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A DERROCADA DE RED RIVER

Sábado, 12.04.14

Durmo sobre uma sebe de sobreiros, muito bem podada e ainda melhor tratada. Inicialmente, ali plantara faias, paus brancos, sanguinhos, loureiros e folhados, mas nenhuma destas árvores resistiu a intempéries e vendavais. Agora nasceu e cresceu ali uma sebe, uma espécie de obra de arte, simétrica e verde. O vento é um terrorista mascarado de videira podada. Destrói tudo por onde passa, até desfaz os regos das batatas, antes delas nascerem, mesmo que estejam entrelaçadas com girassóis floridos ou cobertas com farelo de serra. Mas o vento não destrói apenas os batatais e as sebes imberbes. Também entra pelas chaminés de prédios antigos e modernos, sacudindo e abanando alunos que estudam, com afinco, latim, língua difícil e de grandes e profundos meandros morfológicos. O padre Jacinto ensinava latim com uma sabedoria danada, mas também com um rigor tremendo e com uma exigência endiabrada, espalhando o terror pelos cantos das salas, onde eu, geralmente, me escondia a fim de não ser chamado e ler e traduzir, ir ao quadro, e dar um grande estandarete. Prefiro ficar, num canto da minha velha e rústica cozinha, a roer um côdea de pão de milho, rijo e bolorento. Lá fora faz muito frio e há neve no Marão. Faz pouco mais de um ano que eu comprei um camisola esverdeada, com desenhos de marujos a subir e a descer as escadas do Carvalho. Não era Verão mas eu fui à festa do mato, junto à Casa do Estado, nas imediações do Pico da Burrinha, onde meu irmão António me deixou sozinho. Tinha que ir, imediatamente, às Lajes, a pé, atravessando relvas, até à Boca da Baleia. Eu chorava como uma Madalena, sem encontrar remédio para o meu problema e sem descobrir solução para a minha dor, cuja origem desconhecia e, em boa verdade, não me interessava absolutamente nada conhecer. Já há algum tempo que procurava um espaço para levar a minha frenética ovelha a pastar. Era na ladeira do Fernando, no estendedouro onde a mãe, a minha vizinha Lucinda, punha a roupa a corar. Não adivinhava eu, era que estivesse ali sentada, na aba duma pedra, a abrigar-se da chuva a Rosa Maria, toda encharcada e pobremente vestida. Parecia uma pedinte. Apenas os dentes brilhavam por entre um sorriso deliciosamente atraente e reflectiam-se na Caldeira da Água Branca, onde se enfiou a velha Tenenta. Logo a seguir, entrava na estação de metro do Areeiro, onde um grupo de freiras bailava como se estivessem a simular uma solene adoração da cruz. Era Sexta-feira Santa e havia pessoas a correr na Fontinha, com baldes e latas, ávidas de encher água na Fonte Velha…

Depois vinha a professora de Linguística convidar-me para ver o local, onde tinha construído um restaurante. Ela, a Rosa Maria e eu, ao finalizar a aula, fomos lá jantar. Não havia mesas e na cozinha o chefe só falava em migas de brócolos, com salsichas de soja grelhadas. A doutora Andreia, com a sua varinha de condão, bem desejava substituir as salsichas por alheiras e a Rosa Maria, sempre simpática e solícita, amiga de ajudar e de bem-fazer, numa corrida louca, partia para Mirandela, a pé. Andava, andava e nunca mais lá chegava. Mas em Mirandela só havia um talho que estava dividido em duas partes, uma era realmente um talho com alguns produtos de mercearia personalizados, e a outra parte, um edifício muito velho, onde, apenas, havia restos do que teria sido, outrora, um restaurante. Ali era proibido comer carne de vaca, favas e ovos cozidos. Havia muitas pessoas sentadas ao redor de mesas, mas apenas partilhavam os seus pratos vazios, trazidos das cozinhas do Ikea ou mandados vir da Rússia. A Rosa Maria, indignada, dizia que os pratos haviam sido roubados ao Putin. Na viagem de regresso da Rússia, vinha a meu lado um homem com a sua mulher, extremamente gorda. Ao andar, a mulher esquartejava-se e mostrava um traseiro esférico, flutuante e libidinoso. Disseram-me que haviam viajado por dezenas de países asiáticos e nunca tiveram sequer um acidente aéreo, por isso chegavam à Fajã, sãos e salvos, dispostos a empreender novas viagens. Das cozinhas da Via d’Água saíam rolos de fumo. Os sinos repicavam e eu tinha que subir a rocha, debaixo de uma chuva intensa. A Rosa Maria dizia-me para ter cuidado, com a chuva pois com ela a probabilidade de caírem grandes derrocadas, era bem maior. E contava que há dias uma grande derrocada caíra em Red River e destruíra um talho, onde desapareceram todas as salsichas de soja. Tudo ficara destruído com a derrocada de Red River. Pedia-lhe que me guardasse o livro de Francês e que subisse a rocha comigo, mas ela recusava-se. Só me falava naquela temível e trágica derrocada de Red River. Eu, então, subia a rocha sozinho, numa correria louca… mas tinha um medo enorme e terrível… Tinha medo de ser vítima de uma derrocada como aquela de Red River… Uffa!

Levantei-me, assomei à janela e subi a persiana. Um sol danado, lá fora, preanunciava um dia primaveril.

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publicado por picodavigia2 às 15:04





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