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A SENHORA DE BRANCO

Terça-feira, 15.09.15

Conta-se que há muitos anos, vivia isolada no lugar do Areal, bem junto do mar, uma mulher pobre e humilde juntamente com a sua filha. A mulher era de avançada idade e, devido à sua simplicidade e ingenuidade, e sobretudo devido à sua pobreza, muitas pessoas do povoado faziam troça dela, sendo constantemente alvo da chacota e de descrédito por toda a população do povoado. Mãe e filha viviam miseravelmente e passavam muita fome.

Certo dia enquanto a velhinha e a filha, como habitualmente, estavam sentadas à mesa, tendo á sua frente apenas uma tijela de caldo de couves e uma côdea de pão velho e rijo que lhe haviam oferecido, bateram-lhe à porta. A noite já ia adiantada e como tivessem medo, cuidando que fosse alguém que lhes quisesse fazer mal, não abriram a porta, mas perguntaram quem estava de foa, a bater. Ninguém respondeu, mas de repente a velha porta de madeira rangeu e rodando sobre as dobradiças de ferro abriu-se e apareceu uma formosa senhora vestida de branco que nem a idosa nem filha conheciam. No entanto, a velha convidou-a a entrar e a sentar-se à sua mesa. Haviam de repartir com ela a parca e pobre ceia que tinham e que por caridade lhes haviam oferecido.

A Senhora de Branco agradeceu tão grande generosidade e entrando, disse:

- Não me posso demorar. Ide, de pressa, avisar a toda a gente da Fajã, Cuada e Ponta que fujam para o mato antes de amanhecer. Um barco de piratas, poderosos e salteadores vai chegar, durante a madrugada, a este areal. Os piratas vão entrar por terra dentro, roubando, destruindo, violando as mulheres, matando os velhos e as crianças.

E dito isto, desapareceu. Apesar de ser noite escura a velha e a filha deixaram a sua ceia e correram na direção do povoado, indo de porta em porta, batendo, chamando e acordando as pessoas, dizendo a todos que fugissem de suas casas, que subissem a rocha e se escondessem no mato porque de madrugada chegaria mais um barco de piratas, salteadores, ladrões e assassínios. A população troçou delas, poucos foram os que acreditaram na profecia e muitas pessoas até as insultaram por lhes baterem à porta àquela hora da noite. Mas a velha, acompanhada da filha, pôs-se, imediatamente, a caminho do mato, subindo a rocha àquela hora da noite. Algumas pessoas, muito assustadas, também as seguiram. Durante toda a longa caminhada a subir pelas estreitas veredas daquele alcantil pétreo e abrupto, a velhinha que acreditara no que a Senhora de Branco lhe dissera pensava que as pessoas, por serem incrédulas, tinham ficado em perigo, lá em baixo, onde muitos dormiam descansadamente. Mas de madrugada o pior aconteceu. Um enorme barco ancorou por fora da Baía d´´Agua. Um numeroso grupo de piratas armados de espadas e lanças saltaram para terra e entraram pelas casas, destruindo, roubando, violando as mulheres e matando muita gente. Algumas pessoas ainda conseguiram fugir mas a maioria foi assaltada, roubada, morrendo às mãos dos malvados assassinos.

Quando à noitinha, o barco zarpou para norte, depois de ter devastado completamente o povoado, a velha e os que tinham seguido os seus rogos e que atrás dela haviam fugido para o mato, desceram a rocha e encontraram no povoado, apenas morte e destruição. Todos os que escaparam á catástrofe, quando a velhinha lhes contou como tinha sido informada do que havia de acontece acreditaram que fora Nossa Senhora que a havia avisado e que devido à Sua bondade os salvara. Mas também não se cansavam de agradecer à velhinha a coragem que tivera e, a partir de então, embora continuando a viver indigente e humilde, no seu pobre casebre, passou a ser respeitada por todos.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A LENDA DA BAIXA-ROSA

Terça-feira, 01.09.15

Contava-se que antigamente, em tempos muito recuados, existia, junto aos rochedos e baixios da costa, no local entre o Respingadouro e a Baía d’Água, um laredo ou baixa que o povo chamava de Baixa-Rosa. Cuidavam os mais doutos e mais conhecedores dos meandros da onomástica que aquele topónimo se explicava simplesmente pelo facto de as algas que permanentemente ornavam a referida baixa possuírem uma cor próxima do rosa. Bem iludidos estavam estes doutos investigadores porque a razão do estranho topónimo parecia ser outra bem mais enigmática e mítica.

Segundo uma lenda muito antiga, alguns anos antes teria vivido ali perto um casal muito pobre que morava numa casa feita de terra e lenha, junto do mar. Apesar da enorme pobreza pareciam viver alegres e felizes. É que para além de se amarem tinham, em frente ao seu pobre casebre um lindo jardim no qual passava os seus dias uma jovem que, para além de esbelta, possuía uma beleza excelsa e tinha um excelente coração. Chamava-se Rosa e o povo cuidava que fosse filha do casal, no entanto, não percebiam a razão pela qual não a deixavam sair do jardim e passear pelas ruelas do velho povoado.

Certo dia, porém, os pais da menina decidiram-se por abrir os portões do jardim e conduziram a jovem até junto do mar. Mal sentiu os respingos da água salgada salpicarem-lhe o rosto, a jovem pulou dos braços de sua mãe diretamente para a água e, quando, mais tarde ela reapareceu em cima de um laredo que ali existia, o seu rosto estava mais brilhante e alegre do que nunca mas o seu corpo havia-se transformado substancialmente, pois da cintura para baixo havia adquirido a forma de peixe, tendo na parte inferior uma enorme barbatana. Os pais, muito aflitos, embrulharam-na em panos e trouxeram-na para casa de maneira que ninguém se apercebesse do que havia acontecido.

Nos dias seguintes a jovem permanecia no jardim, mas, para espanto de todos os transeuntes, sempre sentada numa cadeira e com a parte inferior do corpo coberta com um cobertor que a própria mãe havia tecido.

Uma noite, quando a jovem já tinha dezoito anos, os pais levaram-na, de novo, para junto do mar. A lua estava muito clara e uma aragem fresca emanava do oceano. Alem disso, a maré estava vaza e os pais sentaram-na no laredo sobre o qual ela reaparecera quando ali a levaram pela primeira vez. Sem que os pais se apercebessem, apesar de estarem sempre muito atentos a fim de que ninguém observasse o corpo da jovem ou que alguma vaga mais alterosa não a levasse, um jovem pescador que andava na apanha de lapas e caranguejos aproximou-se, com o intuito de apreciar melhor tão grande beleza que emanava daquele rosto jovem. A rapariga também viu o pescador e olhou-o com uma enorme ternura. Depressa perceberam os pais da menina que os dois jovens estavam verdadeiramente apaixonados. Nos dias seguintes os pais da jovem voltaram a levá-la junto do mar, ao mesmo local onde haviam encontrado pescador. Quando lá chegavam ele já estava à espera. Sentavam-se um ao lado do outro, de mãos dadas, em cima do mesmo laredo onde ela costumava sentar-se e ali ficavam a olhar o oceano imenso e infinito. Os pais, silenciosos, observavam-nos de perto, acorrendo junto deles logo que pressentiam algum desejo de movimento da filha ou que alguma vaga de mar galgava o laredo. Apesar de terem mantido sempre a parte inferior do corpo da jovem coberta, os pais cuidavam que o pescador se havia apercebido da sua estranha anormalidade.

Um dia os pais da jovem observaram um fenómeno estranho: uma sereia ressurgiu das profundezas do mar e flutuou ao longo das ondas ondulantes, como se estivesse vigiando os dois jovens. De repente levantou-se uma enorme tempestade, com ventos fortíssimos e ondas altivas. Sem que os pais se apercebessem e, muito menos, pudessem fazer alguma coisa, uma onda gigantesca galgou a terra, cobrindo por completa o rochedo onde os dois jovens estavam sentados, Quando, pouco depois, as águas regressaram ao mar e a tempestade acalmou, os pais com muito espanto e dor perceberam que os dois jovens tinham sido levados pela força das águas. E nada mais souberam deles, mas reza a lenda que, algum tempo depois, os viam em todas as noites de luar, por altura da maré vaza, a passear no jardim da sua casa. De manhã, no entanto, ainda no escuro, regressavam ao oceano. Por mais que tentassem nunca conseguiram falar com eles. Mas o laredo onde se haviam encontrado e onde se sentavam todos os dias ficou conhecido pela Baixa da Rosa ou simplesmente Baixa-Rosa

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publicado por picodavigia2 às 00:02

PEDRO CEM

Quarta-feira, 01.07.15

Uma interessante estória que antigamente se contava era a de Pedro Cem, uma espécie de lenda com uma forte moralidade. Contava então a dita estória que Pedro Cem era um homem muito rico, possuidor de muitos bens e haveres. Chamava-se Pedro Cem porque de tudo o que possuía tinha cem exemplares: cem navios e outros tantos camelos, cem rebanhos de cabras e outros cem de carneiros. Possuía ainda cem porcos, cem vacas, cem propriedades e até cem empregados que o serviam e o ajudavam no tratamento, guarda e conservação de todo este arsenal.

Certo dia em que estava sentado numa das varandas do grande e belo palácio onde morava, ao ver ao longe, no mar, os seus cem navios que regressavam de longas viagens de negócios e trocas comerciais, disse, orgulhosamente, para a mulher sentada ao seu lado:

- Lá vêm os meus cem navios carregados com ricas e valiosas mercadorias. A nossa riqueza, mulher, é tanta e tão grande que nem Deus pode acabar com ela!

Mal acabara de proferir estas palavras, levantou-se um enorme temporal, o mar revoltou-se e os navios começaram a afundar-se, um a um, até desparecerem todos. Ao mesmo tempo a tempestade estendeu-se a terra. Ventos muito fortes, seguidos de relâmpagos, trovões e chuvas torrenciais. As enxurradas arrastaram os rebanhos de cabras e ovelhas, destruindo-os todos. Os raios mataram os porcos e as vacas e o vento, fortíssimo, destruiu tudo o que os campos de Pedro Cem haviam produzido. Tudo o que possuía desapareceu e até os seus grandes negócios faliram. Tudo se perdeu. Até o palácio em que vivia desabou, assolado por valente tempestade. De um momento para o outro Pedro Cem ficou pobre, sem nada de seu, sendo obrigado até a mendigar pelas ruas, para se poder sustentar a si e à sua família

Era com grande espanto e enorme constrangimento que todos os seus vizinhos e antigos amigos viam e ouviam aquele homem, que desafiara Deus, pedir com voz chorosa:

- Dê uma esmola a Pedro Cem, que já teve muito e agora nada tem!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A LENDA DA MULHER DE BRANCO

Quinta-feira, 07.05.15

Contava-se que antigamente, assim como aparecia uma mulher com pés de cabra na Ladeira das Covas, também, para os lados da Pedra Vermelha, no caminho que dava da Cancelinha para o Tufo da Cuada, de vez em quando, aparecia uma mulher, esta com pés normais mas vestida de branco. Pelos vistos, assim como a da Ladeira das Covas, ninguém conseguia falar com ela, pois a mulher de branco, logo que via alguém aproximar-se, fugia a sete pés, como se fosse um relâmpago, desaparecendo, de imediato, por entre matas e silvados. Segundo uma antiga lenda que se contava na Fajã Grande (se não se contava devia contar-se), esta mulher, quando era nova apaixonou-se, loucamente, por um pescador. Certo dia, o pescador saiu para o mar, na sua faina diária, a fim de pescar, prometendo-lhe, no entanto, que ao voltar, haviam de se casar, na ermida que existia no povoado. A mulher ficou tão feliz e tão entusiasmada que logo se vestiu com as roupas de noiva. Depois correu para o Porto e sentou-se sobre uma pedra, junto ao mar, esperando por aquele com quem havia de casas naquele dia e que havia de ser o seu marido. Esperou dias e noites mas o seu apaixonado nunca regressou da faina da pesca. Nem naqueles dias, nem nos dias seguintes, nem nunca mais. Como durante aqueles dias não acontecera nenhuma tempestade que lhe virasse o barco e ele morresse e como também não poderia fugir para outra ilha num barco tão pequeno, nem passasse por ali nenhum navio que o levasse, cuidou-se que o mais certo seria uma sereia o ter enfeitiçado e levado consigo para o fundo do mar. A mulher, percebendo que o futuro marido, nunca mais havia de regressar, ficou tão desesperada e furiosa que enlouqueceu, indo refugiar-se para as bandas da Cancelinha, nunca mais despindo as suas roupas brancas, de noiva. Desde então, passou a ser vista por aqueles caminhos e canadas, caminhando por aqui e além, na procura de frutos e de raízes silvestres com que se alimentava, transformando-se, ao que o povo dizia e, pelos vistos, acreditava, numa feiticeira.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:24

O CAGÃO DA VISITA

Terça-feira, 05.05.15

Na Fajã Grande, antigamente, o Cagão da Visita era uma espécie de figura imaginária, enigmática, mítica e lendária cujo nome, a brincar, se atribuía às crianças quando eram muito medrosas. Ser Cagão da Visita era sinónimo de ser muito medroso ou de ter muito medo ou ter medo de tudo. Como ter medo significava ter falta de coragem ou de força, também se chamava Cagão da Visita a quem era muito fraco ou não podia com quase nada. A criançada, no entanto, não gostava rigorosamente nada de ser presenteada com tal epíteto.

O Cagão da Visita era uma figura mítica, semelhante a várias outras existentes na freguesia, como o “Velho Laranjinho”, o “Antonico Passarico”, o “Velho Entrudo”, o “Ano Velho”, o “Coiso-Mau”, o “Ze da Góstia”, o “Siçaricalho” e, sobretudo o “Papão Feio”, embora com características e simbolismos muito diferentes. Como todos estes e muitas outras personagens míticas, o “Cagão da Visita” apenas existia na imaginação das crianças e de quantos adultos a ele se referiam, não por nele acreditarem mas para, na brincadeira, assustarem, vilipendiarem, amedrontarem ou recriminarem as crianças sobretudo pela sua pequenez, insuficiência, fraqueza ou sujidade, resultante de necessidades fisiológicas ainda não controladas. Muitas vezes porém, a enigmática personagem também era utilizada para caracterizar os mais crescidos, sobretudo ente a rapaziada, neste caso significando uma humilhação, um insulto

Como personagem mítica, o ”Cagão da Visita” possuía uma forte componente simbólica com muito pouco ou nada de real, a não ser o simbolismo. Já os povos da antiguidade, quando na sua falta de conhecimento científico, não conseguiam explicar os fenômenos da natureza criavam mitos com o objetivo de dar sentido às coisas do mundo, de melhor as entender. Além disso, os mitos e as personagens que os integram transmitem-se de geração em geração, sendo, não apenas uma forma de as unir na sua cultura e nas suas tradições mas também um meio de transmissão de conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Cada povo e cada civilização criou os seus símbolos ou seja personagens imaginárias, integradas nos seus costumes e tradições, e que se misturam com fatos da realidade para dar sentido ao seu quotidiano. Assim terá nascido o Cagão da Visita e os seus similares, embora a origem do seu nome seja um pouco estranha e difícil de explicar.

Eventualmente esta figura poderá ter a ver com São Cagão, ou Caganer, que se venera nalgumas regiões de Espanha, nomeadamente na Catalunha. Representado sempre agachado, de calças arriadas e em pleno ato defecatório, ele simboliza a fertilidade e a necessidade de adubar a terra para as colheitas do ano seguinte. O mais natural é, no entanto, que nada tenha a ver com esta personagem fajãgrandense e que o nome visita seja entendido como tal, isto é no seu significado real. Perante uma visita nunca se deve defecar. Quem o faz é porque não tem força coragem ou capacidade de se controlar. Quando, nas suas brincadeiras, duas crianças se zangavam e uma desafiava a outra para guerrear, se esta se recusava ou esquivava era, de imediato, alcunhada de Cagão da Visita, o que diga-se de verdade, ninguém queria ser.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:20

A LENDA DOS TREMOÇOS

Sábado, 18.04.15

Consta que no início do povoamento da Fajã Grande e nos anos que se seguiram a população daquele lugar, encurralada entre o mar e a rocha, vivia num sobressalto permanente e sob um medo constante devido às frequentes ameaças de alguns barcos de piraras que, demandando a ilha na procura de água e víveres, por vezes, aproveitavam para assaltar, roubar, destruir, violar as mulheres e matar. A população indefesa e sem ter onde se refugiar, umas vezes fugia para o mato, outras recorria às mais diversificadas artimanhas para afastar os malditos. Destas espécies de luta em que o rato se escondia, habilmente, a fim de fugir às terríveis e mortais ameaças do gato, contavam muitas estórias. Naturalmente também nasceram muitas lendas, algumas das quais, muito provavelmente, se terão diluído e extraviado no tempo. A que se segue é uma destas. Consequentemente, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido.

Consta-se que certa vez em que o povoado foi invadido pelos tiranos, um grupo de pessoas não teve tempo de fugir para o mato como fazia habitualmente. Assim refugiou-se, num lugar que julgava seguro, nas margens da Ribeira das Casas, entre os pedregulhos e rochedos que por ali abundavam. Como ficassem ali muitos dias, esgotaram-se os alimentos que haviam levado consigo e que eram poucos, Restavam apenas uns sacos de tremoços cozidos, mas muito amargos.

Ao perceber que os piratas estavam próximos e os iriam atacar, talvez até matar, depois de violarem as mulheres, afastaram-se para junto da rocha, para um lugar mais escondido, deixando as panelas cheias de tremoços amargos. Os piratas saltaram para terra e, ao aproximar-se, viram as panelas com os tremoços. Como vinham cheios de fome, começaram a comê-los. Porém, achando-os muito amargos cuidaram que o povo os tivesse envenenado. Cheios de medo e cuidando que iam morrer fugiram para o barco que, de imediato, abandonou a ilha, podendo o povo, finalmente, regressar às suas casas salvo e tranquilo.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:07

O DIABO

Terça-feira, 17.03.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e, provavelmente, nas que a antecederam o Diabo ou a imagem que dele se tinha como que fazia parte do quotidiano da população, intrometendo-se, permanentemente, na vida das pessoas. A sua imagem maligna e perversa estava presente a cada hora, em cada momento, havendo, contudo uma hora especial para ele se manifestar – a meia-noite. Muita gente já o teria visto a essa hora. Por isso era conveniente não andar fora de casa depois da meia-noite. Contavam-se estórias macabras e desoladoras. Desses relatos e também das pregações que eram feitas na igreja, era possível traçar o seu retrato. A imagem que dele se apresentava, sobretudo às crianças, para que o afugentassem e não fossem por ele tentadas, era terrível. A do inferno, onde ele vivia, ainda pior. Dizia-se que diabo era preto, tinha um rabo e dois chifres. As suas unhas eram compridas e pés semelhantes aos das cabras. Faiscava como lume e cheirava a enxofre. Usava uma barbicha em ponta e até trazia um chocalho ao pescoço. Mas a sua imagem não era sempre a mesma, uma vez que para poder tentar enganar as pessoas adquiria formas diferentes. Também tinha vários nomes: belzebu, cão-feio, canhoto, coiso mau, eira má, diacho, dianho, demónio, o que anda à meia-noite, inimigo, mafarrico, lucifer, satanás, cão tinhoso, etc. Contava-se que inicialmente ele teria sido um anjo bom, mas que, por soberba, vaidade e inveja, se revoltara contra Deus. Roído de inveja de outros anjos, pedira a Deus mais poderes e grandezas, mas Deus não lhos deu. Como resposta revoltou-se contra Deus. Essa revolta lançou-o no inferno ou no Caldeirão de Pero Botelho. O diabo, geralmente, não andava sozinho a tentar as pessoas. Andava muitas vezes acompanhado de um séquito de diabinhos e diabretes cada qual mais malino e levado da breca. Residia nas "profundezas dos infernos" alimentando terríveis caldeirões de alcatrão e enxofre a ferver, para queimar os perversos que levava consigo. Costumava a aparecer à meia-noite na encruzilhada dos caminhos para pegar e tentar os transeuntes. Tinha fama de tanto ter procurado ajeitar o nariz da mãe que até o pôs torto; e, por fim matou-a com a tranca da porta. Desconfiava-se também que o maldito costumava carregar o corpo dos defuntos para seus domínios, deixando o caixão cheio de pedras. Não se devia pronunciar o nome diabo. Era pecado entregar, isto é pronunciar o seu nome. Confesso que o fiz uma vez em criança, com esta frase, proferida quando descia a ladeira do Batel:

- Lá vem nascendo o diabo da Lua.

Valeu-me levar com a ponta de uma malagueta cortada nos lábios. Doeu?! Ai se doeu. Uma tarde inteira com a boca debaixo duma torneira de água corrente

Também não se devia falar sozinho porque era falar com o diabo. Não se devia "ter partes" com ele e fugir dele "como o diabo da cruz": nem "acender uma vela a Deus e outra ao diabo". Também era aconselhável "não dar esmola ao diabo nem fazer-lhe promessas", nem "comer o pão que o diabo amassou". "Quem andava em demanda com o diabo anda".

Uma das muitas estórias que se contava sobre o mafarrico era a seguinte:

Estava um homem sentado no bacio a fazer as suas necessidades. Pese embora não fosse o momento mais adequado, aproveitou-o para rezar. O diabo aproveitou a incúria do homem e apareceu-lhe para o tentar, perguntando:

- Que estás aí a fazer?

O homem sem se desconcertar respondeu:

- Estou rezando para Deus e cagando para ti.

Com esta se foi o diabo

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publicado por picodavigia2 às 09:56

A LENDA DA QUEBRADA DAS COVAS

Quinta-feira, 05.03.15

Contava-se antigamente, de maneira que parecia mais uma lenda do que um fato histórico, que os primitivos habitantes da Fajã Grande se haviam estabelecido na margem direita da Ribeira das Casas, junto à Rocha das Covas, no local onde há vestígios de uma enorme ribanceira. Segundo essa lenda teria sido naquele local que se formou o primitivo povoado e o nome da Ribeira poderá muito bem ser a prova desse facto. Se a Ribeira se chama das Casas é porque, muito provavelmente, nalgum tempo, terão existido casas junto dela. Mas na década de cinquenta, naquele local, apenas havia moinhos. Pode até concluir-se que a população demandasse e se fixasse, inicialmente, naquele local por ser mais abrigado, sobretudo dos ventos que soravam do norte e do leste. Diz a lenda que estes primeiros habitantes foram obrigados a abandonar este local pelo motivo de ter caído ali uma enorme ribanceira, soterrando todas as casas e terrenos circundantes, tendo, no entanto, a maioria da população fugido a tempo. Talvez ficaram alguns velhos e algumas crianças, incapazes de fugir e de não terem quem os salvasse. Os habitantes resolveram então estabelecer-se no local onde é hoje o lugar da Fajã Grande. Ali ficou para sempre o vestígio da enorme quebrada, a Quebrada das Covas.

 

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publicado por picodavigia2 às 19:37

OS MONTES DA LUA

Quarta-feira, 04.02.15

Uma interessante estória, contada aos serões, na Fajã Grande, na década de cinquenta, sobre as manchas que se veem na lua quando cheia era a seguinte:

Havia um homem muito descrente, que não temia a Deus, nem obedecia aos seus mandamentos, nem respeitava as leis da Santa Madre Igreja, por isso, às escondidas, trabalhava aos domingos como se de outro dia se tratasse.

Num certo domingo, resolveu ir roçar umas silvas que cresciam numa relva que possuía no mato. Era longe do povoado e ninguém havia de vê-lo. Apesar de alguns amigos e vizinhos, ao verem-no de machado ao ombro e foice na mão, lhe lembrarem que o domingo era um dia consagrado ao Senhor, durante o qual não se deviam fazer trabalhos pesados, o homem, fazendo ouvidos de mouco, lá foi, pois entendia que aquele era o dia ideal para cortar o silvado da sua relva, pois nos dias seguintes, agradavam-no muitos outros trabalhos. Além disso, o seu terreno ficava num barroco, longe dos olhares mais reprovadores do povo. Ninguém o veria a cortar silvado. E se assim pensou melhor o fez.

Enquanto roçava as malvadas silvas, apareceu-lhe um estranho que lhe perguntou:

- Que fazes aqui ao domingo?

O homem respondeu que roçava umas silvas e que não havia qualquer problema, pois ali ninguém o via a trabalhar em "dia santificado".

- Pois agora - respondeu o estranho - vais para um sítio onde todos te vão ver, enquanto o mundo for mundo!

Então, como castigo, aquele homem foi colocado na lua onde ainda hoje se pode ver, dedicando-se a roçar as silvas, formando, a sua imagem aquela espécie de montes que se observam da Terra.

Aquele "homem estranho" era afinal Nosso Senhor que andava pelo mundo e que assim castigou o homem que roçava silvas ao domingo.

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publicado por picodavigia2 às 10:02

A LENDA DO SANTO ROSÁRIO

Domingo, 18.01.15

Em casa dos meus avós, todos os dias, ao serão, se rezava o terço. Depois da morte do meu avô, foi a minha avó que passou a presidir à reza. No fim do terço seguia-se a Salve Rainha que ela rezava em latim de forma interessantíssima, após a qual enumerava uma série de padre-nossos, uns por alma dos familiares falecidos, outros por intercessão de um ou outro santo da sua devoção. Um dos santos que nunca era esquecido nestas invocações, para além de Santa Rita, a sua santa predileta, era São Domingos que ela anunciava como “instituidor e pregador” do Santo Rosário. Certo dia, já mais crescidote, perguntei-lhe se ela sabia como é que o São Domingos tinha inventado ou instituído o Santo Rosário. Afinal ela sabia e muito bem. Foi então que me contou a seguinte lenda a qual ela considerava ser uma história verdadeira: Segundo ela me contou, havia, há muitos, muitos anos, num convento, um fradinho que não sabia ler nem escrever, e por isso não podia ler os Salmos nos Livros Sagrados, como era costume nos Mosteiros de antigamente. Ora, o bom fradinho, quer quando se levantava, de manhã, quer quando terminava o seu trabalho, à noite, pois ele era o jardineiro do convento, ia para a igreja que havia no convento, ajoelhava diante da imagem de Nossa, e recitava 150 Ave Marias atrás umas das outras, pois ele sabia que 150 era o número de Salmos que Deus nos deixou na Bíblia Sagrada mas que ele não conseguia ler como os outros frades. Depois retirava-se para a sua cela, afim de dormir. Certa manhã, como de costume, o fradinho levantou-se cedo, e foi para a capela rezar as 150 Avé Marias a Nossa Senhora. O Superior do convento que desde há muito o observava aquela devota atitude, nesse dia, ao chegar à igreja para celebrar a missa da manhã com todos os outros frades, sentiu que havia no ar um cheiro maravilhoso de rosas muito frescas. Mas ele sabia que no dia anterior não haviam sido colocadas nenhumas rosas frescas a enfeitar os altares. Perguntou a todos os frades se algum deles ou alguém tinha colocado rosas frescas nos altares. Mas as respostas foram todas negativas. Ninguém, naquela manhã, nem no dia anterior trouxera flores para enfeitar o altar da Virgem. Isto repetiu-se por vários dias, durante os quais ninguém colocava rosas na capela. Mas de manhã e à noite a capela estava sempre cheia de um perfume tão agradável como se estivesse cheia de rosas. Certo dia o tal fradinho adoeceu gravemente e o perfume a rosas deixou de se fazer sentir na igreja. Os outros frades cuidaram, então que deveria ser ele a colocar as rosas escondidas em lugar que eles não as vissem. Mas onde e como? Ninguém jamais o havia visto deixar o convento e tampouco sair para comprar as belas rosas. Numa manhã, porém, quando já estava melhor, todos os frades do convento viram o tal fradinho dirigir-se para a igreja e, ajoelhado diante da imagem da Virgem, recitar as 150 Ave-Marias. Para espanto de todos, cada vez que ele rezava uma Avé Maria a Nossa Senhora, aparecia, milagrosamente, uma rosa num vaso do altar. Nesse dia, como estava muito fraco, depois de rezar as 150 Avé-Marias e do altar se encher de rosas e a igreja de perfume, o fradinho caiu morto aos pés da Virgem. Comovido, o superior do concento que era São Domingos, ordenou que, a partir de então, os frades daquele convento, seguindo o exemplo do fradinho, rezassem à Virgem Maria as 150 Avé-Marias, que passaram a chamar Rosário. Dizia a minha avó que quando era criança ouvira um fradinho que viera pregar as Endoenças à Fajãzinha, contar esta estória.

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publicado por picodavigia2 às 22:23

A LENDA DOS REIS MAGOS

Terça-feira, 06.01.15

Conta uma lenda muita antiga que os três Reis Magos - Baltazar, Gaspar e Belchior - quando seguiam a estrela que indicava a Gruta, encontraram um pastor que acendia uma fogueira. Ao vê-lo os reis pararam, cuidando que o pastor estava ali, apenas para se aquecer.

Baltazar foi o primeiro a falar, perguntando-lhe:

- Que fazes aqui, pastor?

- Acendo e tomo conta das fogueiras que servem para iluminar o caminho para os que vão visitar o Deus Menino.

- É pena que não nos possas acompanhar-nos - disse Gaspar.

- Temos que seguir viagem, o caminho é longo – disse, por fim, Belchior, enquanto montava de novo o seu camelo.

- Adeus, pastorzinho! Até breve! - Disseram os três Reis Magos, pondo-se, de novo, em marcha, a caminho de Belém.

- Adeus! Adeus! - Respondeu o pastor, acenando com a mão tristonho.

De repente, o pastorzinho teve uma ideia: colocava muita lenha nas fogueiras a fim de estas se manterem toda a noite acesas. Depois, se corresse muito, ainda havia de apanhar os Reis Magos e acompanhá-los até à gruta de Belém.

Se bem o pensou, melhor o fez e, quando chegou ao estábulo, ficou feliz por ver o Menino Jesus, mas ao mesmo tempo, triste, por ver os Reis Magos oferecerem ouro, incenso e mirra e ele sem ter nada para oferecer.

- Que posso oferecer ao Menino se não tenho presentes assim tão preciosos? –

Porém, ao voltar o rosto, cheio de lágrimas, viu, ao seu lado, uma flor branca. Correu para ela, mas ao colhê-la ficou de novo triste. Como arranjar coragem para oferecer um presente tão simples?!

De longe, Nossa Senhora viu-o e chamou-o:

- Vem, meu filho, estamos à espera do teu precioso presente.

E, perante os olhos comovidos de Maria, de José e dos Reis Magos, o pequeno pastor entregou, feliz, a flor ao Deus Menino.

É essa a razão por que a margarida, no meio das suas pétalas brancas, tem uma coroa de ouro.

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publicado por picodavigia2 às 00:38

A LENDA DA VELA DE NATAL

Segunda-feira, 29.12.14

Conta uma lenda que, há muitos, muitos anos, havia um sapateiro muito pobre mas muito humilde e trabalhador. Como ganhava muito pouco, pois sempre que conhecia algum aldeão pobre, não recebia dinheiro por lhe reparar o calçado e como vivia muito longe da cidade os senhores ricos não o procuravam a fim de solicitarem os seus serviços, vivia numa pobre e velha cabana, na encruzilhada de um caminho, perto de um pequeno e humilde povoado, situado num bosque.

Reza a lenda, ainda, que o sapateiro era tão generoso e tinha tão bom coração que para ajudar os pobres aldeões e também os viajantes que passavam junto à sua cabana, todas as noites deixava numa janela do pobre casebre, uma vela acesa, de modo a guiá-los no escuro da noite. Mesmo já velho, doente, abandonado e enfraquecido, nunca deixou de acender a vela, com intenção de ajudar todos quantos passavam junto à sua casa.

Impressionados com a persistência daquele pobre sapateiro, que continuava a viver a sua vida, cheio de amor e de bondade, não apenas os habitantes do pequeno povoado mas também os que viviam noutras terras mais distantes nas que por ali passavam muitas vezes decidiram imitá-lo. Assim, escolhendo uma noite, que era a véspera de Natal, decidiram juntar-se todos em frente à cabana do velho sapateiro acendendo cada um uma vela, iluminando todo o bosque. Até os que não puderam ir acenderam uma vela em cada janela das suas casas e iluminaram todo o povoado. À meia-noite mandaram tocar os sinos da igreja.

Consta que, a partir daquela noite, acender uma vela tornou-se tradição em quase todos os povos, na véspera de Natal.

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publicado por picodavigia2 às 14:47

A LENDA DO ENTERRO DO VELHO LARANJINHO

Domingo, 02.11.14

Antigamente, na Fajã Grande, as pessoas mais idosas contavam que todos os anos, no dia dois de Novembro as almas realizavam uma procissão pelas ruas da freguesia, até ao cemitério e que a mesma representava o enterro do velho Laranjinho. Todas as pessoas tinham a certeza que ela se realizava e até a viam e ouviam os sinos dobrar a finados, no entanto, não podiam contar a ninguém nada do que viam, nem sequer aparecer à janela ou espreitar para ver as almas.

Ora há muitos anos, nesse dia, à hora em que se realizava a procissão, uma rapariga muito curiosa e que dizia que não acretiva naquelas tolices, quando já estava deitada, ouviu o sino a tocar a finados e um barulho de passos de pessoas na rua em frente à sua casa. Sentou-se logo na cama e, levantando-se, assomou à janela para espreitar por um canto da cortina e ver o que se passava na rua e se era o que as pessoas diziam que acontecia naquela noite do dia dois de Novembro.

Foi então que, para espanto seu, viu que estava a passar, em frente à sua casa, uma procissão em que participavam muitos vultos desconhecidos, cada um coberto com uma veste branca e todos com velas acesas nas mãos. Atrás seguia um caixão com um féretro. Ao princípio cuidou que era o enterro de alguém que havia morrido naquele dia ou na véspera. Mas pensando melhor concluiu que àquela hora da noite não se realizavam enterros e, por isso, começou a ficar muito apreensiva. Foi então que reconheceu, entre os vultos vestidos de branco, uma parente sua que já tinha morrido havia algum tempo. Para cúmulo, quele vulto, voltando-se dirigiu-se para ela e, entregando-lhe a vela, disse-lhe:

 - Ó rapariga, pega nesta vela e guarda-ma que eu amanhã venho buscar-vos, a ela e a ti.

A rapariga retirou-se para casa muito nervosa e aflita, permanecendo acordada toda a noite. Logo que amanheceu correu a casa dos vizinhos e contou a toda a gente o que tinha visto e ouvido, na noite anterior.

Reza a lenda que no dia seguinte a rapariga morreu porque não devia ter dito nada a ninguém do que lhe tinha acontecido.

 

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publicado por picodavigia2 às 01:11

A LENDA DA COALHEIRA

Terça-feira, 16.09.14

 

Segundo uma lenda antiquíssima, há muitos, muitos anos, na Fajã Grande, um homem aproveitou uma bela noite de Lua Cheia para ir pescar, para os lados do Canto do Areal. Havia muito luar, a noite estava muito clara e, por isso, o homem não levou nenhuma tocha de luz consigo. No entanto, ao chegar junto do mar, umas nuvens densas e escuras cobriram uma parte do firmamento, tapando, por completo, a Lua, deixando a noite muito escura. Apesar de ter alguma dificuldade em ver, o homem, olhando para o mar, cuidou avistar a boiar, calmamente, sobre as ondas, em direcção ao rochedo onde se sentara para pescar, um vulto negro. Muito confuso e um pouco assustado, o homem ficou sem saber se era um peixe muito grande ou algum náufrago perdido no mar. No entanto, observando melhor e como a noite clareasse um pouco, o homem pode ver, com absoluta certeza e perfeita convicção, para espanto seu, que se tratava do corpo duma mulher, de longos cabelos louros, que ondulavam sobre as águas e que, com o luar, brilhavam como se fossem ouro. Nua da cintura para cima, o corpo era esbelto e perfeito e o rosto de uma beleza rara.

O pescador, deslumbrado com tão rara e invulgar visão, atirou para o mar os apetrechos que levara para pescar. Espantado e curioso, despiu as roupas e lançou-se-se ao mar com intentos de ajudar a mulher a salvar-se. Porém, quando se aproximou do vulto, apercebeu-se, com um misto de medo e encanto, que o pescoço da mulher parecia que tinha guelras e que da cintura para baixo, o corpo apresentava a forma de um peixe, tendo, em vez dos pés, uma enorme barbatana, semelhante às caudas das baleias. Era, por certo uma sereia! - Concluiu o homem, cada vez mais espantado com o que descobrira.

Perdido entre o medo e a aflição, sem saber o que fazer, e consciente das estórias que se contavam sobre sereias que encantavam os homens e que os levavam para nunca mais serem vistos, o homem pensou que aquilo poderia ser obra do diabo para o levar para os infernos e, por isso, começou a esconjurar a aparição. Tantas foram as maldições que proferiu e tantas as inprecações que vociferou que, de repente, o estranho corpo que se assemelhava a uma sereia se transformou no corpo de uma bela mulher. O homem, então, pegou-lhe com muito cuidado e, nadando na direcção dos rochedos, trouxe-a consigo para terra, cobrindo-lhe a nudez com algumas das suas roupas.

Reza ainda a lenda que, algum tempo depois casaram, tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre, sem nunca se descobrir quem era, como se chamava e de onde viera aquela misteriosa mulhar. Essa a razão por que o homem, não sabendo como chamar-lhe e agradecido por ela lhe ter fortalecido, solidificado a vida e por a ter encontrado naquela noite em que o mar como que parecia coalhado pelo luar, lhe pôs o nome de Coalheira, pelo qual passou a chamar-se, também, aquele local da beira mar, no Canto do Areal, onde a encontrou e que se situa entre o Redondo e a Poça das Salemas, ou seja o lugar da Ponta da Coalheira.



 

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publicado por picodavigia2 às 09:55

A LENDADA GAIA AZUL

Sexta-feira, 12.09.14

 

(LENDA BRASILEIRA ADAPTADA)

 

Numa fria manhã de inverno, a gralha ainda dormitava no galho do pinheiro, quando foi surpreendida por um súbito e seco barulho. Assustada, ela pôde ver um homem a desferir o machado no tronco do pinheiro. A gralha ouviu os gemidos agudos do pinheiro, enquanto que a seiva de dentro dele transbordava em dor.

Com tristeza, a gralha viu os golpes do machado, cada vez mais intensos, a cortar sem piedade o majestoso pinheiro que por muitos anos lhe deu abrigo, tornando-se um amigo. Sabia que o destino de tão bela árvore, que por décadas a natureza tecera o porte que apresentava, seria o de uma serraria, transformada em madeira morta para servir aos caprichos humanos.

Impotente diante da tragédia que se abatia sobre o pinheiro amigo, a gralha voou em direção ao infinito, subindo muito além das nuvens, de modo que não pudesse ouvir os gemidos de dor causados pelo corte fatal do machado. Já na imensidão do céu, a pobre ave pôde ouvir uma voz terna a ecoar:

-O coração das aves é misericordioso, revoltando-se com as dores da mata! Bendita sejas tu, avezinha! Tua bondade faz-te digna do mundo. Volta para os pinhais, a partir de hoje tu serás a minha ajudante. Transformarei a tua plumagem em azul, da cor do céu. Quando voltares para os pinhais vais plantá-los, para que se renove e jamais se extinga.

-Sou apenas uma ave negra, a chorar a dor dos pinheiros mortos.

-Já não serás uma ave negra, já te disse, terás a cor do céu. Quando comeres o pinhão, tirar-lhe-á a cabeça, para com as tuas bicadas, abrir-lhe a casca. Nunca te esqueças de antes de terminar a tua alimentação, enterrares alguns pinhões com a ponta para cima, já sem cabeça, para que não apodreça antes que surja um novo pinheiro dali nascido. Do pinheiro, árvore da fraternidade, nascerá a pinha, da pinha nascerá o pinhão... do teu bico cairá a semente que fertilizará o solo.

Ao ouvir a voz, a gralha viu-se no topo do céu. Olhou para o seu pequeno corpo de ave e apercebeu-se que as penas negras tinham ficado azuis. Até onde os seus olhos pudessem avistar, tornara-se uma ave azul, ao redor da cabeça, onde não podia enxergar, continuou com a plumagem preta.

Ao ver a beleza das suas penas, a avezinha retornou para os pinhais. Encontrou os galhos de todos os pinheiros abertos, a convidar-lhe para pousar em seus galhos, assim ficariam perenemente. Tão alegre estava a gralha com a sua nova plumagem, que o seu canto passou a ser como um alarido a lembrar crianças a brincar. Assim a gralha, ao voltar, iniciou o seu trabalho de ajudante celeste, ajudando aos pinheiros a renascer dos seus pinhões.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:48

UMA LENDA DA FONTE VELHA

Segunda-feira, 25.08.14

Antigamente, na Fontinha, em frente à casa do Arionó, havia uma fonte, chamada de Fonte Velha, talvez porque ali, outrora e antes de haver, na Fajã Grande, água canalizada, teria existido ali uma fonte natural, resultante de uma nascente, situada algures, nos confins da terra. Todos os dias, ia ali muita gente buscar água para dar de beber aos animais, para lavar a casa e a roupa ou simplesmente para beber.

Contavam-se que costumavam aparecer, junto à fonte gente misteriosa que aparecia e desaparecia, feiticeiras que se sumiam debaixo da fonte e muitos outros encantos que o povo presenciava, sobretudo na noite de São João.

Entre as várias lendas e estórias acontecidas, junto à Fonte Velha, contava-se uma, em que certa noite, ao passar por ali um homem que ia de viagem para os matos, parou para beber água e encher uma bóia que levava consigo. Depois de beber quanta água lhe apeteceu, começou a encher a bóia que há algum tempo achara no mar, a fim de levar água consigo para beber durante a longa caminhada que ia fazer. Ao encher a bóia, virou-se para apanhar a rolha e tapá-la, mas quando se foi a voltar a bóia, sem que ele contasse, caiu-lhe, rolando sobre as pedras da calçada. Só que ao baixar-se, para a apanhar, em vez da bóia da água viu uma moça muito bonita que lhe perguntou:

 —  Dás-me água para beber?

 — Dou, sim senhora. E só esperar — respondeu o homem que, no entanto, ficou muito admirado por ver aquela rapariga desconhecida, sozinha, àquelas horas da noite, em busca de água para beber.

Como a bóia, ao cair, rolara e despejara toda a água que tinha dentro, o homem voltou costas à rapariga, a fim de voltar a encher a bóia na fonte. Depois de a encher por completo, até derramar por fora, voltou-se para dar de beber à rapariga mas já não a viu. Apercebeu-se, porém, de que ela tinha bebido água pela bóia, sem sequer lhe tocar, pois esta, estava só meia e ele tinha a certeza que a enchera e de não espalhara nem um pingo.

O homem ficou tão assustado e nervoso, que já não continuou a sua viagem. Regressou a casa e na manhã seguinte, foi atirar a bóia para o mar, pois nunca mais a quis usar, nem muito menos beber água por ela.

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publicado por picodavigia2 às 10:19

A FURNA DA RELVA DAS ÁGUAS

Terça-feira, 19.08.14

Meu pai tinha duas relvas nas Águas, ambas localizadas quase junto à rocha. As  “Águas de Lá”, assim se chamava a mais distante, encastoada ainda como que num pequeno declive da rocha, lá para os lados da Ribeira das Casas, era constituída por meia dúzia de belgas, sobrepostas umas às outras, mas muito pobres em erva e muito férteis em fetos e cana roca. As vacas odiavam-na e, só muito à força, para lá eram encaminhadas. As “Águas de Cá”, por sua vez, era bem mais verdejante no que à relva dizia respeito, com erva muito fresquinha e apetitosa, para onde as vacas desejavam, ardentemente, serem encaminhadas. Mas o que de mais interessante havia nesta relva, não para as vacas mas para mim que as ia lá levar e buscar, era uma enorme furna, na qual eu me refugiava, horas a fio, sobretudo em dias de grandes chuvadas. Com um piso térreo e paredes formadas por enormes pedras, a furna era coberta por uma laje ainda maior e mais ampla. Com o tempo, acumulara-se terra sobre a laje, onde nasceu erva, tornando o telhado da furna uma espécie de continuidade da pastagem, transformando-se num pedaço da relva. Apenas o declive do terreno, permitia que a entrada para a furna permanecesse aberta como se de uma porta se tratasse. A perfeição desta furna era tal que parecia ter sido construída por mão humana. Mas fora a natureza que ali a construíra, segundo uma antiga lenda, miraculosamente.

Segundo essa lenda, há muitos, muitos anos atrás, havia um casal que tinha uma filha Era uma família de posses, com a sua casa abastada e farta, com muitos animais domésticos, os quais ou ajudavam no trabalho do campo ou serviam de alimento. A paz e alegria reinavam naquela casa, alastravam pelos campos, a lua coalhava-a de uma luz suave e os animais cresciam, mansamente, espalhados pelos campos.

Mas, certo dia, uma grande tragédia veio alterar e destruir a alegria e a paz daquela casa. A filha, subitamente, engravidara e os pais furiosos, condenaram-na e espoliaram-na a ponto de a expulsar para sempre de casa. A rapariga deambulou dias e noites pelos campos, não tendo que comer nem onde dormir. Apenas se alimentava com plantas e frutos silvestres e dormia encostada às abas das paredes.

Na noite em que o filho nasceu, porém, ouviu um grande estrondo. Da Rocha das Águas caiam enormes pedras que, miraculosamente, ao chegar ao solo, se juntavam umas com as outras e se aglomeravam formando uma enorme furna, onde a rapariga, pouco depois, se recolheu com o seu filho. Juntando ervas e folhas de árvores fez uma pequenina cama onde o deitou. Os pais nunca mais a aceitaram nem dela quiseram saber e a rapariga viveu ali sozinha com o filho. Reza a lenda que todos dias chegavam ovelhinhas a oferecerem o seu leite para\alimentar o menino, as pombas traziam-lhe os seus ovos, da rocha desciam regatos de água fresca, ao lado dos quais floresciam árvores carregadas de frutos saborosíssimos e junto à erva, onde pastavam as ovelhas, cresciam tomates, alfaces e couves repolhudas. Conta ainda a lenda que todos os dias, aparecia um grande pedaço de pão de milho e um quarto de bolo junto à entrada da gruta, que um velhinho, às escondidas da madruga, ali ia depositar.

Quem não tiver medo e eu, quando criança, não tinha, pode, ainda hoje, se a furna lá estiver, entrar dentro dela, indo pela Canada das Águas, na direcção da rocha e depois voltar à esquerda, seguindo a íngreme vereda, paralela à Rocha, entrando no portal da antepenúltima relva, do lado contrário à rocha.

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publicado por picodavigia2 às 17:41

A LENDA DE SANTO ANTÓNIO DA ASSOMADA OU DA IMAGEM GUARDADA EM CASA DA SENHORA ESTULANA

Domingo, 17.08.14

Antigamente, na Fajã Grande, na última casa da Assomada que pertencia à Senhora Estulana, existia uma grande imagem de Santo António que, estranhamente, se dizia que estava ali guardada por não poder ou por não ter direito a estar na igreja, onde não só se guardavam mas também se veneravam muitas outras imagens de Cristo, de Maria e de alguns santos, incluindo uma do mesmo santo, mas bem mais pequena.

Segundo uma antiga lenda, a imagem estava ali, porque tendo-lhe sido feita uma promessa por uma jovem em agradecimento por o santo lhe ter arranjado casamento, este, no entanto, não foi tão feliz como a rapariga pretendia. Pelo contrário, pois, segundo a mesma lenda, algum tempo depois do casamento, o marido começou a tratar a jovem esposa muito mal, não lhe dando nem amor nem carinho, batendo-lhe, violentamente, mesmo durante a gravidez ou nos dias que se seguiam ao parto.

Certo dia a mulher deu à luz uma menina que, depois de crescer, cedo se apercebeu dos maus-tratos que o pai dava à mãe. Para resolver tão grave problema e aliviar o grande sofrimento de que a mãe era vítima, resolveu pedir ajuda a Santo António, simbolizado naquela imagem, De nada serviram os seus pedidos e preces, pois o santo não a atendeu e o problema continuou, pois em sua casa, todos os dias, continuavam a haver grandes zaragatas, após as quais o pai voltava a agredir a mãe com grande violência.

Só que notícia de que as fervorosas orações e preces da menina, em ordem a obter a paz e a felicidade entre os pais, não foram atendidas pelo santo, correu célere pela freguesia, ficando aquela imagem de Santo António em muitos maus lençóis, pelo que o povo decidiu que a aquela imagem nunca deveria ser colocada nos altares da igreja paroquial. Essa a razão por que ficou guardada naquela casa durante muitos e muitos anos, até que alguém decidiu, um dia mais tarde, mandar construir uma pequena ermida, no largo de Santo António, no cruzamento dos caminhos entre a Cuada e os Lavadouros, na qual foi colocada a imagem de Santo António da Assomada e onde permanece, pelos vistos, ainda hoje.

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publicado por picodavigia2 às 22:47

O CABEÇO DO CÃO SANTO

Terça-feira, 22.07.14

Conta uma lenda muito antiga que no mato da Fajã Grande, para os lados da Caldeirinha, antigamente, existia um pequeno cabeço, hoje impossível de se ver devido à vegetação que ali existe, em cima do qual existia uma pedra cuja forma fazia lembrar, em tudo, um enorme cão.

Ora, naqueles tempos, aqueles terrenos eram muito férteis e neles existiam boas e verdejantes pastagens que eram de todos mas não eram de ninguém. Assim os moradores dos lugares da Fajã, da Ponta e até da Cuada, levavam para ali as suas ovelhas, misturando-se as de uns com as dos outros.

Os animais viviam ali dia e noite, alimentando-se e reproduzindo-se. Os donos iam lá de vez em quando, para lhes tirar o leite, a lã, matando um ou outro para se alimentarem com a sua carne.

Os animais tinham nas orelhas marcas que identificavam a quem pertenciam, mas alguns moradores, no entanto, eram maus e ladrões, pelo que matavam animais que não eram seus e, por vezes, às escondidas, até tiravam leite e lã aos que não lhes pertenciam. Algumas vezes, sendo apanhados a roubar, provocavam zaragatas, bulhas e guerras entre uns e outros.

Mas tudo isso acalmou e deixou de haver homens a roubar ovelhas ou a tirar leite e lã às que não eram suas, porque, segundo contavam os que ali iam, sempre que o tentavam fazer, o cão começava a uivar em altos berros e atirava-se a eles, impedindo-os de assenhorear do que não era seu.

Essa a razão, ao que parece, por que começaram a chamar àquele lugar o Cabeço do Cão Santo.

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publicado por picodavigia2 às 09:58

A LENDA DA PEDRA VERMELHA

Sábado, 07.06.14

Na Fajã Grande, entre o Vale Fundo e o Espigão, havia um lugar chamado Pedra Vermelha, sobre o qual se contava a seguinte lenda:

Há muitos anos, dois jovens apaixonaram-se perdidamente, um pelo outro. Os pais, inimigos ferrenhos, opuseram-se ao casamento. No entanto, como os jovens teimassem em viver o seu amor, mesmo contra a vontade dos progenitores, estes furiosos, expulsaram-nos de casa, deserdaram-nos e obrigando-os a irem viver para um lugar ermo, bem longe do povoado. Os jovens, abandonados á sua sorte, caminharam até encontrar a enorme pedra em cuja aba se haviam abrigado. É que a pedra assinalava, precisamente, o local hoje chamado Pedra Vermelha, onde dois jovens, anteriormente e às escondidas, se encontravam para viver seu romance, afastados dos pais.

Ninguém sabe os nomes deles, nem muito menos os dos pais e possivelmente, nunca terão existido. Mas diz a lenda que passado algum tempo o pai da jovem, encontrando o rapaz matou-o, apertando o seu corpo junto ao tronco de uma árvore. O jovem morreu sem que ninguém pudesse ajudá-lo. Cuidava o facínora que, assim, a filha havia de regressar a casa. Diz a lenda que a jovem permaneceu escondida, sozinha, sem ninguém lhe por a vista e que chorou tanto, tanto, durante muito tempo sentada todas as noites sobre pedra e, com muito amor, que esta tomou a cor avermelhada que ainda hoje tem e lhe deu o nome. A rapariga dedicou aquele local aos que buscam encontrar o amor verdadeiro, pois muitas vezes, na sua dor, ela fez ali uma oração a Deus, pedindo que cada casal que, sentados naquela pedra, dessem um beijo de amor, passariam a ter a felicidade com a qual ela sonhou e que não conseguiu alcançar.

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A LENDA DO CABEÇO DA ROCHA

Quarta-feira, 04.06.14

Contava minha avó que o pai que a criou era um homem muito justo, bondoso e temente a Deus. Certo dia deslocou-se para uma terra que tinha na rocha, no lugar chamado Cabeço da Silveirinha. De repente foi acometido de uma doença súbita. Sentindo que a morte se aproximava, voltou-se para Deus, pedindo-Lhe perdão dos seus pecados. Nesse momento viu sobre uma pedra, que em meus tempos de criança ainda lá estava, uma imagem de Nossa Senhora que, estendendo-lhe as mãos o tentava ajudar e levar para o Céu. No meio de uma enorme aflição cuidou ele que entregaria ali, a Deus, a sua alma, morrendo naquele local, longe dos que o amavam e que ele também muito amava. De repente e sem que ninguém esperasse, um homem vindo de longe, apesar de acometido por enorme doença, aproximou-se, pegou-lhe às costas e trouxe-o até a casa, a fim de que morresse rodeado da família e dos amigos e sobretudo, se confessasse, comungasse e recebesse o Viático. No seu leito de morte, Nossa Senhora de novo lhe apareceu e, tomando-o, definitivamente,  pela mão, levou-o consigo para o Céu.

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publicado por picodavigia2 às 08:59

LENDA DE LISBOA NOVA

Sexta-feira, 25.04.14

Conta uma antiga lenda que há muitos, muitos anos vivia na freguesia da Fajãzinha um rapaz muito destemido e trabalhador. Todos os dias ajudava os pais, ora cavando e sachando os campos onde florescia o trigo, ora ceifando erva e fetos para o gado, ora acartando lenha para a mãe acender o lume, cozinhar os alimentos ou para aquecer o forno para cozer bolo e pão.

Ora um certo dia, em que o rapaz foi buscar um feixe queirós ao mato para a mãe acender o lume, ao descer a ladeira dos Bredos, enquanto assobiava, distraidamente, olhou para o mar e viu uma ilha, com uma cidade muito grande e bonita, como ele imaginava que seria a cidade de Lisboa. Desviou os olhos por um momento e, ao voltar a olhar na mesma direcção, já não viu nada. Ficou tão espantado que passou o caminho o mais depressa que pôde e quando chegou cá baixo, junto do povoado, ofegante, só conseguia dizer:

 - Eu vi Lisboa Nova! Eu vi Lisboa Nova ali por baixo do Portal, no mar.
Mas isso, afinal, não era novidade para as pessoas mais velhas da freguesia que muitas vezes já tinham visto a ilha encantada no mar, onde diziam que vivia el-rei D. Sebastião. Disseram-lhe então que ela costumava aparecer sempre, quando a noite de Natal calhava numa sexta-feira, e que se alguém fosse lá nessa noite a ilha ficaria desencantada para sempre.

O rapaz sonhou o resto de toda a sua vida em desencantar a ilha, numa linda Noite de Natal, mas nunca o conseguiu e por isso ainda hoje o povo, não só o da Fajãzinha mas até o da Fajã, acredita que existe, a Lisboa Nova, encantada no mar, por fora do Portal, na freguesia da Fajãzinha.

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publicado por picodavigia2 às 22:43

A VELHA DO CORVO

Segunda-feira, 21.04.14

Em tempos que já lá vão, na Fajã Grande e creio que em toda a ilha das Flores, para justificar a chegada dos recém-nascidos e com o objectivo de prolongar até à idade adulta a inocência das criancinhas, ocultando-lhes todo o processo reprodutivo e ginecológico inerentes à maternidade, dizia-se que os meninos vinham do Corvo, trazidos por uma Velha, numa cestinha muito enfeitadinha. Ao chegar à freguesia, vindo não se sabia como, mas de forma miraculosa, a Velha do Corvo colocava a cestinha na soleira da porta da casa, por ela escolhida, conforme muito bem queria e entendia. Batia à porta, a alertar os donos para a encomendinha e zarpava novamente em direcção à ilha vizinha, em alta velocidade, sem que ninguém lhe pusesse a vista em cima. Uma atrevida, esta velha!

Ora faz hoje precisamente sessenta e oito anos que a dita Velha resolveu mais uma vez empreender uma viagem mágica do Corvo às Flores, trazendo consigo, na sua cestinha, desta feita, um menino. E de que se havia de lembrar a dita Velha? Não sei se por capricho ou por esquisitice, o diabo da Velha decidiu-se por levá-lo à Fajã Grande, depositando-o ali para os lados da Assomada, precisamente numa casa, à esquerda de quem descia aquela rua, logo a seguir ao Poço onde as vacas bebiam água, poisando-o, suave e carinhosamente, fora da porta da sala. A Velha abalou sem que ninguém a visse, mas o menino lá ficou… Embora já tendo três filhotes, os donos da casa, ao que parece, não se importaram e até terão ficado muito felizes e contentes com a visita da Velha e criaram o rebento, que ela ali depositara, com muito amor e carinho.

Diz, quem o viu na altura, que era um menino muito bonito, alvo da neve e tinha olhos azuis e cabelos castanhos, tal e qual a um menino que vinha descrito no livro de leitura da 1ª classe, donde a Velha, ao que parece, terá tirado cópia do pequerrucho e que, por mera coincidência, também, se chamava “Carlitos”.

Obrigado, Velha!...

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publicado por picodavigia2 às 00:04

A LENDA DO FOLAR DA PÁSCOA

Sábado, 19.04.14

Conta-se que, há muitos, muitos anos, numa aldeia de Portugal, vivia uma jovem chamada Mariana que desejava casar cedo. Tanto rezou, tanto implorou, tanto prometeu e tanto pediu a Santa Catarina que a sua vontade se realizou e logo lhe surgiram dois pretendentes: um fidalgo rico e um lavrador pobre, ambos jovens e belos. A jovem voltou a pedir ajuda a Santa Catarina para que a ajudasse a fazer a escolha certa. Enquanto rezava e meditava, bateu-lhe à porta Amaro, o lavrador pobre, a pedir-lhe uma resposta e marcando-lhe como data limite para a escolha da jovem, o Domingo de Ramos. Algum tempo depois apareceu o fidalgo a pedir-lhe também uma decisão. Mariana não sabia o que fazer.

No entanto, chegou o Domingo de Ramos mas Mariana ainda nada tinha decidido. Nesse mesmo dia, uma vizinha, muito aflita, foi avisá-la de que o fidalgo e o lavrador se tinham encontrado quando iam a caminho da sua casa e que, naquele momento, travavam, entre si, uma luta de morte. Quem vencesse havia de ficar com ela, como esposa. Muito assustada, Mariana correu até ao lugar onde os dois pretendentes se defrontavam. Implorou de novo a protecção de Santa Catarina e foi então que, por sua intercessão, decidiu escolher Amaro, o lavrador pobre, para seu marido.

Na véspera do Domingo de Páscoa, no entanto, Mariana andava atormentada, porque lhe tinham dito que o fidalgo apareceria no dia do casamento para matar Amaro. Mariana rezou, novamente, a Santa Catarina e foi pôr um ramo de flores no seu altar. Quando chegou a casa, verificou que, em cima da mesa, estava um grande bolo recheado com ovos e rodeado de um ramo de flores, precisamente o mesmo ramo que, momentos antes, havia colocado no altar de Santa Catarina. Correu para casa de Amaro, mas encontrou-o no caminho e este contou-lhe que também tinha recebido um bolo semelhante, em sua casa. Pensando ter sido ideia do fidalgo, dirigiram-se a sua casa para lhe agradecer, mas este também tinha recebido o mesmo tipo de bolo. Mariana ficou convencida de que tudo tinha sido um milagre de Santa Catarina, para que cessassem ódios e invejas e todos vivessem em paz e amizade.

A notícia espalhou-se e, a partir de então, começou a cozer-se um bolo semelhante, por altura da Páscoa, que passou a chamar-se folar, nome originado do latim “florare”, tornando-se numa tradição que se cumpre, todos os anos, para celebrar a amizade, a paz e a reconciliação. É por isso também que, durante as festividades cristãs da Páscoa, os afilhados costumam oferecer, no Domingo de Ramos, um ramo de flores aos padrinhos, a fim de que estes, no dia de Páscoa, lhes ofereçam o folar, que com os tempos passou a ser uma prenda de qualquer espécie, mantendo-se, no entanto, a tradição de cozer o folar por altura da Páscoa

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publicado por picodavigia2 às 19:05

A LENDA DA BAIXA DAS SETE MARIAS

Quarta-feira, 05.03.14

Antigamente, na ilha das Flores era costume serem as mulheres a ir às lapas, indo, geralmente, em grupo a fim de que em caso de perigo ou de alguma queda se pudessem proteger umas às outras. O conduto, naqueles tempos rareava e as lapas eram uma boa alternativa para ao jantar acompanhar o pão, as batatas ou os inhames. Se apanhavam muitas guisavam-nas como molho Afonso, ou com pão de milho esmiolado. Se apanhavam poucas faziam tortas de ovos, juntando-lhe salso e ramos de cebola picados

Na Fajã Grande, talvez para alertar as mulheres que iam às lapas para os perigos do mar, contava-se que, antigamente, num certo dia, sete raparigas das Lajes, todas de nome Maria, muito comum na ilha, combinaram ir às lapas para uma baixa que costumava ter muitas lapas e que ficava por fora do Mosteiro.

O mar estava manso e não havia muito perigo. Aguardaram que a maré descesse e começaram a apanhar lapas. Mas quando estava cheia, a maré cobria aquela baixa e, por isso, ela tinha muitos limos e sargaço escorregadio. De vez em quando, vinha uma vaguinha maior que, respingando na baixa a água domar salpicava as roupas das mulheres. Se não tivessem cuidado ficariam todas molhadas. Por isso, muito alegres e divertidas com aquele vai e vem do mar, iam correndo para cima e para baixo e saltando  em cima da baixa.

Mas, de repente, sem elas se aperceberem, veio uma vaga maior. Ao fugir uma das mulheres escorregou sobre os limos e caiu à água, mas não sabia nadar. Vendo-a aflita, as companheiras, que também não sabiam nadar, nervosas e assarapantadas começaram a atirar-se ao mar uns atrás das outras para a salvar. Mas o mar, de repente, tinha começado a puxar muito e a ficar mais “brado” e as sete Marias, umas atrás das outras foram desaparecendo, envoltas pelo remoinho de água, sem que se pudessem salvar, morrendo todas ali.

As famílias, os vizinhos choraram uma desgraça tão grande. Nunca tal semelhante havia acontecido nas Lajes. Dizem que durante muitos anos as mulheres nunca mais se atreveram a ir às lapas àquele lugar onde as sete morreram afogadas e, por isso, passaram a chamar-lhe aquela pedra malfadada a Baixa das Sete Marias, nome pelo qual, ainda hoje, o povo da ilha das Flores conhecem aquela baixa do Mosteiro.

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publicado por picodavigia2 às 19:49

A LENDA DE BOIEIRO

Quinta-feira, 27.02.14

Especialmente na primavera, é possível observar, relativamente perto da Ursa Maior, em noites claras e de céu estrelado, uma das mais brilhantes estrelas do firmamento chamada Arcturus, situada no vértice inferior da constelação Boieiro a que o próprio Homero faz referência na Odisseia.

Esta constelação, ao longo das noites, movimenta-se, embora muito lentamente, na abóbada celeste, de este para oeste, dando a ideia de um pastor ou criador de gado a caminhar, conduzindo um rebanho ou uma manada. Essa a razão por que aquela constelação houve jus deste nome – Boieiro.

A origem deste nome prende-se, com uma interessante lenda, contada antigamente, segundo a qual, Boieiro era um jovem muito sensato e com um grande sentido de dedicação e de entrega aos outros, mantendo uma delicada consciência social. Certo dia, descobriu que afinal os habitantes do planeta Terra que ainda viviam um puro e original nomadismo, se encontravam em grandes dificuldades para obter os alimentos necessários à sua sobrevivência, uma vez na procura dos mesmos, tinham que se deslocar de região, o que nem sempre era possível, devido às distâncias, ao caudal dos rios, às tempestades, etc., etc.. Boieiro decidiu, então, apoiá-los, a fim de que se tornassem capazes de se ajudarem uns aos outros, cultivando eles próprios os alimentos com que haviam de sobreviver. Para tal, construiu o primeiro arado, enviando-o para a Terra. Desde então, os homens conseguiram lavrar, semear e cultivar os campos, produzindo o seu próprio alimento, tornando-se auto-suficientes e sem terem necessidade de se deslocarem de uns sítios para outros. Devido a tão grande benefício que Boieiro disponibilizou à humanidade, os deuses decidiram recompensá-lo, dando-lhe a honra de ser colocado, para sempre, no céu, sob a forma de constelação, ao lado do arado que ele próprio enviara para a Terra, ou seja, a Ursa Maior, também conhecida como o Arado, por ter uma forma semelhante a este importante instrumento agrícola.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:40

A LENDA DAS BANDEIRAS DO SENHOR ESPÍRITO SANTO – UMA BRANCA OUTRA VERMELHA

Quinta-feira, 13.02.14

Contava-se antigamente, na Fajã Grande, uma lenda, segundo a qual, há muitos, muitos anos a população da maioria dos povoados da ilha das Flores tinha caído numa grande falta de respeito para com o seu semelhante: havia desavenças contínuas, zaragatas permanentes, guerrilhas diárias e todo o tipo de abusos, assaltos, roubos e faltas de respeito. Nas igrejas, nos púlpitos e ambões os padres pregavam contra tais depravações e maus costumes, pedindo, aos fiéis, penitência e arrependimento, ao mesmo tempo que anunciavam castigos e punições divinas, eminentes. Mas o povo não se ralava e muito menos se emendava. Pelo contrário, continuava com os seus abusos e desavenças, maltratando-se e insultando-se todos, uns aos outros.

Certo dia levantou-se uma grande tempestade, que aos poucos foi aumentando até se transformar num terrível e gigantesco ciclone. Começaram a soprar ventos fortíssimos, acompanhados de trovoadas medonhas e de chuvas intensas e diluvianas. Toda a ilha era completamente fustigada por aquele terrível temporal, temendo-se que havia de destruir tudo o que de construção humana existia na ilha. Uma tragédia como nunca se vira. Parecia o fim do mundo! As pessoas assustadíssimas e sem saber como se protegerem, cuidavam que aquilo era o castigo anunciado pelos padres, para os punir pelos pecados que tinham cometido anteriormente.

Como a intempérie não cessasse e a segurança do povo e dos seus haveres cada vez mais periclitasse, muitas pessoas começavam a chorar, a rezar e a pedir perdão a Deus. Impotentes, perante a força temível daquele flagelo, uns cuidavam que era o fim dos seus dias, enquanto outros desorientados, corriam de um lado para o outro numa tentativa vã de encontrarem abrigo e de se salvarem. Foi então que um frade eremita, que vivia isolado dos povoados, numa pequena e pobre choupana, muito religioso e temente a Deus, pegando na coroa do Divino Espírito Santo que se encontrava no altar duma pequenina igreja, saiu com ela em procissão, rezando e fazendo preces a Deus para que parasse a tempestade.

 Diz a lenda que era tanta a fé do povo que o acompanhava e tanta era esperança de que o Senhor Espírito Santo os havia de os aliviar daquela tormenta e de os salvar de tão grande borrasca, que pouco depois, o Sol surgiu no céu, iluminando toda a ilha com uma luz ténue e suave, enquanto cessava o vento, paravam os trovões e os relâmpagos e a chuva estiava por completo. A população, ainda chorosa, atónita, estarrecida de medo e admiração, começou a agradecer ao Divino Espírito Santo o milagre que acabava de fazer, salvando-a de tão horrorosa tormenta. O povo começou, então, a dar muitas esmolas de pão e carne aos mais pobres, por ocasião do dia de Pentecostes, não só para agradecer o milagre, mas também para se redimir, prometendo ainda que o havia de fazer todos os anos, pela festa do Pentecostes, enquanto o mundo fosse mundo. Foi então que, para que nunca mais olvidassem aquela promessa, mandaram fazer duas bandeiras, uma branca para não se esquecerem do pão e outra vermelha para se lembrarem da carne. Essa a razão porque em todos os impérios do Espírito Santo da ilha das Flores, existem duas bandeiras, uma branca simbolizando o pão e outra vermelha a simbolizar a carne.

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publicado por picodavigia2 às 13:53

A LENDA DO CALHAU DAS FEITICEIRAS

Segunda-feira, 27.01.14

Na Fajã Grande, ilha das Flores, no cimo da ladeira do Covão, no caminho que dava para o Outeiro Grande e antes do cruzamento da Pedra d’Água, existia, e provavelmente ainda hoje existe, um enorme e estranho calhau, que o povo chamava Calhau das Feiticeiras.

Tratava-se de um enorme e negro tufo de forma oval, encravado na rocha que ostentava desde a base até ao cume, mais de uma dúzia de pequenas pegadas, cuja elegância, delicadeza e graciosidade pareciam ser denunciadoras de que pés femininos por ali teriam passado, vezes sem conta.

Como este, tantos outros montes, morros, ribeiras e até ilhéus, da ilha das Flores estavam, antigamente e muito provavelmente ainda hoje estarão repletos de lendas e histórias que os seus nomes, geralmente, guardam e que umas vezes nos levam aos tempos remotos do povoamento da ilha e noutras nos transportam aos tempos primordiais e pré-históricos da civilização da Atlântida ou da sua destruição.

Reza uma lenda muito antiga que um dos mais altos picos montanhosos da Atlântida era o Vamilkmar. Durante os cataclismos, os terramotos e os vulcões que destruíram aquele mítico continente, situado no meio do Atlântico, um estranho gigante, conseguindo a muito custo escapar à fúria de Analtredevica, a deusa dos cataclismos e terramotos, ter-se-á refugiado naquele local, ficando, durante milhares de anos, adormecido, no meio do Oceano. Os enormes cataclismos e temíveis terramotos que ali se verificaram, antes, durante e depois da formação da ilha das Flores, foram lentamente alterando o colossal e gigantesco atlante, acabando por transformá-lo naquele rochedo, ali plantado. Só que e à medida que o estranho ser se agigantava para se defender fosse do que fosse, enquanto um dos seus sentidos ou capacidades se desenvolvia extraordinariamente e de forma gigantesca, os outros adormeciam e como que se atrofiavam. Na sua luta titânica para sobreviver, escapar às violentas tempestades e orientar-se durante os espessos nevoeiros, Vamilkmar exercitava de tal modo e com tanta intensidade a visão que o ouvido, o olfacto, o gosto, o tacto e a própria inteligência se ofuscavam. Para sobreviver às constantes tempestades e orientar-se nas noites escuras das tremendas catástrofes, no negrume e libertar-se da fúria dos vulcões e dos densos nevoeiros matinais, o gigante desenvolvia excessivamente a vista, enquanto o ouvido, o olfacto, o gosto, o tacto e a inteligência se atrofiavam. Perante os estrondos aterrorizadores dos trovões, os rugidos roufenhos das tempestades e o bramir altivo do oceano era o ouvido que se excedia enquanto todos os outros se atrofiavam. Quando os enormes vulcões se abriam e jorravam rios de enxofre de cheiro nauseabundo e atrofiante e das altas montanhas jorravam rios de lava mefítica, era a vez do olfacto se desenvolver na sua máxima capacidade, aniquilando totalmente todas as outras capacidades. O mesmo acontecia quando gosto saboreava os amargos sabores das maresias provenientes da gigantesca agitação dos oceanos ou o tacto se defendia dos gelos glaciares ou das chuvas e dilúvios torrenciais. Por fim e depois de ensaiar constantes e necessárias tentativas de sobrevivência, era a inteligência do gigante que crescia, crescia até se sobrepor e adormecer todas as suas outras capacidades sensoriais.

Duraram séculos e séculos, estas tentativas de sobrevivência de Vamilkmar foram tantas, tão contínuas e tão frequentes que o gigantesco corpo se foi alterando na sua forma humanóide. O seu corpo adquiriu uma forma opaca, dura e teúrgica e a sua cabeça foi-se ramificando e desarticulando de tal modo que se lhe foram crescendo ramificações, mais tarde transformadas em cabeças, num total de seis – cinco para cada um dos sentidos e uma sexta para a inteligência. Com o serenar das tempestades e das intempéries, com o apaziguar dos trovões e tempestades, com o aplacar dos vulcões e terramotos, com amainar das ondas e maresias, com o aquietar dos ventos, com o diminuir de chuvas e dilúvios, porém as cabeças do gigante foram adormecendo lentamente, atrofiando-se e juntamente com o seu corpo transformaram-se naquele enorme e gigantesco tufo.

Passaram dezenas, centenas e milhares de séculos e o gigante ali permanecia em plena e constante hibernação, enquanto, lentamente e ao seu redor, a ilha ia adquirindo a forma que hoje tem, não sem que antes voltassem tempestades violentíssimas, cataclismos abissais, tremores de terra e maremotos contínuos que, apesar de fortíssimos e muito violentos, não conseguiram ressuscitar o gigante adormecido, transformado em tufo. O passar dos anos havia-o empedernido de tal maneira que o seu corpo nunca mais perdeu aquela forma rochosa e pétrea. Apenas as cabeças sobreviveram, mas como não tinham corpo que as alimentasse, que lhes desse vida, foram autonomizando-se e acabaram por transformar-se em belos seres com formas estranhas - as feiticeiras - que se subiam, desciam e se escondiam nas abas do calhau, aparecendo apenas ao crepúsculo. Como não se podiam afastar do tronco adormecido do gigante, nem aparecer durante o dia, passavam desde o lusco-fusco do anoitecer até ao crepúsculo da madrugada, subindo e descendo, descendo e subindo aquele enorme gigante adormecido, deixando-lhe no dorso as indeléveis pegadas do seu contínuo, permanente e secular subir e descer.

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publicado por picodavigia2 às 10:06

A LENDA DA ANTIGA PONTE DA RIBEIRA GRANDE

Quarta-feira, 22.01.14

Contava-se, noutros tempos, uma lenda que, de tão antiga, na década de cinquenta, quer na Fajã Grande quer na Fajazinha, já quase ninguém se lembrava dela. Dizia-se que uma ponte que terá existido, antigamente, sobre a Ribeira Grande, foi construída pelo diabo e, apenas, durante uma noite.

Segundo a lenda um rapaz da Fajã, chamado Inácio, ao atravessara Ribeira Grande, numa noite de grande tempestade, quase se afogou, quando levado pelo forte caudal da ribeira teve que se atirar à água e tentar passar a nado para a outra margem. Pretendia ele ir visitar a sua namorada que vivia na Fajãzinha, mas como não havia nenhuma ponte que unisse as duas margens e permitisse que os transeuntes atravessassem a ribeira em segurança, sobretudo em dias de forte caudal, teve que a atravessar a pé e a nado. A rapariga chamava-se Marília e era filha do capitão Gervásio de Fraga e de sua mulher Jesuína de Jesus e era muito bonita e inteligente. Como a casa do capitão ficava do lado norte da Fajãzinha, perto da Ribeira Grande e como a moça já estava à janela de vigia, à espera de Inácio, assustada com aquele temporal, ao ouvir gritos de agonia, percebeu logo que eram do seu bem-amado e, dando-se conta de que havia acontecido alguma desgraça, instintivamente, prometeu a sua alma ao diabo em troca dele construir, de imediato, uma ponte para ela poder atravessar a ribeira, salvar o seu namorado ou, pelo menos, ver o seu corpo, mesmo que estivesse já morto.

E eis senão, quando Lúcifer lhe apareceu e confirmou, conforme o pedido, que o faria a ponte, mas em troca da sua alma. Marília, agora já arrependida do que prometera e muito apavorada com o que lhe poderia acontecer, enchendo-se de coragem, enfrentou-o e pôs-lhe uma condição, que o diabo, temendo perder aquela alma, aceitou de bom grado: que a ponte teria que estar concluída antes do cantar o galo no curral do vizinho, pois não queria que as pessoas conhecessem a verdade e soubessem que fizera um pacto com Satanás. O diabo começou, de imediato, a construção da ponte mas quando o galo cantou ainda faltava construir um pequeno pedaço, do lado da Fajã, mas isso não impediu que Marília pudesse atravessar para a outra margem da ribeira e salvar o seu amado. Mas porque não cumpriu exactamente o combinado, o demónio não pode possuir a alma dela, e assim a rapariga não só fugiu às garras de Satanás, como também salvou o seu namorado, com quem casou, algum tempo depois e, como reza a lenda, viveram muito felizes para sempre.

Quanto à ponte, consta que uma enorme enxurrada, pouco dias depois, a derrubou, desfazendo-a para sempre, pois era “obra do diabo”.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:14

A LENDA DAS AMENDOEIRAS EM FLOR

Terça-feira, 21.01.14

Conta-se que há muitos séculos, antes de Portugal ter nascido, no tempo em que o Al-Gharb (Algarve) ainda pertencia aos Árabes ou Mouros, reinava naquele território um jovem e audaz monarca de nome Ibne-Almundim, o famoso valido de Allah, porque nunca perdera uma batalha ou, sequer, sofrera uma derrota e era o mais temido dos reis mouros do seu tempo.

Ora num dia, após mais uma das suas retumbantes vitórias sobre os reis cristãos do norte da Península, aconteceu que o facínora vislumbrou uma linda princesa muito loura, de olhos azuis e de porte altivo, filha de um rei que havia sido derrotado por ele próprio. Gilda era o nome desta menina de rutilante beleza e que, de imediato, prendeu a atenção daquele rei árabe. Gilda era princesa num reino do Norte e filha de rei cristão. Após a batalha, Ibne-Almundim raptou-a, levando-a consigo para o seu longínquo reino do Al-Gharb. Não obstante, a sua beleza fulgurante, Gilda tinha uma personalidade forte e bem marcada e não se mostrava com medo e, por isso, procedeu, no seu relacionamento com ele, não como esposa mas sim com uma aguda consciência de que era sua prisioneira ou escrava, embora nunca se esquecendo da sua condição de princesa. Obedecia ao rei mouro, frisando sempre a relação de obediência e escravidão que a unia a ele, uma vez que ele próprio a raptara e fizera prisoneira.

Cansado de possuir a sua amada desta forma tão pouco natural e desejando-a, antes, como esposa de verdade, lbne-Almundim, finalmente, um dia, soltou-a e deu-lhe liberdade para ela ir onde quisesse e fazer tudo quanto lhe apetecesse. Um sorriso de gratidão, simpatia e confiança foi a resposta de Gilda, ao seu desejo mais íntimo. Todavia, a reacção da bela princesa a este acto inesperado, foi bem contrária à vontade e intenção do rei mouro que, de governante alegre, poderoso e invencível, passou a andar sombrio, sorumbático e com demoradas e excessivas crises de mau humor. Havia um sentimento que não só limitava a sua força e espírito de herói mas que também o sufocava e oprimia: era o desejo e a necessidade de voltar a ver Gilda, de lhe falar, de a ouvir, de a ter como verdadeira esposa. Deixando-se vencer pela paixão, Ibne-Almundim foi ter com Gilda e revelou-se-lhe como ninguém o conhecia, despido da fama, do dinheiro, do respeito, do espírito bélico e envolvido num tom de voz amiga, doce e meiga. Perante o pedido do rei árabe para ela ser sua mulher, Gilda rendeu-se às suas palavras e a festa da boda, de grande aparato e sumptuosidade, logo ocorreu, com gente de todos os reinos, carregados de preciosas oferendas, trovadores e músicos de terra distantes, bailarinas de corpos ondulantes que espalhavam magia pelo ar. No último dia da festa, lbne-Almuindim deu pela falta de Gilda e sem hesitar foi procurá-la, mas encontrou-a doente, quase morta, ainda mais branca do que habitualmente e inundada em lágrimas. Tentando responder às perguntas do seu amado e sossegar o seu espírito, Gilda não conseguiu levantar-se. Custava-lhe a falar, sentia que ia morrer e não percebia, agora que estava livre, por que ficara assim mergulhada numa prostração, deixando de ouvir as palavras, súplicas ou lágrimas de lbne-Almundim.

Em pânico e completamente desorientado, o jovem rei árabe reuniu no palácio todos os sábios e curandeiros do reino, mas nenhum lhe disse o que os seus ouvidos queriam ouvir. Vencido pela primeira vez na vida, e já sem esperança, o rei recebeu a visita de um velho prisioneiro também das terras do norte, antigo súbdito do pai de Gilda que lhe queria falar. Este homem velho não era um sábio, mas era um poeta e afirmou que lhe ia revelar a causa da doença da jovem e bela princesa, não porque ele merecesse, mas por causa de Gilda. Depois de ver o velho, os olhos de Gilda sorriram e ela voltou a falar. O velho animou-a e disse-lhe que se havia de curar. Ouvindo a conversa de ambos, Ibne-Almundim conduziu o velho até ao terraço e este confessou-lhe que a doença de Gilda era a nostalgia, ou seja, a bela princesa, simplesmente, tinha saudades da neve do seu país distante e longínquo e que naquela altura do ano se cobria de neve e enfeitava de branco os campos assim como as terras até onde os olhos conseguiam alcançar. Estupefacto, mas já alimentado de esperança, o rei sarraceno não hesitou quando o velho poeta lhe disse que ele só precisava de fazer uma coisa para curar Gilda: mandar plantar, em todo o seu reino, e muito especialmente ali diante do seu palácio muitas amendoeiras porque estas, ao florirem, com as suas belas flores brancas, dariam a ideia de neve, aos olhos saudosos da princesa e ela curar-se-ia. Assim foi feito e assim aconteceu, pelo que a alegria da princesa voltou a inundar o palácio e a beleza das amendoeiras começou a enfeitar as terras do Algarve.

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publicado por picodavigia2 às 17:24





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