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O GATO VAIDOSO

Quinta-feira, 13.08.15

 

(UM CONTO DE MONTEIRO LOBATO)

 

Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pelo, mas desiguais na sorte. Um, amimado pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia em colo. O outro, por feliz, se dava com as espinhas de peixe do lixo.

Certa vez, cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo, dizendo:

– Passa ao largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu sou rico? Que és gato de cozinha e eu sou gato de salão? Respeita-me, pois, e passa ao largo…

– Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te de que somos irmãos, criados no mesmo ninho.

– Sou nobre. Sou mais que tu!

– Em quê? Não mias como eu?

– Mio.

– Não tens rabo como eu?

– Tenho.

– Não caças ratos como eu?

– Caço.

– Não comes rato como eu?

– Como.

– Logo, não passas dum simples gato igual a mim. Abaixa, pois a crista desse orgulho e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens – o que tens é apenas um bocado mais de sorte…

 

Monteiro Lobato

 

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publicado por picodavigia2 às 00:06

A SENHORA PROFESSORA

Domingo, 02.08.15

Chegou no Carvalho setembro. Vinha do Faial. Trazia, para além de uma enorme vontade de ensinar as primeiras letras à ganapada, uma juventude inebriante, uma desenvolta sagacidade e uma deslumbrante sublimidade. Uma beleza enlouquecedora, uma simpatia enternecedora! É verdade que não conhecia ninguém na freguesia mas depressa se afeiçoou a todos. Só quem nunca se cruzou com ela ou quem não tinha um mínimo de sensibilidade e bom gosto é que podia abster-se de admirá-la, de louvá-la, de bendizê-la. Por recomendação de um amigo do pai que fora guarda-fiscal na Horta, hospedou-se na Assomada, em casa da tia Anastácia que vivia com a filha Filomena. E não apenas a Assomada mas a freguesia toda se deslumbrou de tanta beleza, encanto e jovialidade. Os rapazes desejavam-na com concupiscência e as raparigas olhavam-na com inveja. Os velhos auguravam-lhe inebriante predestinação e as crianças, sobretudo as que frequentava a escola e com as quais convivia o dia inteiro, adoravam-na. Nunca se vira na freguesia tanta graça, tanto encanto, tanta formosura. Além disso era muito dada, falava com todos e sem uma fibra de vaidade. Um fascínio! Partilhava com todos estes dotes uma enorme simplicidade e uma deslumbrante humildade. Trazia consigo, apenas uma pequena mala de couro, onde guardava um ou dois lenços, um perfume suave, as chaves de casa e da escola e outras pequenas bugigangas. Era sobretudo, na escola, durante as aulas que cativava todos. Conhecia as crianças uma a uma e amava-as e tratava-as como se de filhos se tratassem. Vezes sem conta sentava os da primeira classe no seu próprio colo e quando o filho da Gertrudes deitou um pé fora do lugar foi levá-lo às cavalitas a casa, perante o encolhimento da mãe, toda envergonhada. Era como se Nosso Senhor lhe entrasse pela casa dentro. Lamentava-se apenas duma saudade medonha que, a cada momento, lhe atormentava o coração. Os pais, sozinhos, lá longe, em Castelo Branco não lhes saíam da cabeça e, para cúmulo o Carvalho, sempre com uma cartinha e uma caixinha de mimos da mãe, visitava a ilha de mês a mês. Quatro semanas e às vezes mais, vazias de notícias. Pior! Um mês sem lhes poder dar uma palavra de carinho ou ter um gesto de ternura, ou partilhar um afeto.

Embora recebesse de todos os habitantes da freguesia, que até enchiam a casa da velha Anastácia de cestinhas de batatas e cebolas, de litros de leite, de queijos frescos e quartos de bolo, por vezes ainda a fumegar, grande amizade, estima e consideração, eram as saudades dos pais que mais a atordoavam. Da própria pasmaceira da freguesia, do bafo da unissonância que a envolvia nunca se havia de aborrecer. A solidão nunca lhe fora tormento, de tal modo se embriagara no quotidiano morno e monótono da mais ocidental povoação da Europa, que a via correr para a escola de manhã e regressar apenas à noitinha, como se esta fosse e era de facto a única razão de ser da sua presença ali, debaixo daquelas rochas a abarrotar de barrocas e quedas de água. E a senhora professora adaptou-se muito bem aos hábitos e costumes da freguesia, à monotonia daquele pequeno lugarejo encastoado entre o mar e a rocha. Todos a adoravam, rodos a queriam ali para sempre.

Certo dia, porém, o destino modificou-lhe tão desusada vivência. Chegou à freguesia, de visita, um americano. Solteiro, bom rapaz, honrado, filho de pais honestos e bonito, muito bonito. Além disso dizia-se à boca pequena que nadava em dinheiro. Apaixonaram-se loucamente. Dizia, quem privou com eles que foi amor à primeira vista. E passado um mês a senhora professora deixou a escola, as crianças, a casa da tia Anastácia, a freguesia, a ilha e até os pais sozinhos em Castelo Branco e pisgou-se com o americano para a América.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO NOS AÇORES

Quarta-feira, 20.05.15

(TEXTO DE CARLOS ENES)

Desde o século XVI que as festas em honra do Divino Espírito Santo começam a ser postas em causa e até perseguidas pelos membros mais altos da Igreja Católica. Julgavam os contra-reformistas do Concílio de Trento que elas tinham um cunho acentuadamente pagão, pelo que deviam ser saneadas do calendário de festividades católicas. Também em Portugal, incluindo os Açores, se verificou uma notável e eficaz oposição a tais festividades. Nos Açores, porém, houve forte resistência a tal oposição eclesiástica, pelo que as festas continuaram a celebrar-se com todo o seu esplendor e grandiosidade, mantendo muitos dos tais ritos ancestrais alcunhados de “pagãos” pelos responsáveis da Igreja Católica.

No entanto, nas ilhas açorianas as festas de Espírito Santo, vividas e celebradas pelo povo com grande devoção, até porque resultavam muitas vezes como forma de agradecimento a Deus pelo auxílio recebido por altura das crises sísmica, foram também objecto de perseguição, sobretudo durante a dominação filipina, época em que chegaram a ser proibidos os bodos.

Estas festas foram sendo aos poucos, pela dinâmica da própria sociedade, depuradas de várias "atitudes de desrespeito" para com o sagrado, como resultado da própria evolução dos costumes e das práticas sociais.

Os anos sessenta do nosso século correspondem ao início do grande ponto de viragem da sociedade açoriana. Nesta década assiste-se à desarticulação das formas de solidariedade comunitárias que ainda subsistiam entre os camponeses. A partir dos anos setenta, modificou-se profundamente a estrutura da sociedade tradicional açoriana, com a diminuição da população activa ligada à agricultura e o crescimento acentuado do sector de serviços. Nos meios rurais, com a predominância da actividade pecuária, instalou-se o individualismo e muitas formas de solidariedade foram desaparecendo nestes últimos anos. Ao mesmo tempo, cresceram os índices de escolaridade e alfabetização em todo o arquipélago e os valores e padrões culturais da juventude açoriana, com uma maior abertura ao exterior por influência da televisão, têm sofrido uma forte aculturação.

As festas do Espírito Santo pelo seu forte enraizamento têm permanecido, mas a pujança e o entusiasmo vividos até aos anos sessenta sofreram um forte abalo. As "folias" com os bezerros enfeitados, música e cantoria, realizadas nas vésperas da "função", foram desaparecendo. A festa levada a efeito na 5ª feira de bodo, dia em que os carros de bois se engalanavam para ir buscar o vinho, também sucumbiu. Nos dias de hoje, o vinho é transportado em camionetas sem qualquer carácter festivo. Na maior parte das freguesias já não se realiza o bodo e as promessas individuais já não preenchem oito Domingos da quadra do Pentecostes. As elevadas despesas inerentes à realização de um "Função" e a mudança da mentalidade das pessoas, que já não estão dispostas a suportar sacrifícios e canseiras, têm contribuído para alterar a essência da festa do Espírito Santo. Muitas pessoas pagam a sua promessa individual, recebendo, apenas, o Espírito Santo em casa durante uma semana, realizam a coroação, mas já não oferecem o banquete nem as esmolas aos pobres. A atitude de repartir com os outros a riqueza vai sendo cada vez menos assumida. De uma forma nítida, os sentimentos individualistas vão ganhando terreno, transferindo-se para o Estado a responsabilidade da solidariedade para com os outros. A subida do nível de vida e as exigências de bem-estar já não se compadecem com as tradicionais formas de afirmação. Por outro lado, as festas do Espírito Santo vão sofrendo a concorrência de outras festas mais dinâmicas, mais emotivas e mais espectaculares em que cada um, individualmente ou em grupo, procura outras formas de exibição ou separação do outro. E por isso a rivalidade cada vez mais exacerbadas entre as festas levadas a cabo em cada freguesia ou cidades do arquipélago.

Apesar de todas estas alterações, em que são evidentes os sinais de decadência em relação a um passado muito recente, vão surgindo novos dados que revelam uma vontade de continuar com a festa. Há poucos anos, na freguesia de Vila Nova, ilha Terceira, o Centro de Convívio da terceira idade da freguesia assumiu, como instituição, realizar uma "função" para preencher uma vaga em aberto num dos oito Domingos destinados ao culto. Por outro lado, também na ilha Terceira, neste ano, um grupo de mulheres decidiu organizar a festa do Império do Canadá de Belém. É muito provável que o exemplo prolifere e, no futuro, o monopólio até aqui exercido pelos homens, possas ser compartilhado com as mulheres na organização da festa.

Independentemente do que possa vir a acontecer no futuro, parece evidente que, neste final de século, estamos numa fase de transição, com importantes alterações de forma e conteúdo nas tradicionais festas do Espírito Santo no Açores

 

Carlos Enes

 

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

TORMENTO

Segunda-feira, 18.05.15

(DE COELHO DE SOUSA)

 

 Saudade

 Não te vás embora.

 

Eu sei que tu presente és um tormento,

Mas és maior tormento quando ausente.

 

Hás-de fazer do meu olhar um rio.

 - E todo o rio vai bater ao mar.

 

Eu tenho no meu peito um mar sem horizontes…

Se há nele tardes de finados cor de chumbo,

 

Também há manhãs de Páscoa esplendorosas.

 E sempre em todo o mar há uma vela branca

 Aonde o amor divino anda embarcado.

 

Saudade, embarca no meu peito…

… E não te vás embora.

 

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publicado por picodavigia2 às 13:47

MAU AGOIRO

Sexta-feira, 15.05.15

(UM CONTO DE VITORINO NEMÉSIO)

A Canada do Búzio era uma bocarra, um deserto. Não se via vivalma. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas... – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto, a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então, bravo e alto, fora de suas estribeiras, atirando a espuma às poças.

Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns, cornudos e torcidos; outros, esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Vento excomungado, que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá... Abaixem-se aí!»

A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. Vizinhança – nenhuma. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. O pêssego amadurecia tarde, corado duma banda só. A faia do Norte, de casca sardenta, cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas, enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha, e o grilo, nas gretas, era um saudoso namorado. De noite, a lua subia a terraço. De dia, o sol era um rei em seu balcão...

Ah! Mas, dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos, a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. Turvava-se tudo. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição.

Ora, seriam umas três da manhã (água, se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha:

– São horas, minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite...

A Cacena era uma triste mulher, sozinha neste mundo. O Rei, ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres, tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. De nada serviram os pedidos ao Doutor, a este e àquele: os cambos de ofertas; os presentes; uma ave ou duas debaixo do lenço, algravitadas, bravas nos corredores. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. E então veio a recruta, com madrugadas, frios, muito poucas dispensas... As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo; as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. Enfim, já praça pronta, houve a peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos...

Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. Primeiro, a coivinha atempou; passante disso, morreu a leitoa empachada. E um belo dia, de manhã, um tição de lume queimou as faias da cozedura, o fogo passou-se à copeira, e, emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!), o forro do sótio ardia todo. Acudiu-lhe a vizinhança em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.

Quando João soube disto, no Castelo, chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos:

– Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu... A prove da minha mãe stá pràli sozinha, sem ter quem no ganhe...

Então o Capitão, com pena dele, fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro», como se dizia na Peluda. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa, com dois amigalhaços, como quem pede para toiros. Um deu vinte tábuas de forro; outro, uma mancheia de telha; outro, os barrotes, de amor-Deus. O Niquinha tirou dois dias de obras, e lá levantaram ambos a cozinha, com frechais e asnas novas.

– Que mais quer, minha Mãe? – disse ele, cobrindo a velhota de beijos. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar... Nã l’há-de chover pinga dentro, se Dês quiser!...

E, com efeito, não choveu. Mas vem o caim dum pé de vento, uma noite, e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas.

– Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada, de mãos postas. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo.

Mas desde esse dia reparou que, muito madrugada, mal luzia o buraco, vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço, e logo, pela calada, três unhinhas de nada riscavam. Aquilo era no batente – ora, se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo; uns pios de aflição pareciam picar-nos o juízo como pontinhas de alfinetes.

Era ao azular da hora de alva. No quarto da pobre Cacena, por cima da cama, a telha de vidro ia-se enchendo de flor de anil e azulão, a todo o comprimento; e, assim abaulada, cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.

Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. Afinal... – labandeiras!

Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa, de rabo de forquilha, que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus, e que, ao ouvirem o passo mais à toa, tremem da passarinha, dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco, todas repatanadas, até encontrarem solidão.

Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava, mas benzendo-se:

– não porque levem bruxedo, mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. A coderniz é pior. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes, que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto, as codernizes, amassadas nos restolhos, davam fé daqueles santos pelingrinos e, voando baixo, toca a chocalheirar:

– «Cá vão eles! Cá vão eles!»

Mas as labandeiras vinham e, com a rabadilha em forquilha, lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz:

– Deixa tu estar, corsaira, que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. Mas lá que têm pitafe, têm. Donde lhe vem, não sei. Têm-no co elas…

Agora, de mais a mais viúva e apartada do fi lho, à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se, salpicando o telhado com as asinhas de rasto, de ponta a ponta do cume.

Uma tarde, estando a cardar lã de ovelha, à porta, deu fé de que uma delas aporfiava na dança. Era um gorgulho de ave, de olho vivo. Bateu-lhe as palmas, de cá; pegou numa pedrinha, uma coisa de nada, e varejou-lha rente. Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca.

– Jasus!

Disse isto e, em menos dum amén, o Trigueiro que passa da cidade:

– Boa noite, tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital.

– Que me dizes?! Ai, s’o mê fi lho me morre!...

– Não se afl ija, serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada... Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre.

Essa noite desceu como um fugido à justiça; as cancelas do céu fecharam-se de repente. A terra fi cou como uma furna negra, sem o mais leve clarão; a escuridão das canadas parecia tinta de escrever. Às vezes, dentro em casa, um vento parecia dançar de porta a porta, que batia, a moda do Pirolito que bate, que bate... Pirolito que já bateu...

Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos, a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma. A panela da ceia cantava com água choca e feijões. Em baixo, na pedra do lar, a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega.

Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente. Às vezes, para não ouvir a velha, furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco, sentada a remendar; à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta. Fazia para a ceia coives espernegadas. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa.

Enfim, o Natal chegou. Chega sempre. Umas vezes é frio, outras chuva...

Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las; outras são tão alegres ou tão tristes, que nem cara têm de coisíssima nenhuma!

É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra, e é aí que se come bolo-rei, figo passado, cabaço, canja de galinha...

– Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai, e havê-las senhoronas, que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo, graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina!

«Quem fosse à Missa do Galo!... Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente, nem a velha. Mãis o poleiro, deu-le o rato... foi-se toda a ninhada da pedrês. João, que é que tens? João, tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa; queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho, que os nã tenho, meu home! Mãis stá calado, fi lho! Stá caladinho, qu’a mãe vai ò mato e já vem, meu amor! Vamos cozer de tarde, pois... ! Nã te dou pão de milho azedo, discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses, filho! Faço-te um esfregalho... Faço-te um esfregalho...

«E, vai daí, há casas ricas e casas proves. Deus dá o frio cunforme a roipa. Nosso Senhor Jesu-Cristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e, vai, Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente»... Por isso José pegou no bordão, escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito. Dá-me dali o bordãozinho, não oives? João stá pior... Burra na na tenho, mãis tenho pernas. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. Só eu incaranguei .

Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela.

Vitorino Nemésio, in O Mistério do Paço do Milhafre, 1949

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publicado por picodavigia2 às 09:25

HISTÓRIA DO SR MAR

Domingo, 03.05.15

(POEMA DE MATILDE ROSA ARAÚJO)

 

Deixa contar...

Era uma vez

O senhor Mar

Com uma onda...

Com muita onda...

 

E depois?

E depois...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

E depois...

 

O menino adormeceu

Nos braços da sua Mãe...

 

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

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publicado por picodavigia2 às 11:22

DIA DE ANOS

Terça-feira, 21.04.15

(UM POEMA DE JOÃO DE DEUS)

Com que então caiu na asneira

De fazer na quinta-feira

Vinte e seis anos! Que tolo!

Ainda se os desfizesse…

Mas fazê-los não parece

De quem tem muito miolo!

 

Não sei quem foi que me disse

Que fez a mesma tolice

Aqui o ano passado…

Agora o que vem, aposto,

Como lhe tomou o gosto,

Que faz o mesmo? Coitado!

 

Não faça tal; porque os anos

Que nos trazem? Desenganos

Que fazem a gente velho:

Faça outra coisa; que em suma

Não fazer coisa nenhuma,

Também lhe não aconselho.

 

Mas anos, não caia nessa!

Olhe que a gente começa

Às vezes por brincadeira,

Mas depois se se habitua,

Já não tem vontade sua,

E fá-los, queira ou não queira!

 

João de Deus, Campo de Flores

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publicado por picodavigia2 às 08:21

AS FONTES

Segunda-feira, 19.01.15

(POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER)

 

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

 

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.

 

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.

.

Sophia de Mello Breyner Andresen

.

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publicado por picodavigia2 às 10:17

UM BÊBADO

Sábado, 10.01.15

(POEMA DE L-AKHTAL - POETA ÁRABE 630-710)

 

Um bêbado

      Abatido em combate pelo vinho

      a custo ergue a cabeça, bebe e berra,

      pesam-lhe os ossos, mexem de mansinho

      as juntas do seu corpo que se emperra...

      Sustemo-lo entre nós sempre tombando,

      arrastamos-lhe o corpo feito morto,

      alheio nem parece ir-se lembrando

      de que pensava e não andava torto...

      Colado ao chão, como se lapa fosse,

      levantá-lo é torná-lo mais pesado,

      levá-lo para o quarto, nem a couce,

      mas vai como lixo em saco arrastado.

 

Tradução de Camilo Martins de Oliveira, in blog “7 Anos de Cultura

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publicado por picodavigia2 às 11:06

MEDOS

Sexta-feira, 09.01.15

(TEXTO DE ABEL NÓIA GONÇALVES VIEIRA)

 

Je ne suis pas Charlie!

Em português chão, sou Abel Noia Gonçalves Vieira, apenas um dos sete biliões de seres humanos que diariamente rolam no planeta à volta do sol, como é científica e universalmente reconhecido desde Galileu, uma das vítimas do fanatismo na forma católica da época.

Nem precisaria deixar por escrito que me associo a todos os seres humanos que condenam o abominável atentado de Paris, como todos os outros que nem chegam a ser notícia.

Também tenho medo, apesar do recente reforço de fechaduras aqui por casa, incluída a porta do pequeno espaço onde trabalho, uma precaução elementar que recomendo a todos mas pouco resolverá nas próximas décadas. As minhas inseguranças têm outras causas e outras armas bem mais sofisticadas.

Tenho medo da perda de consciência da dignidade da pessoa e dos mais elementares direitos humanos, curiosamente com marco histórico no contexto da sangrenta revolução francesa.

Tenho medo do empobrecimento das relações humanas quando, deixando de ser fundamentadas na paternidade amorosa de Deus, perdem em fraternidade, solidariedade, respeito e apoio na debilidade que toca a todos.

Tenho medo tanto do poder do dinheiro como da falta dele para uma vida humana digna, na proliferação das pobrezas que atentam contra a coesão social dos povos e favorecem a violência.

Tenho medo dos 10% de portugueses que ficaram mais «podres de ricos» em 2014, ano em que se aprofundaram as desigualdades sociais com 25% das famílias no limiar da pobreza.

Tenho medo da degradação galopante das famílias, remendadas nos mais diversos modelos, onde faltam o pão e os afetos, onde se aprende a violência no meio de lágrimas incontidas, onde as novas gerações vão crescendo sem referências de valores que os comentadores enfatuados dizem fazer parte da nossa cultura.

Tenho medo das escolas onde generosos e competentes professores ensinam cada vez mais coisas mas sentem, como eu, a mesma incapacidade de educar para uma vida mais humana e culta, solidária e empenhada na transformação da sociedade.

Tenho medo do que se escreve para vender jornais mais do que para fazer pensar, uma aprendizagem com poucos candidatos. Precisamos debater muitas coisas sem espaço televisivo na comunicação social que temos e repensar quase tudo nesta mudança de época e paradigma, como se diz com total propriedade de linguagem.

Tenho medo dos que nos desgovernaram, desgovernam e desgovernarão nos próximos tempos, oriundos das «jotinhas» do arco da governação mas sem perfil de estadistas e permeáveis a todo o tipo de interesses pessoais e de grupo, como vemos.

Tenho medo das discotecas transformadas em catedrais, da programação das festas das nossas cidades que promove a degradação de adolescentes e jovens, ao trocar as noites pelos dias, mergulhados na «curtição» e no consumo de dependências que não humanizam nem preparam para a vida.

Até tenho medo de uma Igreja que se delicia a contar pelos dedos os cardeais que falam português e se enfeita como outras «dignidades eclesiásticas» como arcebispos, monsenhores e cónegos - nomes que não encontro no meu Novo Testamento por mais voltas que lhe dê - mas não sabe como fazer cristãos nem levar a boa notícia de Jesus Cristo a todos. Quase nos limitados a arrastar práticas e estruturas desfasadas da realidade nua e crua.

Penso que ainda tenho outros medos mas falta-me o tempo, antes de voltar a tarefas administrativas que também me causam receito como atentado à sanidade mental dos pastores da Igreja, preparados para uma missão que nada tem a ver com funcionalismo.

Que estes meus medos possam ajudar a repensar muitas coisas quando precisamos, mais do que nunca, cultivar um pensar global para um agir local.

 

Abel Noia Gonçalves Vieira, in FBo

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publicado por picodavigia2 às 10:24

NOVO ANO

Terça-feira, 06.01.15

(POEMA DE MIGUEL TORGA)

 

Recomeça…

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

 

Miguel Torga

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publicado por picodavigia2 às 17:07

A NOITE DE NATAL

Terça-feira, 23.12.14

(UM POEMA DE MÁRIO SÁ-CARNEIRO)

 

Em a noite de Natal

Alegram-se os pequenitos;

 Pois sabem que o bom Jesus

 Costuma dar-lhes bonitos.

 

Vão se deitar os lindinhos

 Mas nem dormem de contentes

 E somente às dez horas

 Adormecem inocentes.

 

Perguntam logo à criada

 Quando acorde de manhã

 Se Jesus lhes não deu nada.

 

– Deu-lhes sim, muitos bonitos.

 – Queremo-nos já levantar

 Respondem os pequenitos.

 

Mário de Sá-Carneiro

 

 

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UM CONTO DE NATAL DE MIGUEL TORGA

Segunda-feira, 22.12.14

De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser - e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez réis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças!

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! - desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

— Consoamos aqui os três - disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

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CANTATA DE NATAL, EM DOIS ANDAMENTOS

Domingo, 21.12.14

(TEXTO DE ARTUR GOULART)

 

1.º andamento – Larghetto affettuoso

- Mãe, quando é que fazemos o Presépio?

- Pode ser hoje. Vais com o teu irmão ao musgo. Naquele paredão de rocha ao fundo do quintal não falta. Arranquem-no com cuidado para não se desfazer. E vejam lá não escorreguem. Depois, dás um salto à carpintaria do senhor João e pedes-lhe para trazer um punhado de farelo de serra. Diz que é para o presépio que ele faz-te um embrulho.

- Mas para que é o farelo?

- É para fazer as estradas por onde vêm os pastores e depois os Reis Magos. Estes ficam mais ao longe, porque só chegam no dia 6 de Janeiro.

- Ó mãe, e a gruta para o Menino?

- Ainda temos do ano passado aquelas pedras vermelhas do pico da bagacina. Faz uma gruta linda. E temos aquelas figurinhas de barro que eram da tua avó. Vão caber lá dentro e, felizmente, que ainda estão todas, menos um anjinho que partiu as asas quando quiseste experimentar se ele voava. Mas ainda há um outro para chamar os pastores.

- E a estrela?

- É fácil. Recorta-se em cartão e forra-se com prata de chocolate. Lembras-te que andámos a alisar com a unha as pratas dos chocolates que te ofereceram nos teus anos e que metemos tudo numa caixa? E vão servir também para forrar bolas de papel e pendurar naquele ramo de pinheiro que teu pai trouxe ontem, que vai ficar a brilhar como um céu estrelado ou como a lua no mar.

- E não vamos cantar? Gosto mais é daquela da novena Entrai, pastores, entrai…

- Cantamos essa e outras que vocês também sabem, ó meu Menino Jesus, Noite feliz, O Menino está dormindo…

- O senhor Padre canta uma que eu não percebo, acho que é natusesnobis…

- Isso acho que é latim e julgo que quer dizer que nasceu o Menino.

- Mãe, ó mãe, achas que o Menino Jesus vai gostar?

- De certeza que vai gostar, e até é capaz de te trazer uma prenda.

 

2.º Andamento – Andante Patético alla breve

- Mãe, já escrevi ao Pai Natal!

- O que é que pediste?

- O que eu queria mesmo e pus em primeiro lugar foi uma consola, das últimas. A que eu tenho já não lê a maioria dos jogos novos. E depois um telemóvel. Os dos meus amigos na escola já são todos melhores do que o meu, tiram fotografias boas e filmam. Tens que me entregar a carta ao Pai Natal.

- Olha, pendura-a na árvore, que ele há-de passar a levá-la. O pai comprou este ano uma árvore grande, de plástico. Vai encher um canto da sala, quase ao tecto. Mais logo, passamos na loja do chinês, e trazemos uma caixa de lampadazinhas, daquelas que piscam, mais bolas coloridas de vários tamanhos, fitas prateadas e douradas. O pai depois ajuda a montar tudo e veremos se falta mais alguma coisa.

- E o que é que vamos cantar?

- Olha, temos uma gravação com o Jingle Bells, até dá para karaoke. E tu já começaste a aprender inglês.

- Mãe, achas que o Pai Natal me vai dar o que pedi?

- Não sei, filho, mas ele costuma dar as prendas aos meninos que se portam bem.

- …………….

- Mãe, ó mãe, e o Presépio?

 

               Évora, 21 de Dezembro de 2009

Artur Goulart

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MEUS BRINQUEDOS

Quinta-feira, 04.12.14

De repente

Ao lembrar dos brinquedos queridos

Que ficaram esquecidos

Dentro do armário

Me bate uma saudade

Me bate uma vontade

De voltar no tempo

De voltar ao passado

Mas nada acontece

Nada parece acontecer

E eu choro

Choro como o bebê que fui

E a criança que quero voltar a ser

Não quero crescer!

 

Clarice Pacheco

 

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O PÁSSARO COR DE FOGO

Quarta-feira, 19.11.14

 

(CONTO DE MATLDE ROSA ARAÚJO)

Era uma vez uma mulher, uma pobre mulher que ia á lenha. Ia á lenha todos os dias, com um grande saco arrastando-o pelo chão. (…)

E um dia, um dia quando a pobre mulher se arrastava mais cansada e nada via, nada e scutava; quando as suas mãos rugosas, de tantos anos tanto trabalharem, apanhavam as folhas e a lenha do chão que ia metendo num grande saco, ouviu!, como num sonho, ouviu o ruído de um cavalo vindo de longe… um cavalo que depressa se aproximava de si.

E pensou alto: um cavalo pelo bosque?! Nunca vi tal. Estarei a sonhar?

Mas não sonhava. Na clareira do bosque, mesmo no chão, onde se espalhava o Sol, um lindo cavalo branco estacou.

Um cavalo branco parou sobre a clareira do Sol! Trazia montado, segurando nas rédeas de couro fino, um lindo menino de olhos dourados. E a pobre mulher perguntou:

- Quem és tu? Serás meu neto? Filho de algum filho meu? E um pássaro poisa no teu ombro como se fosses um ramo e aí estivesse descansando…

E tornou a perguntar:

- Quem és tu?

O menino sorriu. Sorriu como só sabem sorrir as crianças e o próprio Sol pela manhã.

- Eu hoje venho ajudar-te. Sobe para o meu cavalo com o teu saco de troncos e de folhas secas. Sobe… Anda…

E logo a pobre e velha mulher subiu para a sela do cavalo, como se tivesse quinze anos e corresse para dançar uma dança maravilhosa pela mão do seu namorado. E sentou-se sobre a sela do cavalo junto com o menino. De seguida voou também para cima da sela o saco de serapilheira escura que parecia ter asas.

E os olhos dourados do menino sorriam mais.

E a pobre mulher pensou alto: Se fosses meu neto não eras melhor para mim…

O menino quase a emendou:

- Que importa não ser teu neto? Todos somos netos, filhos, irmãos dos outros mais. Nem olhas o Sol, nem escutas o canto dos pássaros, nem a música do vento, cansada de tantos anos de luta pelo calor do lume, apanhando esta lenha do chão: cansada como os próprios troncos velhos que vento faz cair.

Eu vim com o meu cavalo para te dizer que os velhos precisam de ajuda, do amor dos novos: têm direito ao descanso, à alegria.

Vai escutando pobre e velha mulher, e alegra o teu coração: eles os velhos, tem o direito a poder olhar o Sol, como nós meninos, a escutar o cantar dos pássaros e o murmurar do vento.

Eu vim no meu cavalo branco, ajudar-te. Os teus filhos estão longe e não o podem talvez fazer…

E o pássaro cor de fogo da lareira, no ombro do menino pousado, de novo cantou, cantou de alegria!

Então a pobre e velha mulher deixou-se sorrir docemente. Uma estranha e alegre música lhe falava no peito.

Matilde Rosa Araújo A velha e o Bosque, Livros Horizonte

 

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O POLVO

Domingo, 02.11.14

(PADRE ANTÓNIO VIEIRA)


Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe, inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor!

 

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A MENINA E A ILHA

Segunda-feira, 20.10.14

(TEXTO DE FÁTIMA MEDEIROS)

 

Era uma vez uma menina muito faladora e risonha. Numa bela manhã de início de Julho a menina saiu de casa de seus avós na Rua da Alegria, sua casa também, e entrou num carro de praça com os pais. Os avós, as primas da casa em frente e os restantes vizinhos vieram todos à janela dizer adeus. Havia lágrimas e sorrisos.

O carro foi até ao cais onde o Carvalho Araújo esperava para largar. Para trás ficou o Campo de São Francisco, onde todos os dias, ao fim da tarde, a menina aprendia sons, cores, aromas, descobria pessoas, flores, pássaros.

No cais havia mais gente entre lágrimas e sorrisos. E a menina a entrar no navio com os pais e a acenar, a acenar até que o cais se transformou numa linha no horizonte que o mar engoliu. E a menina a guardar tudo dentro de si, num clarão de luz.

Tinha dois anos e meio mas esse clarão luminoso nunca mais se apagou dentro dela. Quando voltou a espreitar para fora do navio o cais mudara, o céu era diferente, a luz tinha outro brilho.

- Lisboa, olha Lisboa! - Disse o pai.

Passados uns dia depois de uma viagem numa espécie de centopeia barulhenta, a mãe anunciou: Chegámos a Faro!

Volvidos dois anos a menina descobriria Setúbal, onde iria crescer, estudar, amar, casar, ter filhos, ter netos, viver.

Lá longe, no meio do Atlântico, estava São Miguel, a sua ilha, embrulhada em bruma, ilha mítica que os pais evocavam constantemente. A saudade era uma canção dolente entoada ao serão.

Em São Miguel era tudo mais fácil, era tudo perfeito. Lá, estavam as avós, as tias, os primos. A ilha guardava as Furnas, as Sete Cidades, os Mosteiros e muitos outros lugares mágicos de que os pais tanto falavam. De lá vinham a massa sovada, os bolos lêvedos, o milho torrado e outras maravilhas que só se encontravam no “continente” quando a mãe as fazia. Mas de maneira nenhuma sabiam tão bem como as que vinham de barco, em caixote de madeira. Abri-lo… que sensação inesquecível! Às vezes vinham também inhames, anonas, maracujás. E roupa nova. E livros, livros maravilhosos, escolhidos pelo cuidado da tia Leonor.

O sotaque dos pais era diferente. Lá em casa havia hábitos, devoções, sabores e até palavras de que os setubalenses desconheciam o significado. A mãe dizia com orgulho: nós não somos de cá, somos micaelenses. A menina cresceu a gostar dessa diferença, a sentir que lhe pertencia e que fazia parte dela.

A vida era complicada naqueles anos de 1960. A menina sonhava. Mas o dinheiro era à conta, nunca sobrava para a desejada viagem.

Certo dia a menina olhou-se ao espelho e era já uma jovem mulher de vinte e um anos que acabara de conhecer um homem, imagine-se, natural de São Miguel. Foi amor à primeira vista, à primeira conversa, ao primeiro toque. Casaram e como nos contos de fadas tiveram filhos e viveram felizes… até à morte dele.

Quatro anos após o casamento, já com dois filhos pela mão, a menina-mulher-mãe concretizou o seu sonho: finalmente regressou à sua ilha. Perdeu-se pelo Pico da Vara, mergulhou no Pópulo, escorregou nas pedras da Fajã do Calhau, bebeu água nas fontes das Furnas, foi a Santa Clara escutar os passos dos antepassados, encheu o olhar de verde e azul, guardou para o futuro uma mão cheia de terra do Campo de São Francisco.

Voltou várias vezes. Teve também oportunidade de sentir outras ilhas açorianas. Nem um só dia deixou de se sentir ilha, de se sentir da ilha. Assim viveu e vai vivendo a sua açorianidade que sempre considera deficitária, tentando remediar esse défice através da leitura e da música que avidamente vai desvendando e guardando em si e nas estantes de casa.

Hoje, já mulher madura, deseja que os seus seis netos saibam sempre sentir o perfume dessa terra, reconhecendo o húmus onde se agarra a sua raiz, trazendo sempre a ilha consigo para a entregarem, intacta no seu verde, aos que lhes virão a seguir.

 

Fátima Ribeiro Medeiros, in Mundo Açoriano

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O PESCADOR E A SEREIA

Segunda-feira, 13.10.14

(JOSÉ JORGE LETRIA)

 

Um dia, quando o mar estava encapelado e ameaçador, veio uma onda e atirou para terra uma bela sereia de escamas reluzentes na metade inferior do corpo e pele muito branca e macia na metade superior. Fosse como peixe, fosse como mulher, era uma criatura invulgarmente estranha e atraente.

Quando recuperou os sentidos, a sereia descobriu que estava deitada em cima duma rocha, não tendo qualquer forma de regressar ao mar, que era o seu meio natural. Fora dele não teria muito tempo de vida.

Apareceu então na praia um jovem pescador que era pobre e triste e que nem dinheiro tinha para comprar um barco e se aventurar nas águas. Como não podia encher as redes de peixe, andava pelas rochas a apanhar mexilhões e caranguejos. Quando cumpria essa monótona tarefa de todos os dias, levantou ligeiramente a cabeça e viu a bela sereia que o olhava, implorando ajuda.

- Quem és tu e o que fazes aqui? – Quis saber o pescador, entre fascinado e amedrontado com tão inesperada visão.

- Eu sou uma sereia do mar e fui atirada para cima desta rocha por uma onda grande e feia que tinha inveja da minha beleza. (…) Se me puseres depressa dentro da água, eu virei todas as semanas, num dia certo, aqui à praia, para trazer-te ouro e prata. Será essa a recompensa do favor que me vais fazer.

O jovem pescador, que era pobre e tinha irmãos mais novos para sustentar, não pensou duas vezes: pegou na sereia ao colo e lançou-a à água, não sem que antes combinasse o dia o dia e a hora em que ela o visitaria todas as semanas.

Durante anos, a bela sereia cumpriu o que prometera. Sempre que se encontrava na praia com o pescador, entregava-lhe quantidades consideráveis de metais preciosas, que ele ia aplicando em negócios vários. Não foram necessários muitos encontros para que ele pudesse considerar-se um homem rico.

Os anos passaram, e o pescador sentiu no corpo o peso da cidade. Envelhecera. A sereia, porém, mantinha-se inalteravelmente jovem e bela, demonstrando pertencer ao mundo das coisas eternas.

Um dia, o pescador, que já possuía casas, barcos, automóveis e outros bens que lhe dariam para viver regaladamente o tempo de várias vidas, interrogou-se: “Será que eu venho à praia todas as semanas para receber a minha recompensa ou para ver a sereia?” Não tardou a perceber que era a presença da sereia e a sua beleza que o faziam percorrer aquele caminho, fizesse chuva ou sol. Ao ouro e à prata, já pouca atenção dedicava. Se um dia ela desaparecesse, a sua vida deixaria de ter sentido.

Apesar de ter muitas pretendentes, o pescador nunca chegou a casar-se, e no dia em que a sereia, considerando cumprida a sua promessa, deixou de aparecer na praia, sentiu que se apoderava dele uma grande tristeza e que nem toda a riqueza do mundo o voltaria a fazer feliz. Para a recordar mandou erguer sobre a rocha, onde muitos anos antes a encontrara, uma bela estátua de bronze, que ali permaneceria como homenagem à sua beleza.

 

José Jorge Letria, Lendas do Mar e da Terra

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publicado por picodavigia2 às 10:12

O PINHEIRO VAIDOSO

Segunda-feira, 06.10.14

Era uma vez um pinheiro que não estava satisfeito com a sua sorte. ”Oh! dizia ele, como são horrendas estas linhas uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus braços! Sou um pouco mais orgulhoso do que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido de outro modo. Ah! Se as minhas folhas fossem de oiro.”

O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam tão rápida fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num saco e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça.

“Oh! disse ele, que doido eu fui! Não me tinha lembrado da cobiça dos homens. Despiram-me todo. Não há agora em toda a floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro: o oiro atrai as ambições.”

“Ah! Se eu conseguisse um vestuário de cristal! Era deslumbrante e o judeu avarento não me teria despido.”

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de cristal, que reluziam ao sol como pequeninos espelhos. O pinheiro ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas de repente o céu cobriu-se de nuvens e o vento rugindo, fortemente, quebrou todas as folhas de cristal.

“Enganei-me outra vez, disse o jovem pinheiro, vendo por terra, feito em bocados, o seu manto cristalino. O ouro e o cristal não servem para vestir bosques. Se eu tivesse a folhagem acetinada e tenrinha das aveleiras, seria menos brilhante mas viveria descansado.”

Cumpriu-se a sua última vontade e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas, julgava-se ainda mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem lhe deixar uma única.

O pobre pinheiro envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Consegui ainda este favor do Génio da montanha e nunca mais se queixou da sua sorte.

Guerra Junqueiro, “Contos Para a Infância”

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publicado por picodavigia2 às 10:33

ALBUM DA CASA MIMOSA

Quarta-feira, 01.10.14

Um Álbum comemorativo do século e meio do Seminário de Angra, num excelente layout, formato quadrangular, ótimo papel, publicado pelo Instituto Açoriano de Cultura de Angra do Heroísmo. Colaboraram 40 autores, quase todos antigos alunos do seminário, dos quais três assumiram a coordenação do projeto que optaram por narrativas de experiências e testemunhos pessoais, e naturalmente estabeleceram a dimensão da colaboração, 240 páginas e fizeram a seleção fotográfica. Resultado, uma coletânea  com muito interesse e relevância para os Açores, no entanto, o espaço cedido a certas divagações particulares poderia ter dado lugar a um olhar retrospetivo mais abrangente, incluindo a situação política-religiosa dessa altura, na minha opinião, merecedora de uma honesta e sincera apreciação. Numa obra deste género em que fomos construtores e protagonistas dum momento histórico bastante consequente, teria sido apropriado e creio mesmo útil um olhar intrépido ao desempenho do nosso papel, embora uma autoavaliação, quase sempre, corra o risco de ser preconceituosa. No entanto, com cerca de meio século de distância, seria mais que suficiente para um olhar imparcial sobre o que se passou e nos marcou para todo o sempre, e que até contribuiu para que a gente dos Açores fosse o que é hoje. Se investigarmos atentamente estas duas décadas, 50-70, o Seminário de Angra apesar da sua influência incontestavelmente positiva no meio ambiente açoriano, não deixou de ser bastante indiferente, mesmo cúmplice no consórcio igreja-estado que marcou profundamente a segunda metade do século XX.

O espólio intelectual, cultural, musical e artístico da história do Seminário de Angra que o Álbum bem expressa poderia ter sido mais completo e útil com uma componente política/religiosa que nessa altura pesava sobre todo o país e também sobre a Igreja Católica pré e pós-conciliar. Uma região e um país subjugados a uma longa ditadura e a uma cruel guerra colonial, e uma igreja que continuava a rezar em latim, voltada para a parede e de costas para o povo, alimentando-se, sobretudo, da devoção de Fátima e do medo do inferno. Consciente ou inconscientemente, o assunto passou ao lado do Álbum.

Nesse cenário político e religioso que se viveu em Portugal e nos Açores, entre as muitas vítimas do regime político-religioso, não quero deixar de relembrar o grande homem e padre, já falecido há 10 anos, o Dr. Manuel António Pimentel que, neste capítulo, deu corajoso testemunho de vida, que muitos outros não tiveram coragem para o fazer. Nessas duas décadas, a todos os níveis da hierarquia eclesiástica portuguesa havia advertências e ameaças ao clero, para que se mantivesse à margem do problema, e poucos foram os que tiveram a coragem para desobedecer. Eu ainda me lembro bem das admoestações do próprio cardeal patriarca de Lisboa, nas suas passagens frequentes pelo Colégio Português de Roma, nos anos do Concílio Vaticano II, afirmando que não permitiria que padre algum criticasse o bom entendimento entre a igreja e estado em Portugal, pois ele próprio era um crónico subserviente ao Estado Novo. A própria tese de doutoramento em filosofia do então reitor do colégio, e a seguir bispo do Funchal e de Coimbra em destaque na biblioteca, versara o pensamento político de Salazar!

Ao regressar de Roma em 1965, fui, no meu primeiro e único ano letivo do Seminário Maior de Angra, nomeado prefeito dos teólogos, professor de Teologia Moral e de História do Cristianismo. Deixei de lecionar pelos compêndios tradicionais e desatualizados das respetivas disciplinas e passei a dar as aulas pelas minhas sebentas pessoais; eliminei igualmente o cargo do intermediário das compras da prefeitura dos teólogos, e em sessão de conjunto com os alunos da prefeitura pusemos fim ao cofre dos dinheiros comuns, ficando cada teólogo responsável pelas suas contas pessoais, livros, material escolar e propinas, etc. Pela primeira vez, celebrámos em convívio festivo e agradável, a passagem do velho para o novo ano civil, à meia noite, com champanhe e música. (Ninguém se embriagou ou atentou contra a dignidade da instituição!)

E ainda mais, e com gravidade acrescida, tomei a ocasião para anunciar que a minha resolução pessoal para o novo ano de 1966, seria não tomar parte no Te Deum de ação de graças ao Estado Novo que todos os anos se celebrava na Sé de Angra com missa solene e sermão, deixando à liberdade de consciência dos alunos a mesma prerrogativa. O pregador, antigo professor e então colega do seminário nunca mais me falou e o bispo, no fim do ano letivo, ofereceu-me o passaporte para o Seminário-Colégio de Santo Cristo, em Ponta Delgada, onde exerci os últimos anos da minha docência e do meu múnus sacerdotal, nos Açores.

Apesar de tudo, já estava bem consciente de que teria sido muito mais cómodo, olhar para o lado, fazer que não via e prosseguir o carreirismo eclesiástico!

 

 

Caetano Valadão Serpa, Ph. D.

Boston, Massachusetts  

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publicado por picodavigia2 às 09:27

A BOLA DE PINGUE-PONGUE

Sábado, 20.09.14

 

(CONTO DE ANTÓNIO TORRADO)

Era uma vez uma bola de pingue-pongue.

Um dia, a bola de pingue-pongue disse assim:

- Já chega de andar aos trambolhões de um lado para o outro: encontrão daqui, safanão ali, toma lá, dá cá e volta ao princípio, numa roda viva entre duas raquetes. Afinal nunca passo da mesma mesa.

Realmente, aquela vida de tão, badalão, e torna e deixa o pingue e pongue e pongue e pingue cansava qualquer um, quanto mais uma bola de pingue-pongue com aspirações a outros voos...

- Ainda se fosse uma bola de futebol - suspirava ela. - Corria o campo de lés a lés e, quando fugisse para dentro das redes, punha tudo a gritar: goooolo! Era mais emocionante.

Mas, mesmo assim, deve haver melhor destino.

É que havia mesmo. E a pequenina bola de pingue-pongue queria conhecê-lo. Ser bola de futebol, de basquetebol não lhe bastava. O que ela queria era correr mundo!

E foi. Saltaricou da mesa para o chão, desceu escadas, escorregou por colinas, e foi ter a um sítio muito especial, que era assim a modos que um centro espacial. Deste centro especial espacial atiravam para os céus bolas e bolinhas, que uma vez lá de cima, a dançar no meio dos astros, lançavam para a terra uns sinais esquisitos - bip! bip! bip! - como se fossem grilos... Mas não eram grilos essas bolas espaciais. Eram satélites dos artificiais

Se as outras conseguem, também eu hei-de conseguir - pensou a bola de pingue-pongue.

Ela que sabia dizer "pingue" e "pongue", e "pongue" e "pingue", depressa aprendeu a dizer "bip!" "bip!" "bip!". Não custava nada.

E lá foi pelos ares, viajante do espaço, à roda do mundo, tão redondo como ela.

- Ena tantas bolas! - exclamou a bola de pingue-pongue, quando se viu lá no alto, a rodar entre planetas. - Afinal somos todas da mesma família. Umas maiores, outras mais pequenas, mas redondas todas. Que seria do mundo, se não fossem as bolas...

E, de contente que estava, soltou um "bip! bip!" mais forte, que atravessou o espaço e atarantou as estrelas lá do fundo.

- Tirem-me de ao pé de mim este satélite maluco. Não consigo dormir em paz - gritou a Lua, que é assim uma espécie de bola de pingue-pongue, mas em grande.

Os sábios fizeram a vontade à Lua e mandaram descer a nossa bolinha de pingue-pongue.

- Estou satisfeita - contou a bola, ao regressar à Terra.

António Torrado

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publicado por picodavigia2 às 15:18

AS PALAVRAS

Sábado, 09.08.14

(POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE)

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

 

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

 

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

 

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

 

                   Eugénio de Andrade

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publicado por picodavigia2 às 10:51

NO REINO DAS PIPOCAS

Sexta-feira, 01.08.14

Era uma vez,

Uma casa redondinha

Onde estavam bem juntinhos        

Os travessos milhozinhos.

 

Brincavam de rolar

Todos juntos amarelos

Depois começavam pular

E não usavam seus chinelos.

 

E naquela bagunça toda

O telhado se mexeu

Todas já ficaram brancas

E a garotada apareceu

 

Um cheirinho bem gostoso

Um gostinho especial

Quem não gosta de pipoca,

Vai brincar lá no quintal.

 

 

Claudia Liz

 

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publicado por picodavigia2 às 18:40

PALAVRA

Segunda-feira, 28.07.14

(SOPHIA DE MELLO BREYNER)

 

Heraclito de Epheso diz:

" O pior de todos os males seria

A morte da palavra".

 

Diz o provérbio do Malinké:

" Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento

Mas não pode

Enganar-se na sua parte de palavra"

 

Sophia de Mello Breyner Andersen

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publicado por picodavigia2 às 00:51

PAI

Domingo, 20.07.14

(POEMA DE JOSÉ RÉGIO)

 

 

Foste simples, banal,

Bom, com defeitos, jovial,

E tão pegado à vida,

Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.

 

Viveste para as coisas deste mundo,

Que seria melhor

Se o pudesses fazer conforme o teu humor.

 

Não é por ser teu filho que sou triste,

Demoníaco, angélico, diferente,

Descontente, nevrótico, perverso.

 

Mas se algo, em mim, resiste

De humildemente humano,

Amigo de viver conforme vai

Vivendo a gente consoante o ano...

 

A ti o devo, pai!

A ti o devo, se nasci.

E a ti o devo, se inda não morri.

 

José Régio in Colheita da Tarde

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publicado por picodavigia2 às 18:07

MENINOS DE TODAS AS CORES

Quarta-feira, 16.07.14

(UM CONTO DE LUÍSA DUCLA SOARES)

 

Era uma vez um menino branco, chamado Miguel, que vivia numa terra onde todos os meninos eram brancos e, por isso, ele pensava que todos os meninos do mundo eram brancos. Brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos brancos, e, juntamente com os todos os meninos brancos, o Miguel dizia:

 

É bom ser branco

Porque branco é o açúcar, que é tão doce

Porque branco é o leite, que é tão saboroso

Porque branca é a neve, que é tão linda e fofinha. 

 

Mas certo dia, os pais do Miguel resolveram viajar e o Miguel partiu, com eles, num grande num barco. A viagem demorou muitos dias, porque os barcos andam devagar, mas o Miguel, finalmente, chegou a uma terra onde, ficou muito admirado porque todos os meninos eram todos pretos.

Passado pouco tempo, fez-se amigo de um menino que era caçador e tinha um nome muito estranho, chamava-se Lumumba. Ele e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos pretos, brincavam todos juntos,  faziam desenhos de meninos pretos,  e, juntamente com todos aqueles meninos pretos o Miguel dizia:

 

Afinal, é bom ser preto

Porque preta é a noite, durante a qual nós dormimos tranquilamente,

Porque pretas são as azeitonas que são tão saborosas,

E pretas são as estradas onde andam os carros.

 

O Miguel, passado algum tempo fez uma outra viagem de camioneta e chegou uma outra terra  onde todos os meninos eram castanhos. Tornou-se amigo de um menino que fazia corridas de camelos e se chamava Ali-Babá. Ele e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos castanhos, brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos castanhos, e, juntamente com todos o Miguel dizia:

 

É bom ser castanho

Porque é castanha a terra do chão que nos dá as ervas e as plantas,

Porque castanhos são os troncos das árvores que nos dão a madeira,

Porque castanho é o chocolate que é tão doce…

 

O menino branco ainda fez uma outra viagem de avião, e só parou numa terra onde todos os meninos eram vermelhos e estavam a brincar aos índios. Tornou-se amigo de um menino chamado Pena de Águia e com ele também aprendeu a brincar aos índios. Então o Pena de Águia e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos vermelhos, brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos vermelhos,  e, juntamente com eles, o Miguel dizia:

 

É bom ser vermelho

Porque vermelhas são as fogueiras que são tão quentinhas

Porque vermelhas são as cerejas que são tão apetitosas

E vermelho é o sangue que dá vida ao nosso corpo.

 

Finalmente o Miguel fez uma viagem de barco, de camioneta e depois de avião para uma terra muito, muito distante onde todos os meninos eram amarelos. Tornou-se amigo de um menina chamada Flor de Lotus. Ela e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos amarelos, brincavam todos juntos,  faziam desenhos de meninos amarelos,  e, juntamente com todos o Miguel dizia:

 

É bom ser amarelo

porque é amarelo o Sol que nos dá a luz e o calor,

porque é amarelo o girassol que é uma linda flor

e porque é amarela a areia da praia, para onde vamos tomar banho nas férias.

 

Depois, quando o Miguel voltou à sua terra, a terra onde todos os meninos eram brancos, brincava com todos os seus amigos que eram brancos e todos juntos, faziam desenhos de meninos brancos, pretos, castanhos, vermelhos e amarelos e, juntamente com os todos os meninos brancos, o Miguel dizia:

 

É bom ser branco como o açúcar

É bom ser preto como as azeitonas

É bom ser castanho como o chocolate,

É bom ser vermelho como as cerejas

É bom ser amarelo como o Sol.

 

E, a partir desse dia, na escolinha do Miguel, todos os meninos brancos pintavam em folhas brancas desenhos de meninos brancos, pretos, castanhos, vermelhos e amarelos, todos muito felizes e sorridentes.

 

Luísa Ducla Soares (adaptado)

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publicado por picodavigia2 às 08:55





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