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FESTAS DO ESPÍRITO SANTO

Sábado, 07.06.14

Nos Açores, em todas as ilhas, as festas em honra e louvor do Divino Espírito Santo dominam esta altura do ano, atingindo o seu epicentro no domingo de Pentecostes, estendendo-se, no entanto, não apenas nos dias que o antecedem, mas também nos primeiros dias da semana seguinte, repetindo-se ou prolongando-se, em muitas freguesias, até ao domingo da Trindade. Estas festas, para além da parte litúrgica, onde sobressaem as celebrações da eucaristia e a organização de procissões e cortejos, constam geralmente da distribuição e da partilha da carne e do pão, entre todos e, de modo muito especial, junto dos mais pobres.

Na ilha do Pico este sentido de partilha tem um significado ainda mais abrangente e a ela, muito provavelmente, estão ligados rituais e costumes ancestrais, geralmente relacionados com promessas feitas pelos nossos antepassados em momentos de enorme angústia e aflição, em virtude de crises sísmicas devastadoras ou outras catástrofes dramáticas, durante as quais o povo solicitava o auxílio divino para acalmar as correntes de lava ou os ventos ciclónicos que assolavam e arrasavam a ilha, destruindo habitações, povoados e culturas, por vezes, pondo em causa a sobrevivência das populações.

Na realidade, os festejos em honra e louvor do Divino Espírito Santo constituem, na ilha montanha, uma genuína e fortemente enraizada tradição, muito provavelmente trazida pelos primeiros povoadores mas implementada com um cunho religioso e cultural muito forte entre a actual população de toda a ilha, incluindo os mais jovens, mantendo-se, ainda hoje, com rituais e celebrações muito semelhantes às dos tempos antigos, com destaque para um inusitado e interessante cerimonial em que os "imperadores" levam, em procissão, a coroa, até à igreja, com a qual, após a celebração da Eucaristia, são “coroados”. Realce também para a "função", evento peculiar, genuíno e agregador, que consiste, fundamentalmente, na participação colectiva num almoço em que praticamente se integra toda a população da freguesia, para além de muitos convidados, sentando-se à mesma mesa, saboreando as típicas e tradicionais sopas do Senhor Espírito Santo.

Mas o que mais revela este sentido de partilha mútua e de comunhão recíproca das festas do Espírito Santo, no Pico, é o facto de em todas as freguesias e até em alguns lugares de uma mesma freguesia, se distribuir por todos os habitantes e também pelos forasteiros massa sovada, numas localidades sob a forma de pão, noutras de rosquilhas e noutras de vésperas. Esta distribuição obedece a um calendário rígido, histórico e imutável, permitindo assim que a mesma pessoa possa receber o pão doce, não só em dias diferentes mas até, no mesmo dia, em várias freguesias e localidades da ilha. São milhares e milhares as rosquilhas, os pães e as vésperas cozidos, por estes dias, com o primordial objectivo de, simplesmente, os oferecer em louvor do Divino Espírito Santo, facto, aparentemente, tão transcendente que quase imperceptível por quantos visitam, pela primeira vez, a ilha nestes dias.

É o seguinte o calendário de distribuição do pão, oferecido pelos irmãos e levado em cortejo até à igreja para ser benzido, em louvor do Divino Espírito Santo, sendo que, freguesias há que partilham as suas ofertas em mais de um dia:

Sábado véspera de Pentecostes – Silveira.

Domingo de Pentecostes – Bandeiras, Candelária, S. Mateus, Companhia de Baixo (São João), Ribeira do Meio (Lajes), Santa Bárbara (Ribeiras), Calheta do Nesquim, Ribeirinha, Piedade, São Roque, Santo António e Santa Luzia.

Segunda-feira – Valverde (Madalena). Monte (Candelária), Santa Cruz (Ribeiras), Calheta do Nesquim, Ribeirinha, Piedade, Santo Amaro, Prainha do Norte e Cais do Pico (S. Roque).

Terça-feira – Madalena, São Caetano, (Companhia de Cima (São João) e Santa Cruz (Ribeiras).

Esta distribuição tem lugar junto aos "impérios", pequenas e singelas construções tendo no vértice do telhado a pomba branca do Espírito Santo e no frontispício a coroa e a data da construção e que ao longo dos séculos, foram sendo construídas em todas as freguesias e localidades mais importantes da ilha, constituindo um elemento interessante da arquitectura popular açoriana. Actualmente, ao lado de muitos destes pequenos templos construíram-se amplos salões que permitem uma maior funcionalidade a estes tradicionais e únicos festejos.

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publicado por picodavigia2 às 08:50

AMORES - CHAMARRITA DO PICO

Domingo, 09.03.14

A vaga brava no rolo

Faze-o andar na ciranda;

Quem tem o seu amor longe,

Muitas cartinhas lhe manda.

 

Ai meu Deus, eu morro, morro,

Eu morro não sei por quem

Morro por ti,cara linda

Não morro por mais ninguém.

 

Amor é sonho que tem

Muito breve despertar;

Pra sonhar tão pouco tempo,

O melhor é não amar.

 

Amores ao pé da porta,

É que gostava de ter;

Inda que não lhes falasse,

Bem gostaria de os ver.

 

Amores novos falai-me,

Que os velhos já m’esqueceram;

Faço de conta que foram

Folhas de papel que arderam.

 

Amar e saber amar,

Qualquer amante faz isso,

Mas amar como eu te amo

Cá no mundo há pouco disso.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:29

SAUDADE - CHAMARRITA DO PICO

Quarta-feira, 05.03.14

Quadras da Chamarrita do Pico, cantadas nas Folgas. Tema – Saudade:

 

A palavra saudade

A tristeza a inventou;

Quem não sentiu a saudade,

É certo que nunca amou.

 

A saudade é com certeza

O final de quem amou,

Pois apenas fica a cinza,

Quando o fogo se apagou.

 

A saudade é um luto,

Uma dor, uma paixão,

É um constante martírio

Que trago no coração.

 

A saudade é um mal,

Que nem suspirar permite;

É um tormento de ausência,

É uma dor sem limite.

 

A saudade é uma flor,

Todo o ano reverdece;

Pobre de quem tem amores,

Muitos tormentos, padece.

 

A saudade foi criada,

P´ra castigo dos mortais,

Quem traz saudades consigo,

Só dá suspiros e ais.

 

Cantigas da Chamarrita do Pico – U. S. da Madalena

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publicado por picodavigia2 às 19:46

DOM JOSÉ VIEIRA ALVERNAZ

Domingo, 16.02.14

O livro de Maria Guiomar Lima “José Vieira Alvernaz” foi publicado pelo IAC e apresentado durante a sessão de encerramento da Semana Cultural e Recreativa da Ribeirinha  do Pico, cabendo a apresentação do mesmo a Emílio Porto. Trata-se de uma obra de grande rigor histórico e de agradável leitura onde se rela a vida de uma das mais altas e destacadas figuras da Igreja Açoriana, D. José Vieira Alvernaz (5-2-1898/13-3-1986). O Patriarca Alvernaz, como também é conhecido, nasceu na Ribeirinha do Pico, (na altura um lugar da Piedade) estudou no liceu de Angra e no Seminário Episcopal, formou-se na Universidade Gregoriana em Roma e no Instituto de Ciências Sociais de Bergamo. Foi fundador do Colégio Sena Freitas em Ponta Delgada, pároco em Santa Luzia e na Praia da Vitória, professor e mais tarde reitor do Seminário de Angra. Dirigiu o boletim da diocese, colaborou assiduamente nos jornais A União e A Pátria, sendo uma figura de destaque na vida social angrense nos anos 1930/40. Nomeado bispo de Cochim em 1941 e mais tarde arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das Índias, Primaz do Oriente, foi o último prelado português a ocupar estes cargos. Manteve-se na Índia até Setembro de 1962 mas, para facilitar a nomeação de um bispo goês, deixou Pangim. Voltou aos Açores no início do ano seguinte e viveu em Santa Luzia de uma forma modesta, retirada mas muito próxima da população. Manteve os seus títulos de arcebispo e Patriarca das Índias até à assinatura do Tratado de 31 de Dezembro de 1974 entre Portugal e a União Indiana.

O livro agora publicado é tanto mais interessante, completo e rigoroso, porquanto Maria Guiomar Lima, Licenciada em Psicologia e Ciências da Educação, com larga experiência em jornalismo e investigação histórica e biográfica, também natural da Ribeirinha, viveu em Angra entre 1959 e 1972, conheceu e privou com o D. José durante largos anos.

A obra está divida em seis partes. Na primeira retracta-se a infância e a vida de D. José como aluno em Angra, enquanto na segunda, nos é apresentada a sua vida de estudante em Roma e em Bérgamo. Na terceira parte é-nos apresentado o Dr Alvernaz como professor e Reitor do Seminário, na Angra dos anos trinta, enquanto nas seguintes se descreve a atribulada vida do Bispo, Arcebispo e Patriarca por Cochim, Malabar, Goa e outras paragens da Índia. Finalmente o livro termina com o regresso de D. José aos Açores, descrevendo a sua vida simples e humilde, entre 1963-1968, na sua casa de Santa Luzia, onde, inclusivamente, dava explicações gratuitas aos alunos mais pobres do liceu.

D. José Vieira Alvernaz, a veneranda figura da Igreja missionária, bispo de Cochim, arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das índias Orientais, estudou no Seminário de Angra, onde se matriculou em 2 de Novembro de 1909, distinguindo-se como um aluno brilhante. Quando o Seminário encerrou, em 1911, a quando da proclamação da República, continuou os seus estudos no liceu de Angra do Heroísmo. Terminou o Curso de Teologia e ordenou-se presbítero em 1920, seguindo para Roma a fim de frequentar o Pontifício Colégio Português, vindo a doutorar-se na Universidade Gregoriana em filosofia e direito canónico. Matriculou-se, também, no Instituto Católico de Ciências Sociais, de Bérgamo, doutoramento em Ciências Sociais, naquela cidade italiana. Regressado às ilhas dos Açores, paroquiou em Santa Luzia de Angra, por nomeação do então prelado diocesano D. António Augusto de Castro Meireles, foi director do Colégio de Sena Freitas, em Ponta Delgada, onde foi "grande e profícua a sua acção, durante os quatro anos" em que esteve à frente daquele colégio. "Ainda hoje, afirma o Boletim Eclesiástico dos Açores, falam os antigos alunos do colégio, com saudade e reconhecimento, da dedicação, do espírito de sacrifício, dos conselhos acertados do sr. dr. Alvernaz”. No ano de 1930 o bispo D. Guilherme Augusto nomeou-o pároco de Santa Cruz da então vila da Praia da Vitória, onde a sua obra foi "marcada por uma luz brilhante", ali também exercendo as funções da provedoria da Santa Casa da Misericórdia, tendo-se empenhado pela reedificação da igreja de Santo Cristo, que o fogo destruíra. Colaborou activamente na imprensa terceirense, por vezes, com temas polémicos, sendo considerado uma das maiores figuras do jornalismo moderno açoriano. Professor do seminário de Angra, em 1937 foi nomeado reitor deste estabelecimento de ensino. Foi também dirigente da Acção Católica, fazendo conferências e palestras, reuniões e retiros espirituais, orientando reuniões de militantes e de massa, visitando as secções. Foi capelão e director dos serviços sociais da Legião Portuguesa, sendo ampla a sua acção na defesa dos princípios religiosos e morais. Quando falava fazia-o dando exemplo enquanto que, com a palavra "convencia e apontava o caminho da perfeição a seguir. A sua vida foi para os seminaristas o maior incentivo ao cumprimento do dever e à consecução do bem".

D. José Vieira Alvernaz, foi um espírito culto e muito viajado. A 13 de Agosto de 1941 Pio XII fê-lo bispo de Cochim, havendo decorrido em Lisboa as cerimónias da sua sagração a 1 de Dezembro desse ano, na Basílica dos Mártires, sob a presidência do bispo de Angra D. Guilherme Augusto da Cunha Guimarães, assistido por D. Abílio Augusto Vaz das Neves, bispo de Bragança e Miranda, e D. Manuel Ferreira da Silva, bispo titular de Gurza e superior das Missões Ultramarinas.

Passados dois meses, a 18 de Fevereiro de 1942, D. José chegava à Índia. na companhia do seu secretário Pe. José Joaquim Neves, até então prefeito do seminário de Angra. O bispo de Goa usava a denominação de Arcebispo de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais, Arcebispo "ad honorem" de Granganor. Com a independência da Índia extinguiu-se o Padroado Português no Oriente, deixando o governo de Portugal de fazer a apresentação de prelados às dioceses que até ali estiveram subordinadas ao Padroado, entre elas a de Cochim, cujo sólio era nessa altura ocupado por D. José Vieira Alvernaz, que, mercê do destino foi o último prelado português de Cochim.

Como resultado destas ocorrências a Santa Sé nomeou D. José coadjutor com direito a sucessão do arcebispado de Goa e Damão iure successionis. Patriarca das Índias Orientais a 23 de Dezembro de 1950 e arcebispo titular de Anasartha, cuja posse efectivaria em 7 de Abril de 1951. Sucedeu na Sé de Goa quando da renúncia (1953) de D. José da Costa Nunes, outro emérito açoriano a quem viria a ser dado o chapéu cardinalício.

Devido à ocupação de Goa pela União Indiana, D. José Alvernaz viu-se compelido a deixar o território da sua jurisdição, passando aquela arquidiocese a ser governada sede plena a partir de 1966 por um administrador apostólico. No ano de 1946 D. José foi de visita aos Estados Unidos, viagem algo conturbada, porquanto o navio naufragaria nas proximidades do Canal do Suez. Mas ao chegar ao generoso solo americano este bispo missionário foi alvo das maiores homenagens e simpatias, não só por parte da gente portuguesa, mas, viu-se distinguido por personalidades importantes do próprio país. Depois dos acontecimentos políticos na Índia portuguesa, Dom José voltou ao seu recanto açoriano, fixando residência na freguesia de Santa Luzia, retomando os hábitos da vida simples açoriana. E a sua figura missionária de longas barbas alvas é tanto singular a presidir cerimoniais litúrgicos, como em sociedade, ou, quando, recolhidamente, ia às "Mónicas" celebrar a sua missa. Os seus conterrâneos picoenses, nomeadamente os que, como ele, nasceram e viveram na Ribeirinha do Pico, não esqueceram o bispo de Cochin erigindo-lhe um busto de bronze. Os terceirenses também não foram avaros com este prelado cuja veneranda presença lhes é grata, tendo o município angrense, que já o tinha declarado Cidadão Honorário da Cidade de Angra, associando-se ao jubiloso acontecimento das suas Bodas de Ouro sacerdotais para, mais uma vez, prestar homenagem. Faleceu no dia 13 de Março de 1986, na sua residência da Ladeira de Santa Luzia, na cidade de Angra, sendo o seu corpo trasladado, mais tarde, para o seminário, onde ficou em câmara ardente. O féretro passou, na manhã seguinte, à Sé Catedral, onde se realizaram solenes exéquias presididas por D. Aurélio, bispo diocesano, indo o seu corpo a sepultar no cemitério de Nossa Senhora da Conceição, em campa de família. D. José era filho de José Vieira Alvemaz e de D. Perpétua Mariana, e irmão de Monsenhor Manuel Vieira Alvernaz, que foi pároco da igreja do Sagrado Coração em Turlock, na Califómia, Estados Unidos da América do Norte.

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publicado por picodavigia2 às 10:28

O PICO EM FEVEREIRO

Sexta-feira, 07.02.14

O Pico, em Fevereiro, pese embora assolado por ventos e tempestades, fustigado por chuvas e intempéries ou assediado por nevoeiros neblinas, continua detentor da uma beleza e originalidade ímpares, duma graça e singeleza endémicas, e de uma excêntrica e indomável singularidade. A sua imponente e vulcânica Montanha, erguendo-se altiva e altaneira sobre lavas e fumarolas, ora se esconde bem lá no alto, por cima das nuvens, ora se cobre da caramelo ou se reveste da sua mais enigmática singularidade – de neve. O mar, na sua altivez e transcendência, revolta-se indignado e altivo, rugindo contra os baixios magmáticos, como que impedindo barcos e pescadores de se arrastarem sobre pedregulho e tiras de madeira, obrigando-os a permanecerem varados, no cais. A terra, entrelaçada entre maroiços e estreitas canadas, continua ávida de enxadas e aluviões e os campos, repletos de erva da casta, enchem-se de bovinos à espera que lhe mudem a cordada. As vinhas desvanecem mas não morrem e aguardam, expectantes, a tesoura de poda. No Pico, em Fevereiro ainda se adormece embalado pelo canto dos pássaros e acordamos com o corococó dos galos. A escuridão vai-se desvanecendo muito lentamente, ouve-se o arrastar de cadeiras em casa de um vizinho, os “bons-dias” dos que se levantam mais cedo. Finalmente o Sol! Mas esse sim, é que umas vezes nem aparece outras demora a aparecer e mesmo quando o faz, é para logo desaparecer, não fosse ele o “sol de pouca dura”.

Mas afinal, no Pico em Fevereiro, com sol ou com neve, com neblinas ou mar agitado, com isto ou com aquilo, ainda se mata o porco, ainda se amarram as vacas nos campos, ainda se podam as vinhas, ainda se apanham sargos e chicharros, ainda se coze bolo no tijolo, ainda se faz caldo de peixe, ainda se bebe bagaço com groselha, ainda se conservam os maroiços, ainda se arrastam os barcos nos varadouros, ainda se baila a chamarrita, ainda se desperta com o cantar dos galos, numa palavra, no Pico, em Fevereiro, ainda se está no Pico, embora este se modernize cada vez mais, agora aureolado com os recentes galardões de “património mundial da humanidade”, obtido pela sua paisagem vulcânica e de vinha e “maravilha natural de Portugal” conquistado pelo imponência e singularidade da sua montanha

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publicado por picodavigia2 às 09:26

HOMENAGEM E GRATIDÃO

Sábado, 01.02.14

O vento soprava, fortíssimo, de noroeste e entrava pela pequena baía, ornada de molhes e pontões, agitando e revoltando o mar, lançando-o, abruptamente, sobre os baixios negros, crispando-o em ondas altíssimas, temerosas e inquietantes, apesar de deslumbrantemente encantadoras. O Faial, mesmo em frente, bocejava um nevoeiro sombrio e relutante e soluçava murmúrios de um dolente e aflitivo isolamento. São Jorge, apesar de não muito longe, nem se via. Apenas o Pico se firmava muito alto, esguio, sereno e constante, escarrapachado sobre o oceano, a simular uma enorme pirâmide entontecida. A Madalena, alheando-se a ventos e maresias, desfazendo o seu marasmo habitual, erguendo-se em apoteóticos alentos, como que se engalanava, emocional e emotivamente, para prestar uma simples mas sentida homenagem e manifestar o seu profundo agradecimento, àquela que foi a pioneira da criação e do desenvolvimento do ensino preparatório e secundário, na mais jovem vila da ilha montanha, nas últimas décadas do século passado – Cecília Amaral. Os picoenses e os madalenenses em particular souberam antanho e ainda sabem hoje, melhor do que ninguém, neste caso pela voz do seu presidente, José António Soares, que a gratidão é um dos mais belos sentimentos que o ser humano tem o dever de manifestar e que o acto de agradecer é um valor, uma espécie de trunfo de que disfrutam para selar o mérito, a competência, o trabalho e, sobretudo, a dedicação de quem se entrega, total e dedicadamente, ao serviço dos outros, ali, na ilha. E quando todo um tão vasto e cristalino acervo vivencial, como o da homenageada, circum-navega em prol da educação e da formação humana, as loas ao mérito e as gratulações de reconhecimento pelo trabalho realizado e pela dedicação empreendida, mais do que um dever, são uma imposição. A simplicidade, a doçura, o encanto, a simpatia, a sinceridade e amizade verdadeira que sempre pautaram o quotidiano de Cecília Amaral engrossaram a vontade de estar presente, de comungar um momento de enlevo, de partilhar um acto de homenagem e agradecimento. Assim o entenderam a vila, o Concelho e a Câmara Municipal da Madalena do Pico, juntamente com um bom número de populares – a maioria antigos alunos, alguns professores, misturados com dois resistentes dos inícios da década de setenta - quando no passado dia 8 de Março – dia da mulher e 290º aniversário da criação do Concelho da Madalena – se juntaram num acto de homenagem e gratidão, no bairro do Granel, ali nos arrabaldes do Centro de Saúde, recordando, agradecendo, preiteando e perpetuando a memória, gravando-lhe o nome no basalto negro duma rua.

Na realidade, Cecília Amaral tem o seu percurso pedagógico radicalmente acorrentado à implementação e ao desenvolvimento do ensino, não apenas na Madalena mas na ilha do Pico. Leccionando, no início do seu percurso pedagógico, como professora do então chamado ensino Primário, nas escolas da Candelária e da Criação Velha, a partir de meados da década de cinquenta iniciou, em sua casa, o acompanhamento pedagógico de um bom punhado de alunos, preparando-os para os exames de admissão ao Liceu. Mais tarde, estendeu, progressivamente, as suas explicações a muitos dos alunos que, na altura, se auto propunham fazer exames liceais.

Na segunda metade da década de sessenta e face ao crescente número de alunos que a procuravam e porque na ilha não havia nenhuma escola oficial ou particular, nem do ensino preparatório nem do secundário e as ofertas de disponibilidade de ensino muito reduzidas, sendo os alunos do Pico obrigados a se deslocarem para o Faial, simplesmente para tirar o segundo ou o quinto ano, Cecília Amaral alargou a sua actividade docente, em conjunto com outros colegas e amigos professores, utilizando espaços públicos da vila e até casas particulares. Eram os primórdios da criação e instituição do ensino na vila da Madalena, obstando a que milhares de alunos interrompessem os estudos após a conclusão do ensino primário e impedindo muitos outros de se descolarem para a ilha vizinha ou para paragens mais longínquas.

No início dos anos setenta e porque o número de alunos se agigantava, Cecília Amaral, sentindo a necessidade de instalações próprias, lançou-se, sem apoios e a suas expensas, na construção do edifício onde durante décadas funcionou o Externato Particular da Madalena e onde actualmente funciona a Escola Profissional. O Externato então criado, manteve-se em actividade, como única escola dos ensinos preparatório e secundário, no concelho da Madalena, até quase ao fim do século passado, altura em foi criada a Escola Cardeal Costa Nunes.

Mas Cecília Amaral não pautou a sua vida, apenas pela docência. Desenvolveu, juntamente com o marido e outros familiares, uma importante actividade a nível empresarial, com incidência, nas áreas do comércio e dos transportes.

A Assembleia Regional dos Açores, já lhe havia reconhecido o mérito, entregando-lhe, no dia da Região, a insígnia honorífica de mérito, considerando-a, na actualidade, como uma das mais importantes personalidades da ilha do Pico.

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publicado por picodavigia2 às 16:36

DEUSES COMO NÓS (COMÉDIA PELO GRUPO “GOTA DE MEL” DE SÃO MATEUS)

Domingo, 26.01.14

O grupo de teatro da Casa do Povo de São Mateus do Pico, “Gota de Mel” levou, ontem, à cena, uma “divina comédia” intitulada “Deuses como Nós”. Trata-se de uma adaptação, muitíssimo, livre dos “doze trabalhos de Hércules”, em que Zeus, pai de Hércules, numa das suas saídas nocturnas do Olimpo, se apaixonou por uma comum mortal e que, no fervor da sua paixão, decidiu conquistar. Com os seus companheiros da farra, Mercúrio e Baco, preparou um plano infalível para arrebatar a dona do seu coração, disfarçando-se de Elvis Presley. Após consumar a sua paixão, Zeus voltou ao Olimpo, confiante de que toda esta história ficaria por aqui, mas a intervenção de Vénus junto de Juno, a esposa de Zeus, o deus infiel, fez com que no Olimpo nada mais voltasse a ser como era d’antes.”

Recorde-se que “Os doze trabalhos de Hércules” ou, simplesmente, os "Trabalhos de Hércules" são uma série de episódios arcaicos, ligados entre si por uma narrativa contínua, relativa a uma penitência que teria sido cumprida por um dos maiores heróis gregos, Héracles, ou Hércules dos romanos. Hércules, num acesso de loucura, assassinou a sua esposa, Mégara e os seus três filhos. Quando se deu conta de ter praticado tão hediondo crime, fugiu para o campo, vivendo sozinho. Foi encontrado por seu primo Teseu, que o convenceu a visitar o oráculo em Delfos, a fim de recuperar a sua honra. O oráculo impôs-lhe como penitência, servir Euristeu, o homem que ele mais odiava, executando uma série de doze trabalhos, findos os quais, se obtivesse sucesso, se tornaria imortal. Todos os trabalhos, embora diferentes e localizados em espaços diferentes, têm um objectivo comum têm: castigar Hércules, obrigando-o a matar, subjugar ou buscar uma planta ou animal mágico para Euristeu. Foram os seguintes esses doze trabalhos: 1º - exterminar o leão de Nemeia e trazer a sua pele de volta para entregar a Eristeu; 2º - cortar as nove cabeças da hidra de Lerna; 3º - trazer vivo o javali selvagem de Erimanto; 4º - capturar viva a corça dos pés de bronze de Cerinéia; 5º - enfrentar os monstruosos pássaros do lago Estinfália, em Arcádia; 6º - lavar os touros sagrados de Augias, rei de Elis; 7º - capturar vivo e trazer até Eristeu o touro de Creta; 8º - capturar as éguas de Diomedes, rei da Trácia; 9º - ir buscar o cinturão de Hipótila, rainha das Amazonas, na Capadócia, superando a oposição das próprias amazonas; 10ª - capturar o gado de Gerião; 11º - levar as maçãs douradas do jardim das Hespérides. 12º - capturar Cérbero, o monstro-cão de três cabeças, guardião dos portões do Inferno.

Segundo o “Site” da Câmara Municipal da Madalena, autarquia a que pertence a freguesia de São Mateus, “o Grupo de Teatro Gota de Mel da Casa de Povo de São Mateus do Pico, para além de dar continuidade a uma população habituada a ver e fazer teatro, tem uma faceta de animador cultural da freguesia. Muitas foram as noites que este grupo ofereceu aos habitantes com diversões que vão do teatro aos concursos de animação, passando pelo trabalho de habituação em palco com crianças.

Por sua vez o próprio grupo Gota de Mel, considera-se um grupo de ilhéus picoenses que ama desmesuradamente a arte de palco e luta para que as luzes da ribalta promovam o engrandecimento de consciências. “A partir do palco conseguimos apregoar as mais eloquentes propostas - principalmente as que nos confinam a seres de grandes atitudes. O público que "nos assiste" é, por natureza, um lutador e contador de histórias referentes a essas lutas; detesta falsas verdades. Temos respeitado sempre esta máxima num crescendo de também abrir o pano para a actualização e alargamento do nosso espaço teatral.”

Para a edilidade madelenense “o alargamento do espaço teatral de uma ilha passa pela dinâmica de palco. O Grupo de Teatro Gota de Mel tem apostado em trazer, sempre que possível, novas referências para o público do Pico, o que o torna um excelente crítico.”

Fundado em 1980, conta actualmente com 12 elementos fixos: Carla Silva, Mário Silva, Carina Goulart, Carlos Goulart, Marlene Bettencourt, Helder Goulart, Gilberta Goulart, Lara Gonçalves, Luís Cardoso, Laura Serpa, Nuno Matos e Ana Matos.

Dos trabalhos levados à cena pelo grupo, para além do agora apresentado, destacam-se os seguintes:

- "Auto da Vida e da Morte", de António Aleixo, apresentado em algumas freguesias do Pico, em 1981;

- Participação, durante anos consecutivos, nas Festas de Natal do Doente;

- "Gota de Mel", peça que representou a ilha do Pico no Festival de Teatro Amador realizado na ilha Terceira e que arrecadou o 1º lugar;

- "Anatomia de uma História de Amor", ilha de Santa Maria em 1994;

- "Deixai Voar os Pássaros" de Álamo de Oliveira e "O Principezinho" de Saint Exupery em 1996;

- "No Jardim da Vida", ilha da Graciosa em 1997;

- Participação na "Corrida dos Reis", dinamização cultural, desde 1998;

- "A ilha", digressão pela ilha do Pico em 1998;

- Organização do "Festival Infantil de Imitação da Canção", em 1999 e 2000;

- Actuações e elaboração de oficinas de Teatro no encerramento das Férias Desportivas, organizadas pelo Serviço de Desporto do Pico, de 1992 a 2006;

- "Ilhas de Bruma", Festas de Santa Maria Madalena, em 2000;

- "Oficina de Teatro" - comemoração do Dia Mundial do Teatro, no ano 2002;

- "O Papão e o Sonho" - ilha de São Miguel, em 2002, num processo de intercâmbio com um Grupo de Teatro local;

- "Lua Azul" - com texto e encenação de Nelson Monforte, em 2003;

- "O Gato" de Henrique Santana - comemoração do Dia Mundial do Teatro, em 2004 e digressão pela ilha do Pico no mesmo ano;

- "Rostos 1" de Helder Goulart, em 2006.

- "Rostos 2" de Helder Goulart, em 2006;

- "O Poeta Pescador" de Helder Goulart, em 2006;

- "O Café Cruel" com encenação de Ricardo Alves da Companhia de Teatro "Palmilha Dentada" - comemoração do Dia Mundial do Teatro 2007;

- "Destinos" de Helder Goulart, em 2007;

- "Um Zé em Cada Um" de Helder Goulart, em 2008;

- "Menino de Rua" de Helder Goulart, em 2008, a convite da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens da Madalena;

- "Texto disperso" - festa de homenagem ao escritor Dias de Melo, em 2008;

- "A Birra do Morto" de Vicente Sanches, encenado por António Revez da Companhia de Teatro "Lêndias d'Encantar" - comemoração do Dia Mundial do Teatro 2009.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 6 de Abrl de 2013

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SABORES E DISSABORES DO PICO

Segunda-feira, 20.01.14

Quem visita o Pico no inverno não deixa de ter um ou outro dissabor. No entanto, como são tantos e tão sublimes os sabores que se nos deparam, nos circundam, em que, necessariamente, nos envolvemos e que, na ilha montanha, nos são, diariamente disponibilizados, os primeiros quase se esquecem ou, pelo menos, sublimam-se com relativa facilidade.

A ilha, flagelada por desleixos, incompetências, conflitualidades ou esquecimentos, na realidade, ainda não possui estruturas de acesso que, definitivamente, se oponham a intempéries, chuvas torrenciais, ventos, tempestades e outros reveses climáticos e enigmáticos. Causam transtornos inevitáveis, geram situações incomodativas e inculcam desesperos angustiantes. No entanto, o estigma provocado pelas más condições climatéricas, sobretudo pelo quase constante vento ciclónico com que a ilha é assolada, com alguma frequência, nesta altura do ano, nunca será curado, por mais vontade, competência e capacidade que se tenha. Pode sim, menorizar-se, aliviar-se, talvez mesmo combatê-lo com alternativas viáveis. As ligações aéreas com as restantes ilhas escasseiam no inverno e os aviões “grandes”, para o continente, fogem do Pico como o diabo da cruz. Para se viajar do Pico para o Porto e vice-versa, ou se faz uma escala por Lisboa e pelo Faial ou se pernoita em São Miguel. Além disso os preços são elevados e não há alternativas viáveis. Das ligações marítimas, limitadas, por natureza no inverno, também chegam ecos de viagens, por vezes incompreensivelmente, canceladas, portos encerrados, alternativas bloqueadas. A ferocidade do tempo (e não só) não se compadece com necessidades ou exigências e condiciona, a todos os níveis, não apenas o demandar, mas sobretudo, o viver nas ilhas, especialmente no inverno.

Mas o Pico, mesmo em pleno inverno, na sua excelência endémica, natural e pura, atrai, purifica, eleva e transcende. O chão mantem o bafo da lava e é da lava que emerge o sabor do pão. As vinhas nascem e florescem no rastro dos vulcões e o vinho tem o perfume e o paladar do enxofre vulcânico. O Pico ainda não se perdeu, por completo, no burburinho estonteante da modernidade, nem se desvaneceu na onda atraente e avassaladora do consumismo. Talvez se enfeitiçou por uma e por outro, mas cedo percebeu e recuou. Voltou a perfumar-se com os sabores das marés e os acres respingos da maresia e abrigar o seu destino na íngreme sinuosidade das veredas e maroiços, no aconchego acolhedor das casas e adegas, feitas de basalto puro.

No Pico, os homens ainda atravessam veredas íngremes, subjugados ao peso abrupto dos cestos de batatas ou dos molhos de couves, ainda atiram, com destreza, o alvião à terra e foicinho aos silvados. No Pico ainda se seca milho no forno, se pescam sargos no reboliço das marés e ainda se passa o vinho nas adegas. Há batata-doce a secar ao Sol, milheirais ressequidos, laranjais pejados de citrinos e nos pastos saltam bovinos à porfia. O bolo mantém o sabor adocicado da farinha e o bafo quente do tijolo, as postas de peixe enchem terrinas, ornadas de salsa e o caldo, suculento, fumega nas tigelas, mesmo envelhecidas e de rebordos lascados. As adegas mantêm as portas escancaradas, encenam descansos e emoções, purificam trabalhos e canseiras, envolvem sonhos e esperanças e permanecem como reservas naturais da alegria e do enfeitiçamento, como verdadeiros santuários, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua criação.

O Pico é aquela montanha de lava, atirada pelos deuses sobre o oceano, onde cantam loas as gaivotas, onde a terra se mistura com o mar e onde o Sol ilumina as manhãs com uma luz estranha e enigmática.

O Pico de outrora renasceu, trazendo o doce perfume de sabores ancestrais sem regressar a um passado que, na sua história, nunca se perdeu. A memória nunca se apaga por completo, apenas se renova, genuína, perene e repleta de emoções.

PS – Acrescente-se ainda o “dissabor” da Internet. As “pens” pagas ao minuto, “gamam-nos” euros que nem máquinas de jogos. Demoram uma eternidade a abrir e fraquejam durante o percurso. Na freguesia onde vivo, São Caetano, há um café “O Cantinho” com “sinal” aberto, mas nem sempre acessível. O ciclone, pelos vistos, deixou mossas nas antenas. A Biblioteca Municipal da Madalena, ainda é o melhor local, mas implica uma deslocação à vila.

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publicado por picodavigia2 às 21:52

VULCÕES DE MÚSICA

Segunda-feira, 20.01.14

A ilha do Pico, celebrou de forma peculiar e intensa, o dia da mártir Santa Cecília. Demudado, por razões mais que óbvias, da sua data litúrgica - 22 de Novembro - para o domingo anterior, o dia da padroeira dos músicos, havia de galvanizá-los, na ilha montanha, em desfiles musicais, em eventos, deslumbrantemente, harmoniosos e em manifestações, delirantemente, melodiosas, aspergindo a sua música aos quatro ventos. O concelho da Madalena, como aliás toda a ilha do Pico, um “viveiro natural” de aprendizes da arte de bem cantar e tocar, uma espécie de “santuário protegido” de músicos e maestros, uma “reserva preservada” de melodias, instrumentos e cânticos populares, assumiu como sua, a manhã de domingo – 18 de Novembro – e congregou nas ruas da vila, sede de concelho e junto à igreja matriz, as três filarmónicas do concelho – Sete Cidades, União e Progresso Madalenense e Lira de São Mateus - os grupos corais ou capelas de todas as freguesias da chamada zola pastoral da Madalena - Bandeiras, Madalena, Criação Velha, Candelária, São Mateus e São Caetano - assim como os ranchos folclóricos (também um existente em cada freguesia do concelho) e ainda o Coral da Madalena e a Tuna da Candelária. Por estimativa, cuida-se que terão participado activamente nesta tradicional e sumptuosa celebração vivencial da música, cerca de quatrocentas pessoas, pese embora algumas delas pertençam a mais do que um agrupamento musical. Momentos houve em que, aparentemente, parecia que o número de participantes era superior ao número de elementos do público presente. Se tivermos em conta que a população do concelho da Madalena do Pico, actualmente, é de cerca de quatro mil habitantes, poder-se-á concluir que cerca de dez por cento dos mesmos, pertence a um agrupamento musical radicado no concelho, dedicando os seus tempos livres ao ensaio, ao estudo e à prática musical. Isto significa que o concelho Madalena, decerto, ocupará lugar de relevo no top da liderança nacional, como o concelho do país com mais músicos e também com mais ranchos folclóricos por metro quadrado.

Após o desfile, as portas abriram-se e a Matriz engoliu, na totalidade, aquele acervo de músicos, cantores, tocadores e bailadores, sem distinção de vozes ou de tipo de instrumentos, para uma celebração eucarística que apenas teve um senão – ser extremamente demorada. Mas o magnífico e histórico templo madalenense, dotado de excelentes condições acústicas e com os seus altares a abarrotar de talha dourada, explodiu, impiedosamente, como se dele se soltassem labaredas de som, chamas vulcânicas, não de lava, como durante crises sísmicas sucessivas que em tempos remotos assolaram a ilha, mas sim chamas de solenes e suaves melodias musicais. Era como se ali, bem no coração da terra picoense, tivessem rebentado vulcões que em vez de lava expelissem a excelência dos acordes musicais, a polifonia das vozes, a harmonia dos instrumentos e o encanto, embevecido, das melodias – verdadeiros vulcões de música.

De tarde o epicentro desta intensa actividade musical transferiu-se para as Lajes, vila histórica e baleeira, que também havia de reunir, na sua imponente matriz, ornada de traços a simularem o gótico, a expelir suaves melodias, grande parte dos músicos que também proliferam neste concelho. Se o número de ranchos folclóricos é bem menor do que o do concelho da Madalena, o mesmo não acontece com as bandas musicais. São seis as existentes no concelho das Lajes, embora apenas uma tenha actuado durante a celebração eucarística, na homenagem prestada a Santa Cecília. O protagonismo, porém, na Matriz da vila baleeira centrou-se na actuação dos grupos corais das seis paróquias do concelho e ainda no Grupo Coral das Lajes do Pico.

As celebrações em homenagem à padroeira dos músicos continuarão noutras localidades do Pico, nomeadamente, no Santuário do Senhor Bom Jesus, no próximo dia vinte e dois.

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publicado por picodavigia2 às 15:50

E A MONTANHA COBRIU-SE COM UM MANTO DE ESPLENDOR

Domingo, 12.01.14

O Pico, talvez sem o saber ou até sem o querer ou sequer o desejar, envolveu-se, novamente, durante uns dias, em mais uma roda-viva contínua, num rodopio permanente e num reboliço desmesurado.

O Pico recebeu uma visita inédita, inesquecível, inebriante, ternurenta e benfazeja. Um jacto de ternura e simplicidade a irrigar a ilha e a alcantilar a lava enrijecida pelo tempo e decalcada, outrora, pelo trilhar permanente de pés descalços ou de albarcas frágeis e sibilantes. Uma golfada de espuma e graciosidade, a abrir-se em cachão e a tingir o oceano com o perfume inebriante da cana roca e da madre silva. Uma auréola de luminosidade e alegria, a explodir espontânea e doce e a cobrir a montanha com um manto de safiras e diademas.

Ela chegou! Inicialmente tímida e hesitante porque a montanha ainda estava imersa numa letargia irreconhecível e num sono de profundo recolhimento. Mas o Pico despertou, de imediato, com a sua chegada e logo avisou a montanha, implorando-lhe que se cobrisse de luz, de alegria, de graça, de esperança, de sumptuosidade e de nobreza. E foi então que ela, aos poucos, foi perdendo a timidez, desfazendo a hesitação e eis que despertou por completo, agarrando-se ao ciciar sibilante do vento, apegando-se ao fluxo perene das marés, soltando o seu destino sobre cada amanhecer, despejando um rio de sorrisos sobre os resíduos do enxofre da lava basáltica, transformando o Pico num rio onde despejava os seus desejos inocentes, num mar onde imperava a ternura, a inocência e a graciosidade.

Havia morangos dispersos por quintais e jardins, à espera que se abrissem os umbrais das portas e ela saísse em pesquisa e os agarrasse como se fossem troféus guardados, religiosamente, pelos seus antepassados. Nos campos floresciam physalis amarelados, protegidos em capotes aveludados, à espera que um sorriso incandescente os desfizesse em enlevos fascinantes. Nos beirais das casas pendiam, suspensas em ramos ressequidos, bagos esverdeados, gotas coloridas, aspergindo o perfume adocicado das uvas. Por entre bardos de hortênsias multicolores intercaladas com ramos de urze e troncos de cedro carcomidos pelo tempo, em pastagens incrivelmente verdejantes, manadas de “mumus” fixavam, com determinação e fascínio, o vibrar ecoante da sua passagem. O chão cobria-se de passadeiras verdes e aveludadas que, soltando um sorriso inebriante e permanente, convocavam destinos de sonho e edificavam romagens de encanto. As tardes eram sonolentas e as noites silenciosas incrivelmente mágicas. Adormecia sob as lajes negras e rijas, que o mar beijava sem jeito e sem pressa, mas, de manhã e à tardinha, a água era a rainha que impunha, dominava e alterava os destinos. E no silêncio nocturno, iluminado pelo tremelicar de estrelas e constelações, esvoaçavam, a caminho do oceano, cagarras, enchendo o céu com cantares aparentemente agonizantes, mas sublimes, misteriosos e originais.

E o Pico, de repente, transformou-se num jardim, numa espécie de éden primitivo,
onde se soltavam desejos, se encobriam desassossegos, se mistificavam vontades, se geriam sonhos, porque até a montanha, com a sua chegada, se cobrira, inequivocamente, com um manto de esplendor suave, vivificante e redentor.

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publicado por picodavigia2 às 16:59

PELOS TRILHOS DE SÃO JOÃO DO PICO

Segunda-feira, 06.01.14

A freguesia de São João do Pico explodiu cultural e desportivamente, através dum vaivém intenso, variado, pleno de vivências, encharcado de actividades e iniciativas, acorrentado à história e às tradições, galvanizado de empenhamento e dedicação, uma espécie de “vulcão de cultura e de desporto” donde emergiu uma lava agregadora, atraente e construtiva, unindo a memória do passado às vivências do presente, fortalecendo o sentido de união e o espírito colectivo, solidificando a identidade e a idiossincrasia da sua população.

Na realidade e integrando o Projecto “Freguesias CoMvida”, organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia de São João, como o já haviam feito a Ribeirinha, a Piedade e a Calheta, embora de forma diferente mas com actividades semelhantes, organizou entre os dias 21 e 28 de Abril, uma Semana Cultural e Desportiva, durante a qual se realizaram diversíssimas actividades. A Semana, agora realizada, caracterizou-se por um forte empenho dos seus organizadores e uma desmesurada afluência de participantes e constituiu um marco importante no desenvolvimento cultural e na prática desportiva não apenas da população da freguesia mas também dos forasteiros que, por estes dias, demandaram São João.

 Desta erupção de vivências culturais e de realizações desportivas, em que a semana foi fértil, emergiu, na manhã do dia 28, a realização de um trilho pedestre, por veredas e atalhos de outrora, com epicentro no Pico da Urze e que se estendeu, numa torrente de alegria, satisfação, camaradagem e confraternização, pelas encostas da montanha, quase até ao mar. Transportados até ao Pico da Urze em viaturas particulares, os cerca de cinquenta participantes num dos vários “Trilho dos Pastores de São João” iniciaram uma caminhada desde aquele monte até aos subúrbios de São João, não apenas descendo o vetusto e histórico “Caminho da Serra” mas também atravessando pastagens pejadas de gado bovino e percorrendo campos outrora a abarrotar de inhames, de frutos e de lenha. O “Caminho da Serra”, hoje um percurso abstracto, emerso em sombras e memórias, constituiu, no entanto, em tempos idos, a principal via pedestre a ligar o mar à serra, percorrida por quantos retiravam daqueles campos o seu sustento quotidiano ou, naquelas paragens, apascentavam os seus gados. Além disso, o “Caminho da Serra” também ligava aquela freguesia picoense às povoações do norte da ilha, nomeadamente, à vetusta vila de São Roque, nas demandas em Tribunal, para ir ao médico ou simplesmente consular um advogado. Era também a vereda que permitia o aceso às relvas para a ordenha, para tratar do gado alfeiro e que conduzia, diariamente, a população nas suas idas e vindas àqueles recantos serranos, para cortar lenha, apanhar inhames e sobretudo para acarretar o leite.

Orientado sob a sábia experiência do senhor Rui, profundo conhecedor daqueles párramos e andurriais desde criança, o grupo participante desfrutou de um interessantíssimo percurso pedestre que, embora cerceado, aqui ou além, por algumas dificuldades inerentes não apenas à natureza agreste e abrupta do terreno mas também provenientes do seu abandono actual, lhes proporcionou uma verdadeira caminhada de deslumbramento, de fascínio, de encanto e de magia, adocicado pela frescura do ar, pelo perfume dos campos, pelo sabor do poejo e da nêveda.

Nas encostas meridionais do Pico da Urze, a enorme e ampla Fajã, pejada de endémicas, onde sobressaem, para além do cedro, da urze e da queiró, o sanguinho, o tamujo, o rosmaninho, o pau branco, o folhado e o lendro, num chão atapetado do musgos, fetos, intercalados com árvores seculares com o tronco caiado de musgo, pejado de parasitas, com destaque para a “doiradinha”, a reivindicar para si o estatuto de um habitat em clausura, “sem ver o mar e sem ver a montanha do Pico” e que, outrora, se transformava em chá milagroso que curou os nossos antepassados dos mais variados achaques, das mais vis maleitas e dos mais atrozes sezões.

Depois da floresta endémica, as pastagens da Vereda do Giga a abarrotarem de erva verde, fresca e tenrinha, misturada com trevo, poejo, nêveda e mantastro, que fazem a delícia dos bovinos e enchem o ar de um perfume perturbante, adocicado, tranquilizante e enternecedor.

Finalmente o Outeiro do Cação, já mais cá para baixo, a fazer-nos regressar, novamente à floresta, onde agora o incenso, de braço dado com a faia e o loureiro, tem o seu império, com árvores seculares, de porte altíssimo, copas avassaladoras, transformando o “Caminho da Serra” num manancial de frescura, numa abóboda de murmúrios, numa torrente de imponência tranquilizante mas dominadora. Depois, o caminho segue ainda, ingreme e abrupto, atravessando a Falquejadura, pejado de furnas minúsculas onde se “acaçapavam” os homens para se abrigarem das intempéries e da chuva, de descansadouros, de marcos históricos, de cruzes a assinalar mortes e das ruínas da histórica Casinha da Laje, uma espécie de hall de entrada na serra e que servia de abrigo a quantos, em dias de chuva demandavam aqueles descampados.

Não ficaria completa, esta crónica, se não informasse os leitores, que o grupo, atravessando, agora sim, as modernas e alcatroadas ruas de São João, continuou, é verdade que já um pouco desfeito e sem recurso ao guia, a caminhar, como se do “Caminho da Serra” se tratasse, indo desembocar, ali mesmo, no restaurante “Tacão”, com janela debruçada para o mar e onde os caminhantes que assim o entenderam, puderam saborear um excelente almoço e desfrutar de um agradável e inesquecível convívio.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 01/04/12

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publicado por picodavigia2 às 19:23

O GRUPO CORAL DAS LAJES DO PICO NA ABERTURA DA SEMANA DOS BALEEIROS

Sábado, 28.12.13

Ontem, dia 20 de Agosto de 2012, realizou-se a sessão solene da abertura da semana dos baleeiros, nas Lajes do Pico, presidida pelo Engenheiro Roberto Silva, presidente da Câmara daquela vila picoense,

Para além do presidente da edilidade, usaram da palavra o Dr Miguel Costa, Director Regional dos Equipamentos e Transportes, em representação do presidente do Governo Regional, o pároco da Matriz Lajense e o presidente da direcção do Grupo Coral das Lajes do Pico, Dr Manuel Francisco Costa.

No entanto o que mais caracterizou esta sessão de abertura da semana dos baleeiros e da festa de Nossa Senhora da Lurdes foi a actuação do Grupo Coral das Lajes do Pico que apesentou ao público com um repertório diversificado, com interpretação de obras de música clássica, de autores açorianos (Emílio Porto, Edmundo Oliveira, António Dionísio e outros) e ainda alguns números de música regional das ilhas.

A actuação do Grupo Coral das Lajes do Pico foi extremamente aplaudida pelos presentes, pelo facto de se tratar da primeira actuação oficial daquele Grupo, após o falecimento do seu fundador e maestro de sempre, Manuel Emílio Porto, em Abril transacto, sendo agora a direcção musical do grupo da responsabilidade do jovem maestro Ildeberto Peixoto, professor de música e vereador da Cultura da Câmara municipal lajense.

No discurso que proferiu, o presidente da direcção do Grupo Coral das Lajes do Pico, Dr Manuel Francisco Costa, referiu, com emoção, saudade e agradecimento,  a figura de Emílio Porto e do seu inequívoco contributo na formação e direcção musical do grupo desde a sua formação em 1983, até à altura em que faleceu, bem como o seu valioso contributo como músico de excelente qualidade e que nos legou um notável acervo musical.

Outro facto digno de relevo é o de esta cerimónia ter como cenário a igreja Matriz das Lajes, o que, não sendo inédito, é um bom augure do quanto se pode e devem aproveitar espaços destes, amplos, dotados de excelentes condições acústicas e subaproveitados, uma vez que até agora tinha uma muito reduzida utilização semanal – cerca de uma hora, apenas aos domingos e dias festivos.

A semana dos baleeiros continua recheada de actividades, entre as quais sobressaem muitos de índole cultural, mantendo assim uma tradição desde há muito arreigada nas festividades da Senhora de Lourdes, naquela que é considerada a vila mais baleeira de todas.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 21/08/12

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publicado por picodavigia2 às 18:41

SIMPLESMENTE INVEJÁVEL

Quinta-feira, 26.12.13

Desfrutando de um tempo verdadeiramente primaveril, a ilha do Pico reveste-se, nesta altura do ano, de bonança, de tranquilidade, de graça, de beleza e duma amena solicitude. Simplesmente invejável! A montanha, imponente e altiva, cobre-se, bem lá no cume, de um véu alvíssimo, enternecedor, enovelado pelos raios doirados de um Sol acariciador e compassivo. Depois, pelas encostas abaixo, a escorrer como se fosse lava, um manto verde de pastagens e de florestas, a cobrir os andurriais circundantes, a derramar-se e a estender-se até às terras de cultivo e aos vinhedos, ainda ressequidos, à espera da poda, quase até aos casebres e às habitações das pequenas mas graciosas povoações, plantadas à beira-mar, como que a fazer uma espécie de ponte de alvura e graciosidade, entre a montanha e o oceano, entre a terra e o mar.

Na realidade, nestes últimos dias de Fevereiro, o Pico tem usufruído de um Sol bonançoso e benfazejo, que se atira em catadupa, abrupto e à esmo, parece mesmo que inconsciente ou quase louco, pela montanha abaixo, iluminando os seus recantos mais recônditos, aquecendo as encostas menos soalheiras, acariciando os andurriais circundantes, cavalgando sobre o dorso negro da ilha. Depois, numa louca correria, avança até cá a baixo, na direcção de campos e pastagens, de hortas e quintais, borrifando-os de verde, transformando-os em vida, conferindo-lhes uma frescura mágica, um dinamismo sobrenatural, um capacidade produtiva senão única, pelo menos rara e pouco vulgar. Nas encostas do Pico, com este Sol tonificante e com a chuva, sempre atrevida, sempre atiradiça e sempre à espreita duma oportunidade, por mais pequena que seja, para substituir o Astro-Rei, tudo nasce, tudo floreste, tudo renasce e tudo se torna vida. No ar paira um perfume a trevo e erva da casta, das encostas chovem sabores de incensos e de faias, nas hortas e pomares vertem-se sumos adocicados e até nos maroiços reina o sabor apetitoso, do funcho, da hortelã, da salsa e do rosmaninho. Os campos a abarrotar de forrageiras povoam-se de bovinos, é verdade que amarrados à estaca, sem a liberdade dos que proliferam nas pastagens do mato, porque limitados e condicionados pelas exigências de uma boa estrumação dos terrenos com vista às colheitas que aí vêm. Mas até aí a vida nasce, cresce, se firma e estabelece. Aa vacas dão à luz os vitelos rechonchudos e vivaços, as cabras seguem-lhe o exemplo, os pássaros povoam os ares em alegres danças e enigmáticos cantares e até o Oceano, bem plantado aqui em frente, como que se torna mais calmo, mais azul, mais tranquilo. Lá ao longe uma embarcação, um veleiro, um navio de que se adivinha o destino.

Tudo é vida, tudo é graça, tudo é luz, neste Pico pré-primaveril! O tempo é de Sol, de visibilidade, de calma, tranquilidade e de bonança. Os dias são de luz, de brilho, de paz, de trabalho e de alegria. Transformam-se em vida, são a própria vida. A vida dos que aqui vivem, trabalham, labutam e erguem uma enorme montanha coberta com um manto de sonhos retalhados, de esperanças desfiadas, de tranquilidade e de quietude perenes.

Mas o Pico, com este tempo admirável, também é simplesmente invejável, para os que o demandam nesta época. Na realidade quem visita os Açores, nomeadamente a ilha do Pico, durante estes últimos dias de Fevereiro, para além de desfruir de um tempo maravilhoso, pode ufanar-se de ter o privilégio de apreciar paisagens de uma beleza rara, de uma expressividade inconcebível e duma graciosidade invejável. Assim como o Pico, as restantes ilhas açorianas, são na realidade espaços raros, desconhecidos, privilegiados, como que encerrados numa espécie de redoma de cristal, que urge quebrar

Anacronicamente, durantes estes dias de rara beleza e de sublime graciosidade, a abarrotar de calmaria e bonança, aureolados por um Sol encantador, alguns média sediados na capital, na sua habitual informação sobre o estado do tempo, anunciavam, para as ilhas açorianas:“…céu muito nublado e alguns aguaceiros”.

Texto publicado, no Pico da Vigia, em 28/02/12

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publicado por picodavigia2 às 14:55

PELOS TRILHOS DA RIBEIRINHA NA DEMANDA DO ALTO DOS CEDROS

Domingo, 22.12.13

Integrando o Projecto “Freguesias CoMvida” organizado pelo pelouro da Cultura da Câmara Municipal das Lajes do Pico, a freguesia da Ribeirinha do Pico, a mais jovem do concelho lajense, organizou, entre os dias 27 de Fevereiro e 4 de Março, uma semana cultural e desportiva, durante a qual teve lugar um conjunto de actividades diversíssimas, das quais se destacaram workshops, tertúlias, feira do livro, música, teatro, literatura, programas educativos, trilhos, jogos de salão, jogos tradicionais, passeios, fotografia, etc.

Entre estas actividades que, segundo a opinião dos seus organizadores, tiveram uma adesão bastante significa por parte da população, teve lugar, na manhã do dia 4 uma interessantíssima caminhada pedestre por trilhos antigos, outrora calcorreados pelos homens e pelas mulheres da Ribeirinha, de pés descalços ou de albarcas, a labutar nas suas lides agrícolas diárias. Trata-se de caminhos outrora repletos de pessoas, de animais, de vida, de pujança e de animação, percorridos por carros de bois a sulcar-lhes as pedras, e a marcá-las para sempre com rilheiras, ainda bem visíveis, mas hoje abandonados e quase desertos, a abarrotar de árvores, de vegetação, de sombras, de ecos da chiadeira de carros e de murmúrios silenciosos, mas ainda detentores duma beleza sublime e de uma graciosidade inaudita.

O grupo, que se dispôs a percorrer estes eternos caminhos de um passado recente mas ainda bem presente nalgumas memórias, era constituído por vinte e três pessoas, sob a orientação do Sr Flávio, um ribeirense de gema, profundo conhecedor e amante da sua terra. Cada vereda, cada caminho, cada atalho, cada pedra, cada árvore, cada planta, cada erva, cada pássaro e até cada árvore derrubada, parecem estar-lhe no sangue e pertencerem ao seu quotidiano, ao mesmo tempo que, nos seus périplos pela natureza, estabelece com cada um dos seus elementos uma perfeita relação de estima, de respeito, de reconhecimento e de profunda amizade.

Saindo do Largo do Império, ali mesmo junto à Ribeira do Fundo, a receber lá em cima a confluência das ribeiras dos Valinhos e do Poço da Areia, atravessámos a Rua da Igreja e entrámos na Canada do Outeirão, com destino à parte mais interior da freguesia e da ilha. Depressa atingimos a Estrada Nacional, antes porém, examinámos aquilo que outrora foi uma eira de debulhar o trigo e o centeio, embora já sem moirão e bastante abandonada. De seguida iniciámos a subida do Caminho Novo, até à Travessa, sendo possível observar, à mistura com alguns terrenos de cultivo de inhames e pastagens, uma vegetação onde dominam os incensos e as faias, intercalados algumas acácias gigantescas, espécie importada da Austrália e que durante muitos anos abasteceram a pujante construção naval da vizinha freguesia de Santo Amaro. O caminho está pejado de erva néveda, de erva férrea, de erva branca, de salsa-parrilha, de junça brava e de mentrasto, a conferir-lhe um perfume adocicado e um sabor amarelecido. São os saborosos inhames destas paragens que outrora, juntamente com os “torresmos tolos”, guardados juntamente com pedacinhos de linguiça na “cabouca”, serviam de lauta refeição matinal, a revigorar, logo pela madrugada, os homens que cavavam estes campos e que carregavam molhos, cestos e sacos por estas íngremes e sinuosas veredas. Zona de densos arvoredos, de arbustos, de ervas, de flores e de frutos, é território privilegiado da “Forfalha” ou “Estrelinha”, um dos mais pequenos pássaros do Pico.

Terminado o Caminho Velho, entrámos na Travessa que nos conduziu à Ribeira do Poço da Areia, descendo, de seguida, até à estrada Nacional, ao longo da sua margem direita, povoada por um denso arvoredo, muito dele derrubado por fortes vendavais, onde pontificam muitas espécies endémicas como a Urze o Pau Branco, o Sanguinho, o Loureiro e o Vinhático.

Depois a Mata, outrora local da grande festa dos lavradores  a rivalizar com a da Baixa, celebrada junto ao mar, a Terra Alta e a descida do Caminho Velho, onde também são visíveis as rilheiras marcadas pelas rodas dos carros de bois a circular por ali abaixo anos a fio. Finalmente a descida da Ladeira, a meio da qual virámos para o Caminho da Rocha, na demanda do mais belo e mais emblemático miradouro da freguesia: o Alto dos Cedros. Dali, apesar do nevoeiro e da neblina reinantes, foi possível apreciar uma das mais belas paisagens da ilha do Pico, da sua costa norte, altiva e imponente, a abarrotar de verdura, com São Jorge lá ao fundo, separado da ilha montanha pela insustentável e perene braveza do oceano.

É verdade que por ali não há cedros, apenas zimbreiros. Perante a estranheza dos presentes, a explicação foi rápida e eficiente: que a origem daquele topónimo, nada tem a ver com a espécie vegetal sua homónima, mas sim com uma importante e ilustre família ribeirense, de apelido “Cedros”, que por ali abaixo, outrora, possuía terras, hortas, vinhas e adegas.

A Semana Cultural e Desportiva da Ribeirinha encerrou, à noite, com um sarau, durante o qual foi apresentado o livro de Guiomar de Lima, sobre Dom José Vieira Alvernaz, Patriarca das Índias e um dos mais ilustres filhos daquela freguesia picoense e em que actuou, sob a orientação do Maestro Emílio Porto, também ele natural da Ribeirinha, o Grupo Coral das Lajes do Pico, deliciando o público com uma soberba interpretação de alguns dos mais belos temas musicais do seu vasto repertório.

Texto publicado no Pico da Vigia, em 05/03/12

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publicado por picodavigia2 às 22:30

O GRUPO CORAL DAS LAJES DO PICO

Sábado, 07.12.13

O Grupo Coral das Lajes do Pico, declarado em 2009 de interesse público, pelo Governo Regional dos Açores, foi criado em 1983, segundo os seus fundadores, apenas com o objectivo de colaborar e abrilhantar as comemorações do primeiro centenário da Festa de Nossa Senhora de Lurdes e da Actividade Baleeira nas Lajes do Pico. Nessa altura, o Grupo para além de abrilhantar as festas religiosas participou também na sessão solene de abertura da Semana dos Baleeiros, apresentando um reportório variado, executando temas populares açorianos. Na origem do seu aparecimento estão o seu actual maestro Manuel Emílio Porto e o Padre Dr. António Rogério Andrade Gomes, na altura pároco nas Lajes do Pico.

No entanto e por vontade manifesta de alguns dos seus elementos, o grupo continuou e manteve uma constante actividade, até que em 1996, lançou o seu primeiro CD subordinado ao tema “Música Popular Açoriana”. Nos últimos anos, tem desenvolvido diversas actividades, dentro e fora do Concelho das Lajes do Pico, tendo lançado mais dois CD’s: “Montanha do Meu Destino”, em 2000 e “Música em Tempo de Festa” em 2005. Recentemente e por altura da Semana dos Baleeiros, o Grupo Coral das Lajes do Pico apresentou o seu quarto trabalho intitulado “Espírito Santo”, tendo gravado assim um quarto CD que contém onze temas, relacionados com as festas açorianas em honra do Paráclito, nomeadamente, o chamado “terço” do Senhor Espírito Santo, ainda hoje cantado por populares nas novenas realizadas como preparação para a festa, na própria casa do Mordomo, onde os símbolos da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, ocupam lugar de relevo.

Segundo as palavras do seu maestro, Emílio Porto, o Grupo “ tem como objectivo principal a cultura da música vocal polifónica, com ou sem o apoio de instrumentos, formação técnica de voz e musical dos seus membros, promoção da música sacra e profana, em especial a música popular açoriana, podendo alargar a sua actividade a outras acções culturais e recreativas”.

Para atingir este objectivo, o Grupo Coral das Lajes do Pico desenvolve a sua actividade em diversas áreas, fazendo-se notar, nomeadamente, em aniversários de sociedades filarmónicas e desportivas, no lançamento de livros, nas semanas culturais e nos Encontros de Coros. Ao longo do seu percurso musical, o Grupo Coral das Lajes do Pico promoveu a união de vários grupos etários no ensino e divulgação do canto e levou o nome do Concelho das Lajes do Pico e da Região Autónoma dos Açores a diversos locais, nacionais e internacionais, para onde foi convidados a actuar – Angra, Ponta Delgada, Vila do Conde, Horta e Cedros, São Roque – em todas as freguesias; Madalena – em quase todas as freguesias; Lajes – em todas as freguesias; em 1997 participou na 1ª Semana cultural dos Açores em Toronto – Canadá; e nos Encontros de coros: em Cangas do Morrazo na Galiza; Santiago de Cacem, Santo André, Moita, Aljustrel, Sines, Mafra, Ericeira e Velas – São Jorge.

O Grupo, sob a competente e sábia orientação do seu maestro Emílio Porto, tem procurado manter-se fiel ao tipo de música que escolheu para cantar em 1983 – a música de raiz popular, açoriana e portuguesa, com alguma incursão na música dos novos compositores açorianos. Por isso, no seu reportório tem predominado a música popular açoriana, com temas como A Lira, Os Braços, A Tirana, O Tanchão, Olhos Negros, Saudade, Sapateia, Chamarrita e outros relativos ao Natal e ao Espírito Santo.

O Grupo é constituído, actualmente, pelos seguintes elementos:

Maestro – Manuel Emílio Porto.

Sopranos: Ana Maria Sequeira, Cleide Soares Pereira, Graça Machado Oliveira, Helena Maria Alves Barreto, Inês Maria Terra Brum, Janete Melo Lima, Lina Cristina Soares Azevedo, Lurdes da Conceição Soares Melo, Maria de Fátima Soares Betencourt, Maria Amélia Brum Pereira, Maria Adelina Machado Ávila, Maria da Graça Lopes Machado Ávila, Maria Goretti Alves Gonçalves, Maria de Jesus Maciel, Maria Norberta Maciel, Mercês Maria Mendonça Maciel, Mónica Patrícia de Melo Alves, Mónica Ávila, Márcia Machado e Márcia Isabel da Costa Machado.

Contraltos: Alda Maria Macedo Soares, Andreia Pereira, Celina Carmo Fontes, Esmeralda de Fátima Vargas, Eva Maria Vieira Goulart, Maria Ermelinda de Brum Bettencourt, Maria de Lurdes Bettencourt Oliveira, Maria Adosinda do Nascimento Ávila, Maria do Carmo Meireles Costa, Orlanda Maria Rodrigues Quaresma, Rosa Maria Soares da Costa, Teresa de Fátima Duarte Silva, Helena Maria Goulart Ávila, Sandra Catarina Duarte Ferreira e Josué B. Machado Vieira.

Baixos; António Pedro Garcia Alvernaz, João Simas Jorge, José António Bernardo Maciel, Manuel Alves Gonçalves, Manuel Pereira Bettencourt, Manuel Urbano Dutra, Roberto Madruga Soares e Rui Pedro Ávila.

Tenores: Francisco José Vieira Soares, Helder Manuel Gomes Fernandes, Jorge Alves Jorge, Leandro Macedo Soares, Manuel Paulino Goulart e padre João da Ponte,

Clarinete: Hildeberto Manuel Pereira Peixoto. Violas: Manuel Francisco Costa, Hugo dos Santos Cardoso, Manuel Paulino Soares da Costa. Violão: Fernando Santos Cardoso.

Solista: Lurdes Melo.

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publicado por picodavigia2 às 18:30

O PICO EM NOVEMBRO

Domingo, 01.12.13

O Pico, em Novembro, é um oásis de serenidade, um paraíso de bem-estar, uma espécie de reserva de sossego ou um seleiro de tranquilidade, onde as manhãs são uma comunhão permanente com a natureza, as tardes ombreiam com o verde perene da montanha, diluindo-se, ao fim do dia, no azul plácido do oceano, enquanto as noites se aproximam, rápidas, a galvanizarem-nos, numa terna e envolvente quietude que nem as estrelas espanta.

O Pico, em Novembro, lisonjeia-nos com o silêncio estonteante das brisas matinais, entrelaçado com o chilrear irreverente e estouvado da passarada e com os murmúrios maviosos das marés, incensa-nos com os salpicos adocicados duma maresia adormecida, ondulada, apenas, com o sulcar dolente das quilhas das embarcações, a rilharem em redopio, na demanda de chicharros e bonitos.

 O Pico em Novembro, enleva-nos no aroma vertiginoso do mosto efervescente das adegas, encharcado de lava e perfumado a enxofre e embala-nos no escurecer zonzo e colaço das noites claras, luminosas, embebidas de luar e de sublimidade. No Pico, em Novembro, até a lava dos currais se torna mais negra, a sombra dos maroiços mais entontecida, o piso das veredas mais atapetado, os murmúrios das florestas mais inebriantes, o vai e vem das marés mais atrevido, os gritos dos cagarros mais sibilantes e os fluxos do horizonte, estranhamente, melhor delineados.

No Pico, em Novembro, há castanhas e araçás a atapetar o chão de lava doirada, batatas-doces a transbordarem dos cerrados e folhas amarelas, aureoladas de perfumes e aromas, dançando nos ares como bonecos embriagados que amedrontam o vento e afugentam tumultos intempestivos, perturbantes e aterradoras.

No Pico, em Novembro, há sobretudo, um Sol que, embora tímido, é gratificante e consolador, a desfazer madrugadas sombrias e enevoadas e a aniquilar, por completo, as tardes escurecidas e anuviadas. No Pico, em Novembro, florescem crisântemos e miosótis a amansarem a saudade inaudita dos que já partiram para a eternidade.

No Pico em Novembro há uma estranha força telúrica que nos atrai, prende e enleva. A Ilha Montanha, qual gigante adormecido no meio do atlântico, cobre-se com mantos de tonalidades variadas onde predomina o verde pardacento das encostas, o azul dourado do oceano, o amarelo suculento das folhas secas, o vermelho dos araçás e das maçãs e o negro enigmático das paredes das adegas, dos currais, dos maroiços e de uma ou outra casa. O Pico, em Novembro cobre-se de sons suaves e melodiosos, de sinfonias contagiantes e deleitosas que ecoam pelas encostas e colinas e salpicam de espuma esbranquiçada o alvorecer tranquilo e esfuziante de cada dia.

No Pico, em Novembro, os vales e os montes, as encostas e os penhascos, os atalhos e as veredas, os currais e os maroiços irradiam perfumes contagiantes e atraentes que calcificam o espírito e impingem ao corpo um sopro de sustentável leveza.

No Pico, em Novembro, a alta e esconsa Montanha ergue-se mais imponente do que nunca e, quando descoberta, deixa livre a suprema sensação de se viver entre a terra e o céu.

No Pico, em Novembro, as vilas, os povoados, as casas esbranquiçadas e espalhadas ao longo das encostas ou mesmo as construídas com blocos de lava preta junto ao mar brilham, fulguram, luzem e reluzem, alinhadas entre o negro clarificante dos baixios e o verde fresco da vegetação dos cabeços, sobre o amparo ternurento da Montanha.

No Pico em Novembro, o mar enche-se golfinhos e bonitos, de castanhetas e peixes-reis, de sargos e abróteas e até as cagarras aproveitam o sossego das noites, para ensaiarem os seus bailados debutantes.

No Pico em Novembro, prova-se o vinho, celebra-se o São Martinho e até a chamarita tem um sabor mais atraente e a lava um perfume mais delirante.

 O Pico, em Novembro, é uma espécie de súmula de um pequeno mundo construído durante séculos por baleeiros, agricultores e pescadores, onde proliferam os seus minúsculos povoados, sublimes e aconchegantes, debruçadas sobre o mar, a espreitar a bonança que renasce em cada madrugada e se ofusca, suavemente, com a edificação dos crepúsculos outonais.

O Pico, em Novembro é um paraíso, um sonho para todos os amantes do silêncio e da natureza, para quem anseia envolver-se entre o rendilhado negro e rude dos baixios, apreciar o verde flutuante das encostas, acariciar o amarelado das folhas debilitantes dos vinhedos, penetrar nos campos calafetados de lava ou até subir a imponente Montanha, conquistando uma enigmática e inesquecível sobrenaturalidade.

O Pico, em Novembro, é um sonho bordado a púrpura, um paraíso ungido com encanto, um éden pincelado com silêncio. 

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publicado por picodavigia2 às 10:53

LAILA-DARK

Quinta-feira, 28.11.13

Em frente o cais a abarrotar de pessoas, de carros, de movimentos, de luz e de cores.

O cais, ponto de partida e de chegada.

Para a partida fervilham pequenas embarcações à espera dos que sonham com a aventura de observar baleias ou de golfinhos.

Para a partida carregam-se malas, trocam-se abraços, evadem-se emoções.

Mas já não há homens de albarcas, chapéus de palha e calças de cotim a soltar as amarras perdidas e desgastadas pelo tempo, nem mulheres de avental de chita e lenço de merino, com cestas de fruta à cabeça.

Na chegada arrastam-se sobre o pedregulho dezenas de barcos que durante a noite se embalaram, ao sabor das ondas, na pesca das abróteas, das garoupas e dos bocas-negras, ou as traineiras que perseguiram pesqueiros mais distantes na busca de bonitos e albacoras.

Mas já não há homens a gritar: “Eh, charro fresco”.

Na chegada também se esperam pessoas e coisas vindas do Faial e quiçá de outras paragens.

Ainda manhã e o cais da Madalena, ali mesmo em frente ao Laila-Dark, a abarrotar de homens, de mulheres e de crianças com raças, nacionalidades diferentes. Uns à espera de partir, outros na ânsia de chegar e alguns apenas a observar aquele amanhecer de partidas e de chegadas, sublime, claro, divinal e bonançoso.

Lá ao fundo o Faial a espreguiçar-se sobre os primeiros raios de luz emanados lá do longe, da ponta dos Rosais.

Atrás a enorme e altíssima montanha do Pico, ravinada de lava, aspergida com salpicos de nuvens e envolvida por um clarão de imponência e singularidade.

No meio, e a separar por momentos, as duas ilhas, o mar, azul, coroado com ondas de sonho e respingos de fascinação.

E lá dentro, do Laila-Dark, sentado numa mesa do café, é possível ver o mundo, no pequeno ecrã de um computador

Como é tão igual e tão diferente este Pico de hoje e o Pico de ontem.

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publicado por picodavigia2 às 09:05

CORTEJO ETNOGRÁFICO NAS LAJES DO PICO

Domingo, 24.11.13

Embora escrito no final de Agosto do ano transacto e publicado mo meu blogue “Pico da Vigia, em 1 de Setembro, não resisto a divulgar aqui o seguinte texto:

Integrando o vasto, ambicioso e variado programa da Semana dos Baleeiros e da Festa da Senhora de Lurdes, realizou-se, no passado dia 27 de Agosto de 1011, nas Lajes do Pico, um aliciante e primoroso cortejo etnográfico.

Ao longo de quase duas horas, desfilaram pelas principais artérias daquela “Vila Baleeira” picoense, cerca de uma dezena de carros alegóricos, representando as seis freguesias do concelho e alguns lugares que integram as mesmas, cujos motivos ornamentais recordavam a vida, os costumes, os trabalhos e até alguns momentos de lazer das gentes do Pico, em tempos idos e que, apesar de não muito longínquos, começam a perder-se na memória das gerações actuais.

Os trabalhos agrícolas, nomeadamente o do cultivo do milho, da sua recolha e guarda nas “burras”, o debulhar das maçarocas, o levar a moenda ao moinho, a farinha moída e o bolo cozido no forno, foram temas de alguns dos carros, embora abordados de formas diferentes e sobre aspectos díspares. Outros carros preferiram tratar o trabalho de antanho relacionado com a criação de gado, o seu tratamento, a ordenha e o fabrico do queijo. Alguns carros, porém, ficaram-se pelas festas, como por exemplo a do casamento, enquanto outros recordaram os jogos de antanho, nos quais se incluíam os serões, durante os quais se jogava à sueca, se bailava a chamarrita, mas também durante os quis se trabalhava, quer na descasca do milho, quer no cardar e fiar da lã, ou até no fabrico de capachos com a própria folha do milho. Todos os carros, porém, estavam interessantemente ornamentados com produtos da ilha, nomeadamente com as belas flores de roca, revelando muita dedicação, apurada sensibilidade e acentuado bom gosto.

Um dos carros, precisamente o que abria o cortejo, no entanto, chamava mais a atenção, quer dos habitantes da vila, debruçados às varandas e janelas de suas casas, quer de muitos forasteiros perfilados pelos passeios e ruas da vila. Citando o blogue “Alto dos Cedros” do Emílio Porto “Com efeito, e logo no início, apareceu um dos quadros mais belos de quantos tem vindo às Lajes por estas festas, e este ano, verdade se diga, que foram todos bons”, tratava-se de um carro preparado e apresentado pela freguesia da Ribeirinha, que representava um quadro da vida daquele que foi um dos maiores vultos da cultura picoense e um dos mais altos dignitários da igreja açoriana – D. José Vieira Alvernaz, Arcebispo Metropolitano de Goa, Patriarca das Índias e Primaz do Oriente, recordando, assim, o 25º aniversário da sua morte. Natural da freguesia da Ribeirinha da ilha do Pico, formado na Escola Primária da Piedade, no Seminário de Angra e na Universidade Gregoriana de Roma, José Vieira Alvernaz, foi um dos grandes vultos da cultura açoriana, tornou-se num alto dignitário da igreja católica, recebendo a admiração das gentes da freguesia que o viu nascer, de quem se orgulham e que agora lhe prestou esta singela mas expressiva e digna homenagem.

Um facto a realçar neste cortejo e digno de nota foi a atitude do senhor presidente da Câmara das Lajes do Pico. É que normalmente, em ocasiões semelhantes, os presidentes de câmara e demais autoridades sentam-se num baldaquino simplesmente para “ver passar” o cortejo. Pois o edil lajense, dando um excelente exemplo de trabalho, dedicação e, até, de humildade, decidiu tirar a gravata, arregaçar as mangas e meter-se ao trabalho, andando por entre os carros, orientando, ajudando, apoiando a fim de que tudo corresse da melhor forma, como de facto aconteceu.

Outro aspecto muito interessante e algo inovador foi o do estabelecimento de comunicação entre os que desfilavam e público, criando-se ondas de empatia e comunicabilidade bem expressas na distribuição de pedacinhos de bolo e queijo e de outras vitualhas aos espectadores espalhados ao longo das ruas.

Pena que as freguesias dos outros dois concelhos da ilha não se tivessem associado a tão bela manifestação dos valores culturais, das tradições e costumes do Pico, o que, por certo, teria tornado este cortejo mais rico, mais belo e, quiçá, mais completo e abrangente.

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publicado por picodavigia2 às 15:06

ELE ELA E O PICO

Sábado, 23.11.13

Chegaram! E, à semelhança dos primeiros descobridores, saltaram de ilha para ilha, imersos na incerteza do destino, mas imbuídos de uma enorme ânsia de se emaranharem uma irrequieta e turbulenta aventura. Navegaram num mar repleto de veleiros, de brumas, sobrevoado por gaivotas, mas a abarrotar de tranquilidade, de calma, de confiança, de ternura e de mansidão. Um mar, onde o infinito era limitado e onde a noite teimava em ser dia e perdurava numa claridade acariciadora e permanente. Viajaram num barco repleto de ilusões, de sonhos e de esperanças, orvalhando o rosto com o perfume da maresia, saboreando os salpicos esbranquiçados da espuma, divertindo-se com o balancear cadenciado das ondas, soltando os cabelos à porfia com o vento.

E do mar pularam atrevidamente para terra, sem medos e sem receios. Desembarcaram num porto de pedra carcomida pelo tempo, com barcos a arrastarem-se sobre o pedregulho e com moitões já gastos pela pertinência contínua das amarras. E entraram pelo Pico dentro com a expectativa dos primeiros povoadores e abraçaram-se à enorme e imponente montanha como se ela tivesse sido sempre sua, como se fosse a principal herança dos seus antepassados.

Ela mais velha, mais ousada, mais desejosa de tudo ver e sentir. Ele mais novo, mais tímido e hesitante, mais ávido de tudo tactear e querer. O Pico muito alto e esguio, ora banhado de Sol e de vento, ora envolto em nuvens e chuviscos. Mas para os receber paramentou-se de lava e de fascinação, revestiu-se de faias e vinhedos e pediu à Lua que os acompanhasse, ao menos nas primeiras noites. E o silêncio misterioso da montanha e a imensidão inequívoca do mar, cedo, lhes fizeram esquecer os grunhidos roufenhos da cidade de cimento, o burburinho persistente das ruas apinhadas de carros e de gente, as prisões paralisantes do quinto andar, o emaranhado aterrador dos barulhos que desfazem o silêncio.

E o Pico tornou-se para ela e para ele o seu principal brinquedo. E logo descobriram que junto à ilha, a protege-la e a bafejá-la, estava o mar. Viram-no, sentiram-no, quiseram-no e agarraram-se a ele como se fosse o seu brinquedo de sempre. Banharam-se em águas cálidas, perfuraram ondas sibilantes, nadaram com peixes e gaivotas, banharam-se entre algas e caranguejos, saltaram do alto dos rochedos perfurando as profundezas do oceano e até pescaram. E o mar passou a fazer parte do seu quotidiano, transformando-se no epicentro dos seus folguedos e brincadeiras.

Depois descobriram a terra, feita de um chão de lava negra mas a abarrotar de vinhedos, de milheirais, de faias, de canas e de árvores de fruto. A terra que lhes dava o pão, o bolo, o leite, a carne, as batatas e os legumes para a sopa. E procuraram-na, tocaram-na cavaram-na e até a cobriram de mimos e afectos, acariciando-a com as próprias mãos. Semearam, plantaram, alisaram o chão de lava negra e dele extraíram batatas, inhames, cebolas e cenouras. Apanharam flores e colheram frutos. Deliciaram-se com o mosto adocicado das uvas e o sabor agridoce das amoras. Descobriram que este chão é um mar de lava negra e fria, plantado entre escarpas e veredas e que este mar é um chão de espuma dulcificada, imerso em neblinas e caligens. Perceberam que este chão é povoado por homens de chapéu de palha e de mãos calejadas que lavram os campos e sulcam o mar e de mulheres que calçam albarcas, moçoilas robustas que cozem o bolo e amassam o pão de milho, que atrelam os bois ao arado e que aos serões ainda dançam a “Chamarrita” e cantam o “São Macaio”

E à noitinha, quando ela e ele se sentavam sobre os rochedos enegrecidos e agrestes da beira-mar, aguardando, expectantes e ansiosos, o mítico canto das cagarras, ela e ele descobriram que aqui, no Pico, tudo é tão diferente e que até o céu tem mais estrelas

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publicado por picodavigia2 às 21:53

UMA BOA NOTÍCIA PARA O PICO

Segunda-feira, 18.11.13

Finalmente aconteceu! Ao que parece, já se efectuou, no aeroporto do Pico, o primeiro abastecimento a um avião da TAP. No passado domingo, dia 24 de Julho de 2011, o A-320, Luís de Freitas Branco, procedente de Lisboa e ainda com escala prevista pelo aeroporto das Lajes terá sido reabastecido no aeroporto do Pico por um auto-tanque ali existente desde há alguns meses. Na véspera, a título experimental, já teria sido reabastecida uma aeronave da SATA, a circular entre as ilhas. Recorde-se que desde há algum tempo que a Associação Comercial e Industrial da Ilha do Pico, fundamentando-se na esperança de em breve ser inaugurado o abastecimento de aeronaves com JET A1 no aeroporto do Pico, reclamava junto do Governo Regional Açoriano mais ligações directas semanais entre Lisboa-Pico, alegando que só em 2010 tinham sido transportados 11.114 passageiros de e para o Pico.

Embora não tendo sido anunciada nos órgãos de comunicação social, talvez porque não houve uma inauguração à altura do evento, nem sequer o site da Rádio Pico o referiu, talvez porque mais preocupada com o “Escaravelho no Pico”, a notícia foi apenas divulgada em alguns blogues relacionados com a ilha Montanha, nomeadamente a “Escrita em Dia” de José Gabriel Ávila e “Bassalto Negro” de Palpereira.

A ser verdade, dado que os blogues referidos são dignos de crédito e o provam com fotos, o facto de a partir de agora haver possibilidade de os aviões se abastecerem no aeroporto picoense, será a altura de algo de muito de importante e significativo se alterar para os passageiros que viajam para o Pico, assim como os que partem daquela ilha com destino ao continente, dado que surge a esperança de que, a partir de agora, algo mude substancialmente nos voos entre o continente e a segunda maior ilha açoriana. Por um lado as viagens Lisboa-Pico-Lisboa, até agora, limitavam-se a um voo por semana, aos sábados, alegando-se que isso se devia ao facto de qualquer voo da TAP com destino ao Pico tivesse necessariamente que passar pela Terceira, a fim de se abastecer, uma vez que era de todo impossível fazê-lo no aeroporto do Pico. Como isso agora já não acontecerá, decerto que se irá alargar o número de voos semanais para o Pico, até porque dias há em que existem dois voos oriundos de Lisboa com destino ao Faial, mas repletos de passageiros com termo de viagem no Pico. Além disso, muitos outros passageiros que têm a ilha Montanha como destino, fazem escala por São Miguel ou pela Terceira e, por vezes, até pelas duas ilhas. Tudo isto significa perdas demasiadas de tempo, gastos excessivos e aumenta significativamente o preço das passagens, devido ao excesso das taxas de mais um ou dois aeroportos. Além disso, as ligações Pico-Porto estão totalmente esquecidas. Assim, quem do Pico pretende viajar para o norte do país apenas tem duas péssimas alternativas para o fazer: ou viaja pelo Faial fazendo a ligação com o Porto em São Miguel ou na Terceira ou viaja do Pico para S. Miguel, só que, neste caso, apenas poderá sair do Pico às 18,30, sendo que o voo de Ponta Delgada para o Porto parte meia hora antes, pelo que necessariamente terá que pernoitar em Ponta Delgada e aguardar o voo do dia seguinte. Claro que há ainda a hipótese de se fazer escala por Lisboa, tendo, neste caso, que ir ao terminal um, para de seguida dar um passeio de autocarro, dentro do aeroporto, até ao terminal dois e então, de seguida, apanhar, o avião para o Porto.

Há dias, desembarcando no aeroporto da Horta, por impossibilidade de o fazer no da ilha do Pico, na viagem de táxi, com destino à Horta a fim de apanhar a lancha, desabafava em voz alta, lamentando os incómodos e os gastos que tudo isto tudo isto causa aos picoenses. O taxista, atento às minhas lamúrias, de imediato ripostou:

- Deixe estar, deixe estar. Se começa a haver mais voos para o Pico, estamos lixados. Dão-nos cabo do negócio. O mesmo acontecerá se construírem um grande hospital no Pico. São as viagens do aeroporto para a cidade e da lancha para o hospital que nos aguentam o negócio.

Texto publicado em 29/07/11, no antigo blog “Pico da Vigia”

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publicado por picodavigia2 às 21:06

SOBREVOANDO A MONTANHA DO PICO

Quinta-feira, 07.11.13

Quem  embarcar no aeroporto da Horta e fizer uma viagem na Sata Air Açores entre o Faial e S. Miguel, se tiver a sorte de a dita cuja acontecer num dia de bom tempo, ou melhor num dia em que o céu esteja totalmente limpo de maneira a que não haja nuvens sobre o Pico, terá uma oportunidade quase única de observar um espectáculo maravilhoso, encantador  e deslumbrante. É que os pilotos da Sata, nestas viagens, adivinhando os anseios e aspirações dos passageiros, voam pelo sul da ilha de Pico, contornando assim, com algum cuidado e exagerada intenção de obter um excelente vista, aquela imponente e vetusta montanha açoriana. Trata-se de um majestoso, enigmático e altíssimo cone vulcânico, truncado quase no topo, formando uma enorme cratera com um pequeno cone no interior, o chamado Pico Pequeno, resultante de uma erupção vulcânica posterior àquela que originou o seu suporte e donde emanam ainda algumas fumarolas, que no entanto só são visíveis e sentidas localmente, isto é, por quem se aventura a escalar a íngreme e sinuosa encosta. Tudo isto se pode observar através de uma janelinha do avião, melhor do que de qualquer outro local. No início e logo ao levantarmos voo do Faial, surge-nos na frente a enorme mancha esverdeada e negra, imponente e altiva da montanha, donde escorrem encostas verdejantes, ondeadas e repletas de manchas umas multicolores outras esbranquiçadas e algumas escuras, tudo ladeado por uma faixa negra e magmática de baixio. Mais adiante são os contrafortes da montanha que surgem do alto, como se fossem uma ampla planície, que se vai desfazendo e como que diluindo à medida que o Pico se afunila naquele amontoado de lava basáltica, revestida parcialmente de ervas e arbustos. A determinada altura, a simulada planície desfaz-se mesmo por completo, como que se identificando  com os contrafortes rochosos da montanha. Depois evapora-se por completo e transforma-se ora em verdejantes prados onde pastam bovinos ora em terrenos separados por bardos de hortênsias onde proliferam os incensos, as faias, a urze, os fetos e a cana roca, entrecortadas por algumas manchas de criptomérias. Mais além e com o ultrapassar da montanha e já debaixo da aeronave, as vinhas verdejantes, como que prisioneiras nos currais e anunciadoras do delicioso verdelho, ladeadas e protegidas por dezenas e dezenas de paredes de basalto negro e maroiços encaracolados e também negros, tão negros como se tivessem sido tisnados por labaredas de lava viva. Ao lado, nas encostas mais a sul,  dezenas de montículos em forma de pequenos cones vão-se ordenando na direcção do mar, a entrecortarem-se num maior de que houve nome o lugar do Monte. A montanha agora pode observar-se em plenitude com a sua cratera como que aberta e bronzeada, ostentando-se desavergonhadamente aos olhares curiosos dos passageiros que se atropelam sobre os bancos do avião para ver e observar de perto tão deslumbrante espectáculo, naquele sítio paradisíaco, onde pontificam a negritude e o silêncio, reveladores de  uma calma e de uma serenidade que só se encontra no cume das grandes montanhas. No outro lado, o horizonte, onde o mar que envolve a ilha é rei e senhor e um azul inebriante que lentamente vai mudando de tonalidade.

A montanha aos poucos vai-se distanciando, ficando para trás, mas o dorsal verde e magmático da ilha continua a manifestar-se, ostentando a beleza inconfundível de  pequenas montanhas emparelhadas com planaltos onde se encravaram algumas lagoas. É a pureza e a simplicidade das freguesias que se vão desenrolando umas atrás das outras, junto ao mar com os seus estreitos caminhos, as suas veredas sinuosas e os seus pequenos portos, sempre misturadas com os campos lavrados, semeados e a florir, ladeados por paredes e maroiços, por veredas e canadas que ao longo de mais de quinhentos anos os picarotos foram construindo, com sangue, suor e lágrimas, lutando contra as investidas do mar, do tempo, dos ataques dos piratas e sobretudo das erupções vulcânicas e dos abalos de terra.

Candelária, Mirateca, Campo Raso, Areeiro, Relvas, Gingeira, São Mateus, São Caetano, Caminho de Cima, Terra do Pão, São João, Silveira e a vila das Lajes, cerceada por uma enorme baía. Depois tudo volta aos montes, aos matos e à ilha deserta para logo surgir Santa Bárbara, Ribeiras, Pontas Negras, Ribeira Grande, Ribeira Seca, Fetais, Foros, Calheta do Nesquim, Piedade e a Manhenha – a Ponta da ilha, da ilha que agora se vai distanciando cada vez mais até se perder no infinito, cinzento, indefinido e mordazmente inquietante.

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publicado por picodavigia2 às 23:52

O PICO

Sexta-feira, 25.10.13

(POEMA DE MANUEL ALEGRE)

 “Sílaba a sílaba até ao poema que está escrito

Lá em cima no Pico sobre a ilha.

(…)

E

(…) um verso a pulsar que de repente

Se descobre no Pico e é o deus da ilha.

(…)

E uma ilha a nascer dentro de mim,

(Porque)

(…) Haverá sempre um mais além

Mas hoje é aqui.”

 

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LAJES DO PICO – UMA VILA COM VARIADAS OFERTAS TURÍSTICAS E UMA INTENSA ACTIVIDADE CULTURAL

Segunda-feira, 30.09.13

Adoptando o Pico como “segunda pátria” a ele me fui afeiçoando aos poucos. Outrora voltava-me mais para a Madalena, porta de entrada e de saída da ilha. Hoje porém, começo a sentir um fascínio cada vez maior pelas Lajes, o primeiro local de povoamento do Pico, já lá vão mais de 500 anos. Foi lá que desembarcou o primeiro navegador português Fernando Evangelho. Depois dele, muitos outros navegadores demandaram aquela magnífica baía em busca de terra e se foram fixando por ali, nas encostas circundantes, desbravando ravinas e rochedos, arando planícies, enchendo os vales de árvores de fruta, construindo as suas casas e edificando a primeira igreja da ilha, a ermida de S. Pedro, ainda hoje existente. As Lajes foi também o primeiro concelho da ilha do Pico, a ele pertencendo, nos primórdios do povoamento, todas as povoações da ilha então existentes, incluindo as ainda freguesias da Madalena e de S. Roque. Assim, bafejada pelo destino e pela história, ao que se alia a beleza da paisagem que a envolve, balizando-a entre o negro da montanha e o azul do oceano, a vila das Lajes possui um rico património histórico, cultural e paisagístico que a tornam um dos locais de maior atracção e interesse turísticos da ilha do Pico.

Se não vejamos. A nível histórico-cultural destacam-se:

- O Castelo de Santo António/Forte de Santa Catarina - Trata-se de uma antiga fortificação do século XVIII e do qual restam algumas ruínas.

- A Ermida se São Pedro a mais antiga construção religiosa do concelho das Lajes e da ilha do Pico. Trata-se de um pequeno templo, de origem franciscana, construído onde, segundo a tradição popular, desembarcaram os primeiros povoadores. Esta ermida teve como primeiro sacerdote, não só da ermida, mas da própria ilha, Frei Pedro Gigante, que é considerado pelos historiadores como tendo sido o introdutor da casta Verdelho na ilha.

- A Ermida de Santa Catarina, cuja data de construção remonta ao século XVII.

- O Convento de São Francisco/Igreja de Nossa Senhora da Conceição - Antigo convento franciscano datado do século XVII.

- A Igreja Matriz – Datada do século XIX, com traços a fazer lembrar o gótico das catedrais medievais, situada no centro da vila.

- A Ermida de São Sebastião, templo muito antigo, situado na Ribeira do Meio. Segundo a tradição esta ermida teria sido construída, inicialmente, no cimo da Almagreira, perto do mato, em lugar que o povo ainda agora conhece pelo nome de São Sebastião. Sabe-se, porém, que, já em 1592, ela já existia neste local.

- O Passo da Procissão – Datado do século XVIII, situado na rua Padre Manuel José Lopes.

- O Museu dos Baleeiros – conjunto arquitectónico constituído pelas antigas casas dos botes e uma tenda de ferreiro anexa e que representa através de apetrechos próprios e de fotos a actividade baleeira a que durante muitos anos se dedicou a população da vila das Lajes, também denominada de “Vila baleeira”.

- A Biblioteca e Arquivo – anexos ao museu dos Baleeiros.

- O Centro de Artes e Ciência do Mar – instalado na antiga fábrica da baleia, este centro possui informação diversa, registo e exposições sobre biologia e ecologia dos cetáceos.

- Os Moinhos – da Ponta Rasa, do Mouricão e da Silveira.

- O Monumento ao povoamento da ilha do Pico – monumento em pedra erguido no centro da vila em homenagem aos 500 anos do povoamento da ilha. (1460-1960).

Por sua vez e sob o ponto de vista arquitectónico a vila possui um conjunto notável de habitações com traços arquitecturais de interesse.

No que concerne ao património paisagístico, a vila desfruta de vários miradouros de beleza ímpar como são os dos miradouros do Forte de Santa Catarina, do Cabeço do Geraldo, da Ponta dos Arrifes, da Terra Alta, do Mouricão e da Vigia da Baleia, e até da Almagreira, donde se obtêm uma excelente vista sobre a vila e a baía. Sublime é a montanha vista das Lajes.

Existem nesta vila vários locais de lazer, algumas praças, um ou outro largo, estabelecimentos comerciais e restaurantes de excelente qualidade.

Mensalmente, a Câmara Municipal apresenta um vasto programa de actividades culturais a realizar não apenas na vila mas em todo o concelho, desde exposições diversas, teatro, cinema, bem como actividades para idosos e celebração de algumas festividades. A vila possui ainda um grupo coral e uma banda filarmónica.

Lajes do Pico – uma vila que vale a pena visitar!  

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publicado por picodavigia2 às 19:32

GASTRONOMIA DO PICO

Quinta-feira, 19.09.13

A ilha do Pico, nos Açores, tem uma gastronomia muito rica e variada. Se por um lado, o mar lhe disponibiliza uma grande variedade de pratos deliciosos, como os crustáceos, mariscos e peixes de todos os tamanhos, formas, cores e sabores, por outro a terra oferece-lhe os inconfundíveis sabores de carnes, frutas, legumes e muitos outros produtos, com destaque para os saborosos queijos.

Do mar vem o peixe cozido, sob a forma de caldo ou caldeirada, frito, grelhado, muito fresco e, por vezes, acabadinho de pescar. um pitéu, mas ainda podem oferecer-se num divinal “caldo de peixe” ou numa espectacular “caldeirada”.

As carnes de bovino e suíno mostram-se imbatíveis numa “molha de carne à moda do Pico”, com carne de vaca ou uns “torresmos”, a partir da carne de porco.

A gastronomia da ilha é muito rica, nomeadamente no que toca aos produtos do mar. Os crustáceos como a lagosta, o cavaco e o caranguejo, os moluscos, como as lapas e as cracas, as lulas e os polvos servem de base a pratos variados e ricos. Entre os peixes destacam-se espécies como a abrótea, o chicharro, a moreia, a Veja (parecido com o bacalhau), o írio, a salema, o cherne, a garoupa, o espadarte.

 

As carnes de bovino e suíno encontram-se presentes em pratos da culinária regional como “molha de carne à moda do Pico”, “torresmos”, “linguiças” e “morcelas”. Em termos de laticínios destacam-se os queijos de São João e do Arrife, ambas produzidos a partir do leite de vaca. São consumidos com vinho verdelho, vinho de cheiro ou outros produzidos localmente e pão de massa sovada.

 

Falar do vinho do Pico, é sinónimo de orgulho. A cultura da vinha está associada aos primeiros tempos do povoamento, nos finais do século XV. O vinho verdelho, a partir da casta do mesmo nome, ganhou reputação mundial ao longo dos séculos, chegando à mesa dos czares russos. A partir do século XIX são introduzidas novas castas que dão origem a vinhos de mesa brancos e tintos. O modo de cultivo, contra a aspereza dos terrenos vulcânicos quase sem terra vegetal, em currais, que são áreas muradas de pedra negra, de muito pequena dimensão, marca igualmente a cultura da Ilha do Pico.

 

A prova da importância local e mundial é o facto da UNESCO, em Julho de 2004, ter considerado a Paisagem Protegida de Interesse Regional da Cultura da Vinha da Ilha do Pico, criada em 1996, como Património Mundial da Humanidade. Currais, maroiços, que são diversos amontoados de pedra em forma de pirâmide, vinhas e adegas com os seus equipamentos, são elementos emblemáticos da vinha e do vinho».

 

Em termos de doces destacam-se os pratos de arroz doce, massa sovada e rosquilhas. Em termos de digestivos destacam-se o bagaço do Pico, a aguardente de figo ou um dos vários licores a partir de amora, nêspera ou os queijos de São João e do Arrife vão muito bem com um vinho verdelho e um pão de massa sovada. O vinho do Pico é sinónimo de orgulho.

 

Um bom prato de arroz doce, massa sovada ou rosquilhas. Para rematar, um bagaço do Pico, uma aguardente de figo ou um dos vários licores a partir de amora, nêspera ou de uma “angelica”.

 

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publicado por picodavigia2 às 21:41

O FUROR DA LAVA PICOENSE

Quinta-feira, 05.09.13

O Pico é um gigantesco montão de lava. Mas lava viva, outrora vermelha, incandescente, fumegante e destruidora, mais tarde negra, inturgescida, basáltica e besuntada de enxofre e agora aureolada de verde, benéfica, produtiva e perfumada com salpicos de maresia, mas viva, muito viva. Esta lava do Pico tem uma espécie de furor negro, fecundo e vigoroso, a expelir-se em laivos de vinhedos, campos de milho, pastagens verdejantes e encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto. Mas a lava do Pico tem, sobretudo, um furor histórico, escrito e gravado nos regos traçados pelos alviões no solo vulcânico, nas rilheiras dos carros de bois, no mourejar permanente dos remos sobre a braveza do oceano, no arrochado incorruptível dos maroiços e dos currais das vinhas, nos pedregulhos rolantes das canadas, nos gritos das marés incertas, no estalejar do vento nas encostas e andurriais. A lava do Pico como que espelha e reflecte a vida, os costumes, os trabalhos, as tradições, os bailados e a música das suas gentes.

O furor desta lava, destemida e altaneira, dá, ao Pico, uma vivência efusiva e efervescente, transforma-o num gigante de ousadia e audácia, substancia-o num amontoado de tradições e costumes, aureola-o de esperança e confere-lhe uma crença telúrica, inconfundível. O furor desta lava é suco generoso, é chão de ousadia, é arroteamento de emoções. A lava é uma espécie de bálsamo tonificante e fertilizador, que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, a destruição em recompensa, o deserto em abundância, a pequenez em grandiosidade, o nada em tudo. A lava do Pico é uma espécie de rio de espuma incandescente, a deslizar por entre pedaços de chão rachado, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a perder-se, como que envergonhada e tímida, no meio de um oceano de desejos indefinidos, transformando-se em gigantescas marés de graça, de solenidade e de ternura. A lava do Pico tem um furor que não é capaz de se conter. A lava do Pico jacta-se, expele-se, espalha-se e projecta-se em labaredas de cores, de sons, de esperança, de alegria e de amizade.    

Realizando um périplo pelo Norte do País, assentando arraiais na Região do Vale do Sousa, mais concretamente na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, como convidado do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, de Romariz, o Rancho Folclórico de São Caetano do Pico, não só trouxe consigo, como também expeliu e esparramou, nas noites escaldantes durienses, o furor lávico da sua música, do seu bailar e das suas coreografias - estonteante perfume da história, da cultura, das tradições, dos costumes e dos cantares duma ilha, que teima em se espelhar na grandiosidade do seu passado e de se ostentar nas vivências do seu presente.

O grupo constituído por mais de quarenta elementos, actuou em três festivais. Primeiro, na própria freguesia de Meinedo, uma das 25 do concelho de Lousada, ombreando com ranchos folclóricos de renome nacional, como o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré, o Rancho Folclórico os Camponeses da Beira-Rio, da Murtosa-Aveiro e com o rancho anfitrião. Um espectáculo de grande qualidade, balizado num espaço histórico, numa das freguesias mais populosas do concelho de Lousada, com cerca 4 000 habitantes, o equivalente ao concelho da Madalena, tendo como ex-libris a igreja românica de Santa Maria Maior, cuja fundação remonta ao século XIII. Sabe-se que nos primórdios do cristianismo na Península, Meinedo, então designada por “Magneto”, terá sido, segundo toda a probabilidade, a primeira sede da Diocese do Porto.

A segunda participação do Rancho Folclórico de São Caetano, teve lugar na não menos histórica freguesia de Cárquere, concelho de Resende, junto ao Mosteiro que na Idade Média foi, depois de Santiago de Compostela, um dos maiores centros de peregrinação da Península Ibérica, construído por Egas Moniz e sobre cujo altar – ainda hoje ali existente – se terá verificado a cura milagrosa do menino que viria a ser o primeiro rei de Portugal – Afonso Henriques.

Finalmente, num terceiro espectáculo, o Rancho da mais jovem freguesia do concelho da Madalena, actuou em plena Vila de Lousada, perante numeroso público, no largo do Senhor dos Aflitos, por coincidência, frente à estátua de um dos mais ilustres lousadenses - Dom António Augusto de Castro Meireles, 34º bispo de Angra (1924-28) e, depois, bispo do Porto.

Foram noites fantásticas, de cor, de sons, de movimento e alegria, onde o Rancho Folclórico de São Caetano espalhou toda a sua classe, dignidade, singeleza e performance, deixando aos presentes uma deslumbrante e transcendente imagem, não apenas da freguesia de São Caetano, mas também da ilha do Pico, transformando-se, assim e de que maneira, num magnífico embaixador da sua cultura, dos seus costumes, dos seus valores, dos seus potenciais turísticos e, como não podia deixar de ser, dos seus bailados e da sua música, numa palavra espalhando, aqui, pelas terras durienses o verdadeiro e inconfundível “furor da lava picoense”.

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publicado por picodavigia2 às 17:14

A LENDA DA ERMIDA DE SANTA CATARINA DAS LAJES DO PICO

Segunda-feira, 03.06.13

Antes de ser freguesia, grande parte do território pertencente, actualmente, a São Caetano do Pico pertencia à freguesia de São Mateus e nele se situava o lugar da Prainha do Galeão, assim como o do Caminho. Por sua vez, o lugar da Terra do Pão, nesses tempos recuados, pertencia à freguesia de São João.

Nesses tempos, o lugar da Prainha, alojada no regaço de uma enorme baía, onde assentava um pequeno e rústico porto, era um lugar pobre, onde viviam algumas dezenas de famílias, alimentando-se do que a terra lhes dava, do leite e da carne das ovelhas e cabras que criavam e, sobretudo, do peixe que apanhavam e que era abundante naquelas redondezas. Os primeiros colonos que ali se fixaram, fundaram, junto ao mar, uma pequena povoação, hoje, denominada por Prainha do Galeão, por ter sido ali que um dos seus habitantes fez construir um galeão, como forma de pagamento de dívidas ao rei. Junto ao mar edificaram, também, uma pequena ermida, escolhendo São Caetano, como seu padroeiro.

Conta-se que em tempos muito recuados, certo dia, um grupo de homens daquela localidade decidiu ir pescar, ao largo da baía. Servindo-se de um pequeno e tosco batel lançaram a rede por fora da ponta dos Coxos. Passado algum tempo puxaram-na e, como a sentissem muito pesada, alegraram-se, por quanto cuidaram que tinham apanhado grande quantidade de peixe. Qual não foi o seu espanto, quando ao despejar, por completo, a rede dentro do batel, se aperceberam de que, afinal, em vez de peixe, haviam encontrado uma linda imagem que lhes pareceu ser uma Santa, cujo nome nenhum foi capaz de identificar e que, muito provavelmente, havia sido trazida, milagrosamente, pelo mar.

Quando chegaram a terra com o precioso achado, os familiares e outras pessoas que os aguardavam no porto, manifestaram-se em grande alarido, mas ninguém foi capaz de identificar o nome da santa. Foi então que um dos pescadores sugeriu que a trouxessem para as Lajes, para a igreja mais imponente da ilha, a igreja do Convento dos Franciscanos. Decerto que algum dos frades daquele convento havia de identifica-la.

Foi fácil para os frades franciscanos residentes no convento identificar a imagem como sendo de Santa Catarina. Além disso, empolgados com a sua beleza e porque naqueles tempos rareavam nas igrejas imagens de santos, os frades logo decidiram que a imagem havia de ser colocada num dos altares da igreja que pertencia ao seu convento e que acabara de ser construída, havia pouco tempo.

Mas no dia seguinte, quando os frades se aproximaram do altar para, mais atentamente, contemplarem a santa e prestar-lhe veneração, já não a viram ali. Cuidando que os pescadores da Prainha do Galeão, durante a noite, a tivessem vindo buscar, mandaram emissários àquele pequeno povoado. Ficaram, então, a saber que a imagem de Santa Catarina, sem que ninguém lhe tivesse tocado, tinha ido outra vez parar à Ponta dos Coxos, em frente à Prainha do Galeão. Os pescadores voltaram a levar Santa Catarina de volta para as Lajes, para junto dos frades, que de novo a colocaram sobre o altar da sua igreja.

Mas, no dia seguinte, sem que ninguém lhe tocasse, a Santa voltou, novamente, para a Prainha, repetindo-se este vaivém durante vários dias. As pessoas impressionadas com o facto, cuidaram que fosse um milagre e começaram a dizer que Santa Catarina queria ficar perto de S. Caetano, padroeiro da pequenina ermida, construída na Prainha do Galeão. Mas os frades e o povo das Lajes não querendo separar-se da imagem de Santa Catarina, decidiram construir uma pequena ermida, num sítio bem alto, donde se avistasse a Prainha do Galeão e onde a santa pudesse, ao menos, ver aquela pequenina localidade da ilha do Pico onde tinha sido encontrada.

Assim se fez. Num terreno mais alto, sobranceiro ao centro da vila das Lajes, mesmo por cima da lindíssima costa com o nome de Lajedo, os frades e o povo ergueram uma pequena ermida que dedicaram a Santa Catarina. Do adro desta ermida, pode-se desfrutar uma bela paisagem: as Lajes, a montanha do Pico, alguns promontórios e várias freguesias da parte sul da ilha, inclusive a freguesia de S. Caetano ou Prainha do Sul, onde Santa Catarina desejava estar.

Mas o altar ficava no interior, sem qualquer vista para a rua e, reza ainda a lenda, que a santa não estava satisfeita e, por isso, continuou a fugir para a Prainha do Galeão.

Os frades e o povo das Lajes não sabiam mais o que fazer para que Santa Catarina aceitasse a morada que lhe tinham construído. Foi então que um dos frades, o mais velho e experiente, lembrou que se abrissem uma janelinha voltada para os lados da Prainha Galeão, através da qual Santa Catarina visse a sua localidade predilecta, talvez se aquietasse e ali permanecesse descansada.

Puseram logo a ideia em prática e abriram uma pequena janela. Consta que assim Santa Catarina ficou, finalmente, satisfeita, permanecendo no seu altar, olhando através da pequena janela, com saudade, para a Prainha do Galeão, onde viviam os pescadores que a haviam encontrado e em cuja pequenina e tosca capela estava o seu amigo S. Caetano.

 

Fonte de Inspiração – Texto de Ângela Furtado-Brum, com o mesmo título.

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