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AS RENDEIRAS

Quinta-feira, 03.07.14

Sendo a freguesia de São Caetano, terra de pescadores e marinheiros, era natural que as mulheres se dedicassem ao fabrico artesanal de rendas, quer por se inspirarem nas próprias redes tantas vezes elaboradas e remendadas pelos pescadores quer, sobretudo, para anestesiar a solidão e a angústia que sentiam, enquanto os homens partiam para o mar, na caça à baleia, na pesca da albacora ou na simples pesca artesanal em pequenos barcos, sujeitos, muitas vezes, a grandes perigos e tormentas.

Ao mesmo tempo que anestesiava a solidão e desfazia a angústia, o fabrico das rendas constituía uma das bases de sustento das famílias da freguesia, geralmente, dependentes duma agricultura de subsistência. Embora se ocupassem das lides domésticas e ajudassem os homens nos trabalhos do campo, as mulheres de São Caetano dedicavam grande parte do seu tempo às rendas. Por isso, estas, desde sempre, representaram uma importante actividade económica para a freguesia. Na realidade as mulheres faziam rendas, aproveitando todo o tempo disponível, para as vender e, assim, ajudar o debilitado orçamento familiar, ajudando na compra de bens alimentares, como o milho e outros bens necessários e de amanho pessoal e do lar.

Nas tardes de verão, as mulheres juntavam-se em grupos, procurando as sombras dos pátios e balcões, para poderem fazer renda sentadas no chão ou em cima de um banquinho. Faziam renda paga à begocha para pessoas que na freguesia, ou nas freguesias vizinhas, tinham o negócio e as iam vender para o Faial, ou as exportavam para o Continente. Também à noite, aos serões, especialmente no Inverno, juntavam-se a fazer serão, nas casas de familiares e amigas, por vezes mais de uma dezena de mulheres à volta de uma mesa, iluminadas apenas por um candeeiro a petróleo. Faziam-se luvas em crochet, blusas, viras de lençol, golas de renda, jogos de naprons, toalhas redondas, etc. Essa renda era artisticamente composta por renda de gancho, com entremeios de amoras, dálias e caçador, olhos, gregas entre outros desenhos, com diferentes designações, todos eles com muita exigência e pormenor. Os trabalhos maiores e mais elaborados, no caso das toalhas, blusas ou viras de lençol, por vezes, englobavam várias pessoas que os faziam como que em série, sendo que as mais habilidosas, as mais velhas e as mais experientes realizavam as partes mais difíceis. Era por assim dizer como que um trabalho em série, feito por várias mãos mas que requeria muita cautela e responsabilidade.

Enquanto faziam a renda conversavam, cantavam e, mais tarde, ouviam notícias, num pequeno transístor a pilhas, encimado por uma rodilha de fios eléctricos, a servir de antena.

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publicado por picodavigia2 às 18:50

TERÇA FEIRA DE ESPÌRITO SANTO EM SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 10.06.14

Assim é designado o dia de hoje em São Caetano, onde, como em todas as outras freguesias do Pico e nas restantes ilhas açorianas, duma ou de outra forma, as festas em honra e louvor do Divino Espírito Santo dominam esta época do ano. Inigualáveis nos seus formatos e transcendentes na sua essência, estas festas sentem-se e vivem-se, ainda hoje, com a mesma intensidade e devoção de outrora e são repletas de sentimentos intensos, de vivências solidárias, de recordações míticas, de extravagâncias deliciosas e de promessas que o tempo não apagou. Além disso, as pessoas que nelas emergem, incluindo os mais jovens, quer responsabilizando-se pela sua concretização, quer ajudando nos seus arranjos e preparativos, bem como as que a elas se ligam apenas como espectadores, fazem-no com uma dedicação inexaurível, com um empenhamento notável, com um espírito de doação e de partilha transcendentes e com uma abnegação infinita. As festas do Espírito Santo, ontem como hoje, fazem parte íntegra do quotidiano dos açorianos, que com elas como que se identificam e se consubstanciam

 Estas festas, para além da parte litúrgica, onde sobressaem a celebração da eucaristia, o terço cantado e a organização de procissões e cortejos, constam, geralmente, da distribuição e da partilha da carne e do pão, outrora apenas junto dos mais pobres, hoje extensiva a todos. Na ilha do Pico, no entanto, e mais concretamente em São Caetano, este sentido de partilha tem um significado ainda mais abrangente e a ela estão ligados rituais e costumes ancestrais, geralmente relacionados com promessas feitas pelos antepassados em momentos de enorme angústia e aflição, em virtude de crises sísmicas, catastróficas, acontecidas na altura, durante as quais o povo solicitava o auxílio divino para travar as correntes de lava que arrasavam a ilha, destruindo habitações, povoados e culturas. Na realidade, os festejos em honra e louvor do Divino Espírito Santo constituem, na ilha montanha, uma genuína tradição muito provavelmente trazida pelos primeiros povoadores e implementada com um cunho religioso e cultural muito forte, mantendo-se, ainda hoje, com rituais e celebrações muito semelhantes às dos tempos antigos, com destaque para um inusitado e interessante cerimonial em que os "imperadores" levam, em procissão, a coroa, até à igreja, com a qual são “coroados” no fim da missa e ainda para a "função" que consiste fundamentalmente na participação colectiva num almoço em que praticamente toda a população da freguesia toma parte, sentando-se à mesma mesa, saboreando as típicas e tradicionais sopas do Senhor Espírito Santo. Mas o que mais revela este sentido de partilha mútua e de comunhão recíproca das festas do Espírito Santo do Pico é o facto de em São Caetano, como em todas as freguesias do Pico e até em alguns lugares da mesma freguesia, também se distribuir por todos os habitantes e também pelos forasteiros massa sovada, numas localidades sob a forma de pão, noutras de rosquilhas e noutras de vésperas.

A freguesia de São Caetano do Pico celebra a sua festa em honra do Divino na terça-feira a seguir ao domingo de Pentecostes, designada por “Terça-feira do Espírito Santo”. Nos meses anteriores “atestam-se” ou “arrolam-se” os irmãos que vão “dar”, a tradicional rosquilha. Cada irmão pode contribuir com um ou com meio açafate, sendo o primeiro de trinta rosquilhas e o segundo de quinze. Quem o entender, normalmente por não ter possibilidade de cozer a massa, pode substituir o açafate do pão por equivalente valor em dinheiro, contribuindo assim para as várias despesas da festa, nomeadamente para a compra das rezes e de outras iguarias destinadas a confeccionar a refeição comunitária que se realiza no dia da festa. É que o almoço conjunto de toda ou quase toda a população da freguesia e alguns convidados constitui um dos momentos altos deste dia.

Durante a semana que antecede a festa, canta-se o terço junto das insígnias, colocadas na sala da casa do mordomo, devidamente ornamentada. Trata-se de um conjunto de invocações ao Espírito Santo, cantadas de forma repetitiva e com uma estrutura semelhante à do terço habitual.

No dia da festa, alta madrugada ouve-se o foguete anunciador do início do cozer da carne. Esta, depois de devidamente temperada, é colocada em mais de uma dúzia de gigantescos tachos, onde vai cozendo lentamente e formando um saboroso caldo com o qual se irá regar o pão partido a meio, acamado em terrinas e coberto com folhas de hortelã. Antes da missa forma-se o cortejo, com destino à igreja, sendo as coroas transportadas por meninas familiares ou convidadas do mordomo, ricamente vestidas e pelo próprio mordomo, enquanto a bandeira é levada conjuntamente por um casal, umas e outras dentro de quadrados formados por varas, seguradas por irmãos. À frente, crianças, aos pares, semeiam o chão de pétalas de flores. Seguem-se conjuntamente os foliões com tambor, pandeiro e insígnias, a filarmónica e o povo. Terminada a missa procede-se à “coroação do mordomo”, rito que consiste na imposição da coroa na sua cabeça, pelo celebrante, ao som do “Veni Creator”, agora numa adaptação vernácula “Vinde Espírito Paráclito”. O cortejo regressa ao local onde é servido, na presença da coroa e da bandeira, a refeição, sendo esta constituída pelas tradicionais sopas, carne assada e arroz doce, tudo regado com vinho de cheiro. Durante o almoço é revelado o nome do futuro mordomo, através de voto secreto de cada irmão.

A festa e o convívio continuam durante o arraial da tarde, com quermesse, concerto da filarmónica e o petiscar das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas tudo acompanhado com copos de vinho de cheiro, ainda a transpirar o perfume negro da lava basáltica, durante a qual se distribui pão e carne pelos pobres, doentes e acamados, terminam com o seu ponto alto ou seja, com a distribuição das rosquilhas, uma por cada habitante ou forasteiro que participe na festa ou simplesmente passe, por mero acaso, pela freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 10:04

TERÇO DO ESPÍRITO SANTO

Segunda-feira, 02.06.14

Desde os primórdios do povoamento das ilhas açorianos que o seu povo, frequentemente, fustigado por crises sísmicas e temporais, implorava o auxílio divino, centrando a sua fé na Terceira Pessoa da Trindade - o Espírito Santo. Assim aconteceu, também, em São Caetano, freguesia onde, na realidade, desde os tempos mais remotos se enraizou uma profunda, convicta e autêntica devoção ao Espirito Santo, a qual tinha a sua expressão mais visível, por um lado, nas funções realizadas ao longo do ano e, por outro, na festa, celebrada na Terça-feira de Pentecostes. As funções consistiam em pagamentos de promessas feitas ao Divino Espírito Santo por um mordomo, geralmente um emigrante, e que consistiam na partilha do pão e da carne pelos mais pobres - em louvor do Paráclito. No final da celebração da missa, o mordomo era, solenemente, coroado, com o principal símbolo do Espírito Santo – a coroa. Por sua vez a festa, para além da celebração eucarística incluía um cortejo em que os irmãos transportavam em açafates ornamentados com toalhas com rendas e bordados artesanais, as suas ofertas de pão, sob a forma de rosquilhas e que seria distribuído por todo o povo. O que também era característico destas festividades era preparação espiritual das mesmas, através das novenas, realizadas antes de cada festa ou função, durante as quais o povo se reunia, em casa do mordomo, para cantar o “Terço do Espírito Santo”. Tratava-se duma celebração ancestral, de caris profundamente religioso e que, muito provavelmente, remontava aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalada por crises sísmicas sucessivas e frequentes, de tempestades violentas e destruidoras, como se pode depreender do conteúdo de alguns dos textos ainda hoje cantados. As novenas tinham lugar em casa do mordomo, em cuja sala de fora era preparado um altar onde se colocava a coroa e o ceptro, ladeado pelas bandeiras e ornamentado com as melhores toalhas e cortinas brancas, geralmente vindas da América, com tecido vermelho, flores da época e esparto. O terço era cantado durante os nove dias que antecediam cada celebração, quer se tratasse da festa ou de uma função e, no final, partilhava-se vinho de cheiro e massa sovada. O terço constava de cinco partes, durante as quais se repetia uma invocação ao Paráclito, dez vezes seguidas, sendo que o orientador da novena cantava a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alternava nas invocações seguintes. Acrescente-se que o Terço era cantado por todos os presentes, homens, mulheres, jovens e crianças, com um respeito profundo e uma devoção intensa, uma fé verdadeira e genuína, consubstanciando um acto religioso comunitário, muito digno e autêntico. No final do canto do terço, enquanto se cantava o hino “Alva Pomba”, o ceptro passava de mão, a fim de que cada um dos presentes, o osculasse com o maior respeito e dignidade.

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publicado por picodavigia2 às 10:05

GRUPO FOLCLÓRICO DA CASA DO POVO DE SÃO CAETANO

Quinta-feira, 08.05.14

No passado dia um, celebrou trinta e um anos de existência, o Grupo Folclórico da Casa do Povo de São Caetano, um dos expoentes máximos da vida cultural e artística da mais jovem freguesia do concelho da Madalena do Pico.

Enraizado nas ancestrais tradições musicais da freguesia e da ilha, onde sobressam as antigas folgas, verdadeiros momentos de descanso e de pausas no trabalho, em que as pessoas se juntavam, ao serão, com o objectivo de conviverem e se divertirem através da realização de balhos e constituído por mais de quarenta elementos, muitos deles jovens, o grupo consubstancia e congrega um notável conjunto de tocadores, cantadores e bailadores, apresentando um diversificado e brilhante repertório, tendo ao longo destes anos actuado em inúmeros festivais e celebrações, dentro e fora do Pico. Para além do folclore, o grupo dinamiza uma série de actividades culturais, recriando diversos costumes e tradições picoenses, o que o tornam numa espécie de reflexo do viver e do sentir das gentes de uma freguesia que apesar de simples e modesta, possui um rico e nobre património cultural, sobretudo no que à música diz respeito. O seu repertório inclui bailes e melodias com um ritmo próprio, vivo e contagiante, que se coadunam com a agitação espontânea das suas gentes e dos quais se destacam, entre outros: O pezinho, um dos balhos mais característico e representativo folclore local. Trata-se de um balho que, espelhando a autenticidade de um povo, é considerado distinto dentro das diversas variantes de “Pezinhos” conhecidos em outras ilhas, adquirindo em São Caetano uma especificidade no que à letra diz respeito. A Joanita, uma moda que não sendo considerada um baile de roda, possui, no entanto, tem uma coreografia muito viva e interessante. A letra, com um cunho popular notável, conta uma história de amor vivida entre dois primos: Joanita e António. Cá Sei, também conhecido por Abana ou Balho da Casaca ou simplesmente Casaca, possui, em São Caetano, um ritmo notável e dinâmico, com uma interessante especificidade de conteúdo literário. Maria Tomásia, também conhecido por Volta no Meio é um balho exclusivo da Ilha do Pico e a mulher típica mulher da ilha montanha que, sobretudo em tempos idos, para, além de executar com primor e dedicação os afazeres domésticos, acompanhava o homem nas lides árduas dos campos, mas que não se deixava vencer pelo cansaço nem pelo sofrimento. A Tirana, considerado um dos mais harmoniosos balhos do folclore picoense, também evoca a figura feminina, arquétipo de beleza, amor, dedicação, carinho e entrega à família. O Chiu-Chiu, actualmente pouco já pouco conhecida no Pico, é um balho muito antigo cuja coreografia e integridade da letra contêm um sabor arcaico e trovadoresco, fazendo uma espécie de apelo à solidão e ao silêncio. A Praia, um balho que remonta ao Século XVIII e comum às ilhas do Pico e do Faial. Crê-se ser originário destas ilhas e criado por influência dos antigos marinheiros e corsários que demandavam estas paragens, dado que reflecte nitidamente uma envolvência do homem das ilhas com o mar. A Sapateia, também conhecida por Sapateia de Cadeia, é considerada como a fina-flor dos balhos de roda do folclore do Pico. É um bailo típico das casas de folga e disputado pelos melhores e mais esmerados bailadores pelo seu grau de dificuldade. É o mais vivo, o mais variado e o mais ritmado de todos os balhos do repertório do grupo. Tem a particularidade de ser a letra a mandar o balho nas suas mudanças coreográficas. O Mané Chiné, por sua vez, revela-se como o baile mais alegre e ritmado do repertório do grupo e, apesar de todas as dificuldades vividas noutros tempos, manifesta um reflexo da boa disposição e de alegria de viver do povo. O Rola, à semelhança do Pezinho e da Chamarrita, era também um dos balhos característicos das antigas folgas, e, assim como o Ladrão, evoca amores proibidos. É vivo, cadenciado é o reflexo de grande diversidade de ocasiões para os encontros amorosos fortuitos. Mas, incontestavelmente, o balho mais bailado nas folgas de outros tempos era a Chamarrita, onde tinham lugar de destaque os mandadores e os cantadores e em que, vulgarmente se usava a viola da terra, violão, violino e bandolim. Trata-se é um dos mais antigos balhos tradicionais do Pico, sendo considerado o mais emblemático do folclore açoriano. Trata-se de um balho, primorosamente, mandado, com um certo grau de dificuldade e que requer um mandador experiente e animado. Em São Caetano, a Chamarrita começava com 3 pernas: o homem tirava ou convidava uma mulher e bailava três pernas com a mesma. Na última a mulher convidava um dos homens presentes, Todos aguardavam, ansiosamente, este momento. O mandador iniciava a Chamarrita batendo palmas e dizendo entra. Os pares trocavam posições e iam dançando de acordo com as ordens do mandador: quebra entranceia, bate palmas, leva cheia, rola, troca o par, outra senhora, ao meio da casa, “chamarrita, fecha a roda, salta e torna a fechar, “torna a saltar e puxa cadeia”, vira e foge, dobra a casaca, vira o torreão, terminando com “olha o pico”. Para alem da Chamarrita, nas folgas realizadas em São Caetano também se bailava o fadinho e, no fim, a sapateia, esta só pelos mais velhos.

 

NB – Dados retirados do http://gfsaocaetano.blogspot.pt/

 

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publicado por picodavigia2 às 17:34

O CURTUME DE PELES EM SÃO CAETANO DO PICO

Quinta-feira, 08.05.14

A indústria, se é que assim se pode chamar, do curtimento de peles no Pico, possivelmente, terá tido o seu epicentro na freguesia de São Caetano, no que à primeira metade do século passado, diz respeito. Na realidade, nos primórdios do século XX parece ter existido um bom número de curtidores de peles naquela freguesia picoense. Segundo testemunhos, na década de cinquenta do mesmo século, existiriam ainda, na freguesia, cerca de uma dezena de curtidores. Esta actividade, no entanto, tinha um cunho familiar, uma vez que, regra geral, não recrutavam nem empregavam estranhos. Apenas os membros do agregado familiar a ela se dedicavam nas horas vagas, não fazendo do curtume uma profissão a tempo inteiro e consequentemente, um modo de vida exclusivo.

O tratamento e aproveitamento de peles de animais remonta aos primórdios da humanidade. Na verdade, o homem, desde sempre, se dedicou ao tratamento de peles e couros, quer pela simples desidratação, processo simples onde se utiliza algum tipo de sal ou de outros produtos naturais para auxiliar este sistema, quer por um processo químico mais industrial, com a utilização de novas substâncias. Muitas destas novas substâncias, usadas na indústria do curtume são extraídas de alguns tipos de cascas de árvores, que apresentam grande teor de tanino, substância esta que ligada ao colágeno, permite um isolamento das fibras naturais contra fungos e bactérias que são as responsáveis pela degradação da pele "in natura".

Os curtidores de São Caetano conheciam estes processos ancestrais. É verdade que não possuíam o conhecimento científico, nem as formas de acesso a processos químicos, mais modernos, em que a substância mais utilizada é o cromo III, processo que impinge maior agilidade ao curtimento, barateando os custos, e tornando-o mais comercial. Na verdade, em São Caetano, ou devido à falta de conhecimento dessas novas drogas próprias para a curtimenta ou de dinheiro para as adquirir, os curtidores arrancavam faias donde lhe extraiam a casca das raízes, que depois de muito bem batida, era colocada juntamente com as peles a curtir num poço. Depois de as retirar dos poços, as peles eram pregadas com pregos em tábuas e postas a secar ao sol, sendo, depois de bem secas, cortadas às tiras e vendidas.

Havia dois tipos de peles curtidas, consoante se transformavam em sola e carneira. A sola era a pele dos animais maiores, bois e vacas e a carneira dos bezerros e cabras que, depois de muito bem trabalhadas eram depositadas nuns poços com água e cal para lhe retirar o cabelo. Depois eram passadas a cutelo para descarnar e tirar impurezas. Depois eram novamente depositadas no mar amarradas com correntes durante vários dias.

Com a sola, faziam-se as aparcas, com a carneira, faziam-se as correias, para atar quer as botas, quer as aparcas e ainda as luvas que eram usadas quer para acompanhar o foicinho ao mondar os campos e relvas onde proliferavam silvados agrestes, quer para para curtir em estrume no curral do porco e que seria utilizado como adubo das sementeiras, uma vez que era o estrume dos animais que substituía os adubos químicos no estrumar das terras. Quase todos os curtidores, iam vender a maior parte da sua sola, cortada às tiras e metidas num saco às costas, para as outras freguesias do Pico. Tudo era feito a pé, percorrendo muitos quilómetros, batendo de porta-a-porta, de freguesia em freguesia.

Às alparcas, utilizadas por homens e mulheres, eram feitas com sola e com umas arreatas de carneira, sendo-lhes pregados uns pedaços de borracha, extraída normalmente do meio dos pneus deixados de ser usados pelos automóveis, borracha essa que não era barata nem fácil de encontrar, pois os automóveis eram muito poucos, relativamente à procura. Mais tarde, uma parte da borracha, vinha da base aérea das Lajes, da Ilha Terceira, proveniente dos pneus dos aviões Era mais larga, mais resistente e de muito melhor qualidade, e por conseguinte maior duração.

A história da indústria de curtumes está e estará sempre ligada à história da humanidade. O homem primitivo utilizava as peles dos animas como agasalho, curtindo-as por processos simples. Ao longo dos séculos esta actividade foi sofrendo inovações, beneficiando do espírito inventivo de povos e civilizações que sempre reconheceram as características únicas da pele para as mais diversas aplicações e a trabalharam para satisfazer as suas necessidades.

Assim fizeram os curtidores de São Caetano, que com o seu trabalho, simples, árduo mas dedicado e laborioso, escreveram mais uma página da sua pequena mas digna história. Cuida-se que terão sido os frades a ensinar ao povo de São Caetano a arte do curtume, Antigamente, contava-se que na freguesia reria existido um frade curtidor. A prova-lo, ainda hoje existe uma rua com o nume de Canada do Frade.

 

NB - Dados retirados de António Silva  “As Minhas Raízes” e Wikipédia.

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publicado por picodavigia2 às 11:53

IDA AO MOINHO EM SÃO CAETANO

Sexta-feira, 11.04.14

A agricultura, juntamente com a pecuária, foram, desde longa data, os pilares fundamentais da economia de São Caetano. Antigamente, nesta freguesia, a actividade agrícola, como nas demais freguesias dos Açores, consistia, fundamentalmente, no cultivo do milho. A importância deste cereal na economia da freguesia foi tal que, por vezes, ate terá sido, muito provavelmente, utilizado como moeda de troca ou como meio de pagamento de serviços.

Desta forte implementação do cultivo do milho e da necessidade de o transformar em farinha, surgiu, na freguesia, a construção dos moinhos. Dada a raridade de cursos de água com caudal permanente, recorreu-se, naturalmente, à força eólica, surgindo assim os moinhos de vento que passaram a assumir um papel fundamental na definição da paisagem local e na memória cultural dos habitantes desta freguesia. Estes moinhos recorriam ao uso de hélices como elemento de captação e conversão da força do vento, transformando-a em energia capaz de movimentar os mecanismos necessários e adequados à moagem do milho.

Ir ao moinho, outrora, era fundamental na freguesia de São Caetano e fazia parte do quotidiano dos seus habitantes. A atestá-lo está a quantidade de moinhos que nela existiam e de alguns dos quais ainda restam alguns vestígios.

Estes moinhos, para aproveitar melhor a força do vento eram construídos nos lugares mais altos, os quais, embora sendo de rara beleza, tinham o inconveniente não só de serem um pouco distantes das habitações, mas, sobretudo, o de o seu acesso ser feito por veredas e canadas íngremes e sinuosas. Ao moleiro competia apenas moer o milho, pagando-se ele próprio do seu trabalho através de uma pequena quantidade de farinha que retirava de cada uma das moendas. Geralmente eram as mulheres que iam ao moinho, transportando o milho, em sacas de pano, vindas da América e carregadas à cabeça. Outras vezes, eram os homens que levavam as sacas num burrinho. Uns e outros esperavam que o milho fosse moído de imediato, ou então, regressavam a casa e aos seus trabalhos, voltando ao moinho no dia seguinte.

A freguesia de São Caetano foi a que melhor explorou a troca de mercadorias, sobretudo devido ao facto da emigração para o estrangeiro, ter sido feita através deste lugar, dado que oferecia condições ideais para navegação. Muitos dos seus habitantes ao emigrarem, obtinham melhores condições económica e ao regressarem à sua terra ou mesmo antes de o fazerem, compravam terrenos destinados ao cultivo do milho, no sítio do arrodeio e, sobretudo, no Faial. Nesta ilha recorriam aos rendeiros para trabalharem os campos e cultivar milho, pagando a renda com parte do mesmo. Este facto fez com que aumentasse substancialmente o recurso ao moinho.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:30

A APANHA O MILHO EM SÃO CAETANO

Segunda-feira, 07.04.14

Na freguesia de São Caetano, a economia baseou-se sempre numa agricultura de subsistência, em que um dos principais e mais importantes produtos cultivados era o milho, do qual dependia, em grande parte, a sobrevivência da população. O ciclo do milho, cultivado nos terrenos mais férteis e mais próximos das habitações, prolongava-se por etapas diversas e diferentes e abarcava tarefas múltiplas e diversificadas, ao longo de quase todo o ano. O que de mais importante se extraía do milho era a farinha, com a qual se fazia o pão e o bolo, elementos básicos na alimentação diária e, por isso mesmo, o milho era a base de sustento da maioria dos habitantes de São Caetano. Durante o mês de abril fazia-se a sementeira do milho à estaca ou em regos feitos com arado puxado por animais. Durante o seu crescimento tinham lugar, sucessivamente, outras tarefas, tais como sachar, desbastar, abarbar e quebrar a espiga, sendo esta guardada nos palheiros para alimento dos animais no inverno. Por sua vez o pasto que era cortado logo a seguir, servia para fazer a cama aos animais, transformando-se em estrume para ser utilizado nas sementeiras. Finalmente a apanha do milho, nos campos a abarrotar de maçarocas, após a qual eram transportadas em cestos, às costas ou em carros de bois para a loja da atafona, a fim de serem descascadas. Ao serão juntavam-se as famílias para descascar e amarrar as maçarocas que depois eram colocadas, umas vezes nas burras, feitas com paus de faia, outras nos tirantes das própria habitações. Era durante o desfolhar que os homens retiravam as folhas mais finas do interior da maçaroca, as quais guardavam para, mais tarde, nelas embrulhar o tabaco e “fazer” os cigarros. O dia de “apanhar o milho” era, pois, um dia de muito trabalho e de grande azáfama e canseira. Mas como geralmente aos trabalhos duros e pesados o povo dava sempre um certo sentido de alegria, este dia também se tornava, de alguma forma, numa espécie de dia de festa. Homens e mulheres muniam-se de cestos que eram colocados, estrategicamente, em pontos diversos, ao longo do terreno. Enquanto iam arrancando as maçarocas dos pés do milho com perícia e destreza, atiravam-nas para dentro dos cestos, até os encher por completo. Muitas terras ficavam longe do caminho e a elas tinha-se acesso apenas por canadas ou veredas muito estreitas e sinuosas, onde os carros de bois não passavam. Era aos mais jovens, mais robustos e mais fortes que competia a tarefa de acarretar os enormes e pesados cestos a abarrotar de maçarocas, até à atafona, onde eram despejadas e onde ficavam aguardando que ao serão se juntasse a família, os parentes, os amigos e os vizinhos para, num ambiente de alegria e folguedo, as descascar e amarrar.

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publicado por picodavigia2 às 10:24

IDA AO POÇO EM SÃO CAETANO

Sábado, 05.04.14

São Caetano, assim como a maioria das freguesias da ilha do Pico, somente a partir da década de 80, foi provida pela rede de abastecimento público de água. Os próprios tanques e cisternas que ainda hoje proliferam pela freguesia, junto às habitações, apesar de não utilizados actualmente, na sua maioria, são construções relativamente recentes. Daí que, em tempos mais remotos, a água fosse um elemento, raro, precioso e de difícil obtenção. O Pico é uma ilha vulcânica, seca e, por conseguinte, em São Caetano a água era escassa. Além disso, as ribeiras apenas se enchiam por altura de chuvas torrenciais e as nascentes eram raras, distantes das habitações e com caudais insuficientes para satisfazer as necessidades da população. Por outro lado, tratando-se de uma freguesia pobre, em tempos mais recuados, poucos tanques de recolha da água foram construídos na localidade.

Perante a escassez de água os habitantes de São Caetano adoptaram uma solução que lhes permitia aceder à água e adquiri-la recorrendo aos chamados “Poços de Maré”. Apesar de salobra, insípida e pouco bebível, foi esta água que desde os primórdios do povoamento até ao início do século passado abasteceu a quase totalidade da população desta hospitaleira freguesia, embora, por vezes o povo recorresse ao lugar das Fontes, no Caminho do Mato, onde ia buscar a água, sobretudo, para beber, para fazer o café ou o chá.

Mas estes poços, construídos em pedra vulcânica, eram edificados perto da costa, muito distante das habitações e, além disso, enchiam-se somente por altura da maré cheia, através de infiltrações oriundas do mar. Assim, o ir buscar água ao poço, apesar de se tornar uma rotina diária para os nossos antepassados, constituía uma tarefa árdua, difícil e muito cansativa, pois exigia que as mulheres percorressem veredas íngremes e escarpas pedregosas, transportando a água, em potes de madeira levados à cabeça. Eram também as mulheres que pelos mesmos trilhos, carregavam, em trouxas, a roupa antes e depois de a lavarem nas pias que existiam junto àqueles poços. Por vezes, sobretudo, enquanto esperavam os maridos que estavam no mar, as mulheres depois de lavar a roupa, punham-na a secar sobre as pedras da costa, evitando, assim, o peso de a transportar molhada, de regresso a casa.

Assim, a água recolhida e transportada com tanto esforço e sacrifício, apesar de salobra, era considerada um bem precioso que urgia poupar, por isso, geralmente, era depositada e guardada em talhões de barro a fim de se conservar mais fresca, sendo o seu uso racionado.

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publicado por picodavigia2 às 15:48

AS ANTIGAS FOLGAS EM SÃO CAETANO

Quarta-feira, 02.04.14

As Folgas, realizadas outrora, na freguesia de São Caetano, eram verdadeiros momentos de descanso e de pausas no trabalho, em que as pessoas se juntavam, com o objectivo de conviverem e se divertirem através da realização de balhos. Geralmente realizavam-se ao serão, sobretudo no Inverno e tinham lugar ou em casas particulares, ou numa loja que tivesse alguma dimensão, ou até nas casas de arrumos. Era o dono da casa que convidava os melhores tocadores e cantadores da freguesia, a que se juntavam os familiares e amigos. Eram também, muitas vezes, momentos de encontro para os namorados ou ocasião de descobrir o primeiro amor. Por vezes os que não eram convidados para uma determinada folga, ficavam indignados e juntavam-se numa outra casa, com os mesmos objectivos, o que fazia com que houvesse alguma disputa pela qualidade e apreciação de cada uma das folgas. Destas disputas nasceram, as chamadas folgas guerreadas, situação muito frequente na freguesia, onde cada qual disputava não só a qualidade dos balhos mas também a quantidade de participantes e das bebidas oferecidas.

O balho mais bailado nas folgas era a Chamarrita, em que tinham lugar de destaque os mandadores e os cantadores e em que os instrumentos musicais, vulgarmente, usados eram: viola da terra, violão, violino e bandolim.

A Chamarrita é um dos mais antigos bailes tradicionais do Pico, sendo considerado o mais emblemático do folclore açoriano. Trata-se de um baile mandado, muito primoroso, com um certo grau de dificuldade e que requer um mandador experiente e animado. Em São Caetano, a Chamarrita começava com 3 pernas: o homem tirava ou convidava uma mulher e bailava três pernas com a mesma, na última esta convidava um dos homens presentes os quais aguardavam, ansiosamente, este momento. O mandador iniciava a Chamarrita batendo palmas, dizia “entra”. os pares trocavam posições e iam dançando de acordo com as ordens do mandador: “quebra entranceia”, “bate palmas“, “leva cheia”, “rola”, “troca o par”,  “outra senhora”, “ao meio da casa”, “chamarrita”,fecha a roda”, “salta e torna a fechar”, “torna a saltar e puxa cadeia”,  “vira e foge” ,  “dobra a casaca”,vira o torreão” e, terminava com “olha o pico”.

Para alem da Chamarrita, nas folgas realizadas em São Caetano também se bailava “o fadinho” e, no fim, a “sapateia”,  estasó pelos mais velhos.

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FÁBRICA DE SUMOS E ENLATADOS DE FRUTA VAI SER CONSTRUÍDA EM SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 01.04.14

Segundo noticiaram alguns jornais da cidade norte-americana de Newark, estado de New Jersey, a empresa de sumos refrigerados e de enlatados de fruta “Semed´s Globalfruit” pretende instalar, brevemente, uma unidade fabril na ilha do Pico. Segundo aqueles jornais, a filial daquela empresa norte-americana, cujo projecto já foi apresentado à edilidade madalenense, será construída na freguesia de São Caetano, concelho da Madalena. A concretizar-se este projecto, o local para a instauração da respectiva fábrica e armazéns anexos será uma parte da zona litoral, entre o porto de São Caetano e o farol de São Mateus. A escolha do local, o desbloqueamento de entraves burocráticos, uma vez que se trata de uma zona de adegas e cultivo de vinha, bem como a aquisição dos terrenos parecem ser os maiores obstáculos, àquele projecto, por parte do poder local, uma vez que, no que à “Semed’s Globalfruit” diz respeito, já todas as decisões parecem estar tomadas. No entanto e segundo fontes ligadas ao município madalenense, a escolha do local não será problemática, uma vez que, por um lado, os técnicos norte-americanos já garantiram que a área pretendida não destruirá nenhuma das adegas ali existentes, nem na área da freguesia de São Caetano, nem na de São Mateus e, por outro lado, naquela zona, desde há muito que se abandonou a cultura da vinha, estando a maioria dos terrenos que a empresa pretende adquirir, a abarrotar de faias e incensos e votados ao abandono.

Recorde-se que a “Semed’s Globalfruit”, com a construção desta filial nos Açores, pretende alargar a sua produção junto dos mercados europeus e do norte de África, uma vez que, até ao momento, se tem limitado a mercados das américas do norte e do sul. “Expandir as nossas linhas de produtos na Europa, no Norte de África e também nas ilhas açorianas, alargar a nossa produção e diversificá-la são os nossos objectivos ao implementar este projecto nos Açores”, declarou Mike Lourence ao “The Independent” de Newark. “O Pico, onde o nosso fundador, Rafael Lourence, tem as suas origens, parece-nos ser a melhor aposta. A ilha, para além de um excelente porto, situado em São Roque, tem muitas outras estruturas que poderão tornar perfeitamente viável o nosso projecto. Além disso, actualmente, o número de desempregados que grassa na ilha, garante-nos a mão-de-obra necessária. A proximidade do Faial poderá, também, ser um bom auxiliar quer no recrutamento de mão-de-obra quer no escoamento de produtos.”, concluiu Mike Lourence.

Sabe-se, também, que a “Semed’s Globalfruit” tem como um dos seus objectivos prioritários lançar novos produtos no mercado. Assim e ainda segundo Mike Lourence “Não apenas o Pico mas também as outras ilhas do arquipélago podem fornecer-nos muita matéria-prima, sobretudo, frutos típicos da região, aos quais pretendemos alargar a nossa produção, como seja o caso do araçá, do maracujá, da nêspera e sobretudo do phisális. Além disso a ilha ainda poderá fornecer matéria-prima para outros produtos que já constam da nossa produção, como a laranja, a uva e até os figos.”

A “Semed’s Globalfruit”, fundada em 1957 por Garry Lourence, filho de emigrantes picoenses, está sediada nos arredores da cidade de Edison, no estado de New Jerssey e nela trabalham mais de 500 funcionários, possuindo, actualmente, vendas anuais no valor de cerca de US$ 350 milhões, em sumos e enlatados de fruta, tendo recentemente alargado os seus mercados internacionais, com a criação de uma fábrica, semelhante à que agora pretende instaurar no Pico, em Dampier, na Austrália e, mais recentemente, uma outra em Portoviejo, no Equador.

A nova fábrica que será construída numa área de 50 mil metros quadrados, deve gerar cerca de 550 postos de trabalho, entre operários, armazenistas e camionistas. Além disso dará origem a um desenvolvimento da hotelaria e da restauração, uma vez que se prevê uma chegada ao Pico, proveniente dos Estados Unidos, de altos quadros e outro pessoal qualificado que, para além de orientar, quer os trabalhos de construção das estruturas quer para dirigir os primeiros tempos de laboração, dará a formação necessária aos quadros técnicos, operários e trabalhadores das diversas áreas. O projecto prevê que, numa primeira fase, a fábrica possa ter a capacidade de produção de mais de um milhão de unidades por ano, sendo previsível o aumento desse número, em caso de sucesso.

Acrescente-se ainda que em termos de postos de trabalho, muitos outros poderão ser criados quer a nível do sector primário, fruticultura, quer no terciário, uma vez que se vão fortalecer ou até criar novas estruturas de apoio, sobretudo a nível económico e logístico.

Para a autarquia madalenense "O projecto ora apresentado, foi recebido com muita satisfação e terá o aval da edilidade porquanto ele consolida e consubstancia um empreendimento de valor gigantesco para o concelho e para a ilha e vai marcar, muito positivamente, a história da indústria picoense e açoriana e ainda animar e desenvolver, substantivamente, o concelho e a ilha”.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:25

FESTA DE SÃO PEDRO EM SÃO CAETANO

Sexta-feira, 28.03.14

São Pedro, tradicionalmente, é considerado o padroeiro dos pescadores e dos homens do mar. Daí que muitas das localidades que fazem da faina marítima, uma das suas principais actividades económicas, habitualmente, o venerem e celebrem. A freguesia de São Caetano deste sempre foi considerada terra de pescadores e marinheiros, sendo que, grande parte das famílias que ali residiam, encontrava, no mar, uma boa parte do seu sustento. Alguns dos seus habitantes tornaram-se valorosos baleeiros, outros dedicaram-se, com arte e empenho, à pesca da albacora, enquanto muitos faziam da pesca artesanal, em pequenos barcos, muitas vezes construídos por eles próprios, o seu ganha-pão. Além disso, a costa da orla marítima desta freguesia e a enorme baía que lhe fica em frente são abundantes em peixes, moluscos e crustáceos. Tal abundância convidava a que muitos dos seus habitantes dedicassem grande parte do seu tempo livre à pesca de cana, ou à apanha de polvos, caranguejos e lapas. Mas o mar, por vezes, é traiçoeiro e cruel, repleto de perigos e intempéries. Era pois imperioso solicitar o auxílio sobrenatural, implorando ajuda celeste, através de São Pedro, também ele pescador. Assim e naturalmente surgiu a devoção a este santo, consumada numa festa de que ainda hoje há memória e que se fazia, na freguesia, há mais de oitenta anos. O local escolhido para celebrar e homenagear São Pedro era o largo do Caminho do Meio, incorporado entre as adegas, símbolos da labuta e da simplicidade deste povo, que ao mesmo tempo que festejava o santo, manifestava, conjuntamente e em alegres folguedos, a sua alegria. A ideia de celebrar uma festa em memória de São Pedro, solicitando a sua protecção aos pescadores, terá sido impulsionada pela senhora Rosinha Simas. No dia de São Pedro, no Largo do Caminho do Meio, fora da sua adega, esta generosa senhora, colocava uma mesa com bebidas e sobre a qual, também, eram colocadas ofertas que as outras pessoas levavam para arrematar, às quais se juntavam rosquilhas de aguardente feitas por aquela senhora e que oferecia a todos os presentes. Ao lado e a ornamentar o espaço, uma bandeira de S. Pedro pintada à mão.

Desde há alguns anos esta festa foi recuperada na sua simplicidade original e aquele local foi reestruturado e renovado, sendo erguido, no mesmo um nicho em honra de S. Pedro É uma festa de cariz popular e religioso. Celebra-se missa campal junto ao nicho, seguindo-se a procissão e arraial onde há sardinhada para todos os participantes e, em louvor de São Pedro, distribuem-se biscoitos de massa sovada cumprindo-se, assim, uma tradição, dando-se continuidade ao que se fazia há mais de oitenta anos.

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publicado por picodavigia2 às 19:18

PESCA DO CHICHARRO EM SÃO CAETANO

Quarta-feira, 26.03.14

Encastoada entre o mar e a montanha, edificada nomeio de encostas arenosas e escarpadas, rodeada por terrenos pedregosos e pouco férteis, a freguesia de São Caetano, cedo se voltou para o mar, procurando nele a abundância que escasseava em terra. A extensa costa de que a freguesia desfruta, a enorme baia em que se localiza e a grande variedade e abundância de espécies de peixes existentes no mar que a circunda fizeram com que, grande parte dos seus habitantes fizesse da pesca a principal fonte de rendimento, assumindo-a como profissão, tornando-se pescadores destemidos valorosos, exímios e competentes.

Mas foi a pesca do chicharro que, desde os tempos mais recuados, teve mais relevo na economia das gentes de São Caetano, sobretudo por se tratar de uma pesca simples e sem necessidade de recursos muito dispendiosos. Esta pesca era feita nos chamados barcos de “boca-aberta”, muitos dos quais construídos na própria freguesia. Tratava-se de pequenos embarcações, movidas a remos e que eram de dois tipos: os barcos de duas de proas, maiores e mais robustos e as lanchinhas que se distinguiam dos barcos não só por serem mais pequenas mas também porque eram traçadas à ré. Para além do leme e dos quatro remos, à direita o “dente da ré” e o “de proa” e à esquerda o “dente d’avante” e o “da boga”, cada embarcação ainda possuía o “enchelavar”, constituído por um arco feito com varas de “araçaleiro” que prendia um saco de rede e, ainda, de uma luz, de construção artesanal, alimentada com azeite de toninha ou de albafar, colocada na borda da embarcação, a fim de cegar o chicharro, facilitando a sua captura dentro da rede, embora tisnando, exageradamente, o marinheiro que a segurava. Mais recentemente recorria-se ao uso da “stilena”, que por vezes, quando o dono da embarcação a não possuía, era alugada.

O peixe, inicialmente, era engodado com uma mistura de batata-doce ou branca ou abóbora, com os primeiros chicharros apanhados. Nas embarcações maiores o “enchelavar” era preso e suspenso na água com o “pau da tralha”, cujo objectivo era rentabilizar o processo de pesca.

Chegados a terra, o peixe era dividido em soldadas, sendo uma para o mestre, uma para cada um dos marinheiros, uma para a embarcação e outra para a luz, sendo também retirado o dízimo, cujo dinheiro resultante da venda era entregue ao guarda-fiscal, então, existente na freguesia.

Ao ter conhecimento da chegada do barco, muita gente acorria ao porto. Uns pretendiam comprar o peixe, outros, simplesmente, ajudar a varar o barco, sendo, neste caso contemplados com uma “varagem” – uma pequena quantidade de peixe. O chicharro era vendido em latas quadradas, com cerca de 20 litros, o equivalente a 15 kilos, a 3 4 ou 5 escudos cada.

A pesca ao chicharro foi a que maior expressão teve em São Caetano e era a que dava mais rendimento às famílias. Os barcos chegavam ao porto, descarregavam e os pescadores iam vender o peixe, em carros de bois, em burros e, na maioria das vezes às costas dentro de canastras ou das próprias latas. Também havia pescadores que vinham de noite com a sua carroça para comprar o charro no porto e irem vendê-lo para outras freguesias.

Em Outubro e Novembro a compra do charro aumentava substancialmente, com o objectivo de o salgar para o Inverno, altura em que o pescado fresco rareava..

 

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publicado por picodavigia2 às 09:13

ENXERTIA DA VINHA EM SÃO CAETANO

Domingo, 23.03.14

À semelhança de muitas outras localidades açorianas, a freguesia de São Caetano usufrui de uma paisagem fortemente marcada pela prática agrícola, na qual se destaca a cultura da vinha. Na realidade, a vinha e o vinho constituem, para a mais jovem freguesia do concelho da Madalena, um importante património económico e personificam traços fundamentais da sua identidade cultural, ainda hoje registados em múltiplos vestígios associados à produção do vinho, tais como currais, girões, canadas, maroiços, muros, portais, adegas, alambiques, armazéns, lagares, prensas, barricas, etc. Muitos destes elementos, para além de caracterizarem a paisagem envolvente da freguesia, encerram um testemunho histórico remanescente de uma actividade vinícola pujante, consistente, feita com arte e sabedoria e, sobretudo, reveladora da labuta quotidiana de um povo simples, humilde, generoso e trabalhador.

Assim, desde os tempos mais remotos que o cultivo da vinha, em São Caetano, se revelou árduo, trabalhoso, difícil e cansativo, uma vez que a maioria dos terrenos destinados àquele cultivo se estendiam, quase exclusivamente, na zona mais estéril e pedregosa e de solo mais pobre da freguesia. Nesta zona, situada entre o mar e as habitações, foram, também, construídas as adegas, edifícios de apoio à produção vitivinícola que ainda hoje permanecem como baluartes duma epopeia simples e modesta mas digna e valorosa. Se às limitações e aridez do solo juntarmos as intempéries e os vendavais com que a freguesia era, frequentemente, fustigada, compreende-se melhor a necessidade de um ciclo de trabalhos contínuos e ininterruptos que o cultivo da vinha exigia, com destaque para a enxertia, tarefa minuciosa e que requeria muita técnica, efectuada, geralmente nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março.

A enxertia exigia, em primeiro lugar, o plantio dos bacelos ou seja pedaços de caules extraídos de uma videira e destinados à formação de uma nova planta. Os bacelos deviam conter entre cinco a seis olhos, ter um tamanho médio de quarenta centímetros, ficando na terra, durante cerca de um ano, a fim de criarem raízes e engrossarem. Ao adquirir a espessura considerada suficiente, o bacelo era plantado no local pretendido, cortado na parte superior e rachado, formando o “cavalo”, que havia de receber a “pua” ou “garfo”, ou seja o ramo que se pretendia enxertar. Este era escolhido e retirado das melhores e mais produtivas videiras e cortado em forma de cunha, de maneira a encaixar no “cavalo”, a casca verde de um na do outro.

Depois de introduzido no cavalo, o garfo era amarrado com filaça ou com ráfia e coberto com terra, transportada de outras zonas, uma vez que as vinhas, geralmente, se localizavam em terrenos pedregosos.

Como a maioria das vinhas era muito distante das residências, os homens levavam as suas merendas, para não perderem tempo e rentabilizarem melhor o dia, trabalhando de sol a sol.

Em São Caetano, terra de grandes e experientes enxertadores, as “idas à adega” eram muito frequentes, sobretudo, antes e depois do trabalho. Por isso mesmo, antes de irem para a enxertia os homens faziam uma passagem, pode-se dizer obrigatória, pela adega.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:54

A MATANÇA DO PORCO EM SÃO CAETANO - VERSÃO REDUZIDA

Quinta-feira, 13.03.14

A Matança do Porco constituía um verdadeiro dia de festa na freguesia de São Caetano. Os três dias que a antecediam eram de grande azáfama. Para além de preparar e picar as cebolas de rama destinadas às morcelas, era necessáriocozer o bolo e os inhames, assar as batatas-doces e a preparar o peixe, às vezes até pescado pela própria família, a carne de carneiro, o feijão, as lulas e outras iguarias e ir buscar o vinho à adega.

O dia da Matança iniciava-se ao lusco-fusco. Os parentes e amigos que vinham ajudar eram recebidos com um traguinho de aguardente ou de traçado e figos passados. As mulheres embrenhavam-se, de imediato, a colaborar nas lides da cozinha, amassando as cebolas e preparando as refeições enquanto os homens, se quedavam junto ao curral, apreciando o porco, avaliando o seu peso e qualidade, ao mesmo tempo que enrolavam uma ou duas pitadas de tabaco numa folha de casca de milho, transformando-o em cigarro que iam acendendo, sucessivamente, uns nos outros.

Uma vez morto, o porco era totalmente chamuscado com vassouras de mato, sendo, depois, muito bem lavado e rapado. De seguida era aberto, sendo lhe retirados os miúdos, incluindo as tripas que eram separadas, a fim de se proceder à sua rígida, cuidadosa e exigente lavagem, com água, sal, farinha de milho, limas azedas, etc. As grossas, assim como o bucho, eram cheias com o preparado das morcelas. As outras guardavam-se para as linguiças.

O abrir e o desamanhar do porco eram realizados pelos mais sábios e experientes. Os bofes, o coração e uns pedacinhos de carne da barriga eram guisados com batata branca, o fígado transformado em iscas e, juntamente com as sobras do almoço, constituíam a ceia, onde não faltavam os convidados. De tarde, as mulheres lavavam as tripas, enquanto os homens jogavam ao truque e à sueca. Mas a mesa não se levantava e, já pela noite dentro, entre jogos de cartas e copos de vinho, prova-se a morcela. Era também por esta altura que apareciam algumas visitas estranhas, com o intuito de assaltar as morcelas. Entre folguedos e cantigas, por vezes até entre bailados de chamarrita, todos eram brindados com vinho e comida, onde não faltava a saborosa morcela.

Depois de pendurado a um tirante pelo focinho, geralmente na loja ou na própria cozinha, o porco era aberto nas costas, de cima para baixo, sendo-lhe espetadas umas canas atravessadas que mantinham o interior do animal aberto, a fim de o enxugar. Por baixo colocava-se uma pequena celha para aparar os restos de sangue e água que escorriam do interior do animal. No dia seguinte, desmanchava-se, separando, carne, ossos, lombos e toucinho. Algumas postas eram destinadas a presentes, nunca faltando a talhada de toucinho para a Igreja. Do lombo faziam-se os primeiros bifes para o jantar, juntamente com a morcela assada ou frita. A cabeça também era separada e preparada para com ela fazer a tradicional sopa, também incluída no jantar. O toucinho era derretido, quase na totalidade e, depois de se retirar a banha, transformava-se em pequenos mas deliciosos torresmos de graxa. Uma parte da carne e os ossos eram salgados e guardados nas salgadeiras, enquanto outra era finamente picada para as linguiças, que se haviam de encher alguns dias depois, a fim de ir garantindo, juntamente com a carne, os torresmos e o toucinho, o sustento de cada família, durante o ano.

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publicado por picodavigia2 às 21:33

O EMIGRANTE DE SÃO CAETANO

Sábado, 01.02.14

Crónica de Lélia Nunes, publicada no “Portuguese Times”, edição nº 2113, de 21 de Dezembro de 2011.

 

“No último dia 12 de novenbro, juntamente com a comemoração do 20º aniversário, a Portuguese-American Leadership Council of the United States – PALCUS (Conselho de Liderança Luso-Americana dos Estados Unidos), em noite de gala realizada na cidade de  Washington, homenageou  algumas personalidades portuguesas ou luso-americanas que se destacam por sua liderança no exercício profissional  e/ ou na realização de atividades  comunitárias de expressivo valor para  o desenvolvimento  das  Comunidades Portuguesas dos Estados Unidos. Uma tradição instituída em 1996 e que ano após ano vem distinguindo e premiando homens e mulheres que são reconhecidamente líderes em diferentes campos de atuação.

Divulgada a lista dos  galardoados aplaudi as respeitadas e reconhecidas  lideranças femininas da  Dra. Berta Cabral, presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada ( Prêmio de Liderança Internacional) e da Professora Maria Pacheco, Universidade de Brown (Prêmio de Liderança em Educação). Outros nomes integravam a tal lista de premiados e todos com certeza merecedores da distinção atribuída pela  PALCUS.

Foi com muitíssima satisfação que identifiquei entre os homenageados  “António Pereira Vieira Goulart” -  o  amigo Tony Goulart - ali  distinguido com a outorga do Prêmio de Liderança em Serviços Comunitários.  Lembro bem do dia que ouvi falar do Tony pela primeira vez. Na verdade, primeiro conheci o senhor António Goulart. O ano era 2002 e o lugar Casa do Povo de São Caetano, na Ilha do Pico. Era domingo do Espírito Santo e a Casa do Povo engalanada recebia toda a freguesia e mais gente de outros lados  que, no grande salão, esperavam  pela  tradicional Sopa do Espírito Santo. Um espanto! A azáfama era grande. Homens e mulheres se movimentavam em diferentes funções recebendo os convivas do grande banquete. Já na entrada deparei com centenas e imensas rosquilhas de massa sovada colocadas em açafate de vime, guarnecido por toalha branca, de renda ou linho, enfeitadas com flores do campo.

 Naquela altura eu ainda não percebia bem o que se passava num ritual de sopas. O salão decorado com simplicidade e elegância apresentava inúmeras fileiras de mesas cobertas com toalha branca, flores, uma garrafa de sumo, outra de vinho e muito pão. Entre flores, cetim encarnado, fitas, toalhas rendadas e candelabros onde velas tremulantes compunham um ar de sagrado ao bonito arranjo de um altar, coroas e bandeiras do Espírito Santo se destacavam no amplo salão. Abençoavam àquela Casa do Povo onde os devotos do Divino partilhavam a dádiva do alimento numa sentida  convivência fraterna. Meus olhos ávidos e curiosos por mais saber percorriam tudo na ânsia de registrar e não deixar escapar nada. A mini agenda estava cheia e não tinha espaço para novas anotações. O jeito foi rabiscar em guardanapos de papel as  minhas observações e informações que iam sendo passadas na simples menção de que eu estava ali como uma investigadora das tradições açorianas do Espírito Santo. Foi num desses guardanapos que anotei o nome de António Goulart um emigrante na Califórnia, nascido bem ali em São Caetano e que organizara e publicara no ano anterior o livro “The Holy Ghost Festas: A Historic Perspective of the Portuguese in California”. Afinal, fiquei sabendo que o senhor António era um emigrante muito ligado ao associativismo comunitário português na região de San Jose, no estado da Califórnia  e um empresário da construção civil muito bem sucedido. Cursara o 9º ano do Seminário nos Açores e aos 20 anos  emigrara para a América atrás do sonho – California dream, percorrendo o caminho árduo de todo emigrante na busca do seu norte seguro. De volta ao Brasil  busquei no guardanapo rabiscado o endereço anotado (da Câmara de Comércio Portuguesa em San Jose) e escrevi ao senhor solicitando informações sobre a aquisição da tão referenciada obra sobre a história do Espírito Santo na Califórnia.

Semanas depois chegou o “livrão” do Divino. Encadernado, bonito, a capa era  a imagem da própria bandeira do Espírito Santo. Muitos textos e imagens, testemunhos de toda uma história de vivências e mundividências de pertenças a mundos distintos e identificados pelo peso do hífen, que tão bem enfatiza Onésimo Teotónio de Almeida em seus ensaios sobre a experiência luso-americana (in: O Peso do Hífen,2010). Junto ao livro uma atenciosa carta de oferta e uma pergunta ao pé da página: “Como você descobriu São Caetano? Tony Goulart.”

Desse dia em diante, António Pereira Vieira Goulart passou a ser  simplesmente Tony Goulart, um açoriano dedicado a sua comunidade, assumindo e realizando inúmeros projetos sociais econômicos e culturais que contribuem para o desenvolvimento pleno de uma região que tem na sua história a presença do emigrante açoriano, aquele que “através dos tempos procurou noutras terras espaço, pão e justiça, que levava na mente a  esperança de riqueza, às  costas, sua ilha e no seu coração, o culto ao Espírito Santo.” Palavras de Manuel Duarte e que aqui cito de cor. Sua liderança inconteste em dezenas de atividades comunitárias que efectivamente participa na defesa da causa portuguesa e sua atuação como coordenador da editora Portuguese Heritage Publications da Califórnia, cuja finalidade precípua é salvaguardar e divulgar a história da presença portuguesa na Califórnia, com dezanove títulos  publicados, verdadeiros registros documentais, não deixam a menor duvida que a sua trajetória por terras da abundância foi abençoada. Sim, por tudo que tem feito em prol das comunidades o Tony Goulart é

merecedor de todas as homenagens recebidas em sua vida como recentemente nos Açores, no dia da Região, na segunda-feira do Espírito Santo ou como a que acabou de receber - “Prémio de Liderança em Serviços Comunitários,” num reconhecimento da egrégia associação luso-americana PALCUS, entidade com expressiva representatividade de portugueses em diferentes estados norte-americanos.

Enfim, o ousado sonho do jovem emigrante de São Caetano do Pico se transformou numa invejável realidade.

Parabéns Tony Goulart!”

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publicado por picodavigia2 às 18:37

SÃO CAETANO DO PICO

Sábado, 01.02.14

No site da Câmara Municipal da Madalena, ilha do Pico, pode ler-se o seguinte, sobre a freguesia em epígrafe: “São Caetano é a mais jovem freguesia, instituída em 2 de Outubro de 1880, situa-se na parte sul do concelho e da ilha do Pico, entre as freguesias de São Mateus e São João. Localizada a dezoito quilómetros da sua sede concelhia, engloba os lugares de Prainha do Galeão, Caminho de Cima e Terra do Pão.

Alojada no regaço de uma pequena baía, onde assenta o Porto da Prainha, esta freguesia possui grande beleza, em boa parte, conferida pela sua posição geográfica. Instalada entre o mar e a montanha do Pico, é sulcada por ravinas designadas por quebradas, sendo a freguesia mais próxima desta montanha.

Ocupa uma área de 24,36 quilómetros quadrados e é demarcada por diversas elevações designadas cabeços: o da Prainha e o do Mistério, a Rocha Vermelha e o Paul. Cruzam este território as ribeiras: da Prainha, do Diluvio, da Cancela, da Grota, da Laje e a Ribeira Grande.

Os trilhos, primitivos acessos situados entre o mar e a montanha, conduzem qualquer viajante ao rico património paisagístico desta localidade, destacando-se o trilho da canada de São Caetano que se inicia junto à Prainha do Galeão em forma de escadaria; a canada da Ribeira da Prainha, trilho que ligava a Prainha do Galeão à parte superior da freguesia e que era usado por pescadores e baleeiros; o Largo das Fontes, acesso às pastagens de São Caetano e famoso pelas suas fontes.

Os primeiros colonos da região fundaram a povoação na zona, hoje, denominada por Prainha do Galeão, onde Garcia Gonçalves ali fez construir um galeão como forma de pagamento de dívidas ao rei Dom João III.

Sendo estes colonizadores muito devotos de São Caetano, sacerdote de Vicenza, elegeram-no como orago do povoado, logo nos primeiros tempos. Francisco Pires Flores mandou edificar uma pequena ermida em sua honra, no mesmo local onde actualmente se encontra um nicho com a imagem primitiva do santo.

Em 1878 foi iniciada a construção da igreja paroquial de São Caetano, mas a escassez de madeiras causou grande atraso na obra, agravado ainda por uma forte tempestade que se abateu sobre a ilha. Na mesma época naufragou na zona da Prainha um barco oriundo de Vicenza carregado de trigo que acabou por fornecer abundante madeira para a finalização do templo.

A agro-pecuária e a pesca continuam a ser a base de sustento da economia local, porém outras actividades se desenvolvem tais como a carpintaria, panificação, pequeno comércio e turismo.

O desenvolvimento cultural desportivo e de espaços de lazer é apoiado pelas associações e colectividades locais graças ao animado interesse da população que fez surgir os clubes de voleibol e de ténis de mesa, o Grupo Folclórico da casa do povo e o famoso grupo de música popular " Ronda das Nove" que com muita competência e orgulho promove a música de temática tradicional dos Açores.

Património histórico, cultural e natural: Igreja Matriz, Ermida de Santa Margarida, Impérios do Espírito Santo, Casas Rurais com balcão, Zona das Adegas, Casas dos Botes, Casa do Povo, Antigos Trilhos pedonais, Poços de Maré, Largo das Fontes e Baía da Prainha do Galeão - Zona Balnear.”

O mesmo site ainda informa que a freguesia possui uma população de 479 habitantes e que as suas actividades económicas mais importantes são a agricultura, a pecuária e a pesca, sendo as principais festas a de São Caetano, a de Santa Margarida e a de Nossa Senhora da Assunção, esquecendo as do Espírito Santo, uma, na Prainha, na terça-feira seguinte ao domingo de Pentecostes e outra em Julho, no Império da Terra do Pão.

No que ao património arquitectónico da freguesia diz respeito, o site destaca: Igreja Matriz, Ermida de Santa Margarida, Impérios do Espírito Santo, Casas Rurais com balcão, Zona das Adegas, Casas dos Botes, Casa do Povo, Poços de Maré e Largo das Fontes. Esclareça-se, no entanto, que a igreja de São Caetano, não tem o estatuto de “matriz”, uma vez que nunca originou nenhuma outra, o mesmo não acontecendo com a de São Mateus.

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QUADRAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DA CASA DO POVO DE SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 07.01.14

Decorriam os primeiros meses do longínquo ano de 1972, vivia-se o conturbado terceiro quartel do século XX, quando o responsável da Segurança Social no, então, Distrito da Horta, demandou a freguesia de São Caetano, depois de antes ter parado na de São Mateus. De seguida, havia de procurar paragens em muitas outras freguesias e lugares da ilha do Pico.

O objectivo da sua visita era claro e preciso: o Governo Português da altura, liderado pelo professor Marcelo Caetano, pretendia criar algumas Casas do Povo na ilha do Pico, de forma a se abrangerem-se todas as freguesias, a fim de que toda a população rural passasse a usufruir de alguns benefícios e regalias, até essa altura, apenas atribuídos aos trabalhadores do comércio e serviços. Para a parte sul da ilha, localizada entre a Candelária e o Mistério de São João, seria criada uma Casa do Povo, com sede na freguesia de São Mateus, abrangendo esta freguesia e a de São Caetano. Tudo estava decidido, delineado e definido, superiormente, incluindo os membros da direcção, da assembleia geral e do conselho fiscal, pese embora alguns deles, nomeadamente os pertencentes à freguesia de São Caetano e ao lugar da Terra do Pão, disso não tivessem nenhum conhecimento.

Algumas das pessoas contactadas, no entanto, recusaram, de imediato, fazer parte desses órgãos, enquanto outras desistiram, acabando o projecto por abortar, alguns dias depois. Distúrbios verificados noutras paragens, haviam criado alguma apreensão e até medo, nos espíritos menos aventureiros e audazes.

Mas a ideia de se criar uma Casa do Povo em São Caetano não feneceu. Pelo contrário foi criando raízes, crescendo, tornando-se objecto de conversas entre um grupo restrito de habitantes da freguesia que, aos poucos, foi divulgando os seus intentos, realizando reuniões de esclarecimento no Salão da Casa do Espírito Santo e até na igreja paroquial. Aos poucos a maioria da população foi aderindo à ideia. A Casa do Povo iria, por um lado, solucionar um dos problemas mais graves da população: a falta de assistência médica e medicamentosa e, por outro, proporcionaria aos mais pobres e a os mais desamparados e, por conseguinte, à maioria da população, que beneficiasse de reformas, abonos de família, subsídios de nascimento, casamento e até de morte. 

Como os estatutos das Casas do Povo, em alternativa a imposição governativa inicialmente proposta, previam que o povo de uma localidade pudesse democraticamente, solicitar a respectiva criação, um grupo, constituído por Manuel Goulart, Manuel Celestino, Fernando Marques, Manuel de Tialuzia, Manuel Azevedo, João Melo, Manuel Ferreira e outros decidiram solicitar, directamente, ao Governo a criação da Casa do Povo, integrando a maioria deles a comissão instaladora. Toda a documentação necessária foi devidamente preparada e enviada para o governo central.

O processo, sobretudo devido aos obstáculos criados noutras freguesias da ilha, foi célere, sendo a criação da Casa de Povo de São Caetano, anunciada por o telegrama enviado pelo Ministério da Segurança Social, recebido com enorme regozijo e incontida alegria, em São Caetano, no dia 7 de Agosto de 1972, precisamente no dia liturgicamente dedicado a São Caetano, embora nesse tempo a festa em louvor do mesmo fosse celebrada a 15 de Agosto, conjuntamente com a da Senhora da Assunção.

Uma vez criada e aprovados os estatutos e os corpos directivos, a Casa do Povo de São Caetano, começou a funcionar de imediato, no edifício que o Manuel Celestino construíra após regressar como emigrante da França e cujo processo de construção foi acelerado, propositadamente, a fim de que esta prestimosa instituição que tanto beneficiou a freguesia, funcionasse de imediato.

Inicialmente a Casa do Povo de São Caetano deveria abranger a vizinha freguesia de São Mateus. No entanto como os seus habitantes manifestaram acentuada oposição, foi criada, algum tempo depois, uma Casa do Povo naquela freguesia.

Passaram-se quarenta anos. A Casa do Povo de São Caetano, cresceu, fortaleceu e solidificou-se. Actualmente possui sede própria, dotada de variadíssimas estruturas de apoio á população, de ajuda, de serviços, de cultura e lazer, com destaque para o Grupo Coral de São Caetano, que tem divulgado não apenas a música mas também a história, a cultura e os costumes de uma das mais belas freguesias do Pico.

No passado dia um de Setembro aquela instituição comemorou o seu quadragésimo aniversário com um jantar seguido de um sarau cultural em que participaram o grupo de cantares de idosos da freguesia, o rancho folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa – Meinedo e o rancho folclórico local.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 2/09/12

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publicado por picodavigia2 às 19:55

FESTA DA ASSUNÇÃO EM SÃO CAETANO DO PICO

Domingo, 29.12.13

Com o mar a estender-se-lhe em frente e a assumir-se como tapete natural, de um azul aveludado, tingido de bruma e, aqui e além, a salpicar-se de espuma e maresia, e com a montanha atrás, como baluarte de sonhos, de emoções mas também como enigma duma rusticidade evolutiva e retumbante, a freguesia de São Caetano já mais se esquiva à celebração do 15 de Agosto – A Senhora da Assunção. É verdade que a confirmar-se o dogma, estabelecido para clarear o mistério, a Senhora que se assumiu ao Céu em corpo e alma não se arroga, na sua plenitude aparentemente mais convencional, o estatuto de padroeira, que o orago da freguesia desde os primórdios do povoamento da ilha e por influência de colonos italianos, foi, incondicionalmente, atribuído ao Santo que lhe deu nome. Na verdade é crença comum, talvez com ornamentos lendários, que os primeiros colonizadores desta zona situada numa das maiores baías do Sul do Pico, seriam muito devotos de São Caetano, sacerdote de Vicenza, Itália, pelo que o elegeram como padroeiro da localidade, dando, mais tarde, nome à freguesia. Mas com o rodar do tempo e o passar dos séculos, com imposições não litúrgicas e muito menos não teológicas, a festividade da Senhora da Assunção sobrepôs-se à de São Caetano, apagando-a, enfraquecendo-a, quase mesmo a eclipsá-la, ombreando, no entanto, lado a lado com a do Espirito Santo, esta aureolada com costumes e tradições ancestrais, muito sui géneris, e acabou por tornar-se uma espécie de “ex-libris” da freguesia, uma jactância paradigmática e fulgurante, um folguedo religioso, mas amedrontado e retumbante, a marulhar num quotidiano estático e quiescente, em que a freguesia se enraizou e onde floresce.

E a festa mais uma vez desabrocha, na sua simplicidade genuína e pura, sem grandes euforias ou alaridos, anunciada pelos toques tímidos e hesitantes dos sinos. É a festa constituir-se numa espécie de solenidade não solene, causticada, este ano, por intempéries climatéricas, ventos e chuvas que cerceiam o giro habitual da procissão e impedem a “Recreio dos Pastores de São João” de atirar aos quatro ventos os seus acordes, devidamente ensaiados e preparados. Com ela vai-se uma parte do povo, os menos fiéis, os pouco arreigados em costumes e tradições

A chuva tem o condão de alegrar os campos ressequidos mas também de reduzir o percurso processional e alagar os santos, a isto puco habituados. É o descalabro festivo, o desmoronar-se de um projecto, é verdade que ocasional e pouco duradouro, mas emoldurado no sonho sombrio e constante, mas mais uma vez frustrado, de se fazer este ano mais e melhor do que no ano transacto. Acresce à frustração do extermínio festivo, a despedida do pároco – Paulo Areias - que agora se vai entrincheirar em acções pastorais, em terras distantes, no norte da Alemanha, paredes meias com a Bélgica. A substituição implicará, no mínimo, “dois ramos de flores”. E havia de acontecer logo em plena crise.

E no silêncio de uma tarde sem acordes musicais, apenas os choros infantis do Samuel ao sentir sobre a nuca a gélida água lustral ecoaram pelas encostas da montanha silenciosa e coberta de um nevoeiro peçonhento e incomodativo, quebraram o estigma da desolação. O próprio reboliço das favas, dos caranguejos, das bifanas de albacora a solicitarem o sabor do mosto já fermentado de um tinto nascido de entre estas pedras negras e perfumado com o enxofre deste magma basáltico, num cubículo para tal talhado, ali ao lado, se perde entre lamentos de deslumbramento e frustração:

- Este tempo deu-nos cabo da festa!

- Não admira, aqui em São Caetano e por todo o Pico, Agosto é o primeiro mês do Inverno!

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 15/08/12

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publicado por picodavigia2 às 14:34

RESCALDO

Quinta-feira, 26.12.13

Natal ilhéu…

Último,

Longínquo, distante…

Quase perdido no tempo.

 

Um tecto abrigava-me da chuva,

Mas não havia luzes,

Nem estrela,

Nem cheiro a canela.

 

As portas estavam cerradas,

O brasido do borralho apagado

E as paredes ressequidas.

No ar,

Havia um bafo húmido,

De solidão deserta.

 

Na rua, passavam vultos a cambalear

Deixando um rastro de silêncio arrepiante.

As janelas, das casas, em frente,

Ao redor,

(de todas as casas)

Tinham as cortinas corridas.

 

E até os sinos, na torre da igreja

Há muito que se haviam silenciado.

 

Ao lado,

Altiva, a montanha dormia.

Mas na imaginação das crianças,

Obstruindo veredas de magia,

Nascia um Menino.

 

A lancha

Já estava ancorada,

No cais,

À espera que o Natal acabasse.

 

Lá longe,

 - em destino cruelmente tracejado -

… uma guerra.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:33

A MATANÇA DO PORCO EM SÃO CAETANO

Quinta-feira, 19.12.13

Assim como noutras localidades açorianas, a Matança do Porco, em São Caetano do Pico, constituía, nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta e, muito provavelmente, nas anteriores, um dos maiores e mais importantes momentos de festa de cada família, ao longo do ano. Ocorria, normalmente, no mês de Dezembro ou no de Janeiro e eram dois ou três dias de trabalhos árduos, de canseiras, de consumições e preocupações, mas também de festa, de alegria e, sobretudo, de mesa farta. Os próprios dias que antecediam os da Matança, já eram de grande azáfama, não apenas nas idas e vindas aos matos, a fim de cortar, acarretar e secar a urze, indispensável ao chamusco, mas também na preparação da lenha necessária para afoguear panelas e caldeirões, onde se havia de cozinhar os torresmos e derreter o toucinho. Uns dias antes da matança era necessário, também, arrancar, limpar, lavar e por a secar as cebolas de rama, que na véspera haviam de ser picadas para encher as morcelas. Depois de, devidamente preparadas, as cebolas eram misturadas e amassadas juntamente com salsa e outros temperos, aguardando a chegada do sangue. A véspera da Matança ainda era destinada a preparar as salgadeiras, a cozer o bolo e os inhames, a assar as batatas-doces e a preparar o peixe, o feijão, as lulas destinadas e outras iguarias destinados às refeições dos dias seguintes.

O dia da Matança iniciava-se ao lusco-fusco. Os parentes e amigos que vinham ajudar eram recebidos com um traguinho de aguardente ou de traçado. As mulheres embrenhavam-se, de imediato, a colaborar nas lides da cozinha, enquanto os homens, se quedavam junto ao curral, apreciando o cevado, avaliando o seu peso e qualidade, ao mesmo tempo que enrolavam uma ou duas pitadas de tabaco numa folha de casca de milho, transformando-o em cigarro que iam acendendo, sucessivamente, uns nos outros.

Finalmente iniciava-se o combate. Os mais novos, os mais experientes e, sobretudo os mais afoitos, saltavam para o curral, atapetado de palha e atiravam-se ao cevado, sem dó nem piedade. O bicho gritava, grunhia, estrebuchava e executava movimentos bruscos, em frustradas tentativas de libertação. Os homens venciam e o porco era amarrado, amordaçado e preso, sendo colocado sobre um tabuão ou sobre uma porta velha, a jeito que o marchante lhe enfiasse a faca com sucesso e o sangue jorrasse abundantemente e fosse aparado num alguidar de barro, ao mesmo tempo que lhe era misturado um pouco de vinagre, a fim de não coagular. Posteriormente, havia de se misturar ao preparado das morcelas.

Uma vez morto, o porco era chamuscado, de ponta a ponta, de um lado e outro, muito bem lavado e rapado, de modo a que a própria pele dos torresmos de toucinho pudesse ser comida. De seguida era aberto, sendo lhe retirados os miúdos, incluindo as tripas que, de imediato, eram separadas, a fim de se proceder à sua rígida, cuidadosa e exigente lavagem, com água, sal, farinha de milho, limas azedas, etc. As grossas, assim como o bucho, eram cheias com o preparado das morcelas, a que se juntara pedacinhos do véu picados. As outras tripas guardavam-se para as linguiças.

O abrir e o consequente desamanhar do porco era realizado pelos mais sábios e experientes. Os bofes, o coração e uns pedacinhos de carne da barriga eram guisados com batata branca, o fígado transformado em iscas e, juntamente com as sobras do almoço, constituíam o lauto jantar ou ceia, onde não faltavam os convidados de honra: padre, professor, regedor, guarda-fiscal e outras pessoas mais influentes na freguesia ou aquelas a quem se deviam favores. Mas a mesa não se levantava e, já pela noite dentro, entre jogos de cartas e copos de vinho, prova-se a morcela. Era também por esta altura que apareciam algumas visitas estranhas, com o intuito de assaltar as morcelas. Entre folguedos e cantigas, por vezes até entre bailados de chamarrita, todos eram brindados com vinho e comida, onde não faltava a aromática e saborosa morcela.

Depois de pendurado a um tirante pelo focinho, geralmente na loja ou na própria cozinha, o porco era aberto nas costas, de cima para baixo, sendo-lhe espetadas umas canas atravessadas que mantinham o interior do animal aberto, a fim de o enxugar. Por baixo colocava-se uma pequena celha para aparar os restos de sangue e água que escorriam do interior do animal.  

No dia seguinte, desmanchava-se o porco, separando, carne, ossos, lombos e toucinho. Algumas postas eram destinadas a ofertas e do lombo faziam-se os primeiros bifes para o jantar, juntamente com a morcela assada ou frita. A cabeça também era separada e preparada para com ela fazer a tradicional sopa, também incluída no jantar. O toucinho era derretido, quase na totalidade e, depois de se retirar a banha, transformava-se em pequenos mas deliciosos torresmos de graxa. Uma parte da carne e os ossos eram salgados e guardados nas salgadeiras, enquanto outra era finamente picada para as linguiças, que se haviam de encher alguns dias depois, a fim de ir garantindo, juntamente com a carne, os torresmos e o toucinho, o sustento de cada família, durante o ano.

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publicado por picodavigia2 às 11:11

A BARRICA CHEIA

Terça-feira, 17.12.13

Contava-se, outrora, que há muitos, muitos anos, na freguesia de São Caetano do Pico, um homem havia prometido levar a coroa e dar um jantar em louvor do Senhor Espírito Santo. Porém o ano foi muito mau, o vento e a chuva destruíram muitas vinhas e, consequentemente, nasceram poucas uvas e muitas das que nasceram perderam-se ou não se desenvolveram, por isso a vindima foi muito fraca e houve muito pouco vinho. Assim o homem colheu poucas uvas, pelo que não conseguiu encher mais do que meia barrica de vinho.

 O homem ficou muito preocupado e os dias seguintes foram de grande angústia e tristeza, pois não teria vinho suficiente para dar às pessoas no dia do jantar e não tinha dinheiro para comprar mais algum.

 Mesmo assim esmagou as poucas uvas que colheu, com todo o cuidado, deixou-as fermentar e colocou o vinho na barrica, ficando mais de metade da mesma vazia.

 Passados dias, quando estava em casa a jantar, um vizinho chamou-o da rua e disse-lhe:

 — Ó homem, vai à tua adega que tens uma barrica a derramar vinho. Passei por lá agora mesmo e, cá fora, cheirava poderes a vinho.

 O homem ficou muito admirado, não acreditou, pois só tinha posto vinho numa barrica e esta nem meia tinha ficado. Era impossível que estivesse a deitar por fora, a não ser que, por qualquer razão, estivesse a vazar.

 Levantou-se, a tremer como varas verdes, foi logo para a adega, no Caminho do Meio, pensando que se calhar o pouco vinho que tinha já estava no chão e ia encontrar a barrica totalmente vazia. Já era pouco o que tinha e agora, provavelmente, ficaria sem nada.

 Quando chegou junto da adega, sentiu realmente cheiro a vinho e, qual não foi o seu espanto quando, ao abrir a porta, verificou que a barrica estava completamente cheia e a botar por fora.

 Ficou muito contente por ter abundância de vinho para pagar a sua promessa. Como estava cansado e cheio de sede, aproveitou o vinho que saia da barrica e encheu um tijela. Depois sentou-se e bebeu-a, achando o vinho delicioso e de excelente qualidade. Nunca se tinha bebido vinho tão bom, nem na sua adega nem nas dos seus amigos que ficavam ali à volta. O homem caiu então em si e acreditou que era um milagre do Senhor Espírito Santo. Contou-o a toda a gente e levou a coroa à igreja, coroou, fizeram-se as sopas, convidou para o jantar a freguesia toda. Todos beberam e admiraram-se porque nunca tinham bebido um vinho tão bom.

 

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AS NOVENAS DO ESPÍRITO SANTO EM SÃO CAETANO DO PICO

Segunda-feira, 16.12.13

A festa do Espírito Santo, em São Caetano do Pico realiza-se, por razões históricas, na terça-feira a seguir ao domingo de Pentecostes, sendo este dia uma espécie de dia santo ou feriado naquela freguesia picoense, A festa, preparada por uma comissão a que preside um mordomo, eleito por escrutínio secreto, no dia da festa do ano anterior, consta duma celebração eucarística, um cortejo em que os irmãos transportam, geralmente em açafates, ornamentados com toalhas com rendas e bordados artesanais, as suas ofertas de pão, sob a forma de rosquilhas, as quais depois de benzidas são oferecidas uma a cada de todas as pessoas que nessa tarde demandam a freguesia. Cada irmão oferece um açafate com trinta rosquilhas ou o seu valor em dinheiro. Ora sendo o número de irmãos muito próximo dos cento e cinquenta e, dado que são mais do que cem os que oferecem pão, o número de rosquilhas distribuídas em cada ano será muito próximo das três mil, uma vez que sobram sempre algumas rosquilhas em cada açafate. Nesse dia festivo, também todos os irmãos se reúnem num almoço colectivo, que tem lugar no amplo salão da Casa do Povo, em cujas instalações também se confeccionam as sopas, a carne assada e o arroz doce.

O que também é característico desta celebração são os seus preparativos, não apenas no  que diz respeito ao aspecto material mas também ao espiritual ou religioso. Esta preparação espiritual concretiza-se através da realização das novenas, ou seja dos nove dias antes da festa, durante os quais, ao cair da noite grande parte da população se reúne para cantar o “Terço do Espírito Santo”. Trata-se duma celebração de caris profundamente religioso e que, muito provavelmente, remonta aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalada por crises sísmicas sucessivas e frequentes, como se pode depreender de alguns dos textos cantados. O terço consta de cinco partes, durante as quais se repete uma invocação dez vezes seguidas, sendo que o orientador da novena canta a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alterna nas dez invocações seguintes. É esta a invocação cantada cinquenta vezes, repartida por cinco blocos de dez invocações cada: Adoremos com afectos de alma o Espírito Santo Divino./Que dos Céus desceu sobre nós, em incêndios de amor divino. Os grupos de dez blocos são separados com duas invocações diferentes, divididas, do mesmo modo que a invocação anterior, por orientador e povo: Glória ao Pai que nos criou, glória ao Filho que nos remiu,/Glória ao Espírito Santo que em suas graças nos concebiu(beu). E esta outra, de seguida: Fazei ó Santo Espírito a Deus Pai, Filho amar/A um só Deus em três pessoas, no Céu p’ra sempre adorar. No fim do terço, segue-se a Salve Rainha, também cantada. Depois rezam-se alguns Pai-Nossos pelos irmãos falecidos e pelas intenções do mordomo, terminando a novena com o “Oferecimento ao Divino Espírito Santo”, durante o qual se cantam os seguintes versos: Ó Senhor Espírito Santo/Nós rogamos com clamor/Mandai oprimir à terra,/Que não haja mais tremores. Sois pai de misericórdia/Livrai-nos de todo o mal/Não castigueis com tremores/Esta ilha de ofendal. Não desprezeis a fé grande/Com que nós recomendamos/Fazei como Pai Divino/Não porque nós o mereçamos. Barca onde embarcou Cristo/Na galera tão realFeita em tão boa hora/Para aquele general. À popa leva sentado/Santo António com seu véu/Que rica viagem de anjos/Leva Jesus para o Céu. Senhor que lá estais em cima/Nesses Céus de alegria/Vos peço que nos chamais/Para a Vossa companhia. Andavas tão vigiado/Sem saberes da partida/Morte de uma ocasião/Vida nova nova vida. Quando Deus formou a terra/Bons e maus Deus os criou/Quando nos Céus se encerram/Só os bons Deus os guardou. Ó Senhor eu vos ofereço/Esta nossa devoção/Seja honra e glória Vossa/Para nossa devoção.  

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A FREGUESIA DE SÃO CAETANO OU UM PARAÍSO ENCAFUADO ENTRE O MAR E A MONTANHA

Segunda-feira, 07.10.13

A freguesia de São Caetano do Pico, pertencente ao concelho da Madalena, fica situada na parte Sul da ilha e alojada no regaço de uma pequena baía, denominada “Baía da Prainha”, onde assenta um pequeno porto, actualmente quase desertificado e dedicado exclusivamente a pequenos barcos de pesca e recreio ou a “banhocas”. A sua zona costeira, actualmente, é muito procurada por mergulhadores, por ser possuidora de espaços submarinos de rara pulcritude.

Esta freguesia possui uma beleza ímpar e uma singularidade singela em boa parte, devido à sua posição geográfica, dado que fica instalada entre o mar e a imponente montanha do Pico. É essa singularidade que lhe vai dispondo o casario ao longo de encostas soalheiras e montanhosas, ao mesmo tempo que lhe sulca e encrava os vinhedos, as florestas, as pastagens e, sobretudo, os terrenos de cultivo e de mato por entre socalcos de ribeiras e de ravinas, designadas por quebradas, sendo mesmo a freguesia que mais se aproxima da altíssima e magmática montanha. Por tudo isso recebe influências climáticas únicas e ímpares beneficiando da protecção dos ventos norte e noroeste que sopram, desalmadamente, durante o Inverno ao redor daquele enorme gigante de lava que é a montanha do Pico. Assim e quando o vento sopra vigoroso, roufenho e frígido, acompanhado por fortes chuvadas, nas restantes freguesias da ilha, São Caetano goza de um clima ameno, de um Sol radiante e de uma calma e tranquilidade invejáveis. Mas mesmo quando o vento sopra de sul, revoltado e furioso, criando um enorme e tremendo reboliço na terra e sobretudo no mar, a paisagem adquire uma beleza transcendente, enigmática e contagiante. Assim é, em Novembro, São Caetano e de um modo especial a Prainha do Galeão. É também a proximidade da montanha que dá grande sinuosidade ao território, assinalando-o com diversas elevações designadas cabeços: o da Prainha e o do Mistério, a Rocha Vermelha e o Paul ou sulcando-o por várias ribeiras: da Prainha, do Dilúvio, da Cancela, da Grota, da Laje e a Ribeira Grande. Esta sinuosidade fez com que os antigos caminhos fossem, na generalidade, autênticas canadas, sendo que algumas delas, em boa hora recuperados e reconstruídos, foram transformados, actualmente, em trilhos turísticos que conduzem qualquer viajante a apreciar o rico património paisagístico desta localidade, destacando-se o trilho da canada de São Caetano que se inicia junto à Prainha do Galeão, em forma de escadaria e o da canada da Ribeira da Prainha, trilho que ligava a Prainha do Galeão à parte superior da freguesia e que era usado por pescadores e baleeiros. Local de interesse histórico e paisagístico é também o Largo das Fontes, situado no antigo acesso às pastagens dos matos e famoso pelas suas fontes e como local de encontro e descanso dos homens que dia a dia subiam as encostas da montanha a tratar do gado ou até tirar-lhe o leite. Junto ao mar, para além das ruínas de um antigo poço de maré, infelizmente abandonado por indesculpável incúria, situam-se as tradicionais adegas feitas de pedra de lava e que enriquecem, não apenas a paisagem, mas também a história e a cultura locais. Ainda, mais junto ao mar, a antiga casa dos botes baleeiros, actualmente como que transudada em vivenda e um nicho dedicado a São Caetano, precisamente no local onde os primeiros colonos que ocuparam aquela localidade terão construído uma ermida dedicada ao padroeiro, contento o referido nicho uma suposta pedra da mesma e a primitiva imagem de São Caetano. Foi também neste local que um dos primeiros povoadores, de seu nome Garcia Gonçalves, mandou construir um galeão como forma de pagamento de dívidas ao rei Dom João III. Essa a razão porque esta localidade, popularmente, ainda hoje se chama “Prainha do Galeão”.

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publicado por picodavigia2 às 10:56

GRUPO FOLCLÓRICO DE SÃO CAETANO VISITOU O VALE DO SOUSA

Quinta-feira, 26.09.13

O Grupo Folclórico da Casa do Povo de São Caetano realizou, recentemente, um périplo pelo Norte do País, assentando arraiais na Região do Vale do Sousa, mais concretamente, na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, como convidado do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, de Romariz, para um encontro, agendado há um ano atrás, no âmbito de um intercâmbio cultural, estabelecido entre as duas colectividades.

Partindo do aeroporto da Horta, no pretérito dia 16 de agosto, o Grupo Folclórico da mais jovem freguesia do concelho da Madalena, constituído cerca de quarenta elementos, rumou a Lisboa, onde fez uma escala rápida, Após uma longa viagem de autocarro, entre a capital e a vila duriense de Lousada, o Rancho Folclórico de São Caetano foi recebido, calorosamente, pela maioria dos elementos do grupo anfitrião, apesar do adiantado da noite. Em Lousada, os representantes da “ilha montanha” foram confrontados com calorosa e inédita recepção, onde não faltaram cantares, rufar de tambores, toque de concertinas e fogo-de-artifício. Após momentos de cativante convívio, apesar do cansaço excessivo, o grupo foi alojado nas modernas e magníficas instalações do Complexo Desportivo de Lousada, localizada nos arrabaldes da vila, na freguesia de Cristelo.

O acolhimento, por terras do Vale do Sousa, do Grupo Folclórico de São Caetano, por parte do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, quer no que concerne a alojamento e alimentação, quer relativamente a passeios, diversões e lazer, foi excepcional, tendo aquela instituição disponibilizado à comitiva picoense a companhia, permanente e contínua, de três jovens elementos do rancho, a fim, não só de lhes prestar as informações necessárias, mas também de os acompanhar e apoiar no que necessitassem. De salientar que a atenção dispensada e os cuidados tidos por parte daquele rancho duriense, a fim de que nada faltasse e todos se sentissem bem, foram excelentes. O acolhimento oferecido foi considerado, por todos, “perfeito e exemplar”.

Em contrapartida, poderá dizer-se, em abono de verdade, que o Grupo Folclórico de São Caetano do Pico, também teve um comportamento e atitudes modelares, deixando por toda a parte um rastro de respeito, consideração, estima e simpatia. Além disso, nos espectáculos em que participou, o grupo picoense não só trouxe, como também expeliu e esparramou, nas noites escaldantes durienses, o furor lávico da sua música, do seu bailar e das suas coreografias - estonteante perfume da história, da cultura, das tradições, dos costumes e dos cantares duma ilha, que tenta, cada vez mais, em se espelhar na grandiosidade do seu passado e de se ostentar nas vivências do seu presente.

O Grupo Folclórico da Casa do Povo de São Caetano do Pico actuou em três festivais. Primeiro, na própria freguesia de Meinedo, uma das 25 do concelho de Lousada, ombreando com ranchos folclóricos de renome nacional, como o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré, o Rancho Folclórico os Camponeses da Beira-Rio, da Murtosa-Aveiro e com o rancho anfitrião. Um espectáculo de grande qualidade, balizado num espaço histórico, numa das freguesias mais populosas do concelho de Lousada, com cerca quatro mil habitantes, quase equivalente ao concelho da Madalena, tendo como ex-libris a igreja românica de Santa Maria Maior, cuja fundação remonta ao século XIII. Sabe-se que nos primórdios do cristianismo na Península, Meinedo, então designada por “Magneto”, terá sido a primeira sede da Diocese do Porto.

A segunda participação do Grupo Folclórico de São Caetano, teve lugar na não menos histórica freguesia de Cárquere, concelho de Resende, junto ao Mosteiro que na Idade Média foi, depois de Santiago de Compostela, um dos maiores centros de peregrinação da Península Ibérica, construído por Egas Moniz e sobre cujo altar – ainda hoje ali existente – se terá verificado “a cura milagrosa” do menino que viria a ser o primeiro rei de Portugal – Afonso Henriques. Nesta actuação o Grupo Folclórico de São Caetano actuou, entre outros, juntamente com ranchos de Aveiro, Paranhos (Porto), Paços de Ferreira e o de Cárquere.

Finalmente, num terceiro espectáculo, o grupo de São Caetano actuou em plena Vila de Lousada, perante numeroso público, no largo do Senhor dos Aflitos, por coincidência, frente à estátua de um dos mais ilustres lousadenses - Dom António Augusto de Castro Meireles, 34º bispo de Angra (1924-28) e, depois, bispo do Porto.

Os restantes dias e os tempos livres foram ocupados com um diversificado e cativante programa, com uma agenda muito bem elaborada, incluindo passeios e visitas de grande interesse histórico, cultural e paisagístico, acompanhados de uma gastronomia de excelente qualidade e, nalguns aspectos, muito semelhante à picoense. Afinal “é mais aquilo que nos une do que o que nos separa”.

Entre as localidades visitadas, para além duma ida a Espanha, destaque para Penafiel, Lousada, Régua, Pinhão, Braga, Porto, incluindo uma visita às Caves do Vinho do Porto em Vila Nova de Gaia e uma outra, à Quinta da Aveleda, nos arredores de Penafiel

O Grupo Folclórico de São Caetano, a convite do Rancho Folclórico de Pinheiros, que há três anos visitara a ilha do Pico, ainda se deslocou à vila de Monção, a que pertence aquela freguesia raiana, onde pernoitou, participando num magnífico arraial, nas margens do rio Minho, sendo, então, surpreendido com a presença do grupo da Lousada que percorreu grandes distâncias para estar presente e acompanhar os seus amigos picoenses. Em Monção o grupo açoriano foi recebido pela edilidade, numa cerimónia em que não faltou um “Alvarim de Honra”.

Segundo um dos elementos do grupo “Foi nosso intento através das nas nossas actuações promover a nossa terra e a nossa cultura, o que acreditamos ter sido bem concretizado pela reacção do público, em geral.” e acrescentou “De referir ainda a forma saudável vivida entre os dois grupos, a amizade, o companheirismo, a alegria, o convívio que marcaram não só as jornadas, com também os serões prolongados num misto de cordas e concertina, a par de cantigas ao desafio, Viras e Chamarritas que engrandeceram a sensibilidade estética e artística de ambos os grupos.”

Na realidade esta visita consubstanciou-se num misto de dias e noites fantásticas, de cor, de sons, de movimento e alegria, onde o Grupo Folclórico de São Caetano espalhou toda a sua classe, dignidade, singeleza e performance, deixando aos presentes uma deslumbrante e transcendente imagem, não apenas da freguesia de São Caetano, mas também da ilha do Pico, transformando-se, assim e de que maneira, num magnífico embaixador da sua cultura, dos seus costumes, dos seus valores, dos seus potenciais turísticos e, como não podia deixar de ser, dos seus bailados e da sua música, numa palavra espalhando, por terras durienses e pelo norte de Portugal o verdadeiro e inconfundível “furor da lava picoense”.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:18

SÃO CAETANO DO PICO

Quinta-feira, 01.08.13

A freguesia de São Caetano do Pico é a mais jovem freguesia das seis que constituem o Concelho da Madalena e uma das mais novas da ilha, tendo-se separado da freguesia de São Mateus e instituída freguesia autónoma em 2 de Outubro de 1880, pese embora o local onde se situa, ter sido dos primeiros da ilha a ser ocupado pelos povoadores que, no século XVI, demandaram a ilha. São Caetano, vulgarmente conhecida por Prainha do Sul ou, para os habitantes locais, simplesmente Prainha, situa-se na parte sul da ilha, entre as freguesias de São Mateus e de São João. Localizada a dezoito quilómetros da sede concelhia, engloba os lugares de Prainha, Caminho de Cima, Terra do Pão e Caminho do Meio, este praticamente ocupado por adegas e habitações sazonais.

O que mais caracteriza esta freguesia é o facto de como que aninhar-se no regaço de uma grande baía, com uma parte de rolo e outra de baixio, prolongando-se e estendendo-se, aquém e além, desde as baixas da Terra do Pão até à Ponta dos Coxos. O seu porto, apesar de pequeno e rudimentar, foi, durante muitos anos uma espécie de Plano B, para as lanchas que faziam a ligação Faial-Pico e que, devido à braveza do mar, por vezes, não podiam fazer serviço, nem na Madalena, nem no Calhau, o que tornava aquela viagem, muito demorada, cansativa e, por vezes, dolorosa.

Instalada entre o mar e a montanha do Pico, da qual é a freguesia mais próxima, São Caetano tem um solo bastante irregular, dado que é sulcada por ravinas ou quebradas e demarcada por diversas elevações ou cabeços, como o da Prainha, o Mistério, a Rocha Vermelha e o Paul. O seu território é atravessado por várias ribeiras das quais se destacam a da Prainha, do Dilúvio, da Grota, da Laje e a Ribeira Grande, as quais, no Inverno, adquirem caudais muito volumosos que, por vezes, saltam as margens, galgam os terrenos circundantes, destroem as vias e dificultam a circulação não apenas no povoado mas também na parte sul da ilha.

Atravessada pela estrada que liga a Madalena às Lajes, as restantes vias de comunicação da freguesia, durante muitos anos, limitaram-se a trilhos, primitivos acessos de piso irregular, situados entre o mar e a montanha, que ligavam as vinhas, as terras de milho e de mato ao povoado, com realce para o caminho do mato, que durante anos e anos conduziu quotidianamente os criadores de gado às pastagens dos matos. Alguns destes trilhos foram recuperados e, actualmente, são um importante património paisagístico, destacando-se o trilho da canada de São Caetano que se inicia junto à Prainha do Galeão em forma de escadaria; a canada da Ribeira da Prainha, trilho que ligava a Prainha do Galeão à parte superior da freguesia e que era usado por pescadores e baleeiros e o Largo das Fontes, na encosta da Montanha, famoso pelas suas fontes.

Os primeiros colonos da região fundaram a povoação na zona, hoje denominada por Prainha do Galeão, que deu nome ao lugar e onde Garcia Gonçalves ali fez construir um galeão como forma de pagamento de dívidas ao rei Dom João III. Crê-se que os primeiros colonizadores seriam muito devotos de São Caetano, sacerdote de Vicenza, pelo que o elegeram como padroeiro, dando mais tarde nome à freguesia. Crê-se também, que nos primeiros tempos e ainda quando o lugar pertencia à freguesia de São Mateus, terá sido construída uma pequena ermida em honra de São Caetano, no local onde actualmente se encontra um nicho com a imagem primitiva do santo Em 1878 foi iniciada a construção da igreja paroquial, tendo grande parte da madeira utilizada na mesma, sido oriunda de um barco que naufragou por ali perto

A freguesia de São Caetano possui uma beleza natural muito específica, em boa parte, devido à sua posição geográfica e, sobretudo, por se espalhar pela encosta do Pico. Foi esta beleza e singularidade que o poeta Manuel Alegre estampou num dos seus poemas:

“Este é o sitio, onde se pode ler,

O livro inicial para sempre perdido.

Em São Caetano, o mar é o próprio ser

E o seu mistério, o único sentido”.

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publicado por picodavigia2 às 19:43

O TERÇO DO ESPÍRITO SANTO NA TERRA DO PÃO

Segunda-feira, 15.07.13

A Irmandade União e Caridade da Terra do Pão, ilha do Pico, realizou, no passado fim-de-semana, a sua festa anual, em honra do Divino Espírito Santo. A principal razão porque esta celebração se realiza no início do verão, prende-se, fundamentalmente, com o regresso à localidade de inúmeros emigrantes, dispersos pela América e pelo Canadá, e que estão de visita, à terra que os viu nascer.

A festa, em si, é muito semelhante às festas do Espírito Santo, realizadas por altura do Pentecostes, nas restantes freguesias e localidades do Pico: arraial, cortejo, missa e distribuição de rosquilhas. Além disso, como as festas de Maio, a glorificação do Paráclito incluiu, na semana que precedeu a festa, o “canto do Terço do Espírito Santo” que, no entanto, aqui tem uma especificidade muito própria, diferenciando-se quer na música, quer no texto, do mesmo Terço, cantado no lugar da Prainha, freguesia de São Caetano a que aquela localidade também pertence. 

 O “Terço do Espírito Santo”, cantado na Terra do Pão é, incontestavelmente, uma celebração de caris profundamente religioso e que, a julgar pelo próprio texto, transmitido por tradição oral, remonta, muito provavelmente, aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalroada por crises sísmicas frequentes e por outras calamidades, como se pode depreender de alguns dos textos cantados. O terço é constituído por cinco partes, nas quais se repete uma invocação dez vezes seguidas, sendo que a orientadora canta a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alterna nas dez invocações seguintes. É este o texto, cantado cinquenta vezes, repartido por cinco blocos de dez invocações cada, que se diferencia do cantado noutros lugares, dali bem próximos. A primeira invocação é feita no presente do indicativo Adoramos com afectos de alma, o Espírito Santo Divino, enquanto na Prainha, é feita no mesmo tempo verbal, mas no conjuntivo. E as diferenças (aqui referidas entre aspas) continuam: “E” dos Céus “descenceu” sobre nós, “com” incêndios de amor divino. Os grupos de dez blocos são separados apenas com uma invocação, dividida, do mesmo modo que a invocação anterior, pelo condutor da assembleia e fiéis: Glória ao Pai que nos criou, glória ao Filho que nos remiu,/Glória ao Espírito “San“, “com a sua graça” nos “concebiu”(obviamente, em vez de concebeu e para rimar com remiu”. A segunda invocação: Fazei ó Santo Espírito a Deus Pai, Filho amar/A um só Deus em três pessoas, no Céu p’ra sempre adorar, cantada na Prainha, aqui não existe. No fim do terço, segue-se a Salve Rainha, também cantada e que termina com duas invocações, repetidas três vezes, com profunda intensidade, quer da música quer do texto: Senhor Deus de Misericórdia/Virgem Mãe de Deus, rogai por nós. Depois rezam-se alguns Pai-Nossos pelos irmãos falecidos e pelas intenções do mordomo, terminando a novena com o “Oferecimento ao Divino Espírito Santo”, durante o qual se cantam os seguintes versos, também parcialmente diferentes: Ó Senhor Espírito Santo/Nós roguemos com clamor/Mandai oprimir à terra,/Que não haja mais tremores. Sois pai de misericórdia/Livrai-nos de todo o mal/Não castigueis com tremores/Esta ilha de ofendal. Não desprezeis a fé grande/Com que nós recomendamos/Fazei como Pai Divino/Naja que nós o merecemos. Barca onde embarcou Cristo/Na galera tão realFeita em tão bela hora/Para aquele general. À popa leva sentado/Santo António com seu véu/Que rica viagem de anjos/Leva Jesus para o Céu. Senhor que lá estais em cima/Nesses Céus de alegria/Vos peço que nos chamais/Para a Vossa companhia. Andavas tão vigiado/Sem saberes da partida/Morte de uma ocasião/Vida nova nova vida. Chega-te à confissão,/Se te queres confessar/ Morte da ocasião/ É o laço do pecado. Mil vezes cada dia/ Tua alma com deligência/ Toma paz e alegria/Que é da boa consciência. Quando Deus formou a terra/Bons e maus Deus os criou/Quando nos Céus se encerram/Só os bons Deus os guardou. Ó Senhor eu vos ofereço/Esta nossa devoção/Seja honra e glória Vossa/Para nossa devoção.

Curiosamente, no final, na Terra do Pão não é habitual cantar-se o hino “Alva Pomba” por estar reservado, exclusivamente, para o dia da festa, sendo cantado uma outra invocação: Senhor Espírito Santo/ Espírito Divino/ Levai-nos à Glória/ Ensinai-nos o caminho. Senhor Espírito Santo/ Espírito Ardente/ Levai-nos à Glória, Para eternamente. Senhor Espírito Santo/ Real Esplandecido/ Livrai-nos dos pêsames/ De vos ter ofendido. Senhor Espírito Santo/ Nós pedimos e roguemos/ Fazei, com o Pa de Misericórdia/ Naja que nós o merecemos. Senhor Espírito Santo/ Meu Senhor e Meu Bem/ Levai-nos à Glória/ Para sempre. Amem.

Acrescente-se que o Terço é cantado por todos (homens, mulheres, jovens e crianças) com um respeito profundo e uma devoção intensa, consubstanciando um acto religioso comunitário, muito digno, embora presidido por um leigo e a que, aparentemente, a “Igreja Docente” é alheia.

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publicado por picodavigia2 às 00:22





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