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A CAPONA

Sexta-feira, 01.05.15

Ana Joaquina Capona faleceu no dia 7 de abril de 1896, às 8 da manhã, na então casa nº 23 da Rua da Via d’Água, na Fajã Grande das Flores. Tinha a bonita idade de 87 anos. Era solteira e, segundo o seu registo de óbito, não tinha profissão. A “Capona” como muito provavelmente seria conhecida, uma vez que “Anas Joaquinas” havia, ao tempo, muitas na Fajã, era filha de José Valadão jornaleiro e de Maria Joaquina, fiandeira.

Nada de anormal na vida desta mulher se não fosse o seu nome. É muito estranho este apelido de “Capona”, porquanto é único. Consequentemente não o herdou dos progenitores e, muito provavelmente, nunca terá sido usado na Fajã Grande por quem quer que seja. Estranho! Assim é muito provável que, em vez dum nome de um apelido, ou seja uma alcunha.

A palavra capona existe na língua portuguesa e, no sentido real, significa grande capa de mulher, usada para momentos mais solenes, nomeadamente para ir à missa. Recorde-se que no Faial as senhoras utilizavam, para o mesmo fim, o típico capote. No sentido figurado, a palavra passou a usar-se como sinónimo de beata. No entanto, nalgumas regiões do país, como por exemplo Trás-os-Montes, capona significa, vaca ou égua estéril, que foi castrada, aplicando-se o mesmo termo, inclusivamente, aos cavalos que passaram pela castração. Embora a palavra capão não tenha feminino, a palavra capona poderia, popularmente, entender como uma forma jocosa, talvez de escárnio ou gozo, de formar uma maneira deturpada o feminino daquela, ou então, num sentido mais lato, querendo significar que seria sim o feminino de capador, isto é, uma mulher que exerceria o ofício de capar porcos ou outros animais.

No caso desta nossa ilustre antepassada da Via d’Água nunca se saberá ao certo a razão de ser deste epíteto. Poderia, em primeiro lugar, ser-lhe atribuído esta alcunha, a que na Fajã Grande vulgarmente se chamava “apelido”, por ser considerada uma beata, embora este não pareça ser o mais provável. A mulher era solteira, provavelmente atirada a outros valores que não missas e comunhões diárias. Além disso a palavra não parece ter sido utilizada com este significado na Fajã. Restam as outras duas hipóteses. No entanto, a segunda parece ser ainda muito menos plausível, porquanto os provincianismos transmontanos ou de outras regiões do continente não seriam muito utilizados nas ilhas. Resta a terceira e a mais plausível, a de Ana Joaquina se ter dedicado à arte de capar porcos ou outros machos quaisquer. No entanto é possível que não o fizesse frequentemente, nem muito menos por profissão mas somente que o tenha feito ou tentado fazer uma única vez. Na verdade, na Fajã Grande granjeava-se uma alcunha por praticar um delito uma só vez. O José Felizardo ficou conhecido por “ter sido ” por uma única vez, ter sido visto, num cerrado das Furnas a atirar às abóboras, semelhando que eram baleias e meu pai ficou por “Chinelo” porque uma vez, depois de lavar os pés, apresentou-se à praça com os chinelos da minha avó. Eu e meus irmãos, sem culpa formada, ficámos por “chinelinhos”. Além disso, naqueles recuados tempos, havia um homem, na Cuada a quem apelidavam de “Capão” e mesmo na Fajã não faltavam apelidos semelhantes, tais como Balaio, Batoco, Borrego, Calssado, Camarão, Cevada, Cavala, Enrilhado, Farelo, Foinha, Foguista, Gadelha, Laré, Padre, Panão, Panoa, Passarouca, Peneireiro, Pinguelho, Saco, Siloque, Tambor, Turca, Xingado, Xocha, e tantos outros. Até um rapazito que, subindo a uma árvore, encontrou três ovos de galinhola e que, no regresso a casa, feliz e orgulhoso do seu feito, os mostrava a toda a gente foi alcunhado de o “Três ovinhos de galinhola.”

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publicado por picodavigia2 às 00:39





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