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PORQUE MORREM AS MÃES

Quinta-feira, 13.02.14

(POEMA DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE)

“Por que Deus permite

Que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

É tempo sem hora,

Luz que não apaga

Quando sopra o vento

E chuva desaba,

Veludo escondido

Na pele enrugada,

Água pura, ar puro,

Puro pensamento.

 

 

Morrer acontece

Com o que é breve e passa

Sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

É eternidade.

Por que Deus se lembra

- Mistério profundo -

De tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

Baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

Mãe ficará sempre

Junto de seu filho

E ele, velho embora,

Será pequenino

Feito grão de milho.”

 

Carlos Drummond de Andrade

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publicado por picodavigia2 às 00:04

QUEM SOMOS?

Sexta-feira, 07.02.14

 (OLINDA BEJA – SÂO TOMÉ E PRÍNCIPE)

O mar chama por nós, somos ilhéus!

Trazemos nas mãos sal e espuma

cantamos nas canoas

dançamos na bruma

 

somos pescadores-marinheiros

de marés vivas onde se escondeu

a nossa alma ignota

o nosso povo ilhéu

 

a nossa ilha balouça ao sabor das vagas

e traz a espraiar-se no areal da História

a voz do gandu

na nossa memória...

 

Somos a mestiçagem de um deus que quis mostrar

ao universo a nossa cor tisnada

resistimos à voragem do tempo

aos apelos do nada

 

continuaremos a plantar café cacau

e a comer por gosto fruta-pão

filhos do sol e do mato

arrancados à dor da escravidão

 

 Olinda Beja

 

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publicado por picodavigia2 às 10:32

ERA UMA VEZ UM PAÍS

Quinta-feira, 06.02.14

(UM POEMA DE JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS)

Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais feliz

dos povos à beira-terra.

 

Onde entre vinhas sobredos,

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.

 

Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raíz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.

 

Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos dos passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.

 

Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra.

 

Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos.

 

Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

 

Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.

 

Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas tabém tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

 

Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão.

 

Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação

uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com a que a força da vida

seja maior do que a morte.

 

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão.

 

Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão.

 

Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa.

 

Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis.

Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

- pode nascer um país

do ventre duma chaimite.

 

Porque a força bem empregue

contra a posição contrária

nunca oprime nem persegue

- é a força revolucionária!

 

Foi
então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena.

 

E então por vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

desceram homens sem medo

marujos soldados "páras"

que não queriam o degredo

de um povo que se separa.

 

E chegaram à cidade

onde os monstros se acoitavam

era a hora da verdade

para as hienas que mandavam

a hora da claridade

para os sóis que despontavam

e a hora da vontade

para os homens que lutavam.

 

Em idas vindas esperas

encontros esquinas e praças

não se pouparam as feras

arrancaram-se as mordaças

e o povo saiu à rua

com sete pedras na mão

e uma pedra de lua

no lugar do coração.

 

Dizia soldado amigo

meu camarada e irmão

este povo está contigo

nascemos do mesmo chão

trazemos a mesma chama

temos a mesma razão

dormimos na mesma cama

comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo

soldadinho ou capitão

este povo está contigo

a malta dá-te razão.

 

Foi esta força sem tiros

de antes quebrar que torcer

esta ausência de suspiros

esta fúria de viver

este mar de vozes livres

sempre a crescer a crescer

que das espingardas fez livros

para aprendermos a ler

que dos canhões fez enxadas

para lavrarmos a terra

e das balas disparadas

apenas o fim da guerra.

 

Foi esta força viril

de antes quebrar que torcer

que em vinte e cinco de Abril

fez Portugal renascer (…)

 

J. C. Ary dos Santos

 

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publicado por picodavigia2 às 14:09

VIRIATO

Terça-feira, 04.02.14

Ninguém sabe ao certo quando nasceu Viriato nem a que família pertencia. Segundo a tradição, durante a juventude terá sido pastor nos Montes Hermlnios, que hoje se chamam Serra da Estrela.

Há quem diga que Viriato participou desde muito novo em assaltos-relâmpago às povoações dominadas por romanos. E que já então se distinguia pela agilidade, pela força e pela inteligência guerreira.

No entanto, foi um dos homens que acreditaram nas promessas de Galba e desceram à planície na intenção de se instalar e viver em paz numa terra fértil. Assistiu ao ataque traiçoeiro; não pôde lutar porque não tinha armas, mas conseguiu fugir.

Depois do massacre, todos os lusitanos sobreviventes regressaram aos seus castros nas montanhas. A pouco e pouco reorganizaram-se, fabricaram armas e prepararam o contra-ataque.

No ano 147 a.C. dez mil lusitanos em fúria avançaram para sul e dirigiram-se a uma zona dominada pelos Romanos.

Queriam saquear as povoações e vingar a morte dos companheiros, mas quando menos esperavam perceberam que estavam cercados à distância por um anel de soldados inimigos. Que fazer?

Os chefes, para evitarem nova carnificina, propuseram-se ir negociar a rendição. Viriato opôs-se com veemência. Erguendo a voz, lembrou:

- Os Romanos não respeitam promessas. Enganaram-me uma vez, não me tornam a enganar. Comigo não contem para negociações. Prefiro lutar ou morrer.

O discurso e a firmeza impressionaram toda a gente, sobretudo os outros chefes. E Viriato continuou:

- Se não podemos vencê-los pela força, vencê-los-emos pela astúcia. Ora oiçam o meu plano.

Propôs-lhes então o seguinte: os homens que combatiam a pé deviam formar grupos e a um sinal combinado disparar em todas as direcções e romper a barreira que os cercava sem dar tempo aos inimigos de se organizarem.

- Enquanto vocês fogem, eu e os outros cavaleiros caímos sobre eles ora de um lado ora de outro, de forma a derrotá-los e a proteger a vossa fuga.

O plano foi aceite; faltava combinar o sinal.

- Fiquem atentos. Quando eu montar a cavalo, já sabem... é ordem para arrancar.

Pouco depois ecoavam gritos de guerra pelos campos, zuniam setas e lanças, por toda a parte se ouvia o tinir das espadas. Os romanos não estavam à espera daquela táctica-relâmpago e, tal como Viriato previra, desnortearam-se. Muitos grupos de peões romperam o cerco e desapareceram, enquanto os bravos cavaleiros lusitanos, apesar de estarem em minoria e de possuírem armas mais fracas, lutavam sem cessar.

O campo de batalha ficou juncado de mortos, o próprio general romano perdeu a vida, mas não se pode falar de vitória ou derrota. Neste confronto, Viriato, mais do que vencer os Romanos, salvou os Lusitanos. A partir de então foi reconhecido e amado como chefe máximo por todas as tribos.

As mulheres sonhavam com ele, os homens admiravam-no, acatavam as suas ordens e seguiam-no com tanto entusiasmo e convicção que durante anos lançaram o terror entre as hostes inimigas. Viriato parecia invencível. E, de facto, em guerra aberta ninguém o derrubou.

No ano de 139 a.C. Viriato foi assassinado à traição, quando dormia na tenda, por três homens da sua tribo que os Romanos tinham aliciado e subornado. Os Lusitanos choraram longamente a perda daquele chefe querido e ficaram muito enfraquecidos. Quanto aos assassinos, parece que não chegaram a obter nenhuma recompensa pelo crime. Segundo consta, foram recebidos com desprezo pelo chefe romano, que lhes terá dito «Roma não paga a traidores».

É engraçado que tudo o que sabemos a respeito deste homem que os Portugueses consideram como o primeiro dos seus heróis foi escrito por autores romanos. Impressionados pela personalidade forte, austera e recta do chefe lusitano, impressionados também pelo imenso valor que demonstrava na guerra, escreveram vários textos elogiosos sobre ele. Apesar de serem adversários, foram os Romanos que deram a conhecer ao mundo a figura de Viriato.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:30

UM PASSEIO A CAVALO

Sábado, 01.02.14

(TEXTO DE VITORINO NEMÉSIO)

Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro. Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma e na barriga um sinal de sangue. O de Margarida, enxuto, meteu a passo:

- Ah, não posso mais... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale...

- Largaste-te logo... Eu bem te disse: prender e folgar... prender e folgar... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado.

Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia Margarida; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.

- Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalhado da charrett...

- Quê? A égua de teu pai, o peru? Já lhe disse que tem de vendê-la.

- Ah! Se o tio conseguisse...

- Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.

Margarida sorriu; mas mostrou-se reservada, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedrada Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal.Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.

Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos... Vinte velas a arder diante do seu talher!

- Estás velha, hem...

- Velha, não; mas enfim... O tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera...

- Viajar ou envelhecer?

- Talvez as duas coisas...

Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.

 ... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente... gaivotas... sem ninguém.

O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

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publicado por picodavigia2 às 10:50

A GUERRA E O GOVERNO

Sábado, 01.02.14

(EXCERTOS DO SERMÃO HISTÓRICO E PANEGÍRICO, PROFERIDO PELO PADRE ANTÓNIO VIEIRA, NOS ANOS DA RAINHA D. MARIA FRANCISCA DE SABÓIA, EM 21 DE JUNHO DE 1668.)

“As desconsolações gerais que padecia Portugal o ano passado e ainda na entrada do presente, se atentamente as considerarmos, todas se reduzem a três: a guerra, o casamento e o governo. Na guerra estava o povo aflito, no casamento estava a sucessão desesperada, no governo estava a soberania abatida. E em todas juntas? - O Reino perigoso e vacilante. Ora vejamos como Deus neste grande ano, em quanto consolador, nos sarou estas três desconsolações (…)

Começando pela desconsolação da guerra, e guerra de tantos anos, tão universal, tão interior, tão contínua: oh que temerosa desconsolação! É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro. Esta era a primeira e mais viva desconsolação que padecia Portugal no princípio deste mesmo ano. Mas que bem no-la consolou Deus com a felicidade da paz, de que nos fez mercê! Assim o diz o texto do Evangelho. “Deixo-vos a paz, e dou-vos a minha paz - diz Cristo -, mas não vo-la dou como a dá o Mundo”. O que reparo nestas palavras, e que parece nos dá Cristo a mesma cousa duas vezes, e que de uma mercê faz dois benefícios, ou de um beneficio duas dádivas. Na primeira cláusula dá-nos a paz, na segunda cláusula torna-nos a dar a paz. Pois se a paz é a mesma, porque no-la dá duas vezes? Nem é a mesma, nem no-la dá duas vezes - disse e notou agudamente Santo Agostinho. Na primeira cláusula dá-nos a paz e na segunda cláusula dá-nos a sua paz. O ser a paz sua ou não ser, é grande diferença de paz. A paz não sua, é a paz que dá e pode dar o Mundo; a paz sua, é a paz que só dá e pode dar Deus; e esta é a paz que Cristo promete no Evangelho e a que nos deu neste feliz ano…

(…)

A terceira e última desconsolação que padecia Portugal, era o governo. A enfermidade não é culpa; e os efeitos da enfermidade são dor, não devem ser escândalo. E porque sei com quanto decoro e reverência se deve falar nessa mesma dor (já que é forçoso trazê-la à memória), será a voz do nosso sentimento uma pintura totalmente muda. Viu o profeta Ezequiel quatro corpos enigmáticos e hieroglíficos, que tiravam pelo carro da glória de Deus e, em cada um, ou qualquer deles (porque todos eram semelhantes), se me representa o governo de Portugal naquele tempo. Lá tiravam pelo carro da glória de Deus, cá tiravam também pelo carro das glórias de Portugal; porque não se pode negar, que no mesmo tempo vimos o Reino carregado de fortunas e palmas, sendo tão lastimoso o governo para os de dentro, nas leis, quanto era glorioso contra os de fora, nas armas. Formava-se aquele corpo enigmático (como o nosso político) não de uma só figura, senão de muitas. Tinha uma parte de humano, porque tinha rosto de homem, tinha duas partes de entendido, porque tinha rosto de homem e rosto de águia; tinha três partes de rei, porque tinha rosto de homem, rosto de águia e rosto de leão: de leão rei dos animais, de águia rei das aves, de homem rei de tudo; finalmente, tinha quatro partes de quimera, porque aos três rostos de leão, de águia, de homem, se ajuntava, com a mesma desproporção, o quarto, de touro. Destes quatro elementos se compunha aquele misto, e por estes quatro signos (uns próprios do seu zodíaco, outros estranhos) se passeava naquele tempo o Sol. Quando entrava no signo de touro, dominava grosseiramente a terra; quando passava ao signo da águia, dominava variamente o ar; quando se detinha no signo de homem, dominava friamente a água; quando chegava ao signo de leão, dominava arrebatadamente o fogo. Assim influía (ou assim entregava as influências) o confuso planeta, já aparecendo resplandecente, já desaparecendo eclipsado; tendo o império dividido entre si a luz com as trevas, a razão com o apetite, a justiça com a violência, ou, para falar mais ao certo, a saúde com a enfermidade. A parte sã era de homem e de águia, a parte enferma era de leão e de touro; e quanto se intentava nas deliberações da parte sã, tanto se desfazia nas perturbações da enferma. O que dispunha a benignidade do homem, descompunha a fereza do leão; o que levantava a generosidade da águia, abatia a braveza do touro. Visto pela parte sã, provocava a adoração e amor; visto pela parte enferma, provocava a dor e comiseração; e como o juízo verdadeiramente estava partido, não podia o governo estar inteiro. A esta desconsolação tão lastimosa e tão universal acudiu Deus, como às demais, suprindo suavemente a enfermidade e defeito de um irmão com a perfeição e capacidade do outro…”

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publicado por picodavigia2 às 10:09

CARTA ABERTA A ALFRED LOUIS

Quinta-feira, 30.01.14

(TEXTO DE GABRIELA SILVA)

 

Estamos a comemorar o centenário do teu nascimento. Durante muitos anos não sabia da tua existência. A ilha demorou a reconhecer os méritos dos seus ausentes. Não foste apenas tu que ficaste na memória discreta e silenciosa de muitos sem conheceres o fulgor das manifestações póstumas. Foi em Tulare que me falaram de ti, da tua vida, da tua obra, da tua coragem, da tua tenacidade, do teu brilho... Na realidade tu foras também cidadão de Tulare e Los Banos desde bastante jovem e até à morte. Da Fajãzinha foste bem menos tempo mas, às tantas, foi da ilha que levaste o melhor da tua força e (quem sabe?) da tua capacidade para a escrita: uma escrita sentida na distância ainda a pensar na ilha e no “teu” Pico Redondo donde cedo abalaste, mas levando na memória elefantina as imagens da rocha vermelha nos dias em que o sol se punha naquele horizonte que te ensinou a fuga. Pertences a um grupo de ilustres de uma freguesia que viu nascer muitos nomes sonantes nas mais variadas vertentes culturais e que continua a produzir hoje génios à sua dimensão. Homens e mulheres que ultrapassam as limitações da nossa pequenez e se projectam, pelo merecimento de um trabalho empenhado e da força inabalável do seu querer, para além das fronteiras desta estreiteza de terra. Quando, no ano passado, comecei a falar de ti percebi que muitos ainda se lembravam da tua mãe e alguns adolescentes já haviam compulsado um dos teus livros.

 ...Sabes? Tenho da Fajãzinha recordações muito especiais ligadas ao início da minha vida profissional quando, aos dezoito anos fui leccionar para uma escola nova em folha. Na altura pensei ser, não apenas a docente estreante do edifico mas também a primeira professora do ensino oficial que pisava a escola e ensinava na freguesia. Agora sei que o primeiro auto didacta que fez da Fajãzinha a freguesia que ainda é hoje, foste tu! Sei que ensinaste a ler e escrever a muitos jovens do teu tempo e que deixaste atrás de ti muitos homens livres porque a alfabetização é inquestionavelmente uma forma de liberdade. ...Quando sigo os teus passos não me encontro com um homem parado no Rossio nas tardes de domingo, de mãos nos bolsos à espera da vida acontecer. E, no entanto, na tua poesia perpassa saudade e as tuas palavras albergam memórias de uma localidade aparentemente sem história. Será que as fugas nos fazem clarividentes ou é na distância que encontramos resposta para as nossas interrogações? Foi preciso partir para recordar com tanta saudade o que já lá estava antes da partida? É que tu não foste um emigrante como os destes tempos modernos que em vinte e quatro vêm de S. Francisco às Flores. Tu partiste e nunca mais voltaste mas ficaram impregnadas em ti as marcas de uma insularidade sem limites e uma saudade visceral dos nossos hábitos, da nossa gastronomia, da nossa cultura, das nossas crenças... E isto é ser cidadão de corpo inteiro, isto é ser cidadão do mundo e do berço onde se viu a luz.

 ...Mesmo decorrido um século a ilha, no essencial, é a mesma. Se chegasses agora à Fajãzinha encontravas o Rossio com duas pás de cimento ao centro e mais dois ou três bancos de madeira ancorados a um canto mas ainda nos dão sombra os mesmos plátanos e a vista de um lado e doutro ainda são a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios e a Casa do Espírito Santo. As estradas alcatroaram-se, algumas casas sofreram melhoramentos mas o essencial está ali. Até a tua casa, a casa onde nasceste, está lá. No verão passado fizemos uma festa em tua honra e levámos os nossos convidados até à porta. E do lugar que foi o teu berço, olhámos a rocha num fim de tarde nostálgico mas sereno. Viemos depois para o Rossio comer inhames com linguiça, morcela e tortas de musgão. Mais tarde dançámos a chamarrita e o pézinho como se estivéssemos a cumprir uma vontade tua expressa num daqueles teus poemas em que recordas com saudade estas especificidades ilhoas que levaste no peito.

...Mas saíamos a pé da tua freguesia e façamos o interior da ilha. Aí sim, há uma virgindade intacta na paisagem que nos rodeia. A Rocha dos Bordões continua a ter a altivez erecta dos nossos baleeiros e as lagoas mantêm a beleza serena e secreta que fala de segredos, de partidas, de afectos e despedidas. A vegetação do interior da ilha é sempre matizada de verdes de tons e mais tons e impregnada de uma humidade sangrenta da água virgem do centro desta terra que escorre lágrimas de água doce e fresca em todas as barrocas. Aqui e além tufos enormes parecem provocar-nos para o desafio de uma caminhada no tapete fofo mas perigosos de musgos altíssimos que conferem um charme inquieto a dezenas de terrenos virgens que preenchem a maior parte do interior de uma ilha pudica, recatada, discreta...

 ...O mar, o nosso mar continua caprichoso como sempre foi. Azul até à transparência, sereno até parecer silencioso e inerte, mostra nalguns dias a fúria do seu estar. E há invernos em que joga tetrápodos como quem atira ao ar bolas de futebol e enrola no cais com a fúria de amante embravecido com a ausência ou a traição.

...Já não há baleeiros mas repousam inertes em museus de pequena dimensão os harpões da coragem e um ou outro bote, agora em terra firma, contam histórias de heróis de um tempo em que o medo e a coragem se misturavam e perdiam quando a proa apontava a baía de S. Francisco que era mais do que um destino uma certeza. E quando o medo ousava tocar ao de leve um coração menos sereno sempre havia um homem que contava histórias de ventura e de sucesso nessa terra magnífica onde as “águias” de outro davam pão aos filhos e segurança ao futuro.

 ...Sei que foste juiz em Los Banos e que mais tarde abandonaste por altercações com a autarquia. Até nisso, és todo da Fajãzinha, freguesia politicamente diferente de todas as outras que conheço de perto na Região. Gente com opinião e cultura política, gente que respeita os seus ideais em todos os momentos, gente com uma profunda firmeza no querer e uma sábia inteligência nas suas escolhas, gente que não se verga a déspotas ou falsos heróis, gente crítica, dura, justa e directa. Gente capaz de se colocar frente a frente sem medo mas que não ousa colocar em causa coisas sagradas como a solidariedade, a amizade ou os laços de família. Mesmo quando pai e filho alternativas diametralmente opostas. Saber separar as coisas com rigor e com dignidade é uma característica da firmeza de carácter dos teus antepassados, Alfredo. Podes orgulhar-te de ter nascido numa freguesia onde os interesses desta estão acima de querelas pessoais ou questões políticas e onde, no momento de trabalhar para a colectividade todos arregaçam as mangas para o bem de todos. Esta postura invulgar na maioria de outros locais da ilha fazem perceber que a Fajãzinha marca a diferença pela positiva em muitas áreas. Praticamente sem analfabetismo a freguesia encerrou as portas da sua escola por falta de alunos alguns anos atrás. Mas os jovens que restam não param, e, mesmo divididos por poucas famílias, são os únicos que mantêm a porta aberta à única Filarmónica da ilha que já tem organizado digressões diversas fora da ilha e mesmo dos Açores pela qualidade técnica da sua execução.

 ...Somos ainda uma ilha de emigrantes. Seremos sempre uma terra de partidas e chegadas mas não deixaremos nunca de ser também uma terra de gente ordeira, cordial, trabalhadeira e generosa.

 ...Este Verão vamos comemorar o centenário do teu nascimento e recordar outros nomes que, como o teu, honram a freguesia da Fajãzinha, o concelho das Lajes e a ilha das Flores. ...No dia da Senhora dos Remédios, o Rossio vai encher-se de gente. E todos vão ouvir falar de todos. Os sinos hão-de repicar para chamar as gentes, há-de sentir-se o cheiro doce da caçoila com inhames, hão-de fritar-se torresmos com linguiça, há-de fazer-se a festa com baile no Rossio ao som das cordas e das vozes dos nossos homens, ecos de um século de história.

 ...E ao fim da tarde, havemos de ir todos em romaria silenciosa à tua porta, no Pico Redondo, para olhar o pôr-do-sol em direcção à rocha verde toldada de muitos tons. E enquanto no cemitério de Los Banos repousam os restos mortais do poeta, alguém dirá por ti um dos teus poemas. E faremos silêncio. O silêncio respeitoso que a tua memória nos merece.

 ...As mulheres, de regresso da terra, com a lata à ilharga, hão-de parar também no Pico Redondo para ouvir o bater das trindades e recordar o poeta da ilha que tendo o corpo

na América deixou bem vivas nas Flores as mais doces memórias.

 

Gabriela Silva

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publicado por picodavigia2 às 21:08

OS DESPAUTÉRIOS DO PADRE LIBÓRIO

Quinta-feira, 30.01.14

(UM CONTO DE COUTO VIANA)

 

O «Cu de Coibes» (“coibes” significa couves na linguagem popular minhota) era o sacristão da Senhora do Resgate, uma pequena capela apertada entre dois prédios de habitação – para o exterior, apenas a larga porta numa parede de azulejos –, na rua mais antiga e estreita da cidadezinha.

Morava nas traseiras da capela e, do quarto de cama, via-lhe o sino, quase uma sineta, pondo-o a tocar estando ainda deitado, pois tivera artes de prender um arame ao badalo que puxava da janela nas madrugadas gélidas, pelas cinco e meia, no primeiro aviso da missa d’alva, às seis horas, assistida por mercadores de feiras próximas ou distantes, passageiros do primeiro comboio com destino ao Porto.

O «Cu de Coibes», Armandino Candeias no bilhete de identidade, era balofo e imberbe, apesar dos seus quarenta anos, com uma voz de tenorino, tal um castrado da Senhora Dona Maria I. Cantava, fanhoso, ao som do organito dedilhado pela D.ª Clemência, (um feixe de ossos assexuado, irmã do cónego Ângelo), durante a eucaristia do padre Libório, ali, no Resgate, com o velho sacerdote a dispensar acólito.

O sacristão e a organista tinham de comum a língua viperina, capaz de lançar para as profundas do inferno a alma mais imaculada; aquele inferno onde a aguardava a forquilha do cónego Ângelo, um anjo caído, sempre pronto a intrigar junto do bispo D. Teodorico Chaves, muito crédulo, muito confuso de ideias.

O padre Libório, um santo barão, modesto e ingénuo, era conhecido em toda a cidadezinha pelos tremendos despautérios que dizia e fazia durante o exercício das suas actividades sacerdotais.

Atribuíam-lhe, até, aquele caso em que, inadvertidamente, havia quebrado um segredo de confissão perante uma fila de fiéis, aguardando vez, frente ao seu confessionário: Ajoelhara-se diante das grades uma pobre velhota que trabalhava a dias numa casa fidalga da cidadezinha. Padre Libório, cansado de haver velado toda a noite à cabeceira de um moribundo, deixara-se adormecer embalado pela lengalenga bichanada da pecadora. Ela, ao ouvi-lo ressonar, abandonou o confessionário mesmo antes da penitência. Súbito, padre Libório acorda com um ronco mais forte e, dando pela ausência da confessada, deita a cabeça de fora da cortina roxa e pergunta em voz alta aos fiéis aparvalhados:

   - Onde está a velha que roubou uma panela?

 

A.M. Couto Viana, Os Despautérios do Padre Libório e Outos Contos Pícaros

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publicado por picodavigia2 às 10:50

RECORDANDO O PADRE COELHO

Terça-feira, 28.01.14

(TEXTO DE FERREIRA MORENO)

O padre Manuel Coelho de Sousa, (Padre Coelho como era popularmente conhecido), nasceu a 30 de setembro 1924 na Vila de São Sebastião, ilha Terceira dos Açores, ali falecendo a 2 de setembro 1995. Em outubro 1937 entrava no Seminário d’Angra, recebendo a ordenação sacerdotal a 20 de junho 1948. Foi professor no Seminário e Liceu d’Angra e chefe de redação (1956-62) no jornal “A União.” Frequentou (1962-63) o Curso de Filologia Hispânica na Universidade de Salamanca, Espanha, após o que regressou aos Açores e foi nomeado pároco de São Sebastião, onde permaneceu até à data do seu falecimento. No entretanto assumia, em 1976, o cargo de diretor-adjunto de “A União”, e mais tarde diretor do jornal, posto que manteve até se aposentar em  setembro 1994. Além de pároco, professor e jornalista, notabilizou-se ainda como orador sacro, poeta, dramaturgo, pintor, encenador e ensaiador, escritor e animador cultural.

Neste recordando transcrevo agora o que escrevi ao tempo da sua aposentação: “Que dizer acerca do nosso tão querido padre Coelho? Ele que ofereceu magnanimamente os melhores anos da sua vida ao serviço e prestígio de “A União”, apesar de juntamente acarretar tantas e tantas outras responsabilidades, não só como sacerdote mas também como professor, fazendo tudo isto, e muito mais, com um espírito sempre jovem e inquebrantável. É verdadeiramente inesgotável o rol de recordações que me prende ao padre Coelho, desde as aulas de Português no Seminário às peças de teatro na época

do Natal, desde a escuta reverente aos sermões na Sé Catedral à leitura proveitosa dos reflexos, das migalhas e tantos outros registos na imprensa local. Jamais esquecerei, por exemplo, numa das minhas romarias de saudade às ilhas, o convívio da minha visita a São Sebastião, terra natal do padre Coelho, donde parti de regresso à Califórnia trazendo comigo o livro “Na Rota da Emigração Amiga”, que li de ponta a ponta a bordo do avião. Mas a mais preciosa recordação, que ainda perdura na minha memória e que  mais se aviva neste momento, encontra-se intimamente entrelaçada com a data inesquecível da sua ordenação sacerdotal, ocorrida em Ponta Delgada, S. Miguel, no dia 20 de junho 1948. Nesse dia e data, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima estava presente em missa campal, com milhares de açorianos a testemunhar a sagração do neo-presbítero ao serviço do Povo das Ilhas de Nossa Senhora dos Açores.

Obrigado, meu caro amigo, padre Coelho. Recordei, p’ra sempre, o grito que uma vez fizeste ecoar pelo nosso arquipélago: É urgente despertar / Deste marasmo de ilhéu / E pôr bandeiras no ar / Quem não acorda, morreu!” Com a data de 10 d’outubro 1994, o padre Coelho enviou-me a seguinte mensagem: “Amigo Moreno: Acabo de receber o que entendeste escrever sobre a minha saída e substituição no jornal “A União.” Como sempre foste, continuas generoso. Obrigado! Já não era sem tempo. Um cargo como aquele e naquele jornal, 18 anos quase, é esgotante. Faltou pouco para não ser mortal. Conservo saudades dos amigos responsáveis pela feitura e missão daquele jornal tão centenário como útil. Mas saí cansado. Desiludido. Amargurado por não me terem compreendido a tempo e horas e com mais caridade e justiça. Desculpa. Contos largos. Que Deus nos ajude.Peço-te: Continua escrevendo. As tuas crónicas sabem muito bem, ecoando os Açores em tantos jornais das nossas comunidades. Continua e dispõe sempre deste teu velho amigo.”

O jornal “Expresso das Nove” de Ponta Delgada, na sua edição de 24 de dezembro 1993, publicou uma longa entrevista de Tibério Cabral com o padre Coelho. Serviu-me de tema p’ra uma série de quatro crónicas distribuídas pelo Portuguese Times e Portuguese Tribune, a que farei a devida referência no recordando da próxima semana, juntamente com a apresentação de diversos testemunhos de homenagem ao padre Coelho. Por ora registarei apenas os títulos e datas das obras literárias que o padre Coelho nos legou: Poemas de Aquém e Além (1955), Três de Espadas (1979), Na Rota da Emigração Amiga (1983), Migalhas (1987) e Boa Nova (1994), sendo os dois primeiros de poesias e os restantes de prosa. Como acentuou Luís Fagundes Duarte: “O padre Coelho foi mestre nestas duas artes. Enquanto escritor foi um grande cultor da língua portuguesa. Enquanto poeta foi um fino intérprete da aventura humana. Homem de fé, homem da igreja, ele foi também um homem do seu tempo, da sua terra, das pessoas com quem e sobretudo p’ra quem viveu.”

 

Conforme deixei dito no recordando da semana passada, o jornal “Expresso das Nove” de Ponta Delgada, (24-dezembro-1993), publicou uma longa entrevista de Tibério Cabral com o padre Manuel Coelho de Sousa (1924-1995). Serviu-me de tema p’ra uma série de quatro crónicas distribuídas pelo Portuguese Times e Portuguese Tribune. Evidentemente que, movido por um intuito parcimonioso, não irei repetir aqui e agora todos os excertos então utilizados. Tenciono transcrever tão somente as informações intimamente associadas com o sacerdócio do padre Coelho. “Fui um dos poucos padres que teve um processo na PIDE. Sofri seis horas de interrogatório e fui ameaçado de prisão por dizer a verdade e defender os Açores das injustiças desta adjacência que nos colonizou até aos nossos dias. Nunca me arrependi de ser padre. Foi a melhor escolha da minha vida. Deus tem-me ajudado. Tenho tido muitos defeitos e pecados, mas gosto de ser padre. Não me envergonho do meu sacerdócio. Tenho servido o melhor que posso. Poderia, talvez, ter servido melhor. Deus, talvez, não esteja tão contente comigo, como eu estou com Ele, mas sinto-me bem na Igreja. Isto p’ra dizer que gosto de ser padre e que respeito todos os meus colegas. Eu já disse ao meu bispo que um jornal como “A União”, apesar de pequeno e pobre, vale mais do que dez padres a pregar, porque a imprensa é o arquivo da História, o jornal é o arquivo do dia-a-dia do povo. Pena é que, muitas vezes, haja jornais que só saibam alimentar-se de escândalos e do negativo.”

Em resposta à pergunta se, ao longo da sua vida de sacerdote, havia sido alguma vez assediado por mulheres, o padre Coelho declarou abertamente: “Fui. Basta ser simpático e dar nas vistas. Eu dava nas vistas no púlpito. A maneira como eu falava, porque fiz muita poesia no púlpito. Nosso Senhor me perdoe. Eu imprimia um ar de beleza literária nos meus sermões. Nosso Senhor deu-me este dom, e eu não tinha papas na língua. Houve pessoas que me fizeram declarações de amor platónico, e tive de pedir a Nosso Senhor que me ajudasse e me defendesse. Tive insinuações de uma banda e de outra, pois quem está neste mundo apanha vento dos dois lados da cara. Não faço com isto um papão. Nosso Senhor ajudou-me. Acredito na força da oração e acredito na comunicação dos santos. Cheguei a padre não foi só porque tive professores e diretores espirituais. Foi também porque tive uma mãe que rezou muito por mim e um pai que trabalhou de sol-a-sol.”

Victor Rui Dores, (Crónicas Insulares, 2010) escrevendo acerca do padre Coelho, seu antigo professor no Liceu d’Angra, recordou com correnteza e carinho: “Estou a vê-lo, sorriso amistoso, ajeitando os óculos, caminhando esguio e elegante, nos corredores do Liceu, vestindo os impecáveis fatos de bom corte que sempre usava. É ele uma referência indelével no imaginário de várias gerações de estudantes. Era um interlocutor precioso e amabilíssimo, perspicaz e afectivo, dotado de agudeza de espírito e fina ironia. Profundamente humano, solidário e fraterno, eloquente e afável, culto e cativante, assumindo-se sempre como um homem do povo, desse povo que ele amou

verdadeiramente, e com quem viveu, festejou e sofreu. Em tempos de repressão fascista, ele foi a coragem e a voz resistente, no púlpito, na imprensa e na rádio. Foi um homem universal, porque sentia em si todo o Universo e toda a dor do mundo. Denunciou a falsidade, o egoísmo, a injustiça, o cinismo, a corrupção e a insensatez dos homens. Dotado de grande sensibilidade estética, além de sacerdote e professor, foi jornalista, poeta, prosador, dramaturgo, conferencista e animador cultural de reconhecidos méritos. Poeta lírico do humano e do simbólico, a sua poesia conta e canta a trindade Criador-Amor-Ilha, e é atravessada por um amor pressentido, luminoso e quase feliz.”

É da autoria de monsenhor Júlio da Rosa este cordial testemunho: “Coelho de Sousa foi um espírito dotado de variados dons. Verdadeiramente rico de ideias, projetos e obras. Espírito lúcido e fértil. Homem p’rá oratória, a poesia, a pintura, o drama e o jornalismo. Seria um dos maiores se se tivesse cingido a uma arte e feito uma opção. Sobraçou, contudo, com valor, mérito e glória um leque de valores artísticos, que só um talento bem dotado poderia criar e enriquecer.”

A fechar, esta sentimental e poética evocação do padre Coelho: “Deus / Aquele que é por ser quem é, somente / Igual a si e a mais ninguém / Mas que hei-de ver, gozar eternamente.”

 

Ferreira Moreno.

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publicado por picodavigia2 às 19:02

HORÁRIO DO FIM

Terça-feira, 28.01.14

EM SENTIDA MEMÓRIA DE UM AMIGO E COLEGA DE CURSO – JOSÉ MANUEL MEDEIROS FRANCO - UM POEMA DE MIA COUTO

morre-se nada

quando chega a vez

 

é só um solavanco

na estrada por onde já não vamos

 

morre-se tudo

quando não é o justo momento

 

e não é nunca

esse momento

 

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"        

 

Texto Publicado no Pico da Vigia em 14 de Fevereiro de 2013

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LEMBRANÇAS DE NEMÉSIO

Terça-feira, 28.01.14

(UM TEXTO DE ARTUR GOULART)

 

Desde criança que o nome de Vitorino Nemésio me é familiar. Meu pai, colega de Nemésio no liceu de Angra, como ele partiu para Coimbra a continuar estudos. Embora frequentando faculdades diferentes, a amizade e o companheirismo mantiveram-se intensos no ambiente coimbrão, como aliás acontecia entre ilhéus e, por maioria de razão, da mesma ilha. Meu pai, em virtude de doença grave, felizmente ultrapassada, viu-se forçado a abandonar as matemáticas e o convívio da lusa atenas, mas os anos de Coimbra marcaram sempre indelevelmente as suas recordações. Daí que, anos mais tarde, já casado na vila das Velas, onde o destino e a profissão o fizeram assentar, as histórias coimbrãs com Nemésio dentro, a solo ou acompanhado, faziam parte dos nossos serões familiares.

 Quando os programas escolares me fizeram avançar nos estudos da língua e literatura portuguesas, foi duplamente empenhado e curioso que devorei os escritos de Nemésio. A poesia e a prosa, que iam saindo da imaginação, do saber e da pena do mestre, e que me chegavam às mãos, nutriam a minha admiração e o meu respeito, que mais se consolidaram quando assisti, no Seminário de Angra, julgo que em 1956 ou 57, a uma notável conferência por ele proferida sobre «a cultura como cúspide do saber», tema que desenvolveu, naquele seu jeito improvisado que lhe era peculiar, com profundidade, erudição e elegância.

Aí pelo verão de 1964, estava eu de férias em S. Jorge em casa de meus pais, Nemésio passou por lá de visita. Mal chegou, meu pai tratou logo de o convidar para um almoço em nossa casa e, do programa da visita, já não sei se por iniciativa da Câmara, fazia parte um passeio pela ilha. Conforme combinado, o almoço aconteceu. Com convidado tão ilustre, minha mãe aprimorou-se na cozinha, saíram à cena a toalha e a loiça dos dias de festa, um verdelho velho do Pico viu a luz do dia e evaporou-se, a conversa esteve agradabilíssima, Coimbra surgiu do passado, a Terceira estremeceu entre touradas e cantigas de terreiro. Nemésio, com a finura e simplicidade de homem culto, sociável e velho amigo, saboreava os cozinhados (sem favor, minha mãe era excelente cozinheira) e apaladava-se com as palavras, quando estas temperavam a refeição com o sabor regionalista e insólito de certas expressões. Uma nossa vizinha, moça nova que trabalhava lá em casa a ajudar minha mãe nas lides domésticas, sempre que avistava Nemésio com o prato quase vazio, dirigia-se-lhe pressurosa: «O sr. doutor não quer mais uma niquinha?» Ele aceitava ou rejeitava com um sorriso agradecido a saborear a etimologia e as conotações desta «niquinha» de linguagem.

 Para o passeio pela ilha tive a sorte de ser um dos indigitados para acompanhar Nemésio. Fomos de carro pelo Norte, a estrada e os verdes bordados de hortênsias, as fajãs adormecidas no fundo das falésias, a volta pelo Sul, a pequena joia da igreja de Santa Bárbara das Manadas entretecida de talhas, azulejos e alfarges, a Urzelina e as memórias do barão do Mau Tempo no Canal, anfitrião hospitaleiro de Margarida Dulmo, as velhas casas empertigadas nas negras cantarias de basalto, as Velas reclinadas lá ao fundo junto ao Morro, tudo pespontado com o comentário oportuno, o humor inteligente, o olhar penetrante de Nemésio. Já na vila, a passagem indispensável pela igreja de São Francisco, outrora da ordem franciscana, agora anexa ao hospital concelhio. Nemésio apreciava o altar-mór e os laterais, falava da mestria dos entalhadores, quando reparo que, devagar e ostensivamente, passava o dedo indicador pela bela grade de pau santo do presbitério. Reparando no meu olhar interrogativo perante gesto tão inusitado, apressou-se a esclarecer-me: «Estou a ver se as freiras mantêm limpa esta bela peça!» Na verdade estava impecável, e este gesto, para mim inesperado, de Nemésio trouxe-me à consciência um pormenor que, de tão natural, nem me tinha apercebido. De facto, como pude comprovar muitas vezes, as freiras, então ao serviço do hospital, mantinham a igreja e toda a casa numa limpeza exemplar.

Hoje, ao passar por tanto do nosso património em estado de abandono e sujidade, vem-me sempre à memória o gesto de Nemésio e, parafraseando o mestre, constato dolorosamente que tanta barbaridade e tanto desleixo só pode ser a cúspide da ignorância e da incultura

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publicado por picodavigia2 às 14:06

ALEGREMO-NOS ENQUANTO SOMOS JOVENS

Domingo, 26.01.14

(Texto de Maria de Jesus Maciel, esposa do Emílio Porto, publicado no Semanário “O Dever”, no aniversário do seu falecimento.)

 

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,

Não há nada mais simples.

Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.”

 

Alberto Caeiro

 

E todos os dias sãos seus. De uma vida simples, a comunicar, a criar, a cantar. Começo pela identidade: Manuel Emílio do Porto, filho de Manuel Pereira do Porto e de Laureana Emília Pimentel nasce na Ribeirinha, freguesia da Piedade do Pico, a 20 de Dezembro de 1935.

É pela mão de D. José Vieira Alvernaz e de seu irmão Monsenhor Manuel Alvernaz que dá entrada e faz os seus estudos no Seminário Diocesano de Angra do Heroísmo. Aluno distinto, sobretudo na disciplina de Canto e Composição, para a qual revela desde cedo particular interesse e aptidão, compôs temas musicais que lhe valeram receber o primeiro e segundo prémios, da Academia Dr. Manuel Cardoso do Couto, o primeiro prémio e menção honrosa da Academia D. Bernardo de Vasconcelos, assim como a batuta do maestro Edmundo Machado de Oliveira para a regência da Capela do Seminário.

Forma-se em Teologia em 1962, recebe as Ordens Sacras, serve a Igreja, primeiro na actividade paroquial e posteriormente como Capelão militar, em Angola, até ao final de 1975. O comandante do Batalhão em que serviu nas patentes de alferes, tenente e capitão, louvou-o pelas suas qualidades militares e morais: “oficial inteligente, de conhecimentos vastos e de uma cultura musical apreciável”, “uma alma aberta às vicissitudes e dificuldades” que muitos então viviam, recebendo “de todos o respeito, a admiração e a amizade”.

Em 1975 é eleito Vereador da Câmara Municipal das Lajes do Pico. No mesmo ano é deputado independente do Partido Socialista, desempenhando funções no Parlamento Regional nas duas primeiras legislaturas. Exerce os cargos de Secretário da Mesa da Assembleia Regional e da Comissão de Assuntos Políticos e Administrativos.

Em 1976, dispensado das Ordens, dedica-se ao ensino nas Lajes. Primeiro no Externato, depois na Escola Preparatória/Secundária, como professor de Língua Portuguesa e Educação Musical. Em 1986, fazendo parte do Conselho Directivo, e para melhor favorecer a população do concelho, cria, com outros dois colegas, o Ensino Secundário na mesma escola. Durante o percurso escolar, e para actualizar e desenvolver a sua actividade musical que exerceu até à reforma, faz o Complemento de Habilitações na Escola Superior de Setúbal. Paralelamente com a actividade lectiva vai constituindo grupos corais infantis e o grupo de cantares de professores. Organiza e ensaia Ranchos de Natal e de Reis e dá o seu contributo a outros com temas que compôs e harmonizou. Colabora no festival “Baleia de Marfim”, é premiado diversas vezes, não só nas Lajes, como nos festivais da Povoação e da Figueira da Foz, onde recebe o Prémio de Música na Gala Internacional dos Pequenos Cantores.

Cria e dirige capelas litúrgicas e grupos corais, nomeadamente na paróquia da Conceição, Angra do Heroísmo, 1962 -1964; S. Caetano (Pico), 1964-1969; Sanza Pombo (Angola), 1969-1971; Ponta Delgada, 1971-1973; em Cabinda, 1973-1975. A partir de 1976, nas Lajes, na Ribeirinha e em S. Mateus, no Santuário do Bom Jesus. Aí, cerca de duas décadas, reintroduz no ciclo festivo, não só os textos clássicos tradicionais, como o tríptico de Tomás Borba, mas sobretudo renova o canto litúrgico, em parte com temas da sua autoria.

Quando jovem, ainda na década de sessenta, (1968-1969) foi Mestre da Filarmónica Recreio dos Pastores de S. João, e mais tarde da Filarmónica Liberdade Lajense, nas Lajes. Em 1983, no centenário de Lourdes, forma o Grupo Coral das Lajes do Pico. Na sua actividade, ao longo de 28 anos, para além de diversas actuações nos Açores, no continente português e no estrangeiro, deixa parte do seu repertório registado em cinco CDs: - Música Popular Açoriana, Montanha do meu Destino, Música em tempo de festa (CD duplo: CD1 - temas de carácter tradicional e popular; CD2- temática religiosa), e por fim, dois CDs – Espírito Santo e Natal –, tendo participado ainda no CD - Os Melhores Coros Amadores da Região. Para além da composição de textos sacros, harmoniza e compõe um significativo número de temas, quer da música tradicional, quer da nova música açoriana, quer no fado: “Montanha do meu Destino”, e “ Bom Jesus Milagroso” (Oração do Peregrino). De referência ainda é a célebre harmonização das Ilhas de Bruma, bem como os arranjos corais do Hino Nacional, do Hino dos Açores e Hino do Espírito Santo, sendo da sua autoria, entre outros, a composição do Hino de Santa Cecília, Hino ao Bom Jesus, Vila Mãe (Hino às Lajes) e do Hino da Santa Casa da Misericórdia do Nordeste.

De temática diversificada é igualmente a colaboração jornalística: musical, religiosa, política, social e cultural. Colaborou nos jornais Ilha Maior e no Tribuna das Ilhas, com destaque para o Dever (Farol da Ponta) e no blog Alto dos Cedros. Nos seus artigos é um grande defensor da Ponta da Ilha. Para ele, como já fora para Nemésio, aquela é a sua “Terra Santa aproada a Sueste”. No seu Farol de afectos, deu força e visibilidade a uma Ponta esquecida, projectando sobre ela uma luz única que só uma grande afeição é capaz de prodigalizar. Para a Piedade propõe o estatuto de Vila. Para a Ribeirinha – onde quis ficar para sempre – para a sua Ribeirinha que fora elevada a freguesia quando ele fora deputado, vai o seu último acto de cidadania: uma petição dirigida ao Parlamento para que não seja extinta. Acompanha entusiasmado, participa e regista as actividades das “Semanas  Comvida”, da Ribeirinha, da Piedade e da Calheta. Grande defensor das freguesias rurais, do valor histórico e do significado que elas representam na vida das populações, deixa escrito: “é um crime se alguma delas for banida do mapa”.

Publica os livros: Canções Populares Açoreanas (1994), Senhor, Levanta os Teus Olhos… (1999), O Meu Cancioneiro, (2001), 25 anos a cantar – Grupo Coral das Lajes do Pico, (2008), tendo entretanto colaborado no livro Grupos Corais e Instrumentais de Portugal, de Lauro Portugal, em 2007.

Teria D. José antevisto os seus dotes musicais, aquando da sua vinda da Índia ao Pico, em 1950? No seu olhar atento o que viu nele, naquele curto contacto que o encaminha logo para o Seminário? O que sabemos é que o jovem de então lhe ficou grato para sempre. E essa gratidão viria a manifestar-se, particularmente nos tempos difíceis vividos pelo Patriarca na Índia e no exílio que se seguiu em Angra. Em 1980, e então deputado, Emílio Porto organiza uma petição de reconhecimento pela actuação corajosa de D. José, quando as possessões portuguesas foram invadidas e anexadas à força pela União Indiana. E merecidamente, nesse mesmo ano, o Patriarca vem a receber a Grã-cruz da Ordem do Infante, das mãos do Presidente da República, Ramalho Eanes.

A música, na dimensão mais expressiva que é o canto – a voz é o instrumento musical por excelência – para a qual o pai já o iniciara em menino, será sempre a companheira predilecta da sua vida, nas celebrações religiosas e nos momentos de descontracção de entretenimento e de cultura”; a segunda preferência – a escrita – embora por muito tempo arrumada na gaveta, não é esquecida, apenas ficando no subconsciente. E quando decide dar os primeiros passos, fá-lo de forma tímida, primeiro com pseudónimos: xyz, xp.com, depois com o nome de família J. Janeiro, e por fim, com o seu próprio nome.

Para além destas preferências, regista-se também a culinária e jardinagem, entusiasmando-se na criação e cultivo de flores e árvores de fruto, vivendo sempre próximo da natureza que a sua ilha lhe oferece. Tem gosto pelas viagens, que só tardiamente tem possibilidade de fazer. Fosse qual fosse o destino, santuário, cidade ou país (Santiago de Compostela, Monserrat, Mont Saint Michel, Roma, Terra Santa, Nápoles, Capri, S. Petersburgo ou Istambul), corre atrás das novidades musicais ou de outras clássicas que em jovem apreciara e agora pode adquirir. As sementes das plantas ou árvores exóticas são a sua predilecção, que podiam estar no chão da rua, nas muralhas ou até na torre de Herodes em Jerusalém. Tudo o que é novidade quer trazer para a sua terra. É a ela que dedica um afecto forte e incondicional. E foi nela que decidiu – e gostava – de viver. Como se a Montanha fosse – e foi – o seu destino.

É agraciado com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República Jorge Sampaio, em 2001, e com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico, pela Assembleia Regional dos Açores, em 2008.

Herdeiro de um sorriso franco e divertido, de gargalhadas sonoras que escarneciam e esconjuravam as situações mais ridículas, é a educação nos valores do trabalho e do estudo que lhe foram incutidos na infância, que pautam o caminho que lhe coube percorrer, agora confinado a duas datas.

Deixa a vida, cantando, com o seu grupo coral: “Lá no cimo da Montanha”, em plena noite de ensaio, na Filarmónica Liberdade Lajense, a 11de Abril de 2012.

 Na madrugada desse dia concluíra a sua “Epístola aos Estorninhos” (dirigida aos companheiros da primeira hora, e que acabaria por ser a homília da celebração litúrgica dos 150 anos do Seminário). Escrita num estilo irónico como gostava, por dar mais expressividade ao conteúdo, terminava inesperadamente em tom místico. “Acredito em Cristo Ressuscitado e no Seu Santo Espírito”. É que, apesar de dispensado das Ordens, de ter optado pelo casamento, e fê-lo duas vezes, nunca deixou de ser um homem da Igreja e um homem de Fé. Basta recordar “a unção, a doçura, a religiosidade” que os seus cânticos conferiam ao acto litúrgico. Que lutou até ao fim por uma Igreja coerente e íntegra. Finalmente, compreenderam essa linha de vida, os sacerdotes que celebraram as cerimónias exequiais. Que o fizeram em concordância com as Ordens Sagradas que recebera e com a dignidade e solenidade consentâneas ao momento e ao homem crente que ele fora.

Se ele está à vista de Deus – está a reger o Coro dos Anjos como disse, ao vê-lo partir, o amigo Artur Goulart – deve ter olhado com encanto o seu Grupo Coral. Que caído por terra com a sua morte, foi capaz de reerguer-se. E que hoje é seu Maestro o Professor Hildeberto Peixoto, o menino que outrora fora seu aluno. Que foi acompanhando a caminhada no estudo e a quem chamava afectuosamente o rapazinho da Piedade. Que a ele recorrera ainda estudante, para cantar a voz de tenor, depois para tocar órgão e sobretudo clarinete. Representando cada vez mais a esperança do tempo futuro. Ainda sem saber que esse futuro se faria presente tão depressa e inesperadamente. Por isso “Alegremo-nos enquanto somos jovens…que amanhã seremos húmus”, como nos ensinou a cantar no Gaudeamos Igitur – o Hino dos Orfeonistas.

São memórias de uma vida simples, que se foi humildemente multiplicando em modos vários, que aqui ficam como testemunho.

Apenas algumas. Por mais que dissesse ficaria sempre aquém.

Porque, na verdade, os mortos são pessoas completas.

Pico, 11 de Abril de 2013  

Maria de Jesus Maciel

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publicado por picodavigia2 às 21:54

HOMILÍA DO PAPA FRANCISCO NA INAUGURAÇÃO DO SEU PONTIFICADO

Domingo, 26.01.14

Queridos irmãos e irmãs!

Agradeço ao Senhor por poder celebrar esta Santa Missa de início do ministério petrino na solenidade de São José, esposo da Virgem Maria e patrono da Igreja universal: é uma coincidência densa de significado e é também o onomástico do meu venerado Predecessor: acompanhamo-lo com a oração, cheia de estima e gratidão.

Saúdo, com afecto, os Irmãos Cardeais e Bispos, os sacerdotes, os diáconos, os religiosos e as religiosas e todos os fiéis leigos. Agradeço, pela sua presença, aos Representantes das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como aos representantes da comunidade judaica e de outras comunidades religiosas. Dirijo a minha cordial saudação aos Chefes de Estado e de Governo, às Delegações oficiais de tantos países do mundo e ao Corpo Diplomático.

Ouvimos ler, no Evangelho, que «José fez como lhe ordenou o anjo do Senhor e recebeu sua esposa» (Mt 1, 24). Nestas palavras, encerra-se já a missão que Deus confia a José: ser custos, guardião. Guardião de quem? De Maria e de Jesus, mas é uma guarda que depois se alarga à Igreja, como sublinhou o Beato João Paulo II: «São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo» (Exort. ap. Redemptoris Custos, 1).Como realiza José esta guarda? Com discrição, com humildade, no silêncio, mas com uma presença constante e uma fidelidade total, mesmo quando não consegue entender. Desde o casamento com Maria até ao episódio de Jesus, aos doze anos, no templo de Jerusalém, acompanha com solicitude e amor cada momento. Permanece ao lado de Maria, sua esposa, tanto nos momentos serenos como nos momentos difíceis da vida, na ida a Belém para o recenseamento e nas horas ansiosas e felizes do parto; no momento dramático da fuga para o Egipto e na busca preocupada do filho no templo; e depois na vida quotidiana da casa de Nazaré, na carpintaria onde ensinou o ofício a Jesus.

Como vive José a sua vocação de guardião de Maria, de Jesus, da Igreja? Numa constante atenção a Deus, aberto aos seus sinais, disponível mais ao projecto d’Ele que ao seu. E isto mesmo é o que Deus pede a David, como ouvimos na primeira Leitura: Deus não deseja uma casa construída pelo homem, mas quer a fidelidade à sua Palavra, ao seu desígnio; e é o próprio Deus que constrói a casa, mas de pedras vivas marcadas pelo seu Espírito. E José é «guardião», porque sabe ouvir a Deus, deixa-se guiar pela sua vontade e, por isso mesmo, se mostra ainda mais sensível com as pessoas que lhe estão confiadas, sabe ler com realismo os acontecimentos, está atento àquilo que o rodeia, e toma as decisões mais sensatas. Nele, queridos amigos, vemos como se responde à vocação de Deus: com disponibilidade e prontidão; mas vemos também qual é o centro da vocação cristã: Cristo. Guardemos Cristo na nossa vida, para guardar os outros, para guardar a criação!

Entretanto a vocação de guardião não diz respeito apenas a nós, cristãos, mas tem uma dimensão antecedente, que é simplesmente humana e diz respeito a todos: é a de guardar a criação inteira, a beleza da criação, como se diz no livro de Génesis e nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo ambiente onde vivemos. É guardar as pessoas, cuidar carinhosamente de todas elas e cada uma, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos guardam-se reciprocamente, depois, como pais, cuidam dos filhos, e, com o passar do tempo, os próprios filhos tornam-se guardiões dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um mútuo guardar-se na intimidade, no respeito e no bem. Fundamentalmente tudo está confiado à guarda do homem, e é uma responsabilidade que nos diz respeito a todos. Sede guardiões dos dons de Deus!

E quando o homem falha nesta responsabilidade, quando não cuidamos da criação e dos irmãos, então encontra lugar a destruição e o coração fica ressequido. Infelizmente, em cada época da história, existem «Herodes» que tramam desígnios de morte, destroem e deturpam o rosto do homem e da mulher.

Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.A propósito, deixai-me acrescentar mais uma observação: cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura. Nos Evangelhos, São José aparece como um homem forte, corajoso, trabalhador, mas, no seu íntimo, sobressai uma grande ternura, que não é a virtude dos fracos, antes pelo contrário denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura!

Hoje, juntamente com a festa de São José, celebramos o início do ministério do novo Bispo de Roma, Sucessor de Pedro, que inclui também um poder. É certo que Jesus Cristo deu um poder a Pedro, mas de que poder se trata? À tríplice pergunta de Jesus a Pedro sobre o amor, segue-se o tríplice convite: apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas. Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio Papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afecto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão (cf. Mt 25, 31-46). Apenas aqueles que servem com amor capaz de proteger.

Na segunda Leitura, São Paulo fala de Abraão, que acreditou «com uma esperança, para além do que se podia esperar» (Rm 4, 18). Com uma esperança, para além do que se podia esperar! Também hoje, perante tantos pedaços de céu cinzento, há necessidade de ver a luz da esperança e de darmos nós mesmos esperança. Guardar a criação, cada homem e cada mulher, com um olhar de ternura e amor, é abrir o horizonte da esperança, é abrir um rasgo de luz no meio de tantas nuvens, é levar o calor da esperança! E, para o crente, para nós cristãos, como Abraão, como São José, a esperança que levamos tem o horizonte de Deus que nos foi aberto em Cristo, está fundada sobre a rocha que é Deus.

Guardar Jesus com Maria, guardar a criação inteira, guardar toda a pessoa, especialmente a mais pobre, guardarmo-nos a nós mesmos: eis um serviço que o Bispo de Roma está chamado a cumprir, mas para o qual todos nós estamos chamados, fazendo resplandecer a estrela da esperança: Guardemos com amor aquilo que Deus nos deu!Peço a intercessão da Virgem Maria, de São José, de São Pedro e São Paulo, de São Francisco, para que o Espírito Santo acompanhe o meu ministério, e, a todos vós, digo: rezai por mim! Amen.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 19 de Março de 2013

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publicado por picodavigia2 às 16:04

O FUTURO PAPA

Domingo, 26.01.14

(TEXTO DE CAETANO VALADÃO SERPA)

Universidade de Massachusetts at Boston

 

A Igreja Católica em breve terá um novo chefe, eleito em conclave por um grupo de pouco mais de 100 cardeais, embora, o cardinalato não seja um sacramento nem tão pouco um sacramental. É um titulo que vem com a pesada responsabilidade de eleger o papa quando a sede vaticana se encontra vacante. São bispos-funcionários da cúria romana, colaboradores próximos do papa e encarregues da governação central da igreja universal. A maior parte, ainda hoje, é europeia com predominância italiana, onde se estabeleceu a sede papal, à imagem e semelhança do império romano. O Vaticano é uma cidade-estado implantada no coração de Roma, a capital da Itália.

Depois dos primeiros séculos de perseguição, o cristianismo não só adquiriu liberdade de culto como se tornou a religião oficial do império romano ocidental e oriental, e o bispo de Roma passou a designar-se por papa, sumo pontífice, santo padre, com direito a trono e tripla coroa, património territorial e até exército. E mais tarde o único vivente sobre a Terra declarado infalível em matéria de fé e de costumes, o que nunca foi bem aceite nem claramente definido se se tratava de infalibilidade colegial ou individual. O seu poder e influência chegou ao ponto de os governantes europeus e os próprios reis e imperadores não terem legitimidade sem o beneplácito papal, sobretudo, na idade média. Portugal, na sua longevidade e sobrevivência, foi um bom exemplo deste condicionalismo histórico.

Com o andar dos tempos, criou-se a percepção de que Deus era um ente do género masculino, um Deus Pai. Que a hierarquia eclesiástica tinha de ser toda constituída exclusivamente por homens, proibidos de contrair matrimónio e as mulheres excluídas do sacramento da Ordem. Fórmula perfeita de controlo total da instituição em configuração vertical, mais económica e simplificada sem crianças nem questões de herança, à custa da privação do contributo direto da mulher, a maioria esmagadora da cristandade, relegada para o serviço auxiliar da oração e da obediência. Assim, a experiência natural da família e do amor humano, para o clero celibatário, fica reduzida a uma ideia abstrata com sabor de fruto proibido incompatível com o amor de Deus.

 Nas vésperas da eleição de um novo papa, em pleno século XXI, quando a vida humana, nestes vinte séculos passados, evoluiu substancialmente, poder-se-á perguntar o que é que se espera do novo pontífice da Igreja Católica que se encontra mergulhada em profunda crise, com certeza, uma das mais graves de sempre. E o problema principal neste preciso momento histórico é, sem dúvida, a atitude da igreja em relação à sexualidade humana, por mais incrível que pareça. Jesus Cristo parece que foi celibatário, embora, os seus discípulos mais próximos, os apóstolos, tenham sido casados à exceção de um. A sua incarnação, como Deus-homem, segundo o credo católico, deu-se através de uma virgem e de um pai não biológico, como se o nascimento natural como o de qualquer outra criança do seu tempo, lhe pudesse ter subtraído algo à sua divindade. Ao mesmo tempo a igreja professa que Jesus foi verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Portanto, parece que a primeira grande questão que se porá ao próximo papa, mais que qualquer questiúncula doutrinária será, de facto, uma nova postura quanto à sexualidade. Tarefa muito difícil, para qualquer homem celibatário, com um voto de castidade que o impossibilita de ter, o conhecimento experimental, natural e legítimo,  da sexualidade num ambiente familiar baseado no amor. A igreja, perante os abusos sexuais do clero, terá de interrogar-se, sincera e humildemente, se continua a fazer sentido a obrigatoriedade do celibato eclesiástico e a proibição da ordenação das mulheres?!

Se continuar a defender o status quo, com meras palavras e desculpas ocasionais, sem assumir responsabilidades, como tem feito até agora, irá parar aos tribunais civis, e a tecnologia da comunicação instantânea, hoje disponível,  tornará possível assistir-se ao julgamento público da igreja. Já lá vão os tempos em que resolvia os problemas da sexualidade do clero com a imposição do silêncio obrigatório, orações penitenciais e fuga das tentações. Há já movimentação, a nível nacional e internacional para considerar crime contra a humanidade o abuso sexual de menores. E as responsabilidades da igreja católica, neste campo, abrangerão todos os níveis da hierarquia eclesiástica, da base à cúpula.

 Mesmo nos países mais conservadores e fieis às orientações do Vaticano, as revelações de abusos sexuais do clero começam a aparecer em catapulta, sem poupar nenhum continente ou país. Veja-se Portugal, terra de fé e de Fátima, onde há poucos dias, o próprio cardeal patriarca de Lisboa, agora em Roma para eleger o próximo papa, afirmava impávido à janela aberta do ecrã televisivo para que todo o mundo escutasse, que desconhecia qualquer abuso sexual do clero em Portugal!

Por isso o novo papa, seja ele liberal ou conservador, europeu ou africano, asiático ou americano, velho ou novo, não poderá ignorar o problema por mais tempo. É a credibilidade da igreja que está em causa, assim como a ofuscação de muitas outras obras meritórias que realizou nos seus dois milénios de existência.

Quem diria que a Igreja Católica, um dia, viria a ser julgada, em praça pública, sobretudo, a partir dos escândalos, abusos e crimes sexuais do clero, sendo o celibato eclesiástico, a pérola preciosa e sinal de distinção da igreja romana,

O primeiro grande teste do novo papa quanto à atualização da igreja passará pela reformulação da doutrina da sexualidade humana.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 13 de Março de 2013

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publicado por picodavigia2 às 01:19

CANÇÃO DO REMENDO E DO CASACO

Sábado, 25.01.14

(BERTOLD BRECHT)

Sempre que a nosso casaco se rasga

Vocês vêm correndo dizer: assim não pode ser

Isso vai acabar, custe o que custar!

Cheios de fé vão aos senhores

Enquanto nós, cheios de frio, aguardamos.

E ao voltar, sempre triunfantes

Nos mostram o que por nós conquistam:

Um pequeno remendo.

Óptimo, eis o remendo

Mas onde está

O nosso casaco?

 

Sempre que nós gritamos de fome

Vocês vêm correndo dizer: Isso não vai continuar

É preciso ajudá-los, custe o que custar!

E cheios de ardor vão aos senhores

Enquanto nós, com ardor no estômago, esperamos.

E ao voltar, sempre triunfantes

Exibem a grande conquista:

Um pedacinho de pão.

Que bom, este é o pedaço de pão

Mas onde está

O pão?

 

Não precisamos só do remendo

Precisamos o casaco inteiro.

Não precisamos de pedaços de pão

Precisamos de pão verdadeiro.

Não precisamos só do emprego

De toda a fábrica precisamos.

E mais a carvão

E mais as minas

O povo no poder.

É disso que precisamos.

Que têm vocês

A nos dar?                                                    

 

Bertold Brecht

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publicado por picodavigia2 às 10:56

À MERCÊ DOS CAPRICHOS DA NATUEZA

Sábado, 18.01.14

Aqui transcrevo, com a devida vénia, um artigo de opinião da jornalista Maria José Margarido, publicado no «Diário de Notícias» em 12 de Agosto de 2006 e, recentemente, divulgado pelo “Forum Ilha das Flores”.

“Esta mania de tirar férias no Outono tinha de trazer, um dia, os seus dissabores. A ilha das Flores, a apenas uma hora de avião de São Miguel, acabou por permanecer, teimosa, a quatro dias de distância. Mau tempo oblige, há que reaprender esta subjugação do homem pelos deuses do vento e, principalmente, do nevoeiro - se os açorianos ainda não lhe deram um nome profano, já o deviam ter feito. Chegámos a sobrevoar a ilha e voltar para trás dois segundos antes de o piloto se fazer à pista, por "brusca alteração das condições atmosféricas". É então compreensível a sensação de triunfo que nos abria os sorrisos quando finalmente desembarcámos - e que se manteve apesar de a nossa anfitriã nos perguntar, assim que ficámos ao alcance da sua voz: "Mas porque é que decidiram vir cá em Outubro?".

É verdade, éramos poucos, a juntar aos já de si poucos habitantes da ilha: que tivéssemos reparado, apenas nós e uma solitária alemã de meia-idade, adepta de longos passeios. Este é um daqueles locais únicos no planeta, onde nos sentimos realmente longe de tudo, e a base das operações é muito importante - principalmente quando a tal instabilidade climatérica pode obrigar a alguns períodos de recolhimento. Foi assim que rumámos à Aldeia da Cuada, uma povoação abandonada pelo êxodo migratório para os Estados Unidos e totalmente recuperada, sem mudar uma pedra à sua configuração original, para turismo rural.

 É difícil descrever a localização destas casas, uma das zonas mais bonitas da ilha. Tentemos. A aldeia fica na costa oeste da ilha das Flores, num pequeno planalto sobranceiro à foz da ribeira Grande, entre a Fajã Grande e a Fajãzinha. De um lado, o oceano a perder de vista, varrido por focos de luz vindos do céu; do outro, uma falésia imponente que só às vezes se revelava - a si e às cascatas que a percorriam, quedas de água que no Verão são só uma mas se desmultiplicam nos dias mais generosos em chuva de Outubro.

Começávamos assim a responder à pergunta primordial da nossa anfitriã. O vento que assobiava entre as frestas da janela à noite, fazendo-nos sentir numa jangada de pedra no meio do oceano, poderia ser outra resposta. Uma aldeia inteira só para nós e dois patuscos burros, capazes de reciclar caroços de maçã, bonés e o que quer que lhes aparecesse à frente em jeito de oferenda, são outro argumento possível. Tal como a descoberta, após horas de luta com o omnipresente nevoeiro, da cascata do Poço do Bacalhau, que liberta as suas águas de uma altura de 90 metros, pulverizando-se no ar antes de formar uma deliciosa lagoa natural onde se pode tomar banho. OK, nós não pudemos, mas não nos importámos muito.

Nenhuma ilha dos Açores tem como esta, em apenas 143 quilómetros quadrados, tantas cascatas e cursos de água a serpentear pelas encostas e falésias. No seu planalto central, a ilha das Flores ostenta vaidosa nada mais nada menos do que sete lagoas, nascidas de crateras vulcânicas. Só no último dia conseguimos vê-las, com as nuvens a afastarem-se finalmente como se de um ritual de despedida, um prémio de persistência, se tratasse. Cada uma é parte de um caleidoscópio de cores: a lagoa Funda ou Verde, com margens revestidas de hortênsias; a Branca, a Seca, a Comprida, a Rasa, a evocar paragens escocesas; a Lomba e a Funda das Lajes - a maior de todas.

Há que transigir: não vimos no seu esplendor as flores que baptizaram a ilha. Por pouco não conseguíamos pisar a ilha do Corvo, à distância de duas horas de barco: acabámos por ter lugar no único que conseguiu fazer a travessia naquele mês, carregado de gasolina, vacas e outros mantimentos mortos e vivos. E o Caldeirão não revelou o seu lago de sete ilhotas, representação estranha e pictórica de parte do arquipélago. Mas voltámos com a certeza de ter vivido algo único, o que nos dias que correm é muito mais que muito.”

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publicado por picodavigia2 às 11:38

A MEU PAI

Quinta-feira, 16.01.14

(UM POEMA DE JOSÉ RÉGIO)

 

Foste simples, banal,

Bom, com defeitos, jovial,

E tão pegado à vida,

Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.

Viveste para as coisas deste mundo,

Que seria melhor

Se o pudesses fazer conforme o teu humor.

Não é por ser teu filho que sou triste,

Demoníaco, angélico, diferente,

Descontente, nevrótico, perverso.

Mas se algo, em mim, resiste

De humildemente humano,

Amigo de viver conforme vai

Vivendo a gente consoante o ano...

A ti o devo, pai !

A ti o devo, se nasci.

E a ti o devo, se inda não morri.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:19

VELHINHOS – UM POEMA DE BERNARDOMACIEL

Domingo, 12.01.14

– José! Que mar feio e escuro!

Serão sinais de tufão?

E o céu, como está triste

Que faz mal ao coração...

 

São céus de inverno, Maria,

Imagem da nossa idade.

Vieram as nuvens e sombras,

Foise o sol da mocidade...

 

Quanto ao mar... não é bom

Estar a adivinhar mágoas...

Rezemos antes a Deus

Pelos que andam nessas águas.

 

Temos por lá nossos filhos

E esse mundo é como o mar...

Peçamos a Deus por eles.

Só Ele os pode guiar.

 

Ajoelharam lado a lado,

Rezando ambos baixinho.

Os seus corpos já não podem,

Mas a alma sabe o Caminho...

 

Casal velhinho e cansado,

Bendita a Fé e a Esperança!

Consoladoras divinas

Em que o mar da alma se amansa...

 

“Senhor! Fazei bons, felizes,

A todos e aos nossos filhos!”

E nos seus olhos as lágrimas

São astros cheios de brilhos...

 

Após a sua oração

Como eles crente e singela,

O velhinho, pela mão

Levoua junto à janela.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:13

CRÓNICAS SANJOANINAS

Domingo, 05.01.14

Da autoria de Emílio Porto, publicado em “Alto dos Cedros”, 1 de Julho de 2011, aqui transcrevo na íntegra o texto com o título em epígrafe:

“Dois dedos de conversa aconteceram, numa noite de São João. Noite serena, à beira da tasca, bem surtida e bem apetitosa. Muita gente, por ali à volta, na conversa amena. Uns atentos, outros distraídos, e outros mirando.

Familiares e amigos ali se encontraram, fortuitamente. Logo surgiram, de imediato, dois dedos de conversa, enquanto a marcha se divertia e fazia divertir. Uma marcha feita de todas as idades. Porque assim é que deve ser: a comunidade inteira participa.

Enquanto as companheiras se divertiam com as suas novidades – sempre novas e sempre velhas – ficavam os companheiros a desbobinar também coisas velhas e novas, estas mais específicas e singulares, quase todas das áreas castrenses, e também, as muito específicas do reino dos castos.

Ninguém pode estranhar. Os percursos, embora diversos no tempo e no espaço, foram semelhantes – na freguesia, na guerra e na dispensa do santo ofício.

São poucos, mas ainda são alguns, os que, no fim da vida, se podem orgulhar de ter recebido os sete sacramentos da Santa Madre Igreja! Por isso, serão gloriosos, com direito ao melhor dos melhores tronos dos reinos celestiais, rodeados de anjos e arcanjos, querubins e serafins!

As histórias da guerra são sempre as mais marcantes, mais solidárias, e por isso, paradoxalmente, as mais humanas e cristãs. Foram “castigo” da mitra, exclusão forçada. Depressa se transformaram em humanidade salvadora, antítese do reino que ficou para trás, lugar de podridão e mentira. Que, como ontem, hoje e cada vez mais, parece continuar a sê-lo.

 Nada muda. Tudo parece ser igual. Mas as evidências ou consequências vêm sempre ao de cima. Já dizia o velho chanceler da cúria: “são poucos os que não molham o prego”.

É na dificuldade, na luta pela sobrevivência que os laços humanos mais se fazem sentir e deixam marcas para sempre. A solidariedade só aparece no meio da desgraça e do abandono; vem sempre de outros que andam longe, dos quais menos se espera; os mais próximos fogem, como Pedro. Quando todos estão bem, não se fala em solidariedade. Que se arranje e que passe bem!

Porém, passadas as horas difíceis, as guerras, os abandonos, e encontrados os tempos mansos e estáveis, geralmente vem a mesma tentação: que se arranjem os algozes de antanho, e que passem bem.

As histórias acabam por ser repetidas pela vida fora, perante os que passam e os que vem depois. Repetidas e aumentadas, porque os fregueses pouco mudam e passam de geração em geração o que sempre fizeram e dizem. E deixam sempre a sua marca. Quem conta um conto acrescenta um ponto. Os comportamentos não mudam facilmente.

Ficaram as histórias do professor Pisca-pisca, do Presidente Amaro, da tia Maria da Ribeira. E também – é bom não esquecer – as histórias do Reitor e do Monsenhor.

Do professor Pisca-pisca que vigiava o padre, e vigiava a mulher, quando esta ia para a igreja. Do Presidente Amaro que exigia ser consultado quanto à procissão do padroeiro. Da tia Maria da Ribeira, que exigia saber qual era a opinião do padre sobre os jarros das flores do altar. Do Reitor, que recebia mensagens diárias, de comportamentos desviantes, e de práticas antes nunca experimentadas. Do Monsenhor, que controlava a modernidade doutrinal. De ambos, trocando mensagens entre si, levadas e trazidas por informadoras piedosas e assíduas às novenas das almas.

Da guerra, ficaram os encontros com homens, carregados de problemas familiares, de bebedeiras frequentes, de ausências prolongadas, de doentes, mutilados, e mortos enviados em caixões de chumbo. Do Tenente-Coronel, Comandante, que todos os dias se embebedava e chorava pela mulher que lhe tinha falecido, vítima de cancro no seio, mais do filho, metido pela droga. Do Major, Segundo Comandante, que, com feridos à sua volta, aos berros, dizia: “lá por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”; valendo-lhe, da reacção furiosa e imediata, correr depressa para o quarto!!! Das chuvas e da seca prolongada que condicionava o tempo de paz e o tempo de guerra, ficaram recordações, lembranças de solidariedade, nunca sentidas antes nos corredores dos paços, das cúrias e dos passais.

A noite sanjoanina já ia longa. Era tempo de dispersar. Outras ocasiões virão, e outras histórias se hão-de contar. E os blogs poderão registar.

Que belas estavam as iscas de atum e as lulas guisadas!...Até daqui a dias.”

 

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publicado por picodavigia2 às 09:28

ADDENDUM (O VERBO E A VERVE DE MONSENHOR J. MACHADO LOURENÇO – AULAS QUE O VENTO NÃO LEVOU)

Domingo, 29.12.13

POR ONÉSIMO ALMEIDA

 

Não era preciso ser adivinho para prever o que iria acontecer com esta homenagem. Decidi enviar o texto a três dúzias de amigos e antigos colegas, hoje espalhados pelo mundo, e ele despoletou uma cadeia de reacções carregadas de afecto por esse nosso antigo professor, e trazendo-me estórias adicionais. Outras foram-me contadas na minha passagem por Angra, aquando da sessão de homenagem do IAC, bem como no dia seguinte, em Ponta Delgada, num encontro de colegas do meu curso que resolveram assinalar com um convívio os cinquenta anos da nossa entrada para o Seminário Menor naquela cidade, em 1958. Tendo sabido da sessão em Angra, pediram-me que relatasse o que ali se passara e recontasse algumas das estórias que contara na minha intervenção. Obviamente que choveram as lembranças de cada um e o carinho pela pessoa do Monsenhor Lourenço ficou refrão na corrente de sentimento dessa noite de nostálgica alegria. 

De Lisboa, onde trabalha na comunicação social, um e-mail do cónego António Rego  como que deu o mote: “Fui transportado a um mundo fantástico”, revelando o quanto aqueles  idos anos sessenta pertencem a um passado que não só é de outro século como de outro milénio. Optei por, além das estórias novas, reproduzir as passagens que ao Monsenhor se referem pois isso dará uma dimensão mais representativa e alargada da justeza desta homenagem do IAC.

Da sua actuante livraria Culsete, em Setúbal, Manuel Pereira de Medeiros enviou-me um e-mail que, não sendo exactamente sobre o Monsenhor Lourenço, ajuda a criar um enquadramento importante, desenhando uma espécie de contexto temporalizado que permitirá ao leitor compreender melhor a auréola mítica que envolve estes anos 60 (no caso, também ainda fim da década de 50) nuns Açores remotamente isolados do mundo:

Marcou muito o meu curso. O tal curso que marcou muita coisa, como ainda agora foi possível perceber na reunião de 15 de Junho p.p.. Regressado à Terceira estávamos no 5.º ano, fôramos os primeiros alunos de Coelho de Sousa em Português no 3.º e 4.º. No 5.º Português, Inglês e História com Mons. Lourenço. Antes de no 6.º a Literatura com o Cónego José Augusto Pereira. E também no 6.º Filosofia com José Enes e Grego com Cunha de Oliveira. Vês a sequência e a sorte? Percebes o que de mim veio a mim desta sequência? Há mais. Especialmente Simão Bettencourt, de difícil intimidade mas comigo desde o primeiro ano até à sua morte uma grande e riquíssima amizade.

Tenho que ter mão em mim para não encher a tua caixa de correio!!

Vê lá se não há na tua memória atribuída a Mons. Lourenço alguma piada que já andava no ar das aulas n.º 4, 3 ou 10 antes de lá ele entrar...

Do Carlos Sousa, antigo Chefe dos Serviços de Emprego nos Açores e director do muito conhecido grupo musical Belaurora:

Mal recebi o teu e-mail, abri imediatamente o texto e li-o com sofreguidão. Acabei com lágrimas nos olhos. De alegria e de comoção. Bendita a hora em que se lembraram de Monsenhor Lourenço, para o homenagear. […] Também em mim, Monsenhor deixou gravados indelevelmente pedaços de sabedoria, (a pouquinha que tenho foi somatório do tanto que daquele tempo ficou). E, como "a memória é a faculdade de esquecer", espero que em mim só se apaguem no ponto final da vida.

O Januário Pacheco, que durante muitos anos leccionou no Luxemburgo, reagiu num e-mail, enviado creio que de Lisboa:

[…] Tenho muitas saudades do Mons. Lourenço e tenho muita pena de não ter fixado muitos dos seus ditos e anedotas cheias de humor e de sabedoria, como dizes. Nas férias ia muito a casa dele. Era muito simples, acolhedor para todos os vizinhos e familiares. Estou a vê-lo sentado, a saborear o seu cachimbo, entre os seus livros desarrumados. Depois, os afazeres e a revolução fizeram esquecer o muito que o Monsenhor dizia e sabia. Foi pena.

[…] O seu modo de estar com todos, e os pequenos factos que contas no texto definem a sua personalidade melhor do que tudo. E era uma pena as novas gerações ficarem sem os conhecer. Depois de assim escritas e relembradas, vão perdurar.

Até pensei ir à Terceira também para assistir as essas homenagens. Ainda não sei se vou. Vamos ver.

De um e-mail do Nuno Álvares Vieira, que na sua aposentação lecciona no Stonehill College em Massachusetts, e de quem já citara no meu texto um e-mail anterior, retiro a seguinte passagem:

Ainda a respeito do Monsenhor, uma coisa que aprendi dele foi "a arte de se poder falar positivamente de alguém, mesmo quando não haja muito de positivo para se dizer". Sabes onde aprendi isso? Através das recensões que ele fazia de livros na Atlântida. Sem escrever nada de negativo, dava margem suficiente para o leitor se aperceber do calibre de obras de menos qualidade. Assim era a índole bondosa e carinhosa do velho Monsenhor.

O José Luis da Costa Rodrigues, antigo professor de música e maestro de coro num Liceu de Genebra, Suiça, conta:

O Mons. Lourenço interrogava um aluno. Como este não soubesse nada, a chamada consistia em perguntas do Monsenhor. O aluno levantava a cabeça para ouvir a questão, olhava para o livro, levantava a cabeça e saía com o que tinha lido. Nova pergunta mesmo procedimento. A todas as interrogações era um mergulho no livro e uma cabeça que se levantava com uma resposta ao lado. Para acabar com o manejo o Mons. pergunta ao aluno: - Sabe o que tem de comum uma galinha e um aluno que não estuda as suas lições? – Mmm... - Os dois aplicam a palavra do Salmo: De torrente in via bibet, propterea exaltabit caput. Consulta feita: último versículo do Salmo 109.

Na sua gramática inglesa o Monsenhor Lourenço alternava regras em português e regras em inglês. As primeiras destinadas aos alunos do primeiro ano de inglês eram ditas as regras para os "menores de 18 anos" (alusão à proibição de certos filmes aos menores de 18 anos). No segundo ano era abolida essa proibição; daqui em diante tínhamos acesso às regras em inglês como quem pode ver todos os filmes graúdos... 

No refeitório dos "superiores" não sei se o Padre Coelho, o Dr. Cunha, ou o Dr. Enes, um deles, tinha feito um poema que só falava em cruzes. O autor pergunta ao Monsenhor: O que pensa do meu poema? - Penso que estamos diante de um cemitério...

[…] temos todos muitas recordações do Mons. Lourenço cujo humor era contínuo mas sem ofender. 

Artur Goulart, antigo Director do Museu de Évora, bem como antigo Chefe de Redacção de A União, partilhou comigo um importante dado para se conhecer melhor o que se passou num período particularmente duro da vida cultural angrense:

[…] uma bela homenagem [a uma pessoa] de quem tenho óptimas recordações, embora o não tenha querido acompanhar n' A União quando ele foi nomeado director. Achei que me devia solidarizar com o dr. Cunha de Oliveira e, pese embora o pendor humanístico e honesto do Monsenhor, a abertura a outros ventos não se compadecia. Apesar disso, sempre tivemos excelentes relações, como professor, como colega (?), grande companheiro de bridge, de humor fino e inteligente, de inúmeras histórias dos orientes. […] Julgo que também é dele a dos "quatro reis de Israel, que eram três, Esaú e Jacob". E aquela belíssima em latim, que procurei ontem nos meus papéis e não encontrei, referente aos cónegos, e que ele contava mesmo depois de ter sido nomeado tal, que deves conhecer e que acaba por afirmar, uma vez que basta um cónego para constituir um Cabido, que "quanto menor é o número, maior é a besta". Tem piada é em latim.

Do Urbano Bettencourt, poeta e professor na Universidade dos Açores, chegou-me o seguinte:

[… o teu] contributo para o perfil de JMLourenço, uma espécie de retrato em composição avulsa ou fragmentária, que dá conta de um homem cujo mundo, aparentemente, não era daquele reino sorumbático e pesadão do Seminário. O teu elenco é bastante vasto, afinal tiveste-o como professor em três disciplinas. Só o tive em Inglês, para mais naquela idade idiota dos 13-15 anos, mas lendo o teu texto lembrei-me de dois comentários dele. O primeiro possivelmente terá ocorrido também contigo, pois deves ter estudado Inglês pelo mesmo livro ...azul : quando estudávamos o humor de Three men in a boat, de Jerome K. Jerome, ele "dava-se ao trabalho" de traduzir para português... o nome do autor, Jerónimo Kapa Jerónimo, acrescentando logo: quem capa um capa dois.

Numa aula em que andávamos a contas com o "My bonnie is over the ocean / My bonnie is over the sea", um dos meus colegas, já não sei qual,  foi encarregado de ler e talvez levado pela pronúncia de "ocean" foi no balanço e, em vez de "over the sea", leu "over the she". Comentário imediato de Monsenhor Lourenço: "Ora, ora, em cima dela não!"

Tanto um como outro comentário eram coisas altamente improváveis de serem ditas numa aula "eclesiástica" naquela primeira metade dos anos 60. Mas acho que me têm servido também de modelo para algumas "quebras" inesperadas no ambiente das aulas.

João Esaú Dinis, que foi Director da Escola Superior de Tecnologia de Saúde de Lisboa, acrescentou esta estória:

Dele retive o caso de, no Concílio de Mâcon, se ter discutido, duvidado ou, pior, afirmado que as mulheres não teriam alma. Face ao desconforto da história, lá foi [o Monsenhor] explicando: “Pois, os padres da Igreja, num intervalo das sessões, enquanto passeavam para trás e para a frente, pelos corredores, terão comentado entre si do seguinte modo: “Pela maneira como tentam o homem, até parece que as mulheres não têm alma como nós”.

E com tal amenidade, parecia incólume a infalibilidade conciliar.

De Brampton, Canadá, o Eduardo San-Bento Couto, depois de um e-mail apressado, enviou-me no dia seguinte um outro, comovente, em que acrescenta mais algumas estórias pessoais, de diálogos tidos com o Monsenhor Lourenço:

Ontem, a compreensão foi resultado de velocidade de leitura; hoje, foi de meditação. Chorei sem querer, tal a realidade presente dos ditos e situações. Embora tu e eu não compartilhássemos da maioria das aulas com Mons. Lourenço, revi-me em quase tudo o que testemunhaste.

Mas, porque penso que este é o tempo oportuno, ou nunca o será, aqui vão alguns aspectos do Monsenhor, os quais me tocaram e sobre os quais, como tu, ainda reflicto frequentemente:

1.         O seu pasmo perante a pluralidade e relatividades das religiões.

Visitei o Oriente pela primeira vez em 1972; ainda estava bem viva em mim a experiência das vivências de Mons. por aquelas paragens. E então percebi o significado da sua luta romana monolítica perante o monolitismo hindu e budista, e respectivo pragmatismo.

Assim me respondera Mons. com seu algo de sarcasmo perante a minha procura gélida da veracidade:

«Senhor Couto, o baptismo não faz mal a ninguém do mesmo modo como não faz mal o banho da vaca santa ou a refeição nirvânica da última hora» ; respeitar as três visões é um investimento seguro sem consequências negativas».

Aquilo escandalizou-me, embora no fundo tivesse gostado muito da resposta.

                        2. O seu entendimento profundo dos símbolos religiosos. Repara nesta:

«Senhor Couto, o que é mais fácil de aceitar? Comer e beber Deus ou lavar-me na urina de uma vaca? A última é muito mais simples e menos horripilante».

                        3. O cuidado com que lidava com excepções. (Método científico aplicado à pedagogia).

Como eu nunca senti que tivesse liberdade de ter notas baixas, lá ia tentando também exceder-me no inglês.

Nota frequente do Mons. no papel dos 'exercícios': «17 valores. Tudo certo. Deves ter copiado.»

No princípio, eu ripostava; mas Mons. respondia-me: «Não ligues a isso; 17 significa tudo certo; e se copiaste, tanto melhor para ti».

Outros teriam aberto um inquérito...

Onésimo, desculpa-me o arrazoado. Mas és o culpado porque me fizeste reviver coisas bonitas em fim de ano.

Vários outros e-mails me chegaram dos mais diversos pontos do globo. Recordo, com receio de esquecer nomes, os de Manuel Quaresma (professor na Catholic University of America, Washington, DC ), Olegário Paz (que durante décadas leccionou em Lisboa), António da Silva Cordeiro (antigo professor no Seminário, há décadas residente em New Jersey, EUA), Octávio Ribeiro de Medeiros (Vigário Episcopal e professor na Universidade dos Açores), Gualter Dâmaso (da Açortravel), José Gabriel Ávila  (ex-RTP-Açores e bloguista), todos em Ponta Delgada, e Afonso Carlos Rocha (Reims, França) . O jorgense José Manuel Melo (gerente bancário aposentado, também em Ponta Delgada), evocou o seu “antigo e sempre recordado professor”, acrescentando que numa festa de S. Tomás de Aquino foi declamador de um poema de Mons. Machado Lourenço – “’Ao Anjo das Escolas’ – escrito de pronto para o acontecimento” . De Toronto, o José Carlos Rodrigues, advogado e antigo maestro do Orfeão Edmundo Oliveira, de Ponta Delgada, fez também uma emocionada evocação de J. Machado Lourenço num e-mail que por acidente perdi.  De Oakland, Califórnia, uma  carta do Fr. Joe Ferreira refere a memória benquista do saudoso Mons. Lourenço, de quem guardo as melhores recordações, sobretudo pelo incentivo que me dispensou nas minhas inclinações jornalísticas”.

Um autêntico gentleman, bondoso e com um fino senso de humor. Tive sempre por ele a mais profunda admiração.

Na sequência da longa conversa com o Heriberto Brasil, pedi-lhe que passasse à escrita as estórias que me contou. Fez o favor de aceder ao meu pedido e, de um e-mail seu, seu extraio as que se seguem:

Quando Monsenhor Lourenço chegava à sala de aula, após a oração inicial (Hail Mary, full of grace…), ia-se sentando vagarosamente. Era o momento esperado ansiosamente pela turma porque, geralmente, saía estória ou dito humorístico. 

As estórias ou ditos que se se seguem foram contados por ele no início de algumas aulas.

Certa vez, estavam Monsenhor Lourenço e o Sr. Cónego Jeremias Simões a pescar no porto das Cinco Ribeiras. Nisto, o Sr. Cónego Jeremias sente uma “ferrada” no anzol e levanta o caniço com tanta violência que o peixinho, que vinha mal preso, desprendeu-se e caiu ao mar.

O Sr. Cónego Jeremias, entre o entusiasmo e a frustração, volta-se para o Monsenhor Lourenço e exclama:

- Viu! Viu!

Ao que o Monsenhor respondeu:

- Vi, vi, o seu caniço vir sem nada para cima!

O Cónego Jeremias não achou piada nenhuma, enquanto o Monsenhor se fartava de rir.

Depois que o Senhor Padre Roberto, pároco de Santa Bárbara, herdou (de forma considerada um tanto ou quanto manhosa) os bens do Senhor Padre Joaquim, pároco de São Bartolomeu – caso que estava sendo muito comentado – Monsenhor Lourenço despeja esta, com um sorrisinho de malícia:

- Ora, ora. O Pe. Roberto herdou o Pe. Joaquim. Mas a mim na’m’herda [nada]!

Certo dia, após o momento de humor inicial, levámos muito tempo para serenar e estávamos a pisar o risco.

Logo o Monsenhor Lourenço admoestou:

- Ora, ora. Eu gosto de contar estas coisas para criar um ambiente alegre. Mas depois quero toda a gente em silêncio e com atenção. Porque eu já tenho dito que dou um nove a rir, um oito a rir muito e um sete a chorar de rir.

Numa certa aula, dissertando sobre o comportamento que devíamos ter quando fôssemos padres, afirmou:

- Sim, porque havia um indivíduo que costumava dizer: “Há uma classe de pessoas que só merece pancadas. É a classe que usa saias – mulheres e padres”.

E acrescentou:

- E olhem que tinha certa razão!

Uma das estórias que contou, do seu inesquecível Oriente, foi esta:

- Eu fui acompanhar o Dom José da Costa Nunes, como secretário dele, numa das suas visitas a uma diocese sufragânea de Goa. Como estava um calor insuportável, o Dom José não levava calças por debaixo da batina. Íamos numa carroça. De repente, o cavalo dá uma guinada e o Dom José cai de costas, no fundo da carroça, ficando a espernear, sem calças.

E ria muito, recordando o ridículo da situação.

O Padre Cipriano Franco lembrava-se de uma narrativa que o Monsenhor fizera do naufrágio de um barco em que viajava. A grande maioria dos passageiros saltou para a água, mas José Machado Lourenço não. E justificava-se:

- Se hei-de ir acabar na água, ela que venha ter comigo!

O Carlos Joaquim Fagundes, há décadas a leccionar no Norte de Portugal (Paredes), enviou-me um longo e-mail com estórias adicionais, que alguma delas indesculpavelmente eu omitira. Ele escreve:

Recordo-me praticamente de tudo o que referes na tua alocução, excepto daquele do D. Pedro V, em que sou protagonista. Lembro-me sim uma aula de História da Igreja, em que ele abordou o papado de Alexandre VI. Eu lera na Biblioteca (infelizmente ia lá poucas vezes, mas para tal também não era motivado), algo sobre esse período, e perguntei-lhe: - Monsenhor, não nos vai falar do “Baile das Castanhas”? Ele sorriu muito simpaticamente, como era seu hábito e respondeu: - Bem, isso fica para a aula de Ballet. – e continuou a lição.

Entre os célebres silogismos dele, lembro-me de um outro que não referes: “A água mata a sede; o peixe salgado tem água, logo… o peixe salgado mata a sede.”

Era também muito frequente nele, perante qualquer postulado não aceitável, a expressão “ ou isto ou aquilo é assim ou então a lógica é uma batata”. Frequentemente, perante uma negativa que alguém tinha ou por outra qualquer contrariedade que lhe era referida, ele tentava acalmar o sofredor, com este dito: - “A meu pai nunca morreu nenhuma vaca. Ele não as tinha.”

Uma questão de “alta metafísica” que ele levantava muitas vezes, era a do “ovo”: - “Uma galinha põe um ovo no Pico. O ovo vem para a Terceira onde nasce o pinto. Donde é natural o pinto?  Do Pico ou da Terceira? Creio que se referia a isto porque ele próprio ou alguém da família dele fora concebido no Pico e nascera na Terceira.

Deves recordar-te de um outro episódio muito interessante. Antes da aula começar, ficávamos todos em pé. Ele rezava, em Inglês, a Ave Maria e nós, em coro, retorquíamos com a Santa Maria, também em Inglês. No fim ele dizia: Mother of God. Nós respondíamos: -  Pray for us. Só então o Monsenhor dizia: Sit down, please! e nós sentávamo-nos de imediato. Certo dia, o Monsenhor esqueceu-se da invocação à Mãe de Deus e, a seguir à Ave-Maria, disse Sit down, please! Todos nós permanecemos em silêncio, excepto o José Maria Bettencourt, que estava distraído e muito convicto, retorquiu: - Pray for us. - Amen. – respondeu Monsenhor com uma tranquilidade e uma simpatia desusadas.

Também me lembro que contava muitas histórias do padre Himalaia, das suas experiências e invenções. Numa outra aula alguém estava a mascar chiclet. O Monsenhor muito sério e sempre a olhar para o livro assim que teve oportunidade, com voz indecisa como quem não sabia ler: - “… mascando… mascaaaaannnnnndo… Ah! Mas quando….” (e continuou serenamente a leitura).

Certo dia saiu-se com esta: - O sacristão da minha freguesia tem ideias muito avançadas sobre a Eucaristia.” Alguém lhe perguntou “porquê” e o Monsenhor respondeu: - Então não é que o outro dia eu ia celebrar missa e tinha-se acabado o vinho. Eu perguntei-lhe: - Então e agora? Como vai ser? Ao que ele respondeu: - Não há problema. Vou ali ao botequim do Mendes e trago-lhe um copo de bagaço.”

Era de facto uma simpatia e confesso que tive sempre uma enorme admiração por ele, sobretudo pela sua cultura e pelos seus dotes literários.

 

No final da sessão no IAC, o Padre João de Brito Carmo, que tem dedicado tanto do seu tempo ao estudo do folclore terceirense, lembrou-me uma história que se tornara, aliás, proverbial entre nós. Numa aula de inglês, o Monsenhor fazia exercícios de retroversão com os alunos do seu curso. Pediu então ao hoje Padre José Constância que traduzisse para inglês a frase: Eu amo-o. O Constância avançou: I love… mas, titubeante, estacou. O Monsenhor insistiu no complemento directo: Eu amo-O! E o Constância: I love… you.

O Monsenhor: - A mim não que já estou muito velho!

 

No referido encontro em Ponta Delgada, o José Adriano Borges Carvalho, advogado na Praia da Vitória, recordou uma que também se tornou famosa. Era comum o Monsenhor pedir que enunciássemos os verbos, sobretudo os irregulares: - To be? - To be - was - been. - To do? - To do - did – done. - To go? -  To go - went - gone. - To set? - To set - set - set. De uma vez, voltou-se para um aluno e pediu-lhe a enunciação do verbo to put. O aluno, reflectindo a nossa dificuldade em pronunciar o u suave, exagerou e pronunciou algo como To pât – pât –pât. 

O Monsenhor corrigiu:  - Não tenha medo de dizer put, que em inglês não quer dizer nada!

O José Francisco Costa, professor no Bristol Community College, em Fall River, onde dirige o LusoCentro, recordou a hilariante cena do Monsenhor Lourenço numa aula em que lhe vimos sair fumo do peito. Tinha posto na algibeira do casaco o cachimbo, seu companheiro habitual, mas sem estar completamente apagado. O José Costa fez entretanto acompanhar a evocação desse divertido episódio de um poema que aproveitarei para fechar este memorial como mandam as regras – isto é, com chave de ouro -, se bem que naturalmente ainda muitas outras lembranças e estórias vão surgir à medida que esta homenagem for chegando ao conhecimento de outros antigos alunos . Eis então o poema:

 

Naquele meu tempo, “Monsenhor”

só rimava com “Lourenço”.

Sábio. Terno. Avô universal,

a mim em tanto tão igual

que até fumava de um cachimbo que, um dia,

em plena aula, se reacendeu por dentro do casaco…

E ficou-me, indelével imagem,

um rosto de serenidade,

perfil de natureza humilde,

olhar inclinado entre a terra e o céu.

Sem pressa para viver mais,

ou acabar os dias mais cedo.

Monsenhor Lourenço, mestre

de quem aprendi a maior lição:

saborear a memória dos que me ensinam a vida.

 

(Em “Matinas”, depois de ler as “Laudes” do Onésimo)

           

                                                                       Onésimo Teotónio Almeida

                                                           Providence, Rhode Island 31 de Dezembro de 2008

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publicado por picodavigia2 às 09:58

O VERBO E A VERVE DE MONSENHOR J. MACHADO LOURENÇO – AULAS QUE O VENTO NÃO LEVOU

Domingo, 29.12.13

POR ONÉSIMO ALMEIDA

 

Começarei esta minha intervenção expressando o prazer muito especial que para mim foi receber este convite. Poderá parecer estranho se lhes disser que não gosto muito de escrever. Costumo mesmo dizer que gosto sim é de ter coisas escritas. Mas quando me chegou este convite do IAC aceitei-o com júbilo. Na verdade, há muito que pensara registar por escrito as estórias do Monsenhor Lourenço fazendo-lhe assim a minha homenagem de antigo aluno perpetuando-lhe a memória em registo de ficar. Palavras leva-as o vento, como todos bem sabemos. Nas suas aulas ele lançou muitas ao vento, mas não poucas ficaram na memória dos alunos. Eu queria fazer a minha parte: pô-las no papel. Daí o júbilo ao surgir-me esta ocasião.

Fica implícito neste meu parágrafo introdutório que não venho fazer qualquer balanço nem biográfico do saudoso Monsenhor Lourenço, nem sequer um balanço literário da sua vasta obra, que aqui apenas referirei de passagem. Pura e simplesmente procurarei servir de intermediário, mero gravador que ouviu da sua boca estórias e apartes, comentários irónicos fora-de-página que me parece não se dever perder. Marginália pura. Obviamente que não esconderei a intenção ou a tentativa de procurar revelar uma faceta não-transparente para quem não conheceu o Monsenhor Lourenço de perto e que dele tem agora apenas os seus escritos. Destas minhas recolecções sairá naturalmente um retrato, que reconheço parcial. Antecipo-me a frisar que não pretende ser mais. Direi mesmo: é um retrato captado da oralidade das aulas, já que me sentei muitos anos nos bancos de aluno com ele como professor tanto de Inglês como de História Universal e História Eclesiástica.

Aliás, um magnífico e sintético retrato do Monsenhor foi elaborado com mestria por um outro aluno seu, meu antigo colega e hoje companheiro de diáspora, o florentino Nuno Álvares Vieira. Quando lhe disse que viria a Angra com esta missão, respondeu-me com o seguinte e-mail:

Encheu-me de emoção saber que tu ias ou vais falar numa homenagem ao Mons. Lourenço. Ainda mais emocionado fiquei por saber que tal homenagem estaria nas tuas mãos, pois sei através dos teus escritos que tu és um admirador do velho sábio - intelectual diversificado, historiador, teólogo sem ser de grandes beatices - batia uma só vez, de mão leve no peito, para dizer "mea culpa", escritor, poeta (até as musas o inspiraram a escrever versos bonitos à rainha das festas da cidade), bom terceirense (amigo da sua terra), humorista, calmo, observador, bom medidor das proporções, compreensivo, altamente humano, etc. etc. Mais do que alguém poderia pensar - nada lhe passava desapercebido. Nada! Não te esqueças de quando dizia que os ministros do antigo governo asseguravam o povo de manter as suas petições debaixo de olho: sentavam-se sobre elas.[1]

Tivesse eu o talento de James Boswell e escreveria, aposto, uma versão moderna de The Life of Samuel Johnson, tantas são as estórias que ao longo dos anos os seus alunos foram acumulando na memória. Não fiz qualquer pesquisa entre os colegas para esta ocasião. Socorro-me apenas da minha memória e, nalguns casos, das minhas sebentas, pois fosse eu pesquisar entre todos os seus antigos alunos e veriam que não exagero comparando-o com Johnson.

O Monsenhor Lourenço repetia, aliás com muita frequência: As minhas aulas são de cultura geral. E tanto assim era que delas foi o que melhor se me colou na mente: os seus ditos, as suas estórias tão cheias de sabedoria, a que ao longo dos anos tenho recorrido para ilustrar as mais diversas ideias. Há um livro americano intitulado Everything I Needed to Know in Life I Learned in Kindergarden, pois sem desprimor para o magnífico corpo docente que tive a sorte de me acompanhar no Seminário de Angra, poderia também eu dizer que muito do que necessitava na vida aprendi nas aulas do Monsenhor. Na verdade, os seus ensinamentos eram, mais do que dados, factos, ou peças epistémicas (para usar o jargão corrente), autênticas pérolas de sabedoria – e por sabedoria aqui eu refiro-me à mais clássica sofia dos gregos. Assim o avaliámos desde cedo e, por isso, quando a propósito do Centenário do Seminário em 1962 eu escrevi uma paródia parcial d’ Os Lusíadas em que figuravam como deuses do olimpo todos os professores do Seminário, escolhi para o Monsenhor Lourenço a figura de Saturno. No final do panfleto, numa “Tabela dos deuses”, eu explicava: “Saturno: Monsenhor Lourenço – Paz e abundância na idade de ouro”.[2]

Era assim que o entendíamos, uma espécie de avô livre e magnânimo que ensina os netos sobre a sua experiência com uma atitude livre, uma dose de candura e uma certa bonomia que se fixam indelevelmente na memória deles, colando-se-lhes também ao coração.

Aludi à obra literária do Monsenhor Lourenço e adverti que não me iria debruçar sobre ela. Não é de facto essa a minha intenção. Conheço-a e posso dizer que a li toda nos anos sessenta. Mas ela é do domínio público e prefiro aproveitar esta oportunidade para complementá-la com uma faceta da obra não escrita. No entanto, constato que não posso deixar completamente de referir também a escrita, cujos títulos recordo na íntegra quase por ordem de publicação, porque cada livro trazia a lista das obras publicadas e eu, que sempre tive, não sei porquê, uma pecha para os livros (escrevi sobre isso uma crónica intitulada “O meu último fetichismo”[3]), admirava a produtividade do meu professor, mesmo se já naquela altura os versos de À Mãe do Amor, Aleluias da Alma, ou Lusa Estrela e, mais tarde, de Benedicite, me pareciam demasiado datados no mundo clássico em que o Monsenhor sempre gostou de viver, e o fez assumidamente, nunca escondendo as suas preferências políticas de católico, apostólico, português (para mais monárquico) e, em literatura, poeta da velha escola. Nunca isso, porém, deu azo a que fosse ostracizado ou hostilizado por uma juventude que vivia fascinada com o novo e voltada toda para o mágico e revolucionário futuro.

A sua novela Vitória era assim como que um rito de passagem obrigatório. Lia-o quem começava a entrar nos dilemas da idade de se descobrir o outro sexo. Conta a vida de um seminarista do Seminário de S. José de Macau, com estórias muito parecidas às nossas de Angra. Por lá os seminaristas não eram conhecidos por “melros pretos”, como em Angra, mas a sua situação era semelhante. De uma vez, num jornal local, apareceu um comentário de um anticlerical referindo o facto de num jardim da cidade só ter visto suínos e seminaristas. Reagindo em verso, alguém que parece ser o próprio Machado Lourenço, pergunta: se àquele jardim só iam suínos e seminaristas e o autor daquele comentário não era seminarista, então era o quê? Mas nessa novela o clímax era a descrição de uma ida do protagonista (o autor? seria autobiográfico esse livro? nunca o pudemos apurar) a Hong Kong para consultar um dentista especializado e que na viagem de barco se reencontra com uma jovem que por ele vivia apaixonada mas até ali sem ele saber. A tensão dramática adensa-se e, perto do final, há uma castíssima cena de beijo, na altura de tão explosivo efeito que os mais velhos e sabidos, os que nos recomendavam a leitura, esperavam pela nossa reacção: - Já chegaste à página… não sei qual agora, que para aqui trago tudo do saco da memória dos anos sessenta sem consulta aos livros que infelizmente perdi nas múltiplas andanças da vida.[4]

Li também as obras de etnografia:  O Romance de um Malaio e Por Terras do Sagrado Ganges, bem como o Beato João Baptista Machado – Mártir do Japão, Prémio João de Barros, da Agência Geral do Ultramar, que na altura me encheu de orgulho. Era o reconhecimento de um autor dos Açores, para mais meu professor. E o prémio não era desprezível: 15 mil escudos, se bem me lembro.  Havia um capítulo sobre “Goa Dourada”, o quarto creio eu, com uma descrição romantizada, altamente idealizada e mítica mesmo, da Roma do Oriente. Teria irritado Edward Said - se o autor de Orientalism lhe conhecesse a existência, talvez o citasse como exemplo da mitificação ocidental do Oriente. Mas o dito capítulo terá afinal tido alguma razão de ser por razões que adiante aduzirei. Orgulhei-me igualmente quando descobri que a Enciclopédia Luso-Brasileira (que eu consultava amiúde na velha biblioteca do seminário quando com um pequeno grupo de colegas lá trabalhava como voluntário sob a orientação do dr. José Enes) incluíra uma entrada com o nome do Monsenhor, ainda que lhe dedicasse apenas duas linhas. Ainda esse mesmo orgulho interior eu senti ao saber que as suas Regras de Gramática da Língua Inglesa, por onde nas suas aulas aprendemos inglês, eram também usadas no liceu. E, se não li o livro Os Lusíadas - Poema Católico, foi simplesmente porque o havia lido em artigos à medida que iam saindo na revista Atlântida, que ele dirigia. Mas voltemos ao tema de que prometi ocupar-me.

Os seus apartes eram lendários. Saíam-lhe com uma naturalidade assombrosa. De certa vez, numa prova oral do primeiro ano de Inglês perguntou ao António Filomeno Maia qual era o presente do indicativo do verbo to be. Nervosíssimo, o Filomeno gaguejou: I bee, you bee, he bees… E o Monsenhor: Pois, pois… Eu abelha, tu abelhas, ele abelha.

Noutra ocasião, ouviu-se na aula o ruído de um avião. Os alunos mais próximos da porta para o jardim, que estava sempre aberta, esticaram o pescoço para ver melhor. O Monsenhor: Ok, não distraiam o aviador.

Tinha uma predilecção por estórias que envolviam incongruências lógicas. Uma das suas clássicas era a dos grilos do padre Patagónia. Guardava-os o padre numa caixa de fósforos e todos os dias ia alimentá-los. Uma manhã, ao abrir a caixa, não os encontrou. Conclusão do padre Patagónia: Comeram-se um ao outro.

Entre essas predilectas incongruências lógicas figuravam os famosos silogismos que não apresentava como seus. Aliás, não reclamava nunca originalidade nas estórias que contava: Tudo o que é raro é caro

Um cavalo bom e barato é raro.

Logo um cavalo bom e barato é caro.

Outro exemplo de incongruência era o silogismo:

Quanto mais se estuda, mais se sabe;

Quanto mais se sabe, mais se esquece;

Quanto mais se esquece, menos se sabe;

Quanto menos se sabe, menos se esquece;

Quanto menos se esquece, mais se sabe;

Logo, não vale a pena estudar.

O inglês era, segundo ele, uma língua estranha sem lógica correspondente na nossa gramática portuguesa.  Uma palavra lê-se Roma, escreve-se Jerusalém e significa Jericó.

Em determinadas matérias controversas comentava: Sobre esta questão, as opiniões dividem-se. Há os que dizem que sim e os que dizem que não. Os que dizem que sim afirmam, os que dizem que não, negam. Eu não digo nem uma coisa nem outra, antes pelo contrário.

As estatísticas, como as demais modernices, mereciam-lhe gracejos. Não acreditem nas estatísticas! Um homem come dois pães e outro não come nenhum, e vai as estatísticas dizem que cada um comeu um pão. Emparceirava, pelo menos aqui e não só, com Benjamin Disraeli, segundo quem havia lies, damn lies and statistics.

Ainda como exemplo de incongruências paradoxais, contava aquela história de um homem que quis habituar o seu cavalo a viver sem comer, mas teve pouca sorte. Foi aos poucos cortando mais e mais a ração do animal e, quando o cavalo já estava mesmo quase habituado a viver sem comer, morreu.

Nesta ordem de ideias, contava a do homem que foi votar e encontrou um amigo:

- Para onde vais?

- Vou votar.

- Em quem?

- Em Fulano.

- Então vamos para casa. Não vale a pena perdermos tempo. Eu ia votar por Sicrano! – que era da oposição.

Não era nenhum exemplo de pedagogo aggiornado, o Monsenhor Lourenço. Usava nas aulas os antigos métodos, que lhe pareciam mais eficientes do que as novidades pedagógicas, e advogava-os igualmente para a religião. Queixava-se dos métodos modernos de missionação que faziam apenas pesca à linha, obtendo uma conversão de cada vez, ao contrário dos antigos que pescavam cristãos à rede, em massa.

Muitas vezes lia monotonamente do compêndio e eu confesso que foi nas suas nas aulas de História Eclesiástica que devorei todos os quatro volumes de Un Periodista en el Concilio, do padre jornalista espanhol José Luís Martín Descalzo que admirava muito como repórter do Vaticano II. Fazia-o alegando juvenil e parvamente que a história contemporânea da igreja relatada por Martín Descalzo era mais importante que a do Manual de História Eclesiástica, de Bernardino Llorca S. J.. Para tal, tive sempre a cumplicidade de colegas que me encobriam e, com as suas costas me ajudavam a esconder dos olhares do Monsenhor. Ou julgar esconder, porque afinal não era possível iludi-lo. Olho de rato, era muito sabido e conhecia a psicologia humana muitíssimo bem. Não raras vezes atirava a sua piada, mas nunca protestou.

Não gostava de chamar os alunos a exporem a lição. Como que tinha rebuço em apanhar alguém em flagrante impreparação. Contava a história de um professor que tinha idêntico problema e acabava chamando à lição quem acontecia cruzar olhares com ele. Os alunos, tendo-se apercebido disso, um dia ficaram na aula todos de cabeça baixa deitada sobre os braços cruzados em cima das carteiras. Ele ficou quieto e em silêncio, como a aula inteira. Passados vinte minutos de desconforto da rapaziada, um aluno espreitou pelo canto do olho e o professor captou-lhe o olhar: Exponha você a lição. O Monsenhor resolvia o seu problema usando uma latinha, e chamava um aluno para ir tirar um número à sorte.

Havia algo dele mesmo na história que contava do professor que estava a examinar um aluno que não sabia nada. Perguntava-lhe por exemplo qual a capital da França. O aluno, moita. O examinador dizia: Paris. E pedia: Repita lá! E o moço repetia. E por aí fora. A cada pergunta sem resposta, o examinador acabava dando-a ele próprio, mas exigia que o examinando a repetisse de seguida. No final, deu-lhe um dez, a nota tangente da altura.

Como? – atalhou o examinador assistente. - O rapaz não sabia nada.

- Não sabia, mas ficou a saber.

- Mas ele não sabe mais nada!

E da bonomia do homem veio a sentença salvadora:

- Sobre o que não lhe perguntei não posso ajuizar.

Era muito parco nas notas. Dizia que só dava notas de porco – 9/10. Explicava que 20 era para Deus, que sabe tudo. 19 para o professor. 18 seria para um aluno que soubesse tanto como o professor mas não pode ter a mesma nota por ser aluno. 17 era para o melhor aluno da aula, que aliás rarissimamente dava a alguém.

A propósito da atribuição de notas, há uma história que uso com frequência aplicando-a a situações diversas da vida. Às vezes o Monsenhor corrigia testes na aula. Estava um dia a fazê-lo e ia comentando em voz alta. Chegou ao fim de um a que deu um 9. Começámos a torcer para que desse um 10: Monsenhor, quem dá nove dá 10. E o Monsenhor: Pronto. Lá vai 10.

Entusiasmados com o bom sucesso, começámos a pedir: Quem dá 10, dá 11! - e o Monsenhor cedeu e subiu a nota. E o fomos prosseguindo a ponto de a classe entrar em delírio quando se atingiu o 17. Ainda assim, continuámos a incitá-lo a ir mais longe: Quem dá 17, dá 18. O Monsenhor achava que isso era ultrapassar a sua proverbial escala e parou. Bom, vamos lá a ver: que nota é que eu tinha dado no início? E todos em coro: 9! Ele, sempre muito sereno: Ah! De 9 para 18 a diferença é muito grande. Fica o 9.

Achei sempre espantosa esta estória como exemplo de se esticar demasiado a corda das normas e princípios. É sempre possível argumentar em favor de um pequeno jeito ou ajustamento a uma situação, mas isso só pode fazer-se até um certo ponto. Há que draw the line, como se diz em inglês. Em questões de ética, tanto em aulas como na vida real, tenho recorrido inúmeras vezes a esta sapientíssima e pedagógica – diria mesmo salomónica - decisão do Monsenhor Lourenço. O meu grande amigo Eduíno de Jesus lembrou-me que na antiga Retórica a memoratio não significava “decorar”, mas sim reunir coisas de memória para ilustrar. Nesse capítulo, o Monsenhor Lourenço tem sido para mim uma verdadeira Fonte de Hipocrene.

Logicamente incongruentes eram as histórias do ingénuo Caldas Aulette, autor de um famoso dicionário, de que contava muitas, mas que – confesso – confundo por vezes com as que contava do famoso Dr. Assis, celebrada ingénua figura coimbrã da viragem para o século XX[5]. Um dia ofereceram (creio que ao Dr. Assis) uma bonita bengala. Na rua alguém a elogia e ele reage:

- Sim, muito bonita. Só é pena ser muito grande.

- Por que não a corta?

- Porque, se cortar, vou eliminar a parte mais bonita, que é este belo castão.

- Pois corte-a por baixo.

- Não, que ela fica grande é em cima!

Eram muitas as estórias que contava do Dr. Assis. Recordo uma das suas charadas: Contrário do princípio em francês; muito apreciado na mulher, com cedilha. Dá a primeira cadeira na Universidade: Finanças. Isto é, a cadeira que ele, Dr. Assis, leccionava.

Havia nele um sentido pragmático algo inglês. E muito humor nessa cultura cultivado. Na cultura popular da sua Terceira também abunda o humor[6], mas deve tê-lo alimentado sob a influência da cultura inglesa que conhecia muito bem. Privilegiava o raciocínio pragmático e era avesso a elucubrações abstrusas. A gente lê uma frase e não entende, conclui: - Burro eu! Lê-se outra vez. Não entende? Burro eu ou burro tu! Lê-se uma terceira vez e, se ainda não se entende, Burro tu!

Uso inúmeras vezes esta estória nas minhas tiradas contra o uso pedante do jargão académico. Servi-me dela como fundo num conto do meu livro (Sapa)teia Americana a que dei mesmo o título de “Burro Eu!”

Outra:Um homem vai a uma corrida de cavalos e o cavalo X ganha a corrida. O apostador conclui: - Foi sorte. O cavalo ganha nova corrida e ele concluiu: - Coincidência. O cavalo ganha a terceira corrida e ele aposta no cavalo.

Eram muitas as suas máximas:

O bom soldado nunca deve perder a cabeça. Se não, onde é que há-de pôr o capacete? E as suas observações do género: A maior invenção da História diz-se que foi a roda. Não. Foi o botão. Imaginem o que lhes aconteceria nas calças se não fosse o botão! Como fechariam a braguilha?

Ou esta outra: O bom soldado deve dar o sangue pela pátria até à penúltima gota; a última é para fugir.

Entre nós, vários dos seus ditos se transformaram em expressão corrente, como aconteceu com uma saída sua. Explicava-nos:

-          O Sr. Reitor veio dizer-me que esta aula é secundária e acaba a 18 de Março. Devo dizer-vos que recebi a notícia não só com resignação mas até com entusiasmo.

Uma dos seus conselhos irónicos era supostamente o de um lente de Coimbra, que recomendava aos alunos a lavagem frequente dos pés. Não calculam o prazer, o alívio que se sente nos primeiros quinze dias depois de lavados.

Havia ainda os seus àpartes quando ia lendo o compêndio em voz alta. De uma vez, era o referido Manual de História Eclesiástica: “Porém, ao querer pôr-lhe a coroa, Napoleão tomou-a em suas mãos e pô-la em si mesmo, coroando logo a seguir a sua esposa.”

Comentário do Monsenhor:  Hoje as esposas é que coroam os maridos!

A ler um texto sobre a Índia portuguesa: “O grosso das tropas que até há pouco havia na Índia é descendente dos antigos europeus que se conservaram até hoje com sangue europeu puro” – e o àparte:  … a não ser um ou outro que se tingiu, mas por… contrabando.

Sobre uma passagem que referia camelos, comentou: No Oriente, camelos são aqueles que se casam.

Tinha o que se chama a resposta sempre na ponta da língua. As saídas surgiam-lhe com frequência em trocas com os alunos. Sirva de exemplo uma sobre bastardos, a que chamava “filhos de trás da porta” (bastardos):

- D. Afonso IV é talvez o único rei de quem não se conhecem filhos bastardos.

O Carlos Fagundes interrompe:

- E D. Pedro V?

- Esse não teve tempo, coitado.

Na última aula do período pedíamos-lhe uma vez que nos desse um feriado:

 - Não pode ser – disse ele e apontou para as salas ao lado. Estamos rodeados de graúdos: o reitor, o prefeito de estudos… É   perigoso.

Eu intervim:

- Ó Monsenhor, na aula anterior o dr. José Nunes, que foi reitor no ano passado, deu só um quarto de hora de aula.

E o Monsenhor:

- Por essas e por outras é que ele saiu.

De outra vez estávamos à procura de uma dispensa de um exercício escrito (ou tema, como chamávamos os pontos).

- Monsenhor, esta semana já temos quatro!

- Tudo de História?

- Não, senhor: um de Direito, outro de Moral e outro de Dogma, mais agora este.

- Bom, se os outros decidirem não fazer o seu, eu sou capaz de fazer o mesmo.

Noutra aula, lê:

- O rei podia depor um bispo-conde. Ou um arcebispo-bispo-conde.

Interrompi:

- Monsenhor, li num livro que o antigo arcebispo, bispo-conde de Coimbra chamava-se D. Ernesto e os estudantes chamavam-no o ABCDE.

O Octávio atalhou: 

- Ele já morreu!

E o Monsenhor:

- Ah! Então tem mais uma letra: F – Falecido.

De uma vez, na aula número 10 entra um aluno vindo de outra sala. Pede autorização para procurar um ponteiro que faltava na sua sala. O Monsenhor autoriza-o. O aluno percorre os cantos da sala e, sem êxito, desiste:

- Não encontro ponteiro nenhum - e saiu.

E o Monsenhor:

- Eu cá tenho o meu comigo.

Outros ditos famosos eram: Há dois tipos de profetas: os maiores e os menores. Os maiores são os que acertam sempre;  os menores, são os que nem sempre acertam.

De vez em quando, na sequência de qualquer referência à França, acrescentava: … a filha mais velhaca, perdão, mais velha da Igreja…

Eram várias as suas estórias parlamentares:

Um padre-deputado falava no Parlamento e entra uma pomba na sala. Um deputado, conhecido por aparecer frequentemente bêbado, comenta alto: - Lá vem a inspiração do Espírito Santo! O padre deputado riposta: - Não. É a pomba que vem à procura do borracho![7]

Outro deputado afirma de punho cerrado e com veemência:

- Eu cá só tenho um partido!

Da bancada da Oposição respondem-lhe:

- Esteja calado, se não parto-lhe o outro!

Mais uma ainda da sua série sobre o Parlamento:

Um deputado: V. Ex.cia dá uma no cravo, outra na ferradura!

Outro deputado: Porque V. Ex.cia não pára quieto com o pé.[8]

Ainda outra figura política preparava uma intervenção para ler no Parlamento anotando na margem do seu discurso: Argumento fraco. Ler mais alto.

Eram inúmeras as estórias locais.

Contou, por exemplo, a propósito de uma famosa gralha num anúncio de venda de colchões em frente ao Paço Episcopal, a do visconde que telefonou ao director de A União, Dr. Cardoso do Couto, por causa de uma notícia que saíra, por sinal da mesma forma que tinha entrado na redacção: Fulano [ele, o visconde], vende uma égua e os arreios por lhe não servirem.

O Dr. Brasil, conhecido agnóstico de Angra, dava consulta gratuita aos pobres. Era comum agradecerem-lhe com a popular expressão Nosso Senhor lhe pague! O médico respondia: Não quero contas com ele, que é muito caloteiro!

O dr. Valadão (“Velho”) estava a aprender a conduzir. Nervoso, viu ao longe uma vaca e avisou o instrutor: Eu vou dar na vaquinha, eu vou dar na vaquinha! E deu mesmo. Vira-se para o instrutor: Eu não disse?

 

A mesma figura, na aprendizagem de condução com o instrutor a avisá-lo: Páre! Páre! O Dr. Valadão bate com o carro contra a parede. E o instrutor: Assim também, pára; sai é mais caro!

Numa freguesia da ilha havia uma rapariga que não era das melhores coisas que tinham vindo a este mundo. Um dia o marido parece que deu uma cabeçada e partiu os cornos. Diz-lhe ela: Calma! Daqui a dias nascem outros. Antes tê-los inteiros do que tê-los partidos.

Conservador assumido[9], não se poupava a emitir os seus comentários críticos ao que à sua volta ia vendo. Um dia, referindo-se a um nosso colega de curso que encontrou sem colarinho na rua, disse:

- Há dias encontrei na rua o José Manuel Franco. Fiquei sem saber se ele tinha desistido, ou se aquilo era o Concílio.

O Varão pediu dispensa no início da aula, prática comum quando um aluno por qualquer motivo não tinha podido preparar a lição do dia.

O Monsenhor: - Então vai ser chamado o vizinho do lado, o sr. Moules, porque se o senhor não estudou não vai poder ajudar o seu colega.

Terminarei com uma história que costumo contar quando se me oferece a oportunidade de dar um exemplo da finura de espírito e do sentido de humor do Monsenhor Lourenço. Era um dia cinzento de Fevereiro. Estávamos na sala número 4 (dizíamos “aula nº…”) junto ao jardim. Aula de História Eclesiástica e o capítulo daquele dia era sobre “A expansão da Igreja Primitiva”. Como sempre, o Monsenhor hesitava quanto a quem chamar à lição. Na carteira mesmo em frente da sua secretária, o Manuel Faria de Castro esfregava as mãos para se aquecer: Está frio, Monsenhor. E este:

- Pois. Faz frio, faria frio, porque é que o Faria não expõe a lição?

O Faria estava completamente in albis e, ainda não refeito da surpresa, começou a papejar sem conseguir arrancar frase que se ouvisse.

O Monsenhor, com mal-disfarçada ironia, ajuda-o:

- Com que então, a Igreja… estendeu-se muito, não foi?

A classe estala às gargalhadas menos o Faria que, nervoso, não se apercebeu do trocadilho ou não se riu porque o riso geral era à sua custa. O Monsenhor prossegue então num tom ainda irónico mas agora também malicioso:

- … e logo no princípio, não foi?

Há muitas mais estórias do Monsenhor e os colegas de outros cursos foram de certeza testemunhas de inúmeras outras que poderão também contar. Deveriam fazê-lo para se completar tanto quanto possível este retrato de uma personalidade brilhante e de mente tão rica.

Nestes dias li o livro Plato and a Platypus Walk Into a Bar. Understanding Philosophy Through Jokes, de Thomas Caathcart & Daniel Klein[10], um autêntico compêndio de Filosofia urdido com anedotas e ditos de humor. Com as de Monsenhor Lourenço poderíamos do mesmo modo compor uma espécie Livro da Sabedoria Segundo Monsenhor Lourenço. Na verdade, lembro-me de o meu antigo e estimado professor se ter uma vez referido a um livro dizendo que o pobre autor nele tinha posto tudo quanto sabia. Com ele, isso não foi possível. Os seus muitos livros são apenas uma pequena amostra de tudo o que ele sabia e o seu espírito criou. Incito, por isso, os meus colegas a colaborarem enquanto a memória lhes permite.

Nunca o seu humor foi por qualquer um de nós tomado como agressivo ou ofensivo. Havia na sua personalidade uma bonomia sábia da vida, compreensiva das fragilidades humanas que, no enquadramento do seu aspecto físico algo curvado, frágil e, para nós jovens, já avançado em anos, lhe davam um estatuto ou auréola de avozinho querido dos netos porque a autoridade já não residia nas suas mãos e não lhe cabia impor disciplina ideológica ou vigiar os nossos pequenos desvarios de jovens. Em troca, de todos só recebia carinho, respeito e admiração.  

Não deixa de ser deveras curiosa a diferença entre uma obra escrita conservadora e a personalidade no fundo aberta e compreensiva de alguém reconhecendo que, sendo embora de outro tempo, que considerava bem melhor do que o novo, admitia ter esse seu tempo já vivido a sua época. Fora educado no Oriente, por onde circulou numa rede de baluartes da civilização ocidental e cristã – Singapura, Malaca, Goa, Macau. Repetia-nos com frequência: Quem não foi ao Oriente não conhecerá nunca a obra que os portugueses lá fizeram. Só anos mais tarde, quando tive oportunidade de visitar o Oriente, pude aperceber-me do prestígio que ali gozava ainda o Portugal de outrora (até nos táxis ouvi elogios rasgados a Portugal) e de como a Igreja católica, apostólica, portuguesa/goesa, era de facto uma realidade voltada para um passado de ouro que, mesmo se largamente mítico, se pressentia como realidade prestigiada e prestigiante. Os últimos exemplos que conheci foram os de um descendente de goeses, Miguel Rodrigues-Kamat, meu aluno na Brown, que me falava da Goa Dourada com a mesma letra e música ouvida ao Monsenhor Lourenço, como se tivesse lido o tal capítulo quarto da biografia do seu Beato João Baptista Machado. Fez mesmo uma tese de licenciatura em História sobre “The Golden Goa”. Hoje médico, ainda não alterou a sua visão romântica. E mais recentemente, tenho outro aluno, este chinês, o Yi Liu, de Beijing, que me chegou à Brown com uma também altamente positiva ideia de Portugal, como se o nosso país de hoje mantivesse o fulgor imperial de há quinhentos anos.

No início mencionei Edward Said e o orientalismo que ele abominava, mas acho que faria mais sentido evocar aqui a resposta indirecta de Ian Buruma e Avishai Margalit sobre o correspondente ocidentalismo que no Oriente encontraram[11]. Só que o caso de Monsenhor Lourenço é diferente tanto de Said como de Buruma & Margalit, pois tendo a visão que transmitia sido forjada no próprio Oriente, fora depois complexa e duplamente mitizada no seu regresso, ao deparar com um Ocidente que se afastava a passos largos dessa dourada visão do mundo.

Nessa minha primeira viagem ao Oriente, em 1982, senti-me impulsionado a escrever umas linhas ao Monsenhor Lourenço, com quem nunca mais contactara desde que do Seminário saíra, em 1969. Lembro-me de ter adquirido vários postais das ruínas da Igreja de S. Paulo, em Macau, e de os ter enviado a alguns amigos com a seguinte nota referindo-me à presença portuguesa naquelas paragens: “De pé ainda, mas os restos.” Não foi isso que escrevi ao Monsenhor. Não retive o texto verbatim, mas seguiu algo assim: “Vim aqui verificar in loco tudo o que já sabia por lho ter ouvido nas suas aulas.” Cerca de seis meses depois, eu recebia a notícia da sua morte. Mas um amigo próximo dele garantiu-me que ele recebeu o meu postal e o leu com lágrimas nos olhos comentando: “Nunca sabemos aquilo que ensinamos onde vai cair”.

Foi a última lição que do Monsenhor Lourenço recebi e é agora mais um dito que dele – com verdadeira saudade e carinho – conto, sempre que a ocasião se me oferece. Só tenho pena de não ter estado mais atento nas suas aulas para ter podido arquivar na memória muito do que de certeza irremediavelmente perdi. Mas dessas imbecilidades juvenis não vale a pena vir aqui lamentar-me. O Monsenhor Lourenço sabia dosear a nostalgia com sal irónico e não se comprazia em lamentações.



[1] E-mail de 20 de Setembro de 2008.

 

[2] É breve a referência que na paródia lhe faço. Marte (o Dr. Valentim Borges de Freitas) ia falar em defesa dos alunos. Antes de começar a narrar essa sua intervenção, na estância 22,  os primeiros quatro versos referem-se assim a Saturno:

 

Muito perto e um pouco mais adiante

Estava o velho e ridente Saturno

Que o fizera rir havia um instante,

Mas já estava agora sério e seguro.

 

Onésimo Teotónio Pereira de Almeida, O Centenário (Paródia). Edição do Autor, 1963),

 

[3] Que Nome É Esse, Ó Nézimo? – e outros advérbios de dúvida (Lisboa: Salamandra, 1994),  pp.  43-47.

[4] Nos anos sessenta eu tinha todas os livros do Monsenhor, mas deixei-os nos Açores, juntamente com muitos outros, quando primeiro fui para Lisboa. Não poucos deles levaram descaminho. É, por isso, com imensa satisfação que registo aqui o facto de agora voltar a possuir um exemplar de Vitória.  Foi-me oferecido pelo meu amigo e antigo colega (um ano mais novo no curso) Heriberto Herculino Silveira Brasil, patrício do Monsenhor, pois é também natural das Cinco Ribeiras. Hoje meu @migo internético, convidou-me a almoçar no dia da homenagem do IAC e surpreendeu-me com essa bela oferta desfazendo-se do seu único exemplar. Cabe aqui um agradecimento muito sincero à sua generosidade.

Nesse almoço que teve lugar em S. Mateus à vista de bela água, e a que se juntou o Doutor Cipriano Franco Pacheco, ouvi  aos dois várias novas estórias que no final deste meu texto serão reproduzidas. Pus-me, entretanto, imediatamente a reler essa “novela folclórica”, como o autor lhe chama em subtítulo, e foi com imenso prazer que facilmente recordei inúmeras passagens da primeira e única leitura que do livro fiz há 45 anos. A título de exemplo, menciono os versos do Palito Métrico, do folclore académico coimbrão, que um colega do protagonista de Vitória tentou verter para português, também em verso. Assim, Filius ille putae, qui primus carmina fecit saiu: Aquele filho da mãe / Que primeiro versos fez, / Merecia na cabeça / O que tem bovina rez! (Angra do Heroísmo: União Gráfica Angrense, 1958), p.p. 136s. O Monsenhor contava esta estória nas aulas.

[5] Ver Alberto Costa, O Livro do Doutor Assis. Possuo a 10ª edição (Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1951), que não indica a data da primeira edição.

[6] Sobre essa faceta da personalidade do Monsenhor o Heriberto enviou-me uma achega biográfica preciosa e que transcrevo na íntegra: O humor do Monsenhor Lourenço não nasceu, propriamente, por geração espontânea. Ele pertence a uma família (em sentido genérico) conhecida, aqui nas Cinco Ribeiras, pelos "Bilhanas". Trata-se duma família célebre pelo seu sentido de humor. Um dos seus irmãos, o Marcial "Bilhana", que era casado com uma prima de minha mãe, era um exemplo disso. Naquilo que dizia, nas partidas que armava. Ainda hoje, quem dele se lembra, recorda a alegria que ele espalhava à sua volta, com ditos e brincadeiras. Uma prima do Monsenhor, já em 2º ou 3º grau, por acaso também casada com um primo de minha mãe, ainda hoje é um excelente exemplar do humor dos "Bilhanas". Acontecimento ou situação que aquela boca comente dá para partir a rir. E até o filho dela, com nome de Mago, Belchior, é hoje em dia uma das principais figuras dos terceirenses bailinhos de Carnaval. E sobressai (para além de ser um actor nato) imagina em quê: exactamente no humor. De há uns anos a esta parte, quando as pessoas, pelo Carnaval, aglomeradas em salões de sociedades recreativas esperam que passe um bailinho, é frequente ouvir-se a pergunta "quando é que chega o bailinho do Belchior?". (E-mail de 2 de Janeiro de 2009).

 

[7] O meu amigo e colega, Professor António Cirurgião, aposentado da Universidade de Connecticut, natural do Continente, também frequentou um seminário e diz que um seu professor contava essa estória e dizia que o deputado com fama de alcoólico era Brito Camacho. (E-mail de 11 de Dezembro de 2008).

[8] António Cirurgião informa-me que esta resposta foi também de Brito Camacho. (Idem)

[9] Não contarei aqui uma estória que reflecte bem o patriotismo português do Monsenhor, bem expresso na letra que, a pedido do Dr. Edmundo Oliveira, escreveu para o “Coro dos Soldados”, da ópera Fausto, de Gounod, que cantámos no orfeão. O excessivo passadismo nacionalista desses versos fez-me escrever uma paródia anti-salazarista. Mas essa narrativa ficará para um outro escrito, em outro contexto.

[10] (Abrams Image, New   York, 2007).

 

[11] Occidentalism. The West in the Eyes of Its Enemies (New York: The Penguin Press, 2002).

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publicado por picodavigia2 às 09:49

NATAL - MANUEL ALEGRE

Quinta-feira, 26.12.13

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

 Era gente a correr pela música acima.

 Uma onda, uma festa. Palavras a saltar.

 

 Eram carpas ou mãos. Um soluço, uma rima.

 Guitarras, guitarras. Ou talvez mar.

 E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

 

 Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.

 No teu ritmo nos teus ritos.

 No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).

 Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.

 E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.

 No teu sol acontecia.

 

 Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).

 Todo o tempo num só tempo: andamento

 de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.

 Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva

 acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva

 na cidade agitada pelo vento.

 

 Natal Natal (diziam). E acontecia.

 Como se fosse na palavra a rosa brava

 acontecia. E era Dezembro que floria.

 Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.

 E era na lava a rosa e a palavra.

 Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

 

Manuel Alegre

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publicado por picodavigia2 às 00:34

NATAL DIVINO

Quarta-feira, 25.12.13

MIGUEL TORGA

 

 Natal divino ao rés-do-chão humano,

 Sem um anjo a cantar a cada ouvido.

 Encolhido

 À lareira,

 Ao que pergunto

 Respondo

 Com as achas que vou pondo

 Na fogueira.

 

 O mito apenas velado

 Como um cadáver

 Familiar…

 E neve, neve, a caiar

 De triste melancolia

 Os caminhos onde um dia

 Vi os Magos galopar…

 

Miguel Torga

 

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publicado por picodavigia2 às 23:34

NATAL - BOCAGE

Quarta-feira, 25.12.13

(UM SONETO DE BOCAGE)

 

 

 Se considero o triste abatimento

 Em que me faz jazer minha desgraça,

 A desesperação me despedaça,

 No mesmo instante, o frágil sofrimento.

 

 Mas súbito me diz o pensamento,

 Para aplacar-me a dor que me traspassa,

 Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,

 Teve num vil presepe o nascimento.

 

 Vejo na palha o Redentor chorando,

 Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,

 A milagrosa estrela os reis guiando.

 

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,

 Por nós, e fecho os olhos, adorando

 Os castigos do Céu como favores.

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage

 

 

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publicado por picodavigia2 às 13:39

CEIA DENATAL

Terça-feira, 24.12.13

(EXCERTO DE UM CONTO DE RAMALHO ORTIGÃO)

 

“…Depois celebrava-se a ceia, o mais solene banquete da família minhota. Tinham vindo os filhos, as noras, os genros, os netos. Acrescentava-se a mesa. Punha-se a toalha grande. Os talheres de cerimónia, os copos de pé, as velhas garrafas douradas. Acendiam-se mil luzes nos castiçais de prata. As criadas, de roupinhas novas, iam e vinham activamente com as rimas de pratos, contando os talheres, partindo o pão, colocando a fruta, desrolhando as garrafas.

Os que tinham chegado de longe nessa mesma noite davam abraços, recebiam beijos, pediam novidades, contavam histórias, acidentes da viagem; os caminhos estavam uns barrocais medonhos; e falavam da saraivada, da neve, do frio da noite, esfregando as mãos de satisfação por se acharem enxutos, agasalhados, confortados, quentes, na expectativa de uma boa ceia, sentados no velho canapé de família.

E o nordeste assobiava pelas fisgas das janelas; ouvia-se ao longe bramir o mar ou zoar a carvalheira, enquanto da cozinha, onde ardia no lar a grande fogueira, chegava um respiro tépido o aroma do vinho quente fervido com mel, com passas de Alicante e com canela.

Finalmente o bacalhau guisado, como a brandade da Provença, dava a última fervura, as frituras de abóbora-menina, as rabanadas, as orelhas-de-abade tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas em pirâmide nas travessas grandes. Uma voz dizia: - Para a mesa! Para a mesa!

Havia o arrastar das cadeiras, o tinir dos copos e dos talheres, o desdobrar dos guardanapos, o fumegar da terrina. Tomava-se o caldo, bebia-se o primeiro copo de vinho, estava-se ombro com ombro, os pés dos de um lado tocavam nos pés dos que estavam defronte. Bom aconchego! Belo agasalho! As fisionomias tomavam uma expressão de contentamento, de plenitude….”

 

 Ramalho Ortigão - As Farpas

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publicado por picodavigia2 às 11:13

FALAVAM-ME DE AMOR

Segunda-feira, 23.12.13

(SONETO DE NATÁLIA CORREIA)

 

 

Quando um ramo de doze badaladas

se espalhava nos móveis e tu vinhas

solstício de mel pelas escadas

de um sentimento com nozes e com pinhas,

 

menino eras de lenha e crepitavas

porque do fogo o nome antigo tinhas

e em sua eternidade colocavas

o que a infância pedia às andorinhas.

 

Depois nas folhas secas te envolvias

de trezentos e muitos lerdos dias

e eras um sol na sombra flagelado.

 

O fel que por nós bebes te liberta

e no manso natal que te conserta

só tu ficaste a ti acostumado.

 

 

Natália Correia, O Dilúvio e a Pomba

Lisboa, Publicações D. Quixote, 1979

 

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publicado por picodavigia2 às 18:58

LITANIA DE NATAL

Domingo, 22.12.13

(POEMA DE JOSÉ RÉGIO)

 

A noite fora longa, escura, fria.

 Ai noites de Natal que dáveis luz,

 Que sombra dessa luz nos alumia?

 Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus…»

 Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

 Na cama em que jazia,

 De joelhos me pus

 E as mãos erguia.

 Comigo repetia: «Meu Jesus…»

 Que então me recordei do santo dia.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

 Ai dias de Natal a transbordar de luz,

 Onde a vossa alegria?

 Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus…»

 E a tarde descaiu, lenta e sombria.

 

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

 

De novo a noite, longa, escura, fria,

 Sobre a terra caiu, como um capuz

 Que a engolia.

 Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus…»

 

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

 

José Régio

 

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publicado por picodavigia2 às 22:54

HINO DO AMOR

Domingo, 22.12.13

(JOÃO DE DEUS)

 Andava um dia

 Em pequenino

 Nos arredores

 De Nazaré,

 Em companhia

 De São José,

 O bom Jesus,

 O Deus Menino.

 

 Eis senão quando

 Vê num silvado

 Andar piando

 Arrepiado

 E esvoaçando

 Um rouxinol,

 Que uma serpente

 De olhar de luz

 Resplandecente

 Como a do Sol,

 E penetrante

 Como diamante,

 Tinha atraído,

 Tinha encantado.

 Jesus, doído

 Do desgraçado

 Do passarinho,

 Sai do caminho,

 Corre apressado,

 Quebra o encanto,

 Foge a serpente,

 E de repente

 O pobrezinho,

 Salvo e contente,

 Rompe num canto

 Tão requebrado,

 Ou antes pranto

 Tão soluçado,

 Tão repassado

 De gratidão,

 De uma alegria,

 Uma expansão,

 Uma veemência,

 Uma expressão,

 Uma cadência,

 Que comovia

 O coração!

 Jesus caminha

 No seu passeio,

 E a avezinha

 Continuando

 No seu gorjeio

 Enquanto o via;

 De vez em quando

 Lá lhe passava

 A dianteira

 E mal poisava,

 Não afroixava

 Nem repetia,

 Que redobrava

 De melodia!

 

Assim foi indo

 E foi seguindo.

 De tal maneira,

 Que noite e dia

 Numa palmeira,

 Que havia perto

 Donde morava

 Nosso Senhor

 Em pequenino

 (Era já certo)

 Ela lá estava

 A pobre ave

 Cantando o hino

 Terno e suave

 Do seu amor

 Ao Salvador!

 

João de Deus

 

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publicado por picodavigia2 às 00:12

NATAL À BEIRA RIO

Sábado, 21.12.13

 

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(POEMA DE DAVID MOURÃO FERREIRA)

 

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

David Mourão-Ferreira, Obra Poética 1948-1988

 

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publicado por picodavigia2 às 19:30

BENVINDO SEJAS NATAL

Sábado, 21.12.13

 

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(POEMA DE COELHO DE SOUSA)

 

Para os soldados na guerra,

 E quantos vivem na paz.

 Os que trabalham na terra,

 Andam no mar

 Ou no ar.

 

Para cegos e aleijados

 herdeiros do sofrimento;

 para quantos gozam alegres;

 As criancinhas, os velhos

 A juventude : o futuro;

 Os nossos pais e irmãos

Do mundo todo,

 

Bem-vindo sejas nata!

 

 

Natal! Natal! Natal ! Ei-lo que vem

 É Deus que volta

 E nEle a vida, a luz, a graça, o bem.

 Bem-vindo sejas, Natal!

 

Coelho de Sosa

 

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publicado por picodavigia2 às 19:01





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