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A FESTA DA CASA DE CIMA

Domingo, 24.05.15

A festa do Espírito Santo da Casa de Cima realizava-se, sempre, no domingo de Pentecostes, ou seja sete semanas depois da Páscoa. Começava logo de manhã. Os pátios da casa, o largo do Chafariz e a rua Direita, da Praça até à igreja, enchia-se de bandeirinhas, arcos flores e colchas nas varandas e janelas. De manhã, depois de aberta a Casa, pelos cabeças e com o tradicional foguete, os mordomos e outras pessoas afluíam ao amplo edifício, que de madrugada havia sido lavado de uma ponta á outra, a fim de retirar a sujidade e os cheiros resultantes do armazenamento da carne, no dia e na noite anteriores. De imediato a garotada, enquanto esperava pela saída do cortejo, aproveitava para organizar os jogos e as brincadeiras habituais. Chegavam em cortejo e folia as coroas das casas da Cuada, de Baixo e da Ponta. Juntava-se a pequenina, de S. Pedro. À hora marcada organizava-se um cortejo, com destino igreja paroquial, enquanto os sinos repicavam e os foguetes estalejavam no ar e em abundância, ecoando nos outeiros e rochas circundantes. Quanto mais foguetes melhor era à festa e, neste aspeto a Casa de Baixo, que se realizava depois da de Cima, ultrapassava-a de longe, pois para além dos foguetes e fogo preso, à noite, ainda se dava ao luxo de, em pleno arraial, disparar um tiro de canhão. O cortejo, com destino à igreja, abria com a bandeira branca, depois as vermelhas transportadas por rapazes e a seguir as coroa levadas por meninas, ladeadas por outras transportando o cetro e flores, vestidas com trajes adequados e cercadas por outras quatro formando um quadrado com as varas. Seguiam-se os foliões, os mordomos e uma boa parte do povo. O restante esperava, no adro, a chegada à igreja, onde o pároco, como nos domingos anteriores, embora com mais solenidade também aguardava o cortejo e as coroas, à porta do Guarda-Vento.

De seguida, entravam todos na igreja, ao som do “Magnificat”, entoado pelo pároco em canto-chão. A Missa era cantada e terminava com a bênção e a incensação das coroas, enquanto se cantava o hino “Alva Pomba”. O cortejo reorganizava-se novamente, e regressava à Casa, fazendo o trajeto inverso.

Todos voltavam às suas casas para o jantar, a fim de saborearem a carne que cada um havia cozinhado a seu gosto. Na véspera, a carne havia sido temperada e posta em “vinha-d’alhos”. De manhã era “rosada” em banha de porco e depois guisado em caldeirões de ferro, ficando prontinha antes da missa. A refeição era acompanhada normalmente com inhames e pão de trigo, havendo também, quase sempre, pão adubado.

De tarde o povo juntava-se de novo na Casa, para as arrematações, para os cantares, para os jogos, para a quermesse e, sobretudo, para o convívio. As arrematações resultavam das promessas que muitos mordomos haviam feitos em ocasiões de doença ou momentos de aflição. A fé no Senhor Espírito Santo era muita. As ofertas eram feitas de massa igual à do pão doce, mas representando uma parte do corpo, geralmente pés, mãos, braços ou cabeça, que haviam sofrido alguma maleita, ou animais, geralmente suínos ou bovinos, que haviam estado doentes mas que tinham sido curados, por graça do Divino Espírito Santo, a quem agora se agradecia. Outras pessoas ofereciam a massa, mas simplesmente na sua forma habitual de pão. Muitos mordomos que haviam feito promessas mas não tinham conseguido cozer pão, arrematavam uma oferenda semelhante à que haviam prometido e ofereciam-na, a fim de que fosse novamente arrematada.

Como era grande a quantidade de massa oferecida, muita não era arrematada. Era partida às fatias, colocada em açafates e distribuída por todos juntamente com cálices de licor ou de  “vinho fino”.

Todo o pão, tanto o das promessas como o doce e o de trigo, que sobrava era distribuído pelos pobres.

De tarde, realizavam-se as sortes, ou seja, a escolha e indicação dos nomes dos dois cabeças que, no ano seguinte, seriam os responsáveis pela preparação e organização da festa, uma vez que cada mandato, regra geral, durava apenas um ano. Os cabeças eram dois, normalmente designados por primeiro e segundo, sendo que o primeiro assumia as funções de líder. Da lista dos mordomos, os cabeças em exercício, por sua livre iniciativa, escolhiam alguns nomes que liam em voz alta perante todo o povo, que com o seu aplauso, aprovava tais escolhas. De seguida escreviam-nos, um por um, num papelinho que dobravam muito bem para que se não visse o nome que lá estava escrito e colocavam-nos todos dentro da coroa do Divino Espírito Santo. De seguida escolhiam uma criança de tenra idade e pediam-lhe que tirasse da coroa dois bilhetinhos. Fazia-se um enorme e profundo silêncio na sala e todos aguardavam com grande expectativa os nomes sorteados e escolhidos pelo Senhor Espírito Santo e que, dentro de momentos, iam ser conhecidos. Um dos cabeças, muito devagar e com estranha solenidade, abria o papel, fazia uma pausa, e de uma golfada e em voz bem alta, anunciava o nome sorteado. Uma enorme e estrondosa ovação se fazia sentir por toda à casa, seguida por uma grande salva de palmas e um imediato atirar de foguetes, saudando o novo primeiro cabeça, para o ano seguinte. Idêntico procedimento se verificava, quando era tirado e lido o outro nome que indicava quem seria o segundo cabeça.

Mas nem sempre assim acontecia. Por vezes, quando os mordomos entendiam que a festa tinha sido boa, graças à brilhante ação e ao profícuo trabalho daqueles cabeças, tentavam, umas vezes com sucesso outras não, cobri-los com a bandeira vermelha. Se o conseguissem fazer, antes de serem lidos dos dois nomes, as sortes paravam de imediato e seriam eles os cabeças, no ano seguinte. Daí que por vezes se verificassem interessantíssimas tentativas de “ataques e fugas” entre os mordomos que pretendiam cobrir os cabeças para que continuassem e estes que permaneciam de olhos bem abertos e muito atentos para fugirem à cobertura e assim se libertarem de tão trabalhoso e imponente cargo.

A festa terminava, já lusco-fusco, com um novo e último cortejo com a coroa, as bandeiras, os foliões e o povo que se organizava e, partindo da Casa de Espírito Santo, se dirigia a cada uma das casas de ambos os novos cabeças, a fim de lhes dar conhecimento oficial e entregar-lhes “as sortes”.

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