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A INEXAURÍVEL SINGULARIDADE DO CORVO

Segunda-feira, 23.04.18

Localizadas sobre a placa tectónica norte americana e edificadas, conjuntamente, sobre um fundo oceânico com cerca de dez milhões de anos, as Flores e o Corvo, quais irmãs gémeas, emergem, paradoxalmente, do mesmo banco submarino. Unidas no espaço, estiveram também sempre lado a lado no tempo, desde que os seus descobridores as encontraram e os seus primeiros povoadores penetraram por elas dentro, desbravando, cultivando, construindo e edificando. Além disso, as duas ilhas do grupo ocidental açoriano permanecem unidas uma à outra, por ligações marítimas, outrora mais espaçadas, rudimentares e lentas, hoje mais rápidas, seguras e sofisticadas. Por isso ir às Flores e não realizar uma visita ao Corvo é como que “ir a Roma e não ver o Papa”. O “Ariel” em carreiras diárias, regulares, os barcos da “Maré Ocidental” e de outras empresas, em viagens ocasionais ou fretados, permitem fazer uma visita, suficientemente prolongada, à mais pequenina e singular ilha açoriana – o Corvo.

Nas idas e vindas de uma ilha para a outra, pelo menos a bordo do “Avô Augusto” e graças aos seus experientes marinheiros, netos do “lobo do mar” José Augusto, é possível parar a meio do canal para observar uma infinidade de golfinhos que saltitam, acompanhando o circular da embarcação, em graciosas e variadas acrobacias e tornear o noroeste da magnífica costa florentina, entre a Ponta Ruiva e Santa Cruz, e entrincheirar-se por entre os inúmeros ilhéus que por ali proliferam. Também é possível observar as magníficas grutas com solo de água e tecto de lava e aproximar-se dos penhascos e ravinas entrecortados por quedas de água a despejarem-se sobre o Oceano. Uma verdadeira maravilha da natureza!

A chegada ao Porto da Casa, no Corvo, consubstancia uma singeleza que ainda torna mais singular a singularidade inexaurível desta ilha anã, estampada quer na simplicidade e idiossincrasia dos corvinos que esperam sobre o cais ou se sentam nas soleiras das portas das estreitas ruas da vila, quer na brancura das casas de portas escancaradas dia e noite ou destrancadas com fechaduras de madeira, quer ainda no emaranhado e estreiteza das principais e mais antigas vielas, ou até nos campos e belgas que as circundam ou nos desabitados palheiros que proliferam já nos matos, a caminho do Caldeirão. Trata-se duma ampla cratera de abatimento e onde se aloja uma, maravilhosamente bela lagoa, no fundo da qual se podem observar várias pequenas "ilhotas", umas compridas, outras redondas e onde, com um bocadinho de imaginação, se podem observar as nove ilhas açorianas. Lá ao fundo, no rebordo do Caldeirão, o ponto mais alto da ilha, o Morro dos Homens, com 718 metros de altura acima do nível médio do mar e, embora menos altos, mas ali bem perto, porque naquela inexaurível pequenez nada é longe e nada é perto, outros montes, onde se destaca o célebre e histórico Marco. Depois e mais a leste, as Quintas e o Fojo, as zonas mais altas do Corvo, onde se pratica a agricultura e cultivam algumas árvores de fruto. Por sua vez, as melhores pastagens para o gado ficam mais para norte, nas chamadas Terras Altas. Curiosamente uma parte desta zona de pastagens, ainda hoje, é de uso comunitário.

No regresso, impõe-se um passeio a pé, pela Vila do Corvo, localizada numa fajã lávica, a Sul e voltada para as Flores. A Vila do Corvo, que forma o concelho com o mesmo nome, é a mais pequena vila açoriana, com apenas 430 habitantes, de acordo com o Censos 2011. Única povoação da ilha, é constituída por um aglomerado de casas baixas com ruas estreitas e tortuosas que sobem as encostas, conhecidas localmente por canadas e possui o singular estatuto de ser o local habitado mais isolado de Portugal.

Do património arquitetónico existente na ilha, destaca-se a Igreja de Nossa Senhora dos Milagres, construída em 1795, que veio substituir uma primitiva ermida. No seu interior, podem admirar-se a estátua da padroeira, obra flamenga do século XVI, um Cristo em marfim e uma imagem em madeira de Nossa Senhora da Conceição, entre várias outras ali existentes. Além da igreja, é digna de ser visitada a Casa do Espírito Santo, no areópago da vila, o típico Largo do Outeiro, fundada a 1871, seguindo a traça arquitetónica das suas congéneres das Flores. Junto ao aeroporto ainda existem alguns interessantes e típicos moinhos de vento, classificados como imóveis de interesse municipal. Dos cerca de sete moinhos que existiram na ilha, apenas três se mantêm em funcionamento, embora já não sejam utilizados para o fim para que foram construídos. O casario da vila é um verdadeiro museu vivo, classificado pelo Governo Regional como conjunto de interesse público. Outro local de interesse é a “Cova da Junça” onde existe uma edificação protegida pelo Governo Regional dos Açores, cuja data de construção recua aos séculos XVII e XVIII, a qual faz parte do Inventário do Património Histórico e Religioso do Corvo. Trata-se de um silo subterrâneo, escavado no subsolo com forma de ânfora ou de talhão, tendo, muito provavelmente, sido usado em tempos idos com o objetivo de guardar os cereais, não só como forma de os conservar, mas também de os esconder quer dos piratas e corsários que assolavam a costa da ilha com frequência quer dos cobradores dos impostos do rei.

Foi toda esta inexaurível singularidade corvina que fez com que esta ilha fosse declarada no mês de Setembro de 2007 Reserva da Biosfera, pela UNESCO, na sequência de uma candidatura apresentada, para esse fim, pelo Governo Regional dos Açores.

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