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A ÁGUA QUENTE DA COSTA

Sábado, 20.06.15

A Costa do Lajedo era, na década de cinquenta, um dos poucos lugares habitados da ilha das Flores e que não eram sede de freguesia ou curato. Os outros eram: a Cuada na Fajã Grande, a Caldeira, no Mosteiro, o Campanário no Lajedo e a Ponta Ruiva nos Cedros. Os curatos eram dois: a Fazenda de Santa Cruz e a Ponta da Fajã Grande. Atualmente apenas a Costa e a Ponta Ruiva são lugares onde existem residentes permanentes. Outros, como a Cuada, transformaram-se em resorts. 

A Costa de outrora era um pequeno local que, apesar de atapetado de férteis terrenos agrícolas e povoado de umas quantas moradias, ficava quase perdido entre o verde das florestas e das pastagens, situado no sudoeste da Ilha das Flores, pertencente à freguesia do Lajedo e ao concelho das Lajes. Tratava-se de um lugar fresco, maravilhoso e idílico, uma espécie de paraíso debruçado sobre o oceano, onde as arribas eram recortadas entre fios ou mantas de nevoeiro, Um vale muito verde e muito fértil. O lugar é constituído, na sua essência, por um extenso vale de terras de lavradio, algumas pastagens e por várias casas. No século XIX, a Costa, era, em grande parte, propriedade do 1.º Barão da Costa, Manuel Pedro Furtado de Almeida, e que depois recebeu o título de Visconde do Vale da Costa, e que casara com Jessie Mackay, filha do Dr. James Mackey, um escocês que foi o primeiro médico das Flores. Durante uma viagem parou nas Flores e ficou tão encantado com a ilha e com as suas gentes que, anos depois, veio com sua mulher Ana Hart, fixar-se ali, onde foi médico e vice-cônsul britânico, e aonde constituiu família. Ali faleceu, deixou filhos e prédios, e está sepultado com a mulher no cemitério de Santa Cruz, em cuja campa consta uma lápide que sintetiza a sua história e a história de sua mulher. A filha Jessie casou com o Visconde da Costa, enquanto o filho James Mackey se tornou num dos maiores empresários em Santa Cruz, onde foi agente de diversas empresas portuguesas e inglesas e também vice-cônsul de Sua Majestade Britânica e delegado do Consulado Geral americano e até importante benemérito. (Cf Susana Garcia in Tribuna das Ilhas)

A Costa, ontem como hoje, é um lugar rico em terrenos aráveis e chegou a notabilizar-se pela sua excelente produção cerealífera. Entre as suas interessantes construções, todas elas casas de habitação e palheiros, destaca-se a Casa do Espírito Santo em forma de ermida, construída em 1893. Na Costa, como aliás em muitos outos lugares das Flores, parece esboçar-se atualmente um regresso de antigos emigrantes, agora aposentados, e até de pessoas de outros países, franceses, alemães, que recuperam casas abandonadas ou constroem novas para lá passarem o verão. Para além de se notabilizar pela excentricidade da sua beleza, pela frescura dos seus recantos e pelo enigmático silêncio que a envolve, a Costa do Lajedo tornou-se conhecida por dois outros motivos. Por ter sido nas suas costas que naufragou, no início do século XX, o Slavónia num dos maiores naufrágios acontecidos nas Flores e por nos seus rochedos, sobranceiros ao mar que a rodeia, existir uma nascente de água quente, a única nascente de água termal conhecida da ilha das Flores. A sua localização, por terra, antigamente, era de difícil acesso e, por mar, obrigava a ter que percorrer grandes distâncias de barco e a subir uma escalada muito íngreme e perigosa. É verdade que a vereda de acesso por terra, apesar de pouco transitável implicava uma admirável vista percorrendo-se um percurso de extraordinária beleza que passa frente ao ilhéu de Barro, pela rocha do Barreiro, onde, em durante anos se extraíu argila usada nos telhais da ilha, pelo ilhéu da Greta e pelo grande rochedo do Forcado. Na Fajã Grande, na década de cinquenta, considerava-se esta água milagrosa na cura do reumatismo e de algumas doenças cutâneas. A sua temperatura é tão elevada que permite cozer peixe ou lapas, que adquirem um sabor único, devido ao facto da água estar numa nascente que o mar cobre, por vezes, em ocasiões de maré-cheia,

O historiador florentino Padre Camões, na sua obra, “Coisas notáveis que há na ilha”, refere ele que “junto ao mar (no lugar da Costa), e ao pé de uma rocha que terá de 20 a 25 braças de altura, há uma fonte de água muito quente que tem uma virtude eficacíssima para todas as moléstias cutâneas. A água é quente em tal grau que, lançando-se-lhe um pequeno peixe, coze-o em poucos minutos; deitando-se-lhe lapas, ou qualquer outro marisco de concha, descasca-os imediatamente. Nota-se-lhe uma particularidade, que tomada em bochechas, só nos beiços se lhe percebe a quentura; no mesmo modo ninguém permanece com as mãos dentro dela. Só com muita bonança se pode ir junto dela de barco, e por terra é muito difícil a descida da rocha; pelo menos homens calçados não descem lá, só se temerários” .

Água Quente da Costa, uma riqueza da ilha das Flores que parece nunca rer sido aproveitada da melhor forma e como merecia.

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publicado por picodavigia2 às 07:21





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