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A MANHÃ DO DIA SEGUINTE

Domingo, 30.09.18

Todos os anos, no verão, chegavam à freguesia muitos visitantes. Uns vinham do continente, outros do Faial ou da Terceira, alguns de São Miguel e muitos, a maioria, da América. Quase todos eram antigos habitantes. Uns haviam partido há muitos anos, outros há pouco. Mas todos regressavam de visita, para matar saudades, para mostrar aos filhos ou netos as belezas da terra onde haviam nascido e, no caso dos americanos, geralmente para pagar uma promessa ao Senhor Espírito Santo.

Um verão houve, em que entre outros, chegou à freguesia um casal vindo de Lisboa. Visitavam a terra dos seus avós. Pela primeira vez. Hospedaram-se na casa de uns parentes e vinham acompanhados duma filha. A menina devia rondar os vinte anos. Chamava-se Elizabete, nome muito esquisito e estranho na freguesia. Elizabete era muito bonita. Rosto macio, alvo de neve a esboçar, permanentemente, um delicioso, meigo e ternurento sorriso. As faces eram rosadas e os olhos esverdeados. O cabelo muito sedoso e quase louro. Prendia-o na nuca com uma enorme prisão, acentuando-lhe um cariz juvenil, pleno de graciosidade. O seu corpo, o seu andar, todos os seus movimentos se envolviam, permanentemente, num manto de simplicidade, fluidez e elegância. Muito delicada e comunicativa, sorria a quantos com ela se cruzavam, mesmo que lhe fossem totalmente desconhecidos. Resplandecia alegria, irradiava elegância e beleza e falava com toda a gente. Sem vaidade, sem orgulho. A rapaziada da freguesia não se continha! Entrou num frenesim, não disfarçando olhares, desejos e vontades. Numa palavra, encantaram-se com a menina. No entanto quem mais se empolgou e fascinou com Elizabete foi o filho do João Cambado, o Bernardo.

Bernardo era um pobre diabo! Tinha tudo para ser desafortunado e infeliz. A natureza dotara-o de uma fealdade telúrica, duma hediondeza profunda. Um Quasimodo sem corcunda! Além disso, coroara-o uma calvície prematura e enraizara-se-lhe uma acentuada falta de visão, corrigida, parcialmente, com uns óculos de ares redondos e lentes grossíssimas que lhe tornavam os olhos minúsculos, quase invisíveis. Para atenuar as limitações visuais, colocava, frequentemente as mãos sujas e gretadas sobre os olhos e assim ficava, por momentos, a olhar fixo para o que quer que fosse, numa tentativa de descortinar melhor o que pretendia ver. A casa uma lástima e a família um desmazelo. O pai um pobretanas que não tinha onde cair morto. Não tinha terras e quase não trabalhava para fora, que ninguém o queria, nem a dias nem muito menos de empreitada. A mãe uma desleixada que nem da casa ou das roupas cuidava. Viviam numa miséria aberrante. Sustentava-os a caridade dos vizinhos e algum alqueire de milho que o rapaz conseguia ao dar dias para fora. Mais pela generosidade de quem o contratava do que pelo trabalho que produzia. De resto, pão de milho rijo que nem um corno, por vezes bolorento, migado num café de favas era cardápio diário em casa do Cambado. Pai e filho a pingar lama, mãe a cramar das aduelas e a casa que nem se poderia entrar. Um louvar aos céus!  

Certa tarde, porém, ao regressar a casa, Bernardo decidiu passar frente à casa onde moravam aqueles senhores do continente que tinham uma filha muito bonita. Vira-a, dias antes no arraial da Casa de Baixo e ficara fascinado. No momento em que passava, Elizabete surgiu à janela. Viu-o e sorriu. O mais belo sorriso que Bernardo, apesar da sua genética cegueira, alguma vez vira. Mais se fascinou e mais se empolgou pela rapariga. Não se conteve e foi desabafar com o Câncio. Estava apaixonado.

- Quem é a feliz contemplada? – Indagou o Câncio, com ar de gozo.

Ao princípio embatucou. Mas como o Câncio insistisse, muito envergonhado lá desembuchou. Ui! Que sortudo! E ela, e ela?

Mas o Câncio não era de se calar com o que quer que fosse, muito menos com tão deslumbrante segredo do Cambado. Um cesto de penas de galinha atiradas do cimo da Rocha, em dia de vento, não se espalhariam mais depressa. No dia seguinte toda a malta a meter-se com o palhoco do Bernardo.

Ele envergonhíssimodo. Vermelho que nem um pero. Uma chacota como nunca se vira.  

Mas nem por isso o Bernardo acobardou e, apesar, dos risos, dos gracejos e até dos insultos de alguns dos mais velhos, continuava a passar, sempre que podia, em frente à casa onde morava Elizabete. Contentar-se-ia em vê-la de longe, em saber que ela estaria perto de si. Por vezes, enganava-se. Confundia-a com outras mulheres, quando de mãos sobre os olhos, como se fossem palas a evitarem-lhe o sol, olhava apalermado para qualquer sítio onde cuidasse que ela estivesse.

Ela, no entanto, continuava a aparecer à janela, a andar por aqui e por ali. A lançar-lhe, na sua inocente simplicidade, sorrisos atrás de sorrisos. E ele, tentando alienar-se da chacota de que era vítima, começava a cogitar em qual seria a melhor forma de se aproximar dela, talvez de lhe entrar pela porta dentro, a fim de a ver melhor, de a observar de perto. Encheu-se de coragem. Um punhado de maçãs da horta do Rosa. Apanhar do caminho não é roubar. Além disso, não eram para ele. Eram para ela. Muito a medo, lá foi, com as maçãs. Ao lusco-fusco e pela porta da cozinha para que os ui monços não o vissem. Ninguém havia de fazer pouco dele. Bateu, esperou um pouco e ficou lívido. Era a mãe. A menina não estava. Numa segunda tentativa foi mais feliz. Levava-lhe uns cachitos de uva… Sabia que ela estava. Tentou entrar. Aproximou-se, mas a voz entupiu-se, o rosto avermelhou-se e corpo tremia-lhe. Ela muito aflita sem saber o que dizer ou o que fazer.

Nos dias seguintes amainou, pese embora soubesse que não conseguiria aproximar-se dela. Contentava-se em vê-la de longe, de saber onde ela estava. Depois, lá lhe foi batendo à porta, vezes sucessivas. Três cachos de uva, uma cestinha de batatas-doces e até dois ovos que a vizinha Glória oferecera à mãe. Não entrava. Tinha vergonha. Além do mais, ela nem o convidava para entrar. Sempre fora da porta, sempre sem grandes conversas, sempre com agraciamentos e um não se havia de ter incomodado. Por fim aquele sorriso que, desde a primeira vez que a vira, o cativara. Podia ser pobre, tosco, cegueta, mas tinha coração. Ai se tinha! Gostava dela! Amava-a de verdade. Uma paixão infinita e incontrolável como nunca tivera. Mas era uma existência negra a sua. Sabia que ela nunca havia de o amar e sabia que o verão estava a chegar ao fim, e ela, em breve, havia de regressar a Lisboa. Nunca mais a veria. Só lhe restava esta mágoa, este desgosto!

Quando na primeira noite depois de ela partir, ao deitar sobre aquele amontoada de casca de milho, coberto com uns cobertores avermelhados e muito sujos, os olhos toldaram-se por completa e grossas lágrimas perderam-se nos negrumes dos cobertores. Lá fora a noite escurecera por completo. Um nevoeiro denso, incomodativo que de tarde cobria apenas meia rocha, agora descia molhado sobre o povoado. Com ele viera um vento suave, quase impercetível. Fora da porta ouviam-se vozes. Mais distante o roncar emperrado do motor de um automóvel. Ao longe o silvo de um navio. Navegava à deriva. Sem mastros, sem velas, sem luzes e sem marinheiros. Transportava um único passageiro. Reconheceu-a. Era ela. Num ímpeto tresloucado lançou-se ao mar. Começou a esbracejar como se nadasse com quantas forças tinha, na mira de alcançar o navio, de a salvar. Impossível! Ondas altivas e alterosas impediam-no de nadar e uma bruma negra e densa não lhe permitia enxergar o que quer que fosse. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam-no por completo. Tremia dos pés à cabeça. Apesar de içado do meio de ondas alterosas tremelicava gemia, suspirava e aos poucos parecia que se perdia, por completo, no meio daquele enorme turbilhão. De repente, uma mulher de uma beleza rara e invulgar mas de mãos enormes, muito peludas e cheias de rugas impedia-o de se afogar. Aos poucos a escuridão desvanecia-se por completo. A chuva, também amainava. A mulher das mãos grandes e peludas partira. Bernardo acordou, sobressaltado. Era o início da manhã do dia seguinte.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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