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A CHORA SOPAS

Quarta-feira, 04.03.15

Na ampla e velha sala, António Mortágua, sentado num enorme cadeirão e enrolado num cobertor de lã avermelhado, dormitava. Ao lado a mulher, de cardas em punho, implicava com a demora da Muda, em abrir a porta. Uma atrasada! Demora mais a abrir uma porta do que a Aninhas do Bento a cozer uma fornada de pão. Mas abrir a porta era o que a Muda há muito tinha feito. Explicar quem estava lá fora, à espera de licença para entrar, é que era um bico-de-obra para a Muda. Voltava-se para dentro, depois para fora e tornava a voltar-se para dentro. Nada lhe saía perfeito ou melhor nenhum sinal fazia que se fizesse entender. Por fim fez utilizando os dedos indicadores e esfregando-os nos olhos, fazia sinais de que alguém estava ali a chorar. - Quem é, mulher? Gente a chorar! Ai credo! Querem ver que morreu alguém! – Proferiu Dona Josefa, sem tirar os olhos das cardas. A Muda bem abanava a cabeça, a fazer sinais negativos. Depois, voltando à sinalética inicial, repetia, ininterruptamente, sinais de choro e, levando a mão à boca parecia querer dizer que alguém chorava por comida. Mas Dona Josefa continuava a não a entender - Então? Alguém está a chorar porque levou uma tareia? E a Muda a negar, abanando a cabeça para um lado e para o outro, com quantas força tinha. Bem continuava a fazer sinais de choro, com mais insistência: - Ai mulher que não te explicas com jeito! É alguém que está a chorar com fome? Foi o miúdo mais novo do Gervásio que, perspicazmente, a entendeu. Acompanhara o pai que tinha vindo acertar umas rendas com o senhor Mortágua: - Já sei! – Disse o garoto exultando de contentamento como se duma vitória se tratasse. - É a Chora-Sopas! Anda a pedir pelas portas. - Ih! Ih! - Chiava a Muda, muito contente, apontando para o rapaz: - Ora essa! Era só o que faltava agora! – Barafustava dona Josefa. - É todos os dias isto… E às vezes mais do que uma vez por dia, gente à porta a pedir. Manda-a embora que não há nada. - Josefa! Isso é que caridade!? Isso é agir de acordo com a religião que praticas? Muda, diz-lhe para entrar que se lhe há-de dar uma côdea de pão e um pedaço de queijo. Não entendo a tua religião mulher… E logo o Gervásio: - É uma caridade! Ela é uma desgraçada, António. Não tem nada nem ninguém e corre a ilha toda a pedir. Ainda há dias andou na Fajã. Percebia-se que estava cheia de fome… Com o beneplácito de Dona Josefa, a mulher entrou. Tinha a roupa muito suja, o cabelo despenteado, agarrava-se a um bordão balanceando o corpo e trazia um saco de serapilheira a tiracolo. Falando ciosa e com os lábios muito salientes, lá se foi explicando como muito bem podia: - Poxo entá? Poxo entá? Xô Anxoninho, ua exoxuxinha pux xeux… - Depois dando de caras com o Gervásio e o miúdo - Ui voxês nom xom da Faxã? Tanban andom a pedi. Xouxade xexa Deux. Uma exoxuxinha pux xeus. Uma exoxuxinha pu alma dox xeus. - Muda, traz-lhe uma boa fatia de pão com doce e um pedaço de queijo. – Ordenou o Mortágua e dirigindo-se à mulher: - Queres uma tigela de leite, Chora-Sopas? - Xo xe fô café. Café. Nom goxo leixe, brr, brr. Leixe nom pexa. - Olha a finória! Não gosta de leite! E ainda há-de ser o que ela quer e pão com doce! Havia ser era massa sovada… Muda leva-a para a cozinha… E ela que saia pela porta da cozinha. Sim senhor, ainda vem bater à porta da sala, como se fosse uma visita importante. É uma desavergonhada é o que ela é! E sabem onde fica de noite, quando vem, aqui, para Ponta Delgada? Sabem? É em casa do Cacho Maduro e dizem que pelos vistos fica na mesma cama dele e da mulher. Isto é o fim do mundo! – (Dona Josefa benzia-se vezes sem conta) - Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Para sempre seja louvado. -Josefa! Tem tento na língua, olha o que dizes… - Eu não ponho famas nem aleives a ninguém. Só digo o que oiço dizer. Olha, vou é tratar da ceia que se faz tarde.

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publicado por picodavigia2 às 15:43





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