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A ENXURRADA DA PONTA

Sexta-feira, 17.01.14

Situada a norte da Fajã Grande, o lugar da Ponta fica encastoado entre a rocha e o mar, numa faixa de terreno rectangular, uma espécie de belga gigante, balizada entre a Ribeira do Cão e a Rocha do Risco. A Rocha pétrea e abrupta protege e abriga aquele pequeno povoado, dos ventos fortes de leste e é sulcada por diversas ribeiras e grotas, muitas delas a ostentar, na descida, belas e maravilhosas quedas de água, concedendo ao lugar da Ponta uma beleza impar, uma frescura inebriante e uma sonoridade inigualável. Além disso, a Ponta beneficia da Rocha, não apenas porque nela se aninha e abriga, mas também porque dela recebe grande parte dos produtos necessários ao seu sustento e dos próprios animais. Mas por vezes a rocha também é madrasta, porquanto nela se reflectem, intensamente, os calores do Verão, que depois são rechaçados para cima dos casebres e, muito especialmente, porque, de em vez em quando irrompe torturante e ameaçadora, lançando sobre o povoado jactos de terra, pedras e lama. São as ribanceiras ou enxurradas que, por onde passam deixam o caos e a destruição.

Uma das maiores derrocadas de que a Ponta foi vítima, aconteceu na década de sessenta. Decorria o mês de Setembro. Na véspera da festa da Senhora da Saúde, chuvas torrenciais desabaram sem dó nem piedade sobre a orla oeste da ilha das Flores, atingindo sobretudo a zona das Fajãs. A penetração das águas torrenciais nos aclives e socalcos da rocha sobretudo nos terrenos circundantes às margens de grotas e ribeiras e, sobretudo, o grosso e volumoso caudal de que estas últimas foram vítimas, fez com que se enchessem de terra, pedras, lama e árvores, arrastando tudo isso na descida da rocha, precipitando-se avassaladoramente sobre os terrenos circundantes às casas. Na Ponta, uma das ribeiras que atravessava a localidade, excedeu-se, excessivamente, no seu caudal, provocando uma derrocada de pedras e lama que destruiu terrenos, caminho, atalhos veredas, casas velhas e atingiu algumas moradias.

Curiosamente era nos arrabaldes do leito dessa ribeira que existia o matadouro do gado, utilizado para abater as reses por altura das festas do Espírito Santo ou quando algum americano prometia um jantar em louvor da Terceira Pessoa da Trindade. Assim, naquele local, existia um nicho, em forma de pequena capelinha, que tinha gravado os símbolos do Paráclito e onde se colocava a coroa, enquanto se abatia o gado, trazido e levado em procissão e com o acompanhamento dos foliões.

Após a catástrofe e para espanto de todos, a derrocada destruiu tudo ao redor do nicho, não deixando pedra sobre pedra. Apenas este, mantendo a sua alvura e solidez, permanecia absolutamente intacto como se nada por ali tivesse passado. Por isso mesmo o povo cuidou que se tratava de um verdadeiro milagre do Senhor Espírito Santo.

Este não desmoronar-se do nicho onde se colocava a coroa do Senhor Espírito Santo tornou-se ainda mais simbólico e misterioso por quanto foi interpretativo do solidificar-se duma clara e notória oposição existente na altura em todas as ilhas, a determinações do bispo diocesano que culminaram na “Excomunhão” dos Impérios e na proibição dos símbolos do Espírito Santo entrarem nas igrejas paroquiais e serem colocados sobre os altares.

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publicado por picodavigia2 às 14:24





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