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A BORBOLETA AZUL

Sábado, 18.08.18

Ela era rainha. O seu mundo era um jardim, o seu país um canteiro e o seu palácio uma flor de que se assenhoreara, transformando uma das suas pétalas em aposento real. Vivia sobre a esperança e conquistara a força de lutar contra o destino.

As suas asas eram de tule transparente e azul. Mas era um azul tão azul que lembrava o céu, o mar, o anil e as safiras. O seu corpo era deliciosamente opaco e espesso e os olhitos, muito atentos e enigmáticos, eram dois pontinhos castanhos, brilhantes, afáveis e meigos, reveladores da ternura que lhe transbordava do peito.

A flor-palácio era uma violeta roxa, muito aromática, mas modestíssima e simples. Pertencia ao canteiro dum jardim e, por caprichos do jardineiro, vivia rodeada de dálias, petúnias, robínias e tulipas. Era um canteiro maravilhosamente belo.

No entanto, habitavam-no também muitos outros animaisitos: cigarras, formigas, abelhas, gafanhotos, joaninhas, lagartas e até um sapo e duas rãs. Mas nenhum possuía a beleza, a bondade e a ternura da borboleta azul. Por isso todos a invejavam e, por vezes, até recriminavam a própria violeta por lhe dar abrigo e guarida.

- Olha a arrogante! - exclamava a cigarra, altiva e invejosa - Pensa que é mais do que nós. Chegando as festas, a violeta será levada aos altares. Veremos como se arranjará a vaidosa...

- Hum!... Nem demora tanto - retorquia o sapo, habituado a meter o nariz onde não era chamado - Rapazinho estouvado que passe por aqui e ela há-de arranjar-se, há-de...

Os comentários e as críticas dos circundantes redobravam. A borboleta, porém, continuava indiferente a todos. Se lhe apetecia, poisava calma e serena no seu valhacouto, encontrando sempre o acolhimento e a protecção da violeta. Se, pelo contrário, o seu desejo era voar, lá ia ela, elegante e indiferente aos vitupérios execráveis e aos comentários pródigos e improfícuos da maioria dos que a rodeavam.

Certa manhã enevoada e cinzenta, a borboleta azul levantou-se indecisa e confusa. Deitou os olhitos ao relento hesitou e resolveu voltar a deitar-se, ou seja, a poisar de novo na pétala aromática e roxa da violeta que lhe servia de abrigo e protecção.

A manhã mantinha-se enevoada e tardava a clarificar. O Sol teimava em manter-se escondido. Mas a azáfama no reino era enorme e desusada: é que o jardineiro, aproveitando a bruma matinal, decidira revolver toda a terra, mondar ervas daninhas e, regando o canteiro com uma forte mangueirada, colocava em polvorosa toda a bicharada.

A própria borboleta azul foi forçada a levantar-se. Voou, voou, até poisar casualmente junto dum lago não muito distante dali. Era um lago pequeno, azul e trasbordante de água e de frescura. Um peixinho vermelho transformara-o no seu mítico falanstério. Comungando simultaneamente a indiferença, o peixe e a borboleta esperavam que o Sol clarificasse o dia e rompesse a penumbra enigmática e paradoxal que se espelhava nas águas límpidas e transparentes do lago.

Uma suave melodia trespassava leve e contagiante. Uma nuvem corria apressada e deixava transparecer um raio de sol súbito e inopinado. O peixe vermelho, nadando descansadamente no lago, rodeado dos seus congéneres, nem reparou na borboleta. Passado algum tempo porém, deitou a cabecita fora da água e, num ápice, pode ver um inconfundível e maravilhoso arquétipo de beleza suma, como até então, nunca observara nas frias águas do lago.

Mas, assim como o raio de sol, a visão desvaneceu-se. Voltou a sombra e o peixe vermelho ficou só, mas confuso e perplexo: - “Seria real tanta beleza?!”

- Era - concluía o peixe, alguns dias depois, quando já se tinham tornado grandes amigos - Era tão real a sua beleza como era a sua ternura, o seu carinho e a sua bondade.

E a borboleta voltava ao lago todas as tardes, comungando alegrias, partilhando desventuras, contando histórias de flores, de jardins, de claridade e de esperança.

- Gostava tanto de ver uma flor - suplicava o peixe vermelho constantemente.

Confusa, a borboleta azul não sabia o que lhe responder.

Certa tarde, ao regressar do lago, a borboleta voltou ao palácio, mas já não o encontrou. Momentos antes, passara por ali um casal de namorados. Pararam junto ao canteiro. Querendo demonstrar o amor que lhe transbordava do peito, o rapaz apanhou a violeta e ofereceu-a à apaixonada, como prova indelével do seu amor. A rapariga cheirou-a, apertou-a ao peito e, comungando o seu perfume, beijou apaixonadamente o rapaz

A cigarra, ao ver a borboleta desalojada, regozijava-se eufórica:

- Eu bem dizia... A colheita não ia demorar... Vamos ver como ela se arranja agora que foi destronada.

- Venha rastejar como nós - propunha a lagarta.

A borboleta, no entanto, mantinha-se à distância, confusa mas serena, esperando que o amanhecer regressasse. E regressou, mas sem perfume e sem esperança.

 Decidiu então voltar ao lago, onde o peixe vermelho ansiosamente a esperava. A mágoa e a dor dominavam-na. Dos seus olhitos rolaram duas lágrimas de desespero que, caindo no lago, se diluíram na água cristalina e se esvaneceram com a reconfortante compreensão do peixe:

- Não te preocupes, boa amiga! O teu destino é voar. Voarás sempre sobre as flores e sobre a esperança. Conquistarás o perfume das madrugadas e o calor do Sol. Mas não deixes nunca que se evapore o enigma azul e transparente das tuas asas.

A partir de então a borboleta azul fixou-se junto ao lago, conquistando o coração do peixe vermelho. Eram sombras desfeitas em manhãs de Sol. Eram nuvens escuras, clarificadas. Era a indecisão diluída na esperança. E a água do lago tornou-se tão azul e transparente como as asas de tule da borboleta.

Passaram-se dias, meses...

Numa tarde, a borboleta terrificada anunciou:

- Dentro em breve, terei que partir. O Verão aproxima-se do fim. Vêm aí os negros e chuvosos dias do Outono e do Inverno. Eu não posso continuar aqui.

O peixe, mergulhando no fundo do lago, emudeceu enquanto a borboleta voava, entontecida e trôpega e a água do lago se tornava mais fria.

- A água do teu lago continuará azul e cristalina - prometia timidamente a borboleta - As nuvens negras do Inverno vão desfazer-se e tornar-se em água tão azul como esta. Virei visitar-te, de vez em quando, trazendo-te o perfume das flores e a claridade das tardes de sol.

A incredulidade do peixe, porém, confundia-se com a indecisão da borboleta.

Finalmente ela partiu e o peixe ficou só, mazombo e sorumbático, no lago azul esperando que a borboleta regressasse e lhe trouxesse de novo o calor do Sol e o perfume das flores.

Mas a borboleta azul nunca mais voltou. Apenas, de vez em quando, misturada com nuvens escuras e ameaçadoras, sobrevoava o lago acenando ao peixinho vermelho e deixando atrás de si um raio de Sol e um perfume de violeta.

 

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