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A CANADA DA FAJÃ DAS FAIAS

Quinta-feira, 29.05.14

Abrupta, erma, esconsa e ladeada de um denso arvoredo era a Canada da Fajã das Faias, lá para os lados de Cuada e do Vale Fundo, paredes meias com a Ribeira Grande. Esta íngreme canada ligava o Caminho que se iniciava na Cuada, se prolongava pelo Vale Fundo até aos Lavadouros àquele curioso, pitorescos e quase mítico lugar que era a Fajã das Faias, situado mais a Sul da Fajã Grande, a fazer fronteira com a Ribeira Grande e a Fajãzinha. Curioso era o facto de a faia, como árvore, ser sempre tratada pelo vocábulo popular faeira, o que estranhamente não acontecia, nem com o nome lugar nem com o da referida canada. O lugar chamava-se Fajã das Faias e não Fajã das Faeiras. Fenómeno estranho este, cuja explicação é difícil de se encontrar.  

A Cana da Fajã das Faias, no entanto, permitia um acesso aquele lugar, embora difícil de percorrer. Para além de íngreme e estreita era muito pedregosa, sendo impossível nela transitarem animais. Apenas homens e cães. Muito provavelmente, hoje, já terá desaparecido da memória de muitos dos que, outrora, a calcorrearam. Encavalitada nos contrafortes do Tufo da Cuada, mesmo ali debruçado sobre a Ribeira Grande, a canada obrigava quem ali fosse demandar o que quer que fosse, do pouco que as terras davam, a carrega-lo às costas: lenha, feitos, cana roca, incensos e faias, muitas faias, pois foram estas, ali em grande abundância, muito provavelmente, a dar nome ao lugar.

Para se ter acesso àquele lugar ermo e exíguo, percorrendo a canada, depois de se atravessar a Cuada e ultrapassar a última casa, um pouco antes do Vale Fundo e a seguir ao Calhau do Tufo, virava-se à direita e entrava-se na dita cuja, o único acesso às propriedades ali existentes. Do outro lado, a Ribeira Grande era obstáculo intransponível e, naturalmente, só serviria os habitantes da Fajãzinha. Mas esses ali não tinham propriedades. No entanto, para se chegar a algumas propriedades, era necessário atravessar outras, que lhe deviam caminho, através de trilhos, atalhos ou até saltando paredes.

Assim com o lugar a que dava acesso e de que tinha o nome, a canada Fajã das Faias permanece como uma vereda mítica e adormecida, hoje perdida, não apenas no espaço mas também e sobretudo no tempo e talvez mesmo na memória de muitos dos que, nos longínquos anos cinquenta, por ali passavam, na apanha de incensos para o gado, de lenha para o lume ou a ceifar os fetos e a cana roca que proliferavam entre aquele denso e luxuriante arvoredo.

Lugar misterioso, pois sobre ele se contavam algumas lendas, como a da origem do nome Cricri.

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publicado por picodavigia2 às 10:14





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