Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


PADRE JOAQUIM FERREIRA CAMPOS

Domingo, 16.03.14

Natural da ilha Terceira, mais concretamente da freguesia da Terra Chã, onde nasceu em 1841, sendo filho de Joaquim Ferreira Campos e de Gestrudes Ferreira. Matriculou-se no Seminário Episcopal de Angra, fundado havia apenas nove anos, em em 28 de Setembro de 1870, altura em que tinha 26 anos de idade. Nesse ano matriculou-se apenas ele e um outro aluno de nome António de Paula Carvalho, natural da Praia da Vitória, ilha Terceira. Ter-seá ordenado em 1876 uma vez que no ano seguinte já exercia o munus sacerdotal nas Flores. Foi cura na freguesia de Ponta Delgada das Flores, de Março de 1877 a Dezembro de 1878, da Fajã Grande de 1879 a 1881 e, das Lajes, entre 1881 e 1883. O primeiro assento de óbito assinado por ele na Fajã Grande, como cura, data de 2 de Janeiro de 1880 e o úktimo de 17 de Dezembro do ano seguinte. Nessa altura foi nomeado vice vigário da paróquia da Fajãzinha ate ao ano de 1891, tendo, então, emigrado para os Estados Unidos da América, onde se manteve durante quase uma década. Em 1899 regressou à ilha das Flores que adoptara como sua terra natal e foi colocado na Fajã Grande, primeiro como vice vigário, depois como cura coadjutor e, finalmente, como vigário cargo que exerceu até 1914. Mesmo assim e após a sua exoneração permaneceu na Fajã Grande como manente, freguesia onde veio a falecer em 30 de Novembro de 1916, com 75 anos de idade. Está sepultado no cemitério desta freguesia. Na década de cinquenta ainda era recordado, com muita saudade, na Fajã Grande.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 22:49

O JOSÉ DIAS

Domingo, 09.02.14

O José Dias era o filho mais novo de Ti Manuel Luís e da Senhora Dias que moravam na Tronqueira. Faleceu na Fajã Grande, em 1993, com 70 anos. Desde jovem que se se revelou um rapaz simples e trabalhador, habituado ao amanho da terra, a tratar das vacas, a ajudar o pai nos moinhos que possuía na Ribeira das Casas. Namorou e casou com a Maria de Lurdes, filha da Senhora Estulana, que morava na última casa do Cimo da Assomada, no começo do Caminho da Missa.

Ao ser chamado às sortes, ficou apurado e, como a maioria dos jovens, na altura, foi incorporado no Exército, pelo que viajou para a ilha Terceira, onde fez a recruta e onde foi instruído no manejo das armas para, mais tarde, jurar bandeira. Após a recruta, jurou bandeira numa festa solene como era usual fazer-se nesses tempos. Jurou com o coração, dar a vida, se tal fosse necessário, pela Pátria, de braço direito esticado em direcção à bandeira de Portugal.

Tão bem cumpria as suas obrigações de militar e tão diligente se mostrou que, na primeira escola de cabos que houve no Quartel de Angra, foi nomeado para a frequentar e acabou sendo promovido a cabo, exercendo o cargo de quarteleiro chefe da sua unidade. Cumprido o serviço militar, regressou à Fajã Grande disposto a juntar dinheiro para construir uma casa e contrair matrimónio.

Na verdade, passado algum tempo, construiu uma casa no Cimo da Assomada, em frente ao chafariz de Cima e casou com a Maria de Lurdes. Criou o seu próprio negócio de mercearias e artigos variados, estabelecendo-o na Ponta. Nasceram dois filhos e face aos encargos era, então, necessário pensar num outro rumo para a vida, pois o negócio rendia pouco e o rendimento das terras não chegava para o sustento condigno da família. Como a mulher havia nascido nos Estados Unidos da América e tinha papeles, decidiram emigrar para os Estados Unidos. Primeiro partiu a Lurdes, para a Califórnia, onde começou a trabalhar, fazendo, logo que a lei lho permitiu, a carta de chamada ao mardo e aos filhos, juntando assim toda a família no novo país. Ao chegar à América, como muitos outros açorianos, o José Dias começou a trabalhar num rancho, cuidando de vacas, enquanto à noite frequentava a escola, a fim de aprender o inglês suficiente não só para ganhar o pão de cada dia como, também, poder naturalizar-se cidadão americano, até porque era casado com uma americana.

Uma vez aprovado na escola havia que passar à formalização da cidadania. Com os papéis tratados e em ordem foi-lhe marcado o dia para fazer o juramento de bandeira numa cerimónia simples, mas carregada de significado, pois era levada a cabo diante de um juiz, devidamente empossado para esse efeito. Prestadas as primeiras provas, demonstrado que falava, lia e escrevia com alguma fluência na língua inglesa, interrogado sobre a Constituição Política dos EUA, foi convidado a, frente à bandeira, a estender o braço e fazer o juramento. Muito comovido o José Dias não conteve as lágrimas e, entre soluços profundos, disse as palavras que o obrigavam a honrar nova a pátria de adopção.

Admirado o juiz perguntou-lhe qual o motivo das suas lágrimas e da dificuldade de dizer a fórmula de juramento. Na sua simplicidade o José Dias disse:

- Chorei, pois Deus sabe como me senti, porque há anos jurei dar a vida pela minha Pátria, Portugal, e agora estou a fazer um novo juramento semelhante! Sinto-me um traidor!

Retorquiu o juiz, com a sabedoria de muita experiência, de muita diplomacia aprendida e com o sentimento da verdade: —

- Fique sabendo que de muitos homens como o senhor precisam os EUA, porque esses sabem o valor de um juramento!

 

NB - Alguns dados deste texto foram retirados do blog «Fio de Prumo», de Manuel Luís de Fraga, filho do irmão mais velho do José Dias                                 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:32

A MARQUINHAS NASCIMENTO

Quarta-feira, 22.01.14

Nos anos cinquenta, vivia na Fajã Grande, na rua Direita, no cruzamento com a rua Nova, em casa de um irmão - o José Nascimento - uma mulher invulgar e típica, já de alguma idade, talvez mesmo a rondar os sessenta anos, de nome Maria, mas vulgarmente conhecida por Marquinhas do Nascimento. Uma das suas características físicas que mais atraía a atenção era o facto de possuir um acentuado defeito labial que não só lhe dificultava o falar como também impedia que fosse claramente entendida pelos seus interlocutores. Tinha os lábios extremamente salientes de tal modo que não se fechavam quando falava, pelo que os sons emitidos eram muito limitados e quase todos iguais. Talvez, por isso mesmo, nunca se casou, vivendo sempre em casa do irmão. No entanto esse grave e acentuado defeito físico, nunca a inibiu do que que quer que fosse. Pelo contrário era uma pessoa descontraída, desembaraçada, incrivelmente jovial, muito meiga e amiga de todos e, sobretudo, muito simpática, especialmente para com as crianças, Por isso todos a respeitavam, não manifestando nenhuma espécie de apoucamento, desdém ou desprezo. Pelo contrário, toda a freguesia a admirava, respeitava e ela tinha muitas amigas, pois, gostava muito de conversar, à sua maneira, e de conviver. Além disso era muito dedicada não apenas ao serviço doméstico mas também aos trabalhos agrícolas. Semeava milho atrás do arado, plantava batata-doce, acarretava molhos e cestos à cabeça e até levava os gados ao pasto, fazendo todas as tarefas com acentuado cuidado e singelo empenho.

Era uma senhora que, apesar da dificuldade que tinha em falar e do defeito físico que ostentava, granjeara a amizade, o respeito e a simpatia de toda a população da freguesia.

Na sua companhia vivia uma irmã, chamada Teresa, que durante muitos anos e desde muito nova se recolheu em casa, não saindo nunca à rua e não sendo vista por ninguém, a não ser pelos familiares. Cuidava-se que teria sido vítima de algum grave problema sentimental ou de algum desgosto. Nos anos sessenta, porém, rompeu esse tabu, começando a sair de casa e convivendo com todas as pessoas da freguesia que ela, apesar daqueles anos de retiro, conhecia perfeitamente, uma vez que da janela do quarto onde se enclausurar e por de trás dos cortinados, as via passar no caminho. Para além de muito bonita era também uma senhora muito afável, simpática e acolhedora, pelo que nunca ninguém a desprezou pela sua opção.

A Maria e a Teresa Nascimento, duas irmãs que, embora de forma diferente, ajudaram e contribuíram para a caracterização de uma população que, na década de cinquenta, qualificou, definiu e emoldurou uma freguesia – a Fajã Grande das Flores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 20:28

TENENTE BARTOLOMEU LOURENÇO FAGUNDES

Sábado, 18.01.14

O tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes nasceu no lugar da Fajã Grande, freguesia das Fajãs em 1753. Era filho de António Silveira Azevedo, natural de Santa Luzia do Pico e de sua mulher Catarina de Freitas, natural do lugar da Fajã Grande, freguesia das Fajãs casados na igreja da Fajãzinha, em trinta de Janeiro de 1752. Era neto paterno de José Pereira de Azevedo, natural de Santa Luzia do Pico e de Madalena de São João, provavelmente natural da freguesia de São João do Pico e materno de Bartolomeu Lourenço e de sua mulher Isabel de Freitas, sendo bisneto do Alferes André Fraga Pimentel. Casou, na igreja da Fajãzinha, na altura ainda igreja paroquial da freguesia das Fajãs, com Ana de Freitas, nascida em 1756, no dia 17 de Janeiro de 1774, filha de Manuel Lourenço e de sua segunda mulher, Joana de Freitas.

Sabe-se que Bartolomeu e Catarina tiveram vários filhos, sendo um deles o padre José Narciso da Silveira, um outro Manuel Joaquim Fagundes e ainda um terceiro de nome Francisco Lourenço da Silveira.

Bartolomeu Lourenço Fagundes foi tenente de um ou de mais de um dos vários fortes existentes na Fajã Grande e na costa oeste das Flores, como já o tinha sido o seu bisavô, o alferes André Fraga de Mendonça. Estes fortes destinavam-se sobretudo a proteger a população da ilha e defendê-la dos ataques dos piratas. Os mais conhecidos na zona costeira da Fajã Grande eram o Castelo da Ponta, o Vale do Linho, a Castelhana e o Estaleiro, devendo ter existido um quinto, para os lados do Areal, mas dele não há memória.

O tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes faleceu em 16 de Novembro de 1816, tendo a sua mulher falecido alguns meses antes, mais concretamente, em 23 de Janeiro do mesmo ano.

Teve o tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes um neto também chamado Bartolomeu que foi avô do meu avô materno que assim e por arrastamento era conhecido por José Batelameiro – uma adaptação popular de Bartolomeu - quando o seu nome real era José Fagundes da Silveira. De avô em avô conclui-se que o tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes era meu penta avô e, naturalmente, é por essa razão, que tem direito a esta crónica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:47

MESTRE JORGE

Quinta-feira, 16.01.14

Durante muitos anos e ao longo da década de cinquenta, o Senhor José Jorge, mais conhecido na freguesia por “Mestre Jorge” ou simplesmente, “O Sapateiro”, foi o único sapateiro existente na Fajã Grande. Mais tarde, a ele se juntou outros, nomeadamente o Serpa da Ponta que tinha oficina na Via d’Água, nos arrabaldes do Porto e o José Maria que, depois de alguns anos a trabalhar na Quada, assentou arraiais e montou a sua modesta sapataria na Fontinha.

Mestre Jorge disfrutava de pequena mas interessante oficina na Assomada, precisamente na loja da casa onde morava e que era contígua ao palheiro do gado. No entanto, esse edifício, que ao longo de anos, forçou a rua da Assomada a delinear uma enorme e acentuada curva, logo a seguir à Praça, a quando da abertura da estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande foi demolido por completo, sendo construída, em sua substituição, uma outra casa, no mesmo local, mas mais encostada ao Outeiro, dando assim menos sinuosidade e mais largura à nova via.

Mestre Jorge não se dedicava a tempo inteiro ao fabrico, conserto e reparação do calçado. Criava duas vacas e trabalhava nos campos, tarefas em que era ajudado pelos filhos, permitindo-lhe, assim, dedicar grande parte do tempo ao ofício a que por gosto e dedicação se entregara.

Mestre Jorge tinha fama de ser um sapateiro, sábio, competente e trabalhador. É que para além de consertar todo o tipo de calçado e até remendar botas de borracha, frequentemente usadas pelos homens quando ceifavam erva nas lagoas exageradamente encharcadas, ele próprio também fabricava tamancos e galochas, um tipo de calçado mais rudimentar, mas muito usado na altura, na Fajã Grande: os tamancos pelos homens e as galochas pelas mulheres. Além disso era mestre Jorge quem fazia as botas dos jogadores de futebol, assim como a própria bola, cuja manufacturação era bastante complicada e de difícil execução. Construída com pequenos pentágonos de couro, depois de cosidos uns aos outros, a bola pronta, mas do avesso, pelo que tinha de ser revirada através de um pequeno orifício, tarefa difícil e delicada que só um hábil artista conseguia. Depois era meter lá dentro a câmara-de-ar, enchê-la e coser o buraco, mas de tal maneira a se poder abrir quando fosse necessário injectar mais ar na bola.

Mestre Jorge era meu vizinho e grande amigo do meu pai. É que para além da vizinhança, partilhavam a idade e comungavam um passado de juventude comuns. Por isso mesmo habituei-me sempre a respeitá-lo. Além disso os filhos eram pela minha idade e de meus irmãos, pelo que muito partilhávamos em folguedos, brincadeiras e até em trabalhos, ajudando-nos e auxiliando-nos reciprocamente.

Mestre Jorge, casado, em segundas núpcias, com uma senhora de nome Conceição, irmã do José Ti’Anina, teve cinco filhos. Quatro ainda residentes na Fajã Grande: a Madalena, a Hermínia, a Anina e o António. Apenas um, que durante a infância residia em casa de uns tios nas Courelas, o João Luís, emigrou. Do primeiro casamento, enviuvou muito novo, e teve apenas um filho, o José Jorge, na altura já casado, a morar no cimo da Assomada e que mais tarde também emigrou.

Mestre Jorge um homem que com o seu trabalho, dedicação, competência e, sobretudo, com a sua “arte” de sapateiro ajudou a edificar, construir e fortalecer a história da Fajã Grande, tornando-se uma das mais suas emblemáticas personagens da década de cinquenta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:41

CURRICULUM VITAE

Quinta-feira, 16.01.14

João Joaquim Fagundes Júnior, filho de António Lourenço Fagundes e de Maria de Jesus Fagundes, neto paterno de José Lourenço Fagundes e de Mariana Joaquina de Jesus e materno de António Joaquim Fagundes e de Policena Joaquina da Silveira, nasceu a 18 de Outubro de 1902, na freguesia da Fajã Grande, Concelho das Lajes, ilha das Flores, Açores. Foi baptizado na igreja paroquial da mesma freguesia, pelo vigário Joaquim Ferreira Campos, onde também fez a primeira comunhão. Crismou na mesma igreja, em 1925, a quando da visita pastoral às Flores, do bispo diocesano, D. António Augusto de Castro Meireles, sendo seu padrinho, Manuel Luís de Fraga, na altura, aluno do Seminário de Angra. Casou na igreja paroquial da Fajã Grande, com Angelina da Natividade Fagundes, no dia 28 de Maio de 1938, oficiando o casamento, o pároco padre Manuel de Freitas Pimentel. Deste casamento nasceram seis filhos: José, Maria, António, Carlos Vitória e Francisco. Faleceu em 16 de Janeiro de 1966, na Casa de Saúde de São Rafael, da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, de Angra do Heroísmo, ilha Terceira e, após a missa cantada pela capela do Seminário de Angra e de corpo presente, seguida de solenes exéquias na capela de São João de Deus, presididas pelo Reitor daquele Seminário, cónego Dr Artur Pacheco Custódio, foi sepultado, nesse mesmo dia, no cemitério municipal da cidade de Angra do Heroísmo. 

João fez a instrução primária na Fajã Grande, tendo aprendido apenas a ler e a escrever, sem, no entanto, fazer o exame final. O excessivo trabalho em que já se envolvia, apesar de criança, e a manifesta de falta de tempo e de dinheiro impediram-no de se deslocar a Santa Cruz, onde aquele exame era feito. Aos onze anos já trabalhava nos campos e tratava dos animais. Ainda criança aprendeu com o pai, a cavar, a lavrar, a sachar, a semear, a plantar, a estrumar, a ordenhar e a realizar todo o tipo de trabalho relacionado com o amanho da terra e tratamento do gado.

Com a doença e idade avançada do seu progenitor, sessenta anos mais velho do que ele, e depois da partida para a América de todos os irmãos, João passou a ser o único responsável por todo trabalho agrícola das terras que o pai possuía, assim com do tratamento dos animais bovinos que criava. Durante muitos anos e após o falecimento do pai, João ainda teve a seu cuidado a mãe idosa e acamada e uma irmã doente mental. Ambas foram tratadas por ele, mais tarde com a ajuda de Angelina, com carinho, dedicação e cuidado, mesmo após a chegada dos filhos.

João foi um agricultor sábio, competente e trabalhador. Conhecia como ninguém as sementes, as plantas, os arbustos, as árvores e até todas as mondas e ervas daninhas. Lia nos astros e nas nuvens informações sobre sementeiras e colheitas. Tanto se orientava pelo vento, como pela chuva ou pelo Sol e pelos musgos das paredes. Apesar do muito trabalho, nas horas vagas, João, enquanto jovem, dançava nos arraias e danças de carnaval, cantava em festas e foi folião do Espírito Santo, sendo-lhe entregue o papel de actor principal, na encenação de uma peça de teatro, ensaiada e apresentada na Casa do Espírito Santo de Cima, nos anos trinta.

Mas João não se limitava a trabalhar nos poucos campos que o pai lhe deixara. A fim de garantir qualidade no sustento e alimentação dos filhos e sonhar com um futuro melhor para eles, arroteou espaços bravios e desbravou terrenos incultos, transformando uns e outros em campos aráveis. Do Mimoio arrancou pedras, partiu calhaus, juntou pedregulhos e transformou aquele andurrial num dos melhores cerrados de milho da freguesia. Na Cabaceira cortou incensos, arrancou faias, levantou paredes e construiu bardos, no meio dos quais plantou árvores de fruta e cultivou inhames. Nas Águas juntou as pedras caídas da rocha, com elas fez maroiços, transformando aquelas encostas escarpadas em pastagens de relva verdejante. No Pocestinho arrancou cana roca, cortou “feitos” de modo a que aquele recôndito e inculto terreno produzisse incensos para o gado e lenha para o lume. Como se isso não bastasse ainda arrendou uma quinta na Cancelinha, considerando que as laranjas ali produzidas seriam um manancial de saúde e fortaleza para os filhos.

A casa que os pais lhe haviam deixado era pobre, velha, fria e descaída. João economizou, criou gueixos para vender e com esse dinheiro assoalhou a cozinha e tabicou a sala e o quarto, tornando-a mais confortável e acolhedora. Com a venda de outro boi canalizou água, colocando uma torneira na cozinha e uma pia de lavar roupa, no pátio traseiro, contíguo à casa, evitando, assim, que a filha continuasse a ir lavar à ribeira.

João, embora, a maior parte das vezes, comprando fiado, nunca ficou a dever nada nas lojas, pagando sempre o que comprava, Era leal nos seus contractos, honesto nos seus negócios, fiel aos seus compromissos, humilde nas suas atitudes, nunca faltando à palavra dada ou à promessa feita. Não ofendia, não intrigava, não fazia guerrilhas, nem enveredava por mexeriquices ou confusões. Ocupava-se com a sua vida, com o seu trabalho, com os seus filhos, com os seus problemas e com a sua precária saúde. Isso lhe bastava.

João, com a sua vida e o seu trabalho, apesar de pobre, deixou aos filhos o mais belo testemunho de honestidade, de nobreza de carácter, de dignidade, de singeleza, de correcção e de bons costumes.

Mas o infortúnio havia de o marcar. Para além de ter que se deslocar à Terceira, a fim de ser operado ao estômago, foi acometido de uma estranha e preocupante doença mental por três vezes, sendo que, outras tantas, foi internada na Casa de Saúde de São Rafael, em Angra do Heroísmo. Mas mesmo aí, João foi sempre um modelo de bondade e simplicidade, granjeando a amizade e a simpatia não apenas dos religiosos que ali trabalhavam, mas também e sobretudo dos outros doentes que, como ele, sofriam o infortúnio daquela terrível e desgastante maleita.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 08:43

CAETANO VALADÃO SERPA

Quarta-feira, 15.01.14

O Doutor Caetano Valadão Serpa é uma das mais importantes e prestigiadas figuras fajãgrandenses da actualidade. Nasceu, em 24 de Janeiro de 1936, no lugar da Ponta, sendo seus pais António Serpa e Virgínia Valadão. Fez a escola primária, na altura ainda no Posto Escolar da Ponta e cedo se manifestou um jovem sóbrio, educado, cativante, de grande inteligência e com uma enorme vontade de aprender, pelo que, ainda muito novo, abandonou a ilha das Flores com destino à Terceira, entrando para o Seminário de Angra, em Setembro de 1949, onde estudou durante toda a década de cinquenta e onde foi um aluno exemplar e aplicado, manifestando grande apetência pelo estudo e pela aprendizagem. Terminado o curso de Teologia no início da década de sessenta, mais concretamente, em 1961, a excelência do seu currículo como aluno, no Seminário, fez com que fosse enviado para Roma, pela diocese de Angra, com o objectivo de se formar em História da Igreja, disciplina integrante do currículo disciplinar do Curso de Teologia do Seminário, nessa altura, no entanto sem professor especializado. Enquanto estudante, passava as férias de Verão na Ponta, deslocando-se, com muita frequência à Fajã, onde, irradiando ternura, simpatia e simplicidade, era muito querido, estimado e respeitado por todos.

Assim e em Roma, nos primeiros anos da década de sessenta estudou e licenciou-se em História do Cristianismo e Ética na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e em Teologia na Pontifícia Universidade Lateranense. Depois de visitar muitas outras cidades europeias, abandonou Roma e regressou aos Açores e ao Seminário de Angra, como professor de Teologia e História da Igreja e prefeito dos Teólogos, onde permaneceu apenas durante um ano. Com a sua inesperada e abruta saída, a disciplina de História da Igreja voltava a ser entregue a professores não especializados. Nos anos seguintes leccionou no Seminário Colégio de Ponta Delgada as disciplinas de Língua Portuguesa, Francês e História. Quer em Angra quer em Ponta Delgada, cativou os seus alunos com a sua sabedoria, competência e sobretudo com a sua amizade e simpatia e ainda, porque, no caso do Seminário de Angra trouxe, juntamente com outros professores, uma lufada de “ar fresco” ao ensino tradicionalista da Teologia, da Moral e da História assim como aos métodos pedagógicos que ainda eram utilizados. Em meados dos anos setenta emigrou para os Estados Unidos da América, doutorando-se, anos mais tarde, em Modern European History. Investigador, professor e escritor, especializou-se em Psicologia do Aconselhamento na Lesley  University e em Técnicas de Mediação e de Conflitos na Haward University, Cambridge, MA. É autor de várias obras literárias, entre as quais Gente dos Açores, livro escolhido pelo Congresso Norte Americano para ser um dos primeiros livros editados em braile, Guiomar, obra já traduzida em inglês, Gente sem nome e, mais recentemente, Uma Pessoa só é Pouca Gente, obra “em moldes de ficção literária de perfil biográfico”, “com o objectivo de salientar as limitações e contradições do celibato eclesiástico imposto como condição absoluta para a ordenação sacerdotal”, na Igreja Católica Romana. É colaborador de vários jornais e revistas, orador e conferencista. Actualmente é Presidente da L. & V. Associates, director do “Projecto Família-Educação”, Membro da International  Network of Scholars e foi Presidente da Comissão Organizadora do Primeiro Congresso dos Portugueses na América. Depois da curta experiência como professor nos Açores, continuou a dedicar-se ao ensino nos Estados Unidos, leccionando no Cambridge Rindge & Latin School, Cambridge, MA e no Harrington School. Actualmente é professor de Língua e Cultura Portuguesa na Universidade de Massachusetts e dedica grande parte do seu tempo ao estudo dos problemas relacionados com a emigração. Reside actualmente na cidade americana de Arlington, perto de Boston, no estado de Massachusetts.

Tem visitado com alguma frequência a ilha das Flores e a Fajã Grane e esteve presente no primeiro Encontro de Antigos alunos das décadas 50/60, que teve lugar em Angra no passado mês de Julho, trazendo consigo uma serenidade invulgar, uma excelência de atitudes e uma enorme capacidade de dialogar e de ouvir, agraciando todos com a sua simpatia e amizade, enriquecendo aquele Encontro, de sobremaneira, com a sua presença.

Em texto por ele escrito e publicado recentemente no “Mundo Açoriano”, considerou aquele encontro como um “filme das memórias do passado agora, de certo modo presentes, na companhia de muitos dos seus protagonistas” e ainda “um encontro de pessoas com rica experiência humana e sólida preparação intelectual…” que desde o início, primou pela “alegria do reencontro que transparecia no rosto de todos, vinda bem de dentro proclamando, sinceramente, sentimentos genuínos que o tempo e a distância não tinham conseguido olvidar…” um “mundo de recordações e momentos marcantes, horas de diversos sabores e inolvidáveis experiências que, agora, brotando em catadupa espontânea, tornaram o acontecimento num dos mais felizes de sempre”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 16:58

O MANUEL MANQUINHO

Segunda-feira, 13.01.14

No início da década de cinquenta chegavam, habitualmente, à Fajã Grande muitos baleeiros vindos do Pico e um ou outro do Faial. Geralmente traziam as famílias, fixavam-se na freguesia, alugavam casas e ali permaneciam durante o verão, apenas regressando às suas terras quando a safra baleeira terminava. Alguns voltavam no ano seguinte e um ou outro fixou-se por ali durante anos e anos.

Entre estes experientes baleeiros picoenses que demandavam a freguesia mais ocidental da Europa, geralmente oficiais e trancadores, chegou um vigia. Chamava-se Manuel Caetano da Silva e vinha da Calheta de Nesquim, de onde era natural. Ali nascera em 1924, sendo mais tarde funcionário das Finanças nas Lajes do Pico, onde viveu durante alguns anos. Viveu na Fajã Grande, na companhia da família, alugando a casa que pertencia o José Tomé, paredes meias com a Praça

Na Fajã Grande, Manuel Caetano da Silva, coadjuvado durante muitos anos pelo António Machado, dedicou-se à vigia da baleia, de que era um exímio praticante. Tanto na Fajã, como noutros lugares das Flores e até no Corvo, onde também foi vigia de baleia durante alguns anos, assim como no Pico, Manuel Caetano da Silva era conhecido por “Manuel Manquinho”. A razão de ser deste epíteto devia-se a facto de desde de nascença ser dotado de um grande defeito físico, uma vez que não tinha a parte inferior da sua perna esquerda, a partir do joelho, nem o antebraço do mesmo lado.

Esta deficiência obrigava este homem a que, quando na posição de pé, parecesse que estava de joelhos, uma vez que fixando o coto da perna esquerda no chão, sempre protegido por uma bota adequada, era forçado a ter a perna direita flectida. Esta distorção, pouco funcional quando o homem se deslocava em terreno plano, era-lhe, no entanto, muito útil e prática quando ascendia escadas, degraus ou escaleiras. É que, ao subir, projectava a perna pequena sempre à frente, impulsionando-a com a direita, como se fosse uma mola. Assim subia os degraus da canada do Pico da Vigia com uma destreza e agilidade impressionantes.

Outra característica interessante deste homem que era bastante culto, lia muito, falava inglês correctamente e sabia música, era a agilidade que demonstrava a tocar trompete. Como tinha uma só mão, a direita, era com esta que segurava o instrumento, ao mesmo tempo que com uma agilidade notável dos dedos, accionava os pitões, para emitir os sons. Mesmo só com um braço e metade do outro, colocando o membro inferior diminuído em cima de um banco, o Mestre Manuel Manquinho conseguia reger a filarmónica Senhora da Saúde com mestria e excelência.

Manuel Manquinho, um bom homem, simpático, atencioso, educado, amigo de todos, bom conversador, um grande músico e, sobretudo, um excelente vigia de baleia, apesar da grande deficiência física com que nascera mas que ele sublimara de forma excepcional, transcendente e sublime, conferindo à sua vida, uma alegria contagiante e uma felicidade permanente.

Um grande exemplo de vida, de força, de coragem e de capacidade de ultrapassar os problemas e as deficiências, o deste grande pequeno homem!

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 14:16

O SENHOR ANTÓNIO BARBEIRO

Domingo, 12.01.14

O senhor António Barbeiro morava na Assomada, uns escassos metros a seguir à minha casa, mesmo ali na entrada da Canada do Pico, numa casa de dois andares. O piso superior era destinado à habitação, sendo que no rés-do-chão ou primeiro andar se situava o palheiro das vacas, como era hábito na maioria das casa da Fajã, e, na parte virada a sul, a oficina, de carpinteiro, de relojoeiro, de faz-de-tudo.

Na realidade, o senhor António Barbeiro, no seu tempo, era o que na realidade se poderia considerar um verdadeiro “self-made man”. Tudo o que sabia e conhecia, quer na teoria quer na prática, apreendera-o por si próprio, graças à sua grande inteligência, à sua habilidade natural e à sua capacidade de aprender quer através da sua própria experiência e de muitas leituras que fazia. Por isso mesmo era, incontestavelmente, o homem mais habilidoso e talvez mesmo o mais inteligente e o mais culto da freguesia. Um autêntico prodígio, este senhor.

Para além de também se dedicar à agricultura e de criar uma vaca, a sua ocupação principal era a de relojoeiro, consertando, com uma eficácia desmedida e sabedoria natural, quantos relógios lhe apareciam na oficina. No entanto e porque ao tempo os relógios ainda nem eram muitos, também se dedicava à carpintaria, construindo sobretudo mobílias de sala e de cozinha, à reparação de todo o tipo de máquinas, desde os fogões primus aos moinhos de café e ainda a pintar interiores de casas, colocar vidros nas janelas e agravos em loiça partida, executando todas estas actividades com notável perfeição e competência desmesurada. Também se dedicava à apicultura, possuindo uma boa quantidade de colmeias, num prédio que possuía em frente à sua casa, produzindo mel de excelente qualidade. Para além disso, era uma pessoa extremamente culta, com quem se podia estabelecer um diálogo interessante, sério e enriquecedor sobre qualquer assunto. De tudo falava, tudo conhecia, dominando alguns pormenores do conhecimento científico, dando opiniões, comentando, com humildade e sabedoria, os temas da actualidade que na altura eram conhecidos na Fajã Grande. Para além de ser um grande pensador, lia muito, o que de facto enriquecia a sua cultura.

Enviuvou ainda bastante novo, vivendo na década de cinquenta com os dois filhos mais novos, a Alda e o Orlando, que algum tempo depois partiram para a ilha Terceira e mais tarde para o Canadá. Por essa altura passou a viver na companhia da senhora Ester, com quem casou alguns anos mais tarde, sendo, no entanto, durante muito tempo o pioneiro, na Fajã Grande, das actuais “uniões de facto”.

Também se dedicava ao fabrico de miniaturas de utensílios de uso tradicional, tendo feito, a meu pedido belo tear.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:19

PEDRO CLAUDINO DA SILVEIRA

Sábado, 11.01.14

Pedro Laureano Claudino Mendonça da Silveira nasceu Fajã Grande das Flores, em 7 de Dezembro, de 1870. Era filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira e tio doutro ilustre fajãngrandense o poeta e escritor Pedro da Silveira, notabilizando-se, sobretudo, como jornalista, editor e empresário, na Califórnia.

Pedro Claudino viveu a sua infância na Fajã Grande, onde frequentou o ensino primário, fazendo, em Santa Cruz, o exame final com a elevada classificação de “distinto”. Assim como muitos jovens do seu tempo, zarpou da ilha, na procura do “El Dorado”, da Califórnia, para onde o pai já havia, também, emigrado, na mira de encontrar o poderoso metal – o ouro.

Chegou à Califórnia, com 15 anos de idade, começando a trabalhar em San Francisco, ocupando as horas vagas no estudo da língua inglesa. Alguns anos mais tarde, foi ter com o pai que trabalhava nas minas de ouro no Estado de Oregon e no Norte da Califórnia, nos condados de Siskyou, Del Norte, Humbolt, Trinity e Shasta, entre outros. Como estes condados eram rurais e ainda pouco desenvolvidos, Pedro Laureano, sentindo que ali lhe faltavam os meios para se instruir e por não gostar do trabalho de mineiro, voltou a San Francisco, onde trabalhou em diversos serviços e continuou os estudos nas horas vagas. Aí tirou alguns cursos de ciências e artes, adquirindo os conhecimentos necessários à sua futura vida profissional.

Visitava com frequência diversas empresas jornalísticas californianas, para nelas ler jornais e revistas portuguesas e americanas, chegando mesmo a trabalhar nessas empresas, nelas obtendo bastantes conhecimentos da arte tipográfica. Foi no semanário “A Liberdade” que Pedro Laureano Claudino da Silveira obteve emprego como tipógrafo e colaborador, começando a redigir alguns editoriais e artigos que não só mereceram a aprovação e o elogio do director mas também o bom acolhimento dos leitores do jornal, o que contribuiu, de forma significativa, para aumentar e fortalecer a situação económica desafogada daquele jornal.

Em 1902, Pedro fixou-se na cidade no Fresno, casando em 1903, com Maria V. Nunes, Em 1905, fez a sua primeira tentativa, como proprietário e editor, na fundação de uma revista – “Portugal-América” – que, por falta de recursos, teve vida efémera. Depois desse fracasso, o jovem casal fixou-se em Sacramento, voltando a desempenhar as antigas funções no jornal “A Liberdade”.

 Em 1907, mudou-se para Oakland e passou a trabalhar no jornal “A União Portuguesa”. Para além de um emprego mais seguro e com maiores garantias de acesso, este trabalho exigia, a Pedro Claudino, maiores desafios e responsabilidades. Passados dez anos, com a prática entretanto obtida, resolveu estabelecer-se por sua conta. Assim, adquiriu, em Janeiro de 1917, o “Arauto”, de Oakland e fundou, em San Francisco, o jornal – o “Jornal de Notícias”. Para além de ficar como proprietário, editor e redactor, a sua esposa assumiu a administração daquele jornal. Com imaginação e experiência, o jornal crescia de dia para dia, atingindo um dos pontos mais altos da sua existência quando o mesmo abriu um “Concurso de Beleza das Crianças Portuguesas da Califórnia”. O referido Concurso teve um sucesso excepcional, principalmente devido à vigilância, zelo e organização da esposa. Esta e outras publicações, haviam de fundir-se, mais tarde, no “Jornal Português” que se assumiu como a sua grande obra, já que atingiu uma invulgar expansão junto das comunidades portuguesas espalhadas pelos EUA.

Pedro Claudino faleceu em 28 de Dezembro de 1944, tendo sido um dos últimos grandes obreiros da fundação da imprensa de língua portuguesa na Califórnia. Era admirado, elogiado e distinguido pelo seu carácter exemplar, pela sua honradez e pela sua sinceridade para com todos e por represento a comunidade portuguesa da Califórnia, em comissões de grande responsabilidade

O “Jornal Português”, que ele, habilmente, projectou, não obstante ter passado por um curto período de interrupção, há pouco anos, continuava a ser publicado na Califórnia, em San Pablo, mantendo o nome que o notabilizou.

Pedro Claudino da Silveira entrou na história, não só pelos êxitos da sua persistente luta pela vida e pela cultura, mas também pelo valor literário dos seus escritos e, sobretudo, pela projecção que conseguiu dar à imprensa portuguesa na Califórnia.

 

Fonte - Trigueiro, José Arlindo Armas Trigueiros in “Florentinos que se Distinguiram”, (2004), pp. 119-124, ed. da Câmara Municipal das Lajes das Flores. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 12:36

O COVEIRO

Sexta-feira, 10.01.14

Nos anos cinquenta, a Fajã Grande era terra pequena, teria cerca de oitocentas habitantes, incluindo neste número, também, os moradores dos lugares da Ponta e da Cuada. Isto significa que, naquela altura, morreriam, em média, cerca de seis a dez pessoas por ano. A freguesia, possuía um cemitério, relativamente extenso para tão reduzida população e que estava divido em duas partes: o cemitério de baixo e o de cima. Nos anos cinquenta era neste último que estavam a ser abertas as sepulturas para enterrar os que iam falecendo. Na década seguinte seria o cemitério de baixo a ser utilizado com o mesmo fim.

Como todo e qualquer cemitério, o da Fajã também precisava de um coveiro, tarefa, na altura pouco desejada, porquanto aquele lugar, apesar de sagrado, impunha um certo respeito e metia algum medo, em função de infundadas crenças, mitos e superstições existentes na freguesia, ou até de “estórias” e lendas que se contavam, na altura, sobre a morte e a vida para além desta. Mas a função do coveiro, não se limitava ao abrir e fechar das sepulturas quando falecia alguém. Implicava também o arranjo, a limpeza, a conservação, o asseio e até o embelezamento daquele campo santo e sagrado, onde jaziam os nossos antepassados.

Na Fajã Grande, nos anos cinquenta, o coveiro era o João Augusto, um homem baixo, forte, a rondar os sessenta anos, bondoso, destemido, corajoso, sem medo de nada ou de coisa nenhuma, mas muito simples, bem-intencionado, um pouco inocente no relacionamento com os outros e até nas graçolas que lhe diziam, no gozo que simulavam fazer-lhe ou nas partidas que tentavam pregar-lhe. Como era um homem inocente e sem maldade, por vezes, era vítima da bazófia de alguns mais atrevidotes e malévolos.

O João Augusto morava nas Courelas, logo no início da rua, numa casa a seguir à da senhora Alvina e era pela idade de meu pai de quem também era amigo, porquanto se assemelhavam nos seus feitios e hábitos.

Mas o João Augusto não se dedicava ao ofício de coveiro em termos de exclusividade. Também trabalhava nos campos e criava gado como todos os outros habitantes da freguesia, incluindo aqueles, que desempenhavam outras funções ou disponibilizavam serviços na freguesia, as quais, por si só e com excepção do comércio, não garantiam a sobrevivência de quem a elas se dedicava.

Casou com uma senhora da Ponta e teve quatro filhos; o Ângelo, o Armando, a Maria e a Aldina. As filhas cedo abandonaram a ilha: a Maria para um convento e a Aldina para estudar no Colégio de Santo António, na cidade da Horta. Apenas os filhos ficaram na Fajã trabalhando e ajudando o pai no cultivo dos campos e na criação do gado. Mais tarde contraíram matrimónio. O Ângelo, mais alegre e folgazão, casou com a minha prima Maria do Céu e o Armando, mais pacato e prudente, com uma filha do Francisquinho da Cuada, acabando ambos por emigrar para os Estados Unidos em busca de maior sorte e melhor fortuna.

João Augusto, o coveiro da Fajã, uma figura inesquecível, inquestionável, quase histórica, porque desempenhou aquele importante e significativo cargo na freguesia, durante muitos anos e foi talvez o mais emblemático representante dos coveiros fajãgrandenses de sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 11:19

O JOSÉ AUGUSTO

Quinta-feira, 09.01.14

O José Augusto ou o “José Augusto do Francisco Inácio”, como era vulgarmente conhecido na Fajã Grande, foi, durante um ou dois anos, meu colega de escola, na altura a funcionar na Rua Direita, na Casa do Espírito Santo de Baixo. Mais velho uns anos do que eu, frequentámos o ensino primário em classes diferentes mas, como partilhávamos todos a mesma sala, que neste caso era uma casa, era-nos proporcionada a nós, os mais novos, a oportunidade não apenas de brincar, confraternizar e conviver com os mais velhos mas até de apreciar as suas capacidades de aprendizagem e de observar a performance dos seus percursos escolares e a excelência dos resultados que obtinham. O José Augusto era um aluno muito inteligente, brilhante e aplicado, um dos melhores da escola, aliando à excelência das suas qualidades intelectuais uma bondade excessiva, uma camaradagem contínua e uma amizade abrangente. Era amigo de todos e, alem disso, carinhoso, atento e solidário para com os mais novos.

Fora da escola, sobretudo nas tardes de domingo e dias feriados, tinha também a oportunidade de me juntar e brincar com ele e com muitos outros, uns da minha idade, outros um pouco mais velhos, pela canada do Pico, ao “Pai Velho”, no pátio da Casa do Espírito Santo de Cima ao “Burrinho do Lamé”, na rua Direita à “Pesca à Baleia”, no Outeiro ao “Velhas às Escondidas”, de participar em lutas à pedrada, no Vale do Linho, contra os da Ponta, de tomar banho no Caneiro do Porto, onde aprendíamos a nadar ou ainda de colaborarmos na construção de alguns brinquedos com que nos divertíamos, nomeadamente as célebres “Músicas de Cana”, em cuja construção ele era exímio. Morava na Assomada, numa casa geminada com a do Cabral e era sempre o primeiro, nos domingos entre a Páscoa e o Pentecostes, durante os quais as coroas de Espírito Santo iam à missa, a colocar no seu pátio um altíssimo mastro, onde hasteava uma enorme bandeira branca com o símbolo do Paráclito. Muitos outros, incluindo eu, seguíamos-lhe o exemplo e a maioria das casas da freguesia ornamentavam-se com bandeiras, umas brancas, outras vermelhas, enquanto os foliões da Cuada, acompanhando a coroa e a bandeira, enchiam a Assomada com os seus cânticos: “Ó venha, hoje venha, Senhor venha…” Sobrinho de meu tio Cristiano, por parte da mãe que era irmã da minha tia, encontrava-me também com ele, muitas vezes, em casa do meu tio. Por tudo isso, o José Augusto estabeleceu sempre comigo e talvez ainda mais com meu irmão António, cujas idades eram mais próximas, grande amizade e cumplicidade em termos de jogos e brincadeiras.

O José Augusto cresceu, tornou-se homem, agricultor, pescador, jogador de Futebol do Atlético Clube Fajãgrandense, músico da Filarmónica Senhor da Saúde e cantor a Capela da Paróquia, dedicando-se, ainda, a muitas outras actividades. Finalmente casou e passou a viver, ali à Praça, na casa que outrora fora do seu Tio Antonino. Homem honesto e trabalhador, cidadão honrado e digno, membro activo e participante quer nas vivências quer nas actividades da freguesia e da paróquia, o José Augusto emergiu como uma das importantes figuras da Fajã Grande, contribuindo significativamente para o seu crescimento e desenvolvimento, nas décadas posteriores aos anos cinquenta, em que o conheci e com ele convivi, enquanto criança.

Infelizmente o infortúnio, feroz, violento, fulminante e cruel, havia de o atingir. O José Augusto, ainda muito novo, faleceu vítima de um acidente marítimo, quando se encontrava, juntamente com um familiar, a apanhar lapas no Monchique.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:31

O ALFERES ANDRÉ FRAGA MENDONÇA (1677-1750)

Terça-feira, 07.01.14

O Alferes André Fraga nasceu no lugar da Fajazinha, na freguesia das Fajãs em 1677, ou seja precisamente um ano depois de aquela freguesia ter sido criada e faleceu com 73 anos, em 12 de Fevereiro de 1750. Foi casado com Bárbara de Freitas e era sobrinho do padre André Álvares de Mendonça que foi o primeiro pároco da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios das Fajãs, com sede na igreja paroquial na Fajazinha.

Na sua qualidade de alferes, muito provavelmente terá comandado algum dos vários fortes existentes na costa Oeste da ilha das Flores, nomeadamente nalgum dos sediados nas orlas costeiras da Fajã Grande e da Fajãzinha, entre os quais o Castelo da Ponta, o Vale do Linho, a Castelhana, o Estaleiro ou o Portal da Rocha, já na Fajãzinha. Este alferes terá sido uma personagem muito importante e bastante respeitada no seu tempo, una vez que, com apenas vinte e nove anos, foi uma das personalidades escolhidas, juntamente com a esposa, para integrar o grupo de “fregueses” que acompanhados pelo seu tio e vigário da paróquia das Fajãs, André Alves de Mendonça, em 1705, solicitaram ao bispo diocesano, D. António Vieira Leitão, autorização para colocar o sacrário para guardar o Santíssimo, na primitiva igreja da paróquia construída havia já trinta anos. Foi ele e os restantes elementos da comitiva que se prontificaram para oferecer anualmente o dote necessário para a aquisição doo azeite da lâmpada, para as velas e outros acessórios indispensáveis à manutenção do Santíssimo Sacramento na primitiva igreja da paróquia das Fajãs.

Na orla costeira da ilha das Flores, nos seculos XVII, XVIII e XIX existiram sempre vários fortes, ocupados por militares, à frente dos quais estavam oficiais de patente superior ou seja capitães, tenentes ou alferes. Estes fortes e as companhias que os ocupavam tinham como missão principal defender a ilha dos ataques e assaltos de piratas e corsários, muito frequentes nessa altura.

O Alferes André Fraga era pai de Maria de Freitas, primeira mulher de Manuel Lourenço, casados na igreja da Fajãzinha, em 8 de Setembro de 1723, falecida bastante nova. Era pai, também, de Isabel de Freitas casada com um irmão deste, de nome Bartolomeu Lourenço, ambos filhos de António Lourenço e de Maria de Freitas. Foi bisavô do tenente Bartolomeu Lourenço Fagundes que também comandou alguns dos fortes que existiam na Fajã Grande.

Imitando, anacronicamente, a narração da genealogia de Jesus Cristo, por São Mateus e que vem transcrita no primeiro capítulo do seu evangelho, poder-se-á ter a quase blasfema ousadia de dizer que André casado com Bárbara gerou Isabel, Isabel casada com Bartolomeu gerou Catarina, Catarina casada com António gerou Bartolomeu, Bartolomeu casado com Ana gerou Manuel, Manuel casado com Clara gerou Bartolomeu, Bartolomeu casado com Maria gerou José, José casado com Maria da Conceição gerou José, José casado com Joaquina gerou Angelina que casou com João e teve seis filhos, dos quais um é o autor destas linhas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:37

A VIZINHA GLÓRIA JACOB

Sexta-feira, 03.01.14

Para mim e para meus irmãos, que passávamos uma boa parte do dia na casa da minha avó materna, na Fontinha, os vizinhos dos meus avós também eram nossos vizinhos ou, pelo menos, assim os tratávamos. Curiosamente, eles também nos consideravam como tal. Não havia dúvida de que naqueles recuados tempos, o facto de as pessoas se tratarem por vizinhos, parecia que mais as agregava e mais as unia, conferindo-lhes uma maior disponibilidade para cultivarem mais acentuadamente uma boa dose de amizade recíproca.

Entre os vizinhos da minha avó, no entanto, havia uma senhora por quem eu tinha uma consideração, um respeito e uma amizade muito especial. Era a vizinha Glória Jacob. Este meu enlevo por ela, no entanto, não se devia, apenas, ao facto de ela ser minha vizinha, nem sequer por ela ser uma vizinha especial, ou seja, uma vizinha melhor do que as outras vizinhas, nada disso, mas simplesmente por que, segundo rezavam as crónicas da altura, fora ela que ajudara a minha mãe durante o meu nascimento, por outras palavras, fora a minha parteira.

Curiosamente eu decidi – se é que somos nós a deliberar estes momentos especiais da nossa vida – que havia de nascer no dia de Páscoa, altura em que a parteira “oficial” da freguesia, a senhora Mariquinhas do Carmo, se havia ausentado da Fajã Grande. Minha mãe, minha avó e minhas tias em grande aflição. Como havia eu de saltar cá para fora sem uma parteira experiente e credenciada, que ajudasse a minha mãe? Pois a vizinha Glória Jacob, destemida e valente que era, logo se prontificou para resolver o imbróglio, “assumindo o comando e chefia das operações”. Pelos vistos, fê-lo com mestria, competência e assinalável êxito, dado que dois dias depois, já passeava eu, na rua Direita, é verdade que ao colo da minha madrinha, na demanda do Baptismo. E assim a minha vizinha Glória Jacob granjeou fama e mereceu para sempre o reconhecimento da minha família e, mais tarde a minha consideração e amizade.

A minha vizinha Glória Jacob era, na realidade, uma mulher muito forte, trabalhadeira, possuidora de grande energia, executando todo o tipo de tarefas, não apenas as domésticas mas também as dos campos, acompanhando o marido, o senhor João Bizarro em todos os trabalhos agrícolas: cavar, lavrar, sachar, ceifar feitos e cortar lenha. Carregava molhos pesadíssimos às costas como se fosse um homem e era ela que muitas vezes tirava o esterco do palheiro do gado, também contíguo à casa da minha avó.

Teve quatro filhos, dois rapazes, o José e o João ambos eles, também, robustos, fortes e valentes, homens de muito trabalho, que mais tarde emigraram para o Canadá. As duas filhas, a Leonor e a Adelaide também sempre a ajudar a mãe nas lides do campo e sobretudo nos trabalhos domésticos.

Muitas vezes escapulia da casa da minha avó, descia a pequena ladeira que as separava e ia ter à casa da vizinha Glória Jacob, que sempre me recebia com muito carinho e amizade, outras vezes ficava sentado num pequeno pátio, altaneiro e voltado para o mar, sobranceiro à casa da minha vizinha e ficava a observá-la no seu vai e vem contínuo e permanente, de casa para a rua e da rua para casa, a lavar roupa, a secar milho, a varrer os pátios, a arrumar a casa, a tratar dos porcos ou, de latas em punho, a ir tirar o leite às vacas.

Creio mesmo que a minha vizinha Glória Jacob tinha um especial carinho por mim, uma vez que era eu que de alguma forma configurava toda aquela força, pujança, coragem e determinação que ela possuía e que havia demonstrado heroicamente a quando do meu nascimento.

Um pormenor muito interessante tinha a sua casa. A porta da cozinha era muito diferente das habituais portas das casas da Fajã Grande. Era uma porta de fero, pintada de cinzento, tendo apenas um pequeno vidro rectangular, na parte superior. Dizia-se que aquela porta tinha pertencido ao paquete inglês Slavónia, naufragado por fora da Costa do Lajedo, no dia 10 de Junho de 1909.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 14:11

O PADRE CAMÕES

Quinta-feira, 02.01.14

José António Camões nasceu na freguesia das Fajãs, na ilha das Flores em 13 de Dezembro de 1777, tendo falecido em Ponta Delgada, na mesma ilha, em 18 de Janeiro de 1827. Para além de sacerdote foi examinador eclesiástico, professor régio, poeta e historiógrafo, sendo autor de várias obras de cariz satírico, muitas delas em verso: O Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, Os Sete Pecados Mortais e Relatório das Cousas mais Notáveis que Havião nas Flores e no Corvo.

Filho de pai incógnito e de mãe de ascendência corvina, foi enjeitado, isto é exposto e abandonado à caridade pública, sendo registado simplesmente com o nome de José. Passou parte da sua difícil infância no Corvo, chegando a passar fome. Aquando de uma visita de frei Manuel de São Domingos ao Corvo, seu pai putativo, fez-se encontradiço com ele, tendo-o acompanhado, como estudante, para o convento de São Boaventura, em Santa Cruz das Flores, onde estudou. Mais tarde, abandonou o convento e foi servir para casa de lavradores na Fajãzinha. Em 1797, regressou a Santa Cruz, já como professor particular de latim em Santa Cruz. Algum tempo depois, partiu para Angra, para estudar, albergando-se no convento de S. Francisco daquela cidade. Sendo enjeitado, como não tinha nome de família, adoptou o sobrenome “Camões”, passando a chamar-se José António de Camões. A escolha do nome foi certamente inspirada pela sua admiração pelo poeta. Dispensado do “defectum natálium”, foi ordenado sacerdote a 20 de Outubro de 1804, tendo sido nomeado professor régio de gramática latina na ilha das Flores. Assim fixou-se, novamente, em Santa Cruz, ensinando e exercendo o sacerdócio, tendo grande sucesso no ensino do latim, atraindo às Flores estudantes do Corvo e do Faial. Contudo, em 1807 é nomeado vigário de Ponta Delgada das Flores, onde passa a residir, mantendo, no entanto, a docência como professor particular.

O brilhantismo de José António Camões e o seu domínio da escrita, numa ilha onde a maioria do clero era quase iletrada, criaram condições para uma rápida ascensão na carreira eclesiástica. Tal ascensão, no entanto, não foi bem aceite na ilha, em particular pelo clero, face ao grave defeito de nascimento que representava a sua condição de enjeitado. Por isso e pela contestação de que era vítima e face à inveja do clero, escreveu, em 1812 ou 1813, uma sátira, em prosa e verso, intitulada os Sete Pecados Mortais, onde desanca forte e feio no clero das Flores e do Corvo, que o haviam rejeitado como ouvidor eclesiástico d'estas duas ilhas.

Em data anterior, escreveu também o Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, um escrito de carácter aparentemente autobiográfico, onde ajusta contas com os que o discriminaram e maltrataram quando criança e jovem "enjeitado". Aparentemente descrevendo eventos da sua infância e juventude, enxovalha alguns dos nomes mais sonantes da sociedade florense, de então, com particular relevo para o clero. Os seus escritos são enviados ao cabido de Angra, uma vez que a sede da diocese estava vacante já que o bispo, D. José Pegado de Azevedo, falecera a 19 de Junho de 1812. O cabido diocesano angrense exonera-o do cargo de ouvidor e suspende-o da vigariaria de Ponta Delgada. Chamado a Angra, foi pronunciado e acusado de injuriar a Mesa Capitular, sendo, contudo, absolvido, depois de ter passado por um humilhante julgamento.

Apesar da absolvição, a mandado do cabido, teve de responder perante os qualificadores do Santo Ofício, por se afirmar que nos seus escritos havia matéria de censura contra a disciplina e dogma da Igreja. A acusação foi julgada também improcedente, mas, no entanto, o cabido recusou-se a permitir a sua reintegração nos cargos de que fora suspenso.

Depois de muitas infrutíferas tentativas a fim de obter a reintegração na vigariaria de Ponta Delgada, abandonado por quase todos e odiado pela classe dominante das Flores, acaba por solicitar ao Capitão General a sua nomeação como professor régio da cadeira de gramática latina de Santa Cruz das Flores. Em 1815 regressa ao ensino da gramática latina em Santa Cruz, permanecendo nessa função, apesar da oposição do cabido de Angra, da Câmara de Santa Cruz e das forças vivas da ilha, até pelo menos 1822, cinco anos antes do seu falecimento.

Caído em desgraça, sem amigos e com escassos alunos, vivendo da esmola da missa e de algum sermão que escrevia para os colegas, atravessou grandes dificuldades, nos últimos cinco anos de vida, chegando, novamente, a passar fome. Faleceu em Ponta Delgada das Flores, com apenas 49 anos de idade, a 18 de Janeiro de 1827.

As suas obras apenas foram impressas postumamente: o Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos, em 1865, em Boston, e os Pecados Mortais em 1883, em Lisboa. Alguns sonetos apareceram no Jorgense e noutra imprensa, mas anos mais tarde

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:21

JOSÉ EDUARDO

Sexta-feira, 20.12.13

A meio da Fontinha, no cimo de uma pequena ladeira, a seguir à Fonte Velha e quase anexa ao palheiro do meu avô, situava-se uma casa onde vivia, na companhia de uma irmã, um homem muito pobre e doente, chamado José Eduardo.

O exterior da casa, embora despido de cal e em pedra negra e solta, tinha um aspecto aparentemente solene, altiva e imponente na sua arquitectura e, além disso, era de dois andares. Mas o interior era muito pobre, desabrido e radicalmente despojado das mais simples e elementares condições de habitabilidade. José Eduardo e a irmã ocupavam o piso superior, com apenas duas divisões: uma cozinha e uma sala que também servia de quarto de cama aos dois irmãos. A cozinha terrivelmente escura, comunicava com a luz e o ar do exterior, apenas por uma pequena janela, com alguns vidros partidos e uma porta, toda de madeira, frente à qual havia uma escadaria de pedra que ligava a única saída de casa ao caminho. De resto, um lar revestido de tisna, onde pontificavam uns caldeiros negros de carvão, assentes sobre umas grelhas de tufo a bambalear e o forno, que apenas era utilizado para arrumos. A mobília, pobre e a desfazer-se, era constituída por uma mesa, dois ou três bancos e um pequeno armário em que as portas eram uns panos escuros e ensebados, onde guardavam os pratos, as tigelas, algumas garrafas vazias e outros utensílios. O soalho da cozinha, assim com o da sala, embora de madeira, estava esburacado e remendado com tiras de caixotes de sabão, aqui e além. A lenha era pouca, mas estava muito arrumada e empilhada de baixo do lar. A cozinha dava para a sala, por uma porta desengonçada que quase mal abria ou fechava. Era na sala que se sentavam à noite, à luz duma candeia alimentada a enxúndia de galinha, José Eduardo à espera do sono e a irmã a remendar uma outra peça de roupa ou a tricotar lã para fazer um par de meias. Era na sala também que estavam duas barras, sendo que uma delas, onde dormia a irmã, estava isolada do resto da sala por um lençol branco, preso aos tirantes. O piso inferior, outrora palheiro de gado, tinha apenas a função de nitreira, com uma caneca de madeira num dos cantos.

José Eduardo era um homem de avançada idade e diabético, pelo que já não podia nem conseguia trabalhar. Era a irmã, mais nova dois ou três anos, mas mais rija e robusta, que ia buscar umas pequenas gavelas de lenha e que trabalhava os poucos campos que tinham e que, embora parcamente, lhe iam garantindo uma mísera subsistência, juntamente com a esmola que um ou outro vizinho lhes dava. Parentes que os ajudassem, não os tinham e se outros havia não se interessavam por eles, nem os ajudavam, que permaneciam ali, sós, cercados de miséria, de limitações, de falta de tudo. Enquanto a irmã atarefada nas lides dos campos ou nos afazeres de casa, José Eduardo, amparado a uma bengala, descia a Fontinha vagarosa e lentamente, parando vezes sem conta para descansar. Vinha sentar-se à Praça, para dar dois dedos de conversa com os da sua idade, para recordar tempos de outrora e para gozar o único prazer que lhe era dado usufruir, naquele seu mundo de miséria, de dor, de sofrimento, de limitações e de ausências: mascar tabaco. José Eduardo era dos poucos homens que na Fajã Grande, no início da década de cinquenta, ainda mascavam tabaco. Para além do embrulho do tabaco, pronto a mastigar, enfiado num bolso, José Eduardo trazia sempre consigo, no outro bolso, um frasquinho de bicarbonato de sódio, o único “remédio” que tomava para fazer face aos males de que padecia, frutos da insuficiência renal que os diabetes lhe haviam causado.

José Eduardo era um homem simples, bom, educado, honesto e humilde. Não se metia na vida dos outros, não ofendia ninguém, não intrigava, nem enveredava por mexeriquices ou confusões. Ocupava-se com a sua vida, coma sua doença e com os seus problemas que não eram poucos. Por vezes, não tendo com quem conversar ficava sozinho à Praça, sentada na banqueta da empena da loja do Senhor Roberto, com a bengala entre as pernas, as mãos pousadas sobre os joelhos, pensativo, muito pensativo.

Curiosamente e porque nasceu e viveu pobre, nunca tendo apoio médico na doença, nem sequer a alimentação mais adequada, este homem, na Fajã Grande, nunca foi tratado por “senhor”, nem se quer por “Ti”, uma simpática e meiga forma de tratar e respeitar os homens mais velhos, os homens da idade de José Eduardo, mas talvez e apenas os que tinham sido mais bafejados pela sorte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:38

O PADRE CARDOSO

Sábado, 14.12.13

António Augusto Cardoso, o padre Cardoso, como era carinhosamente conhecido e tratado, pelos seus conterrâneos, na Fajã Grande e no pelos seus paroquianos na ilha do Faial, era filho de António Augusto Cardoso e de Maria Augusta Fagundes Cardoso, e nasceu na Fajã Grande, numa das últimas casas da Rua da Via d’Água, no dia 7 de Maio de 1921. Cresceu e fez os seus estudos primários na Fajã Grande, tendo-se revelado, desde cedo, uma criança com uma inteligência e uma memória notáveis. Assim e apesar das dificuldades económicas dos pais, semelhantes às da maioria dos casais da Fajã Grande, na altura, foi enviado para o Seminário de Angra, com apenas dez anos de idade. Naquela prestigiosa instituição de ensino açoriana, fez os estudos primários durante cinco anos, estudou Filosofia e cursou Teologia durante mais sete, terminando a sua formação académica e eclesiástica em Junho de 1943. Aguardando algum tempo, por falta de idade, ordenou-se sacerdote em 8 de Dezembro de 1943, dia da Imaculada Conceição, celebrando a “missa nova”, na igreja paroquial da Fajã Grande, em 18 de Fevereiro do ano seguinte.

O jovem padre António Cardoso, um dos mais ilustres filhos da Fajã Grande, iniciou a sua actividade sacerdotal como vigário coadjutor na paróquia das Angústias, na cidade da Horta, ilha do Faial, sendo algum tempo depois nomeado, agora como pároco, para a freguesia da Paria do Norte e transferido, alguns anos mais tarde, para a freguesia do Capelo, ambas também na ilha do Faial. Em 1955, substituindo o velhinho padre Moniz Madruga, foi nomeado pároco da Feteira, na mesma ilha açoriana, freguesia que paroquiou e onde viveu até à sua morte, onde ainda hoje muito recordado, tendo-lhe sido prestada uma homenagem no jornal “O Feteirense”, propriedade da Junta de Freguesia, na sua edição de 25 de Agosto de 2008.

Considerado como um distinto orador e um sacerdote extremamente dedicado aos seus paroquianos, o padre Cardoso acompanhou e empenhou-se sempre no desenvolvimento das paróquias que lhe foram confiadas, muito especialmente da Feteira, onde paroquiou durante quase toda a sua vida, não apenas no aspecto religioso, mas também na componente humana e social. Apesar de visitar muito raramente a sua terra natal, sobretudo depois da morte dos pais, na Fajã Grande era muito estimado e respeitado por todos, convivendo com os seus conterrâneos, sempre com um espírito muito cordial, alegre e folgazão.

Era irmão do Padre Luís Cardoso, recentemente falecido nos Estados Unidos tendo mais alguns irmãos residentes, na década de cinquenta, na Fajã Grande: o Francisco, o Antonino, o José, o João e a Maria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 19:21

NA FLOR DAIDADE

Sexta-feira, 13.12.13

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e nas anteriores, as condições de vida da população não eram as melhores.  Pelo contrário, eram bastante limitadas. Por um lado, uma alimentação desequilibrada, pouco variada e condicionado por aquilo que se possuía e pelo que as terras produziam e, por outro, pelo trabalho duro, cansativo, demolidor, excessivo e fatigante, agravado por limitadas condições de higiene e de saúde e pela falta, total e absoluta, de apoio e acompanhamento médico.

Embora não havendo nenhum estudo rigoroso feito sobre o tema, sabe-se que a taxa de mortalidade, naquela altura, era muito alta e atingia pessoas de todas as classes etárias: crianças, jovens, adultos e idosos.

Os idosos eram, obviamente, o grupo etário mais atingido, com a agravante de a esperança média de vida ser muito baixa, sobretudo no que aos homens dizia respeito. Na realidade, na década de cinquenta, o número de mulheres viúvas existente na Fajã Grande, era bastante elevado, tendo a viuvez feminina adquirido uma espécie de “estatuto” próprio e autónomo, conquistado pela mulher, o que se evidenciava pelo facto das viúvas serem tratadas, mesmo oficialmente, não pelo seu próprio nome, mas por “a viúva de fulano de tal”. Por sua vez, as crianças, sobretudo as recém-nascidas, eram outro grupo etário no qual a mortalidade também era bastante alta. Mas, lamentavelmente, também faleciam, inesperadamente, adultos e jovens, nomeadamente raparigas, embora em ambas estas faixas etárias a mortalidade, na Fajã Grande, fosse bastante mais reduzida.

Foi precisamente, na década de cinquenta, que se verificaram, na Fajã Grande, três mortes inesperadas que deixaram toda a freguesia numa trágica, medonha e hedionda dor: a Joana de Ti Britsa, a Lucília do António Maria e a Clara do Mateus Felizardo, sendo que as duas primeiras eram primas da minha mãe, enquanto o pai da Clara era um dos grandes amigos do meu.

A Joana, filha de Ti António Britsa, morava com os pais na penúltima casa da Fontinha, mesmo ali ao lado do segundo chafariz. Era uma menina duma ternura imensa, duma bondade imensurável e duma generosidade excessiva, creio mesmo que até se notabilizou pela sua actividade como catequista. Cabelos compridos e sedosos, óculos a ensombrar-lhe o rosto tristonho, muito de casa, muito frágil, muito educada e muito sorridente. Para além dos pais deixou imersos em dor e amarrados à saudade dois irmãos, quatro irmãs, muitos parentes e muitas amigas.

A Lucília, creio que era este o seu nome, filha de António Maria, pelo contrário, morava nas primeiras casas da Via de Água, mesmo ali à boca da Tronqueira, à esquerda de quem descia aquela artéria. Era uma menina muito alegre e generosa, dedicada a tudo e a todos, sempre disposta a participar em festas e jogos. Morena, cabelos muito negros, um sorriso contagiante a efluir-lhe permanentemente do rosto. Ficaram a chorá-la, a envolver-se na saudade e recordar, para sempre, a sua memória os seus pais, um irmão, os parentes e muitas jovens da sua idade.

A Clara do Mateus Felizardo que morava na rua Direita, numa casa mesmo em frente à igreja paroquial, era destas três desditosas jovens, aquela cuja idade se aproximava mais da minha e, consequentemente, a que melhor recordo. Muito branca de rosto, olhos claros, cabelos loiros e encaracolados, postava-se à janela da sua casa, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre amiga e sempre generosa, num salutar contubérnio com todos os que por ali passavam. O seu rosto, meigo e sereno, emanava uma blandícia sublime, uma ternura indelével e uma meiguice inquestionável. Deixou na maior dor e sofrimento, para além dos seus pais, três irmãs e um irmão, muitos parentes e também muitas amigas.

Joana, Lucília e Clara três jovens alegres, generosas, a sonharem com o futuro, com a felicidade e que a morte, fatídica e cruel, inexplicavelmente, levou, como se dizia na altura, “na flor da idade”, deixando na maior dor e numa saudade eterna e infinita os seus familiares, os seus amigos e toda a população da Fajã Grande.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 11:45

À MEMÓRIA DE MEU PAI

Quinta-feira, 12.12.13

Abrias as portas da madrugada, ainda o Sol não havia nascido

E caminhavas por entre brumas e nevões,

Ao frio, à chuva, ao vento e às tempestades,

Cordas à cinta, enxada às costas, machado ao ombro, foice na mão.

Carregavas, molhos, cestos, sacos… tudo.

Trazias às costas o peso do mundo!

E ao chegar a casa, já noite escura, como recompensa

Tinhas um pedaço de pão, uma tigela de leite ou um caldo de couve.

 

Um dia chegou o infortúnio, a incerteza, a consumição, a desgraça.

Destruíram-te, aniquilaram-te, desfizeram-te

E, por fim,

Levaram-te ao calvário e conduziram-te à morte.

Obrigado pai, por tudo o que fizeste e sofreste por nós.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 19:13

TI MALVINA

Quinta-feira, 12.12.13

Francisco Fagundes da Silveira, mais conhecido popularmente na Fajã Grande por “Ti Malvina”, nasceu no longínquo ano de 1892, no condado de Siskiyou, no norte da Califórnia, um dos maiores condados daquele estado norte-americano mas, naquela altura, um dos mais pequenos em população. Fundado em 1858, o condado de Siskiyou já na altura fazia jus de grande prosperidade. Tinha fronteira a norte com o estado do Origan, a leste com o Condado de Del Norte, a Sul com o Trinity e o Shasta e a Oeste com o Modos. Aí nasceu Francisco e uma irmã mais nova, chamada Maria do Céu, esta em 1895. Foram seus pais José Fagundes da Silveira e Maria da Conceição Henriques, casados na Fajã Grande em 1880, pouco tempo depois de José regressar da sua primeira estadia na Califórnia. Desse casamento resultaram cinco filhos, tendo os três mais velhos nascido na Fajã Grande, um dos quais foi meu avô materno. Descontente com a vida precária da ilha e sonhando com algo de melhor para os filhos, José resolveu regressar novamente à Califórnia, juntamente com a mulher grávida de algumas semanas e os filhos ainda pequeninos. Nesta segunda viagem dirigiu-se para o norte e foi nessa altura que se fixou no novo e promissor condado de Siskiyou, onde comprou terras e gado e onde nasceram os dois filhos mais novos deste seu primeiro casamento. Alguns anos mais tarde e devido à doença da esposa, José regressou aos Açores juntamente com a família, incluindo o jovem Francisco, que anos mais tarde casou com Malvina da Silveira, razão porque veio a granjear o epíteto de “Francisco Malvina”, por abreviação de “Francisco da Malvina” e nos últimos anos de vida simplesmente “Ti Malvina”. Curiosamente quase todos os seus filhos, Maria, Lídia, José. Minerva, João Floripes e Teresinha, haviam também de adoptar o apelido de “Malvina”

Rezam as crónicas que Francisco era um homem muito inteligente, com uma memória fabulosa, com grande capacidade de aprendizagem e uma vontade enorme de saber e conhecer. Por isso lia, estudava, investigava e sabia. Era considerado o homem mais sábio da Fajã Grande. Um dos mais notáveis episódios em que Ti Malvina revelou a sua sabedoria e o seu profundo conhecimento, superando o pároco, os professores e o médico, foi o da Aurora Boreal, estranho fenómeno que aterrorizou toda a população da Fajã Grande e que durante anos e anos persistiu na memória de quantos o presenciaram. A Aurora Boreal terá aparecido, na Fajã Grande, ao fim da tarde de um dia de Verão, nos finais dos anos trinta ou início dos anos quarenta e assustou de maneira assombrosa toda a população da freguesia que considerava aquele fenómeno como sobrenatural, cuidando que era um sinal divino, a anunciar que chegara o fim do Mundo e o Juízo Final. Foi Ti Malvina que se insurgiu contra a sobrenaturalidade de um fenómeno do qual tinha a certeza e sabia que era perfeitamente natural, embora pouco vulgar naquelas paragens do globo terrestre e que não traria rigorosamente nenhum mal a quem quer que fosse, nem muito menos seria o fim do mundo ou o fim ou princípio de outra coisa qualquer, pois era simplesmente uma Aurora Boreal. O povo rejeitou radicalmente as informações e os conhecimentos de Ti’Malvina, considerando-o um herege e um ateu.

Outro facto que revela a sabedoria, o conhecimento e sagacidade de pensamento de Ti Malvina, foi o de ele, nas primeiras décadas do século XX, sentado numa simples cadeira da sua rústica cozinha, ter previsto que um dia o mundo “havia de nos entrar pela casa dentro, através duma pequena janela”, imaginando assim o que mais tarde veio a acontecer: a invenção da televisão.

Para além de sábio, Ti Malvina também era uma pessoa dotada para a realização de todos os tipos de actividades e experiências relacionadas com o universo. Ti Malvina explicava os eclipses, as fases da lua, a esfericidade da terra e conhecia muitos postulados científicos.

Francisco Fagundes da Silveira, um homem que se tivesse tido a oportunidade de ter estudado e frequentado universidades portuguesas, europeias ou americanas, muito provavelmente teria inscrito o seu nome entre a plêiade de cientistas portugueses e estaria entre os grandes vultos da história da cultura açoriana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:42

MÃE CORAGEM

Sábado, 07.12.13

Meu avô era um pequeno médio lavrador. Tinha duas vacas leiteiras, um junta de gueixos para a canga, algumas terras de milho, outras tantas de mato e várias relvas. No Mato tinha a relva do Queiroal, onde, no Verão, soltava o gado alfeiro e, ali logo no cimo da Rocha, a terra do Bracéu. Bem precisava ele, pois, de braços fortes para o ajudar nas lides dos campos, nas tarefas agrícolas e no arranjo e trato do gado. Os primeiros rebentos nasceram meninas e os rapazes, na sua maioria, vieram mais tarde. Umas e outros, no entanto, iam-se escapulindo e zarpando para a América, para o convento e até, no caso dos rapazes, para a tropa. Para o ajudar no trabalho agrícola, ficou uma das primeiras filhas, Angelina de seu nome, que, mais tarde, foi minha mãe. Angelina nascera forte, robusta e saudável e logo se tornou jovem moçoila, valente, trabalhadeira e afoita. Depressa se havia de lhe traçar o destino. Assentava-lhe tão bem o trabalho árduo e duro dos campos, a ele se adaptando com mestria e dedicação. Enquanto o Sol lhe ia tornando trigueiro o rosto e o cabo da enxada lhe calejava as mãos, lá ia ela, dia após dia, à chuva, ao vento e às tempestades, pés descalços, foice ao ombro, rodilha à cabeça, aguilhada na mão, calcorreando atalhos e veredas, saltando grotas e tapumes, perfurando madrugadas cinzentas e nevoeiros obnubilados. Tanto sachava milho na Bandeja como ceifava erva na Figueira, tão facilmente carregava à cabeça cestos de batatas e de inhames, como se agarrava-se à rabiça do arado abrindo sulcos profundos, revirando e desfazendo as leivas enrijecidas, tão bem sachava, mondava e quebrava espiga, como rachava lenha e a empilhava ordenadamente debaixo do lar da cozinha. Subia a Rocha sem lhe contar as voltas e, ainda noite escura, e no regresso da ceifa da Alagoinha vergava-se sob os pesados molhos de lenha do Cabeço da Rocha. Soltava os bois da manjedoura e atrelava-lhes o corsão ou o arado, ordenhava as vacas, tirava-lhes o estrume e levava-as ao pasto. Desempenhava todas tarefas agrícolas com perfeição, sabedoria e nobreza, carregando, sem queixumes, sobre a rodilha ou sobre os ombros, o peso inequívoco dos produtos das colheitas agrícolas.

Trabalho digno, honrado, humilde, verdadeiro e empenhado o seu.

Conta-se que certa tarde foi com meu avô às batatas-doces para o cerrado das Furnas. Cortaram a rama, cavaram a terra, sacudiram as batatas e limparam-nas de forma a encher um grande cesto, que a família era muita. Voltaram: ele atrás com o molho da rama; ela à frente, descalça, formosa e segura, de tez morena e bochechas bem avermelhadas, a respingar suores e a arfar cansaço, com um enorme e pesadíssimo cesto à cabeça, bem acaculado e a abarrotar de batatas-doces. Subiu a rua Nova, atravessou as Courelas, entrou na rua Direita e aproximou-se da Praça, onde muitos homens ali se tinham sentado, passando a tarde inteira a descansar, a falquejar, a tagarelar, a comentar, a gozar e, pior ainda, a injuriar, a difamar e a meterem-se na vida alheia.

Ao vê-la com tal carrego à cabeça, logo se insurgiram com ditos e palavras que punham em causa a veracidade do que trazia no cesto. Que era bazófia! Que não podia com um gato pendurado pelo rabo, muito menos um cesto tão cheio de batatas-doces.

As insinuações transformaram-se em desconfiança e esta em descrédito. Que aquilo não era tudo batatas. Que para mostrar que era forte, de certo enchera o cesto, por baixo, com a rama leve e apenas lhe colocara duas dúzias de batatas no cimo, para disfarçar. Aldrabona! Trapaceira! Mentirosa! Bem enganava as mulheres, mas a eles, homens rijos e valentes, discretos e trabalhadores, é que não!

Angelina, indignada com tamanha injustiça e tão desmesurada aleivosia, não se conteve, nem esteve com meias medidas e vai disto: aproximou-se dos sacripantas e, perante o espanto e espasmo de todos, chapou-lhes com o cesto das batatas mesmo ali, no meio da Praça, em frente às ventas de tão injustos difamadores.

Ah! Grande mãe! Que coragem!

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 23:59

A SENHORA MARIQUINHAS DO CARMO

Sexta-feira, 06.12.13

Maria do Carmo Ramos Fagundes de seu nome, popularmente conhecida pela Senhora Mariquinhas do Carmo, nasceu na Fajã Grande das Flores, no dia oito de Agosto de 1903. Morava numa casa da Rua Direita, a que se tinha acesso por uma longa canada que existia junto à empena sul da Casa do Espírito Santo de Baixo, ao lado de um chafariz e do portão de entrada para casa do Gil e que se situava bem longe da principal e mais importante artéria da freguesia, lá para os lados da Rua Nova, paredes meias com o cemitério. Era casada, em segundas núpcias, com o senhor António Lourenço, do qual tinha três filhos, mas fora casada, uma primeira vez, com o senhor Lucindo Pureza, irmão do José Pureza e da senhora Josefina Greves, o qual faleceu bastante novo e, deste casamento, teve também uma filha. Enviuvou ainda muito nova. Curiosamente o segundo marido também era viúvo e pai de um filho, pois havia casado, inicialmente, com uma filha de tia Gonçalves que morava na Fontinha, ao lado da casa de tia Manceba.

Para além de irradiar uma simpatia contagiante, uma delicadeza desmesurada e uma dignidade incomensurável, o que mais caracterizava esta senhora, para além de uma excelente dona de casa e de uma mãe dedicada e esposa extremosa, era a disponibilidade, o espírito de ajuda e o carinho que dispunha para com todos os que, indiscriminadamente, lhe batiam à porta, a procuravam e lhe pediam auxílio, sobretudo para sarar maleitas e curar doenças. Na realidade a senhora Mariquinhas do Carmo disponibilizava, diariamente, os seus préstimos, as suas capacidades e as suas competência ajudando as parturientes, durante os partos, acompanhando-as nos dias seguintes e dando banho aos bebés, tratando os doentes dos seus achaques, curando os feridos das suas chagas. Era “muito entendida” como se dizia na altura a querer significar que a Senhora Mariquinhas do Carmo era muito competente, quer como parteira quer como enfermeira, apesar de não ter nenhum curso na área da saúde, nem em nenhuma outra área. Nem se quer fizera alguma formação ou tivera qualquer tipo de ajuda. Aprendera tudo por ela própria, com a sua dedicação, com a sua experiência, com o seu esforço, com a sua intuição, com a sua capacidade e com a sua própria vida. Dizia-se, na altura, que ainda era melhor a tratar os doentes do que o senhor padre da Fajãzinha, pessoa também muito entendida em questões de saúde e bastante procurada, nessa altura, para resolver variadíssimos problemas de relacionados com doenças ou feridas, dado que os médicos, na altura, rareavam nas Flores e quase nunca se deslocavam à Fajã.

Recentemente a Fajã Grande reconheceu o contributo desta sua ilustre filha, manifestou-lhe a sua gratidão e prestou-lhe a devida homenagem, atribuindo o seu nome a uma rua da freguesia, precisamente à antiga Rua Nova que assim passou a chamar-se Rua Maria do Carmo Fagundes, ou simplesmente Rua “Senhora Mariquinhas do Carmo”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 19:50

MINHA AVÓ JOAQUINA

Quarta-feira, 04.12.13

Joaquina Fagundes de Sousa nasceu na última década do século XIX, mais concretamente em 1890, no lugar da Cuada, na ilha das Flores. Foram seus pais António Maria de Sousa e Maria José Teodósio. Devido ao falecimento da mãe, quando ainda muito criança, Joaquina foi dada pelo pai a um casal, ele José Cristiano Ramos e ela Margarida Jacinta, a fim de que a criassem e educassem. Este casal, já de idade avançada, tinha apenas um filho e este há alguns anos que havia falecido num acidente de que foi vítima, na Rocha dos Paus Brancos. Além disso, Margarida também faleceu alguns anos depois da adopção, acabando Joaquina por ficar, novamente e pela segunda vez, órfã de mãe, neste caso de mãe adoptiva. No entanto “Pai Cristiano”, como minha avó carinhosamente sempre chamou àquele que a havia adoptado, tratou-a e criou-a com muito carinho, amizade, dedicação e desvelo. Segundo os relatos que ouvi, em criança, vezes sem conta, narrados por ela própria e, sobretudo, pela maneira carinhosa como a ele se referia, tratava-se, realmente, duma pessoa extremamente bondosa, honesta e magnânima. Nas suas orações diárias, sobretudo depois de rezar o terço em família, minha avó pedia sempre que se rezasse um Padre-Nosso por alma de “Pai Cristiano”.

Joaquina cresceu, tornou-se jovem e, apenas com dezoito anos, casou, na igreja paroquial da Fajã Grande, no dia onze de Janeiro de 1909, com José Fagundes da Silveira, recentemente regressado da Califórnia.

Joaquina, com uma estatura fraca, aliada a uma saúde frágil e um temperamento débil, nunca se dedicou muito aos trabalhos nos campos, a não ser no semear e apanhar do milho ou na semeadura e colheita das batatas. Viveu a maior parte da sua vida dentro de casa, pariu treze filhos e teve o infortúnio de assistir ao falecimento de dois deles, um recém-nascido, que ficou sempre lembrado como o José do Céu e uma filha, Angelina de seu nome, precisamente aquela que foi a aminha mãe. Para além de gerar e criar todos estes filhos, Joaquina dedicou-se sempre ao arranjo e amanho da casa e da cozinha, embora, alguns anos mais tarde, tivesse a preciosa ajuda das filhas. Foi a primeira mulher e talvez a única, na Fajã Grande, a ser nomeada ”Mordoma das Almas”, cargo que desempenhou com grande dedicação e exímia competência, sobretudo nos meses de Outono, durante os quais se realizava, sob a sua orientação e comando, em toda a freguesia, a uma grande derrama pelas almas. Além disso era uma óptima tecedeira e uma excelente costureira. Bem me lembro duma colcha de cama que ela me fez com competência e mestria, quando foi decidido que eu ia estudar para o Seminário. Tendo consciência que estávamos impossibilitados de comprá-la, prontificou-se, de imediato, para a fazer. Arranjou dois bons bocados de fazenda enramados, um azulado e outro castanho, coseu-os em três dos lados, formando uma espécie de saco, dentro do qual colocou escondidas, algumas peças de roupa velha, devidamente alisadas. Depois coseu a extremidade equivalente à boca do saco, alinhavou, chuleou e voltou a chulear a futura colcha de alto a baixo e de lado a lado, em linhas perpendiculares e paralelas, de tal maneira que formaram uma espécie de tabuleiro de xadrez, de forma a simular uma colcha acolchoada. Uma obra-prima!

Quando criança adorava ir para a casa da minha avó Joaquina. Presenteava-me sempre com uma fatia de pão de milho ou de trigo com doce. Que bom que era o pão com doce da minha avó Joaquina. Quando tinha em casa fruta da sua horta do Delgada dava-me sempre alguma, mesmo que fosse apenas metade de uma ameixa

Já velhinha, o seu passatempo preferido era o jogo da cacina. Jogava com excelência, com um sentido apurado do jogo, com um domínio sobre o adversário, sabendo em qualquer momento de cada partida as cartas que já haviam saído e as que estavam por jogar. Quase todos os dias, à tardinha, sentava-se à janela da sala, com vista sobre a freguesia e sobre o mar. Dizia que estava a ver o pôr-do-sol, não tanto para apreciar o espectáculo, mas sim para acertar o relógio de parede. É que tinha ela em sua posse uma tabela que lhe indicava a hora em que o Sol se punha em cada dia do ano. Depois corria para o relógio e acertava-o por aquela hora. Curiosamente o relógio da minha avó Joaquina andava sempre atrasado, muito provavelmente porque aquela tabela diria respeito a outro fuso horário

Minha avó faleceu, calma, serena e em paz, numa tarde invernosa de Dezembro, aos setenta e seis anos de idade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:04

O JOÃO DE FREITAS

Quinta-feira, 28.11.13

Por toda a vizinhança e, sobretudo, na minha própria casa correu célere a notícia de que a “Velha do Corvo” tinha vindo visitar a senhora Marquinhas do Rosário, trazendo-lhe outro um menino. Entrei em êxtase. Mais um menino ali, nos arredores, a juntar-se a um já por demais reduzido grupo de ganapada, onde pontificavam eu e o Jaime e, por isso mesmo, cismei de que havia de ir ver o “menino”. A minha mãe já tinha falecido e foi minha irmã que, consciente de que os vizinhos deviam disponibilizar-se e oferecer préstimos uns aos outros nestas alturas, decidiu por fazer-me a vontade. Além disso ela lembrava-se e sabia muito bem que a vizinha do Rosário era uma boa vizinha, muito prestável e amiga e que viera sempre a nossa casa dar uma demão à minha mãe, em situações semelhantes. E lá fomos os dois visitar a nossa vizinha: minha irmã com ar de quem queria disponibilizar ajuda e manifestar reconhecimento, eu com a curiosidade de ver, pela primeira vez, uma criancinha acabada de nascer e com a inequívoca dúvida se havia ou não de “enterrar” definitivamente a mítica “Velha do Corvo”.

Mas pouco vi e muito menos descobri ou concluí. O menino dormia e quando acordava era apenas para chorar e para comer e, além do mais, na altura em que ele mamava eu não podia estar presente. Soube apenas que havia de chamar-se João.

O João cresceu e veio fortalecer o precário pecúlio infantil da Assomada, cada vez mais cerceado pelos que, Carvalho após Carvalho, se iam evadindo para a América ou para o Canadá. As vizinhas diziam que era lindo e que à beleza física se aliava uma extraordinária bondade, uma grandiosa ternura e uma profunda meiguice. Enquanto crianças, pouco brincámos, no maroiço que separava a terra de meu pai da canada do Pico e que já fora o local institucionalizado para folguedos e brincadeiras com o José Gabriel, devido à diferença de idades e porque cedo abandonei a ilha, a Fajã e a Assomada. No entanto, mais tarde, ele havia de seguir-me as pegadas, sendo então e somente nas férias que nos encontrávamos, já não tanto para brincar mas para conversar, reflectir e passear. Desses encontros de verão ficou-me a imagem de um jovem extremamente generoso, muito comedido nas suas ideias, excessivamente responsável pelas suas acções e com uma enorme cultura e defesa de valores morais. Além disso era um excelente aluno, um bom conversador e um óptimo colega.

Quis o destino que, anos mais tarde, seguíssemos caminhos diferentes e não mais nos encontrássemos, Soube, apenas, que casara com a Conceição, que fixara residência em Santa Cruz e que trabalhava no aeroporto das Flores. Soube também que era um pai extremoso e um excelente marido, construindo por si próprio com os seus hábitos, costumes e atitudes, todas as condições necessárias e suficientes para ser feliz, como o era de verdade.

Um dia chegou-me a triste notícia de que o João partira. Partira muito novo, partira repentinamente e partira para sempre, deixando atrás de si, sobretudo para os que conviveram de perto com ele, misturado com uma dor inexaurível, um perene e inextinguível rastro de saudade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 12:25

PADRE LUÍS CARDOSO

Domingo, 03.11.13

O Padre Luís Cardoso faleceu no dia 3 de Junho de 2011, com 80 anos de idade. Luís Cardoso era natural da Fajã Grande, Ilha das Flores, onde nasceu a 11 de Outubro de 1930, numa das últimas casas da Rua da Via d’Água. Filho de António Augusto Cardoso (Ti Francisco Inácio) e de Maria Augusta Fagundes Cardoso. Era também irmão do Pe António Cardoso, também já falecido e que durante muitos anos paroquiou na ilha do Faial, mais concretamente nas freguesias da Praia do Norte e Feteira. Frequentou o Seminário de Angra ente os anos de 1946 e 1958, a expensas da Diocese de Fall River dos Estados Unidos da América, dadas as dificuldades económicas dos pais, comuns à maioria das famílias da Fajã Grande, na altura. Essa foi a razão também porque entrou para o seminário, já um jovem com dezasseis anos.Terminado o curso Teológico, ordenou-se sacerdote em 15 de Junho de 1958, na Sé Catedral de Angra, pelo então bispo da diocese, D. Manuel Afonso Carvalho. Após a ordenação seguiu para os Estados Unidos, mais concretamente para a diocese de Fall River onde trabalhou ao longo de toda a sua via, paroquiando como Vigário as Paróquias de S. João Batista e da Imaculada Conceição em New Bedford e como Pastor as Paróquias de Nossa Senhora da Saúde, do Espírito Santo e de S. Miguel em Fall River. Desde 2008, altura em que se deslocou a Angra para celebrar as bodas de ouro sacerdotais, que residia na Casa Sacerdotal "Cardeal Medeiros" naquela cidade. Tendo abandonado a Fajã Grande ainda jovem, a ela voltava durante uma boa parte das suas férias de verão, quando seminarista. Anos mais tarde, quando já residia e paroquiava nos Estados Unidos, também visitou a sua terra natal por várias vezes. Na década de cinquenta ainda viviam na Fajã alguns de seus irmãos: o Francisco, o Antonino, o José, o João e a irmã Maria., com os quais passava as suas férias, dado que, nessa altura, os seus pais já haviam falecido devido à sua avançada idade, uma vez que ele era o filho mais novo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 15:12

IRMÃ LUÍSA FAGUNDES

Sábado, 02.11.13

Luísa Fagundes de Sousa, religiosa pertencente à Congregação das Irmãs Servas da Sagrada Família, nasceu na rua da Fontinha, na Fajã Grande das Flores, no dia 18 de Maio de 1920 e faleceu a 28 de Maio de 1911, na Unidade de Cuidados Familiares da Mealhada, perto de Anadia e de Sangalhos, onde viveu uma boa parte da sua vida religiosa.

Luísa Fagundes de Sousa era filha de José Fagundes da Silveira e de Joaquina Fagundes de Sousa. Cedo manifestou grande apetência para a vida espiritual e consagrada, dedicando-se, durante a sua juventude, na Fajã, a colaborar nas diversas actividades da paróquia, nomeadamente na catequese e ainda no asseio e limpeza da igreja paroquial onde se baptizara. No início da década de cinquenta, após a morte do pai, abandonou a terra natal e partiu para o continente, entrando para a Congregação das Irmãs Servas da Sagrada Família, uma ordem religiosa fundada em 1942, pela irmã Purificação dos Anjos, tendo como carisma e missão “O serviço dos mais pobres num ambiente de família; libertação espiritual e humana Familiar, com a casa-mãe no Lar de São José, em Lisboa, onde a irmã Luisa permaneceu durante alguns meses, seguindo mais tarde para uma casa pertencente a esta congregação, existente em Anadia, onde fez o noviciado e professou. Circulou por algumas casas da congregação, em Benfica, nos Olivais, em Évora e no próprio Lar de São José, partindo mais tarde para Timor, onde permaneceu, como missionária, até à altura da Revolução de Abril, tendo então regressado novamente ao Lar de São José. Alguns anos depois foi colocado no Centro de Bem-Estar Infantil de Sangalhos, instituição pertencente à Misericórdia local e gerida em parceria com a Congregação das Irmãs Servas da Sagrada Família, onde exerceu a actividade de Superiora, simultaneamente com a de educadora, durante largos anos.

Com o cessar da parceria administrativa com a Misericórdia de Sangalhos e, já com idade avançada, a irmã Luisa recolheu-se novamente na Casa da Imaculada Conceição de Anadia, onde viveu os últimos dias da sua vida e onde ainda trabalhou, na educação e formação de crianças, enquanto as suas forças o permitiram. Acamada desde há alguns meses e padecendo de algumas graves enfermidades, a irmã Luisa, uma das sete irmãs da minha mãe e minha madrinha de baptismo, foi suportando sempre o sofrimento e a doença com paciência e resignação, repousando agora, para sempre, na paz de Deus

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:37

TI BRITSA

Quinta-feira, 31.10.13

António Maria de Sousa, mais conhecido na Fajã por “Ti Britsa”, morava no cimo da Fontinha, mais concretamente na última casa, do lado direito de quem subia aquela rua. Filho de José Maria de Sousa e de Maria José Teodósio, ambos naturais da Cuada, tio Britsa era irmão da minha avó materna. Tio Britsa e a minha avó, porém, foram criados por pais adoptivos desde de pequeninos, em virtude do falecimento precoce da sua progenitora. Minha avó foi entregue a José Cristiano Ramos e sua mulher Margarida de Jesus, enquanto Tio Britsa foi criado por duas irmãs, já de idade avançada, conhecidas por “As Brígidas”. Daí a deturpação popular do nome “Britsa” em substituição de “Brígida”, epíteto que ele angariou e a que teve jus. Tio Britsa casou com uma irmã das senhoras Mendonças de cujo casamento nasceram seis filhos: a Maria da Paz, a Rosa, a Matilde, a Alice, o Daniel, o Leonardo e a Joana, tendo estes dois últimos falecido, quando ainda eram muito jovens.

Tio Britsa era um homem simples, bondoso e humilde mas honrado e muito trabalhador pese embora já ser de avançada idade. Raramente se via sentado à Praça, sendo, pelo contrário, frequente vê-lo a passar no Batel carregando molhos de lenha, ou a descer a Bandeja com um feixe de espiga às costas, ou a subir a Fontinha vergado ao peso de um pesado cesto de batatas, trazidos das Furnas ou do Areal. Como o peso dos anos já não lhe permitisse grande desenvoltura e ainda porque os carregos que transportava eram pesados e a Fontinha bastante inclinada, Tio Britsa subia-a muito lentamente. Dizia-se então, em ar jocoso, quando alguém andava muito devagar que “era como Tio Britsa pela Fontinha acima: dava um passo para a frente e dois para trás.”

Tio Britsa era uma pessoa honesta, virtuosa, vivia para si e para os seus, metido consigo próprio mas, dado que era muito simples e um pouco incauto, alguns, julgados mais sábios ou importantes, metiam-se com ele, com chalaças, brincadeiras e, por vezes até com alguma chacota ou ar trocista. Porém, pelo menos aparentemente, nada o incomodava. Contava-se até que certa vez utilizando o arame dos Paus Brancos para lançar uns molhos de lenha por ele abaixo, o arame rebentou. Muito aflito e considerando-se culpado, tio Britsa veio denunciar-se a si próprio ao Mancebo, na altura presidente da Junta. Muito nervoso e preocupado ter-lhe-á dito simplesmente: “Eu quebrei a verga”. A partir daí ele ficou com apelido de “Eu quebrei a verga”, o qual se propagou até aos netos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 16:17

TI'ANTONHO BONZINHO

Quinta-feira, 31.10.13

António Lourenço Fagundes nasceu, na Fajã Grande, na rua da Assomada, em 1849, sendo seus pais José Lourenço Fagundes e Mariana Joaquina da Silveira, casados na igreja da Fajãzinha, antiga paróquia das Fajãs, no longínquo ano de 1838. Ainda jovem e tentando esquivar-se à vida de miséria e penúria que abalroava a sua família e quase todas as da freguesia e tentando livrar-se do trabalho árduo, esclavagista e sem lucros a que estava condenado na Fajã, decidiu emigrar para a Califórnia, seguindo o exemplo de tantos outros conterrâneos. Mas na altura não era fácil, pois a emigração legal era obstaculizada por variadas limitações, entre as quais a dos transportes que, na altura, eram raros e caros, enquanto, por outro lado, a emigração clandestina era muito perigosa e arriscada. O jovem, corajoso e temente a Deus António, sem dinheiro e sem alguém que lho emprestasse, optou pela segunda e lá partiu, sozinho, às escondidas da noite, conseguindo embarcar na Ribeira das Casas, onde se havia escondido na véspera, misturando-se, de madrugada, com os marinheiros de um escaler que haviam ido a terra abastecer-se de água e de viveres. Atravessou o Atlântico, dos Açores à costa leste americana, nesse pequeno e frágil escaler, movido a remos e à vela. A bordo dispôs-se a fazer todo o tipo de trabalhos, com o objectivo de justificar o pagamento da viagem: remou de dia e de noite, cozinhou, limpou, despejou água do interior da embarcação e limpou latrinas. Uma vez chegado à cidade de Hudson, no estado de New Hampshire, aí permaneceu algum tempo, realizando todo o tipo de trabalho, do mais vil ao mais humilhante, a fim de conseguir dinheiro para pagar a viagem que o haveria de levar até ao outro lado do mundo. Percorreu o continente americano de lés-a-lés e chegou à Califórnia, no ano de 1870, numa altura em que a construção e inauguração de diversas ferrovias interestaduais, que passavam a ligar o estado com o resto do país e que fizeram com que aquele estado conhecesse um período de grande desenvolvimento e passasse a crescer drasticamente, registando uma das taxas de crescimento anual mais altas do país, o que aumentou significativamente a sua população e permitiu o florescimento de muitas cidades. Por isso mesmo, o jovem António não teve dificuldade em empregar-se trabalhando, primeiro, nas construções das linhas férreas por aqui e por além, fixando-se mais tarde, na cidade de São Francisco, trabalhando na construção do enorme e gigantesco porto daquela cidade. Alguns anos depois, sentindo saudades da terra e da família, cuidando que tinha o dinheiro suficiente para comprar umas territas e reconstruir a casa dos pais, decidiu voltar à Fajã, não se esquecendo de trazer os célebres “papeles” com os quais os filhos, se os tivesse e um dia assim entendessem, pudessem fixar-se nos Estados Unidos. Quando chegou à Fajã, os pais já haviam falecido. António comprou algumas terras, fez alguns arranjos na casa que os pais lhe haviam deixado na Assomada e recomeçou a sua vida na ilha. Apesar de tudo, a casa era pequenina e, como o dinheiro era pouco, acabou por em quase nada a transformar: era velha e velha ficou, era pobre e pobre permaneceu, com um piso superior para as pessoas e duas lojas no piso inferior: uma para o gado e outra para latrina e arrumos. Como era “americano”, embora com pouco dinheiro, casou, aos 33 anos de idade, com uma sobrinha de apenas vinte anos, de nome Maria de Jesus Fagundes, na igreja paroquial da Fajã Grande, em 30 de Novembro de 1882. Desse casamento nasceram muitos filhos, uns mortos, por via da consanguinidade, outros morrendo depois de nascer e uma filha permanecendo deficiente mental ao longo de toda a sua vida. Um bom punhado deles, no entanto, vingou. Uma vez crescidos, agarram-se aos “papeles” que lhes tornava a fuga da ilha legal, e zarparam para a América, na procura do “Eldorado” que o pai pouco aproveitara. Deixando os pais, já velhotes e a irmã demente aos cuidados de um irmão mais novo, por lá ficaram e fixaram residência para sempre.

Impusera-se no entanto, Ti’Antonho pela sua bondade, paciência, generosidade e espírito de ajuda não apenas para com a mulher e para com os filhos mas também para toda a freguesia, o que lhe valeu o epíteto de “Tio Antonho Bonzinho”. Os seus dias eram passados nos campos a trabalhar ou em casa com a mulher doente e a filha enlouquecida. Não saía à noite, antes pelo contrário ficava em casa e, depois de cear e lavar os pés, juntamente com a família, rezava o terço, findo o qual se seguia uma infinidade de Padre Nossos e Avé Marias por alma de todos os antepassados, parentes, amigos e vizinhos, que se haviam finado e pela saúde e felicidade dos filhos que estavam tão longe dali. Juntamente com o filho que com ele ficara, lá ia trabalhando as poucas e pequenas terras que tinha e criando uma vaquita que ficava na loja de noite e de dia nos pastos do Outeiro Grande e dos Lavadouros e que lhe ia dando leite necessário para as sopas da ceia e os ajudava a lavrar os campos e puxar o corsão.

Tio Antonho Bonzinho um dia morreu. Morreu de cansaço, de sofrimento, de velhice, mas morreu com alegria e felicidade por ter cumprido com dignidade, nobreza e humildade a sua missão na terra. Na sua casa da Assomada deixou a esposa enferma numa enxerga, a filha demente e o filho mais novo a tratar das duas e a trabalhar os campos para as sustentar. Este filho era aquele que mais tarde foi o meu pai e, consequentemente Ti ‘Antonho Bonzinho foi o meu avô.

A “História dos Açores” também se faz com estes homens!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:23

Ti JOSÉ TEODÓSIO

Terça-feira, 29.10.13

José Caetano Teodósio, conhecido na Fajã, na década de cinquenta, por “Ti José Teodósio” nasceu no longínquo ano de 1886, sendo seu pai António Caetano Teodósio e sua mãe Floripes Garcia de Mendonça, casados na nova paróquia da Fajã Grande, em 24 de Julho de 1880, mas baptizados ainda na igreja paroquial da Fajãzinha, antiga paróquia das Fajãs, uma vez que nasceram respectivamente em 1839 e 1844, quando a Fajã Grande ainda não era paróquia, nem tinha igreja paroquial. Ti José Teodósio, por sua vez, casou já no século XX, mais precisamente no dia 21 de Julho de 1906, na igreja paroquial da Fajã Grande, sendo sua esposa Maria da Glória de Freitas Teodósio. Deste casamento nasceram nove filhos, seis meninas e três rapazes, tendo o casal ainda adoptado uma criança órfã. Fixaram residência bem lá no alto, na última casa da Fontinha, de cuja sala, enorme e claríssima, se desfrutava duma das mais belas vistas sobre a Fajã, sobre grande parte das suas ruas e casas, sobre as terras do Porto e Areal, sobre a Ponta e a sua rocha, o ilhéu do Cão, o Monchique e Baixa Rasa, sobre o baixio negro e recortado e sobre o oceano ora calmo e tranquilo ora revolto e bravo.

Ti José Teodósio era uma figura imponente, altiva, digna e respeitada por todos. Mantinha ainda o tradicional traço do homem do século XIX, com um enorme bigode esbranquiçado a ocupar-lhe grande parte do rosto, suíças exageradamente descidas pelos lados da cara, face encardida e sulcada pelos rigores do tempo, mãos calejadas pelo trabalho árduo e contínuo dos campos e o corpo arquejado de canseiras e consumições. Fora um homem de muito trabalho, dedicando-se não só às terras “da porta” e arredores mas até às relvas do mato, onde consta que terá chegado a lavrar e a semear milho, com a ajuda dos dois filhos mais velhos. Mas paralelamente à intensa, cansativa, extenuante e contínua actividade agrícola, Ti José Teodósio ainda disponibilizava o seu tempo para as cantorias. Dotado de uma voz excelente e possuidor de um reportório musical genuinamente popular, herdado dos seus antepassados e das gerações anteriores, Ti José Teodósio era folião do Espírito Santo, cantava no Outeiro durante todas as terças e sextas da Quaresma e animava festas e casamentos com as suas cantorias, muitas vezes sem ser acompanhado por qualquer instrumento musical. Tio José Teodósio também era um homem extremamente generoso, sempre disposto a ajudar os outros e a partilhar com todos os seus bens e haveres, sobretudo a emprestar os diversos instrumentos agrícolas que lhe era permitido possuir, como arados, grades, caliveira, cangas, enxadas e sachos,  a quem deles precisasse. E nem era preciso pedir-lhe, pois Ti José Teodósio guardava-os num palheiro, ao lado da sua casa, cuja porta estava sempre aberta, tanto de noite como de dia, para que quem muito bem quisesse e entendesse os fosse ali buscar para o utilizar nos seus campos.

No entanto o que mais dignificava a generosidade e o grande e bondoso coração deste homem, que naturalmente também tinha os seus defeitos e os seus inimigos, foi o facto de ele e a esposa, apesar de já serem pais de nove filhos, terem adoptado uma menina de nome Maria de São Pedro, filha de pai incógnito e órfã de mãe, dedicando-lhe tanto carinho, tanto amor e tanto afecto, revelados sobretudo no dia seu casamento que, por decisão e vontade expressa dos mesmos, em nada foi inferior ao dos seus próprios filhos. Apesar de muito criança, lembro-me desse casamento, da enorme festa que foi, do lauto almoço realizado na sala da casa de Ti José Teodósio e, findo o qual, tive o privilégio de ver e ouvir o velho Teodósio recostar-se nas costas duma velha cadeira, fechar os olhos como se estivesse a sonhar e cantar para os noivos:

“O melro canta, beijando a flor,

E nós cantámos ao vosso amor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 14:03

OS NOMES DOS NOSSOS AVÔS E BISAVÔS

Domingo, 27.10.13

Já aqui foi referido o livro da autoria de Francisco António Nunes Pimentel Gomes, “Casais das Flores e do Corvo”. Trata-se duma interessante e útil compilação dos casamentos realizados nas paróquias das ilhas do grupo ocidental açoriano, entre os anos de 1675 e 1911. No que à paróquia de São José da Fajã Grande diz respeito, este livro refere os matrimónios realizados a partir da data da criação da paróquia até à proclamação da república, ou seja, entre os anos de 1861 e 1911, sendo o seu número de cerca de trezentos casamentos. Os nubentes cujos nomes que figuram nestes registos foram os nossos avós bisavós. Já aqui registei os nomes dos nubentes do sexo feminino, fazendo agora o mesmo relativamente aos do sexo masculino. Ficaremos assim com a generalidade dos nomes então usados, de um e doutro sexo, referindo-se neste caso os nomes próprios dos pais e avós das nossas mães e dos nossos pais. São os seguintes esses nones sendo que os números à frente de cada nome indicam o número de indivíduos com o mesmo nome:

José (26), João (24), António (21), Manuel (21), Francisco (20), José António (14), António José (12), José Inácio (8), Manuel Inácio (8), José Caetano (7), José Joaquim (7), Laureano (7); Manuel José (7), Manuel Francisco (6), João António (5), Manuel Caetano (5), Manuel Joaquim (5), Mateus (5), António Inácio (4), António Joaquim (4), António Caetano (3), António Francisco (3);Francisco José (3); Inácio José (3); João Joaquim (3), José Francisco (3), José Jacinto (3), José Maria (3), Manuel Luís (3), Manuel Maria (3), António Bernardo (2), António Jacinto (2), António Luís (2), Bartolomeu (2). Francisco Caetano (2), Inocêncio José (2), João Bernardo (2), João Caetano (2), João Francisco (2), João Jacinto (2), João José (2), Joaquim (2), José Lucindo (2), Luciano (2), Raulino Inácio (2), Vitorino José (2), Abraão (1) Anastásio (1), António Augusto (1), António Maria (1), António Vitorino (1) Bernardo (1), Caetano José (1),Caetano Inácio (1), Clarimundo (1) Eduardo (1) Estulano (1), Fernando (1), Francisco Inácio (1), Francisco Joaquim (1), Frederico Augusto (1), Frederico José (1), Geraldo Filipe (1), Geraldo Lucindo (1), Guilherme Vitorino (1), Henrique (1), Inácio Gabriel (1), Inácio (1), Jacinto António (1) Jacinto Manuel (1), João Bernardo (1), João Cândido (1), João Lucindo (1), João Luís (1), João Pedro (1), José Cristiano (1), José Laureano (1), José Lisandro (1), Laurindo (1), Leónis (1), Lisandro (1), Luís (1), Manuel António (1)Un Mariano (1) Mariano Luís (1)Mateus Luís (1), Narciso (1), Pedro (1), Raulino Augusto (1) e Raulino José (1).

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:16





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Fevereiro 2019

D S T Q Q S S
12
3456789
10111213141516
17181920212223
2425262728