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A CASA AO LADO DA ERMIDA

Quinta-feira, 03.07.14

Situada no meio dos pequenos casebres, construídos em basalto negro e cobertos de palha, a Ermida de Santa Bárbara era um dos mais antigos edifícios religiosos da ilha do Faial, tendo sido construída no ano de 1500, por iniciativa de Pero Pasteleiro e de sua esposa, Madalena da Rosa, que pretendiam, assim, perpetuar a memória de Joss van Hurtere e de quantos com ele haviam demandado a ilha e nela se haviam estabelecido, cerca de cinquenta anos antes, fundando a povoação "de Horta". Joss van Hurtere e os seus companheiros, algum tempo depois de aportarem à ilha, haviam construído, logo ali junto ao mar, uma pequena ermida. Como não tinham nenhuma imagem de Santo da sua devoção que nela colocassem e que lhe dedicassem por padroeiro, apenas lhe colocaram uma tosca cruz de madeira no seu interior e, por isso, decidiram chamá-la de Santa Cruz. Esta ermida porém, devido à sua fragilidade e pouca consistência, foi destruída a quando da crise sísmica de 1671, que originou o Cabeço do Fogo, mediante o aparecimento, naquele sítio, de um enorme vulcão que entrou em erupção na noite da Vigília Pascal. A crise havia-se iniciado com uma série de sucessivos abalos, ao longo do mês de Setembro desse ano. Os abalos intensificaram-se em Fevereiro do ano seguinte, provocando o pânico entre a população e o desabar de muitas construções primitivas, culminando com um grande sismo, no dia 12 de Abril, a que se seguiu uma sequência de muitos outros, sentidos com mais violência nas freguesias da Praia do Norte e Capelo e que destruíram praticamente tudo o que era construção humana. Além disso, dias depois, começou uma nova actividade explosiva, que se prolongou durante 10 meses, provocando uma considerável efusão de lava basáltica a partir de duas chaminés vulcânicas que se abriram no contraforte do Cabeço do Fogo e no Pincarito. A actividade sísmica serenou no més de Maio de 1672 e, em Setembro seguinte, cessou, por completo. Após a erupção vulcânica, no entanto, sucederam-se uma série de sismos, tendo o mais violento, provocado inúmeros prejuízos e arrasado, quase totalmente, a vila da Horta. Foi então que a Câmara Municipal, além das preces públicas, procissões e outros actos de piedade e devoção que mandou promover e a que incentivou a toda a população a participar numa reunião em que se decidiu, por unanimidade, que todos se haviam de unir para pedir a protecção do Divino Espírito Santo. Essa "protecção" implicava fazer um voto solene por si e pelos seus descendentes "que em dia do Senhor Espírito Santo, todos os anos e enquanto o mundo fosse mundo, sairá sempre uma procissão solene ordenada pelos ditos oficiais da Câmara Municipal, da Igreja Matriz e se recolherá na Igreja da Misericórdia, onde se cantará missa com sermão a que assistirá o corpo da Câmara fazendo-se gastos e despesas à custa dela em acção de graças tanto pelos benefícios recebidos de não ser maior o dano que o dito fogo podia fazer como pelo mais que de todo se espera ver quieto e consumido". No lugar onde existia a ermida de Santa Cruz, foi construída, anos depois, a igreja das Angústias.

A ermida de Santa Bárbara também destruída, mas reconstruída após esta crise, apresentava-se com uma construção simples, mas diferente da primitiva, dotada, do lado direito do frontispício e paralela a este, de um campanário, constituído por uma pequena e baixa sineira, sem torre. O acesso ao campanário fazia-se por uma escada encostada à parede lateral da capela que também dava acesso à porta exterior do coro. Do mesmo lado e junto à capela-mor encostava-se a sacristia.

Pequena e singela, a ermida tinha apenas uma nave de planta rectangular, sendo capela-mor também do mesmo formato e separada da nave por arco triunfal, ligeiramente abatido, em cantaria. O frontispício era muito simples, a imitar as empenas das poucas habitações senhoriais, ali existentes, tendo ao eixo uma porta de verga recta encimada por uma pequena cornija e por cima uma janela. Rematado em forma triangular, sobre cujo vértice estava implantada um grossa e tosca cruz de pedra, a fachada terminava por uma cornija que acompanhava a inclinação das águas do telhado, Sobre os cunhais, de um e outro lado, encastoavam-se dois pináculos. A contrastar com a maioria dos casebres circundantes a ermida era construída em alvenaria de pedra rebocada, pintada de branco e rodeada de um adro murado.

A poucos metros dali ficava a casa que a velha, à entrada do povoado, indicara a José Pereira Azevedo. Era um edifício de dois pisos, de forma rectangular e com dois balcões de acesso ao andar superior, na fachada principal, que se ligavam ente si, pelo fundo de duas escadarias, no termo das quais, se tinha acesso ao edifício, através de um enorme e enferrujado portão de ferro, divido em duas metades, uma das quais estava aberta. Uma das escadarias dava acesso à cozinha e a outra à sala. Assim como o pequeno templo, a casa também era construída em alvenaria de pedra argamassada, excepto um dos balcões da fachada principal, o que dava para a cozinha, assim como a empena do lado desta, que eram de pedra negra. Era essa a Casa do Marialva.

José Pereira de Azevedo, parou junto ao portão de entrada, depôs no chão os sacos que levava aos ombros e, pedindo à mulher que o aguardasse ali, juntamente com o garoto, subiu com alguma desenvoltura os degraus que davam para a cozinha. Antes que atingisse o cimo, surgiu à porta semiaberta um homem já de meia-idade. Vestia calças de cotim cinzento, uma camisa de linho, alvíssima sob um colete acastanhado o que lhe dava um ar de senhorio, mas com um poder e grandeza aparentemente desfeitos e aniquilados pelo tempo. Esboçando um doce sorriso, dirigiu-se para José, incentivando-o de que continuasse a subir.

Ao aproximar-se do homem, José retirando o chapéu e estendendo-lhe a mão, cumprimentou-o. Depois, num razoado hesitante, explicou o porquê da sua presença ali.

O homem, desfazendo o sorriso gracioso com que assomara, inicialmente à porta e que mantivera até àquele momento, pediu-lhe que entrasse. Antes porém haviam de subir a mulher e o filho.

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publicado por picodavigia2 às 11:13





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