa, no cimo duma pequena colina, tão distante daquele mar que outrora calcorreara de lés-a-lés, simplesmente a ver o Pôr-do-Sol. A janela ficava voltada para o mar e a casa virada a Oeste. Sentado num enorme cadeiral, ali permanecia horas e horas à espera que o astro rei traçasse a sua trajectória sobre a pequena aldeia, sobranceira à colina e se perdesse no horizonte.

Mas não era apenas o Pôr-do-Sol que cativava a estima, a admiração e a curiosidade do velho marinheiro. Alta madrugada, também se levantava para poder observar os primeiros raios de claridade que rompiam a noite e a iam transformando em madrugada. Mesmo sem ver o Sol, mas sentia a presença inequívoca dos seus raios que se espelhavam lá por trás dos montes e que davam à madrugada um ar clarificante, risonho e prazenteiro. Depois aguardava com um sorriso ostentoso e confiante o seu aparecimento e o milagre da transformação das madrugadas em manhãs. E à tardinha, o velho marinheiro, regressando à sua janela voltada para o mar, observando mais uma vez o ocaso do astro rei, sentia-se feliz e contente na certeza expectante de que ele viria a nascer no dia seguinte. Então as manhãs eram virtuais, límpidas, perfumadas e com sabor a madressilva e a rosmaninho.

E o velho marinheiro, deleitava-se em dolente nostalgia como que hibernando numa comunhão profunda com aquela suprema potência da natureza.

E, no dia seguinte, à tardinha lá estava ele, outra vez, com um fulvo brilho nos olhos, à espera de mais uma espera.

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publicado por picodavigia2 às 21:20

O MENINO E O ARAÇÁ

Quinta-feira, 08.08.13

Era uma vez um menino, mas um menino igual a tantos outros meninos. Um menino que andava descalço, com calças remendadas, a cara suja e o cabelo por pentear, um menino que brincava sozinho mas que amava muito a sua mãe. Esta, porém, passava a maior parte dos seus dias deitada numa velha enxerga, num quarto mal iluminado, com uma janela sempre fechada, agastada entre doenças e maleitas. O seu estado, por vezes era tão grave, tão plangente e tão deplorável que nem sequer se levantava para ir à cozinha acender o lume, para arrumar a casa, ou simplesmente para tratar do próprio filho. Pelo contrário, era ele que, entre os conselhos e as consumições da sua progenitora e a vontade inexorável de brincar, lá ia apanhar um fruto aqui outro acolá, pedinchar pela vizinhança uma côdea de pão ou um pingo de leite, acarretar um balde de água da fonte mais próxima. A pobre mãe, aflita e debilitada, bem queria levantar-se mas era-lhe de todo impossível.

Certo dia o menino entrou num quintal perto da sua casa, onde havia algumas árvores de fruto, entre as quais um belo e formoso araçazeiro. Era uma árvore esguia, delicada, esbelta e garbosa, com um tronco avermelhado e liso e umas folhas macias, aveludadas e muito verdinhas, por entre as quais se viam algumas flores branquinhas, a exalar um perfume adocicado e dois enormes araçás. Feliz, o menino igual a tantos meninos aproximou-se da planta e colheu um dos araçás: o maior, o mais vermelho e o mais maduro.

- Vou dá-lo à minha mãe! Há-de deliciar-se com um fruto tão belo, tão fresco e tão apetitoso! – Pensou o menino, em voz alta. – Decerto que comendo este belo fruto ela há-de melhorar.

Colocou-o na palma da mão para que se não esborrachasse, saltou o muro e iniciou uma correria louca e feliz em direcção de casa, cuidando que trazia nas mãos toda a riqueza do mundo e toda a magnitude do universo.

Os caminhos, no entanto estavam pejados de transeuntes e as ruas apinhadas de pessoas que se empurravam, se atropelavam, se abalroavam e se amesquinhavam umas às outras, provocando uma balbúrdia inaudita e uma mixórdia desusada.

O menino ainda tentou evadir-se e esquivar-se a tão exagerado frenesi. Não conseguiu. O araçá caiu-lhe da mãozita aberta e rolou, rolou de tal maneira e com tanta força pelo chão que foi esmagar-se debaixo dos pés de um homem todo vestido de negro e com o rosto crispado de malignidade.

Aflito, angustiado, alvoraçado, lamentando a má sorte, ripostando o infortúnio, o menino voltou ao quintal a fim de apanhar o outro araçá que tinha ficado a amadurecer no araçazeiro.

Mas o outro araçá… bem, o outro araçá, um melro já o havia comido.

                                                                 

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publicado por picodavigia2 às 17:50

A BORBOLETA AZUL

Quarta-feira, 07.08.13

Ela era rainha. O seu mundo era um jardim, o seu país um canteiro e o seu palácio uma flor de que se assenhoreara, transformando uma pétala em aposento real. As suas asas eram de tule transparente e azul. Mas era um azul tão azul que lembrava o céu, o mar, o anil e as safiras. O seu corpo era deliciosamente opaco e espesso e os olhitos, muito atentos e enigmáticos, eram dois pontinhos castanhos, brilhantes, afáveis e meigos, A flor-palácio era uma violeta roxa, muito aromática, mas modestíssima e simples. Pertencia ao canteiro dum jardim e, por capricho do jardineiro, vivia rodeada de dálias, petúnias, robínias e tulipas. Era um canteiro maravilhosamente belo. Habitavam-no também muitos outros animais: cigarras, formigas, abelhas, gafanhotos, joaninhas, lagartas e até um sapo. Mas nenhum possuía a beleza, a simplicidade e a ternura da Borboleta Azul.

 

Certa manhã enevoada e cinzenta, a Borboleta Azul levantou-se indecisa e confusa. Deitou os olhitos ao relento hesitou e resolveu voltar a deitar-se, ou seja, a poisar de novo na pétala aromática e roxa da violeta que lhe servia de abrigo e protecção. A manhã mantinha-se enevoada e tardava em clarificar. O Sol teimava em manter-se escondido. Mas a azáfama no reino era enorme e desusada: é que o jardineiro, aproveitando a bruma matinal, decidira revolver toda a terra, mondar ervas daninhas e, regando o canteiro, colocava em polvorosa toda a bicharada. A própria Borboleta Azul foi forçada a levantar-se. Voou, voou, até que poisou casualmente junto dum lago não muito distante dali. Era um lago pequeno, cristalino, trasbordante de água e de frescura e que um Peixinho Vermelho transformara no seu mítico falanstério. Comungando simultaneamente displicência e incredulidade, peixe e borboleta esperavam que o Sol clarificasse o dia e rompesse a penumbra enigmática e paradoxal que se espelhava nas águas transparentes do pequeno lago.

 

Um suave perfume trespassava o ar, leve e contagiante. Uma nuvem corria apressada e deixava transparecer um raio de sol, súbito e inopinado. Foi então que o Peixinho Vermelho deitou a cabecita fora da água e, num ápice, pode ver um ser tão estranho e tão diferente dos que com ele partilhavam as frias águas do lago. Mas, assim como o raio de sol, a visão desvaneceu-se... Voltou a sombra e o Peixinho Vermelho ficou só, confuso e perplexo.

 

Mas algum tempo depois a Borboleta Azul voltou ao lago. Um dia, dois dias, todos os dias, comungando alegrias e partilhando desventuras, contando histórias de flores e de jardins:

 

- Gostava tanto de ver uma flor - suplicava o Peixinho Vermelho.

 

Confusa, a Borboleta Azul não sabia o que lhe responder.

 

Certa tarde, ao regressar do lago, a Borboleta Azul voltou ao seu palácio, mas já não o encontrou. Momentos antes, passara por ali um casal de namorados. Pararam junto ao canteiro. Querendo demonstrar o amor que lhe transbordava do peito, o rapaz apanhou a violeta e ofereceu-a à namorada como prova indiscutível e indelével do seu amor. A rapariga apertou a flor ao peito, cheirou-a e, comungando o seu perfume, beijou apaixonadamente o rapaz. Foi então que a Borboleta Azul decidiu voltar ao lago. A mágoa e a dor dominavam-na. Dos seus olhitos rolaram duas lágrimas de desespero que, caindo no lago, se diluíram na água e se esvaneceram com a reconfortante compreensão do peixe:

 

- Não te preocupes, boa amiga! O teu destino é voar. Voarás sempre sobre flores, sobre jardins e sobre lagos. Conquistarás o perfume das madrugadas e o calor do Sol. Mas não deixes nunca que se evapore o enigma azul e transparente das tuas asas.

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publicado por picodavigia2 às 18:42





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