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OS DOIS PÁSSAROS

Domingo, 12.10.14

(TEXTO ADAPTADO)

 

Era uma vez dois pássaros que viviam numa árvore e contavam histórias. Um contava histórias para meninos que gostam de histórias que acabam mal e outro contava histórias para meninos que gostam de histórias que acabam bem. Todos os dias contavam histórias e viviam muito felizes.

Um dia, chegou à árvore da sabedoria um menino que não gostava de histórias, nem das que acabam bem nem das que acabam mal

Os pássaros da árvore da sabedoria ficaram desorientados. E uniram-se contar ao menino uma história que não acabasse bem ou mal, mas que acabasse assim e assim

E, pela primeira vez, chegaram a acordo sobre o final duma história.

 

Adaptado de um conto dos irmãos Grimm, Contos e Lendas

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publicado por picodavigia2 às 00:06

FIM DO BURRO

Domingo, 21.09.14

Um homem caminhava acompanhado de um jumento. Desciam uma vereda muito íngreme e sinuosa que atravessava uma colina. Montado no jumento seguia um rapaz meio tolo. A certa altura, o rapaz, não conseguindo aguentar-se sobre o burro que se inclinava muito ao descer, começou a deslizar ao longo do dorso do animal. Quando chegou ao pescoço do burro, agarrou-se-lhe as orelhas do animal e, voltando-se para trás, muito assustado, pediu ao pai:

 -Pai, dê-me outro burro, porque este está-se acabando.


 

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publicado por picodavigia2 às 17:06

O MEU PRIMEIRO LIVRO

Quinta-feira, 18.09.14

 

Meu pai sabia ler mas não lia, por uma razão muito simples: porque em minha casa, para alem dos livros escolares que iam passando de mãos para mãos, não havia livros. Em casa da minha avò materna, a única casa da freguesia que frequentávamos com alguma assiduidade, apenas havia um livro e dois manuscritos. O livro era o “Resumo da História Sagrada”, uma espécie de Biblia simplificada e adaptada às famílias onde se narravam algumas dasmais belas estórias do Antigo Testamento, como as deAdão e Eva, Caim e Abel, Jacob e o Anjo, José do Egipto, a Arca de Noé, o Profeta Jeremias, Job, Ester, David e o Golias a que se juntavam muitas outras do Novo Testamento. Eram estórias simples mas interessantes e que, à força de se lerem tantas vezes, já se sabiam de cor. Os manuscritos eram em versos, também muitas vezesouvidos e decorados. Um continha uma boa parte das profecias do Sapateiro Bandarra enquanto o outro narrava, de forma dramática, a morte de El-rei Dom Carlos e do príncepe herdeiro Dom Luís Filipe, ocorridas, na longínqua Lisboa, uns trinta anos antes. De resto apenas se lia uma outra carta vinda da América, os rótulos dos maços de tabaco e das garrafas de laranjada e de cerveja, os disticos das caixas de fósforos e o nome de algum navio que se aproximasse mais da ilha.

Assim como meu pai, viveu toda a sua vida afastado dos livros, eu também passei a minha infância apenas folheando, lendo e relendo os livros da escola, com excepção da Gramática que não tinha graça nenhuma e da tabuada que só continha números. Apenas quando cheguei ao Seminário Menor me veio parar às mãos e assim pude ler o meu primeio livro que obtive através de um concurso de desenho em que fui obrigado a participar. É verdade que não tinha geito nenhum para o desenho, que a tarefa me correu pessimamenre e que borrei a folha toda. Mas, pelos vistos, para o juri, era uma obra de arte que me valeu um prémio. Um livro.! O meu primeiro livro: Louis Pasteur.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:59

SONDAGENS AUTÁRQUICAS

Quinta-feira, 28.08.14

Conta-se que, por alturas das eleições, numa ou noutra terra deste país à beira-mar plantado, algumas sondagens para as eleições autárquicas se fazem do seguinte modo: alguém, supostamente por mandato de um determinado partido ou do respectivo candidato, telefona para um número seleccionado, esclarecendo, minuciosamente, o interlocutor do objectivo do telefonema. Depois interroga-o sobre o candidato em quem vai votar: se no candidato X, ou no Y, ou W, ou no Z, pertencentes respectivamente às quatro forças políticas tradicionalmente mais votadas.

Como o interlocutor ainda demonstra alguma indecisão, de imediato a pessoa que efectuou o telefonema conclui:

- “Claro que vai votar em Fulano.” – Efectuando de imediato o respectivo registo

Como isto conta apenas para as sondagens, parece não acarretar nenhum problema nem por em causa, rigorosamente, nenhuma ilegalidade constitucional.

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publicado por picodavigia2 às 15:16

VACINAS

Quarta-feira, 27.08.14

A senhora professora avisava de véspera:

- Amanhã venham bem limpinhos e bem lavadinhos. Vêm os senhores das Lajes dar as vacinas.

Começava, nesse momento, o nosso martírio. A escola, ou melhor a Casa do Espírito Santo, entrava num silêncio total, absoluto e inquietante. Olhávamo-nos uns aos outros sem dizer nada e o recreio seguinte, o da tarde, não tinha graça nenhuma.

Saíamos da escola macambúzios, vergados ao peso do medo e da angústia. O resto da tarde era de sufoco e a noite de agonia.

Na manhã seguinte, uma barrela como a dos dias de festa. Tronco nu, cabeça debaixo da torneira de água fria e pesquisa de algum piolho. O sabão azul havia de matar os que não aparecessem. Por fim cheirávamos a lavados.

Tímidos, hesitantes, sem a algazarra do costume, seguíamos para a escola… E os velhos à Praça a questionar:

- O que será que lhes deu hoje para irem tão acmodados!?

A meio da manhã, chegavam os carrascos. A senhora professora mandava as meninas para o recreio e, pondo-nos em fila, ordenava:

- Tirem sueras, camisas e camisolas.

E nós, nus da cintura para cima, como na lavagem da manhã. A angústia aumentava e o medo crescia. Apenas se ouvia o roçar de uns nos outros, dos apetrechos dos senhores das vacinas.

De cara sisuda, sem um sorriso sequer, os senhores das vacinas aproximavam-se de nós. Pegavam-nos no braço esquerdo e com uma espécie de pena de caneta permanente, aquecida, desinfectada e embebida num líquido… Zás. Cravavam-nos duas grandes riscadelas nos bracitos débeis e indefesos. Doía? Ai, se doía!

Mas o pior é que passados dois dias aquilo começa a inchar, a tumescer, a criar uma espécie de pus, dentro de umas bolhas enormes, que doíam e perduravam durante vários dias. Pior. Não se podiam romper, caso contrário a vacina perdia a validade e haveríamos de levar outra.

E a prova de tudo isto, é que passados sessenta anos, as marcas das ditas cujas ainda cá estão, no braço esquerdo.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:25

BISPO E PRESIDENTE DE JUNTA

Segunda-feira, 18.08.14

D. Manuel Afonso de Carvalho foi o 36.º bispo de Angra, governando a diocese entre 1957 e 1978. Natural da freguesia de Subportela, no concelho de Viana do Castelo, o prelado para ali se deslocava, com alguma regularidade, durante os meses de Verão, entregando o governo da diocese ao Vigário Geral ou a outro sacerdote, geralmente um membro do cabido, de reconhecida competência.

Num Verão da década de sessenta, por alturas em que Sua Excelência, se encontrava, mais uma vez, de férias, em Subportela, um sacerdote, a paroquiar nos Açores, foi acometido de doença grave que o forçou a deslocar-se ao Porto, para consulta médica e posterior tratamento, sem, no entanto, ter possibilidades de pedir a respectiva autorização para se ausentar da diocese, como mandavam as normas canónicas.

Como permanecesse na cidade invicta durante mais tempo que o previsto e sabendo que o Prelado se encontrava em Subportela, decidiu por deslocar-se aquela aldeia minhota, a fim de justificar e legalizar a sua saída da diocese.

Ao chegar à freguesia, como desconhecesse a morada da familiar do bispo, onde este se encontrava hospedado, tentou informar-se, junto do primeiro transeunte que encontrou, perguntando-lhe onde era a casa da família Afonso Carvalho.

O transeunte indagou com serenidade:

- Do Presidente da Junta?

Ao que sacerdote retorquiu:

Olhe, na minha terra ele é bispo. Se ele aqui é Presidente da Junta, isso já não sei...   

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publicado por picodavigia2 às 18:59

TALHERES

Quarta-feira, 13.08.14

Viajava na TAP, num voo entre o Porto e as Lajes. Nesses tempos, a bordo daquela companhia aérea serviam-se refeições quentes e de faca e garfo. Copos e pratos, estes últimos sob a forma de pequenas travessas, eram de plástico. Os talheres, no entanto, eram de metal, tendo no cabo, muito bem estampado o logotipo daquela transportadora aérea.

Achei-os interessantes e apelativos, pelo que, depois de tomar a refeição, cuidando que ninguém me observava, à socapa, limpei-os cuidadosamente, embrulhei-os num guardanapo de papel e guardei-os num pequeno saco que levava comigo.

De repente, a senhora que ia a meu lado, fez o mesmo aos seus, só que, em vez de os guardar ela, deu-mos para que eu os juntasse aos meus.

Estarreci, envergonhei-me, fiquei sem pinga de sangue e cuidei que a senhora estava a dar-me uma bofetada com mão de luva.

Perante a minha hesitação, ela insistiu:

- Esteja à vontade! Não tenha medo! Guarde-os e leve-os à vontade. Eu sou a mulher do comandante e sei que eles não se importam que os passageiros os levem. Muitas vezes, depois de os usarem, deitam-nos fora para não voltar a transportá-los.

Confesso que a partir de então, só não consegui um faqueiro completo com talheres da TAP, porque pouco depois aquela transportadora aérea, lamentavelmente, passou apenas a servir pequenas e ligeiras refeições, ou seja sanduiches, embrulhadas em papel filme, colocadas numa simples  caixa de papelão e sem talheres.       

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publicado por picodavigia2 às 23:27

CORTARAM O SANTO PINDIÃO

Segunda-feira, 04.08.14

Na década de sessenta, era por demais falada e conhecida a imponente e grandiosa procissão do Senhor dos Passos, que se realizava na freguesia da Ribeirinha, ilha Terceira. Nessa procissão incorporavam-se, para além de várias imagens, alguns símbolos religiosos adequados à solenidade, com destaque para um enorme guião de cor roxa, tendo na parte superior, a amarelo, as iniciais que os imperadores romanos gravavam nos estandartes dos seus vitoriosos exércitos – S P Q R - Senatus Populus Que Romanus, que a igreja cristianizou, adoptando-as nos guiões das festas de Passos, interpretando-as da seguinte forma “Salvai o Povo Que Remistes” e que o Padre Jacinto de Almeida, em tom jocoso, numa aula de Latim, ainda traduziu de outra maneira “Senhor Padre Quero Rosquilhas.

Pois o guião ou pendão do Senhor dos Passos da Ribeirinha, um ex-libris daquela freguesia terceirense, era, senão o maior, um dos mais agigantados dos Açores. Era tão grande e tão pesado que, para o transportar, era necessário escolher o homem mais valente da freguesia, o que, na verdade, constituía uma honra para o eleito. Durante o préstito e para aliviar o gigantesco esforço despendido, era tradição as mulheres cozerem ovos e, depois de os descascar, enfiá-los, na boca do portador do emblemático guião, que não se havia de livrar duma valente crise de fígado, rezando a seguinte jaculatória;

- Para que Nosse Sinhiô te dê forças para levares o Santo Pindião.

Por estes dias tive o privilégio de tomar café, com o actual pároco da Ribeirinha, o padre António Henriques, de passagem pelo Pico, a pregar o novenário da festa do Senhor Bom Jesus. Tomei então a liberdade de lhe perguntar se ainda se fazia a festa do Senhor dos Passos, se ainda levavam o célebre guião, se ainda escolhiam o homem mais forte da freguesia para o transportar e se se mantinha a tradição das mulheres lhe enfiarem os ovos cozidos na boca. Respondeu-me que realmente ainda realizavam a procissão, mas que, quanto ao resto já não faziam, por que já tinham cortado um bom pedaço do pendão que assim, para além de mais curto, ficou mais leve.

Ai, os homens de outros tempos, que eram bem mais fortes do que os de agora!

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publicado por picodavigia2 às 15:42

A VELHA DAS LAJES

Quinta-feira, 31.07.14

Antigamente vivia nas Lajes uma mulher já de avançada idade, muito pobre e ranzelona. Além disso era um pouco desmiolada e, como não tinha familiares próximos, passava grande parte dos seus dias a arrastar-se pelas ruas, ou a sentar-se nas soleiras das portas, nas banquetas das praças, a falar com uns e com outros e a pedir alguma comida, pois nada tinha de seu.

Os rapazes, ávidos de se divertirem com o farrobodó que a velha fazia quando se metiam com ela, sempre que a encontravam pregavam-lhe partidas, levantavam-lhe a orla do saiote e chamavam-lhe nomes. A velha retorquia com maus modos, zangas, pregações e azedumes, ameaçando-os que deles havia de fazer queixa ao regedor. E quanto mais os rapazes se empolgavam em atrevimentos e provocações mais a velha ranzelava e se embravecia. Mas verdade é que, quando os não encontrava, com a sua voz ligeiramente mafiosa, perguntava a todos quantos com ela se cruzavam:

- Tu vite ui monces? Tu vite ui monces?

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publicado por picodavigia2 às 15:25

O PREGADOR

Segunda-feira, 28.07.14

Era um ilustre e conceituado pregador. O melhor da ilha! Sobretudo nos tríduos, novenas e festas de Inverno, quando não havia, em férias, professores do Seminário, Doutores formados em Roma - os únicos que lhe faziam sombra no Verão - assenhorava-se dos púlpitos e ambões, enchia as igrejas de esplendor e assinalava nas almas dos que, piedosamente, o ouviam o indelével carácter da mensagem divina.

Era exímio em citações. Poder-se-ia mesmo dizer que estas eram a sua especialidade. Para além dos Evangelhos, citava, com um rigor invejável, versículos do Antigo Testamento e das Epistolas de São Paulo, excertos dos Padres e Doutores da Igreja, das encíclicas e até dos discursos e sermões dos papas. Uma maravilha! Um dom invejado pela maioria do clero da ilha.

Certo ano, chegou à ilha, hospedando-se, por uns dias, em pleno Inverno, em casa de um amigo e colega de curso, um sacerdote a paroquiar noutra ilha, mas também ele com fama de bom conhecedor da doutrina da Igreja e muito capaz de a citar de cor.

Alertado para o dom do colega, ouviu-lhe, com redobrada atenção, um sermão pregado numa das mais importantes festas da terra. Nessa prédica, o erudito orador citou, com fluência desusada e convincente convicção, palavras de Pio XII, o Sumo Pontífice reinante, na altura.

Terminadas as cerimónias, na sacristia e já desparamentados, os outros padres elogiaram o sermão. A certa altura, o visitante observou-lhe;

- Olhe, colega. Também eu achei o seu sermão muito interessante, Mas que eu saiba Pio XII nunca disse aquelas palavras.

Resposta pronta do outro:

- Ah! Não disse! Mas devia ter dito.

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publicado por picodavigia2 às 21:12

SENHORA SANTANA

Sábado, 26.07.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta contava-se a seguinte estória:

Era uma vez, um casal que se dava muito mal, o que lhes causava alguma tristeza. Além disso faziam tudo o possível para se entenderem.

Certo dia, cuidando que Santana havia de os ajudar a conseguir o seu desejo, dirigiram-se à igreja, a fim de rezar, implorando à Santa a tão almejada reconciliação, Mas nada, Voltaram, uma última vez, e já muito desanimados, fizeram as seguintes orações:

A mulher implorou assim:

 

Senhora Santana,

Dai-me um bom marido,

Porque o que eu tenho

Não dorme comigo.

 

Ao que o homem retorqui:

 

Senhora Santana.

Minha mulher mente,

Durmo com ela,

Mas ela não me sente.

 

A estória não esclarece se Santana fez o milagre.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:11





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