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A FESTA DE ESPÍRITO SANTO

Domingo, 21.10.18

Durante toda a semana, quer a que antecedia a festa da Casa de Cima, no domingo de Pentecostes, quer a da Casa de Baixo, no da Trindade, na Fajã Grande das Flores, nos anos cinquenta, cantavam-se, à noite, às terças, quintas e sábados, as Alvoradas.

Um foguete, lançado por um dos cabeças, logo ao anoitecer, indicava que a partir daquele momento a Casa estava aberta. Os que iam chegando aos poucos, após entrar, rezavam por um momento em frente ao altar do Divino, iluminado e enfeitado, onde estava a coroa e, de seguida, sentavam-se em bancos dispostos de forma rectangular, contra as paredes laterais da enorme casa, ou ficavam a conversar pelo meio do amplo salão, enquanto a garotada ia fazendo jogos como o de descobrir um objecto a toque de tambor, o jogo do lenço, o burrinho do Lamé e muitos outros.

À hora marcada e com a casa à cunha, anunciada por um segundo foguete, principiava a Alvorada. Numa fase inicial a cantoria começava no pátio, fora da porta da Casa. De seguida, os foliões, um dos quais tocando tambor e outro, “testos” ou pratos, entravam na Casa, formavam uma roda e iniciavam uma dança típica, durante a qual cantavam,  “Alvorada Santa” e outros cânticos apropriados. Curiosamente e durante a dança, cada um ao passar em frente ao altar, onde estava a coroa, rodopiava sobre si próprio e invertia a sua postura habitual na roda, de modo a ficar, durante os segundos que por ali passava, voltado de rosto para o altar, a fim de que ao andar em frente ao Divino Espírito Santo, não o fizesse de costas voltadas, sinal óbvio do respeito devido à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

De seguida, o grupo parava, postava-se em frente ao altar e cantava as sete “Ave Marias”, seguindo-se o “Oferecimento” das mesmas, após o qual a Alvora terminava.

Após a cerimónia, a maior parte do povo, sobretudo os mais jovens, permanecia pela noite dentro na Casa, fazendo jogos de roda diversos, entre os quais o do Anel e outros jogos tradicionais em que todos paricipavam. Estes jogos, durante os quais todas as brincadeiras eram permitidas e as manifestações amorosas toleradas, eram uma excelente ocasião de se iniciarem ou até se solidificarem muitos namoricos, noutros lugares e noutros espaços proibidos pelos pais.

Na sexta-feira, antes da festa, de tarde, matava-se o gado. Os cabeças haviam elaborado antecipadamente uma lista com a quantidade de carne que cada mordomo, pertencente ao Império, desejava. Depois de tudo somado, era imperioso apalavrar, de seguida e atempadamente, umas duas ou três reses que perfizessem em quilos o total de carne desejado pelos mordomos.

O gado previamente seleccionado era levado para junto da Casa do Espírito Santo, onde aguardava a organização do cortejo, assim constituído: à frente os animais e a garotada, depois a bandeira branca, as duas vermelhas e a coroa, atrás da qual caminhavam os foliões a cantar, seguidos duma enorme chusma, mais de meia freguesia. Na torre da igreja os sinos em alegres repiques e o estalejar dos foguetes juntavam-se à procissão, que caminhava, lesta, em direcção ao sítio onde gado seria abatido – o Matadouro. Este situava-se no fim da rua da Via  d’Água, já quase no Porto, ali mesmo à beirinha da Baía d’Água, num pequeno rolo que separava o baixio do caminho e no qual havia um nicho apropriado, onde era colocada a coroa, ladeada pelas bandeiras, durante o tempo que demorava a matança, esfola e esquartejamento dos animais. Quanto às vísceras, o fígado, o coração e a língua ficavam para os matadores, com os quais normalmente guiavam uma apetitosa “caçoila”, o sangue era dado a quem o quisesse para fazer um saboroso sarapatel, assim como o bucho com o qual, depois de muito bem lavadinho, se fazia dobrada. Os bofes e  a cabeça eram dados aos cães e as tripas atiradas ao mar, para gáudio dos peixinhos.

Terminadas todas estas operações, o cortejo regressava à Casa. A carne das rezes era espetada pelos tendões em grossos paus, de palanca, transportados por homens, aos ombros, suspensa, ainda a escorrer os últimos pingos de sangue, enquanto os sinos, os foguetes e o cantar dos foliões, as pessoas, a coroa e as bandeiras enchiam as ruas de som, de cores, de desejos, de festa e de alegria. Colocada no chão da Casa, devidamente forrado com folhas de cana roca, a carne ficava ali a arejar e a aguardar que as mãos experientes de um grupo de homens, durante a noite, a desmanchasse e cortasse aos pedaços e com eles fizessem montinhos, de acordo com os pedidos formulados pelos mordomos e outros para os pobres, escrevendo num papelinho que lhe colocavam em cima, o nome do destinatário.

No sábado de tarde distribuía-se a carne pelas casas dos mordomos que a haviam solicitado na segunda-feira de Páscoa, anterior. Nesse dia, as duas coroas em conjunto e acompanhadas pelos cabeças e foliões de ambas as Casas, haviam percorrido todas as moradias da Fajã, de um ponta à outra, a fim de “atestar” os mordomos de cada uma, ou seja, saber de qual das casas pretendiam a carne, se apenas de uma ou das duas, assim como a quantidade que desejavam.

A cerimónia iniciava-se pela manhã, com a bênção da carne e do pão, este cozido por promessas de alguns dos mordomos e que seria distribuído pelos pobres juntamente com alguma carne. O pároco dirigia-se para a Casa do Espírito Santo de sobrepeliz e estola branca, acompanhado pelo sacristão com a caldeirinha e o hissope. Colocava-se em frente aos montículos de carne e às pilhas de pão, aspergia-os com o hissope, rezava algumas orações em latim e depois de fazer um cruz sobre tudo e todos, retirava-se.

Competia às crianças da freguesia, da parte da tarde, levar carne a casa dos mordomos. Munidas de pequenas cestinhas ou travessas, aos pares e em constante rodopio, uns levando o pão e a carne aos pobres e outros a carne aos mordomos, de acordo com o nome indicado no papelinho e que um dos cabeças, à medida que partiam, ia riscando no rol elaborado na 2º feira de Páscoa. Acompanhavam-nas os foliões, as bandeiras, a coroa e algumas pessoas. A coroa entrava nas casas de todos os mordomos, juntamente com as oferendas, para que cada elemento da família beijasse a pombinha, símbolo do Divino Espírito Santo, encravada numa das extremidades do ceptro.

A distribuição iniciava-se no cimo da Assomada. Seguia-se o Alagoeiro e a Fontinha, o Caminho de Baixo, as Courelas, a Rua Direita, a Rua Nova, a Tronqueira e terminava, já ao início da tarde, no fim da Via d’Água. Os sinos tocavam durante todo o dia, logo de manhã durante a bênção e pela tarde fora, enquanto demorava a distribuição, alternando o seu alegre repicar com os sons do tambor e dos testos e com o cantar dos foliões.

Meu tio era o sacristão, cargo a que estava anexo o de sineiro. A sua pouca disponibilidade para um e outro cargo, obrigara o pároco à contratação de um ajudante, tendo a escolha recaído sobre mim. Por isso me iniciei cedo no papaguear do latim da liturgia e no tocar dos sinos, tarefa esta em que me orgulhava e ufanava, pois tocava-os como ninguém. Do alto na sineira via e ouvia o canto dos foliões acompanhados pelo tambor e pelos testos. Por isso, assim que eles paravam, iniciava logo um harmonioso e prolongado repique que para além de permitir um bom descanso aos foliões, fazia com que o Divino Espírito Santo não andasse a circular pelas ruas e pelas casas, um momento que fosse, sem ser acompanhado por música: ou pela do cantar dos foliões ou pela do toque dos sinos.

No domingo realizava-se a verdadeira festa do Espírito Santo. De manhã, depois de aberta pelos cabeças e com o tradicional foguete, os mordomos e outras pessoas afluíam à casa, onde de imediato a garotada, enquanto esperava pela saída do cortejo, organizada os jogos e as brincadeiras habituais. À hora marcada organizava-se um cortejo, com destino igreja paroquial, enquanto os sinos repicavam e os foguetes estalejavam no ar e em abundância, ecoando nos outeiros e rochas circundantes. Quanto mais foguetes melhor era à festa e, neste aspecto a Casa de Baixo ultrapassava de longe a de cima, pois para além do fogo preso, à noite, ainda se dava ao luxo de, em pleno arraial, disparar um tiro de canhão. Como era habitual, o cortejo abria com a bandeira branca, depois as vermelhas transportadas por meninas e a seguir a coroa levada também por uma menina, ladeada por outras transportando o ceptro e flores, vestidas com trajes adequados e cercadas por outras quatro formando um quadrado com as varas. Seguiam-se os foliões, os mordomos e uma boa parte do povo. O restante esperava, no adro, a chegada à igreja, onde o pároco, como nos domingos anteriores, embora com mais solenidade também aguardava o cortejo e a coroa, à porta do Guarda-Vento.

De seguida, entravam todos na igreja, ao som do “Veni Creator Spiritus ”. A Missa era cantada e terminava com a bênção e a incensação da coroa, enquanto se cantava o  “Alva Pomba”. O cortejo reorganizava-se novamente e regressava à Casa, fazendo o trajecto inverso.

Todos voltavam às suas casas para o jantar, a fim de saborearem a carne que cada um havia cozinhado a seu gosto. Na véspera, a carne havia sido temperada e posta em “vinha-d’alhos”. De manhã era “rosada” em banha de porco e depois guisado em caldeirões de ferro, ficando prontinha antes da missa. A refeição era acompanhada normalmente com inhames e pão de trigo, havendo também, quase sempre, pão doce.

De tarde o povo juntava-se de novo na Casa, para as arrematações, para os cantares, para os jogos e, sobretudo, para o convívio. As arrematações resultavam das promessas que muitos mordomos. Eram feitas de massa igual à do pão doce, mas representando uma parte do corpo, geralmente pés, mãos, braços ou cabeça, que haviam sofrido alguma maleita, ou animais, geralmente suínos ou bovinos, que haviam estado doentes mas que tinham sido curados, por graça do Divino Espírito Santo, a quem agora se agradecia. Outras pessoas ofereciam a massa, mas simplesmente na sua forma habitual de pão. Muitos mordomos que haviam feito promessas mas não tinham conseguido cozer pão, arrematavam uma oferenda semelhante à que haviam prometido e ofereciam-na, a fim de que fosse novamente arrematada.

Como era grande a quantidade de massa oferecida, muita não era arrematada. Era partida às fatias, colocada em açafates e distribuída por todos juntamente com cálices de licor ou de  “vinho fino”.

Todo o pão, tanto o das promessas como o doce e o de trigo, que sobrava era distribuído pelos pobres.

A festa prolongava-se até ao anoitecer.

No dia da festa, à tardinha, realizavam-se as sortes, ou seja, a escolha e indicação dos nomes dos dois cabeças que, no ano seguinte, seriam os responsáveis pela preparação e organização da festa, uma vez que cada mandato, regra geral, durava apenas um ano. Os cabeças eram dois, normalmente designados por primeiro e segundo, sendo que o primeiro assumia as funções de líder.

Da lista dos mordomos, os cabeças em exercício, por sua livre iniciativa, escolhiam nove nomes que liam bem alto perante todo o povo, que com o seu aplauso, aprovava tais escolhas. De seguida escreviam-nos, um por um, num papelinho que dobravam muito bem para que se não visse o nome que lá estava escrito e colocavam-nos todos dentro da coroa do Divino Espírito Santo. De seguida escolhiam uma criança de tenra idade e pediam-lhe que tirasse da coroa dois bilhetinhos.

Fazia-se um enorme e profundo silêncio na sala e todos aguardavam com grande expectativa os nomes sorteados e que, dentro de momentos, iam ser conhecidos. Um dos cabeças, muito devagar e com estranha solenidade, abria o papel, fazia uma pausa, e de uma golfada e em voz bem alta, anunciava o nome sorteado. Uma enorme e estrondosa ovação se fazia sentir por toda à casa, seguida por uma grande salva de palmas e um imediato atirar de foguetes, saudando o novo primeiro cabeça, para o ano seguinte. Idêntico procedimento se verificava, quando era tirado e lido o outro nome que indicava quem seria o segundo cabeça.

Mas nem sempre assim acontecia. Por vezes, quando os mordomos entendiam que a festa tinha sido boa, graças à brilhante acção e ao profícuo trabalho daqueles cabeças, tentavam, umas vezes com sucesso outras não, cobri-los com a bandeira vermelha. Se o conseguissem fazer, antes de serem lidos dos dois nomes, as sortes paravam de imediato e seriam eles os cabeças, no ano seguinte. Daí que por vezes se verificassem interessantíssimas tentativas de “ataques e fugas” entre os mordomos que pretendiam cobrir os cabeças para que continuassem e estes que permaneciam de olhos bem abertos e muito atentos para fugirem à cobertura e assim se libertarem de tão trabalhoso e imponente cargo.

A festa terminava, já lusco-fusco, com um novo e último cortejo com a coroa, as bandeiras, os foliões e o povo que se organizava e, partindo da Casa de Espírito Santo, se dirigia às casa de ambos os novos cabeças a fim de lhes dar conhecimento oficial e entregar-lhes “as sortes”.

Entre as festas de Espírito Santo da Casa de Cima e da Casa de Baixo havia grande rivalidade e até alguma competição, pois cada qual se esforçava por fazer uma festa melhor do que a outra. A Casa de Cima, da qual meu pai foi sempre mordomo, tinha contra si um senão: é que fazia sempre a festa, no próprio domingo do Pentecostes e a de Baixo no domingo seguinte, ou seja no da Trindade, o que obviamente lhe concedia alguma vantagem ou favoritismo.

Interessante, no entanto, é que toda esta rivalidade era salutar e respeitada. Basta recordar que as duas coroas em conjunto e acompanhadas pelos cabeças, pelos foliões e por muitos adeptos de ambas as Casas, percorriam em conjunto e lado a lado todas as moradias da Fajã, de um ponta à outra, afim de, em cada ano, “atestar” os mordomos de cada uma, ou seja, saber de qual das Casas pretendiam a carne e a quantidade desejada, por altura da festa. Tudo isto era realizado no maior e mais salutar espírito de colaboração.

No entanto era opinião generalizada e quase unânime de que a festa da Casa de Baixo ultrapassava de longe a da Casa de Cima: um cortejo mais solene, as meninas que levavam a coroa mais bem vestidas, pois os pais eram mais ricos, mais fogo, incluindo fogo preso à noite e, sobretudo, pelo tiro disparado pelo canhão, em pleno arraial, a meio da tarde do domingo e pelo qual todos esperaram com ansiedade. Simplesmente espectacular!

A origem do dito cujo era desconhecida, embora se cuidasse que tivesse, outrora, sido recolhido na costa, onde por vezes vinham parar muitos restos e objectos de navios naufragados. O canhão era uma enorme boca de fogo de artilharia que estava montado sobre uma carreta e que consistia basicamente num tubo fechado numa das extremidades e dentro do qual, através da outra, se ia metendo pólvora, papelão e outro entulho, o qual era muito bem batido e calcado com uma soquete, de forma a ficar compacto e simular uma espécie de projéctil, que, depois de pronto, era incendiado através do lume que dentro dele se introduzia por meio de um rastilho que atravessava um pequeno orifício na parte superior da grossa parede do tubo. O canhão era colocado sobre o chafariz que existia junto à empena Sul da Casa, do lado do altar. Enquanto se preparava o material, a rua Direita e os caminhos e pátios ao redor enchiam-se, para apreciar aquele grandioso e imponente momento da festa. Uma vez tudo preparado, todos se afastavam, enquanto um homem, o mais “anamudo” e expedito, largava lume ao rastilho, afastando-se logo em grande correia. O rastilho ia ardendo lentamente até fazer chegar o lume ao interior do tubo e incendiar a pólvora ali armazenada, provocando uma enorme explosão, projectando a grande distância aquele entulho transformado em bala e provocando, simultaneamente, um grande estrondo, que alguns segundos depois se repetia em eco, na Rocha das Águas.

Era a alegria total! Um dos momentos mais altos e mais emocionantes da festa.

Conta-se ainda hoje, que num determinado ano, alguém, de propósito ou não, no final da operação de batimento do entulho, se esqueceu de tirar o soquete, sendo este projectado juntamente com a bala e encontrado, dias depois, numa terra lá para as bandas do Mimoio, já próximo da Ribeira, o que permitiu, assim, esclarecer as duvidas que existiam sobre o alcance daquela antiga arma de guerra, transformada, na altura, em canhão  do Espírito Santo.

 

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