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A CALDEIRINHA

Terça-feira, 12.08.14

A Caldeirinha era um dos maiores e mais interessantes lugares da Fajã Grande. Situava-se bem lá no alto, quase a tocar os céus, nos matos da Ponta, a norte da freguesia, pelo que, consequentemente, fazia fronteira, a norte, com a vizinha freguesia de Ponta Delgada, já pertencente ao concelho de Santa Cruz. A leste, a Caldeirinha ladeava com o Queiroal e o Bracéu, a oeste com o Risco e a Sul prolongava-se até á à beira da Rocha, fazendo fronteira com as rochas das Covas, do Vime e da Ponta

A Caldeirinha, apesar de se situar nos matos, num enorme descampado, era uma zona de boas pastagens, por conseguinte, grande parte do seu território pertencia a proprietários particulares, residentes na Ponta que tinha ali grandes relvas, separadas uma das outras por gotões e valados, onde floresciam densos bardos de hortênsias e para onde levavam o seu gado, mantendo-o ali, dia e noite, sobretudo nos meses de verão Mas outra parte da Caldeirinha, maior e mais a norte, era concelho, isto é, era território comunitário, onde pastavam em comum contubérnio as ovelhas dos residentes na Ponta e de um ou outro proprietário da Fajã.

Situado numa zona montanhosa, o lugar da Caldeirinha era formado por alguns cabeços, entrelaçados uns com os outros e com um enorme vale, no centro de todos, que lhe dava a forma de uma espécie de caldeira, sendo essa, muito provavelmente, a razão de ser do seu nome, pese embora seja mais difícil de explicar a razão de ser do recurso ao diminutivo. Talvez este nome lhe adviesse do facto de em tempos idos, por ali terem existido vestígios de uma pequena cratera que, vista, cá de baixo, do centro do povoado, se assemelhava a uma espécie de pequena caldeira, embora sem água, caso não raro na ilha das Flores, onde existia e ainda hoje existe uma caldeira sem água, mas não deixando por isso de ser chamada Caldeira Seca.

Debruçado sobre as encostas dos matos da Ponta, ali ao lado do Queiroal e como que emparelhada com ele, quase todo o território da Caldeirinha era visível da Fajã, de onde se podia observar o próprio gado que ali pastava.

Sob o ponto de vista meteorológico a Caldeirinha, aparentemente, constituía uma espécie de indicador de chuva, por quanto, nuvens escuras derramadas sobre a Caldeirinha era prenúncio de que vinha aí chuva. Além disso, quando começava a chover lá no alto da Caldeirinha, o que era frequente, pouco depois chovia, cá em baixo, no povoado.

Mítico, lendário e enigmático o lugar da Caldeirinha era de verdade um dos mais belos lugares da Fajã, pese embora o acesso ao mesmo fosse muitíssimo difícil, quase impossível. Do lado do Queiroal não havia caminhos ou veredas que lá chegassem, o mesmo acontecendo das bandas do Risco, por onde os homens da Ponta passavam, mas conduzindo o seu gado através de pastagens. Apenas pela Rocha do Vime havia uma vereda, mas muito íngreme e difícil de subir.

Situada a 21° 59’ de longitude oeste e a 39° 25’ de latitude norte, a ilha das Flores é bastante montanhosa, tendo no Morro Alto a sua maior elevação, com 914 metros de altura. A Caldeirinha ficaria a cerca de metade desta altitude.

O rochedo que envolve o lugar da Caldeirinha revela-se muito vigoroso, característica comum a todo o relevo aa ilha e que se cuida ser fruto duma actividade combinada de vários cones vulcânicos rondando os 700-800 metros de altitude, posteriormente sobreposta com a de alguns cones menores. Daí resultou uma estrutura planáltica em dois degraus, que se prolonga até à costa. No patamar Norte, desenvolvido a uma altitude média de 600-700 metros, onde a vastidão, o silêncio, a tranquilidade e a homogeneidade dos tons verdes tomam conta da paisagem, encontra-se o Morro Alto, o Pico da Burrinha e, ainda, o da Testa da Igreja e o Pico da Sé. No patamar inferior, a Sul, com altitudes entre os 500-600 metros, os aparelhos vulcânicos são mais pequenos e modernos. Nas zonas aplanadas envolventes dos cones encontram-se lagoas, antigas crateras de afundamento, rasas ou fundas, com água acumulada na sua parte inferior.

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publicado por picodavigia2 às 19:26

A PEDRINHA

Sexta-feira, 01.08.14

A Pedrinha era um outro interessante lugar dos matos da Fajã Grande. Interessante não tanto pelo que significava para a população, em termos de aproveitamento económico, mas pelo nome. Como grande parte deste lugar era atravessado pelo trilho que ligava a Fajã Grande a Santa Cruz, ali havia uma pedra que, apesar de pequena, possuía um excelente aba que servia de abrigo milagroso a quantos passavam por ali, em dias de chuva. Era pois um lugar mítico, quase milagroso para os transeuntes, uma vez que os protegia de uma molha que haviam de suportar durante o resto do dia.

A Pedrinha ficava para além da Burrinha e da Água Branca, já quase no concelho de Santa Cruz e era terreno de ninguém, isto é não havia ali propriedades privadas. Era concelho. Do seu solo apenas nascia erva, mas de fraca qualidade, até porque cheia de montes de musgo e de burrecas. Essa a razão por que quase ninguém para ali se deslocava a não ser os que, por necessidade, tinham que se deslocar a Santa Cruz.

A Pedrinha, assim como a Burrinha e outros lugares ao redor serviam de pastagens das ovelhas bravas que andavam soltas, a pastar nos matos e que eram recolhidas apenas nos dias de fio. Era nestes que por ali passavam muitos homens, acompanhados por cães, a recolhê-las no curral, a fim de as tosquiar.

Pedrinha, mais um antigo lugar da Fajã Grande perdido, no tempo, quiçá no espaço e na memória das gentes.

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publicado por picodavigia2 às 09:33

O POCEIRÃO

Terça-feira, 29.07.14

Encastoado entre as abruptas e negras rochas do baixio, ligado a terra pelo Caneiro do Porto e pelo Varadouro e quase literalmente tapado do oceano pelo Calhau da Barra, o Poceirão impunha-se, na década de cinquenta como uma espécie de ex-libris de toda a orla marítima da Fajã Grande, quiçá de toda a costa ocidental da ilha das Flores.

Situava-se no lugar do Porto e, por isso, a ele se tinha acesso pelo principal e mais importante caminho da freguesia, que a atravessava de sul a norte, iniciando-se no cimo da Assomada, para terminar a uns escassos metros mais além junto ao Farol e ao Cais. As rochas lávicas que o cercavam, a sua forma quase redonda, com algumas ramificações onde sobressaía a que dava acesso ao Porto Velho, o fecho da Barra e a tranquilidade habitual das suas águas davam-lhe semelhança a uma enorme e gigantesca poça, uma espécie de piscina natural. Por isso lhe chamavam o Poceirão.

Do lado norte, a rocha de lava era mais baixa mas menos rectilínea. Aí proliferavam pequenas enseadas, minúsculos ilhéus, inúmeros caneiros e poças, povoados de caranguejos, moreias, polvos, cabozes, mujas e camarões esverdeados, que recolhidos em cestas, serviam de isca aos inúmeros pescadores que demandavam aquele local, na mira de rateiros, sargos, peixes-reis, carapaus e gorazes. No caso das vejas, que as havia também ali em abundância, a isca era moira que deveria ser apanhada noutras paragens. A sul, porém, o rebordo era alto, abrupto e escarpado, pouco utilizada por pescadores ou nadadores, formando, do lado de terra, uma espécie de baia, protegida de ventos e intempéries, onde, normalmente, era apoitada a Santa Teresinha, a gazolina utilizada na caça à baleia. A leste uma clareira onde se situava o varadouro e, mais no interior o mítico e enigmático Caneiro do Porto, onde a ganapada da freguesia se iniciava na natação mas que, em tempos de debulha do trigo na eira, situada um pouco mais acima, também servia para despejo dos dejectos dos animais que, circulando ao redor do moirão de olhos tapados, puxavam o trilho.

O Poceirão, não era utilizado apenas pelos pescadores de pedra e cana. Havia outros, mais afoitos que ali mergulhavam, sobretudo na mira de polvos e cavacos que abundavam, sobretudo, na parte mais exterior. O lado sul, entre o Caneiro e a baía onde se apoitava a Santa Teresinha, formava uma interessante plataforma lávica, quase plana e de fácil acesso. Um excelente local de pesca e uma plataforma de lançamento para água de quantos terminavam com sucesso a sua aprendizagem no Caneiro. Hoje está totalmente coberta de cimento, com um guindaste ali preso, a ornamenta-la.

O Poceirão, de facto, também servia como um excelente local de banhos, sobretudo no pequeno rectângulo em frente ao varadouro, onde após a aprendizagem no Caneiro, se atiravam os debutantes. Os mais experientes e mais fortes nadavam mais ao largo e muitos havia, que iam até â Barra. Ufanavam-se de subir o enorme calhau, de cujo cimo mergulhavam, pois o mar ali era bastante profundo, sobretudo do lado norte, onde havia uma espécie de portal, por onde as embarcações saíam e entravam.

No Inverno, porém, o Poceirão metamorfoseava-se. Dias havia que as suas águas se enchiam de um furor desusado, transformavam-se em ondas altivas que, cobrindo por completo a Barra, se atiravam com doidas, contra as rochas fazendo desaparecer, ilhéus, caneiros e enseadas, amedrontando os que por ali passavam e pondo em risco os barcos ancorados.

PS – Há dias, surgiu no FB uma foto deste Poceirão, na actualidade e que, pelos vistos e aparentemente, já perdeu quase tudo, até o nome!

 

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publicado por picodavigia2 às 11:27

O CALDEIRÃO DA RIBEIRA DAS CASAS

Terça-feira, 01.07.14

O caminho entre o Cimo da Rocha e o Queiroal era atravessado pela Ribeira das Casas. Com a sua nascente lá para os lados da Água Branca, nos arredores do Morro Alto, o curso da Ribeira das Casas serpenteava por entre grotões e valados, saltando penhascos e ravinas, numa desproporcionada e abrupta sinuosidade, por vezes monstruosa, descomunal e inaudita. O Caldeirão, rigorosamente encravado no caminho para o Queiroal, era o mais claro exemplo de tão irregular e inóspito curso de água, um dos maiores e talvez o mais original de toda a ilha das Flores

O Caldeirão era um enorme, esconso e abrupto buracão, escavado no próprio leito da ribeira. Esta, cortando o caminho, formava, na direita de quem se dirigia para o Queiroal, uma espécie de pequeno açude, com avantajado volume de água, proporcionando ao gado que por ali passava, um excelente e muito apreciado bebedouro. Do lado esquerdo o temível e assustador Caldeirão, A separá-los umas pequenas alpondras ou passadeiras que, em dias de grandes chuvadas e correntes volumosas, submergiam por completo, por vezes pondo em risco e até impedindo a travessia de quantos por ali necessitavam transitar. O gado, por sua vez, atravessava a ribeira através do açude, o que lhe trazia, na verdade, dois grandes benefícios: refrescava-se e saciava a sede. É verdade que ao enfiar-se na água, sujava-a de bosta e urina para de seguida a beber como se ela estivesse na sua pureza original – límpida, fresca e transparente.

Quem atravessasse as alpondras, e não eram poucos os que ali passavam, diariamente, quer nas idas e vindas para a ordenha, quer para o transporte de fetos, lenha e acompanhamento do gado, deveria cuidar-se. Uma escorregadela imprevista, seria fatal. As crianças assustavam, as mulheres tremiam de medo e até os homens redobravam os cuidados. Em dias de grandes chuvadas era o caos. As águas turbulentas e ameaçadoras levavam tudo, incluindo árvores e animais, baldeando-os para dentro do famigerado Caldeirão, que depois os havia de transportar até à beira da rocha, atirando-os, de seguida, em catadupa, por ali abaixo, como se fossem cacos de um navio naufragado.

Mas o mais interessante é que o Caldeirão, de uma fundura nunca alcançada e de uma escuridão nunca clarificada, estava cheio de lendas, de mistérios e de relatos míticos que faziam dele um dos mais curiosos e interessantes ex-libris da Fajã Grande, pese embora a sua distância do povoado e o difícil acesso.

Mas o Caldeirão da Ribeira das Casas, no caminho entre o Cimo da Rocha e o Queiroal, decerto que se perdeu no espaço, assim como se terá perdido no tempo a sua memória e, com ela, todas as lendas, mitos e tradições que encerrava.

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publicado por picodavigia2 às 10:02

A VOLTA DO PINHEIRO

Segunda-feira, 23.06.14

A Volta do Pinheiro é, incontestavelmente e junto com o Cilindro e o seu homólogo do Delgado, um dos mais novos lugares da Fajã Grande, uma vez que a sua criação se reporta aos tempos da abertura da estrada que liga o Porto da Fajã ao Vale Fundo, construída em meados da década de cinquenta, por uma equipa de empreiteiros oriundos da ilha Terceira.

Rasgada quase em linha recta, desde o Cimo da Assomada até ao Vale Fundo, a nova estrada, ao contrário dos antigos caminhos e canadas que constituíam a mísera rede viária da freguesia, tinha poucas curvas e, a maioria eram pequenas e pouco acentuadas, sendo as duas maiores, em primeiro lugar, a que separava o Descansadouro do Delgado de Baixo, conhecida por volta do Delgada e a segunda, a do Pinheiro, denominada Volta do Pinheiro e que se situava entre a Cabaceira de Cima e o caminho, que dava para a Cuada, mas situada a sul, isto é, a mais próxima da Ribeira Grande e da Fajãzinha. O acentuado de ambas estas curvas, dando um traçado irregular à estrada, tornou-as notórias, dando origem à criação de um novo lugar, onde cada uma delas se situava.

No caso da Volta do Pinheiro, o espaço ocupado por este novo lugar, pertencia, anteriormente, à Cabaceira, à Cancelinha, ao Tufo da Cuada, à Pedra Vermelha e ao Vale Fundo. Quando a estrada foi inaugurada, alguns donos de terras ali existentes, foram bafejados pela sorte, uma vez que deixaram de percorrer antigos caminhos ou sinuosas canadas e veredas, passando, nas idas e vindas para as suas propriedades, a utilizar, simplesmente, a estrada, dando, assim, nome aquele novo lugar – Volta do Pinheiro.

Acrescente-se que o topónimo Pinheiro, não existia anteriormente, sendo também originado, nessa altura, pelo facto de ali perto, à beira da estrada, numa propriedade, se localizar um enorme e invulgar pinheiro, e que pela sua altura e sobranceria se distinguia e destacava no meio do arvoredo ali existente.

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publicado por picodavigia2 às 16:08

O PORTALINHO

Quarta-feira, 21.05.14

O Portalinho era, sem sombra de dúvida, um dos lugares mais pobres, mais inóspitos, mais desinteressantes, mais inócuos e mais improdutivos da Fajã Grande, na década de cinquenta. Mas o pior, é que para além de todas estas maléficas e danosas características, o Portalinho ainda era um dos lugares mais distantes do povoado e, por conseguinte, de difícil acesso.

Situava-se para além dos Lavadouros, encastoado entre o Curralinho e a Rocha, sendo que uma parte do seu espaço se prolongava pela própria Rocha. Era um lugar exclusivamente de terras de mato. Nem relvas, nem terras de inhames, nem de árvores de fruto, nem muito menos de outra cultura qualquer. Apenas matagal, onde por entre fetos e cana roca quase gigantes, proliferavam incensos, faias, paus brancos, sanguinhos, loureiros e vinháticos.

Tudo isto fazia com que o lugar do Portalinho fosse muito pouco procurado, até porque muitas das terras ali existentes, praticamente estavam ao abandono, por parte dos seus proprietários.

O acesso a este lugar fazia-se por um ou outro dos caminhos que ligavam a Fajã aos Lavadouros. Aqui, ou mais propriamente nos Lavadouros de Cima, o caminho bifurcava-se. Voltando-se à direita caminhava-se na direcção do Vale Fundo e da Cuada, por um caminho de boa qualidade. Porém, se voltássemos à esquerda, caminhava-se na direcção da Rocha, com destino ao Curralinho, por uma vereda com muitas poucas condições. O piso não era calcetado, em muitos sítios era bastante irregular e, além disso, só acessível a pequenos corsões. A partir do Curralinho a vereda piorava, uma vez que se transformava numa pequena e estreita canada que conduzia às primeiras terras do Portalinho, onde havia um pequeno largo e onde tudo terminava. Quem pretendesse penetrar pelo Portalinho dentro teria que o fazer atravessando propriedades atrás de propriedades, o que, convenhamos, não era muito fácil, devido ao denso matagal que por ali proliferava.

Meu avô tinha lá uma terra, na fronteira com o Curralinho, onde meus tios iam, de vez em quando, com um pequeno corsão de canguinha, cortar e acarretar lenha. Terei ido lá apenas uma vez. Era o fim do mundo!

O nome do lugar parece advir-lhe do facto de, terminando ali o caminho, o lugar se iniciar com o portal de uma das propriedades ali existentes. Como ali tudo era pequeno, o portal também o era. Seria apenas um portalinho, o qual terá dado nome ao lugar.

O que restará hoje do lugar do Portalinho? Talvez, apenas e somente esta memória…

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publicado por picodavigia2 às 09:34

A BAIXA-RASA

Sexta-feira, 25.04.14

Nos mares da Fajã Grande, plantadas na parte mais ocidental da enorme baía, circundada pelo extenso Rolo que se inicia no Pesqueiro de Terra e termina, já na Ponta, no Ilhéu do Cão, existem duas interessantíssimas formações rochosas, uma e outra muito bem visíveis de terra, formando uma espécie de par: ele, o Monchique, ela a Baixa-Rasa.

O Monchique, muito maior e mais alto, mais mítico e emblemático, tem sido muito divulgado em revistas e fotos, objecto de estudos e relatos e, além disso, hoje mais do que nunca, ufana-se de ser o ponto mais ocidental da Europa. A Baixa-Rasa, ao contrário, muito pequenina, silenciosa e humilde, perdida entre temporais e ciclones, a surgir apenas com a maré vasa, tem sido a eterna esquecida. Injustamente, diga-se em abono de verdade. E se não fosse o brilho e o fulgor do Monchique ou melhor, se este não existisse, a Baixa-Rasa possuiria, de certo, a excelência de todos os predicados que a este se atribuem e teria os requisitos necessários para ser considerada um outro ex-libris da Fajã Grande.

Segundo os estudiosos dos baixios e escolhos das ilhas açorianas, a Baixa-Rasa consubstancia uma espécie de afloramento rochoso marítimo, encafuado na direcção da Ribeira do Cão, localizado a duas ou três milhas marítimas de terra. Apresenta-se, aparentemente, com uma composição geológica bastante variada, cujos materiais de origem que a constituem tem origem vulcânica, sendo, muito provavelmente, originados em escoadas lávicas, principalmente, compostas por basaltos. Estas escoadas, que apresentam um elevado índice de facturação, com os planos dessa fracturação orientados principalmente na vertical, redopiam, permanentemente, numa constante agitação, formando uma espuma esbranquiçada que se agiganta sobretudo em dias de mar bravo e durante ventos e tempestades, sendo perfeitamente visível de terra. Em horas de maré vasa é possível ver o rochedo, como uma manha escura.

Desconhecesse-se a profundidade desta formação ronda e o acesso à mesma esta formação geológica só pode ser feito de barco. A fauna e a flora dominante desta formação geológica também não tem sido estudada, mas será muito semelhante a muitas outras da costa ocidental da ilha, nomeadamente da do seu parceiro o Monchique. Sabe-se, por relato de pescadores que por ali há muito peixe, sendo um privilegiado pesqueiro de vejas e bicudas. Mas por ali abundam muitas outras espécies piscatórias como barracuda, boga, bodião, peixe-rei, castanheta, lírio, mero, peixe-porco, polvo, ratão, para além de lapas, caranguejos, ouriços e uma enorme variedade de algas.

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publicado por picodavigia2 às 16:13

O LAMEIRO

Segunda-feira, 14.04.14

Um dos vários lugares da Fajã Grande com um nome deveras interessante, apesar de um pouco estranho, era o Lameiro. Situado na zona das terras de mato, entre o Espigão e os Lavadouros, o acesso a este quase mítico lugar, era feito pelo caminho que seguia do Cimo da Assomada e que em Santo António se bifurcava, separando-se do Caminho da Cuada, seguindo pela cabaceira, Cancelinha e Espigão até aos Lavadouros. No entanto, o Lameiro não ficava à beira deste caminho, pelo que o acesso às terras situadas naquele local era feito por uma pequena, estreita e tosca canada, conhecida por Canada do Lameiro, que se iniciava no cimo da Ladeira da Lombega, sita no referido Caminho, logo depois da recta do Espigão.

O Lameiro tinha como fronteiras ou limites, a norte o Espigão, a leste a Alagoinha, a sul os Lavadouros e a oeste a Lombega. Embora localizada numa zona de arvoredos, onde predominavam faias e incensos, o Lameiro era um dos melhores lugares da Fajã Grande para o cultivo de inhames. Eram célebres os “inhames do Lameiro” e da sua excelência e boa qualidade se orgulhavam e ufanavam os que ali possuíam terras.

Muito provavelmente a origem deste nome terá a ver com a sua capacidade produtiva. Na realidade o Lameiro era uma espécie de gratificante e fértil oásis, situado no meio da enorme mancha verde que separava as terras de cultivo e as pastagens ou relvas, na Fajã Grande. Em tempos idos, muito provavelmente, ali teria existido água, ou originária de nascentes ou armazenada, naturalmente, depois de chuvas torrenciais, o que teria conferido àqueles terrenos capacidades produtivas e fertilidade que os lugares ao redor, com excepção da Lombega, não possuíam. Talvez, em tempos recuados se tivesse cultivado ali, trigo ou milho, ou até abóboras, feijão e favas… No entanto, na década de cinquenta apenas se cultivavam inhames, pese embora, num ou noutro campo da Alagoinha, ali ao lado se cultivassem alguns produtos agrícolas, mas em terrenos que ladeavam o caminho, o que facilitava o transporte dos mesmos em corsão ou carro de bois.

Lameiro! Um mítico e emblemático lugar da Fajã Grande, hoje muito provavelmente perdido no tempo e no espaço e onde, decerto, bons e saborosos inhames já não florescem.

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publicado por picodavigia2 às 18:33

A HORTA DAS ABÓBORAS

Domingo, 23.03.14

A toponímica fajãgrandense, para além de ampla e variada, era interessantíssima. Na realidade na Fajã Grande existiam lugares com nomes invulgares e cujo simbolismo era deveras muito interessante. Era o caso da Horta das Abóboras, um pequeno lugar encastoado entre as relvas da Alagoinha e as terras de mato do Espigão, quase Lá-a-Trás, e, consequentemente, muito longe das terras de cultivo onde as caseiras floresciam à espera de produzir as suas belas e saborosas abóboras. Estranho pois este topónimo, porquanto ali não havia praticamente nenhuma terra de cultivo, nem muito menos belgas soalheiras onde se pudessem cultivar abóboras. No entanto, na Alagoinha, na década de cinquenta, ainda havia uma outra terra de cultivo da batata-doce e, ao lado, no Moledo Grosso, assim como na Lombega, e no Espigão havia algumas belgas e hortas de inhames. É pois natural que em décadas recuadas ali houvesse terras de aráveis, nomeadamente campos de cultivo do milho e de outros produtos que com ele se misturavam ou alternavam na Fajã Grande, entre os quais abóboras. Se em tempos recuados se semeou milho no mato, embora milho para o gado, mais natural é que o mesmo tenha acontecido naqueles descampados que embora distantes do povoado eram bastante férteis Muito provavelmente aquele seria um bom lugar para o cultivo destas cucurbitáceas ou então existiria ali apenas uma horta onde se cultivavam as ditas cujas e daí o lugar terá havido nome.

Na década de cinquenta, porém já não havia ali terrenos de cultivo nem sequer relvas, apenas terras de mato e poucas, porque o lugar, na realidade era muito pequeno, talvez o mais pequeno da Fajã Grande.

O acesso a este lugar fazia-se geralmente pelo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros. Numa pequena ladeira que existia, a seguir ao descansadouro dos Paus Brancos e antes da recta que dava para Mateus Pires, havia uma canada, muito estreita e sinuosa que permitia chegar-se à Horta das Abóboras. Pelo lado do Espigão tinha-se acesso apenas atravessando algumas propriedades pertencentes a este lugar. Acrescente-se que a Horta das Abóboras fazia fronteira a norte com os Paus Brancos, a leste e a sul com a Alagoinha e a oeste com o Espigão e a Lombega.  

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publicado por picodavigia2 às 22:32

A RIBANCEIRA DAS COVAS

Quinta-feira, 20.03.14

O lugar chamado “Ribanceira das Covas”, na Fajã Grande, situa-se na margem direita da Ribeira das Casas, junto à rocha com o mesmo nome. Aliás o próprio lugar conhecido por esse nome situa-se dentro do próprio lugar das Covas, no caminho da Ponta, encastoado entre este lugar e a própria Rocha.

Diz a lenda ou talvez a história, embora esta não esteja escrita, que os primitivos habitantes da Fajã Grande, se terão, muito provavelmente, estabelecido, inicialmente, num outro local que não terá sido aquele onde hoje se encontra o povoado. Assim e segundo uma crença muito antiga, os primeiros habitantes do lugar da Fajã Grande terão procurado como local para se fixarem e construir as suas habitações, o sítio hoje chamado “Covas”, junto à rocha, na margem direita ou talvez em ambas as margens da Ribeira das Casas.

O maior argumento desta tese é precisamente o nome daquele curso de água – Ribeira das Casas. Porquê das casas se nunca ali houve casas? A este argumento, porém, juntam-se vários outros, embora todos eles hipotéticos. Por um lado, para os povos que demandaram aquelas inóspitas paragens fixar-se nas margens duma ribeira tornava muito acessível o acesso ao bem mais primordial de qualquer povoado: a água. Por outro lado naquela zona os terrenos são muito férteis e as próprias habitações ficavam sob a protecção da rocha, pois como o próprio nome do local indica, ali situar-se-iam algumas covas, ou seja lugares mais abrigados e protegidos dos ventos, sobretudo dos que vinham do norte e leste. Hoje, essas covas não existem, nem sequer há vestígios de alguma casa ali existente outrora. Apenas as ruínas de alguns moinhos, mas construídos dezenas de anos depois do povoamento primitivo. Ao colocar os nomes às outras ribeiras, geralmente nomes de pessoas (Ribeira de João Fraga), árvores (Ribeira dos Paus Brancos, animais (Ribeira do Cão), etc., a que ali corre teve e tem um nome diferente: Ribeira das Casas. Daqui se depreende que o topónimo adviria das casas que ali haviam sido construídas.

Hoje porém, delas não sobra nenhum vestígio, como também nada resta das tais “covas” que, eventualmente, ali teriam existido e dado nome ao lugar. Pelo contrário, mantem-se junto à rocha um gigantesco amontoado de terra e pedregulhos, totalmente coberto de árvores e arbustos, mas que é um claro indício de uma enorme ribanceira que há centenas de anos ali terá caído e que ainda hoje é conhecida pela “Ribanceira das Covas”.

Na realidade, ainda hoje se pode bem observar, sob o ponto de vista morfológico, ladeando o leite da ribeira, incluindo o local onde se situa o por demais conhecido “Poço do Bacalhau, dois cabeços ou montículos encostados à rocha: um do lado das Águas, ou seja na margem esquerda, mais pequeno e, aparentemente, mais antigo e um outro o do lado das Covas, ou seja na margem direita. Nos anos cinquenta, ainda era voz corrente na Fajã Grande, de que debaixo daquele monte de terra e de entulho caído outrora da rocha, estariam soterradas as primitivas casas do lugar da Fajã Grande.

Lenda ou história, nunca se saberá, pois é de todo improvável que algum dia se verifiquem ali as escavações adequadas com o objectivo de esclarecer a verdade. No ar fica no entanto e para sempre a pergunta: porquê o nome Ribeira das Casas?

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publicado por picodavigia2 às 17:04

A LADEIRA DA ASSOMADA

Sexta-feira, 14.02.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, existiam dois lugares com o nome de “Ladeira”, sendo que ambos estavam situados em encostas. Um, abrangia toda a encosta do planalto do Mimoio, sobranceiro ao lugar e à rua da Tronqueira e era conhecido simplesmente pela Ladeira. O outro ocupava toda a verdejante e bem extensa encosta do Outeiro e Outeiro Grande, desde da Cruz até ao Covão e sobrepunha-se à rua da Assomada, em quase toda a sua extensão, desde a Praça ao Vale da Vaca. Para distinguir estes dois topónimos, o segundo era designado por Ladeira da Assomada.

A Ladeira da Assomada era uma enorme encosta, encastoada no Outeiro e sobranceira à Assomada. A zona mais baixa e próxima das habitações era ocupada por terrenos agrícolas de pequena extensão, nalguns casos belgas, sobrepostas umas às outras e, noutros casos, pequenas courelas, anexas às próprias habitações. A sua pequena extensão e a fraca qualidade do terreno, já um pouco encastoado no Outeiro, faziam com que ali apenas se cultivassem algumas hortaliças e um outro pé de milho. Mas o maior aproveitamento de quase todas estas pequenas terras era para o cultivo da batata-doce.

A estas pequenas belgas e courelas seguia-se um espaço de relvas. Mas eram, também, tão pequenas e tão pouco produtivas que nunca se destinaram a pastagens de bovinos. Muitas delas serviam de estendais de roupa enquanto noutras eram amarradas ovelhas. Algumas, ladeadas por densos canaviais, serviam mesmo de currais para as galinhas.

Finalmente, na parte superior da encosta, também ela pouco fértil e povoada por enormes pedregulhos, alguns deles muito salientes e a ameaçar derrocadas, havia uma zona arborizada. No entanto tratava-se de pequenos arbustos como a queiró, o sanguinho, pau-branco, faia, vinhático, espadanas e um ou outro loureiro. Espalhadas por entres estes arbustos e a destacarem-se pelo seu tamanho uma ou outra “babosa”, entre as quais tinham lugar de relevo duas gigantes, conhecidas pelas babosas do Farnande, dado que se situavam numa propriedade pertencente aos filhos de Ti Manuel Rosa, um dos quais se chamava Fernando. Mas o que mais existia na Ladeira da Assomada eram canas, de todos os tamanhos, grossuras e feitios e que eram aproveitadas para fazer bardos, portões, separadores e sobretudo para as crianças, que ali as iam apanhar com frequência, fazerem os seus brinquedos preferidos: botes de baleia e instrumentos musicais. Também se usavam as canas para fins domésticos pois com elas se construíam os canudos de assoprar o lume, esteiros para os queijos escorrerem o soro, paus para lavrar tripas e estacas para subirem os feijoeiros.

A razão deste topónimo, parece, logicamente, ter a ver com a sua forma estrutural, uma vez que a palavra “ladeira” significa precisamente, uma inclinação acentuada de um terreno, embora na Fajã Grande a palavra se usasse para designar a inclinação acentuada de um caminho e, com este sentido, havia, na Fajã Grande, vários topónimos: Ladeiras do Covão, Covas, Calhau Miúdo, Ponta, Fontinha, Biscoito, Pessegueiro, Bandeja, Alagoinha, Batel e muitas outras.

A Ladeira da Assomada era uma espécie de lugar mítico para a ganapada, sobretudo para os que moravam ali perto, uma vez que, ora servia para lugar de jogos e brincadeiras ora para aventuras diversas e envolvimentos emotivos. Mas o que mais a mistificava era o facto de ser dali que, em noites de invernia, descendo sobre o casario em eco sublime e diáfano, o sibilar do vento norte cantasse maviosas e deslumbrantes melodias com as quais, muito enroladinhos nos cobertores, adormecíamos.

Ladeira da Assoma, um mito, outrora personificado e hoje perdido, de alegria, enlevo, nostalgia e saudade.

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A FURNA DAS MEXIDEIRAS

Sábado, 25.01.14

Na Fajã Grande, no lugar das Furnas, junto ao mar, em frente a uma enseada chamada “Caneiro das Furnas”, existia uma enorme furna conhecida como  “A Furna das Mexideiras”. Tratava-se de uma gruta, isto é, uma cavidade natural rochosa com dimensões que permitiam que um ser humano pudesse perfeitamente lá entrar e percorrê-la, embora, agachado. Na altura, cuidava-se que esta gruta teria um prolongamento horizontal, em forma de galerias subterrâneas intercaladas com alguns espaços mais amplos e com uma extensão considerável que atingiria a rua da Via d’Água. Como muitas outras grutas existentes nos Açores, algumas, actualmente, já exploradas e transformadas, parcialmente, em roteiros turísticos, a “Furna das Mexideiras” teria sido originada por um conjunto de processos geológicos, envolvendo uma combinação de transformações químicas, tectónicas, biológicas e atmosféricas. Devido às condições ambientais exclusivas deste tipo de orifícios naturais subterrâneos, nestas grutas, geralmente, não existe fauna e a flora, para além de rara, é específica de ambientes escuros e, consequentemente, despojada de vegetação nativa.

 Sobre a Furna das Mexideiras da Fajã Grande das Flores, nunca explorada, mas ainda hoje existente, na década de cinquenta, circulavam muitas estórias, algumas delas, até um pouco sinistras e apavorantes. Contava-se, por exemplo, que um certo homem tentara entrar por ali dentro com uma lanterna mas ela apagou-se. O homem voltou a acendê-la, mas sempre que o fazia a lanterna apagava-se. Havia ali algo de misterioso, do outro mundo que impedia que a lanterna se mantivesse acesa. Outro homem que nela também entrara, de lá nunca mais saiu. Muitos homens que por ali haviam passado viam luz no interior da gruta, outros, nevoeiros a sair pela abertura exterior e muitos chegaram a ouvir gritos aflitivos. Também havia quem acreditasse e jurasse a pés juntos, de que aquela furna era a morada e o esconderijo das Mexideiras. Estas eram uma espécie de monstros estranhos, com aspecto semelhante ao diabo, em forma de mulheres que ali permaneciam durante o dia e que, apenas durante a noite, saíam do esconderijo para perseguir e atacar os mortais. Quem passasse em frente à gruta, à noitinha, em dias de temporal, podia ouvir perfeitamente, os seus ruídos e barulhos, umas vezes gritos ruidosos e barulhentos outras gaitadas finas e alegres, muito esganiçadas a ecoarem nas paredes da furna. Havia, porém, quem cuidasse e dissesse que aqueles gritos eram das cagarras que aflitas e quase a morrer, ali se escondiam, quando impossibilitadas de chegar aos seus esconderijos naturais, nas encostas do Pico do Areal. Muitas pessoas, porém, acreditavam que eram mesmo os gritos de festa e de regozijo ou então de dor e aflição das malditas. Os mais crentes ouviam-nos perfeitamente, pois cuidavam que elas andavam ali, à solta, a retoiçar, a rebolar, à espera da hora da saída, ou seja à meia-noite, porque só a partir dessa hora podiam sair do esconderijo e circular livremente fora da gruta. Também diziam os sonhadores de tesouros perdidos que aquela furna escondia um enorme tesouro, deixado ali por piratas que se haviam escondido de outros piratas e tinha morrido lá dentro. Em respeito pelos falecidos ninguém poderia lá ir procurar o tesouro. E a verdade é que ninguém ousava ali entrar para recuperar o tesouro ou fosse para o que fosse. Minha avó contava que Pai Cristiano (o homem que a criara desde criança e após a morte da mãe) certa noite, ao voltar da pesca, passou em frente à furna e ouviu um barulho assustador. Hesitou entre ir ver o que se passava ou fugir para casa, neste caso ficaria cheio de medo e nunca mais por ali passaria. Decidiu-se, então, por ir lá, ver o que se passava. Era uma matilha que para ali havia levado a cabeça de um carneiro. Cada cão latia ferozmente e lutava freneticamente a fim de obter um naco do pitéu. Era uma algazarra tremenda!

 Que a Furna da Mexideiras existia, era verdade, que era mítica e lendária, lá isso, também, era. E o medo que eu, em criança, tinha de passar por ali!

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publicado por picodavigia2 às 14:20

O PINÁCULO DO QUEIROAL

Sexta-feira, 24.01.14

O Pináculo do Queiroal era um enorme e abrupto rochedo como que plantado em riste no meio de um enorme e elíptico vale forrado de fresca alfombra e ornamentado de bardos de hortênsias. Apontado para o céu, visto de lado era como se fossem duas mãos postas, mas observado de frente, assemelhava-se ao frontispício de uma gigantesca catedral medieval. O Pináculo situava-se no lugar do Queiroal, donde lhe advinha o nome, na freguesia da Fajã Grande mas já na fronteira com o concelho de Santa Cruz. Tratava-se de um tosco, volumoso e altivo bloco de pedra basáltica, localizado num vale, aprazível, fresco e verdejante mas encafuado e escondido bem lá no centro da ilha das Flores, sem canadas, caminhos ou outros meios de acesso. Apenas através de veredas íngremes e de atalhos sinuosos, atravessando valados e saltando grotões, lá se chegava. Por isso pouca gente o conhecia e muita mais ainda o ignorava, pois ninguém por ali passava e era escasso e reduzido o número de pessoas que ali se deslocavam, nas suas fainas diárias, de acompanhamento e vigilância do gado. Era o fim de todos os atalhos, o termo de todos os caminhos, o início do degredo, do deserto, do emaranhado. No entanto a sua localização era privilegiada, em função da vista que dali se desfrutava sobre uma boa parte da ilha e do oceano, inserindo-se, além disso, num cenário maravilhoso quase bucólico, ideal para um desenvolvimento de aliciantes projectos turísticos, na década de cinquenta ainda impensados.

O Pináculo do Queiroal, encastoado num vale amplo, rodeado de vegetação luxuriante, impunha-se, sobretudo, no seu topo com dois picos, um semelhante a uma torre e o outro em forma de triângulo, como que simulando a parte central e superior da fachada de um templo. Esta era, muito provavelmente, a razão de ser do seu epíteto.

O acesso, não apenas ao Pináculo, mas a toda a zona do Queiroal, para além de longo e demorado, era muito difícil. Primeiro a íngreme subida da Rocha e o atravessar daqueles lameiros das primeiras relvas, onde proliferavam inúmeros e minúsculos mas extremamente pantanosos afluentes da Ribeira das Casas. A partir do Caldeirão da Ribeira das Casas não havia caminho, seguia-se por trilhos que, para além de maus, eram inseguros e pouco acessíveis, uma vez que a vereda, aparentemente, parecia diluir-se, mesmo fechar-se, obstruir-se com bardos de hortênsias, de queirós e de cedros, com copas seculares e enormes, que ali se haviam desenvolvido em excesso. Como alternativa era possível seguir através das relvas, sem trilhos demarcados ou veredas decalcadas sobre a erva, gastando-se em distância o que se poupava em esforço descontrolado e, por vezes, improfícuo.

Outra curiosidade deste idílico lugar onde se situava o famoso Pináculo é que do sentido contrário não havia qualquer tipo de acesso. Era uma floresta densa de cedros e queirós, obstruindo toda e qualquer passagem. Isto porque terminava ali o território da freguesia da Fajã Grande e iniciava-se o da de Ponta Delgada, já em pleno concelho de Santa Cruz.

Enquanto se passava por ali, naquela espécie de bucólica mas agreste vereda, defrontávamos pequenas manadas de gado alfeiro, um manso e domesticado que ali era colocado temporariamente e outro quase selvagem, ali nascido e que dali havia de ser retirado, apenas quando gordo e arrolado, pronto a embarcar no Carvalho com destino a Lisboa.

O Pináculo e o vale onde estava localizado, eram um dos mais belos locais, edificados pela natureza, não só da Fajã Grande mas até da ilha das Flores, depois da emblemática Rocha dos Bordões. E como monumento natural talvez fosse um dos mais interessantes dos Açores. Mas mais do que desconhecido e ignorado, na altura, o Pináculo do Queiroal, naturalmente, ter-se-á perdido no espaço, estando, hoje, totalmente desaparecido no tempo, talvez encoberto por arbustos e arvoredos, como muitos outros monumentos naturais, existentes na Fajã Grande, na década de cinquenta, semelhantes, embora mais pequenos, como eram os calhaus das Feiticeiras, do Tufo, do Touro, a Laje da Silveirinha, a Furna do Peito e tantos outros.  

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AS FURNAS

Quinta-feira, 23.01.14

As Furnas eram incontestavelmente, na década de cinquenta, de entre os lugares despovoados da Fajã Grande, um dos mais importantes. Esta relevância vinha-lhe, sobretudo, do facto de as Furnas serem, juntamente com o Porto, uma espécie de “celeiro da freguesia”. Na realidade o lugar das Furnas, para além de extenso em área, possuía terrenos muito férteis e produtivos. Era ali e também no Porto que se situavam os maiores, mais férteis e mais produtivos cerrados da Fajã Grande. Com uma área muito extensa e localizado junto à orla marítima, o que de alguma forma prejudicava, por vezes, as colheitas, o lugar das Furnas tinha a norte o interessante, quanto ao nome, lugar do Rolinho das Ovelhas e a sul o ainda mais extenso lugar do Areal, sendo que a própria fronteira entre estes dois lugares era de difícil definição, cuidando-se que as Furnas abrangeriam todo o espaço que ia desde o Rolinho das Ovelhas até à zona do Redondo e o Areal, a partir daí até à rocha do Pico do Areal. A leste, as Furnas faziam fronteira com a Rua Nova e as Courelas e a oeste com o Oceano Atlântico, em cuja orla marítima se situavam os lugares do Respingadouro, do Caneiro das Furnas, da Ponta do Baixio, da Coallheira, da Retorta e do Redondo.

O acesso às Furnas fazia-se por um caminho de carros que partia da Rua Nova e das Courelas e se cruzava mesmo no início deste lugar, atravessando-o de leste a oeste, permitindo, assim, o acesso não apenas à maioria das propriedades que ali abundavam, mas também ao campo de futebol, ali localizado, e ao mar. Através deste caminho, no entanto, não se tinha acesso a muitas das propriedades. Para aceder a estas circulava-se através de algumas canadas, algumas autênticos maroiços. Dentro das Furnas, para além do caminho principal, apenas havia um outro, curto, estreito e sinuoso, bem no centro do lugar e que dava acesso ao cerrado do Guarda-Furtado. Muitas terras, no entanto ficavam mais distantes e o acesso, impossível mesmo pelas canadas existentes, era assegurado pela cedência dos terrenos situados entre elas e o caminho. Embora sem ser acessível a carro de bois, também se podia chegar às Furnas por uma canada que existia junto ao mar, que ligava o Porto ao Areal e que se destinava, sobretudo, aos pescadores e aos apanhadores de lapas. Para além de produzirem, milho, batatas brancas e doces, couves, abóboras e feijão, nas Furnas, junto a muitas terras, havia maroiços e noutras, currais anexos, onde se produzia uvas e figos, umas e outros de excelente qualidade.

Mas a importância das Furnas também lhe advinha por ser lá, junto ao mar, entre o Respingadouro e o Caneiro das Furnas que se localizava o campo de Futebol da Fajã Grande. O chamado “campo maior”, onde se realizavam, nas tardes de domingo, os jogos de futebol e um pequeno, na parte norte, destinado às crianças. Este campo sucedeu a um primeiro que existiu na freguesia, no lugar do Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, mas que teve duração efémera. Inaugurado na década de trinta, o campo do Estaleiro foi palco do primeiro jogo de futebol na Fajã Grande. No entanto, alguns anos depois deu origem a um cerrado num serrado que posteriormente foi dividido por “malhões” dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. Mas a 8 de Setembro de 1940, festa da Senhora da Saúde foi inaugurado, em sua substituição, o campo das Furnas, onde nos anos seguintes se realizaram diversíssimos jogos. O apogeu da prática futebolística na Fajã Grande, com o epicentro nas Furnas, foi durante os anos cinquenta, onde a equipa local, o Atlético disputou variadíssimos jogos com o Sporting e a União de Santa Cruz, o Rádio Naval das Lajes e a académica da Fazenda.

O lugar das Furnas ainda se celebrizou porquanto nele se localizava a maior lixeira a céu aberto, da freguesia. Situava-se precisamente, por cima da Furna das Mexideiras, ali bem perto do Caneiro das Furnas e para lá era despejado quase todo o lixo da freguesia: camas velhas, portas desfeitas, utensílios de cozinha inutilizados, colchões esfrangalhados, garrafas partidas, caldeirões esburacados, grelhas carcomidas pela ferrugem, latas furadas, enfim tudo aquilo que devido ao seu estado de envelhecimento e degradação já não servia rigorosamente para nada. Era também na orla costeira das Furnas que se situavam alguns dos melhores pesqueiros da Fajã, nomeadamente o Respingadouro, a Retorta e sobretudo o Caneiro das Furnas., sendo que a Retorta serviu muitos anos de zona balnear das mulheres a quem, na altura, era praticamente interdito tomar banho quer no Porto Velho, quer no Cais, zonas destinadas aos homens.

Dada a sua localização relativamente próxima das casas e da igreja, as procissões das Rogações, realizadas nas têmporas de Setembro e destinadas a implorar a chuva para os campos, passavam no caminho circundante ao lugar das Furnas.

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publicado por picodavigia2 às 09:16

O ROCHÃO TAMUSGO

Segunda-feira, 20.01.14

O chamado “Rochão Tamusgo” era um lugar situado nos matos da Fajã Grande e que hoje, muito provavelmente, será de acesso muito difícil e de lembrança quase indecifrável, talvez mesmo esquecido por completo. Este lugar, com tão estranho e enigmático nome, situava-se por cima da Rocha dos Paus Brancos, a qual possuía uma estreita e sinuosa vereda que dava acesso aquele lugar. No entanto, o caminho vulgarmente utilizado por homens e animais que para lá necessitavam de se dirigir, era o da Rocha, finda a qual, viravam a sul, seguindo pelos atalhos que davam para o Rochão do Junco e Curral das Ovelhas. Embora mais longe e também de mais difícil acesso, tornava-se uma melhor opção relativamente à quase intransponível subida da Rocha dos Paus Brancos, dotada de um piso sinuoso e escorregadio, a abarrotar de água, de densa vegetação e de silvados por tudo o que era sítio.

O lugar do “Rochão Tamusgo” era todo ele ocupado por algumas pastagens pertencentes a particulares. No entanto a dificuldade do seu acesso aliada à fraca qualidade das suas pastagens faziam com que apenas ali colocassem gado alfeiro. A sua proximidade da borda da Rocha era tal que, por vezes, cá de baixo, era possível verem-se muitos dos animais que ali pastavam.

A sul, o “Rochão Tamusgo” era ladeado pela Burrinha, a este pelo Rochão do Junco e a oeste pela Rocha dos Paus Brancos. A norte, porém, o “Rochão Tanusgo” como que se afunilava, encravando-se entre as relvas do Cimo da Rocha.

A origem deste topónimo, no que à estranha palavra “Tamusgo” diz respeito, dado que a mesma não existe na língua portuguesa, nem como substantivo próprio ou comum, revela-se um pouco ambígua e intrigante. Por um lado o nome poderá ser uma deturpação da palavra de “tamujo” ou “tamuje” atribuído a um arbusto existente nas ilhas açorianas. Neste caso, do topónimo “Rojão Tamujo” inicial, poder-se-ia ter derivado e chegado a “Rochão Tamusgo”, o que parece pouco provável. Na língua portuguesa, porém, existe o verbo “tamuscar” com o significado de “dormitar”. Para que esse verbo estivesse na origem daquele topónimo teria, obviamente, que ser utilizado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, “tamusco”, deturpando-se, sob a forma de “tamusgo”. Mas muito estranho seria que alguém “dormitasse” por ali com alguma frequência a tal ponto de dar conhecimento público desse facto, usando a forma verbal “eu tamusco” – “Rochão onde eu tamusco” e “Rochão Tamusgo”.

Sendo assim, a explicação, em minha opinião poderá ser outra. A apanha do musgo nos matos, para encher colchões e almofadas foi sempre prática muito habitual na Fajã Grande, por parte das mulheres. Um dos locais muito procurados para a apanha do dito cujo era toda aquela zona, desde o Cimo da Rocha até à Burrinha. Aquele local, assim como o Rochão do Junco, eram os privilegiados para apanha do musgo, portanto, ali seria um local onde há musgo, “está musgo” ou “tamusgo”. Como era uma enorme zona inclinada sobre a Rocha, era um “Rochão” que para se identificar e distinguir do seu vizinho “Rochão do Junco” se passou a chamar “Rochão Tamusgo”.

Assim e muito provavelmente se terá formado este interessante e bonito nome de um lugar da Fajã Grande que fez parte da sua história, que teve um papel interessante e de alguma forma significativo na sua economia e nos seus costumes e que hoje se perdeu quase por completo.

Curiosamente topónimos semelhantes existem noutras ilhas açorianas, nomeadamente, no Pico, mais concretamente na Candelária, onde existe “O Cabeço do Tamusgo” uma elevação que faz parte do alinhamento vulcano-tectónico do Cabeço Bravo e do cabeço do Pé do Monte, este junto ao lugar do Monte.

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publicado por picodavigia2 às 12:08

O VALE DA VACA

Terça-feira, 14.01.14

O Vale da Vaca era, sob o ponto de vista económico e agrícola, na década de cinquenta, o verdadeiro celeiro da Fajã Grande, se excluirmos os lugares situadas à beira-mar, nomeadamente o Porto, as Furnas e o Areal, onde de facto a produção agrícola era de grande qualidade, pese embora, frequentemente, fossem estiolados com tempestades e salmouras.

Situava-se este fértil e produtivo vale, entre o Cimo da Assomada, que o extremava a norte e o Descansadouro e a Volta de Delgado com os quais fazia fronteira a sul. A poente, o Vale da Vaca era ladeado pelo Pico e, a nascente, pelo Outeiro e pelo Covão. Assim, encastoado entre dois montes, tanto um como o outro protegiam-no dos ventos fustigantes de leste e oeste, das tempestades do nordeste e sobretudo, no caso do Pico, evitava que fosse abalroado por salmouras e ventanias vindas do mar, como eram as Furnas, o Porto e o Areal. Era este enquadramento geográfico e o micro clima excelente de que usufruía que faziam que o Vale da Vaca se tornasse num dos melhores lugares de cultivo agrícola da Fajã Grande.

Muitos lavradores possuíam ali grandes cerrados onde praticavam sucessivas culturas durante o ano: milho, batata doce e branca, trevo, abóboras e legumes de toda a espécie. Ali tudo era semeado com regularidade, tudo nascia com eficiência, tudo se produzia em grande quantidade e tudo crescia com excelente qualidade. Para além dos produtos agrícolas, as terras do Vale da Vaca eram excelentes para a produção de trevo e erva da casta, os quais permitiam a permanência dos bovinos, dias e dias, durante os meses da Primavera, amarrados à estaca. Muitos agricultores reservavam exclusivamente para as vacas leiteiras as forrageiras ali produzidas. Muito provavelmente terá sido essa a razão por que este lugar se chamou Vale da Vaca, pese embora, muitas vezes, fosse designado simplesmente por Vale, o que também era sinónimo da sua excelência produtiva relativamente a outros vales ou lugares da freguesia. Além disso o Vale da Vaca era um lugar de beleza rara e dele disfrutava-se de uma vista como que “quebrada” de uma parte da Fajã, tendo como fundo oceano imenso e azulado, com o Monchique bem encravado no meio. Ladeado por encostas verdejantes, onde se encastoavam belgas solarengas, floridas no verão e aureoladas no inverno, o Vale da Vaca simulava, sobre o chão, uma espécie de enorme tapete axadrezado pelas paredes assimétricas dos campos, onde ressaltavam os perfumes do milho, das couves, do trevo e do restolho, sobrevoado por melros, tentilhões e lavandeiras a esgaravatar tudo, na mira de pitança, reflectindo sobre a terra húmida e escura o silêncio profundo das encostas que o ladeavam e o misticismo incongruente dos murmúrios do vento e da chuva.

No final da década de cinquenta, o Vale da Vaca foi esfaqueado e cortado a meio, devido à construção do troço da estrada que ligava o Porto da Fajã à Ribeira do Ferreiro e Ladeira do Pessegueiro. Este acontecimento, que alterou bastante a vida e os costumes dos fajãgrandense, por um lado trouxe alguns benefícios aos donos dos terrenos ali situados, mas por outro dividiu muitas propriedades e desfez parcialmente algumas. No entanto, o acesso à maioria das propriedades que, anteriormente, se fazia, na maioria dos casos, por canadas, atalhos ou maroiços que ligavam ao caminho circundante ao Covão passou a ser bastante mais acessível. Outrora até propriedades ali havia que para se ter acesso era necessário passar por outras. Depois da construção da estrada, o acesso à maioria passou a ser mais fácil, mais acessível e mais rápido, por que feito através da própria estrada que o ligava à Assomada e ao resto da freguesia.

Ultimamente, alguns destes cerrados, nomeadamente os que se localizavam a norte, isto é, mais próximo do Cimo da Assomada, foram vendidos para construção de moradias, fazendo com que aquele vale fértil, verde, belo, produtivo e protegido de ventos e salmouras, aos poucos, se fosse descaracterizando. Muitas outras terras foram abandonadas.

Era o princípio do fim de um éden agrícola, de uma pérola agrária, o dealbar do encerramento daquele que foi desde sempre um dos verdadeiros celeiros agrícolas da Fajã Grande.

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publicado por picodavigia2 às 15:21

O LUGAR DO BATEL

Quinta-feira, 09.01.14

O Batel era um dos mais interessantes lugares da Fajã Grande. É que para além de ter um exuberante e enigmático nome, era um sítio de uma beleza rara, donde se usufruía de uma vista admirável, com terrenos de excelente qualidade e, sobretudo, porque o caminho que o atravessava era ladeado por altíssimas paredes construídas com enormes e pesadíssimos calhaus que lhe davam uma imponência rara e uma monumentalidade ímpar.

Situado bem no centro da freguesia, ligeiramente afastado das últimas casas da Fontinha e próximo da Rocha, a ele se tinha acesso pelo Alagoeiro, uma vez que se localizava a Sul deste último lugar, com a Fonte Cima a separá-los. Assim o Batel fazia fronteira a Norte com a Ribeira e a Fonte Cima, a Sul com a Silveirinha, a Oeste com a Bandeja e a Oeste com a Rocha, embora com o pequeno e estreito lugar da Figueira entrincheirado pelo meio. Esta proximidade da Rocha, alta, pedregosa, abrupta e aprumada, terá, em tempos idos originado a que por ali rolassem muitas pedras, algumas de grandes dimensões e que, ao cair, atingissem tal velocidade que ultrapassavam a estreita faixa da Figueira e, possivelmente, vindo parar naquele lugar. Assim os primeiros povoadores e nossos antepassados terão encontrado aquele sítio pejado de grandes pedras e enormíssimos calhaus, mas, apercebendo-se de que ali havia terrenos muito férteis, decidiram-se por “arrumar” todos aqueles gigantescos pedregulhos, para assim usufruírem da excelência e riqueza produtiva daqueles campos. As pedras mais pequenas foram fáceis de arrumar, construindo com elas maroiços, uns transformados em veredas outros em botaréus que sustinham os socalcos feitos naqueles aclives, a fim de mais facilmente os agricultarem, enquanto com as maiores edificaram as altíssimas e robustas paredes que ladeiam o caminho. Por essa razão naquele sítio, o caminho, formando uma ladeira, conhecida pela ladeira do Batel, sobretudo à esquerda de quem o subia de norte para sul, portanto do lado da rocha, possui paredes excessivamente altas, pejadas de enormíssimos calhaus, muito provavelmente caídos da rocha e que ali só poderão ter sido colocadas com máquinas que hoje se desconhecem, constituindo, o seu levantamento e colocação no alto, uma espécie de mistério ainda hoje difícil de decifrar. A imponência, a monumentalidade, a beleza e sobretudo o facto de revelarem claramente a força e a garra dos nossos antepassados, são impressionantes, pelo que exigem que aquelas emblemáticas paredes, únicas na freguesia e até na ilha, sejam conservadas para sempre, talvez mesmo estudadas e consideradas como um testemunho, um património que não deve ser abandonado nem muito menos destruído.

O Batel, na parte mais a norte, também designado por Batel de Baixo, era sítio de terras de milho, de batata-doce e de trevo para o gado, todas elas muito férteis e produtivas. Na parte superior e mais alta, também chamado Batel de Cima, predominavam, sobretudo, pastagens de excelente qualidade e que os seus donos, por vezes “vedavam” a fim de as utilizar, exclusivamente, para as vacas de leiteiras.

É estranho este topónimo, uma vez que a palavra “batel” não tem outro significado, utilizando-se, na língua portuguesa, apenas para designar uma embarcação de pequenas dimensões. Mas ali nunca existiram, nem nunca se utilizaram embarcações de espécie alguma. A hipótese mais provável e justificativa de tão estranho nome, é a de que tendo aquele lugar uma excelente vista sobre o mar, fazendo com que dali, facilmente, se pudessem observar as embarcações ou os batéis que navegavam no oceano e assim, o lugar passasse a ser referido como um lugar bom para ver batéis ou o lugar do Batel. Outra hipótese menos bem provável é a de que muitos dos terrenos daquele local em forma de socalcos, com as paredes e botaréus que os sustentavam, tinha a forma ou semelhança de barcos ou batéis, passando assim a ser o lugar onde havia batéis ou o lugar do Batel. Uma terceira hipótese é a de alguém com um homónimo ter dado nome ao lugar, mas esta parece ser muito pouco razoável, uma vez que aquela palavra parece nunca terá sido utilizada como nome ou apelido.

Na parte mais alta da ladeira e à esquerda de quem a descia, havia um “descansadouro”, no enfiamento duma canada que dava para a Bandeja. Como o descansadouro fora construído num alto, dele sim, podia-se desfrutar de uma das mais belas vistas sobre uma parte da Fajã, da Ponta encafuada debaixo da Rocha e do mar.

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publicado por picodavigia2 às 22:04

O ILHÉU DO CONSTANTINO

Terça-feira, 07.01.14

O sargaço, ali, no Ilhéu do Constantino, era bem mais negro, avermelhado e abundante do que em todas as outras zonas do Rolo, desde o Pesqueiro de Terra até à foz da Ribeira das Casas. Por isso, nos dias em que as fertilizantes, fertilizadoras e tão desejadas algas, arrancadas das profundezas do oceano pela brabeza das águas e trazidas, até à costa, pelo vaivém altivo e envolvente das ondas e pelo deslumbramento ousado e ritmado das marés, vinham emaranhar-se nos pedregulhos arredondados do rolo, os primeiros que demandavam aquelas paragens, a fim de recolher o precioso estrume - uma espécie de dádiva divina para os campos - bem lutavam, bem se esforçavam, bem aceleravam, bem corriam e bem se esganavam para chegar cedo e em primeiro lugar àquele recanto, assentando arraiais no melhor e mais fértil local de extracção de sargaço: frente a um pequeno ilhéu que ali existia, denominado de “Ilhéu do Constantino”. Ali o sargaço, afluindo em maiores fluxos, como que se amontoava, armazenava e excedia, facilitando a tarefa de quantos pretendiam retirar do mar aquele adubo para o milho semeado nos seus serrados, para as couves plantadas nos seus campos e para a batata-doce cultivada nas belgas mais soalheiras.

O Ilhéu do Constantino, uma espécie de talismã sargaceiro, era um enorme calhau, fixado no fundo do mar, a emergir com uma graciosidade intrigante na quase personificação de uma grande massa basáltica, erecta e projectada para fora da superfície da água, abrigada dos ventos e a enlevar-se com a suave e meiga erosão das ondas. Situava-se a uns bons metros de terra, sendo que do lado do Rolo, em hora de maré seca, era possível atingi-lo e saltar-lhe para cima, a pé. Com a maré cheia, porém e do lado do Pesqueiro de Terra, mesmo com a maré seca, era impossível demandá-lo, a não ser a nado.

Era a esta posição estratégica de uma espécie de calhau mítico, encafuado quase na esquina do Pesqueiro de Terra com o Rolo que o tornava fértil em sargaço. Este, trazido pelo “salseilhar” constante das ondas e pelo rodopiar permanentemente das águas, era como que empurrado para aquele recanto, prendendo-se, encafuando-se e arrecadando-se ali, como se ficasse preso por uma rede enorme ou fosse capturado por um camaroeiro gigante. Por isso mesmo, era fácil e rentável retirá-lo dali, tornando, assim, por quantos demandavam o Rolo em dias de saída de sargaço, aquele lugar o mais desejado e apetitoso de toda a faixa costeiro onde se podia extrair o sargaço.

O Ilhéu do Constantino ainda tinha uma outra vantagem, embora menor e menos explorada. Integrado na orla do baixio, desde o Rolo até às ruínas do presumível Forte do Estaleiro, já quase no Varadouro, era um excelente pesqueiro, ou seja, um bom lugar para pesca, sobretudo de moreias, polvos, sargos, vejas e castanhetas.

Naturalmente que a origem onomástica do Ilhéu do Constantino se prendia com um tal Constantino que nem a história nem ninguém sabia quem era. Perde-se pois no tempo o Constantino, quer fosse um experiente e assíduo pescador daquelas paragens, quer alguém que apenas demandasse, de vez em quando, aqueles baixios e escombros para apanha de lapas ou extracção de sargaço e ali se estatelasse, talvez mesmo falecendo naquele sítio.

Por todas estas razões o Ilhéu do Costantino poderia muito bem ser considerado uma espécie de “ex-libris”, se não da Fajã Grande, pelo menos da enorme baía que ia da Ponta dos Pargos até à Rocha da Ponta.

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publicado por picodavigia2 às 14:43

O CALHAU DO TOURO

Segunda-feira, 06.01.14

Misterioso, enigmático, mítico e assombroso, o Calhau do Touro era um gigantesco pedregulho encastoado na primeira relva do Mato, ali mesmo logo ao cimo da Rocha que, em certos dias, vomitava urros uivantes, gemidos dolentes, rugidos assustadores, como se fosse um monstro vivo e verdadeiro. Um espanto, aquele calhau! Uma das mais interessantes e misteriosas maravilhas naturais da Fajã Grande! Tratava-se, na realidade, de um normal mas gigantesco pedregulho, possivelmente arrancado a algum pináculo, lá das alturas do Queiroal ou da Água Branca, por chuvas diluvianas e intempéries catastróficas e que arrastado pelas encostas macias e verdejantes do Rochão do Junco, por fortíssimas rajadas de vento, associadas à força da gravidade, saltitando por valados, rebolando por grotões, deslizando por socalcos, se viera alapar ali, inerte, zurzido, resvalado, quase morto. O Calhau do Touro, com os seus uivos angustiantes e berros medonhos assustava quantos, desprevenidos e alheados, passavam por ali.

De vereda em vereda, de socalco em socalco e de grotão em grotão, o Calhau do Touro, em tempos muito recuados e de que nem memória havia, quando a ilha ainda não parecia ilha, naturalmente viera parar ali, logo acima da Rocha, na primeira belga planáltica que encontrara, a separar os atalhos que, na direcção do Norte conduziam ao Queiroal e para os lados de Nordeste permitiam aos transeuntes chegar ao Curral das Ovelhas, atingir o Rochão do Junco, alcançar a Burrinha e a Água Branca ou até seguir para Santa Cruz ou outras localidades do Nordeste da ilha.

Alapado ali, o Calhau do Touro ali permanecera ao longo dos séculos, talvez desde de que a ilha era ilha e ali havia de fixar-se para sempre, manso, tranquilo e calado em dias de tempo calmo e de ventos de Sul e de Oeste, que a Rocha íngreme e altiva impedia de lá chegarem. Mas nos dias de grande ventania, com ventos muito fortes a soprarem, ininterruptamente, do Norte e do Nordeste, com fortes rajadas, a enfiarem-se encanadas por aqueles descampados abaixo, era um lamento perene e intercalado, um berreiro medonho e assustador, uma gritaria que nunca mais acabava. Parecia que tinha o diabo no corpo, aquele maldito calhau!

Tanto berrava, tanto gritava, tanto rugia que assustava os que por ali passavam, sobretudo os desprevenidos ou quantos desconheciam os dotes estridentes daquele misterioso e estranho prodígio da natureza.

Mas, afinal e bem vistas as coisas, o Calhau do Touro, simplesmente, não passava de um enorme pedregulho que rolara pelas encostas do Queiroal e do Rochão do Junco e viera parar ali quase ao cimo da Rocha, na primeira relva a que se chegava, logo após a Cancela. A sua localização e o seu exagerado tamanho faziam com que, fustigado por certos ventos, se formasse ali uma espécie de eco que se repercutia pelos arredores, assemelhando-se aos berros de um touro. Era essa a razão do seu epíteto.

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publicado por picodavigia2 às 10:32

A FAJÃ DAS FAIAS

Terça-feira, 24.12.13

A Fajã das Faias era um dos mais interessantes, curiosos, pitorescos e originais lugares da Fajã Grande. Era também o lugar situado mais a Sul daquela freguesia, no que à zona das terras mais baixas dizia respeito, uma vez que ficava já quase como que encastoado em pleno território da Fajãzinha, embora do lado de cá da Ribeira Grande.

Era um lugar pequeno, este da Fajã das Faias e, também, um sítio de difícil acesso e, além disso, bastante distante do povoado, embora relativamente perto da Cuada. Por isso mesmo, muito provavelmente, hoje, já terá desaparecido da memória de muitos dos que, outrora, calcorrearam os caminhos, canadas, atalhos e veredas daquele alcantil abrupto, escarpado, encavalitado nos contrafortes do Tufo da Cuada, mesmo ali debruçado sobre a Ribeira Grande. Situado na fronteira com a Fajãzinha, na margem direita da Ribeira Grande, imediatamente a seguir à foz da Ribeira do Ferreiro, precisamente no sítio onde o curso do maior caudal de água da ilha das Flores fazia uma enorme curva, o lugar da Fajã das Faias como que roubava espaço à Fajãzinha e aumentava a área territorial da Fajã Grande, precisamente para açambarcar aquela pequena fajã situada nas encostas do Tufo da Cuada e do Vale Fundo. Era por isso mesmo e fundamentalmente, uma terra de mato, de faias, incensos, misturados com algumas criptomérias, embora na parte mais baixa e nos terrenos alagadiços, junto â Ribeira Grande, nalgumas propriedades, muitas delas com proprietários residentes na Fajãzinha e Cuada, se cultivassem alguns inhames. O acesso à Fajã das Faias fazia-se pelo caminho que ligava a Cuada aos Lavadouros e à Cancelinha, pelo que o trajecto mais acessível era, geralmente, feito pelo Delgado e pela Cuada. Para se ter acesso àquele lugar ermo e exíguo, depois de se atravessar esta localidade e ultrapassar a última casa, um pouco antes do Vale Fundo e a seguir ao Calhau do Tufo, virava-se à direita e entrava-se numa canada estreita e sinuosa, com grande parte do piso em degraus e onde dificilmente passavam animais. Como possuía apenas esta canada que atravessava de Norte a Sul, o acesso a muitas das propriedades ali existentes, era feito atravessando outras, que lhe deviam caminho, através de trilhos, atalhos ou até saltando paredes. Do lado da Fajãzinha, no entanto, era possível chegar-se à Fajã das Faias, através da travessia da Ribeira Grande, o que era bastante difícil e, a maior parte dos dias, quase impossível, devido ao leito escabroso e ao enorme caudal que aquele curso de água geralmente se ufanava de possuir. Até à foz, a margem direita da Ribeira Grande, ou seja a fronteira Sul da Fajã Grande, era toda rochosa, com excepção deste lugar da Fajã das Faias, da zona da Ladeira do Biscoito, onde existia a principal ponte de ligação entre as duas freguesias vizinhas, e da zona circundante ao Poço da Alagoinha.

A Fajã das Faias confrontava a Sul com a Ribeira Grande, a Norte com a Cuada e o Tufo da Cuada, a Oeste com a Ladeira do Biscoito e a Leste com o Vale Fundo e com a Ribeira do Ferreiro. O seu nome muito provavelmente terá a ver, por um lado, com o facto de ser uma zona baixa, nas encostas de um monte e nas margens de uma ribeira e, por isso mesmo, também constituir como que uma espécie de fajã - terreno baixo junto do mar, neste caso junto de uma ribeira - e, por outro, porque naquele lugar existia uma densa vegetação onde predominavam as faias. No entanto, não deixa de ser estranho e quase inexplicável o facto de este topónimo fajãgrandense utilizar em vez de “faeira” a palavra “faia”, comum em todas as ilhas açorianas, para designar a árvore que nas Flores e na Fajã Grande sempre se designou por “faeira”, como bem o demonstra o contista Nunes da Rosa, nalguns dos seus contos que integram o “Pastoraes do Mosteiro”. Porquê Fajã das Faias em vez de “Fajã das Faeiras”? Não existe explicação plausível, a não ser o facto de o topónimo ter sido criado numa altura em que ainda se não tinha deteriorado, o nome faia, na gíria fajãgrandense.

A Fajã das Faias permanece assim como um lugar mítico e adormecido, hoje perdido, não apenas no espaço mas também e sobretudo no tempo e talvez mesmo na memória de muitos dos que, nos longínquos anos cinquenta, por ali passavam, na apanha de incensos para o gado, de lenha para o lume ou a ceifar os fetos e a cana roca que proliferavam entre aquele denso e luxuriante arvoredo.

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publicado por picodavigia2 às 01:55

A PULGUEIRA

Terça-feira, 17.12.13

Apesar de difícil e, por vezes, quase improfícua, é muito gratificante e deveras atraente a tarefa de se descobrir ou pelo menos tentar descortinar não apenas o significado mas também e, sobretudo, as razões que terão levado os nossos antepassados e primeiros povoadores da Fajã Grande a por um nome a este ou aquele sítio, isto é, a todos e a cada um dos mais de duzentos lugares dispersos pelos 12,55 quilómetros quadrados que constituem a área desta freguesia e que ainda existem com os mesmos nomes, embora alguns deles, hoje, estejam quase abandonados ou esquecidos.

Na Fajã Grande, como naturalmente nas outras freguesias da ilha e dos Açores, existem topónimos muito interessantes e com um significado histórico muito intenso e rico.

Um dos mais curiosos e extravagantes topónimos fajagrandenses é o de “Pulgueira”. Esta palavra, no feminino, não existe na língua portuguesa e, no masculino é muito pouco usada, sendo utilizada apenas no sentido burlesco, significando, neste caso e de acordo com a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, “cobertor”. Assim, pode concluir-se que este topónimo foi criado, pelos nossos antepassados, expressamente, para dar nome a um lugar da freguesia, o que é revelador da sua sabedoria e do seu espírito criativo.

A Pulgueira é um lugar situado no mato da Fajã Grande, que abrange uma enorme extensão de terreno, desde o Queiroal até à Água Branca e ao Rochão do Junco, confrontando e penetrando, a este, no concelho de Santa Cruz. Como a maioria dos lugares do mato da Fajã, a Pulgueira era sítio distante das casas e povoado de pastagens extensas e pouco férteis, onde se lançava o gado alfeiro, sobretudo no verão, dado que ficando longe de casa não permitia uma cansativa e demorada deslocação diária àquelas terras, por parte dos seus proprietários. No entanto, uma boa parte da Pulgueira não tinha dono, isto é, pertencia a uma zona comunitária chamada “concelho”, onde eram lançadas, soltas e sem acompanhamento humano, as ovelhas de todos os habitantes da freguesia que assim quisessem e bem entendessem.

A origem deste topónimo terá naturalmente a ver com a palavra donde, aparentemente, deriva ou seja “pulga” a que se adicionou o sufixo “eira” que também significa “local onde se coloca ou onde existe alguma coisa”. Assim como, por exemplo, estrumeira é um lugar onde existe estrume, pulgueira, se fosse palavra portuguesa, significaria um lugar onde existem pulgas. Ora como no mato, o gado era frequente e continuamente, atacado por um insecto parasita, chamado “pulgão”, que se assemelhava a uma pulga gigante, que não existia junto do povoado, nem nas terras baixas, é muito provável que esta zona dos matos da Fajã fosse mais fecunda em pulgões ou pulgas do mato. Terá sido decerto esta a razão pela qual os nossos antepassados inventaram e criaram este interessante e significativo topónimo: “Pulgueira”.

Situado bem lá no coração da ilha das Flores a Pulgueira ficava muito distante do povoado e, por isso, poucos eram os habitantes da Fajã que para lá se deslocavam, a não ser nos dias de Fio, quando, alta madrugada, iniciavam a tarefa de juntar das ovelhas, soltas e dispersas por aquele e por muitos outros lugares dos matos da Fajã e até da Fajãzinha e de Santa Cruz, conduzindo-as, de seguida, até ao Curral das Ovelhas, no Rochão Tamusgo, a fim de serem tosquiadas.

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publicado por picodavigia2 às 22:45

O AREAL

Quarta-feira, 11.12.13

O lugar do Areal, na Fajã Grande era uma extensa e ampla planície que se prolongava junto do mar desde as Furnas até ao Canto do Areal, confrontando a leste com as últimas casas das Courelas e os seus limites geográficos eram, a Norte, as Furnas, a Este as Courelas e o Pico, a Sul o Pico da Vigia e a Oeste o mar e alguns lugares situados no baixio: a Poça das Salemas, a Retorta, o Redondo e a Coalheira.

O Areal era um lugar exclusivamente de terrenos agrícolas, terrenos bons mas pouco produtivos, diga-se em abono da verdade, não tanto pela qualidade do solo ou pelo modo como eram trabalhados mas por ser um local fustigado por ventos e salmouras que lhes caíam permanentemente em catadupa e que prejudicavam fortemente os vários produtos agrícolas ali cultivados. Nas terras do Areal plantavam couves, batatas-doces e brancas e semeava-se feijão, abóboras e, sobretudo, milho. No entanto e até à década de cinquenta, numa ou noutra terra ainda se cultivava o trigo em vez do milho.

Era também no Areal que, devido à sua proximidade do mar, se faziam as primeiras sementeiras e as plantações do cedo. Durante o Inverno os terrenos do Areal permaneciam quase incultos ou produziam apenas couves e abóboras, destinadas umas e outras sobretudo a alimento dos animais. Em Janeiro o Areal era um deserto árido e inóspito e os terrenos ficavam por ali a enfraquecerem, alimentando-se apenas com as raízes das couves e uma ou outra caseira, por ali deixada por acaso, a apodrecer. Daí que fosse necessário, em Fevereiro, antes de semear o milho e os feijões estrumar muito bem aqueles campos. Eram carros e carros de bois, com as sebes cheias de esterco ou de sargaço, a percorrer as ruas, guinchar como se fossem gatas com sio, carregadíssimos, a dirigirem-se para as bandas do Areal. Entravam nos campos que ficavam junto do caminho e abriam-se portais numas e noutras terras para que os carros chegassem aos campos mais distantes. Quer o estrume, quer o sargaço eram despejados em pequenos montes ao longo de todo o terreno. Depois com garfos de tirar esterco, os montes iam-se desfazendo à medida que o estrume ia sendo espalhado sobre o terreno de modo a cobri-lo por completo, Dias depois os campos eram abertos, isto é lavrados com arado de ferro e de seguida gradeados e tornados a lavrar com o arado de pau, de forma a estarem aptos para as sementeiras. Passado algum tempo a enorme planície enchia-se de um verde esperançoso e prometedor de colheitas de excelente qualidade. Mas logo vinham os malditos ventos nortes a desfazerem, a partirem e a devastarem tudo o que ali se produzia e, se algo ficasse em pé, lá vinha do mar a famigerada salmoura a destruir e a desfazer o pouco que havia resistido aos invernosos vendavais. Por vezes perdia-se a esperança por completo e tinha que avançar-se com uma espécie de plano B, lançando nos terrenos desertos outras colheitas alternativas, geralmente milho para o gado. Esta a razão de um interessante adágio fajãgrandense que se atirava ao rosto dos intrujões quando prometiam algo que não cumpriam “És como as terras do Areal que prometem muito mas dão puco”.

A origem deste topónimo é de fácil identificação. Este lugar tinha a sudoeste, na sua fronteira com o mar, uma espécie de rolo, onde era fácil verificar vestígios de um enorme areal, ali existente em tempos idos. Além disso os terrenos de toda esta planície, mas muito especialmente os mas próximos do mar, eram muito arenosos, semelhantes a um areal. Daí que este local fosse de verdade e com razão alcunhado de o “lugar do Areal”, o qual, apesar das vicissitudes climáticas, tinha um papel de relevo e de grande importância na produção agrícola e na economia fajãgrandense

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publicado por picodavigia2 às 10:16

A PEDRA D'ÁGUA

Domingo, 08.12.13

Lado a lado com o Outeiro Grande e até beneficiando da mesma canada de acesso, a Pedra d’Água apenas igualava aquele idílico e produtivo local da Fajã Grande na qualidade das suas pastagens, mas ultrapassava-o, de longe, na extraordinária situação geográfica de que beneficiava e que lhe concedia o estatuto de um dos mais belos lugares da freguesia.

É que a Pedra de Água, um dos lugares mais pequenos da Fajã, era, na realidade, um local onde apenas havia pastagens, mas estas eram possuidoras de uma tal qualidade que ombreavam, e de que maneira, com as do Outeiro Grande e com muitas outras dos vários locais dos arredores. De resto mais nada possuía a Pedra d’Água, a não ser a magnífica vista que dali se desfrutava. Nem cerrados ou belgas de cultivo, nem terras de mato e mesmo as relvas eram poucas, porque o lugar da Pedra d’Água, na realidade, era minúsculo em extensão. Mas o que mais o caracterizava e o distinguia de muitos outros era a sua localização no alto de um enorme planalto, debruçado sobre a Fajã e já quase no termo do Outeiro, desfrutando, na realidade, de uma maravilhosa vista sobre a freguesia. Se por ali passasse uma estrada, com certeza, se havia de construir um miradouro naquele local. Dos lados oeste e sul, ficavam os contrafortes do Pico, o planalto da Cuada e a Rocha da Fajãzinha, a abarrotar de água, de verdura e de imponência. Em frente, a sul e sudoeste e bem escarrapachado aos nossos olhos, o mar, na sua enorme imensidão, calmo, infinito e azulado nos meses de verão, altivo, revolto, turbulento, umas vezes esbranquiçado, outras, encardido, no inverno. Lá bem plantado no meio, o Monchique, um pedaço de basalto negro, como que deixado ali pelos deuses, ladeado pela Baixa Rasa, com um retoiçar contínuo das ondas ao seu redor, a envolverem e a abraçarem sem disfarce e sem vergonha, a extensa fajã e a salpicarem os rochedos negros e os currais de couves e milho do Areal e das Furnas ou a perderem-se entre as pedras alisadas do rolo. A separar a terra e o mar, um rendilhado, todo ele negro, todo ele basáltico, o baixio com os seus caneiros e enseadas, onde se destacavam o Redondo, a Retorta, o Caneiro das Furnas, a Baia de Água e o Poceirão com o Calhau da Barra a fiscalizar passagem para o Atlântico. Mais além, espraiava-se a enorme Baía, debruada pelo Rolo, um amontoado inaudito de pedras polidas e arredondadas, estendendo-se ao longo da Ribeira das Casas e das Covas, do Vale de Linho e do Castelo, desde o Pesqueiro de Terra ao Ilhéu do Cão, metamorfoseando-se de novo em baixio, lá ao fundo, junto à rocha da Ponta. Já mais perto, a igreja rodeada pelas casas ordenadas em arruamentos simétricos, umas brancas, outras cinzentas e escuras, com os seus telhados acastanhados, aglomerando-se e misturando-se com cerrados, belgas e courelas onde florescia milho, batatas e couves. Mais perto ainda, já como que a prolongar-se pelas encostas do Outeiro, do Pico da Vigia e do Mimoio, pequenas pastagens e algumas terras de mato galvanizadas de um verde de tons diferenciados, onde se misturavam incensos, faias, canas, fetos e cana roca. Finalmente, mas muito distante, a Norte, já para além da Ribeira do Cão, a Ponta, onde as casas se postavam em fila, muito bem arruadas, na direcção da ermida da Senhora do Carmo, aninhadas nos contrafortes da rocha. Contrastando com o Oceano e do lado oposto, um semicírculo pétreo e altivo, formado pelas rochas da Ponta, das Covas, das Águas, dos Paus Brancos, dos Lavadouros e do Curralinho, povoadas de ribeiras e de cascatas onde a água se desprendia em fluxos ritmados e refulgentes sob o verde dos socalcos e o negro dos penhascos. Plantado ali mesmo em frente o Pico, com a casota da vigia da baleia bem lá no alto, à espera do foguete que despertasse os baleeiros de sonos e trabalhos e os açulasse em correria louca para o porto, lançando ao mar os botes, adormecidos nas ramadas do Porto Velho, que partiriam na procura e apanha do cachalote que o foguete anunciara. Finalmente e a sul, a segunda parte do semicírculo. Muito ao longe as Rochas da Figueira e dos Bredos a protegerem a Fajãzinha, onde as casas, tão distantes e tão pequeninas, se assemelhavam a minúsculos salpicos esbranquiçados, como que confundidos com a enorme mancha verde das terras de mato, dos campos e das pastagens. Depois a Cuada com a velhinha Casa do Espírito Santo e pouco mais de meia dúzia de minúsculas e envelhecidas habitações, dispersas e como que perdidas entre hortas e pomares, consubstanciando-se, mais adiante, na Eira-da-Cuada, com o Oceano, novamente extenso, resplendoroso e sempre predisposto a receber o volumoso caudal da Ribeira Grande, cuja foz se localizava logo a seguir à ladeira do Biscoito, já em terrenos da Fajãzinha. Finalmente a rocha da Alagoinha povoada de um número quase infinito de grotas, grotões e cascatas, muitas delas dia e noite a escorrer e a vazar, teimosamente, água sobre poços e ribeiras.

O nome deste maravilhoso lugar poderá muito bem ter a sua origem numa enorme pedra situada logo no início da canada que, bifurcando-se com a do Outeiro Grande, conduzia a estas paragens. Era um enorme tufo, encravado no chão, com a parte superior muito porosa e com alguns buracos que, quando chovia, se enchiam de água.

Meu pai tinha uma relva na Pedra d’Água e outra no Outeiro Grande. Curiosamente eram sempre as vacas que, chegando junto daquele calhau, por si próprias decidiam se o seu destino seria o de seguirem em frente até se encafuarem nas verdejantes e frescas pastagens da relva do Outeiro Grande, ou voltarem à esquerda, subir meia dúzia de degraus e procurar as vizinhas paragens da Pedra d’Água, onde existia uma outra relva, com não menos qualidade. Quanto a mim e quando era eu que as ia levar àqueles bucólicos paradeiros, bem preferia que elas escolhessem a Pedra d’Água, a fim de que mais uma vez me fosse dada a oportunidade de usufruir e apreciar a bela paisagem que dali se desfrutava e que, afinal, muito pouca gente na Fajã conhecia.

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publicado por picodavigia2 às 19:14

O LUGAR DA ESCADA-MAR

Segunda-feira, 02.12.13

A Escada-Mar era um dos lugares mais belos e mais airosos de todos os lugares da Fajã Grande. Situava-se num enorme planalto, sobranceiro à Silveirinha e tinha como fronteiras, a sul a Alagoinha de Baixo e os Paus Brancos, a oeste o Pocestinho, a norte a Silveirinha e a leste o Cabeço da Rocha e a própria Rocha. Aliás era esta proximidade da Rocha, pela qual a Escada-Mar era como que protegida, que conferia àquele lugar uma maior graciosidade, uma inexaurível beleza e uma invulgar singularidade. Por um lado beneficiava da proximidade da Rocha, precisamente no local onde esta atingia a sua maior altitude e no sítio em que estava cada vez mais atafulhada de verde, de tufos e de regatos, junto de quem a Escada-Mar parecia aninhar-se. Além disso a sua situação altaneira, o descampado de que estava aureolada e o perfume que emanava das ervas e plantas que cobriam o seu chão, tornavam a Escada-Mar um lugar ímpar e extraordinário.

Segundo algumas pessoas de idade mais avançada e também de acordo com alguns registos de propriedades situadas naquele local e que se encontravam inscritas no Registo Predial de Santa Cruz das Flores, o verdadeiro nome deste invulgar e original lugar, noutros tempos, seria o de “Escada do Amaro”, verificando-se assim uma evolução fonética provocada pela forma de falar do povo fajãgrandense, pautada fundamentalmente por critérios de facilitismo e simplicidade. Quem seria este Amaro que deu nome à Escada-Mar? Será de todo impossível sabê-lo. Com certeza que seria algum habitante da Fajã que por ali tivesse uma ou mais propriedades. Porquê “escada”? Poder-se-ão encontrar duas razões para explicar a presença da palavra “escada” neste topónimo. Uma delas, talvez a mais evidente e razoável, seria a seguinte: como o local ficava num planalto sobranceiro à Silveirinha, era preciso subir para lá chegar. Nos anos cinquenta a Silveirinha ligava-se ao planalto da Escada-Mar por uma ladeira que fazia parte do velho caminho entre a Fontinha e os Lavadouros. Mas antes da construção deste caminho e, consequentemente, antes da tal ladeira existir, possivelmente o acesso àquele local poderia ser feito por uma escada ou por degraus de pedra, que muito provavelmente se situariam numa propriedade de um tal Amaro. Esta poderá ser a explicação mais plausível, mas não única. Existe uma outra explicação, embora menos provável: poderia também um certo Amaro ter levado para ali uma escada para usar em qualquer uma das suas actividades, como por exemplo na apanha de fruta ou outra. No entanto a justificação anterior parece mais lógica, plausível e provável.

A Escada-Mar ou Escada do Amaro apesar de ser um local de grande beleza e de excessiva agradabilidade, era, no entanto, uma zona de terrenos pouco férteis e bastante pobres, uma vez que ficava situado numa zona de transição entre os férteis terrenos de cultivo da Silveirinha e as terras das árvores frondosas do Pocestinho e do Pico Agudo e ainda entre as viçosas relvas da Alagoinha. Era pois uma espécie de zona neutra (nem de cultivo, nem de mato, nem de relvas) e, por isso mesmo, por ali havia apenas algumas relvas de erva pouco viçosa e uma ou outra terra de cultivo de fraca produtividade. Além disso e, como ficava perto da Rocha, os terrenos por ali existentes estavam crivados de pedras e calhaus os quais, muito provavelmente, em tempos idos, se haviam despegado daquele alcantil e caído ali. Mas na década de cinquenta, não se podia considerar a Escada-Mar uma lugar de risco, uma vez que a Rocha já estava bastante calcificada e enrijecida.

Na Escada-Mar, um pouco antes do sítio onde o caminho se bifurcava, com uma saída para o Pocestinho, havia um enorme descansadouro, talvez o maior da freguesia e que servia para que descansassem os homens que vinham carregados do Pocestinho e de todos os lugares contíguos ao caminho que dava para os Lavadouros.

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publicado por picodavigia2 às 09:29

O MONCHIQUE

Quinta-feira, 28.11.13

Dos inúmeros e variados ilhéus que se situam ao longo de toda a costa da ilha das Flores, o mais emblemático, o mais mítico e o mais exuberantemente simbólico é o Ilhéu de Monchique, uma enorme e altíssima torre basáltica, encravada no meio do oceano, situado a cerca de cinco milhas da Ponta dos Pargos, na Fajã Grande. O interesse, a importância e o significado deste fragmento de lava adormecido no meio do Atlântico, advêm do facto de ele ser o "pedaço de terra" mais ocidental de Portugal e da Europa, servindo, assim, em tempos idos, de marco e de referência a todas as embarcações oriundas, quer das Américas, quer da Europa e da África, tendo também a função de ser um ponto de referência para acertar as rotas e verificar os instrumentos de navegação.

O Monchique, atulhado de cracas, sargaços, algas, lapas e búzios, é um enorme rochedo de sólido basalto, provável resíduo de um cone litoral desmantelado pela erosão marinha. Apresenta uma forma irregular, o que confere aos seus fundos circundantes uma espécie de microrrelevo acentuado. São também essas formas irregulares que, em parte, permitem que seja visto com formas diversas, quando observado de longe e de lugares diferentes, como da Fajã, do Albarnaz, do Corvo ou até do alto da Rocha.

O Monchique também se revela de grande interesse para os biólogos, para os estudiosos da fauna marítima e para os mergulhadores submarinos, uma vez que são numerosas as cavidades submarinas nas suas encostas e no seu sopé e, além disso, está no centro de uma região de grande diversidade biológica, com cerca de uma centena de espécies marinhas identificadas, ao seu redor. Mas a razão principal do seu interesse e importância, advêm-lhe do facto de, na realidade, ele ser o ponto mais ocidental da Europa e disso se orgulha o concelho das Lajes e suas gentes.

Interesse e significado tem também o Monchique por ser uma espécie de ex-libris da Fajã Grande, por fazer parte da sua história, da sua cultura, dos seus costumes e até dos seus ditos ou falares. Na verdade, consta que alguns dos nossos avós, em tempos muito remotos, dançaram a chamarrita em cima do Monchique, que outrora se realizavam excursões e passeios do Porto da Fajã exclusivamente para o Monchique, a fim de os visitantes poderem observar e ver de perto as suas rochas e encostas, as suas veredas e as espécies marinhas que o revestem e circundam. Entre estas viagens, algumas destinavam-se exclusivamente à apanha de lapas, que as havia por lá grandes e boas, ou até de cracas, embora estas fossem de mais difícil captação e menos rendosas a comer. Muito usada na Fajã Grande era a expressão “por trás das raízes do Monchique”, a significar que algo era muito difícil ou até impossível de ter acesso, ou ainda esta outra “Quem te dera debaixo das raízes do Monchique” a indicar que se não gostava ou não se queria ver alguém.

Para a ganapada miúda de outrora o Monchique entrava em muitas das brincadeiras, pois sempre que se divertiam com barcos de madeira ou de papel, em qualquer pequeno lago, poço ou celha cheia de água, lá estava sempre no meio, uma pedra negra, de plantão, a representar e simbolizar o Monchique. Outras vezes faziam-se apostas, quando um barco surgia no horizonte, a ver quem adivinhava se ele passaria por dentro ou por fora do Monchique.

Monchique, um monumento de lava que natureza caprichou em ali colocar, um marco milenário entre continentes e oceanos, um património que sempre pertenceu à Fajã Grande, uma torre de pedra negra verdadeiramente plantada no fim da Europa e a indicar o início do caminho para a América.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:16

O LUGAR DO ESTALEIRO

Sábado, 16.11.13

O lugar do Estaleiro, sito na Fajã Grande das Flores, era um pequeno enclave encastoado ente o Porto e o Calhau Miúdo, ali para os lados do Pesqueiro de Terra e como que debruçado sobre o oceano, a refastelar-se com as brisas matinais, apesar de permanentemente exposto às maléficas salmouras trazidas pelos ventos do Oeste e às devastadoras fúrias dos temporais oriundos do Norte. Era um lugar onde existiam apenas terras de cultivo, mas eram terrenos muito férteis e propícios à cultura do milho, da batata-doce, das couves e cebolas, da batata branca e do feijão.

No entanto, o que mais caracterizava este lugar, que apesar de fértil era bastante minúsculo, era o facto de ter existido ali, nos séculos XVIII e XIX, uma fortaleza, conhecida como “O Forte do Estaleiro da Fajã Grande” e de cujas paredes, pelo menos nos anos cinquenta, ainda se poderiam observar alguns vestígios. Situava-se este forte, ali sobre os terrenos da beira-mar, adjacentes ao ancoradouro do Porto Novo. Seria uma fortaleza ou um minúsculo castelo que, assim como outros existentes para os lados do Vale de Linho e da Ponta e em conjunto com eles, beneficiava duma posição dominante e estratégica não apenas sobre a baía da Ribeira das Casas, como também ao longo de uma boa parte da costa oeste da ilha, permitindo assim a defesa permanente e contínua não apenas do porto e ancoradouro da Fajã mas também de toda aquela zona marítima, desde a Rocha da Ponta até à dos Bredos, dos ataques dos piratas e corsários, que assolavam, atacavam e devastavam as povoações da ilha, com muita frequência

Outro facto que notabilizou o lugar do Estaleiro foi o de ali se ter construído o primitivo campo de futebol da Fajã Grande. Na realidade ainda hoje há quem se lembre de nos anos trinta se ter iniciado a prática do Futebol na mais ocidental das freguesias açorianas, num campo situado precisamente no Estaleiro, num serrado que ali existia e que depois de aquele campo, alguns anos depois, ter sido transferido para as Furnas, foi dividido por “malhões”, dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. O grande impulsionador desta obra assim como o responsável pelo desenvolvimento do desporto-rei na Fajã Grande, foi o Doutor Caetano Mendonça, na altura colocado como médico na freguesia.

Naturalmente que a origem deste topónimo tem a ver com o nome comum “estaleiro”, o qual, no entanto, tem vários significados. Assim estaleiro significa em primeiro lugar o sítio onde se constroem ou consertam barcos e, em segundo lugar, uma armação feita em madeira e que se destina a pendurar o milho. Curiosamente este é um significado exclusivo da ilha das Flores. Mas antigamente, a palavra estaleiro também designava uma espécie de rampa ou plano inclinado, situado junto do mar ou de um lago, onde se construía qualquer embarcação, para que permitisse lançá-la ao mar, mais facilmente. Nalgumas localidades do norte de Portugal também se utiliza esta palavra para designar um espaço de terreno amplo em volta das fábricas de cortiça ou de madeira onde se armazenam as pranchas da cortiça ou as tábuas da madeira. Rejeitando que a origem daquele lugar fajãgrandense tenha origem neste último significado, parece-me que a hipótese mais provável é a que tenha a ver com o local ou rampa de construção ou reparação de barcos. Sendo o lugar do Estaleiro sobranceiro ao mar e tão perto dele é natural que ali houvesse, outrora, um local ou uma rampa que permitisse lançar ao mar, depois de reparadas ou construídas, muitas das embarcações que a ilha tinha e, muito provavelmente, algumas outras que por ali navegavam, mas que devido aos temporais ou aos ataques dos piratas necessitavam de ser reparadas a fim de poderem continuar as suas viagens. Daí se chamar àquele sítio  “O lugar do Estaleiro”.

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publicado por picodavigia2 às 19:28

O LUGAR DO POCESTINHO

Quinta-feira, 14.11.13

O Pocestinho era um dos maiores, mais úteis, mais belos e mais produtivos lugares de terras de mato da Fajã Grande, na década de cinquenta. Ali existia uma vegetação luxuriante, um arvoredo frondoso, um manancial de verdura, uma espécie de mina de lenha, um tapete terrestre pleno de pequenos arbustos, de inhames e de algumas árvores de fruto. Situado lá bem no interior do território da freguesia, o Pocestinho confrontava a Sul com o Pico Agudo, a Oeste com a Cancelinha e a Cabaceira, a Norte com as Queimadas e a Este com a Escada Mar e a Alagoinha de Baixo. O acesso àquela espécie de éden fazia-se através do caminho que unia a Fontinha aos Lavadouros. Assim depois de subir a Fontinha, o Alagoeiro, a Fontecima, o Batel e a Silveirinha, chegava-se à Escada-Mar, onde havia um enorme largo e um grande descansadouro. Voltando-se à direita encontrava-se precisamente o caminho que dava para o Pocestinho e cuja primeira parte, até à última relva da Escada-Mar, era larga e acessível a carro de bois ou corsão, embora o piso não fosse calcetado. A partir daí seguia-se por uma canada, estreita e sinuosa, que ia ligando, de ambos os lados, umas e outras terras, todas elas de mato e de inhames com algumas árvores de fruto à mistura, separadas do caminho por paredes negras e altíssimas, muitas delas crivadas de “coicelos”, musgo, eras e erva-santa. Desta canada bifurcavam-se outras, mais curtas e mais estreitas e algumas veredas que por sua vez a ligavam às terras mais interiores. Mas, em muitos casos, eram as próprias terras que davam passagem umas às outras, sobretudo às mais distantes do caminho. Este acesso ao Pocestinho na sua parte final ainda se tornava mais estreito, transformando-se numa pequena e apertada vereda que, prolongando-se por entre terras de faias e incensos, de troncos grossíssimos e aparentemente seculares, vinha dar à canada da Cancelinha, ligando assim o caminho da Fontinha/Lavadouros ao da Assomada/Lavadouros. Por isso, tudo aquilo que as terras do Pocestinho produziam, tinha mesmo que ser acarretado às costas, no caso dos homens, ou à cabeça, no caso das mulheres, pelo menos até à Escada-Mar. E as terras do Pocestinho produziam muito, sobretudo faia e incenso misturados com um ou outro pau branco, sanguinho ou loureiro. Eram por isso, sobretudo terras que produziam incensos para alimentação do gado e de lenha para o lume. Entre estas árvores, porém, cresciam fetos e cana roca que eram ceifados todos os anos, por alturas do verão. Os fetos eram secos, “emólhados”, acarretados e guardados nas casas velhas a fim de, no inverno, servirem de cama para o gado e a cana roca utilizada para “enxugar” os lameiros da cerca do porco ou então era simplesmente cortada para limpeza do terreno. Nalgumas belgas mais planas cultivavam-se inhames de mistura com uma ou outra árvore de fruta, nomeadamente com macieiras, pereiras e ameixeiras, dado que as laranjeiras por ali se não davam muito bem. Mais tarde, no final da década de cinquenta, alargou-se a canada do Pocestinho, de modo a que carros de bois e corsões chegassem junto das terras.

Acredita-se que este topónimo terá tido a sua origem em dois nomes “Poço do Justino” os quais terão evoluído para “Poçojustino” e, mais tarde “Pocestinho”. A prova de tal facto é sobretudo a de se terem encontrado registos muito antigos de algumas propriedades deste local que se diziam localizadas no lugar do “Poço do Justino”. Parece-me, no entanto que este poderá ter sido um erro do funcionário que terá percebido mal o nome e o terá escrito desta forma, situação nada invulgar nos tempos idos. Neste caso a origem do nome deste lugar poder-se-á encontrar noutras palavras e talvez tenha a ver com o diminutivo de “cesto”, ou seja “cestinho”. Talvez de “Posso cestinho”, significando que neste caso que, em termos de produtos agrícolas, aquelas terras seriam pouco férteis, isto é produziriam uma quantidade tão pequena de frutos que uma pessoa sozinha podia facilmente trazê-los num pequeno cesto ou cestinho, dado que, fundamentalmente eram terras de mato. Assim até eu “posso num cestinho” trazer o pouco que elas produzem, sob o ponto de vista agrícola. Daí o topónimo actual “Pocestinho”.

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publicado por picodavigia2 às 12:21

O LUGAR DO MIMOIO

Terça-feira, 12.11.13

O Mimoio era, sob o ponto de vista agrícola, um dos maiores e mais importantes de todos os lugares não povoados da Fajã, uma espécie de celeiro da freguesia, dado que ali se situavam muitas das melhores e mais produtivas terras de milho, depois dos inconfundíveis e super produtivos cerrados e courelas da beira-mar, nomeadamente os do Areal, das Furnas e do Porto. É verdade que na Fajã, nos anos cinquenta, havia vários lugares com terrenos de produção agrícola com excelente qualidade, mas a maioria deles eram bem mais pequenos em tamanho do que o Mimoio. Na realidade o lugar do Mimóio tinha uma enorme extensão, espalhando-se sobre um amplo planalto, que ia desde a Fontinha até à Ribeira das Casas. Daí que as suas fronteiras fossem a norte precisamente a Ribeira das Casas e o Calhau Miúdo, a sul a Fontinha e o Cruzeiro, a leste a Ribeira e o Alagoeiro e a oeste a Ladeira. Para além das terras de cultivo, onde se semeava o milho e pelo meio deste, se espalhava a erva da casta ou trevo para se amarrar o gado à estaca, lá para mais tarde, nos meses de Abril e Maio, o Mimoio ainda tinha muitas belgas de excelente qualidade para o cultivo de batata-doce, abóboras, feijão e favas, tendo também, sobretudo na zona da Ribeira das Casas, algumas pastagens, também estas de muito boa qualidade. O grande problema do Mimoio era a falta de um caminho largo e acessível por onde pudessem circular carros de bois ou corsões, a fim de se transportarem, mais fácil e suavemente, todos os produtos agrícolas que aquelas produziam. E não eram poucos! Tudo o que trouxesse ou levasse das ou para as terras do Mimoio tinha que ser acarretado às costas. Nem sequer os burros podiam transitar por ali, sobretudo se carregados. É que o acesso às terras do Mimóio fazia-se apenas por três canadas, todas elas de muito estreitas e de má qualidade. A mais importante, porque a mais utilizada era a que partia da Fontinha, junto à casa de Tio José Teodósio e depois seguia até ao centro do Mimóio bifurcando-se, aqui e além, por outras pequenas e ainda mais estreitas canadas ou veredas bem mais apertadas e mais sinuosas, sendo muitas vezes utilizado, como caminho de acesso, o cimo das paredes, onde se haviam guardado as pedras retiradas, em tempos idos, a quando do desbravar dos campos. Desta canada, porém, a partir da altura em que se ela se sobrepunha à Ladeira, desfrutava-se de uma excelente vista sobre uma grande parte da Fajã, uma vez que o Mimoio se situava precisamente num planalto sobranceiro à Tronqueira e à Ladeira. Esta zona era porém muito perigosa, ladeada por uma alta ravina do lado da Tronqueira  e por ela não podia passar gado. Outra canada era a que partia da Ribeira das Casas e dava acesso sobretudo às pastagens, chegando também ao centro do Mimoio onde confluía com a canada vinda da Fontinha e com uma terceira que partia do Calhau Miúdo, mas muito pouco utilizada, uma vez que, dado o desnível de ambos os lugares, era quase toda em degraus e de impossível acesso para o gado, que circulava sempre pelo lado da Ribeira das Casas. Era nesta confluência das três canadas, junto ao portal de um cerrado que meu pai ali tinha, que havia um pequeno descansadouro, onde os homens se sentavam à espera da ordenha, na altura em que o gado por ali estava amarrado à estaca, no “oitono”.

Crê-se que o nome Mimóio se teria originado a partir das palavras “meio” e “moio”, evoluindo para “Mimóio”. Esta hipótese, no entanto, parece-me pouco plausível, uma vez que sendo aquelas terras tão produtivos, nunca alguém se teria referido a elas simplesmente por “terras do meio moio”. Assim, uma outra hipótese, jamais apresentada algures, é a de que “Mimóio”  também poderia ter tido origem a partir de “mimo” e “moio”. Parece pois mais razoável, sob o ponto de vista fonético e também lógico, uma vez que sendo as terras daquele lugar tão férteis, não dariam apenas meio moio de milho, de trigo, de feijão ou favas, mas muitos, bons e fabulosos moios. Neste caso o topónimo poderia muito bem ter evoluído de “moio mimo”, ou “mimo moio”, ou seja um bom moio, originando o actual “Mimóio”.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:35

O LUGAR DA CARAVELA

Quinta-feira, 31.10.13

Um lugar da Fajã Grande também com um nome muito interessante, bastante emblemático e, provavelmente, até com algum significado histórico, apesar de, na década de cinquenta, ser um lugar onde não havia qualquer casa de habitação nem sequer algum palheiro, era o lugar da Caravela. Este lugar situava-se numa pequeno planalto, existente para as bandas da Tronqueira, sobranceiro a toda a planície da orla marítima que ia do Rolo até às Furnas. A Caravela fazia fronteira, a norte com o Porto, a oeste precisamente com a Tronqueira, a sul com a Via d’Água e a leste com o Matadouro e também com a Via d’Água. Era um lugar onde existiam apenas terras de cultivo, tão férteis e produtivas como as do Porto, do Estaleiro ou das Furnas, mas com uma vantagem sobres estas. É que estando um pouco mais altas e mais afastadas do mar, as terras da Caravela não eram tão prejudicadas pela salmoura que queimava todos os produtos agrícolas, como o eram as outras que ficavam mais perto do mar. Eram terras de milho, de couves, de batata-doce e de feijão. O acesso aos campos deste lugar, um dos mais pequenos da Fajã, fazia-se, apenas, por canadas, atalhos e veredas, nalguns casos construídas sobre maroiços. Entrava-se para a Caravela, por uma canada, que havia a meio da ladeira do Calhau Miúdo, por uma outra canada ao lado da casa do Tobias, na Tronqueira ou atravessando alguns campos dos lugares circundantes, que lhes deviam passagem. Mas o principal acesso à Caravela era uma canada que existia no Porto, por trás da casa de Tia Tomé e em cuja parte inicial podia circular um carro de bois.

Naturalmente que o nome deste lugar que ficava em sítio donde se via muito bem o mar, porque alto e relativamente próximo dele, terá a ver com as inúmeras embarcações, entre as quais as caravelas, que por ali passavam, diariamente, rumando à Europa, à África e às Américas. Talvez dali alguém tivesse visto alguma caravela especial, ou fosse um lugar donde as ditas cujas se viam bem quando navegavam no oceano. No entanto, a hipótese que me parece mais provável é a de se ter guardado ou arrumado por ali, em tempos idos, alguma caravela retirada do mar depois de naufragada nas costas da Fajã, pois tantas foram as que ali terminaram abrupta e definitivamente as suas viagens, que muito naturalmente se poderia ter guardado por ali alguma, com qualquer fim utilitário. Nessa altura, muito provavelmente, existiriam casas de habitação e de arrumos na Caravela.

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publicado por picodavigia2 às 20:12

UM PARAÍSO TERREAL

Sexta-feira, 25.10.13

Um dos mais ecléticos, em termos produtivos, lugares da Fajã Grande era o Outeiro Grande, por quanto nele existiam os três tipos de propriedade mais frequentes na freguesia: terras de mato, relvas e terras de cultivo. Além disso era um lugar de singela beleza e singular ruralidade, por que situava num planalto, sobre um monte ou outeiro paralelo ao Pico da Vigia, no meio dos quais se situava o Vale da Vaca. Do lado Sul e Oeste o Outeiro Grande misturava-se, confundia-se, prolongava-se e como que quase se perdia nos contrafortes da Cabaceira e com o Pocestinho, enquanto que do lado Norte se personificava, transformava e estendia com a vizinha Pedra d’Água, prolongando-se pelo Outeiro, como que terminando e caindo assim abruptamente sobre o casario da Assomada, desfigurando-se e perdendo-se por completo na sinuosidade da Fontinha. O Outeiro Grande ainda confrontava a Este com as Queimadas, a Horta das Abóboras e a Escada Mar e a Oeste com o Descansadouro, Santo António e o Delgado. Situado num planalto da parte superior de uma espécie de trapézio que o outeiro formava e no interior duma levemente acentuada cratera, o Outeiro Grande, totalmente isolado do povoado, pela íngreme ladeira do Covão e pela canada do Calhau das Feiticeiras, possuía toda uma espécie de cores, aromas e sabores a que a natureza na sua pureza original proporciona ao ser humano. Ali o ar era perfumado a erva, trevo e a madressilva e dos incensos caía sobre nós uma mistura de sabores acres e adocicados. Numa palavra o Outeiro Grande era uma espécie de Éden ou Paraíso Térreas da Fajã Grande.

Tinha relvas de óptima qualidade, cujo terreno era tão bom e fértil que os seus donos alternavam, normalmente de sete em sete anos, a erva para pastagem com o cultivo do milho, transformando-as em terras de cultivo. Tinham relvas no Outeiro Grande, entre outros, o Antonino, José Padre, Ti Francisco Inácio, o Francisco Gonçalves, o Urbano e meu pai. As Terras de Mato pertenciam ao José Jorge, João Fagundes, José Nascimento, José Fragueiro, Francisco Inácio José Gonçalves e Guardo Furtado. Tinham Terras de Cultivo o Joãozinho (trabalhada pelo António Teodósio) Augusto Arinó,  Luís Fraga, José Fragueiro, Francisco Inácio, Francisco Gonçalves, Guardo Furtado e José Gonçalves.

Em criança, durante anos e anos, ia e vinha ao Outeiro Grande de manhã e à tardinha, levar, umas vezes, a vaca do Antonino de Francisco Inácio, outras as de meu pai. Subia pelo Covão ou pela Bandeja ou pela Cabaceira, num pé e descia-o no outro, fugindo ao Calhau das Feiticeiras, atirando tiros de sabugueiro aos pássaros, comendo bagas faia, chupando flores de cana roca ou trincando ramos de funcho, enchendo os bolsos de maças, que apanhava das beiras do caminho do Delgado da minha avó, ouvindo a doce sinfonia do cantar dos pássaros, do sibilar do vento, sentindo a frescura das brisas matinais, observando a variedade das cores que o envolviam e até saboreando os seus sabores diversificados.

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publicado por picodavigia2 às 10:16





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