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QUINTA FEIRA DA ESPIGA

Quinta-feira, 29.05.14

O Dia da espiga é celebrado em Portugal na antiga Quinta-feira da Ascensão, pelo que também é conhecido por Quinta-feira da Espiga. Neste dia é tradição as pessoas darem um passeio aos campos, colheendo espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira e alecrim para formar um ramo, a que se chama de espiga. Segundo a tradição. o ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada de casa, e só deve ser substituído por um novo no dia da espiga do ano seguinte. As várias plantas que compõem a espiga têm um valor simbólico profano e um valor religioso.

A Quinta-feira da Espiga é, de facto, um dia para ser celebrado, fundamentalmente, no campo, entre as sociedades agrícolas, mas, como nas aldeias rurais a desertificação cada vez é maior, actualmente, já poucas são as pessoas que ainda vão ao campo no dia de hoje, abandonando as suas obrigações, para apanhar a espiga, ou o raminho formado com ela, com algumas flores e ramos. Antigamente, de norte a sul do país, o dia de hoje, em que,em tempos idos, liturgicamente, se celebrava a festa da Ascensão, era considerado uma data faustosa, das mais festivas do ano, repleta de cerimónias sagradas e profanas.

A origem gaudiosa deste dia é, contudo, muito anterior à era cristã. Crê-se qu este dia seja um herdeiro directo de rituais gentios, realizados durante séculos, por todo o mundo mediterrâneo, em que grandiosos festivais, de intensos cantares e danças, celebravam a Primavera e consagravam a natureza. Para alguns povos antigos, esta data, tal como todos os momentos de transição, era mágica e de sublime importância. Nela se exortava o eclodir da vida vegetal e animal, após a letargia dos meses frios, e a esperança nas novas colheitas.

A Igreja Católica, à semelhança do que fez com outras festas ancestrais pagãs, cristianizou, mais tarde, esta data, atravessando, assim, os tempos com uma dupla acepção: como Quinta-feira de Ascensão, para os cristãos, assinalando, como o nome indica, a ascensão de Jesus ao Céu, ao fim de 40 dias e como Dia da Espiga, ou Quinta-feira da Espiga, esta traduzindo aspectos e crenças não religiosos, mas exclusivos da esfera agrícola e familiar.

O Dia da Espiga é então o dia em que as pessoas vão ao campo apanhar a espiga, a qual não é apenas um viçoso ramo de várias plantas - cuja composição, número e significado de cada uma, varia de região para região –, guardado durante um ano, mas é também um poderoso e multifacetado amuleto, que é pendurado, por norma, na parede da cozinha ou da sala, para trazer a abundância, a alegria, a saúde e a sorte. Em muitas terras, quando faz trovoada, por exemplo, arde-se à lareira um dos pés do ramo da espiga para afastar a tormenta.

Não obstante as variações locais, de um modo geral, o ramo de espiga é composto por pés de trigo e de outros cereais, como centeio, cevada ou aveia, de oliveira, videira, papoilas, malmequeres ou outras flores campestres. E a simbologia de cada planta, comumente aceite, é a seguinte: o trigo representa o pão; o malmequer o ouro e a prata; a papoila o amor e vida; a oliveira o azeite e a paz; a videira o vinho e a alegria; e o alecrim a saúde e a força.

Além destas associações basilares ao pão e ao azeite, a espiga surge também conotada com o leite, com as proibições do trabalho e ainda com o poder da Hora, isto é, com o período de tempo que decorre entre o meio-dia e a uma hora da tarde, tomando mesmo, nalguns sítios do país a designação de Dia da Hora. Nas localidades em que assim é entendida esta quinta-feira, acredita-se que neste período do dia se manifestam os mais sagrados e encantatórios poderes da data e nas igrejas realiza-se um serviço religioso de Adoração, após o qual toca o sino. Diz a voz popular que nessa hora “as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e até as folhas se cruzam” .

 

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publicado por picodavigia2 às 13:41

CRUDIVORISMO

Domingo, 11.05.14

O crudivorismo é uma dieta moderna, em que os alimentos são consumidos crus. Embora, habitualmente, os seus adeptos e consumidores, sigam uma dieta vegetariana estrita, o crudivorismo permite, no entanto, a inclusão de alguns produtos de origem animal, como o mel e o leite e até o peixe. Mas o que caracteriza verdadeiramente o crudivorismo e que o distingue de outras dietas é que nada pode ser preparado ao fogo, quer cozido, quer assado quer grelhado ou gratinado, por defender o postulado de que qualquer tipo de colocação dos alimentos no lume lhe provoca a perda de nutrientes. Isto, no entanto, não quer dizer, necessariamente, que se comam apenas alimentos crus. Existem processos de preparação que não causam perda de nutrientes, como a desidratação dos alimentos.

A alimentação crudívora, também chamada de "alimentação viva" ou "comida viva", é uma forma de alimentação baseada em alimentos crus, fruta fresca ou seca (desidratada), vegetais, sementes, grãos germinados como o germe de trigo e algas, isto porque, ainda, consideram os seus defensores de que os alimentos crus são ricos em enzimas, indispensáveis na alimentação das células humanas, por isso, se considera esta alimentação enzimática. Consideram também os crudivoristas que a falta de enzimas na comida cozida é ainda uma das maiores responsáveis pelo envelhecimento e morte precoce e ainda a causa subjacente de muitas doenças.

Há, no entanto, metrólogos que consideram que estas teorias não têm fundamento, porquanto não existe nenhuma comprovação de que as enzimas dos alimentos ajudem na digestão e, além disso, cuidam que também não há uma alteração significativa na quantidade de fibras nem de vitaminas, Outros vão mais longe, afirmando que muitos alimentos podem ser contaminados por vírus, fungos ou bactérias se não forem refrigerados na temperatura correta.

 

Dados retirados da Wikipédia

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publicado por picodavigia2 às 16:31

QUINTA-FEIRA SANTA

Quinta-feira, 17.04.14

Quinta-feira Santa é a quinta-feira imediatamente anterior à Sexta-feira da Paixão, da Semana Santa, ou seja ao dia em que, liturgicamente, se recorda a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Este dia marca o inicio do Tríduo Pascal na celebração que relembra a ultima ceia de Jesus Cristo com os doze Apóstolos.

Os ofícios da Semana Santa chegam à sua máxima relevância litúrgica na Quinta-Feira, quando começa com a recordação da Última Ceia e culminante na Vigília Pascal que celebra, na noite do Sábado de Aleluia e a ressurreição de Jesus Cristo, no Domingo.

Na "Missa dos Santos Óleos" ou Missa do Crisma, celebrada apenas pelos bispos diocesanos na igreja catedral da sua diocese, a Igreja celebra a instituição do Sacramento da Ordem e a bênção dos santos óleos usados nos sacramentos do Baptismo, do Crisma e da Unção dos Enfermos, e os sacerdotes, participantes, renovam as suas promessas. De entre os rituais do dia, adquire especial relevância simbólica o "lava-pés", realizado pelo sacerdote em memória do gesto de Cristo para com os seus apóstolos antes da Última Ceia. Ma realidade e de acordo com os relatos dos Evangelh os, Jesus lavou os pés dos discípulos como um ato de humildade e serviço, criando assim um exemplo de que devemos amar e servir um ao outro em humildade. Na Quinta-Feira Cristo ceou com seus apóstolos, seguindo a tradição judaica, já que segundo esta deveria cear-se um cordeiro puro; com o seu sangue, deveria ser marcada a porta em sinal de purificação; caso contrário, o anjo exterminador entraria na casa e mataria o primogénito dessa família, segundo o relatado no livro do Êxodo. Nesse livro, pode ler-se que não houve uma única família de egípcios na qual não tenha morrido o primogénito, pelo que o faraó permitiu que os judeus abandonassem do Egipto, e eles, de imediato, partiram na demanda da terra prometida e da sua liberdade; o faraó rapidamente se arrependeu de tê-los deixado sair, e mandou o seu exército em perseguição, mas Deus não permitiu e, depois de os judeus terem passado o Mar Vermelho, fechou o canal que tinha criado, afogando os egípcios. Para os católicos, o cordeiro pascoal de então passou a ser o próprio Cristo, entregue em sacrifício pelos pecados da humanidade e dado como alimento por meio da hóstia.

Num calendário em que varia cada ano para buscar a coincidência da Semana Santa com a primeira lua cheia posterior ao equinócio de outono, celebra-se, este ano, hoje, 17 de Abri a Quinta-feira Santa.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:38

CIRCUITO PEDESTRE AO REDOR DE PAREDES

Segunda-feira, 14.04.14

O circuito diário, pedestre, ao redor da Cidade de Paredes, tem cerca de 5 Km e demora 12x5 minutos, ou 60x1 minutos, ou seja uma hora. Inicia-se no edifício Fonte Sacra II e termina no mesmo, frente ao Blush. É constituído por 12 etapas, dividias em cinco partes cada.

 

1. F. Sacra

1.1.   Cruzamento

1.2.   Hotel

1.3.   Cabine

1.4.   Anúncio de Semáforo

1.5.   Casa Amarela

2. Expansão

2.1.   Fossa

2.2.   Rua da Saudade

2.3.   Numerus

2.4.   Entrada das Finanças

2.5.   Banco BIC

3. Sentiais

3.1.   Eirado

3.2.   Padaria

3.3.   Biblioteca (fim)

3.4.   1º Cruzamento do Parque

3.5.   2º Cruzamento do Parque

4. Estrebuela

4.1.   Ourivesaria

4.2.   Multi-ópticas

4.3.   Junta

4.4.   A. Chinês

4.5.   A. Fonte

5. S. José

5.1.   Igreja

5.2.   Garagens

5.3.   P. do Passal

5.4.   Infante

5.5.   Rede

6. Estação/Feira

6.1.   V. Real

6.2.   Montepio

6.3.   Doce Cake

6.4.   Rover

6.5.   Feira

7. Pias

7.1.   Paragem

7.2.   C. Dentária

7.3.   Passagem

7.4.   Misericórdia

7.5.   A. Hospital

8. Castelões

8.1.   Queen

8.2.   2º Estacionamento

8.3.   Centro Comercial

8.4.   Avenida

8.5.   Cimo da Rua Nova

9. S. da Guia

9.1.   S. Bar

9.2.   Cadeia

9.3.   E. dos Bombeiros

9.4.   A. Casa

9.5.   R. de Jogos

10.Perrace

10.1. C. Amarela

10.2. Tasco

10.3. Milénio

10.4. T. da Adega

10.5. C. do Correio

11. Gaia

11.1. Antiga Electro

11.2. Clínica

11.3. Casas Velhas

11.4. Fim da Nacional

11.5. Última Entrado Inter

12. Inter/Queimadas

12.1. Placa da Rotunda

12.2. Fim da Rede

12.3. Pinheiros Altos

12.4. Termo da Mata

12.5. FonteS Sacra

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publicado por picodavigia2 às 11:56

AD EXTIRPANDA

Quarta-feira, 26.03.14

A bula “Ad extirpanda” foi promulgada pelo papa Inocêncio IV, em 15 de Maio de 1252, sendo confirmada, sete anos mais tarde, por Alexandro IV e em 3 de Novembro de 1265 por Clemente IV. Bem se poderia chamar a “Bula dos Quartos”

Esta bula tornou-se célebre devido ao seu conteúdo ser pouco abonatório dos princípios evangélicos que a Igreja Católica anuncia ao mundo, uma veze que decretava que a heresia era una razão de Estado, pelo que, a fim de a evitar, criava a Inquisição e não só autorizava como, também, apoiava e incentivava o recurso à tortura física, moral e psicológica como meio legítimo para obter a confissão dos hereges. Pior ainda, pois a malfadada bula decretava a pena de morte e a condenação a serem queimados vivos numa fogueira todos os que recaíam nas suas doutrinas e práticas heréticas e a confiscação dos seus bens. A bula, finalmente, concedia ao Estado una parte de los bens confiscados aos hereges declarados culpados.

Muitos povos, entre os quais os albigenses foram massacrados com as determinações desta bula que mais parecia obra satânica do que divina.

Recorde-se o currículo destes papas: Inocêncio IV era conde de Lavagna, Sinibaldo Fieschi, sendo eleito papa em Junho de 1243 depois da libertação dos dois cardeais aprisionados pelo imperador Frederico II. Reinou no trono de S. Pedro até Dezembro de 1254. No ano seguinte à sua eleição, iniciou a reforma do Colégio Cardinalício e um ano depois, todos os cardeais iniciaram o uso de um capelo vermelho honorífico, e o Colégio atingiu uma tal importância que as suas reuniões tinham o mesmo poder que os antigos sínodos, exercendo com o papa o governo centralizado da Igreja. O poder da Igreja tornou-se tão forte que permitiu a Inocêncio IV destronar o imperador Frederico II. no Concílio de Lyon. A criação da Inquisição foi a sua obra principal, embora lhe seja reconhecido o mérito de ter imposto certos limites aos procedimentos muitas vezes pouco ortodoxos que se empregavam para obter confissões dos hereges. Por sua vez, Alexandre IV foi Papa de 12 de Dezembro de 1254 até a data da sua morte, em 25 de Maio de 1261. Chamava-se Reginaldo Conti e foi elevado a cardeal pelo seu tio, o Papa Gregório IX, em 1227. Prosseguiu a guerra contra os descendentes do imperador Frederico II. Opôs-se à sucessão no trono imperial alemão de Conradino. Viveu quase sempre fora de Roma, por causa do conflito entre guibelinos e guelfos. Ocupou-se do governo da Igreja, procurando a união com as igrejas gregas. Promoveu a influência dos franciscanos, intervindo na universidade de Paris em favor desta ordem mendicante, e também dos dominicanos. Finalmente Clemente IV, nascido Guy Foulques, foi papa de Fevereiro de 1265 a Novembro de 1268. Foi soldado e advogado, nesta última qualidade foi secretário de Luís IX de França, a cuja influência deve, provavelmente, a sua eleição.

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publicado por picodavigia2 às 16:10

JOGRAIS - O NABO GIGANTE

Terça-feira, 11.02.14

(BASEADO NO LIVRO DE ANTÓNIO MOTA COM O MESMO TÍTULO)

 

TODOS -        Numa aldeia / à beira duma montanha / havia uma pequena casa / coberta de musgo.

SETE -            Junto da casa havia uma horta.

UM -               Na horta havia uma laranjeira.

UM-                Que dava laranjas muito doces.

UM -               Um limoeiro.

UM -               Que dava limões muito grandes.

UM -               Uma cerejeira.

UM -               Que dava cerejas brancas.

UM -               Três videiras.

UM -               Que davam enormes cachos de uvas saborosas.

UM -               Uma capoeira que tinha:

UM -               Galinhas e galos.

UM -               Perus.

UM -               Codornizes e patos.

TODOS -        Junto da casa havia uma horta.

SETE -            Na horta havia um tanque.

UM -               Por cima do tanque havia uma bica que deitava água fresca todo o ano.

TODOS -        Numa aldeia / à beira duma montanha / havia uma pequena casa / coberta de musgo.

SETE -            Na casa viviam duas pessoas.

UM -               Um velho.

UM -               Muito magro e baixinho.

UM -               E a sua mulher.

UM -               Alta / gorda e velhota.

SETE -            Na casa viviam duas pessoas.

UM -               O velho.

UM -               Sachava.

UM -               Regava.

UM -               Mondava

UM -               Colhia.

TODOS -        E comia o que a terra dava.

UM -               Também repartia

UM -               Com as galinhas e os galos.

UM -               Com os perus.

UM -               Com as codornizes e os patos.

SETE -            Que viviam na capoeira.

TODOS -        Numa aldeia / à beira duma montanha / havia uma pequena casa / coberta de musgo.

UM -               Num ano.

UM -               Quando os primeiros dias da Primavera trouxeram sol e calor.

SETE -            Os pássaros começaram a voar sobre a terra.

UM -               À procura de raízes finas.

UM -               De penas.

UM -               De trapinhos e ervas secas.

SETE -            Coisas leves que levaram no bico.

UM -               Para cima das árvores.

UM -               Para os buracos dos muros.

UM -               Para os telhados.

UM -               Para os beirais.

TODOS -        Para aí construírem os ninhos.

SETE -            Caminhas fofas.

SETE -            Onde haviam chocar os ovos.

SETE -            Para que outros passarinhos nascessem.

SETE -            Bem protegidos e agasalhados.

TODOS -        Os pássaros começaram a voar sobre a terra.

UM -               Um dia...

TODOS -        Na aldeia onde havia uma pequena casa / coberta de musgo,

UM -               Onde viviam duas pessoas,

UM -               O velho, muito velhinho,

UM -               Levantou-se muito cedo,

UM -               Tomou o pequeno-almoço,

SETE -            E foi trabalhar para a horta.

SETE -            Que ficava junto à casa / coberta de musgo.

UM -               Encheu uma carreta com estrume do galinheiro,

UM -               E levou-a para a horta,

SETE -            Que ficava junto à casa coberta de musgo.

UM -               Com um ancinho espalhou o estrume sobre a terra,

UM -               E cavou-a com a sua enxada,

SETE -            Muito velha,

SETE -            Muito pesada,

SETE –           Muito usada.

TODOS -        E o velho muito transpirado,

UM -               Pôs a terra muito lisinha,

IM -                Tirou do bolso um pacotinho com sementes de nabo

SETE -            E semeou-as no chão cultivado.

UM -               Delicadamente.

UM -               Com muitos vagares,

UM -               Com muito amor.

TODOS  -       Na horta que ficava junto à casa  / coberta de musgo.

UM -               Depois cobriu as sementes com terra,

UM -               Regou-as com água do tanque

UM -               E disse.

RAPAZES -   Façam favor de crescer, / está bem?!

UM -               Os dias passaram ... muito devagar,

UM -               Os passarinhos nasceram nos ninhos / e começaram a pedir comida aos pais / que voavam muito atarefados.

TODOS -        E na horta que ficava junto à casa / coberta de musgo.

UM -               O sol aquecia a terra,

UM -               Fazia desabrochar as folhas,

UM -               E as flores.

UM -               E as sementes dos nabos

UM -               Bem estrumadas

UM -               Bem regadas

UM -               Bem mondadas

SETE -            Transformaram-se em pequeníssimos rebentos verdes

MENINAS -   E mais tarde em grandes plantas.

UM -               E numa tarde o velho descobriu que um nabo crescia mais do que os outros,

UM -               Ficou curioso,

UM -               Contou à mulher

UM -               E todos os dias corria para a horta para ver o nabo.

RAPAZES -   E o nabo estava cada vez maior.

TODOS -        Na horta que ficava junto à casa / coberta de musgo.

UM -               E o nabo ia crescendo...

SETE -            Crescendo...

RAPAZES -   Crescendo...

TODOS -        O nabo era gigante.

UM -               O nabo tinha a altura do velho

UM -               O nabo continuava a crescer

SETE -            Hora a hora,

SETE -            Dia a dia.

TODOS -        Na horta que ficava junto à casa / coberta de musgo.          

UM -               E o nabo já incomodava

UM -               As alfaces

UM -               As abóboras

UM -               As couves

UM -               E o velho muito velho

TODOS -        Que morava na casa coberta de musgo,

UM -               Decidiu ir arrancar o nabo.

UM -               E foi para a horta

TODOS -        Que ficava junto à casa coberta de musgo.

UM -               Agarrou-se ao nabo

UM -               E puxou uma vez,

UM -               Duas vezes...

UM -               Três vezes,

UM -               Com muita força.

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               E o velho chamou a mulher para o ajudar.

UM -               A velhota veio e puxou o velhinho,

UM -                O velhinho puxou o nabo

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               E a velhota chamou uma menina que vivia lá perto.

UM -               A menina veio e puxou a velhota

UM -               A velhota puxou o velhinho,

UM -                O velhinho puxou o nabo.

SETE -            Fartaram-se de puxar.

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               E a menina foi chamar o irmão que andava a brincar,

UM -               O rapaz veio e puxou a menina.

UM -               A menina  puxou a velhota

UM -               A velhota puxou o velhinho,

UM -               O velhinho puxou o nabo.

SETE -            Fartaram-se de puxar.

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               E o rapaz resolveu chamar o seu cão / que era grande, meigo e muito forte.

UM -                E o cão veio ajudar a puxar o nabo.

UM -               O cão puxou o rapaz.

UM -               O rapaz  puxou a menina.

UM -               A menina  puxou a velhota

UM -               A velhota puxou o velhinho,

UM -               O velhinho puxou o nabo.

SETE -            Fartaram-se de puxar.

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               O cão ladrou a um gato

UM -               E o gato veio a correr para ajudar a tirar o nabo.

UM -               E o gato puxou o cão.

UM-                O cão puxou o rapaz.

UM -               O rapaz puxou a menina.

UM -               A menina  puxou a velhota

UM -               A velhota puxou o velhinho,

UM -               O velhinho puxou o nabo.

SETE -            Fartaram-se de puxar.

TODOS -        Mas o nabo não se mexeu.

UM -               O cão ladrou a um gato

UM -               E o gato pôs-se a miar

UM  -              E apareceu um rato muito pequenino.

UM -               O rato puxou o gato

UM -               O gato puxou o rato.

UM -               O cão puxou o rapaz.

UM -               O rapaz puxou a menina.

UM -               A menina  puxou a velhota

UM -               A velhota puxou o velhinho,

UM -               O velhinho puxou o nabo.

SETE -            Puseram-se a puxar...

SETE -            A puxar...

MENINAS -   E de repente...

TODOS -        O nabo saiu da  terra / na horta que ficava junto à  casa / coberta de musgo.

UM -               E o gato caiu sobre o rato,

UM -               E o cão sobre o gato,

UM -               E o rapaz sobre o cão.

UM -               A menina sobre o rapaz,

UM -               A velhota sobre a menina,

UM -               O velhinho sobre a velhota

TODOS -        E o nabo ao lado de todos.

UM -               A velhota era boa cozinheira,

UM -               Cortou o nabo em pedacinhos,

UM -               E fez um cozinhado

UM -               Muito apetitoso,

UM -               Muito saboroso,

TODOS -        Na casa coberta de musgo.

UM -               E o rato,

UM -               O gato,

UM -               O cão,

UM -               O rapaz

UM -               A menina

UM -               A velhota,

UM -               E o velhinho

TODOS -        Comeram um fabuloso cozinhado / feito com o nabo / apanhado na horta / da casa coberta de musgo / na aldeia à beira da montanha.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:38

EMÍLIO PORTO

Sábado, 01.02.14

Faz agora precisamente um ano, que “Farol da Ponta”, uma das, até então, mais insignes e respeitáveis colunas do jornal “O Dever”, se apagou. Infelizmente pela razão mais triste, pesarosa e angustiadora. O falecimento do responsável quer pela criação quer pela manutenção semanal, naquele semanário lajense, duma coluna, intitulada “Farol da Ponta”.

A família, os amigos, a vila das Lajes e a ilha do Pico choraram a sua morte, por quanto ela significava uma perda de vulto, não apenas do colunista do “Dever”, mas sobretudo e especialmente de um músico de elevada craveira, de um maestro de inquestionável competência. Que o diga o Grupo Coral das Lajes do Pico, que, na semana passada lhe prestou condigna, justa e merecida homenagem.

Na realidade foi nesta área que Emílio Porto marcou a sua presença, contribuindo, com o seu trabalho e mestria, para o desenvolvimento da cultura musical açoriana. Desde os tempos de aluno do Seminário de Angra, onde, não apenas, fez grande parte da sua formação, mas também onde já se distinguiu como músico insigne, regente de capela e de grupos corais, que Emílio Porto se consagrou como um dos mais insignes músicos e maestros açorianos. Como ele próprio confessou, foi o ambiente musical do Seminário que o motivou para música, pois segundo ele: “O ambiente musical que se vivia no Seminário em 1950 era o reflexo de uma tradição forte nas ilhas açorianas. Consequências, talvez, dos apelos do Motu Próprio do Papa Pio X, e também da necessidade de ir ao encontro das pessoas que viviam em quase isolamento total. Os padres deveriam saber música para poderem ensinar e exercer condignamente as funções litúrgicas da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, contribuir para o seu desenvolvimento cultural. E continuou a ser assim. (…) No meu primeiro ano lectivo - 1950-1951 - assisti na minha cadeira, ao fundo do salão, ao concerto do Orfeão do Seminário, na festa de São Tomás de Aquino. Aí ouvi, pela primeira vez, as primeiras palavras do hino do Seminário "Se há grandeza, no mundo, é aquela..." O Seminário respirava música por todo o lado. Que me contagiou. A partir do primeiro ano esteve sempre presente. Nessa mística me integrei. Desde as primeiras noções do solfejo entoado, à teoria musical e História da Música, e às práticas musicais curriculares e ocasionais. E depois, pela vida fora, até hoje.”

A morte de Emílio Porto, há um ano, no entanto, para além da enorme perda que constituiu, a nível musical, também fez silenciar as colunas deste jornal e o seu blogue “Alto dos Cedros, onde divulgava a maior parte dos seus escritos. Neste aspecto também constituiu e constitui uma perda irreparável.

Conheci o Emílio Porto, quando em Setembro de 1960, demandei, pela primeira vez, o Seminário de Angra. Recordo-me de o ver assomar à janela do seu quarto, voltada para os “miúdos”, sempre sério e pensativo, a descer os degraus dos teólogos, a correr para a sala seis, a fim de chegar a tempo à aula de Teologia, a jogar voleibol no campo junto à cozinha, a percorrer as ruas de Angra, com passagem pelo pátio da Alfândega e, sobretudo, a reger, com mestria, elegância e emoção, a capela do Seminário. Frequentava o décimo primeiro ano e eu, o terceiro. As normas de um regulamento interno, rígido e rigoroso, impediam a comunicação diária entre os alunos das três prefeituras, quebrada apenas, nas manhãs de Natal, nos dias de Festa, nos ensaios do orfeão e pouco mais. Não era de muitas falas, nem se metia em graçolas ou brincadeiras com os mais pequenos. Tinha, no entanto, um ar alegre, prazenteiro, solene, digno, concentrado e trabalhador, revelando já dotes extraordinários e inexauríveis, a nível da formação musical.

Anos mais tarde, embora em tempos diferentes, cruzei-me com ele em São Caetano do Pico, substituindo-o, nas inúmeras actividades em que ele ali se envolvera e a que procurei dar continuidade e prosseguimento. Em São Caetano do Pico, Emílio Porto, para além de granjear o respeito, a consideração e a estima de toda a população, deixou uma obra notável. Dedicado à juventude, que acompanhava em todas as actividades e com quem se envolvia em todos os acontecimentos, com destaque especial para a música e também para o teatro, Emílio Porto deixou ali uma obra notável, marcando positivamente uma geração.

Mais tarde serviu o exército português no ultramar, durante a guerra colonial, realizando duas comissões de serviço em Angola. A forma como o fez, estabelecendo a amizade como estandarte da guerra e a verdade como lema de vida, granjeou-lhe o respeito, a consideração e a estima de quantos com ele conviveram. A atestá-lo os variadíssimos testemunhos de quantos acompanhou naquelas missões e os encontros regulares que, passados quarenta anos, ainda mantinha com os seus camaradas de guerra.

A partir de então, perdi-lhe as pegadas. Sei, no entanto, que, quer como homem, quer como cidadão ou professor e ate como político, teve sempre um comportamento digno, nobre e exemplar, pautado por um empenhamento honesto, por uma competência fluente, por uma dignidade desmedida e por uma humildade transparente, que nem o Grau de Comendador, com que foi agraciado pelo presidente Jorge Sampaio em 2008, nem a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico que a Assembleia Regional dos Açores lhe atribuiu, haviam de desfazer.

Quis o destino que, nos últimos tempos, nos reencontrássemos e restabelecêssemos uma amizade recíproca, íntima, sã e enternecedora, a nível individual e familiar. Não apenas em encontros frequentes, que agora podíamos fruir, mas também no “Alto dos Cedros” e no “Pico da Vigia”, onde, dia após dia, íamos fazendo deslizar memórias de um passado que, afinal, tinha muito em comum.

Como herança final, haveria de ser eu a dar-lhe continuidade nesta coluna, embora muito longe da competência que nele refulgia. Apenas e tão só, até porque de maneira diferente, para que este “Farol da Ponta” que ele criou com tanto interesse, continuasse a cintilar.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:18

O MITO DO RIO SADO

Sábado, 11.01.14

Há milhares e milhares de anos, povos de características semelhantes ou iguais aos conhecidos como pre-Abbevilenses, terão sido os ocupantes e povoadores de toda a zona litoral alentejana. De condição primitiva e rude, estes homens teriam que procurar por si próprios os seus meios de subsistência, desenvolvendo, para isso, técnicas primitivas e rudimentares, em ordem a tentar ultrapassar ou até sobrepor-se às temíveis dificuldades que, na luta pela sobrevivência,  as forças da natureza lhes opunha. E uma das grandes forças foi, incontestavelmente, a das águas.

Ao longo dos tempos, muitos povos que ocuparam e viveram no Alentejo interrogaram-se e  ainda hoje, talvez, alguns se interroguem, sobre a razão pela qual o rio Sado,  Calipus segundo os romanos e Xâter segundo os árabes, nascendo na serra do Caldeirão, passando ao lado de Ourique, correndo para o mar, na direcção de noroeste, ao chegar a Alvalade, muda o seu curso, isto, é, corre para norte, fenómeno inédito na orografia portuguesa, acabando por ir desaguar  em Setúbal e não em Santiago do Cacém, como seria mais natural.

A explicação fácil e simplista de que hoje somos detentores, centrada na morfologia do solo e personificada na serra do Cercal, não era plausível nos tempos dos pre-Abbevilenses, simplesmente porque, por um lado, desconheciam a lógica e, por outro,  a morfologia do solo lusitano, de épocas tão remotas, era substancialmente diferente da actual.

E o homem pre-abbevilense, que viveu na região onde hoje se situa  Alvalade, assim como os seus congéneres, quer de outros  tempos, quer de outros espaços, pura e simplesmente ultrapassou   os limites da sua incompreensão,  recorrendo ao sobrenatural, atribuindo a origem de tão aparentemente irregular e inexplicável fenómeno, como a de tantos outros, a  poderes, vontades e forças superiores, estranhas e sobrenaturais.

Surgiu assim uma explicação teogónica e mitológica, um mito, perdido na história e até, talvez, no paralelismo de tantos outros,

 

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publicado por picodavigia2 às 22:10

AS FESTAS SÃO SINAIS QUE FALAM

Sábado, 11.01.14

Aqui transcrevo na íntegra, mais um texto de Emílio Porto, publicado em Agosto passado, no seu blog “Alto dos Cedros”.

“E ocasiões para revelar o que somos e temos.

Uma festa das nossas aldeias – seja ela qual for – revela sempre alguma coisa das pessoas, das suas capacidades, dos seus sonhos satisfeitos. Por estes dias – no Bodo de Leite, no São João Pequenino, na Feteira, na Baixa, na Liga dos Amigos, na Mãe de Deus, e talvez ainda mais – somos confrontados com imagens de piedade e devoção, de trabalho e canseira em terra e no mar, de cor e luz, de arte e beleza.

Os palcos movem-se, e quando é preciso constroem-se com meia dúzia de paus de faia ou de incenso, como se fazia antigamente, e sobre eles desfilam os mais diversos artistas, talvez os menos cotados, que não conseguem lugar nos grandes aglomerados.

Também neste campo da arte, nem todos conseguem ir aos melhores palcos. É como no futebol: nem todos sabem jogar como o Falcão ou o Nuno Gomes.

Mas têm lugar e têm espectadores que os admiram e lhe batem palmas. Quem passou por esses lugares de festa popular deu por isso. E, se calhar, alguns deles agradaram mais do que outros que tiveram a sorte de pisar os palcos das maiores festas. Vimos isso com uma dança da Terceira, na tarde de domingo passado, sobre um palco improvisado no poço da Telha. A festa do Chicharro era naquele sítio.

E nas Ermidas e Paroquiais, quando é o caso, o religioso tem o seu lugar. É bom lembrar que a festa tradicional, geralmente, começa por aí. Mas, cuidado: já não é assim em todos os lugares. As festas ficam-se apenas pela presença secular e laica. Uma atitude que importa respeitar, pois está em conformidade com as vontades das comunidades. E ninguém se admire se a tendência aumentar e se transformar em costume. Nos dias que correm, mais se acentuam as distâncias entre as cúpulas do poder e os povos.

Todavia, a ideia do poder absoluto já não consegue impor-se. Cada vez mais há pessoas que aceitam partilhar. O poder e os povos juntam-se, dão as mãos e fazem. Foi o que vimos no porto da Baixa – todos se juntaram, todos andavam satisfeitos, não faltou nada sobre a mesa posta em cima do cais.

Os produtos do mar abundaram e a crise andou longe, ninguém deu por falta dela. Tudo isto é o resultado de livre aceitação, de crença. Quem acredita faz o seu caminho. Os povos na concretização dos seus objectivos juntam-se, e fazem.

Ali recordei o Padre João Domingos – com quermesse instalada a favor da homenagem a ser-lhe prestada no aniversário dos seus 100 anos no ano de 2012. Foi ele que apontou o rumo certo – os melhoramentos do caminho da Baixa, a central comunitária, as canseiras burocráticas para a Ribeirinha ser freguesia; e nunca deixou de sentar-se diante das crianças a ensinar o Pai Nosso e a Ave Maria. Muito do seu exemplo foi determinante no ambiente urbano da freguesia. Era teimoso, diz-se, mas nunca foi absoluto, e deixou trabalho feito.

Outra lembrança de acontecimento importante foi o ramal que dá acesso àquele porto, antes por entre falésias íngremes de estafar quem subia ou descia. Foi obra das gentes da terra, sem projectos, nem adjudicações, nem concursos, obra do 25 de Abril, logo inaugurada pelo Comandante Sá Vaz, que veio da Horta, propositadamente para aquele efeito. Aquele Ramal continuará a ser popularmente chamado de Ramal do Porto da Baixa. No meu pensamento será o Ramal “Comandante Sá Vaz”. Foi eu próprio, que o fui buscar à Madalena para esse efeito, e depois voltar a colocá-lo no cais de regresso à Horta.

Todas estas imagens me ocorreram durante a tarde de domingo passado, no arraial da festa do Chicharro, bem saboroso para quantos o provaram. Ainda recebi um convite para ir ao São Caetano, lá no porto do Galeão. Coitado deste santo que nunca teve nada por causa da proximidade do Bom Jesus! Talvez por essa razão, recordando fracassos antigos, optei por ali continuar, com o canal em frente e São Jorge, invejoso, a olhar para esta rampa, toda colorida, pequena, mas cheia, muito cheia a transbordar

 Importa, sim, olhar para as capacidades e os contributos que as comunidades põem em marcha na concretização dos seus momentos escolhidos, para celebrar o que lhes vai na alma, seja de fé seja de cidadania. Importa muito ir por onde indicam e gostam. Não gostam mesmo nada é de quem lhes imponha, seja lá o que for.

Este mês tem sido pródigo. Nas esplanadas e comércios abundam os programas. São sinais positivos que importa realçar.”

       

   Texto publicado no Pico da Vigia, em 25/04/12

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publicado por picodavigia2 às 09:38

O SISTEMA EDUCATIVO PORTUGUÈS

Quinta-feira, 09.01.14

O Sistema Educativo Português, cuja implementação e progresso implica uma organização de estruturas adequadas e acções diversificadas, deverá reger-se, segundo a LBSE, por princípios organizativos fundamentais, dos quais se destacam os seguintes:

a) Todos os portugueses têm direito à educação e à cultura. Daqui se conclui, logicamente, que "a Escola é para todos", o que na realidade é verdade. Todos somos iguais, mas também todos somos diferentes, dado que o ser humano é único, uno, individuo e irrepetível, embora dotado duma personalidade com características próprias e limitações ou potencialidades diferentes. Pelo que, uma instituição que protagonize os interesses de todos, não pode assumir-se como abrangente e simultânea de todos. Tem, pelo contrário, que tornar-se mais flexível e menos universal. Isto quer dizer que "Escola para todos" não é exactamente o mesmo que "Todos para a mesma escola", o que acarreta consequências que ainda não foram analisadas. "Escola para todos", quer dizer, precisamente ao contrário, isto é, que todos têm direito a um Sistema Educativo adequado, que concretize o seu direito à educação e lhe garanta um uma permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o que não se consegue "enfiando" todos na mesma escola, atrofiando as personalidades de uns em detrimento das de outros, gerando uma espécie "strugle for life" onde surgem atropelos, violências, segregações e em que uns aniquilam os outros.

b) O Estado deve promover a democratização do ensino. Isto significa que o poder instituído deve proporcionar a todos igualdade de oportunidades, porque todos somos diferentes, mas todos temos direito a assumir essa diferença e a procurar as concretizações e vivências da nossa própria existência.

c) Tem que imperar o princípio da liberdade de aprender e de ensinar. O que nem sempre se verifica, em Portugal, inclusivamente no acesso ao ensino universitário. Nem sempre se pode escolher a escola, o curso ou sequer, ter uma palavra em relação ao programa de cada disciplina. As próprias iniciativas de debate ou diálogo e posterior escolha são, geralmente, cerceadas. É o eterno argumento de que o aluno não tem capacidade e maturidade a decidir ou sequer a cooperar.

d) O Sistema Educativo deve corresponder às necessidades resultantes da realidade social. Consequentemente, deve conduzir ao desenvolvimento da mesma, construindo cidadãos dotados dos seguintes valores: liberdade, responsabilidade, autonomia, solidariedade e dimensão humana do trabalho. Teoricamente maravilhoso!... Trata-se, no entanto, duma parrésia, obstaculizada pela prática quotidiana escolar. Como é que uma criança, entrando às 8.30 horas para a escola, de pois de andar algum tempo a pé, umas vezes, molhada, com pesadíssima pasta a tiracolo, outras dias carregada com um saco de Educação Física, participando em brigas e estroinices próprias da idade, entrando numa sala fria, esconsa e mal cheirosa, que possui como único material didáctico  um quadro húmido, onde se não pode escrever ou ler o que lá está escrito, ouvindo o professor falar disto e daquilo, sem grande interesse, que já puxou pelo casaco do colega três vezes, ouviu um valente raspanete porque se esqueceu do livro ou de fazer os trabalhos de casa, desenvolve a sua liberdade, responsabilidade, autonomia, solidariedade ou, o que ainda é mais difícil, sentir a dimensão humana do trabalho? Como é que, neste condicionalismo, a criança desenvolve o espírito democrático e pluralista, o respeito pelos outros, o diálogo, a tolerância e se pode empenhar na transformação da sociedade? Felizmente há cada vez menos situações destas.

e) A educação deve promover o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, Deve promover o respeito pelos outros, pelas suas ideias e, consequentemente, o diálogo, a troca de opiniões, formando cidadãos capazes de julgarem com espírito crítico e criativo o meio social, sendo capazes de colaborar na sua transformação. Como é que isto se atinge? Cada professor assume condução dos meninos, durante uma hora ou duas. Eles estão caladinhos e atentos e no fim, ou sabem ou não sabem nada. Se sabem ficamos felizes e ufanamo-nos, se não sabem, o que é mais frequente, lamentamos, barafustamos, porque não têm bases, nem pre-requisitos, nem preparação, porque não sabem Português, etc., etc. Algum professor já se interrogou ou se lamentou porque os seus alunos não possuem valores democráticos como a tolerância, o pluralismo, o diálogo, a formação de juízos crítico e empenhamento em alterar a ordem social? Ou já estabeleceu estratégias conducentes a tais objectivos ou instrumentos de avaliação para as mesmas?

NB - Texto escrito em 2003

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publicado por picodavigia2 às 14:29

DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DA OBRA DE BERNARDO MACIEL

Segunda-feira, 30.12.13

Ex,mo Senhor Presidente da Câmara Municipal das Lajes, Engº Roberto Silva;

Ex,mo Senhor Presidente da Câmara Municipal de São Roque, Luís Filipe Silva;

Ex.mo Senhor Vice presidente e vereador da Câmara Municipal das Lajes, professor Hildeberto Peixoto:

Ex.ma Senhora  vereadora da Câmara de São Roque, Dra Ana Gonçalves;

Ex.ma Senhora doutora Maria de Jesus Maciel:

Minhas Senhoras e meus senhores:

Dar a conhecer a obra literária de Bernardo Maciel foi o objectivo da Doutora Maria de Jesus Maciel, ao elaborar a Edição Crítica d’A Obra Literária de Bernardo Maciel, como ela própria refere no início da introdução. Dar a conhecer, ou se quisermos, apresentar “ A Obra Literária de Bernardo de Maciel” Edição Critica de Maria de Jesus Maciel é o objectivo da minha presença hoje, aqui.

Sempre entendi e entendo que a apresentação de um livro, independentemente do seu conteúdo ou do género literário em que se enquadra, deve ter como objectivo principal, não tanto a sua divulgação ou a sua simples amostra aos leitores, mas antes deverá constituir-se num encontro de comunicação e de partilha, num momento de jactância estimulante e estimuladora, num envolvimento recíproco do autor, apresentador e leitores, que motive os participantes para uma adesão, em termos de leitura, à obra em causa. Por isso mesmo, mais do que dar a conhecer “ A Obra Literária de Bernardo Maciel” Edição Crítica de Maria de Jesus Maciel, pretendo, fundamentalmente, motivar, sensibilizar e talvez até aliciar, diria mesmo provocar ou espicaçar os presentes, se disso ainda necessitarem, para a leitura de uma obra de uma riqueza de conteúdos notável, de um mérito literário indiscutível e de um rigor histórico profundo e genuíno, enriquecida com o, até agora desconhecido, espólio literário de Bernardo Maciel e com a escrita contagiante, apelativa e envolvente da autora.

Acrescente-se, no entanto, que o livro ora apresentado, dado o rigor da sua objectividade, a profundidade da sua investigação e abrangência dos seus conteúdos, se constitui mais do que um livro de simples e comum leitura, uma vez que pode e deve estatuar-se como uma verdadeira obra de consulta e de estudo, dado tratar-se de uma edição filológica, cujo objectivo, por parte da autora, foi a reconstituição do texto, preparando-o criticamente e disponibilizando ao público a obra deste poeta e escritor picoense, até agora, quase toda ela, desconhecida. Assim, o livro que agora se apresenta constitui e impõe-se como um documento base, fundamental e único, até ao momento, para qualquer estudo de cariz literário que possa ser feito, no futuro, sobre a obra do poeta e escritor Bernardo Maciel. Na realidade com a edição da Obra Literária de Bernardo Maciel fica aberta aos estudiosos da literatura e de outras áreas humanísticas a obra literária deste homem que, como refere Pedro da Silveira, na sua Antologia da Poesia Açoriana, foi o primeiro poeta da ilha do Pico que deixou registo escrito. E porque, segundo a autora, há na obra de Bernardo Maciel um constante vaivém entre os momentos da sua existência pessoal, dos homens em geral e dos acontecimentos do seu tempo, revelando o sentir, o pensar e o agir de uma época, o longo e exaustivo trabalho, agora tornado público e que armazena e conserva, depois de milagrosamente salvo, o espólio literário de Bernardo de Maciel, constitui, indubitavelmente, uma parte da nossa memória, da nossa cultura e do nosso património.

Urge ainda esclarecer que se trata de uma obra constituída por três partes. Na primeira, a autora delineia a biografia de Bernardo Maciel numa narração simples, motivadora, empolgante, geradora de afectos e provocadora de emoções no leitor. Apesar de rigorosamente histórica mas ataviada de um cunho romanesco e edílico, fruto, em parte, de uma espécie de empatia entre a autora e o poeta e escritor, de quem ainda é familiar e que torna, esta parte do livro, incontestavelmente, mais atraente na leitura, mais delirante na apreciação dos conteúdos e mais envolvente no relacionamento que existe sempre entre o livro e o leitor. Por tudo isso, esta primeira parte, poderia, em minha opinião, e perdoe-me a dra Maria de Jesus Maciel o atrevimento e a ousadia, constituir-se numa obra literária autónoma, única, independente, separada, do género das biografias romanceadas, acessível ao mais simples, humilde e comum dos leitores. A segunda parte é constituída pelos manuscritos de Bernardo Maciel, incluindo a sua correspondência particular, arrecadados num CD room e de que o livro contém apenas alguns exemplares. Finalmente a terceira parte engloba e dá a conhecer praticamente a totalidade dos escritos de Bernardo Maciel, precedidos duma introdução e acompanhados de notas críticas. Em Poesia seis livros – Livro da Alma, Visões Sagradas, Envelhecer, Às Crianças, De Longe e Dispersos –, em Teatro, um livro – a Monja –, e em Prosa, dois livros – Coisas Íntimas e Dispersos e, por fim, a própria Correspondência do escritor. O Livro Dispersos inclui um sermão a Nossa Senhora e um excerto de um outro, supostamente ao Bom Jesus. Num e noutro, está bem patente a excelência da oratória de Bernardo Maciel, bem mais próxima dos sermões do Padre António Vieira do que nas homilias da actualidade. Todo este acervo, com excepção do Livro da Alma, publicado, em 1916, um ano antes da morte do autor, na Calheta, ilha de são Jorge, permaneceu desconhecido do público durante todo o século xx.

Confesso que antes de ler a primeira parte deste livro e de descortinar a biografia de Bernardo Maciel, traçada pela autora, concebia dele uma imagem, talhada, delineada, definida e, sobretudo, influenciada pelos arquétipos dos clérigos do final do século XIX e início do século XX, descritos em muitos dos romances de Camilo Castelo Branco e de Eça de Queirós ou em alguns poemas da “Velhice do Padre Esterno “ de Guerra Junqueiro, nomeadamente “A Sesta do Senhor Abade” e “Como se faz um Monstro” ou, no mínimo, que Bernardo Maciel, embora brilhante, erudito e culto durante o seu percurso académico, como aluno do Seminário de Angra, depois de colocado numa paróquia mais isolada dos Açores, se fosse amarfanhando culturalmente, eclipsando intelectualmente até definhar e fenecer por completo. Exemplos destes eram bastante frequentes, entre nós, há cem ou há cinquenta anos.

Nada disto, porém, aconteceu com Bernardo Maciel. Pelo contrário, a vida deste homem, sacerdote, poeta e escritor, é um hino à dignidade, à beleza, à nobreza de carácter e à excelência de atitudes, para além de encastoada num percurso cultural delineado, construído, aperfeiçoado e enriquecido por ele próprio, pelo seu esforço, trabalho, leitura e escrita. Podemos, na verdade e com razão, considerá-lo, sob o ponto de vista cultural, um verdeiro “self made man”. Nascido a 4 de Junho de 1874, na freguesia de S. João do Pico, Manuel Bernardo Maciel distinguiu-se desde criança e enquanto viveu por uma força muito própria e uma forma de vida singular, revelando desde cedo um olhar atento ao mundo que o rodeava, uma curiosidade crescente, pelos seus trabalhos e festas, um interesse acentuado pelos estudos, um gosto muito particular pela música e pelo canto, sendo já em criança convidado a participar como solista nas cerimónias da Semana Santa da sua igreja paroquial. Concluída a instrução primária, fez o exame de admissão ao Liceu Nacional da Horta em 1888, e no mesmo ano a admissão ao Curso de Preparatórios do Seminário Diocesano de Angra do Heroísmo, onde estudou e se revelou sempre um aluno, brilhante, distinto, já amante das letras, da cultura, da arte e da música. Embora a falta de saúde o fizesse sair por algum tempo do Seminário e passar a aluno externo, esse facto não o impediu de continuar a ter sucesso nos estudos, sendo considerado, mesmo nessa altura, o melhor aluno do Seminário terminando o curso em menos anos do que o exigido nos programas e currículos daquela instituição de ensino. O seu destino, “um dos mais altos espíritos que passaram pelo Seminário de Angra em todos os tempos” segundo o colega Pe. Xavier Madruga, Director do jornal O Dever, foi o extremo longínquo de uma ilha isolada, uma terra de lavradores, a paróquia de Santo Antão do Topo, da ilha de S. Jorge a quem acabará por dedicar toda a sua vida.

Foi nesse obscuro recanto, encastoado entre o mar e as rochas, cravejado de ribeiras e amortalhado de ravinas que ele olhou atenta e criticamente o mundo, que se multiplicou a nível do canto, da oratória e da escrita. O gosto pelo canto que o acompanhava desde a infância, distingue-o ainda enquanto estudante, como professor de cantochão no Seminário, e depois em S. Antão e em toda a ilha de São Jorge. Os jornais locais são disso espelho, dando relevo ao seu talento musical, à sua voz de tenor, chegando o jornal “Ecos Jorgense” a ter a ousadia de afirmar que a sua voz “é tão suave e extensa que não deixaria de ser apreciada no Teatro de S. Carlos”. Bernardo Maciel convidou o músico Francisco Lacerda e foi convidado por ele para participações musicais conjuntas, e o maestro angrense Jácome de Sousa, – violinista da orquestra de São Carlos, em Lisboa, que acompanhava a visita real do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia aos Açores – também foi convidado por Bernardo Maciel para abrilhantar as festas da igreja paroquial de Santo Antão. Mais tarde em Lisboa foi ao S. Carlos, para ouvir música clássica, o mesmo acontecendo noutras cidades europeias. A música popular também o atraiu. Cantou, com o povo, a chamarrita, cantou ao desafio nos bailes de roda, cantou nas fogueiras de S. João e cantou em família canções de embalar e outras que improvisava ao piano acompanhando-se a si próprio.

A oratória foi outra área em que se destacou com competência, excelência e grandiosidade, sendo elogiado por todos, revelando uma intensa actividade como pregador, saltando, permanentemente, de púlpito em púlpito por todas as freguesias de São Jorge. Mas já, nos tempos de estudante, pregou em Angra, em férias fê-lo no Pico e também nos E.U.A granjeando fama de ser um excelente e culto orador, bastante versado em matérias teológicas.

Mas o que mais desponta, enobrece e caracteriza Bernardo Maciel é a escrita. É ele próprio quem confessa no Livro da Alma: “Às vezes escrevia coisas no livro da minha alma. E iam para ali ficando, ficando longamente…” Assim aconteceu até que um dia um colega e amigo, o contista Nunes da Rosa, forçando a oportunidade e o retraimento voluntário do poeta, começou a publicar os seus poemas e artigos em “A Ordem”, o jornal que dirigia, na freguesia das Bandeiros. Mas mesmo sem publicar, Bernardo Maciel escreveu sempre, até que em Março de 1916, como já referi, os amigos jorgenses que sentindo que o seu fim se aproximava, lhe publicaram o seu primeiro livro de versos, o Livro da Alma, nele indicando como concluídas e prontas a imprimir as seguintes obras: Visões Sagradas, Envelhecer, Às Crianças, e De Longe, (Poesia); Monja (Teatro); Coisas Íntimas (Prosa).

Mas Bernardo Maciel, como todos os poetas, era um sonhador. Inúmeros sonhos povoaram a sua vida. Um deles “era ver e viver o Mundo” não só o seu pequeno mundo que povoava o seu quotidiano mas também o grande mundo que ele conhecia através das suas variadíssimas leituras. Eram os grandes centros europeus de cultura e arte que lhe povoavam o imaginário. Na primeira ocasião que se lhe deparou empreendeu a viagem, sempre sonhada, visitando Lisboa, Vigo, Paris, Lurdes, Roma, Florença, Veneza e Nápoles. Daí partiria por mar para a Terra Santa. Mas em Nápoles, enquanto aguardava a partida, foi surpreendido pelo rebentar da I Grande Guerra. Para lhe fugir segue num navio italiano que, sem rota conhecida, o leva a Nova York, sendo forçado a ficar nos E.U.A. cerca de um ano. Viaja e prega em vários lugares e escreve sobre a vida agitada deste Novo Mundo, tão diferente e tão desigual da pacata e humilde freguesia de Santo Antão. Em Julho de 1915, regressa ao Pico, onde os amigos jorgenses o vêm buscar, reconhecendo o que ele sempre fora: um homem bom, sobretudo para com os mais pobres e desfavorecidos e que entre eles ganhara fama de santo. Pouco depois, o seu estado de saúde piorou de tal modo que regressou a São João, onde faleceu, a 21 de Março de 1917. Deixa, segundo Maria de Jesus Maciel, “uma memória viva, uma vida em que procurou o sonho da justiça e da igualdade, em que combateu a ignorância, como fonte do mal, em que chamou a atenção para a educação do povo, pobre e sem instrução. Um homem de cultura, um poeta que deixou no Livro da Alma a indicação de uma obra concluída e pronta a imprimir mas que ficou inédita até hoje”.

É tudo isto e muito mais que, através duma escrita erudita e tonificante, baseada em documentos e testemunhos diversos e nos próprios textos do autor, sobretudo nas muitas cartas escritas aos seus familiares, Maria de Jesus Maciel nos apresenta, nesta obra, onde, delineia a figura simpatiquíssima, deste brilhante e ilustre escritor e poeta picoense, a que junta todo o seu espólio literário.

Não posso, deixar de referir o louvável e meritório, trabalho da dra Maria de Jesus Maciel em “salvar” este espólio literário de Bernardo Maciel, agora divulgado nesta obra, bem como o esforço que despendeu na reconstituição e construção de toda sua obra literária incluindo a correspondência mais íntima, embora, como ela própria o confessa na introdução com o “valioso contributo de diversas pessoas, investigadores, familiares, conterrâneos e paroquianos do Autor”. Trata-se de um esforço gigantesco, duma recuperação notável e valiosa, trazendo para as gerações vindouras, um herança que se desconhecia ou cuidava perdida. Sabemos hoje que muitos espólios literários, supostamente, de grande mérito e valia, quer de autores conhecidos, de que, por exemplo, Nunes da Rosa, acima citado e grande amigo e divulgador da obra de Bernardo Maciel é um protótipo, ou até de outros desconhecidos e que, muito provavelmente se perderam para sempre. Cuida-se hoje, é verdade que em termos mais lendários do que históricos, que o próprio Luís de Camões, no naufrágio de que foi vítima no seu regresso das Índias, salvou a nado os Lusíadas, mas terá perdido para sempre o “Parnasso”, uma outra obra supostamente de igual ou maior grandeza e amplitude. No caso de Bernardo Maciel, o precioso espólio que nos deixou foi miraculosamente recuperado, uma vez que fora parar à Casa Museu Armando Côrtes‑Rodrigues, em Ponta Delgada. Este escritor e poeta açoriano, em 1936, solicitara-o à irmã do poeta, para o editar. Não o conseguiu mas os manuscritos ficaram em seu poder. Mais tarde, o Governo Regional dos Açores, adquiriu o espólio de Amando Cortes-Rodrigues, contendo os papéis de Bernardo Maciel que passaram a integrar a colecção de manuscritos da referida Casa Museu, onde a dra Maria de Jesus Maciel pode, finalmente, encontrar “este precioso acervo documental, que agora torna público. Não se cuide, no entanto, que o trabalho de investigação e pesquisa da autora foi tão simples quanto isto: tratava‑se de um acervo textual totalmente desorganizado e incompleto, que só ao fim de muito tempo e de uma pesquisa intensa e cuidada junto de diversas pessoas e instituições, em Lisboa, nos Açores e até nos E.U.A, conseguiu encontrar, juntando todos os documentos que agora divulga e que foram “protagonistas de histórias várias, envolvendo empréstimos, tentativas de publicação, perdas e achamentos, que tinham começado já em vida do Autor”. Daí a tarefa complexa, árdua, cuidadosa e demorada a de Maria de Jesus Maciel para reunir um acervo textual de poesia, teatro, prosa de carácter religioso e intimista, e ainda a correspondência e que lhe chegou disperso e espaçado no tempo, em forma de manuscrito autógrafo, de cópia apócrifa, ou de impresso. Daí o mérito inquestionável, o contributo imprescindível e o esforço gigantesco de Maria de Jesus Maciel, a fim de que a obra deste grande escritor e homem de letras picoense seja, a partir de hoje, conhecida.

Aproveito esta oportunidade para apresentar à doutora Maria de Jesus Maciel os meus sinceros parabéns pelo trabalho realizado, agora estampado neste livro de excelente qualidade e magnífica apresentação, ao mesmo tempo que lhe agradeço a confiança que depositou em mim para hoje e aqui fazer a apresentação desta sua Edição Crítica da Obra Literária de Bernardo Maciel, editada pelo Instituto Açoriano de Cultura, apoiada pela Governo dos Açores e pela Direcção Regional da Cultura, com o patrocínio da Câmara Municipal das Lajes do Pico, da Câmara Municipal de São Roque do Pico e Culturpico, resultado do seu trabalho e pesquisa de mais de vinte anos e que constituiu a sua tese de Doutoramento, apresentada na Universidade Nova de Lisboa, no dia 17 de Janeiro de 2008 e que o Júri avaliou com o resultado de “Muito Bom, com Distinção e Louvor. Por unanimidade.”

Antes de terminar não posso nem consigo deixar de referir alguém que, infelizmente, já não está presente aqui, hoje e que durante uma boa parte destes longos anos em que a dra Maria de Jesus Maciel realizou este trabalho e efectuou esta pesquisa, sempre a acompanhou de perto, incentivando-a e apoiando-a. Trata-se do maestro Emílio Porto, seu companheiro de vida. Com ela traçou este percurso de esforço, de recuperação e conservação de um espólio literário que não podia perder-se. Ele que também marcou a sua presença nesta ilha onde nasceu, pelo grande contributo que deu às letras, à cultura, à sociedade e, sobretudo, à música.

E termino com uma frase do escritor brasileiro Monteiro Lobato: “Um país constrói-se com homens e com livros.” Eu diria: Uma ilha também se constrói com homens e com livros. A ilha do Pico foi-se construindo, desde os primórdios do seu povoamento, com homens agarrados ao foicinho, ao alvião, à rabiça do arado e, como diria Vitorino Nemésio, à cana do leme ou ao báculo, no padroado português do oriente, mas também se construiu com os livros que muitos desses homens foram escrevendo. Hoje, a ilha do Pico, fica duplamente mais rica com a apresentação e a divulgação do livro “A Obra Literária de Bernardo Maciel” Edição Crítica de Maria de Jesus Maciel.

Obrigado pela vossa atenção.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 26/08/12

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publicado por picodavigia2 às 22:44

RECORDANDO EMÍLIO PORTO

Domingo, 29.12.13

Todos os que lidaram de perto com ele, sobretudo nos últimos tempos, de certo que ainda se sentem atordoados com o seu repentino desaparecimento, com a sua morte súbita e inesperada. Emílio Porto faleceu, no passado dia doze, durante um ensaio do Grupo Coral das Lajes do Pico, por ele fundado em 1983, e do qual sempre foi maestro e o principal responsável pela organização de todas as suas actividades musicais. A sua morte deixou na maior apreensão e nostalgia a família, os seus amigos mais próximos e todos aqueles que, de perto ou de longe, com ele conviveram e trabalharam.

Conheci o Emílio Porto, quando em Setembro de 1960, demandei, pela primeira vez, o Seminário de Angra. Recordo-me de o ver assomar à janela do seu quarto, voltada para os “miúdos”, sempre sério e pensativo, a descer os degraus dos teólogos, a correr para a sala seis, a fim de chegar a tempo à aula de Teologia, a jogar voleibol no campo junto à cozinha, a percorrer as ruas de Angra, com passagem pelo pátio da Alfândega e, sobretudo, a reger, com mestria, elegância e emoção, a capela do Seminário. Frequentava o décimo primeiro ano e eu, o terceiro. As normas de um regulamento interno, rígido e rigoroso, impediam a comunicação diária entre os alunos das três prefeituras, quebrada apenas, nas manhãs de Natal, nos dias de Festa, nos ensaios do orfeão e pouco mais. Não era de muitas falas, nem se metia em graçolas ou brincadeiras com os mais pequenos. Tinha, no entanto, um ar alegre, prazenteiro, solene, digno, concentrado e trabalhador, revelando já dotes extraordinários e inexauríveis, a nível da formação musical.

Anos mais tarde, embora em tempos diferentes, cruzei-me com ele em São Caetano do Pico, substituindo-o, nas inúmeras actividades em que ele ali se envolvera e a que procurei dar continuidade e prosseguimento. Em São Caetano do Pico, Emílio Porto, para além de granjear o respeito, a consideração e a estima de toda a população, deixou uma obra notável. Dedicado à juventude, que acompanhava em todas as actividades e com quem se envolvia em todos os acontecimentos, com destaque especial para a música e também para o teatro, Emílio Porto fundou o boletim paroquial “Presença”, criou o Grupo Desportivo de São Caetano, tendo adquirido o terreno e construído dois campos para a prática do futebol, um nos Cabeços e outro na Terra do Pão, reestruturou a Tuna Musical da Terra do Pão, um e outro destinados sobretudo à ocupação dos jovens, renovou o Grupo Coral, e adequou as celebrações litúrgicas, de forma brilhante e digna, às reformas protagonizadas pelo Concílio Vaticano II. Dedicou os seus anos de trabalho naquela freguesia, ao serviço da comunidade e dos outros, nomeadamente, dos velhos, dos doentes e dos jovens. Se algo descuidou, foi em prol de si próprio, porquanto viveu, durante quatro anos, acompanhado familiares, em precárias e degradadas condições de habitabilidade.    

Mais tarde serviu o exército português no ultramar, durante a guerra colonial, realizando duas comissões de serviço em Angola. A forma como o fez, estabelecendo a amizade como estandarte da guerra e a verdade como lema de vida, granjeou-lhe o respeito, a consideração e a estima de quantos com ele conviveram. A atestá-lo os variadíssimos testemunhos de quantos acompanhou naquelas missões e os encontros regulares que, passados quarenta anos, ainda mantinha com os seus camaradas de guerra.

A partir de então, perdi-lhe as pegadas. Sei, no entanto, que, quer como homem, quer como cidadão ou professor e ate como político, teve sempre um comportamento digno, nobre e exemplar, pautado por um empenhamento honesto, por uma competência fluente, por uma dignidade desmedida e por uma humildade transparente, que nem o Grau de Comendador, com que foi agraciado pelo presidente Jorge Sampaio em 2008, nem a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico que a Assembleia Regional dos Açores lhe atribuiu, haviam de desfazer.

Quis o destino que nos reencontrássemos, há uns anos, no Mucifal. A partir de, então, restabelecemos uma amizade recíproca, íntima, sã e enternecedora, a nível individual e familiar. Não apenas em encontros frequentes, que agora podíamos fruir, mas também no “Alto dos Cedros” e no “Pico da Vigia”, dia após dia, íamos fazendo deslizar memórias de um passado que, afinal, tinha muito em comum.

Na madrugada do passado dia doze, fui fulminado, com a notícia empírica e real da sua morte. Emílio Porto falecera na véspera, durante um ensaio do seu Grupo Coral. Nesse dia, algumas horas antes, havíamos conversado e programado a sua visita ao Norte do país e que ele próprio já anunciara através da Internet. Na noite do dia seguinte, eu havia de o ir esperar à estação de Campanhã, no Porto.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 23/04/12

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publicado por picodavigia2 às 23:20

OS MISERÁVEIS DE VITOR HUGO

Sábado, 28.12.13

O livro Os Miseráveis de Victor Hugo, publicado em 3 de Abril de 1862 simultaneamente em Leipzig, Bruxelas, Budapeste, Milão, Roterdão, Varsóvia, e Paris é, em minha opinião, um excelente livro, daqueles que se lêem duas ou mais vezes. A acção acontece na França do século XIX, entre a Batalha de Waterloo (1815) e os motins de Paris, Junho de 1832. É uma extensíssima narrativa, onde a ficção se envolve com a história, a filosofia, a ética, a moral, a religião, a psicologia, etc, sobre a vida de Jean Valjean e de variadíssimos personagens que com ele vão enriquecer os cinco volumes do romance, testemunhando a miséria daquele século e a pobreza miserável da sociedade francesa.

Jean Valjean, depois de cumprir 19 anos de prião nas galés - cinco por roubar um pão para sua irmã e sete sobrinhos, e mais catorze por inúmeras tentativas de fuga - é libertado, mas marginalizado por todos que o encontram, excepto pelo bondoso monsenhor Myriel, Bispo de Digne, nos Alpes Franceses. No entanto, em vez de se mostrar grato, Valjean, durante a noite, rouba-lhe uns talheres de prata e foge. De imediato é preso e levado à presença do Bispo que o salva, alegando que os talheres foram um presente, dando-lhe dois castiçais de prata e repreendendo-o por ter saído com tanta pressa e esquecer essas peças bem mais valiosas do que os talheres. Este gesto de bondade de Monsenhor Myriel nunca mais se apagará da memória do antigo presidiário e mudar-lhe-á, radicalmente, a vida. Anos depois, Valjean reaparece no outro extremo da França sob o pseudónimo de senhor Madeleine e torna-se um próspero empresário, dono de uma fábrica, um homem respeitado pela sua bondade e caridade, sendo eleito governador da cidade onde vive - Montreuil-sur-Mer. É aí que encontra o inspector Javert, antigo guarda prisional e chefe da polícia da cidade, que desconfia da identidade de Madeleine, perseguindo-o persistentemente, até o identificar como o antigo forçado, que conheceu quando trabalhava como guarda, na prisão de Toulon. É também em Montreuil que Madeleine conhece a desafortunada Fantine, que, algum tempo depois, morre, deixando sozinha a filha Cosette, que entregara aos cuidados dos Thérnardier, um casal de estalajadeiros, corrupto e sem escrúpulo, que maltratam e abusam da menina e extorquem dinheiro a Fantine. Perante informações de Javert de que o verdadeiro Valjean fora descoberto e havia de ser condenado e após uma longa noite de hesitação e sofrimento, Madeleine apresenta-se, em tribunal, como verdadeiro Valjean, sendo ele próprio condenado e levado para prisão, de onde foge para libertar Cosette das atrocidades dos Thérnardier, como prometera a Fantine. A partir daqui e depois do autor historiar a Batalha de Waterloo, a acção do romance decorre em Paris, onde todos os personagens se vão reencontrando em encontros e desencontros, misturando-se com outros, nas ruas e no convento Petit-Picpus, onde Valjean se torna jardineiro e onde Cosette recebe uma boa formação. Personagem de destaque, em Paris, é Marius Pontmercy, um aristocrata de segunda geração que se desentendeu com seu avô monarquista por causa das suas ideias liberais. Estuda Direito e junta-se aos estudantes revolucionários. No entanto, apaixona-se por Cosette, com quem casará, mais tarde. Ferido nos motins de Paris, Marius é salvo por Valjean, escondendo-se nos esgotos da cidade. No entanto Javert, que se intrometera nas barricadas como espião, ao ser descoberto e desmascarado é poupado à morte por Valjean, mas, vítima de um terrível conflito interior, atira-se ao Sena, suicidando-se. Nos motins de 5 de Junho surgem outras personagens como Enroljas, o líder dos Amigos do ABC e líder da rebelião de Paris. Trata-se de um jovem charmoso e de beleza angelical, apaixonado e dedicado à democracia, lutando pela igualdade, pela liberdade e pela justiça. Enjolras é um jovem de princípios que acredita numa causa - a criação, na França, de uma República Livre e Democrática, libertando os pobres, defendendo os oprimidos e onde todos são iguais. Mas ele e os outros revoltosos são executados pela Guarda Nacional, após a queda da barricada que haviam montado, em defesa dos seus princípios e valores. Outro personagem invulgar é Gavroche, filho mais velho dos Thénardier, abandonado pelos pais e que também participa, activamente, nas barricadas, sendo morto enquanto recolhia as balas dos mortos da Guarda Nacional para dar aos revoltosos. Por sua vez, sua irmã Eponine, mimada em criança, acaba sozinha nas ruas de Paris, quando chega à adolescência. Apaixonada por Marius, participa na rebelião e salva-lhe a vida, parando com a mão uma bala que o atingiria. Acaba por ser mortalmente ferida quando a bala, destinada a Marius, lhe atravessa a mão e as costas. Destacam-se ainda, como personagens, no romance de Victor Hugo: Baptistine, irmã do Bispo Myriel e Madame Magloire, a sua empregada, Gervais, um miúdo que Valjean rouba e depois, arrependido, lhe devolve a moeda, Félix Tholomyès, estudante rico e burguês, amante de Fantine e pai biológico de Cosette, que a abandona, Fauchelevent a quem Valjean salva a vida retirando-o debaixo duma carroça e que depois o abriga e esconde no convento Petit-Picpus, Bamatabois agressor de Fantine e Champmathieu, o vagabundo erroneamente confundido com Jean Valjean. São de referir também a irmã Simplice que cuidou de Fantine em seu leito de morte e a Madre Innocente, prioresa do convento Petit-Picpus. Nas ruas de Paris, aparecem, ainda, o Senhor Gillenormand, avô de Marius e a Senhorita Gillenormand, sua filha, o Coronel Georges Pontmercy, Pai de Marius, um oficial do exército de Napoleão, ferido em Waterloo, o Tenente Théodule sobrinho favorito de senhorita Gillenormand, o Senhor Mabeuf, amigo e protector de Marius, que também se junta aos insurrectos e que é baleado e morto no alto das barricadas, quando erguia uma bandeira vermelha. Por sua vez do grupo de estudantes revolucionários, para além do líder Enjolras, fazem parte Courfeyrac, Combeferre, Jean Prouvaire, Feuilly, Bahorel, Laigle, Joly e Grantaire. Paralelamente movimenta-se um grupo de bandidos, liderado pele malicioso Montparnasse e a que pertencem Claquesous, Babet e Gueulemer. Magnon é uma ex-funcionária de senhor Gillenormand e amiga dos  Thénardier recebem, fraudulentamente, uma parte dos pagamentos. Ela é presa por ser supostamente envolvida no roubo a Gorbeau e muitos outos. A história, finalmente, termina pouco depois do casamento de Marius e Cosette. Valjean confessa a Marius que é um forçado evadido. Marius, horrorizado com a revelação, consegue fazer com que Valjean, perdendo a vontade de viver, desapareça, gradualmente, da vida de Cosette. Apesar de tudo Marius e Cosette procuram-no, acabando por encontrá-lo nos seus últimos momentos de vida. Feliz por estar ao lado da filha e do genro, Valjean relembra todo o seu passado a Cosette e revela-lhe a identidade da sua mãe, Fantine, acabando por morrer feliz porque amado por ambos.

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publicado por picodavigia2 às 23:54

IN MEMORIAM DE EMÍLIO PORTO

Sábado, 28.12.13

Comungámos o esplendor das madrugadas, quando assomavas à janela do teu quarto, projectada para o lado dos mais novos, dos que haviam chegado há pouco, dos que, como eu, se enterneciam e deliciavam com os movimentos sibilantes e sublimes da tua batuta de maestro debutante.

 

Abrigámo-nos de torrentes e enxurradas diluvianas, quando, em São Caetano, é verdade que em tempos diferentes, espicaçávamos as flores e os pássaros, a fim de que se espelhassem na luminosidade infinita da esperança e que se locupletassem nos alvores sublimes da liberdade, a que estávamos, incondicionalmente, acorrentados.

 

Sem o querer e muito menos sem o desejar, entrincheirámo-nos num quotidiano mavórcio, entre balas, granadas e obuses, é verdade que em lugares diferentes, mas elegemos, sempre, a amizade como estandarte da guerra e fizemos da paz o caminho da esperança que não morre.

 

Depois seguimos caminhos paralelos, semelhantes e diferentes, na demanda da felicidade, do amor e do trabalho, até nos reencontramos entre a lava verde da montanha e o bafo sulfúrico dos vinhedos, saboreando o perfume adocicado do entardecer.

 

Por tudo isto, tínhamos combinado encontrarmo-nos, ontem, às dezanove e cinquenta em ponto, em Campanhã!

 

Texto publicado no Pico da Vigia, em 14/03/12

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publicado por picodavigia2 às 12:00

COMO OS BIJAGÓS DA GUINÉ EXPLICAVAM A CRIAÇÃO DO MUNDO

Quinta-feira, 26.12.13

O Arquipélago dos Bijagós faz parte do território da Guiné-Bissau e é constituído por quase cem ilhas, situadas ao largo da costa africana e que foram classificadas pela UNESCO como reserva da biosfera, uma vez que dispõem de uma diversificada fauna, com destaque para várias espécies de macacos, hipopótamos, crocodilos, aves pernaltas, tartarugas marinhas, lontras, etc.

O arquipélago tem uma área total de 2.624km2 e uma população orçada em cerca de 30.000 habitantes (2006), na sua maioria dispersos apenas por 20 das maiores ilhas, sendo a maioria das outras desabitadas ou com uma população muito reduzidas. Os nativos falam sobretudo o Bijagó e outros dialectos pouco conhecidos e professam religiões animistas. Os Bijagós são profundamente crentes e dedicam cerca de cem dias por ano a rituais religiosos. O arquipélago conta com ampla autonomia administrativa.

A ilha de Orango é a mais distante do continente africano e, por isso, desfruta de um clima muito diferente da Guiné-Bissau, continental. Esta ilha tem muitos tipos de clima, desde o mais seco nas zonas de pouco pasto, savana, até um zona muito húmida, quando se entra no meio da vegetação. Tem também muita fauna por explorar, estudar e conhecer. Caracteriza-se, sobretudo, por possuir ainda um tipo de sociedade chamada “matriarcal” onde as mulheres detêm a mordomia de escolhem os maridos. Fazem-no cozinhando-lhes um prato, tradicionalmente, de peixe que, caso seja aceite e comido pelo esposo pretendido, se torna em união ou casamento.

Segundo uma antiga lenda bijagó, a vida começou assim: Deus, o Criador, existiu sempre e, no início da vida, foi criada a primeira ilha – a ilha de Orango – que era o mundo. Mais tarde, chegou um homem e a sua mulher, de nome Akapakama. Eles tiveram quatro filhas a que deram os nomes de Orakuma, Ominka, Ogubane e Oraga.

 Cada uma das filhas de Akapakama teve, por sua vez, vários filhos, os quais receberam por parte do avô direitos especiais.

Os de Orakuma, receberam a terra e a direcção das cerimónias nela realizadas, bem como o direito de fazer as estatuetas do Irã, tendo sido a primeira executada por Orakuma e feita à imagem do Deus. Este direito seria também dado por Orakuma às suas irmãs.

 Os de Ominka receberam o mar e passaram a ocupar-se da pesca. Os de Oraga receberam a natureza com as bolanhas e as palmeiras, o que lhes daria a riqueza.

Os de Ogubane receberam o poder da chuva e do vento podendo desencadeá-los, controlando assim o suceder das épocas, da seca e das chuvas.

 Assim, as quatro irmãs desempenhavam funções diferentes mas que se complementavam.

 Esta é a razão pela qual, segundo a lenda, se explica o papel muito importante que as mulheres desempenham na sociedade bijagó. Elas ainda hoje têm direitos especiais, tais como a construção das casas e a realização de cerimónias próprias. E ainda o das raparigas, segundo os Bijagós, em que reincarnam as pessoas que morrem na família e no clã.

Tal como em outras sociedades, a arte bijagó está estreitamente ligada à religião. A representação dos Irãs encontra especial relevo na escultura em madeira, a qual se alarga à representação de outras cenas da vida quotidiana e à produção de objectos de uso comum.

Hoje, só os homens podem ser escultores, mas nota-se já uma diminuição dos que se dedicam a esta actividade, o que faz com que existam poucos escultores com autoridade para executar as estatuetas dos Irãs.

Em princípio não há condição especial para que um homem se tome escultor. A aprendizagem é feita junto de um outro escultor já famoso e pode-se começar essa aprendizagem com qualquer idade.

Entre as 88 ilhas pertencentes ao arquipélago, salientam-se as de Caravela, Formosa,, Galinhas,  Maio, Orango, Poilão,  Ponta,  Roxa, Bubaque, Rubane, etc.

Fonte: Internet

 

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publicado por picodavigia2 às 15:32

BEATRIZ E O PLÁTANO

Quinta-feira, 26.12.13

(PEQUENA PEÇA TEATRAL, INSPIRADA NO LIVRO DE ILSE LOSA, COM O MESMO NOME)

 

I PARTE

Personagens:

Beatriz

Pai de Beatriz

Mãe de Beatriz

Rui, irmão de Beatriz

Alicinha, amiga de Beatriz e filha do Presidente da Câmara

Joana, amiga de Beatriz

Presidente da Câmara

Drª Olga, Vice-Presidente da Câmara

Drª Marta, Vereadora da Câmara

Dr Henrique, Vereador da Câmara

Dr Rui Seabra, Vereador da Câmara (Oposição)

Secretário da Câmara

Sr Nunes, chefe de obras da Câmara

Emanuel, trabalhador da Câmara

Pinheiro, trabalhador da Câmara

Quirino, trabalhador da Câmara

Director de Turma, professor de Matemática e de EA

Professora de Português

Professor de História

Professor de Inglês e EA

Professor de Ciências e AP

Professores de EVT e EA

Professor de Música e AP

Professor de Educação Física

Professora de EMRC

Sra Rita, empregada da Escola

Carteiro

 

CENA I

 

(Rua do PlátanoEsquina de uma rua, com uma placa com o nome - “Rua do Plátano”. Na rua há uma grande árvore – um plátano. Várias pessoas passam na rua, junto ao plátano.)

 

CENA II

 

Beatriz – (Da janela da sua casa, observa o Plátano.) – Ai! Meu Deus! Tanto que eu gosto daquele plátano! Ele, para mim, é como um amigo, faz parte da minha vida. Sem ele a minha vida não teria sentido. Ele até fala comigo. Há dias, quando regressei de férias, ele ficou muito contente ao ver-me e disse-me baixinho “Ainda bem que voltaste. Tinha tantas saudades tuas”.

(Ouve-se a voz da mãe a chamar de dentro.)

Mãe - Beatriz, ó Beatriz!

Rui – (Aparecendo à janela, puxa a irmã para dentro de casa.) - Beatriz, não ouves a mamã a chamar por ti? Anda para dentro, já!

Beatriz - Deixa-me, deixa-me e vai jogar computador.

(Aparecem o pai e a mãe.)

Mãe – Beatriz, ó Beatriz, o jantar está pronto, vem para a mesa.

Beatriz – Mãe, deixe-me ficar só mais um minuto a olhar para o meu amigo plátano.

Mãe – Ai! Que rapariga! Passa a vida a olhar para o plátano.

Pai – Parece que deitou raízes naquela árvore.

Beatriz – Adeus, amigo plátano, adeus. Agora vou jantar, mas logo, à noitinha, venho ter contigo outra vez. Adeus!

CENA III

 

(Reunião de Câmara. Sentados a uma mesa, o Presidente, o Vice-Presidente e os 3 vereadores. Ao lado, o secretário, faz a acta.).

Presidente – Meus senhores, como é do conhecimento de V. Ex.cias, o edifício dos Correios da nossa cidade está bastante velho e, além disso, é pequeno de mais para os serviços que lá estão instalados. O que acham, os senhores, que se deva fazer?

Dr Henrique – Sr Presidente, é por demais evidente que só há uma solução: demoli-lo e construir, no mesmo sítio, um outro mais moderno e mais espaçoso.

Drª Olga e Drª Marta – Muito bem, muito bem.

Drª Olga – Sr Presidente, o Gabinete Técnico da Câmara já elaborou o projecto para o novo edifício. Vai ser muito moderno, com a fachada pintada a duas cores, caixilhos de alumínio e vai ter um painel de azulejos por cima da entrada.

Drª Marta – E sendo assim, aquela velha árvore que está em frente deve ser cortada.

Drª Olga - Claro! Estou plenamente de acordo! Uma velharia daquelas fica muito mal diante dum edifício tão moderno.

Presidente, Dr Henrique e Drª Olga – Muito bem! Muito bem!

Dr Rui Seabra – Eh! Eh! Calma aí! Não estou de acordo com nada disto. Primeiro não concordo que se destrua aquele antigo edifício. A Câmara podia construir o novo noutro local e restaurar aquele, aproveitando-o, por exemplo, para criar um museu ou uma casa da cultura. Em segundo lugar sou totalmente contra o corte de árvores na nossa cidade. Cortar uma árvore é um crime, um crime meus senhores e, além disso, aquele plátano é uma árvore muito especial – foi ele que deu o nome àquela rua.

Dr Henrique - Desculpe, Dr Seabra, mas o senhor está totalmente errado. A rua onde eu moro chama-se rua Afonso Henriques e, no entanto, o nosso primeiro rei já morreu há muitos anos.

Drª Olga e Drª Marta – (Riem) – Muito bem! Muito bem, Dr Henrique.

Dr Rui Seabra – O senhor não sabe o que diz, Dr Henrique. O senhor é um insensível, não sabe o que é respeitar e amar a Natureza. O senhor é um ignorante. Um insensível e um ignorante!

Dr Henrique – Não me insulte, Dr Seabra, não me insulte.

Presidente – Meus senhores, esta discussão é inútil. Vamos por à votação, a proposta apresentada pela da Drª Marta: Quem vota a favor da demolição do velho edifício e da construção de um novo no seu lugar?

(Presidente, Drª Marta, Drª Olga e Dr Henrique levantam o braço.)

Presidente – E quem vota contra.

(Dr Seabra levanta o braço.)

Presidente – Quem vota a favor do corte do plátano.

(Presidente, Drª Marta, Drª Olga e Dr Henrique levantam o braço.)

Presidente – E quem vota contra.

Dr Seabra – (Levantando o braço.) – Senhor presidente, quero fazer declaração de voto e peço ao senhor secretário que a registo na acta.

Presidente – Dr Seabra, o senhor não tem mais nada a dizer. Ambas as propostas foram aprovadas com 4 votos a favor e apenas um contra. A reunião está encerrada. Vamos construir um novo edifício dos correios e cortar o plátano. As obras começam amanhã. Muito boa tarde. Podem sair.

CENA IV

 

(No recreio duma escola brincam várias crianças, entre as quais Beatriz, Alicinha -  filha do Presidente da Câmara - Joana e outras. Ao lado, a Senhora Rita, funcionária da Escola.)

Alicinha – Beatriz, ó Beatriz, tenho uma notícia para te dar.

Beatriz – Boa ou má?

Alicinha – Isso não sei! Mas acho que é muito boa para a nossa cidade. Agora para ti… não sei…

Beatriz – Então conta! Vá lá, conta.

Joana – Conta Alicinha, conta depressa.

Alicinha – O meu pai, que como vocês sabem é o Presidente da Câmara, chegou ontem à noite a casa muito contente. Sabem porquê?

Joana – Não, não! Conta, depressa!

Beatriz – Vá! Desembucha!

Alicinha – A Câmara vai deitar abaixo o velho edifício dos Correios e construir um novo e também vai cortar o plátano que está em frente.

Beatriz – (Muito alarmada e em alta voz) – O quê?! Cortar o plátano?! Cortar o meu amigo Plátano?! Nem pensar! Isso é que nunca!

Joana – Calma, Beatriz! Calma.

Beatriz – Calma?! Como posso ter calma sabendo que vão destruir o meu melhor amigo?! Mas não o vão cortar nunca. Nunca! Nunca!

Sr Rita – Menina Beatriz! Fale mais baixo! Não incomode os meninos que estão nas aulas.

Beatriz – Ai sim! Não posso falar alto aqui!? Vou-me embora, mas o meu amigo plátano nunca vai ser cortado! Nunca!

Joana e Alicinha – Beatriz, ó Beatriz, não te vás embora, brinca connosco mais um pouquinho.

Joana – (Para a Alicinha) - Não lhe devias ter contado.

Alicinha – Deixa lá! Ela tinha que saber.

 

CENA V

 

(Em casa, preocupada, Beatriz fala com os pais sobre a notícia que ouviu na escola.)

Mãe – O que se passa filha? Andas tão preocupada…

Beatriz – Estou preocupada, sim, mamã. Estou muito preocupada. Vão destruir o meu velho amigo. Vão cortar o mais belo plátano da cidade, do país, do mundo.

Pai – Calma, filha, calma.

Mãe – Eu compreendo-te, filha. Sei que gostas muito dele. Mas não podemos fazer nada.

Pai – Quem manda na cidade, são as autoridades.

Rui – Ah! Ah! Ah! Olha que pena! Vais chorar porque vão cortar uma árvore!

Beatriz – Não, não o vão cortar, não. Juro que não vou deixar que alguém o corte.

 

CENA VI

 

(Sala duma escola. Os professores estão em reunião de conselho de turma. Batem à porta.)

Sra Rita – (À porta) - Setor, está aqui uma menina. Pode atendê-la?

Beatriz – (Entrando muito alvoraçada) - Setor, posso entrar?

Director de Turma – Desculpa, Beatriz! Espera um pouco. Estamos mesmo a acabar a reunião.

(Saem Beatriz e a Senhora Rita.)

Director de Turma – Colegas, vamos continuar. Falta avaliar um aluno – Vítor José Teixeira da Silva, número 28. Português?

Prof.ª de Português – 3, mas tem que está mais atento nas aulas.

Director de Turma – História?

Prof. de História – 3. Gostava de lhe dar 4, mas tirou satisfaz nas duas fichas.

Director de Turma – Inglês?

Prof. de Inglês – 3. Nunca faz os trabalhos de casa e chega muitas vezes atrasado.

Director de Turma – Matemática 2. Tenho que lhe dar aulas de apoio. Ciências?

Prof.ª de Ciências – Ciências 5.

Todos – Eh lá! “Gande” nota!

Prof.ª de Ciências – Ele adora a minha disciplina e gosta muito de animais. Diz que quer ser veterinário. Área Projecto, Satisfaz Bastante.

Director de Turma – À frente. EVT?

Prof. de EVT – 4. Sem comentários.

Director de Turma – Educação Musical?

Prof. de Educação Musical – 3. Concordo com a professora de Português, tem que está mais atento nas aulas.

Director de Turma – Educação Física?

Prof. de Ed. Física – 3. Está sempre a brincar nas aulas.

Director de Turma – Área Projecto?

Prof.s de Área Projecto – Satisfaz Bastante.

Director de Turma – Estudo Acompanhado?

Prof. s de Estudo Acompanhado – Satisfaz.

Director de Turma – Formação Cívica também Satisfaz. Agora vamos ouvir a Beatriz.

(Levanta-se e vem à porta chamar a Beatriz que entra de imediato.)

Beatriz – Senhores professores! Ainda bem que os encontro todos. Sabem o que decidiram as autoridades da nossa cidade? Cortar o plátano, aquele plátano grande que está em frente dos Correios. Acham que fica mal diante do novo edifício e… zás. Decidiram cortá-lo. Acham isto bem, acham?

Prof. de Ciências – Beatriz, compreendo-te muito bem e sei quanto nas minhas aulas temos falado sobre como devemos proteger as árvores. Mas tens que compreender… Quem manda na cidade são as autoridades.

Prof. de História – É verdade Beatriz! Quem manda na cidade são as autoridades. Nada podemos fazer…

Todos – Quem manda na cidade são as autoridades.

Beatriz – Ai, é assim! Os professores também não me ajudam! Vão ver, vão ver. (Sai)

 

CENA VII

 

(Beatriz sentada a uma mesa a escrever uma carta, que mete num envelope. Depois sai de casa e chama o carteiro para lhe levar a carta à Câmara.)

Beatriz – Senhor carteiro, faça-me um favor. Leve-me esta carta à Câmara. É urgente, muito urgente.

Carteiro – É p’ra já, menina Beatriz.

 

CENA VIII

 

(Secretaria da Câmara Municipal. Sentado à secretário o funcionário dormita. Entra o carteiro com uma carta.)

Carteiro – Sô Neves, ó Sô Neves.

Secretário da CM – Não me faltava mais nada. O que é homem?

Carteiro – É uma carta! Uma carta da menina Beatriz, para o Senhor Presidente!

Secretário da CM – Da menina Beatriz?! E tens a lata de interromper o meu serviço por causa duma carta, duma garota qualquer?

Carteiro – Desculpe senhor Neves, desculpe. Passe bem e muito boa tarde.

Secretário da CM – Com que então uma criança a escrever ao senhor presidente e a incomodá-lo. Era só o que faltava! (Rasga a carta) – Lá vai mais uma! As pessoas desta cidade pensam que o Senhor Presidente não tem mais nada que fazer do que ler cartas…

 

CENA IX

 

(Chegam junto do plátano quatro trabalhadores da Câmara, preparados para o cortar. Quando começam, aparece à frente deles a Beatriz, opondo-se ao corte. Por fim chega um magote de povo.)

Sr Nunes – Vamos lá! Comecem a cortar!

Beatriz – Alto aí! Nesta árvore não se toca. Ninguém tem o direito de cortar esta árvore.

Trabalhadores – (Riem).

Emanuel – Ó menina, vá brincar com as bonecas e deixe-nos trabalhar!

Quirinio – Era o que faltava! Receber ordens duma criança! Saia daí menina

Pinheiro – Então isto agora é assim?  A menina é que manda aqui?

Sr Nunes – (Para os trabalhadores.) Parem com isso. (Para Beatriz) - Menina, tenha calma e por favor sai-a daí. Os homens têm que fazer o que lhes mandam.

Beatriz – Os senhores não querem ouvir o que lhes digo?

Sr Nunes – Já ouvimos, menina, até ouvimos muito bem. Agora, por favor, saia. Vamos começar o nosso trabalho.

Beatriz – (Abraçando-se ao Plátano) - Ai vão! Pois bem. Se cortarem o plátano têm que me cortar a mim primeiro.

Pinheiro – Ó sô Nunes! Já chega de brincadeira.

Emanuel e Quirino – (Puxando a Beatriz) - Sai daí para fora!

Povo – (Aproximando-se e protegendo Beatriz) - Não toquem na menina! Não toquem na menina!

Trabalhadores – Com a breca!

Sr Nunes - Com isto é que não contava! (Pega no telemóvel e marca uma chamada. Em voz alta) – Tou! É o senhor Presidente? Não estou a ouvir nada. Fale mais alto, senhor presidente. (Afasta-se para ouvir melhor.)

 

CENA X

 

(O Presidente da Câmara, o dr Henrique e as dr.as Olga e Marta, acompanhadas do sr Cunha, chefe de obras da Câmara, chegam junto da árvore.)

Sr Presidente – Olá! Tu é que és a Beatriz, a amiga da minha filha?! Muito bem! Muito bem! Mas olha, Beatriz, esta árvore tem de se cortar, porque não ficaria bem em frente dum edifício moderno. Tu és muito nova para compreender estas coisas.

Beatriz – E o senhor é velho de mais para perceber que não se deve cortar uma árvore que é muito mais bonita do que um edifício.

Drª Olga e Drª Marta – Ai! Credo! Que menina mal-educada!

Dr Henrique – Isso é maneira de falar com o senhor presidente! Ponha-se a andar daqui para fora, sua atrevida!

Todos incluindo o Dr Seabra – Bravo, Beatriz! Bravo!

 

CENA XI

 

(O Sr Presidente conversa, em voz baixa, com os vereadores. Depois fala com o sr Cunha.)

Sr Presidente – Sr Nunes, diga aos seus homens que podem voltar para a Câmara. O Plátano não vai ser cortado, hoje.

Sr Nunes – Sim senhor, senhor presidente.

Sr Presidente – Minhas senhoras e meus senhores. Podem voltar para as suas casas. Acabei de dar ordens para que o Plátano não seja cortado, hoje.

 

CENA XII

 

(Beatriz decide passar a noite junto da árvore. O irmão tenta convencê-la a ir para casa.)

Rui – Beatriz, já é muito tarde. Vamos para casa.

Beatriz – Deixa-me ficar aqui mais um pouquinho.

Rui – Não! Vamos! Os nossos pais já devem estar preocupados!

Beatriz – Vai tu e avisa a mamã que eu vou passar aqui a noite. Sei lá se me estão a enganar? Podem vir de noite e cortar o meu amigo plátano.

Rui – Esta rapariga não está boa da cabeça.

 

CENA XIII

 

(Beatriz passa a noite junto da árvore. Os pais, as amigas e outras pessoas vêm trazer-lhe comida e cobertores.)

 

CENA XIV   

 

(Na manhã seguinte voltam os homens para cortar o Plátano. Ao verem Beatriz ficam espantados e regressam à Câmara.)

Trabalhadores – Espantoso! Espantoso! Espantoso!

Sr Nunes – Esperem aqui por mim. Não comecem a cortar a árvore. Vou à Câmara avisar o Senhor Presidente. Espantoso! Espantoso!

Beatriz – (Acordando, espreguiçando-se esfregando os olhos) - Bom dia, amigo plátano. Podes estar descansadinho que não deixarei que te cortem!

Trabalhadores - Espantoso! Espantoso! Espantoso!

 

CENA XV

 

(Chegam o Sr Presidente, os srs vereadores e o Sr Cunha, que falam entre si. Começa também a chegar muito povo.)

Presidente – Minhas senhoras e meus senhores: a atitude desta menina foi muito bonita e levou-nos a tomar uma decisão contrária à que havíamos tomado na reunião da Câmara: O plátano fica em pé. Não será cortado. Ficará para sempre em frente do edifício dos Correios. A Beatriz deu a todos nós uma grande lição: Uma árvore, mesmo velha, mas cheia de seiva e de vida, é um monumento, tal como uma estátua.

Todos – Bravo! Bravo Beatriz! Bem-haja, a Beatriz.

 

Fim

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publicado por picodavigia2 às 10:51

ALENTEJO

Segunda-feira, 23.12.13

O Alentejo nem sempre teve o vigor e a beleza que hoje se reflectem quer na imensidade das suas planícies, quer na alta nobreza dos seus montados de sobro e azinho, ou ainda no esteval cerrado, na giesta ramalhuda ou no piorno em mata, que por toda a parte florescem. Hoje, a terra senão fecunda é atraente, a planície senão fértil é serena e dos seus rios transborda uma esperança de tranquilidade quase transcendente e infinita. Há qualquer coisa de imponente na sua aridez, na sua secura e no seu aspecto semidesértico. A paisagem transtagana transporta-nos na contemplação dum idílio permanente e bucólico entre o céu e a terra, numa aspiração infinita de sonhos transcendentes e inatingíveis. Se por um lado, o Alentejo é um sertão árido, uma gândara ou um chavascal povoado de feras e de uma secura desesperante, por outro é um recanto ubérrimo onde a paisagem tem um cunho de grandiosidade e beleza que se impõem em cada momento e em cada espaço Delimitado pelas serras de S. Mamede e do Monchique, pelo Oceano Atlântico e pela serra Morena, já em Castela, é uma vastidão de planícies, fragmentadas pelas serras de Ossa, Monfurado e Portel e banhada pelos rios Tejo, Guadiana, Mira e Sado.

Assim como a terra, a sua grei também tem uma fisionomia especial, estigmatizada numa nobre independência e numa contumaz personalidade. Altivo e trabalhador, atlante de bondade e carinho, o povo alentejano mistifica-se numa mudez de reflexão e num silêncio observador, com um coração aberto e uma alma hospitaleira. Marca a sua individualidade, não apenas quando veste o pelico ou quando calça os safões, mas quando na sua rudeza e simplicidade manifesta a sua idiossincrasia, quer através da sua linguagem salpicada de frases típicas e de termos próprios e impressivos, quer por meio dos seus cantares e tradições, das suas festas e folguedos. A sua maneira de falar e de dizer, a riqueza e a variedade dos seus vocábulos transmitem-nos a sensação duma polifonia sublime e transcendente, repleta de irisações que o tempo e os homens, lentamente, mistificaram.

O Alentejo é, além do mais, um manancial infinito de costumes e tradições, muitas das quais, apesar de perdidas no tempo, reflectem o Alentejo árido de outrora, povoado de criações míticas e mitológicas, multisseculares, dos povos que séculos após séculos, milénios após milénios o foram povoando e construindo, na inevitável tarefa de o dominar e transformar, civilizando e domesticando os elementos da natureza.

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publicado por picodavigia2 às 14:38

SÃO MARTINHO

Segunda-feira, 09.12.13

No calendário litúrgico, o dia de São Martinho celebra-se a 11 de Novembro, data em que este Santo, falecido no ano de 397, foi a sepultar em Tours, na França. Em Portugal, este dia é bastante celebrado em todo o país, com destaque para cidade e o município de Penafiel, onde São Martinho se venera como seu patrono. A sua festa era de tão grande importância que este dia, antigamente, foi considerado de guarda e, além disso, era favorecida frequentemente pelos dias de bom tempo que o antecediam, conhecidos como o “verão de S. Martinho”. Mas em Portugal, o dia de S. Martinho não é celebrado apenas a nível litúrgico e religioso, pois a ele se prendem lendas e tradições que recordam o espírito de solidariedade do Santo, nomeadamente naquela célebre lenda em que partilhou a sua capa com um mendigo. Conta a lenda que certo dia um mendigo que tiritava de frio à beira do caminho, ao ver passar Martinho, nessa altura soldado do exército romano, pediu-lhe esmola e, como não tinha nada que lhe desse, pegou na espada e cortou seu próprio manto, dando metade ao pedinte. Na noite seguinte apareceu-lhe em sonho o próprio Jesus, o qual usando o pedaço da capa que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio. Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião.

A este dia, ligam-se tradições e costumes milenários, alguns dos quais chegaram aos nossos dias e ainda hoje se mantêm bem vivos, como a festa do Magusto e o assar das castanhas e o de provar o vinho. São Martinho é também o santo patrono dos alfaiates, dos cavaleiros, dos pedintes, da restauração, dos hotéis e pensões, dos produtores de vinho e dos alcoólicos reformados, dos soldados, dos cavalos, dos gansos, e orago de uma série infindável de localidades de Norte a Sul de Portugal Continental. Nos Açores nenhuma freguesia tem o seu nome ou orago, enquanto na Madeira existe uma e no continente trinta e uma.

Na Fajã Grande este dia nunca foi muito celebrado nem o santo muito festejado, pois dele nem havia imagem na igreja paroquial e, além disso e sob o ponto de vista profano, havia poucas castanhas e o vinho rareava e nem sequer existiam adegas, pelo que era impossível dar cumprimento quer à realização de magustos quer ao cumprimento do mais conhecido de todos os provérbios relacionados com este dia: “Pelo São Martinho, vai à adega e prova o teu vinho”.

 

Texto publicado no Pico da Vigia, na curiosa data de 11/11/11

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publicado por picodavigia2 às 11:24

COMO SE VOTA PARA A ASSEMBLEIA DE FREGUESIA NAS FREGUESIAS COM MENOS DE 150 ELEITORES

Terça-feira, 03.12.13

Se consultarmos os mais recentes quadros de resultados eleitorais, relativamente às eleições autárquicas para a Assembleia de Freguesia, em qualquer uma das freguesias com menos de 100 ou de 151 eleitores, deparamo-nos com uma ou outra destas frases: “A freguesia que escolheu não se encontra apurada.” ou “Assembleia de freguesia substituída pelo plenário de eleitores.”

Isto acontece porque nas freguesias com150 ou menos eleitores inscritos a eleição para a Assembleia de Freguesia, na realidade, faz-se de forma substancialmente diferente da habitual.

Nestas freguesias, de acordo com a legislação em vigor, o plenário dos cidadãos eleitores elege três dos seus membros, os quais, uma vez eleitos, formarão a Junta de Freguesia local. Esta eleição, no entanto só se pode verificar se estiverem presentes pelo menos 10% dos cidadãos eleitores recenseados na freguesia.

A especificidade desta situação, no entanto, e segundo noticiam alguns jornais regionais, leva a que, em caso de não eleição dos membros, cada freguesia accione os mecanismos mais diversos e, por vezes, pouco consensuais e pacíficos para a resolução do problema. É que, segundo os analistas, os procedimentos a terem-se em conta em tais casos não parecem estar muito claramente definidos na lei eleitoral, o que origina várias confusões e situações enigmáticas, algumas delas a prolongarem-se nos tribunais à espera de solução.

Segundo o presidente da Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) o número cada vez maior de freguesias com poucos habitantes e os problemas inerentes às eleições nas mesmas são razões que tornam urgente a "reorganização administrativa do território”.

De acordo com o Jornal da Guarda existiram nestas eleições autárquicas “118 freguesias com 150 ou menos eleitores recenseados, onde a Assembleia de Freguesia foi substituída por plenários de cidadãos eleitores, situação registada em várias Freguesias do distrito da Guarda. A desertificação das aldeias do Interior do país tem sido responsável pelo aumento do número de Freguesias que elegem os seus representantes em plenários de cidadãos.”

Segundo o mesmo Jornal, a Guarda, em dez dos seus catorze concelhos, é o distrito que tem maior número de freguesias nesta situação, num total de 40: Almeida (12), Guarda (6) e Sabugal (6), Pinhel (5), Figueira de Castelo Rodrigo (4), Fornos de Algodres (2) Meda (2), Celorico da Beira (1), Trancoso (1) e Vila Nova de Foz Côa (1).

Nos Açores esta situação verifica-se apenas na ilha das Flores, mas em cinco das suas onze freguesias: Mosteiro, Fajãzinha, Lajedo, Caveira, Cedros. O Corvo, por sua vez é o único concelho onde não há eleições para a Assembleia de Freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 22:54

SERNANCELHE E A LENDA DO SANTUÁRIO DA LAPA

Terça-feira, 26.11.13

Com uma área 222 Km2 e 16 freguesias, o concelho de Sernancelhe pertence ao Distrito de Viseu e fica encravado numa zona montanhosa situada entre o planalto da Nave, a ocidente, e a serra de S. Gens, a oriente, sendo atravessado, de sul a norte, pelo rio Távora, afluente do Douro. A vila e região de Sernancelhe têm as suas origens históricas no castro do Monte Castelo, sobranceiro ao rio Medreiro. Espalhados pelo concelho, existem inúmeros vestígios históricos e testemunhos vivos da época castreja, verificando-se, também, uma clara influência da dominação romana em pontes, estradas, cipós (marcos de divisão do território) marcos miliários (marcos de divisão das estradas), restos de cerâmica e muitos outros.

A fundação do município é anterior à Nacionalidade. O primeiro foral remonta a 1124, sendo assinado pelos ricos-homens D. Egas Gosendes e D. João Viegas. Sernancelhe também foi “Honra” de Egas Moniz. Mas foi sobretudo nos séculos XV e XVI que houve grande desenvolvimento da região, durante os quais se foram firmando, importantes locais de culto, dotados de notáveis obras de arte. O mais célebre foi o Santuário da Lapa, ao qual se associou mais tarde o célebre colégio dos jesuítas, onde estudou Aquilino Ribeiro, local de peregrinações a que os fiéis acorriam com ricas e generosas ofertas. Daí que um dos locais de interesse a visitar em Sernancelhe é, entre muitos outros, na freguesia de Quintela, o Santuário da Lapa que guarda, na capela-mor, o rochedo milagroso com a imagem da Senhora da Lapa, cujo altar foi construído precisamente no local onde, segundo a lenda, a pastora Joana encontrou a imagem escondida pelas religiosas, numa gruta ou lapa, no século X. Segundo reza a lenda, Joana era uma criança muda que andava pelos campos a cuidar do rebanho de seus pais. Ao chegar a casa mostrou a imagem à mãe. Esta porém não lhe deu importância e lançou-a à fogueira. Nessa altura a pastora recuperou a fala e a mãe, aflitíssima, atirou-se ao lume e conseguiu recuperar a imagem. A fama deste e doutros milagres espalhou-se por toda a Beira Alta, ganhando grande importância simbólica e religiosa. Dentro do Santuário ainda existe um rochedo com uma fresta bastante apertada, por onde os fiéis devem passar, só conseguindo fazê-lo quem estiver em estado de graça e ainda um enorme crocodilo, pintado de verde, actualmente guardado nas traseiras do templo.

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publicado por picodavigia2 às 20:45

A IMPORTÃNCIA DA LEITURA E AS FEIRAS DOS LIVROS

Sexta-feira, 25.10.13

Parece não haver dúvida, embora muitas vezes o esqueçamos, de que a leitura é inerente à formação e à educação do ser humano. Não se pode ensinar sem formar e informar e o livro, obviamente, tem essa dupla função.

Ler é formar-se e educar-se, é receber cultura, é combater a ignorância e o analfabetismo. Por isso, deve ser um processo dinâmico, gerador de sentidos, provocador de atitudes, que comprometa o indivíduo a nível cognitivo, psicológico e motor. Deve ser um estabelecer de relações com outras formas de comunicação e expressão que permita alterar a nossa forma de ser e de estar na vida, isto é, provocar marcas humanizadas nos indivíduos e nas sociedades.

O livro é imprescindível à humanidade e inerente ao ser humano porque, como escreveu Monteiro Lobato, “um país constrói-se com homens e com livros.”

Embora ultimamente a leitura tenha aumentado nas escolas, especialmente após a implementação nas mesmas do Plano Nacional de Leitura, actualmente ainda se lê pouco. Além disso, fomenta-se, sobretudo, a leitura obrigação, isto é, uma leitura imposta, pelos programas ou pelo professor. Esta leitura é, necessariamente, desinteressante, desmotivadora, improdutiva e, até, embarga a “leitura prazer”. Manda-se ler para fazer um resumo ou uma síntese, para preencher uma ficha de leitura, para ter uma nota.

Esta metodologia é desmotivante e desmotivadora e deveria, eventualmente, ser substituída por um motivar constante e continuo do aluno de modo a que este mude comportamentos e comece a empenhar-se mais e melhor, tornando-se, inclusive, co-responsável do processo de escolha e selecção daquilo que quer, que precisa e que há-de gostar de ler. Há que privilegiar a leitura prazer.

Por outro lado é imperioso motivar os alunos e as crianças e jovens em geral, para um assédio constante e permanente a uma informação global e universal, permitindo-lhe aceder e até mesmo “apoderar-se” do património cultural da humanidade.

No entanto, urge não esquecer que os livros não os únicos nem os exclusivos instrumentos de leitura. Existem muitos outros, mais interessantes e apelativos. Mas o contacto com os livros é fundamental, pois estes são na realidade uma espécie de “reserva cultural”, ou “acumuladores” da cultura e do saber universal. Os livros são a herança cultural da humanidade, por isso é que a leitura permite ao indivíduo conhecer a experiência dos povos de todos os tempos e de espaços diferentes, partilhando as suas vivências e a sua cultura.

Daí o interesse de tantas e tantas feiras do livro que se anunciam por toda a parte, sobretudo, na quadra natalícia que se avizinha.

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publicado por picodavigia2 às 23:17

TRADUÇÕES

Segunda-feira, 30.09.13

Há uns meses, casualmente, encontrei, no porto de São Caetano, no Pico, duas jovens. Como desconheciam a ilha e tudo o que as rodeava, manifestaram vontade de entabular conversa. Fui-lhes explicando alguns pormenores sobre a ilha Montanha, os seus valores, a sua beleza, a sua cultura, as suas tradições, indicando-lhes o que poderiam visitar e apreciar, pois nela, permaneceriam durante uma semana, manifestando, inclusivamente, vontade em escalar a montanha. Instaladas na Madalena e viajavam em moto de aluguer. Eram naturais e residentes na Suíça. Uma enfermeira, outra a terminar o curso de Direito. Visitaram uma adega rural, provaram vinho de cheiro, angelica, queijo, bolo etc, revelando uma esmerada educação e uma extrema delicadeza de costumes e atitudes. Tinham Facebook e, obviamente, tornamo-nos amigos.

Agora, embora raramente, recebo, via facebook, fotos e textos ou pequenas frases colocadas por uma outra e, como é óbvio, recorro às traduções que a página disponibiliza. A última vez saiu-me esta beleza:

Frase Original:  Dä Baby Esel isch da.... : ) wer will cho cha sich bi mir amäldä.

Tradução para Português:  Bebê burro amäldä isch como...:) quem quer bi me cho cha.

Boa!

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publicado por picodavigia2 às 10:59

SÃO JOSÉ VELHINHO

Terça-feira, 10.09.13

Há uns meses recebi da parte da senhora Katharine Baker, residente na Califórnia mas descendente de açorianos naturais do lugar da Ponta, na Fajã Grande e tradutora, entre outras obras, do livro de Álamo Oliveira “Já não Gosto de Chocolates”, uma estampa curiosíssima.

A estampa que me foi enviada por email pela senhora Baker data de um de Janeiro de 1893. Para além de um pequeno texto no verso, onde se pode ler o seguinte “José Frederico Henriques. Lembrança de sua mãe Mariana Apolónia Gonsalves - 1º de Janeiro de 1893”, a estampa apresenta, no frontispício uma foto da antiga imagem de São José, também conhecido por “São José Velhinho”. Trata-se da imagem de S. José que existia na igreja da Fajã Grande, de que é padroeiro, até à compra da actual, nos inícios dos anos cinquenta. Por baixo da foto pode ler-se o seguinte: Verdadeiro retrato da imagem de S. José Que se venera na Igreja da Fajã Grande (Ilha das Flores).

Trata-se realmente da primitiva imagem de São José, que antigamente estava colocada no centro do altar-mor, em frente ao camarim, mas que com a chegada da nova imagem foi guardada na sacristia, em cima do mesão, onde muito possivelmente ainda se encontrará, que remonta aos primórdios da criação da paróquia Fajã Grande e que, muito provavelmente, terá pertencido à primitiva ermida que antecedeu a actual igreja paroquial, inaugurada em 1 de Agosto de 1850.

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publicado por picodavigia2 às 21:16

REFORMA ESCOLAR

Terça-feira, 03.09.13

Todos nós, que ultrapassamos a barreira dos sessenta ou que a circundamos, trazemos à memória, frequentemente, os nossos tempos de meninos e moços, iguais aos de tantos outros, povoados de fascínio heteróclito e de sonhos paradigmáticos, mas cerceados e estigmatizados por imperativos familiares e escolares, que hoje, conscia e globalmente, refutamos e, contra os quais, inclusivamente, nos insurgimos, no sentido de os afastar a fim de não alardearem o quotidiano dos que nos são mais queridos: os nossos filhos e os nossos alunos.

Deixemos de parte os primeiros, estampados no carracismo familiar dos nossos antepassados, porque nós próprios, creio que todos, inequivocamente, já os saneamos desde há muito. Fixemo-nos, então, nos segundos, nos escolares, porque esses, por um lado, transcedendem o nosso exclusivo poder de os eliminar e, por outro, sendo mais enigmáticos e paradoxais, a sua não aceitação poderá ainda não ter sido total e definitivamente afastada das práticas pedagógicas simultânes a paralelas ao nosso existir.

Todos nos lembramos e até temos interressantes histórias para contar que envolvem a nossa meninice, de professores detentores e melitantes assumidos duma prática pedagógica, efectiva e institucionalizada, férula e inóspita, em nada benevolente ou tolerante, que impunham um viver em constante estado de inqietação, insegurança, medo e ódio, não só ao "janízaro pedagogo", mas também à disciplina que leccionava e até, por vezes, à própria escola. Tratava-se, de facto de professores enfatuados, intolerantes, maquiavélicos e pouco humanos, que não poupavam a nossa inocência e que apenas conheciam dois princípios, que tentavam impor, dispondo de meios auxiliares como a palmatória, a cana, o ponteiro, para não falar nas "orelhas de burro" e pelos quais pautavam toda a sua prática didático-pedagógia: o da força da lei e o da lei da força.

Esta postura, assumida também por grandes mestres e eminentes pedagogos, simultaneamente aureolados como nobres vultos da ciência e da sabedoria, da qual, por vezes, detinham a verdade total e os princípios absolutos, objecto exclusivo da nossa aprendizagem, originária dos mais remotos tempos do ensino, iniciada, possivelmente, nas escolas monacais, medievais, era, por isso mesmo, defendida por laicos e religiosos, sem distinção, numa cumplicidade conjunta, talvez mesmo, anacronicamente,  mais acentuada nos segundos do que nos primeiros. É verdade que, no meio destas sucessivas dinastias de férulos e "iluminados" pedagogos, surgiam, e nós bem nos lembramos desses, professores compreensíveis, tolerantes e humanos, verdadeiros objectores de consciência ao sistema. Professores paralelos, apenas no tempo e no espaço, porque nos seus métodos e práticas pedagógicos já se afastavam das tradicionais, fazendo sobressair uma bondade extraordinária e uma compreensão generosa, assumindo-se como felizes excepções, apresentando-se como autênticos pioneiros duma prática pedagógica messiânica e profética, que todos hoje nos blasonamos de defender e proclamar.

A confrontação destas  duas posturas pedagógicas, tão diferentes e tão diversas, passava necessariamente por uma opção que culminaria na aceitação da segunda e consequente rejeição absoluta e radical da primeira. Mas a mudança ou passagem, não era fácil.Grandes e históricos obstáculos se opunham. O próprio regime político, vigente em Portugal até Abril de 1974, era, eximiamente, favorável à manutenção e defesa das práticas acima referidas. Elas eram-lhe inerentes. Consequentemente, também parecia inevitável, que a aurora de esperança, de liberdade nascida na madrugada de 25 de Abril e a revolução que, no mesmo dia abria, definitivamente, as portas à democracia, pudessem por termo, de imediato, à férula vivência pedagógica até então praticada e fossem protagonizadoras duma simultânea revolução pedagógica.

E eram-no!...Só que revoluções pedagógica não se podem, fazer nem com armas, nem com cravos, nem com o povo a sair à rua, apenas e tão somente anunciando-a.

Uma revolução pedagógica exige muito mais. É mais profunda e lenta e não passa apenas por um grito de revolta numa madrugada de esperança. Exige, fundamentalmente, uma dupla mudança: de estruturas e mentalidades.

A primeira durou anos a madurecer, mas chegou, apesar de lenta. Operou-se com a "Reforma Curricular" e todas as reformas a ela adjacentes. A segunda é, por natureza, necessariamente, lenta e difícil, porque as mentalidades não se mudam com decretos.

Nesta reflexão que me propuz fazer, com o estatuto de "voluntário à força", como corolário de, ao longo de 50 horas reflectir, conjuntamente com cerca de três dezenas de colegas dos vários ciclos do Ensino Básico e do Secundário, numa acção de formação intitulada "Do Projecto Educativo à Área-Escola", pretendo, fundamentalmente, referir  os pontos que me parecem mais siginificativos da Reforma Curricular, a nível das estruturas do Sistema Educativo e, simultaneamente, identificar algumas das dificuldades que obstaculizam a concretização da mesma, quer relativamente a possíveis lacunas ou limitações do sistema, quer a nível duma possível rejeição de mentalidades, tendo em conta o contexto em que a mesma se insere, dando primado à postura do professor - o grande e principal obreiro de toda a verdadeira reforma.

Promulgada em 23 de Setembro de 1986, a Lei de Bases do Sistema Educativo é um documento importante e fundamental, que se pode, com razão, alcunhar de "A Bíblia" do ensino e, constitui, sem duvida, se não o primeiro, pelo menos o mais significativo passo, no lento percurso da reforma do Sistema Educativo. Português, dado que se encaminha, significativamente, não apenas numa mudança estrutural, orgânica e curricular do sistema, mas estabelece princípios orientados para uma formação integral do aluno, considerando-o como pessoa, encarada nas suas diversas dimensões, com destaque para o princípio da valorização dos domínios das atitudes, capacidades e valores, em detrimento dos domínios do conhecimento, protagonizando o aluno como prototipo da construção do seu próprio saber, princípios estes que implicam, simultaneamente, não apenas a reforma das estruturas, mas também a das mentalidades.

Protagonizadora dos princípios acima referidos, a LBSE define, no art.º 1, o Sistema Educativo como "um conjunto de meios pelo qual se concretiza o direito à educação, que se exprime pela garantia duma permanente acção formativa,  orientada para o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade."

É claro o avanço, na implementação definitiva do Sistema de Ensino Português, de novos valores que os sistemas anteriores (desde o pombalino à III República) apenas preconizavam, nomeadamente, o direito à educação, o destaque para o aspecto "formativo" e, sobretudo, o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade. Da acção formativa permanente, ressaltam, de imediato, dois conceitos: formativa e permanente. Quanto ao primeiro, ele implica que a educação não continue a restringir-se apenas à "transmissão de conhecimentos", mas que se estenda a atitudes e comportamentos que consubstanciem a formação, o que acarreta implicações práticas no quotidiano do individuo. Por sua vez, o conceito de permanente, confere à educação o dom da durabilidade, do contínuo e também atinge, consequentemente, a vida do indivudo fora da própria escola. Por outro lado, a accção formativa passa a ter um triplo objectivo: desenvolvimento global da personalidade, progresso social e democratização da sociedade.

Acontece, no entanto, que a personalidade é algo de muito específico, individual, uno, irrepetível, que, consequentemente,  não pode ter padrões estandizardos de desenvolvimento, nem fixação imposta de valores universais, que permitam uma igual conduta de desenvolvimento, já de si, extremamente complicada. Os métodos, os instrumentos e, sobretudo, os valores que se desenvolvem, podem não ter o mesmo impacto e eficiênci, no desenvolvimento de personalidades tão ambiguamente diversificadas e diferentes, como são as do ser humano.

Como se pode, então, continuar a apostar numa "massificação" cada vez maior do nosso ensino e abstermo-nos duma prática pedagógica inócua, debilitante e férula? É que o desenvolvimento da personalidade é algo de individual, subjectivo, amorosa e afectivamente acompanhável, a que se não podem impor arquetipos pré-estabelecidos ou pre-estruturados. Exigente evidencia esta, que parece obstaculizar, substancialmente, a lógica da reforma, galvanizada por uma nova estrutura curricular, bipolar, pormenorizadamente, bifocada entre os programas das disciplinas e a comprometedora Área-Escola e as próprias Actividades de Complemento Curricular, implicando, umas e outras, cada vez mais propostas de trabalho universais, projectos para grupos que não para individuos, estabelecendo-se modelos padrões médios de personalidade.

Restam os outros dois objectivos - progresso social e democratização da sociedade, onde os valores que se apresentam de certo se encaminham e encaixam melhor e se coadunam mais adequadamente com a prática pedagógica massificada, porque integram mega-universos, resultantes da soma desordenada de personalidades diversificadas e dos defirenciados valores que imprimem ao seu quotidiano.

O Sistema Educativo Português, cuja implementação e progresso implica uma organização de estruturas adequadas e acções diversificadas, deverá reger-se, segundo a LBSE, por  princípios organizativos fundamentais, dos quais destaco:

a) Todos os portugueses tem direito à educação, à cultura. Daqui se conclui, logicamente, que "a Escola é para todos", o que na realidade é verdade. Todos somos iguais, mas também todos somos diferentes, dado que o ser humano é único, uno, individúo e irrepetível, dotado duma personalidade com características próprias e limitações ou potencialidades diferentes. Pelo que uma instituição que protagonize os interesse de todos, não pode assumir-se como abrangente  simultânea de todos. Tem, pelo contrário, que tornar-se mais flexivel e menos universal. Isto quer dizer que "Escola para todos" não é exactamente o mesmo que "Todos para a mesma escola", o que, infelizmente, está a acontecer, com consequências que ainda não foram analisadas. "Escola para todos", quer dizer, precisamente ao contrário, que todos tem direito a um Sistema Educativo adequado, que concretize o seu direito à educação e lhe garanta um uma permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da sua personalidade, o que não se consegue "enfiando" todos na mesma escola, atrofiando a personalidade duns em detrimento da de outros, gerando uma espécie  "strugle for life" onde surgem atropelos, violências, segregações e em que uns aniquilam os outros.

b) O estado deve promover a democratização do ennsino, exactamente, deve proporcionar a todos igualdade de oportunidades, porque todos somos diferentes, mas temos direi-to a assumir essa diferença e a procurar as concretizações vivências da existência.

c) Tem que imperar o princípio da liberdade de aprender e de ensinar. O que nem sempre se verifica, inclusivamente no acesso ao ensino universitário. Nem sempre se pode escolher a escola, o curso ou sequer, ter uma palavra em relação ao programa de cada disciplina. As própria iniciativas de debate ou diálogo  e posterior escolha são, geralmente, cerceadas. É o eterno argumento de que o aluno não tem capacidade e maturidade a imperar.

d) O Sistema educativo deve corresponder às necessidades resultantes da realidade social e, consequentemente, conduzir ao desenvolvimento da mesma, construindo cidadãos dotados dos seguintes valores: liberdade, responsabilidade, autonomia, solidariedade e dimenmsão humana do trabalho.

Teoricamente maravilhoso!... Trata-se, no entanto, duma parrésia, ostaculizada pela prática quotidiana escolar. Como é que uma criança, entrando às 8.30 horas para a escola, depois de andar 1/2 hora a pé, por vezes olhada, com uma pesadíssima pasta a tiracolo, por vezes acompanda de um saco de Educação Física, participando em brigas e estroinices próprias da idade, entrando numa sala fria, esconsa e mal cheirosa, que possui como único material didático  um quadro húmido, onde se não pode escrever nem ler o que lá está escrito, ouvindo o professor falar disto e daquilo, sem grande interesse, que já puxou pelo casaco do colega três vezes, ouviu um valente raspanete porque se esqueceu do livro ou de fazer os trabalhos de casa, desenvolve a sua liberdade, responsabilidade, autonomia, solidariedade ou, o que ainda é mais difícil, sente a dimensão humana do trabalho?

Como é que, neste condicionalismo, desenvolve o espírito democrático e pluralista, o respeito pelos outros, o diáologo, a tolerância e se pode empenhar na transformação da sociedade?

A educação deve promover o desenvolvimento do espírito democrático e pluralista, o respeito pelos outros, pelas suas ideias e, consequentemente, o diálogo, a troca de opiniões, formando cidadãos capazes de julgarem com espírito crítico e criativo o meio social, sendo capazes de colaborar na sua transformação. Como é que isto se atinge? Cada professor assume a ondução dos meninos, durante uma hora ou duas. Eles estão caladinhos e atentos e,no fim, ou sabem ou não sabem nada.

Se as cruanças sabem o que lhe ensinamos nodia anterior, ficamos felizes e ufanamo-nos, se não sabem, o que é mais frequente, lamentamos, barafustamos, porque não têm bases, nem pre-requisitos, nem preparação, porque não sabem Portruguês, etc., etc. Algum professor já se interrogou ou se lamentou porque os seus alunos não possuem valores democráticos como a tolerância, o pluralismo, o diálogo, a formação de juízos crítico e empenhamento em alterar a ordem social? Ou já estabeceu estratégias conducentes a tais objectivos ou, istrumentos de avaliação para as mesmas?

No segundo ciclo do EB, o ensino organiza-se por áreas disciplinares, enquanto, no primeiro, é globalizante, da responsabilidade dum professor único e, no terceiro, organiza-se segundo um plano curricular unificado, desenvolvendo-se em regime de um professor por disciplina Assim, o Ensino Básico é dotado de novas e importantes características: universalidade, obrigatoriedade e gratuitidade (até ao nono ano). Na prática, estes conceitos parecem contradizer-se, pois: há objectores de consciência à universalidade, a maior parte dos pais gasta dinheiro, paga a escolaridade dos filhos até ao nono ano e sendo um dos objectivos. primordiais da educação o desenvolvimento pessoal e social, ou seja, a formação pessoal,(individual) não parece razoável que não haja adaptações ou, que estas se façam a nível restrito, nem que se imponha um modelo universal e único a uma pléiade diversificada de indivíduos. Por isso é que a muitos alunos repugna a actividade quotidiana duma escola, porque não contribui em nada ou em muito pouco para o seu desenvolvimento pessoal. Apenas o ensino secundário se organiza de formas diferenciadas, o básico organiza-se de forma global, comum e universal porque pretende ser abrangente. Parte, em minha opinião, dum suposto falacioso, que entende que o abrangente pode ser diferenciado, porque divisível e constituido por partes, uma vez que, atingindo-se toda as partes, atinge-se o todo global. Exemplifiquemos: Temos uma mesa posta com uma grande diversidade de vitualhas e, à volta, um grupo de pessoas para se alimentar. O que é correcto não é que todos comam, equitativamente, as mesmas quantidades das várias iguarias, mas que cada um como o que mais goste e lhe convier, mesmo que, eventualmente, seja necessário colocar mais alimentos sobre a mesa.

Creio que sem correr o risco de estabelecer vias diferenciadas ou opções prematuras, susceptíveis de criar descriminação, o ensino básico pode desenvolver-se criando formas específicas e diferenciadas. Não nos queiramos vestir todos culturalmente da mesma forma. O que é necessário é que todos se vistam e vistam bem. O tempo dará razão. Os próprios objectivos básicos gerais que o E.B persegue apontam para isso. A própria escola surge, hoje, com uma nova organização, dado que possui estruturas e processos organizativos próprios, em que sobressaem, por uma lado aspectos formais ou visíveis, como é o caso dos objectivos, estruturas, regulamentos, orgãos diversos, políticas e recursos vários e, por outro, aspectos informais ou encobertos ou menos observaveis; percepções, atitudes, sentimentos, valores, interações, normas de grupo, etc.

 

 

A Reforma do Sistema de Ensino não ficaria completa, se não se operasse apenas a nível de princípios estruturais e organizativos. Teria, necessariamente que estender-se a outros vectores, entre os quais, imperiosamente, à reestruturação curricular, implicando uma nova progamação, quer do Ensino Básico, quer do Secundário, da qual o decreto-lei nº 286/89, em complemento da LBSE, estabeleceu os princípios gerais, definindo os respectivos programas ou planos curriculares.

Os programadores desta reforma curricular pautaram-na, no que que respeita à estruturação dos curriculos, por dois princípios: - o da unidade e o da congruência, baseando-se, num projecto pedagógico global em que convergem três dimensões educativas: 1ª - Formação Pessoal (individual e social); 2ª - Aquisição de saberes/capacidades fundamentais e 3ª - Habilitação para a cidadania.

Nesta perspectiva tridimensionada, visando ultrapassar as pedagogias tradicionais e reformulando a relação pedagogia/metodologia, dotou-se a estrutura curricular de algumas inovações, das quais se destacam:

1) "A estrutura curricular passa a ser bipolar, com os programas disciplinares, por um lado e, com a Área-Escola e as Actividades de Complemento Curricular, por outro.

2) A recomendação de que todos os programas se implementam, visando o mais completo e equilibrado desenvolvimento pessoal do educando, atendo às características de cada faes etária.

3) O primado atribuido à relação pedagógica, com garantia de um número  mínimo de aulas por disciplina.

A estrutura bipolar, a grande novidade em relação aos curriculos anteriores, tem como objectivo prioritário, a intitucionalização de algumas realizações, práticas e projectos já existentes, facultativamente, em algumas escolas, promovendo o seu empenhamento articulado articulado com as disciplinas, dando-lhe um cunho de legitimidade e de obrigatoriedade.O mesmo acontece com as  actividades de Complemento Curricular, embora estas continuem facultativas.

Esta nova estrutura, por outro lado, desbloqueia o sistema educativo tradicional, unipolar, desenvolvendo-se através de programas e projectos subsquentes à Área-Escola e às Actividades de Complemento Curricular. Visa a cultura crítica, ligando a sala de aula ao resto da escola, à família e ao meio, envolvendo, portanto novos elementos ou actores. Pretende-se, assim, não apenas desenvolver o aluno cientificamente, mas também dotá-lo de um desenvolvimento pessoal global, respondendo às suas carências e limitações.

Este desenvolvimento implica uma transformação pessoal, que se obtém pela mediação e relacionamento recíproco, num clima de empatia e envolvimento.

Como conseguir isto? Há muitos bloqueios estruturais a este desenvolvimento: número de alunos por turma, número de turmas a cada professor, número de horas semanais, espaços adequados, tempos de convívio e encontro, etc, etc.. Só depois de desfeitos se poderá estabelecer uma verdadeira relação pedagógica, pois "O relacionamento mútuo é que nos forma e transforma."

A própria noção de curriculo se alterou, pois passou a incluir, contrariamente às definições anteriores, um conjunto de experiências educativas vividas pelos alunos, assntes numa espécie de tripé: - sociedade, educando e cultura (universo de conhecimentos)

Segundo a LBSE, o 2º ciclo cnstitui uma etapa de formação interligada e balizada com os 1º e 3º, que tem conta  o estádio de desenvolvimento cognitivo e socio-afectivo, característico do aluno e visa a aquisição de noções, métodos e instrumentos de trabalho fundamentais, nas áreas essenciais do saber e do saber-fazer, a par com a formação cívica e moral, orientadas para o desenvolvimento de atitudes activas e conscientes perante a comunidade.

O respectivo plano curricular deve organizar-se por àreas de estudo de carácter  pluridisciplinar, referentes à formação básica.

Para além deste núcleo, o curriculo é constituido ainda por duas áreas inovadoras, que lhe conferem a estrutura bipolar acima referida e que são: a àrea-Escola e as formações transdiciplinares, vocacionadas para a integração de saberes e de atitudes.

As actividades a desenvolver-se no plano anual da escola devem agrupar-se em três categorias: actividades curriculares de frequência obrigatória, nas quais se incluem as disciplinares e não disciplinares ou seja a área escola e as formações transdiciplinares, as actividades não curriculares, de frequência facultativa e que, geralmente, se desenvolvem nos clubes e no desporto escolar e, finalmente, as actividades pontuais, como festas, celebrações, visitas de estudo, etc., etc.

Urge acrescentar que o decreto-lei nº 286/89 estabelece os planos curriculares para o ensino Básico e Secundário, definindo um conjunto de disciplinas para os vários ciclos, de forma a permitir ao aluno, adquirir capacidade de seleccionar o conhecimento essencial e de o aplicar a novas situações, dominar métodos de pesquisa e autodescoberta e construir novas possibilidades de resposta a broblemase desenvolver atitudes de cooperação para uma maior eficácia.

                                  

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publicado por picodavigia2 às 11:57

DIÁLOGO SIMPLES

Segunda-feira, 02.09.13

- Gostas de andar na escola?

- Gosto sim senhor, gosto muito e venho, sempre muito bem-disposta, para a escola.

- De que gostas mais, na escola?

- Dos professores de Português, Matemática e Área Projecto.

- Porque gostas desses professores?

- Tenho que gostar deles, se não eles não gostam de mim.

- E dos teus colegas, gostas de todos?

- Sim, gosto de todos?

- E o que gostas mais de fazer com eles?

- Brincar, gosto de brincar com eles todos

- Mas não há assim alguém com quem gostes mais de brincar?

- Brinco com a Raquel e a Diana.

- E com os meninos?

- Só com o meu irmão.

- Então o teu irmão é teu amigo?

- É, muito.

- Se tu fosses professora, que disciplina gostarias de ensinar?

- Português.

- Por quê?

- Porque acho que Português é mais… Português dá para fazer coisas mais divertidas.

- O quê? A aula de Português é divertida para ti?

- Então aquele jogo de eu ler mais o Emanuel e a Diana não foi fixe?!

- Claro que foi! E quando fores grande, o que queres, realmente, ser.

- Bombeira da ambulância.

- Bombeira para quê?

- Para apagar os fogos.

- Então achas que os incêndios são maus?

- São, são maus, muito maus.

- E trabalhas em casa, ajudas a arrumar a casa?

- Ajudo a minha tia a lavar a loiça. A sua filha também não o ajuda a lavar a loiça?

- Claro que ajuda. Mas tu conheces a minha filha?

- Claro, aquela menina que nos vem ajudar nas aulas.

- Mas aquela menina que nos vem ajudar nas aulas não é minha filha, é uma senhora professora.

- Mas ela é muito parecida consigo.

- Achas? Mas não é minha filha. E estudar, estudas?

- Não, porque não tenho livros.

- Ui! Não tens livros?

- Não. Você podia arranjar-me um livro de Português. Agora apetece-me ter um.

- Mas a tua tia, no início do ano, não te comprou nenhum livro?

- Não. O setor disse que não era preciso porque eu tenho muitas dificuldades em aprender.

- Então como é que tu estudas sem livros?

- Eu não estudo porque tenho muitas dificuldades em aprender. O Emanuel, o meu irmão, é que tem sorte.

- Tem sorte por quê?

- Pois é. Ele foi num passeio ao Porto e eu não.

- Ele foi ao Porto? Com quem?

- Com a minha tia. E faltou às aulas. Já disse ao Director de Turma.

- E achas bem faltar às aulas?

- Faltar por faltar não. Ele faltou porque tinha que ir. Você escreve muito. Dava para ser escritor.

- Escrevo o que me estás a dizer. E tu, gostas de escrever?

- Gosto.

- Já escreveste alguma história?

- Ainda não li nenhuma história linda, de que gostasse.

- E escrever? Já escreveste alguma?

- Ainda não. Na 1ª classe escrevia muito. Isto é uma história?

- É! Ora lê o título.

- Na-drei-a e a bo-ta dos sete an-da-res.

- Sim senhora! Leste bem. Gostavas de ler essa história?

- Gostava! Gosto de ler histórias.

- Mas agora não vais ler. Vamos acabar esta conversa.

- Oh! Setor deixe-me ler. Quero ler esta historinha…

- Queres ler a história ou conversar comigo?

- Eu leio isto rápido.

- Mas não gostas de conversar?

- Gosto.

- Sobre o quê?

- Sobre a vida.

- Gostas de saber a vida dos outros?

- Gosto.

- Então o que gostavas de saber sobre mim?

- Se você já foi carteiro.

- Eu carteiro? Não. Por que me perguntas isso? Tenho cara de carteiro?

- É que os carteiros trazem coisas.

- E eu trouxe-te alguma coisa?

- No Natal quero que você seja o Pai Natal.

- Vamos lá a ver se consigo. Gostas do Natal.

- Gosto.

- O que se come de especial na ceia de Natal?

- Ai! Ai! Batatas cozidas. Ai! Ai! Delícia!

- E doces?

- Chocolates.

- E rabanadas?

- Também.

- E prendas. Sabes que prendas vais ter, este Natal?

- Vou ter uma boneca.

- Uma boneca! Que bom! Gostas de brincar com bonecas?

- Gosto, às vezes.

- E de viver em Paredes? Gostas de viver em Paredes?

- Gosto.

- Mas antes vivias no Porto?

- Vivia.

- Ainda te lembras com quem vivias?

- Sim. Com a minha mãe.

- E onde está a tua mãe?

- Está no Porto. Agora quero é ler.

- Vais ler logo. Agora vamos conversar mais um pouco. Disseste que gostavas de conversar.

- E gosto Mas tem aqui histórias lindas.

- Queres ir para a aula ou ficar aqui a conversar?

- Quero conversar.

- Então diz-me lá: vês Televisão?

- Vejo.

- Que gostas de ver?

- “Morangos com Açúcar”.

- E Desenhos Animados? Não gostas?

- Gosto.

- E notícias?

- Gosto. As notícias são o mais importante.

- Por quê?

- Porque traz notícias para nós e pronto.

- Gostavas de ir a um programa de Televisão?

- Gostava.

- Com quem irias falar?

- Com o Jorge Gabriel e com aquele o Rocha, o Luís Rocha.

- Se lá fosses o que ias dizer?

- Dizia que queria voltar para casa.

- Para qual?

- Para a do Porto.

- Para a da tua mãe?

- Sim, mas que me dessem condições. Aquilo não tem condições.

- E a tua mãe mora lá, sem condições, sozinha?

- Mora. O meu vizinho já pôs a casa a arder.

- Então ele é louco?

- É, pôs a casa a arder.

- Mas agora, em Paredes, tens uma casa, onde morar.

- Moro com a minha tia. Fico por aqui, professor. Já estou cansada.

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publicado por picodavigia2 às 11:40

BIBLIOTECA ESCOLAR RECURSO EDUCATIVO

Sábado, 24.08.13

Com este pequeno trabalho, integrado em termos de avaliação, na acção de formação em que participei, denominada “A Interacção dos Domínios do Ouvir/Falar/Ler/Escrever na disciplina de Português do Ensino Básico e Secundário”, organizada pelo Centro de Formação de Professores de Paredes, sob a orientação da Drª Luísa Alvarenga, pretendo fundamentalmente, por um lado, colaborar, embora modestamente, na sensibilização dos participantes para a necessidade de criação da biblioteca escolar, como “catedral da leitura”, nas nossas escolas, ou da sua organização, estruturação e possível transformação em mediateca ou centro de recursos; e por outro, através da programação de uma aula de iniciação à biblioteca, demonstrar quão importante é, nas nossas aulas de Língua Portuguesa, sensibilizar os alunos para o contacto com o livro e para a leitura.

A Lei de Bases do Sistema Educativo, no artº 7º, estabelece que o Ensino Básico tem como objectivo prioritário “assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses”. Isto implica: um assédio permanente a uma informação global e universal e um “apoderar-se” do património cultural da humanidade.

Um e outro destes pressupostos atingem-se mediante o contacto com o livro. Na realidade, os livros são uma espécie de “reserva cultural”,  “acumuladores” da  cultura e do saber universal, a herança cultural da humanidade.

Assim, a leitura permite ao indivíduo conhecer a experiência dos povos de todos os tempos e de espaços diferentes, partilhando as suas vivências e a sua cultura. O afastamento dos livros ou a não leitura leva a uma “castração intelectual”, a situações de individualismo, à indiferença perante o mundo e perante os valores universais, ao atrofiar do pensamento, à estagnação da capacidade de agir e pensar, ao niilismo intelectual e ao afastamento dos padrões de cultura.

A institucionalização da ignorância e do analfabetismo como “bem necessário” só é provocada por regimes totalitários e por detentores de verdades absolutas. A censura e o índex são a prova histórica disso.

A leitura é, pois, inerente à formação e à educação Não se pode ensinar sem formar e informar e o livro tem essa dupla função. Ler é formar-se e educar-se, é receber cultura, é combater a ignorância e o analfabetismo. Por isso, deve ser um processo dinâmico, gerador de sentidos, provocador de atitudes, que comprometa o indivíduo a nível cognitivo, psicológico e motor. Deve ser um estabelecer de relações com outras formas de comunicação e expressão e alterar a forma de ser e de estar na vida, isto é, provocar marcas humanizadas nos indivíduos e nas sociedades.

O livro é imprescindível à humanidade e inerente ao homem porque, como escreveu Monteiro Lobato, “um país constrói-se com homens e com livros.”

Actualmente, nas escolas, lê-se pouco. Além disso, fomenta-se, sobretudo, a leitura obrigação, isto é, uma leitura imposta, pelos programas ou pelo professor. Esta leitura é, necessariamente, desinteressante, desmotivadora, improdutiva e obstaculiza a “leitura prazer”. Manda-se ler para fazer um resumo ou uma síntese, para preencher uma ficha de leitura, para ter uma nota.

Esta metodologia é desmotivante e desmotivadora, pelo que deverá ser abolida e substituída por um empenhar do aluno, tornando-o, inclusive, co-responsável do processo de escolha. Há que privilegiar a leitura prazer. A biblioteca escolar tem aqui um papel fundamental.

Estudos feitos revelam que a maioria das nossas escolas ou não tem bibliotecas ou têm-nas desorganizadas, pouco funcionais e consequentemente incapazes de atingirem os objectivos que, por natureza, se propõem. Por vezes destinam-se a tudo, excepto à leitura e  a uma cada vez maior aproximação dos alunos dos livros. Criadas em Portugal em 1951, verifica-se que, actualmente, apenas 59.4% das antigas Escolas Preparatórias têm bibliotecas, as C+S 56% e as Secundárias 76%. Nas escolas do Primeiro Ciclo este número é muitíssimo mais baixo. Além disso a maioria destas bibliotecas ou não estão devidamente equipadas e apetrechadas ou são meros “cemitérios de livros”, isto é espaços amorfos, sem vida.

Não se pode ficar à espera de que a biblioteca da nossa escola nos apareça, de repente, organizada e repleta de livros. Nada nasce feito, nem nada nasce grande. Uma biblioteca escolar poderá nascer numa prateleira de um armário, com apenas um livro. Não pode é parar, isto é, tem que crescer lenta e continuamente. A cada livro adquirido tem que se juntar outro e depois um outro e assim sucessivamente. O processo de aquisição de livros é moroso e lento, mas não pode nunca ser interrompido. Existem diversas formas de o conseguir. Através de ofertas de entidades, empresas, livrarias, instituições, outras bibliotecas, ofertas de pessoas ligadas à escola, pais, professores, associação de pais, iniciativas do tipo liga dos “Amigos da Biblioteca” que pode abranger alunos, professores pais, etc.. Muito importante é a recolha e guarda de tudo o que é enviado para a escola, quer da parte do Ministério, quer de publicidade de livrarias, etc. O que é importante neste projecto é não parar. Temos que adquirir sempre algo, mesmo que seja um pequeno livro ou uma revista ou jornal. É importante que todo o material adquirido seja registado e devidamente catalogado e colocado no espaço disponível.

Existem livros de registo próprios, sendo fácil fazer uma adaptação. Da mesma forma existem fichas adequadas. Devemos, de início, seguir as normas reguladoras de preenchimento dessas fichas e a organização dos respectivos ficheiros, que são de três tipos: obra, autor e assunto. O recurso a um programa de informática é, actualmente, bastante acessível.

As bibliotecas escolares têm ou devem ter objectivos pedagógicos específicos, que se devem definir a dois níveis: ao nível da promoção e do desenvolvimento da leitura entre os alunos e a nível do apoio e suporte a uma actualização pedagógica permanente.

Para que as bibliotecas escolares sejam um verdadeiro espaço de leitura, exigem-se vários requisitos, dos quais urge salientar: ter uma gama variada de livros que respondam aos interesses e necessidades dos alunos, ter condições de agradabilidade e bem-estar para os seus frequentadores e, sobretudo, para atrair os não-frequentadores, criar espaços e tempos diferentes para diferentes tipos de leitura e de actividades tendo em conta a forma de estar dos seus utentes, ter horários adequados, ter professores e sobretudo funcionários verdadeiramente dinâmicos e responsáveis e com formação adequada, ser divulgada e publicitada em toda a escola e aberta a visitas organizadas das diversas turmas, estar modernizada, isto é, adaptada às novas necessidades educativas, tendo em conta as novas tecnologias, ter material diversificado e adequado a todos os gostos, interesses e exigências e, por fim, dinamizar diversas actividades que fundamentalmente desenvolvam o gosto e a apetência pela leitura.

Para que atinjam os objectivos propostos, exige-se das bibliotecas escolares que tenham em conta o espaço, a organização e o apetrechamento. Quanto ao espaço, exige-se que seja amplo e proporcional ao potencial número de utilizadores, possuindo, dentro do possível, características arquitectónicas adequadas. A biblioteca escolar deve: ser colocada num ponto estratégico da escola e estar perto dos locais onde normalmente circula a maior parte dos seus utilizadores. Além disso deve situar-se longe dos locais mais barulhentos ou incomodativos, ficar próxima de outros sectores de apoio  e outros serviços e ser um espaço acessível a todos, incluindo mecanismos de resposta às necessidades dos alunos com deficiências.

É importante também seleccionar o tipo de material e o equipamento de que devem ser dotadas as bibliotecas escolares, bem como a forma como deve estar disposto e organizado. Na maior parte delas (bibliotecas escolares) o equipamento não foi pensado para esse fim: a maioria só tem estantes para livros com armários fechados, sem equipamento específico para arrumar e dispor publicações periódicas, nem para material audiovisual ou outro. Normalmente também não têm previstos espaços especiais para ter documentação, enquanto ela é trabalhada, nem para a divulgação de novidades entradas.

A disposição do equipamento também deve ser cuidada, obedecendo a algumas normas das quais se destacam: privilegiar a área de leitura, sobretudo, em termos de espaço, utilizar cores de preferências claras, os documentos devem ser colocados em prateleiras com0,60 a1.80 metrosdo chão deverão existir zonas de exposições e de leitura de periódicos, separadas das restantes. As diversas zonas ou secções devem estar devidamente sinalizadas, assim como toda a informação. O mobiliário deve estar disposto sempre em função e de forma adequada aos interesses dos utilizadores. Deverá ter aspecto ou forma convidativa, agradável e atraente, embora simples. Ninguém gosta de ler em condições incómodas. A falta de condições pode afastar leitores da biblioteca.

O material deverá ainda ser diversificado, isto é, mesas que contemplem a leitura individual ou a pesquisaem grupo. Aexistência de almofadas, para encosto no chão pode ser uma boa alternativa. Há quem goste de ler recostado. Para os periódicos, nos quais as nossas bibliotecas ainda não apostam muito, existem expositores próprios e estantes adequadas.

Para além de livros uma biblioteca deve possuir: folhetos, publicações periódicas, postais ilustrados, diapositivos, cassetes, vídeos, disquetes, CDs, recortes de jornais, ficheiros de notícias, trabalhos de alunos, etc. Tal equipamento permite desenvolver processos de ensino-aprendizagem em que os alunos não são meros consumidores de informação, mas aprendem investigando, pesquisando, seleccionando e classificando. O ficheiro de notícias, por exemplo, possibilita uma aprendizagem mais motivadora e pode ser um precioso complemento, ou até, nalguns casos, uma real actualização do Manual Escolar e constitui necessariamente mais uma fonte de informação.

Hoje é opinião generalizada de que a Biblioteca Escolar não pode continuar a conter apenas livros. Ela deve modernizar-se utilizando todo o tipo de audiovisuais e material informático de que actualmente dispõem. Esta mudança transforma as Bibliotecas em Mediatecas ou Centros de Recursos.

Na lei de Bases do Sistema Educativo, paralelamente ao Manual Escolar as Bibliotecas Escolares são consideradas como recurso educativo. Ora o livro deixou de ser o único meio de divulgação do saber. O vídeo, o computador, o som e a imagem assumem-se cada vez mais como alternativa utilizada, com efeitos pedagógicos notáveis, no processo de ensino-aprendizagem. Assim os espaços e equipamentos utilizados nas bibliotecas tradicionais não se adaptam nem satisfazem as necessidades actuais, a este nível. Devem surgir, assim, bibliotecas modernas, actualizadas ou Mediatecas que contêm, para além do livro, revistas, jornais, boletins, inclusive os produzidos pelos alunos, audiovisuais, diapositivos, vídeos, cassetes, computadores, disquetes, registos sonoros, etc., e baseiam a sua actividade em pressupostos pedagogicamente essenciais e que são: conhecer e estar atento a toda a informação, os livros continuam a ter importância relevante, criar nos alunos um dinamismo pedagógico activo que permita o manuseamento de todo este material e o acesso ao conhecimento da informação e organizar este material de forma a difundi-lo na escola, assumindo-se como polo mediador de informação.

A Mediateca é pois uma forma organizada do espaço educativo que acolhe professores, alunos e funcionários, podendo inclusive alargar os seus serviços à comunidade envolvente da escola. Assume-se, na realidade como poderoso e forte instrumento de apoio à inovação pedagógica.

A transição da biblioteca para a Mediateca, obviamente, não é fácil. Deve fazer parte dum projecto pedagógico inovador, que estabeleça novas e eficientes formas de relação com o saber e a informação, novas formas de organização do espaço, novas metodologias de aprendizagem e novas estratégias de ensino e “deve ser feita por etapas. Primeiro procurar um local acessível e agradável, escolher mobiliário que permita ao utilizador um fácil acesso aos materiais que deseja para leitura, informação ou pesquisa e introduzir normas e sistemas de classificação e indexação utilizadas internacionalmente. Depois acrescentar aos documentos (tudo o que serve para informar, estudar ou servir de prova) e audiovisuais, dotando as estruturas dos meios necessários à sua utilização. Finalmente e em terceiro lugar, permitir actividades de produção e reprodução de novos documentos. (5)

As Mediatecas deverão ser “um espaço polivalente que englobe um auditório, uma sala de reuniões, uma zona de oficinas, um estúdio, um espaço insonorizado especialmente destinado a trabalhos que envolvam equipamento audio, um espaço dedicado a computadores, um laboratório fotográfico e outro de vídeo, um espaço de consulta de documentos, zonas destinadas a trabalho individual e de grupo e espaços utilizados para consultas e produção de documentos”.(6)

A mediateca deve ser um espaço aberto a todas as disciplinas ou área disciplinares e a todas as actividades curriculares e extra-curriculares. Poderá abrir-se à comunidade envolvente, devendo esta colaborar na sua edificação e beneficiar da sua utilização estabelecendo-se protocolos de cooperação com entidades, autarquias, associações, clubes, empresas e outras escolas. A mediateca deve, assim, ser como que um motor de animação pedagógica, um polo de ligação escola-meio, desempenhando um papel imprescindível em toda a vida e funcionamento da escola.

Em 1990 o PRODEP  previa que as escolas se candidatassem ao financiamento a projectos de criação de Mediatecas. O projecto não teve grande eficácia, devido às dificuldades que acarreta a transição. Assim continuamos, numas escolas com bibliotecas tradicionais, estáticas, com pouca vida e dinamismo, ou, noutras, o que é bem pior, sem nada.

A UNESCO aprovou, em Outubro de 1978, um manifesto sobre Mediatecas Escolares, onde se confirma o princípio de que são “essenciais” à educação. O Manifesto define também como objectivos gerais fornecer aos estudantes as capacidades básicas para obter uma vasta gama de recursos e serviços e conduzir os estudantes ao seu uso constante para “divertimento, informação e educação contínua”.

Para atingir estes objectivos, o Manifesto pressupõe alguns recursos: dispor de pessoal qualificado em educação e biblioteconomia, assistido por um número suficiente de pessoal de apoio; possuir uma colecção adequada de materiais impressos e audiovisuais, componente essencial do sistema educativo; dispor de espaço físico para receber os recursos e assegurar o acesso aos mesmos e garantir os serviços.

Os alunos que chegam, pela primeira vez ao ciclo, desconhecem quase por completo, uma biblioteca e não têm poucos contactos com o livro. Assim, caso a escola possua biblioteca, urge logo nos primeiros dias de aulas, programar uma visita à biblioteca, durante uma aula.

Em primeiro lugar o professor deverá contactar o funcionário da biblioteca, informando-o do dia e da hora em que a aula se vai efectuar, a fim de que tudo esteja preparado e a biblioteca se destine apenas aquela turma, durante a referida hora. Depois há que definir os objectivos, preparar o material e programar as actividades. Quanto aos objectivos poderão referir-se, entre outros, os seguintes: reconhecer a necessidade da leitura; conhecer a biblioteca da escola e considerá-la como recurso que deverá usufruir ao longo do ano para estudo, pesquisa e prazer; identificar aspectos para textuais do livro – capa, título, autor, etc.; reconhecer a necessidade de organização, numa biblioteca; despertar para a leitura a diversos níveis; sentir a necessidade de colaborar na construção da biblioteca, aderindo à liga de “Amigos do Livro”. Ente o material seleccionado, pode utilizar-se um texto de António Torrado sobre o interesse do livro, uma ficha de “Visita a Biblioteca e ainda uma ficha de Inscrição de “Amigo do Livro”. A aula deverá constar de diálogo horizontal, no sentido de diagnosticar se os alunos têm ou não hábitos de leitura; diálogo vertical, em ordem a sensibilizar os alunos para a necessidade do contacto com o livro e a leitura; leitura do texto de António Torrado, “Eu sou o livro”; diálogo horizontal sobre o texto lido: o que contêm os livros e a necessidade de contactar com eles – registar a frase “VAMOS LER”. É imperioso levar os alunos a identificar, na escola, o local onde há livros e onde podemos lê-los – Propor uma visita à Biblioteca da Escola. Na biblioteca, explicar a divisão do espaço, a distribuição dos livros, as várias secções, dar algum tempo para os alunos tocarem, verem e folhearem alguns livros, informá-los do horário de funcionamento e apresentar-lhes  o funcionário que lhes dará algumas indicações sobre as regras de funcionamento da biblioteca; sensibilizar os alunos para aderirem à Liga de “Amigos do Livro”; preencher a ficha caso alguns manifestem interesse. Como avaliação, na aula seguinte ouvir as impressões dos alunos sobre a biblioteca e o interesse que a visita provocou nos mesmos.

 

BIBLIOGRAFIA

 

Abrantes, José Carlos - A Outra Face da Escola - Ministério da Educação, 1ª ed., Quatropontoquatro, Lisboa 1994.

 

Alvarenga, Maria Luísa - Documentação de apoio à Acção “A Interacção dos Domínios do Ouvir/Falar/Ler/Escrever na disciplina de Português do Ensino Básico e Secundário”, Centro de Formação de Professores de Paredes.

 

Carvalho, Rosa Maria e Rolo, Maria da Conceição - Materiais de Apoio à Reforma Curricular-Técnicas de Comunicação, Direcção Geral dos Ensinos Básico e Secundário, Lisboa, 1993, vol.s I, III e IV.

 

Magalhães, Ana Maria e Alçada, Isabel – Os Jovens e a Leitura no Início do Sec. XXI, Caminho, Lisboa 1993.

 

Pessoa, Ana Maria – A Biblioteca Escolar, Campo das Letras Editores, 1ª ed., Porto, 1994.

 

Programa de Língua Portuguesa, Ensino Básico, 2º ciclo, DGEBS.

 

Silva, Ezequiel Theodoro da – Leitura na Escola e na Biblioteca, Papirus Editora, 1ª ed., Campinas, 1991.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 14:40

IV INTERNATIONAL CONFERENCE ON THE HOLY SPIRIT

Sexta-feira, 02.08.13

From June 24-27, 2010, the Portuguese community of California is hosting the IV International Conference on the Holy Spirit, an exceptional opportunity to showcase these with our brethren from across the United States (California, Hawaii, Nevada, Colorado, Massachusetts, Rhode Island, and Idaho), Canada, Brazil, Bermuda, Azores and other areas where these festas, now in its many variations, still take place. This four-day conference will provide participants with a unique blend of academic reflection and practical experience, including the preparation for and the incorporation in the many events of an actual and typical California Holy Ghost festa, the I.E.S. (Irmandade do Espírito Santo) ofSan Josecelebration.

We would like to invite everyone to: VISIT THE CONFERENCE WEBSITE:
www.ConferenceHS2010.com     (do not Google it yet. Just type in the site on the http box) SPREAD THE WORD TO YOUR FRIENDS AND AQUAINTANCES.

 

Depois de se ter realizado duas vezes no Brasil, e na ilha Terceira, Açores, a Califórnia foi o local escolhido para receber o IV Congresso Internacional sobre o Espí­rito Santo, que decorrerá nas cidades de San José-Santa Clara de 24-27 de Junho de 2010.

Estes encontros têm como propósitos:

1. Aprofundar os conhecimentos dos interessados neste vasto movimento do culto ao Espírito Santo, contando por isso, com a participação de peritos e estudiosos sobre o
assunto;

2. Oferecer uma ocasião privilegiada para os representantes de organizações do E.S.
partilharem as suas experiências e a evolução das celebrações locais através dos tempos;

3. Proporcionar à comunidade local a oportunidade de dar a conhecer aos
participantes-visitantes as diversas manifestações associadas às celebrações, através da
participação numa festa típica em honra ao Espírito Santo, neste caso, a celebração da
festa promovida pela Irmandade do Espírito Santo (I.E.S) de S. José.

Sendo a primeira vez que este Congresso se realiza na América do Norte, pretende-se estender a participação também a representações dos Açores e do Brasil, bem como às comunidades e irmandades do Espírito Santo do Canadá, Bermuda, Costa Leste dos EUA, Nevada, Utah, Colorado e Hawai.

 

NB - Para visitar o site da Conferência acima referida basta clicar em:

http://www.conferencehs2010.com/

 

Texto Publicado no Pico da Vigia em 19 de Fevereiro de 2010.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:27

UMA MULTA NA CIDADE DO PORTO

Sábado, 29.06.13

No dia 31 de Março de 2008 estacionai o meu automóvel na Rua Clemente Meneres, na cidade do Porto, sem pagar a respectiva taxa de estacionamento, tendo sido devidamente actuado por tal irregularidade. Como era óbvio e já esperava, passados alguns dias recebi a devida notificação da Câmara Municipal do Porto, onde me disponibilizava a possibilidade de efectuar o pagamento da respectiva multa através de cheque enviado à mesma pelos correios. No dia 28 de Abril, cumprindo os prazos legais, enviei um cheque com o quantitativo estabelecido no aviso da multa para a Câmara Municipal do Porto, sem no entanto, especificar qualquer departamento daquela edilidade. No dia 8 de Julho o cheque foi debitado da minha conta considerando eu a dívida paga e a questão encerrada.

Para espanto meu, no dia 8 de Agosto do mesmo ano, recebi uma carta assinada pelo Vereador do Pelouro do Urbanismo e Mobilidade da C. M. do Porto informando-me que a dívida não tinha sido paga, de que o seu montante, nesta data, já era três vezes superior, constituído, simultaneamente, arguido num processo judicial.

Dirigi-me ao Porto, numa distância de 60 kms, com portagens e estacionamento pago na invicta, fui à agência da Caixa Geral de Depósitos e requisitei documento comprovativo de que o cheque teria sido levantado e depositado na conta da Câmara Municipal do Porto, expediente que eu próprio tive que pagar. De seguida dirigi-me ao Gabinete do Munícipe da C.M do Porto, fazendo prova de que a multa havia sido paga. Fui informado pela funcionária de que o responsável pelo meu processo não estava de serviço, garantindo-me que durante a tarde desse dia seria contactado por ele.

Como não fui contactado, nem nessa tarde nem em nenhuma outra, no dia 14 de Agosto enviei nova carta registada e com aviso de recepção ao Departamento Municipal Jurídico e de Contencioso da Câmara Municipal do Porto, juntando as provas documentais de que a dívida estava paga, das despesas desnecessárias que tinha feito, exigindo que fosse ressarcido.

Porém, da Câmara Municipal do Porto até hoje, nada recebi. Nem um simples cartão a confirmar que a dívida estava paga e, no mínimo, a pedir desculpas.

 

NB - Texto publicado no Pico da Vigia, em Janeiro de 2010.

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publicado por picodavigia2 às 15:28

UM COMENTÁRIO DE GAMA BENTES.

Quarta-feira, 26.06.13

Fiquei deveras lisonjeado com o recente comentário, colocado neste bloque e que recebi por email, do poeta e escritor brasileiro Pedro Paulo da Gama Bentes e do qual no dia 21 de Outubro neste “Pico da Vigia” transcrevi o seguinte pensamento, divulgado por ele próprio, como uma espécie de subtítulo, no seu “Site de Poesias” com o seguinte endereço: http://sitedepoesias.com.br/poetas/Pedro+Paulo e que considero um belíssimo e profundo princípio de vida: “O rugido das feras apenas mantém a floresta em sobressalto. Quem acorda sempre para um novo dia é o cantar dos pássaros. Portanto, façamos versos."

No referido comentário, Gama Bentes, que também foi professor durante 52 anos, confessa-se “… encantado com a descrição e as recordações da população da Fajã…” referenciadas no “Pico da Vigia” e que, segundo ele, têm muitas semelhanças com as lembranças da sua infância e juventude, embora vividas num país longínquo e distante – o Brasil. Não podemos esquecer que de facto, em anos idos, muitos açorianos, incluindo um bom número de florentinos, emigraram para o Brasil, levando consigo a cultura, os costumes e muitos hábitos e tradições das ilhas. Daí talvez alguma das semelhanças encontradas por aquele poeta brasileiro entre as descrições que fiz nalguns dos relatos, nomeadamente no que concerne ao “Ciclo do Milho” e as suas lembranças e vivências de criança, há uns bons sessenta anos.
As palavras elogiosas deste ilustre poeta brasileiro deixaram-me, no entanto, bastante emocionado e constituem um forte incentivo a que continue a divulgar cada vez com mais vigor e empenhamento o que inicialmente foi proposto e que consta no subtítulo deste blogue: “recordar e divulgar pessoas, “estórias”, costumes e tradições da Fajã Grande das Flores no início dos anos cinquenta”.

Em homenagem a Gama Bentes e por reconhecimento pelo seu gesto de nobreza e simplicidade, transcrevo a seguir um dos seus sonetos, até porque o considero de grande actualidade nos dias em que vivemos neste “jardim à beira-mar plantado”:

QUARTEL DE ABRANTES

Fere-se! Mata-se! "Faz-se e acontece...”
Roubam-se verbas, matam-se crianças!
Ninguém faz nada, roubam-se esperanças..
Não se chora, ninguém reza ou padece...
 
Numa anomia total vota-se na canalha,
Que nos seus gabinetes, perversamente,
Inviabiliza o futuro, com nossa consciente
Cumplicidade preguiçosa, que avacalha...
 
Qualquer projeto de país. Lá se arma,
A mão do menor que nas ruas mata!
E morre! Como num resignado carma,
 
Nada se faz, fica tudo como dantes!
Vem aí o carnaval, vamos bater lata!
Neste inominado quartel d’Abrantes..
.


Soneto de Gama Bentes feito em parceria com a  poetisa mineira,Mena Moreira, em 15/03/07.

Texto publicado bo Blogue Pico da Vigia, em 14/12/09

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publicado por picodavigia2 às 12:30

COZINHA GOURMET

Sábado, 22.06.13

Gourmet é um termo de origem francesa, cujo significado original designava os bons apreciadores de vinho, aqueles que realmente entendiam de enologia. Actualmente é uma palavra muito difundida em todos idiomas, para falar sobre os prazeres da mesa com qualidade. Assim, Gourmet é o nome que se dá quer a uma cozinha quer a um prato que está associado a uma ideia de alta cozinha, ou cozinha com qualidade, englobando cultura e arte culinária. Mas o Gourmet também pode ser associado a uma pessoa que possui paladar apurado, e que têm um conhecimento ou entendimento avançado de culinária e gastronomia.

Hoje, Gourmet é o nome que se dá a uma cozinha ou produto alimentar (incluindo bebidas) que estejam associados à ideia de haute cuisine ou alta cozinha, evocando assim um ideal cultural, associado com as artes culinárias. Assim um vinho ou um restaurante diz-se gourmet quando é de alta qualidade e está reservado a paladares mais avançados e a experiências gastronómicas mais elaboradas. Quanto a mim ficaria apenas pelas experiências gastronómicas mais elaboradas e sobretudo mais saudáveis, tendo em conta a dieta que devo fazer e o rigor alimentar que devo seguir.

Diz-se que os produtos e as refeições gourmet são, normalmente, mais caras que os seus equivalentes não gourmet, embora essa conclusão não me pareça plausível. Pode fazer-se uma cozinha gourmet com produtos baratos, sobretudo quando ela se cria em função de uma dieta imposta por razões de saúde.

Este termo, por vezes, também é encarado, por alguns, como uma conotação negativa pois poderá estar associado a elitismo ou snobismo, porém a sua utilização geral e mais comum não possui esta conotação

Os produtos Gourmet ou os que se transformam nos mesmos são utilizados não só por acrescerem um valor acrescentado à nossa alimentação, mas também por serem diferenciadores da concorrência e, sobretudo, adequados a um ou outro estado de saúde

A variável qualidade inerente ao produto Gourmet não se limita ao seu paladar, sabor ou aroma, podendo distinguir-se pela sua forma de produção, pela originalidade na embalagem, pela sua idade, pela sua especialidade, ou pelo tipo de matérias-primas usadas na sua confecção

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publicado por picodavigia2 às 14:04





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