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A FUGA

Sábado, 24.05.14

À medida que os dias passavam, José Pereira de Azevedo ia-se sentindo cada vez mais inconformado e mais indeciso relativamente ao seu futuro e ao da sua família. A mulher, Madalena de São João, não cessava de o recriminar por uma apática pasmaceira em que ele se ia envolvendo dia após dia e da qual, aparentemente, não conseguia libertar-se. Vezes sem conta lhe atirava à cara que a sua vida, ali em Santa Luzia, no meio daquela calamidade seria insustentável, quase sem nada e o seu destino incerto e o seu futuro imprevisível. Além disso, por um lado, os abalos, embora mais pequenos e mais espaçados, tinham voltado a fazer-se sentir, assustando e amedrontando tudo e todos e, por outro, o manto de lava destruidora que, evadindo-se da montanha, cobrira o chão quase por completo, demoraria a desfazer-se e a tornar aráveis os campos outrora tão férteis e as vinhas, antigamente, tão produtivas. José Pereira Azevedo ouvia aquele martelar contínuo da voz da sua consorte, calado e pensativo. Sabia muito bem que ela tinha razão, mas tinha receio de o confessar. Sabia muito bem que não tinha nada e mesmo que quisesse voltar aos campos para trabalhar não o podia fazer. Também não poderia ficar por ali, ao relento o resto da sua vida, à espera de que a lava se transformasse em terra fértil e em campos produtivos. Havia que refazer a sua vida, que reconstruir a sua casa e os seus campos, que criar de novo tudo aquilo que tão tragicamente perdera. Mas a Madalena tinha razão: não seria ali.

A mulher causava-lhe grande preocupação e constantes consumições. Madalena não cessava de insurgir contra aquela situação e de se revoltar contra aquela pasmaceira. Cheia de medos e temores, a esposa de José Pereira de Azevedo como que ficara traumatizada com os terríveis efeitos daquela tremenda crise e das consequências que sobre eles se haviam feito sentir. Intransigente, pertinaz, causticada pela dor e ancorada a uma enorme e permanente angústia, Madalena pedia-lhe, persistentemente, que partissem, que fugissem dali, onde nada os prendia, para além do amor à sua terra. É verdade que iriam para um sítio desconhecido, estranho, onde não conheceriam ninguém, onde nada possuíam mas onde haviam de construir tudo, como se estivessem novamente a começar, do nada, a sua vida. Mas afinal não era isso também o que lhes aconteceria se ali ficassem, sujeitos a novos tremores, a outras erupções, talvez mais violentas e mais danosas?

- Então – concluí Madalena – ter nada por não ter nada, antes viver e recomeçar a nossa vida num sítio calmo e sereno, onde, ao menos, a terra seja mais segura.

Foi esta insistência intransigente da mulher, o futuro do filho e o persistente consciencializar-se das condições de vida de que ali usufruía que levaram José a tomar uma decisão. E no primeiro batelão que encostou no Lajido, na ponta de André Gonçalves, no porto que aí existia e onde habitualmente se carregava madeira e gado que o Pico produzia enviava para outras ilhas, José Pereira de Azevedo, tomando a mulher e o filho e partiu para o Faial, na demanda de um futuro incerto e imprevisível.

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publicado por picodavigia2 às 11:44





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