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A LOUCURA DAS VACAS NOUTROS TEMPOS

Terça-feira, 25.11.14

Na Fajã Grande, como aliás, muito provavelmente, em quase todas as outras localidades não só de Portugal como até do Mundo, na década de cinquenta, não se falava ou nem sequer se pensava na existência de vacas loucas. No entanto, ao que tudo leva a crer, na mais ocidental freguesia da Europa elas existiam.

Isto porque, na Fajã Grande, terra onde havia muitas vacas e onde as mesmas eram extremamente bem tratadas, se não havia vacas loucas, no sentido em que hoje se refere esta designação, pelo menos havia algumas vacas que tinham comportamentos muito estranhos, pouco ortodoxos no que a vacas dizia respeito e que em nada abonavam a dedicação, o tratamento cuidadoso e até o carinho que os donos lhe dedicavam.

Na verdade e para além da maioria das vacas que nasciam mansas e assim permaneciam toda a vida, detentoras de comportamentos e atitudes de grande tranquilidade e quietude, submissas às ordens e vontade dos donos, muitas outras havia que se distinguiam por comportamentos esquisitos, estranhos, alguns roçando a loucura outros a agressividade.

O pior destes comportamentos era o hábito que as vacas tinham de “garrar”, isto é, ao verem uma pessoa estranha, que não fosse o dono ou outro conhecido, viravam-se às marradas na mesma, à semelhança de um touro em plena praça, num espetáculo de tourada. A maioria das vezes, porém, este estranho comportamento, surgia já no fim da vida do animal. Por lei consuetudinária, na Fajã Grande, quem tivesse uma vaca que garrasse era obrigado a andar com ela amarrada na via pública. A maioria dos donos ao aperceber-se que tinham uma vaca com este hábito, embarcavam-na para Lisboa, o mais cedo possível, onde era abatida para consumo. Louca ou não, a população de Lisboa deliciava-se com a sua carne.

Outro vício de algumas vacas era o de, quando soltas nas pastagens, galgarem as paredes circundantes e saltarem para os campos alheios, muitas vezes causando grandes prejuízos. Para evitar estes males e impedir o animal de se meter em ceara alheia, os donos possuíam dois meios. Um era acabramá-las, isto é, amaravam-lhe uma corda à cabeça e prendiam-na a uma das mãos, impedindo o animal de saltar. Outro, o mais eficiente, até porque a corda, muitas vezes rebentava, eram as galochas. As galochas eram duas enormes tiras de madeira, em forma de barco com duas proas, com um furo redondo a meio, no sítio em que se ligava uma parte à outra. Estas partes, num dos lados, eram presas por uma dobradiça e fechavam na outra, com uma pequena cavilha, depois de colocadas na mão do animal, causando-lhe grande embaraço e transtorno no andar, impedindo-o, consequentemente de saltar.

Muito esquisito também era o comportamento da maioria do gado alfeiro, que uma vez solto, corria, saltava e pinchava como se estivesse louco, sobretudo se colocado nas pastagens do mato, permanentemente encafuado entre brumas e nevoeiros. Na altura do cio muitas vacas também ficavam loucas, por vezes atirando-se para cima dos próprios donos quando estes tratavam delas,

Finalmente havia as vacas dando, ou seja, aquelas que depois de um ou mais partos, nunca mais davam cria, ficando a dar leite para sempre, mas em muito pequena quantidade. Estas depois de devidamente castigadas com a canga, também eram enviadas para Lisboa, como se dizia, a brincar, ver os senhores de bengala.

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publicado por picodavigia2 às 09:39





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