Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A ARCADA

Terça-feira, 21.01.14

Naquele ano, meu avô fora comprar um bacorinho ao Mosteiro. Raça boa, promessa de fartura em carnes e toucinho, o bicho, chegando à Fajã miúdo mas gordinho e rechonchudo, lá foi crescendo a olhos vistos, com baldes e baldes de lavagens enriquecidas com farelo, com cestos de batatas-doces e, de vez em quando, com umas maçarocas de milho. Enfim, um cardápio de se lhe tirar o chapéu. Deitou, pois, um corpanzil, o danado do porco e tornou-se num belo animal, admirado e louvado por quantos, passando ao lado da casa do meu avô, com laivos de inveja, metiam o nariz no curral, simplesmente para bisbilhotar.

Mas não se contentava o suíno com gamela farta e cheia. Passava os dias a roncar que parecia louco, a empinar-se contra as paredes da cerca, como se quisesse saltar cá para fora e, pior do que isso, havia de se atirar ao chão do curral, num contínuo e permanente fossar, revirando-o de uma ponta à outra. Parecia um cerrado de covas e regos abertos, à espera da sementeira para o batatal. Meu avô é que não se empolgou com o vício do porco e não lhe foi na cantiga. Ao princípio, ao ver aquela “porquinheira” abominável, desinteressante e incomodativa, apenas lhe dava uma paulada agora, outra logo, a ver se o bicho se acomodava. Mas o maldito é que não se corrigia, antes, de dia para dia, mais fossava, mais remexia, mais revirava e mais esburacava e destruía o curral. E tanto fossou e chafurdou, tanto esburacou e escavou, que meu avô não esteve com meias medidas, decidindo-se por espetar-lhe uma arcada no focinho.

Com a ajuda de meus tios e do vizinho Bizarro, meu avô armou-se de um bom bocado de arame, bem limado e afiado numa das pontas, duma turquesa, de um alicate e de uma valente corda. Quando o porco menos esperava, saltaram todos, de rompante, para a cerca, atirando-se ao bicho como Santiago aos Mouros. Antes porém taparam, com uma tábua, a porta do chiqueiro para que o malvado, adivinhando o ardil, lá não se escondesse, protegendo-se e, assim, conseguindo fugir à trágica e eminente “cravadela” que sobre si próprio se pairava abater.

O porco ao princípio estarreceu, parado que nem uma estátua, como se tivesse sido apanhado de surpresa. Mas como os homens se aproximassem dele, percebeu, de imediato, que havia de ser agarrado e amarrado o que, decerto, não seria para coisa boa. Por isso, começou aos saltos, a correr de um lado para o outro e a grunhir muito aflito e desconfiado. Preso por um pé, depois pelas orelhas, finalmente, os homens paralisaram-no por completo, amarrando-o e prendendo-lhe uma alça da corda, no queixo superior e de seguida, enrolando-a de modo a apertar-lhe a boca, de maneira que não pudesse morder. O porco em alta gritaria, grunhia, gingava e impulsionava o corpo, para trás, para diante e para os lados, em convulsões contínuas a fim de se libertar das garras dos domadores. Mas nada. Os homens, depois de o agarrarem, nunca mais o largaram, por mais que ele grunhisse, escorropichasse, esperneasse e tentasse a fuga. Após alguns minutos de luta renhida, o porco, percebendo que a força dos humanos o superava, acalmou-se, iniciando um grunhir mais grosso, mas pachorrento e sossegado, até que se aquietou por completo, cessando os seus movimentos de revolta e contestação. Não imaginava era o que havia de seguir-se… O vizinho João Bizarro, pegou no arame que meu avô lhe alcançara e enfiou-lhe, no focinho e de cima para baixo, a ponta afiada. O porco gritava como se estivessem a matá-lo, ao mesmo tempo que dava enormes solavancos iniciando um grunhir agudo e persistente que se prolongaria durante toda a operação. Meu avô e meus tios cada vez o agarravam com mais força, imobilizando-o por completo, de maneira a que o vizinho Bizarro, com toda a calma, depois de retorcer o arame, lho voltasse a enfiar no focinho, agora de baixo para cima. De seguida torceu-o e voltou a enfiá-lo mais duas/três vezes no focinho do porco, acabando por cortá-lo nas extremidades, enrolando as pontas, uma na outra com o alicate, fazendo assim uma espécie de argolas que, para sempre, presas no focinho do cevado, haviam de o impedir de fossar. Depois, retirando-lhe a corda da boca e do queixo, soltaram-no. O porco, porém, mais receoso do que dorido, apanhando-se solto, refugiou-se no chiqueiro, onde, desconfiado, permaneceu durante horas, a grunhir com voz lânguida e dolente.

É verdade que nos dias seguintes mal comia, pois a arcada, colocada de modo a lhe doer, ao mínimo contacto com uma superfície dura, impedia-o de enfiar o focinho na gamela, feita de pedra rija. Segunda a douta opinião da minha avó, o porco até emagreceu bastante e perdeu peso, chegando mesmo a definhar. Com o tempo, porém, mesmo com a arcada no focinho, cheio de apetite, recuperou o hábito de limpar a gamela por completo e, dentro em breve, adquiriu o peso desejado, mas nunca mais fossou no chão do curral.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 21:20





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Janeiro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031