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A MESA POSTA NO LARGO DA CANCELINHA

Quinta-feira, 10.05.18

Antigamente e antes da construção da nova estrada entre o Porto da Fajã à Ribeira Grande, um dos caminhos mais importantes da Fajã Grande era o que ligava o cimo da Assomada aos Lavadouros. Dezenas e dezenas de pessoas, animais, corsões e alguns carros de bois por ali passavam diariamente, de manhã, ao meio dia, à tarde e até à noite, nas suas idas e vindas para as terras de cultivo do Descansadouro, para as hortas do Delgada, da Cabaceira e da Cancelinha, para as casas e festas da Cuada, para as terras de mato do Espigão, Vale Fundo e Desarraçado, para as terras de inhames da Lombega e do Moledo Grosso, para as relvas da Alagoinha e Lavadouros e até para os longínquos e pouco produtivos os currais do Curralinho e Portalinho, lá para os lados do Poço da Alagoinha. Um dos percursos mais curiosos deste longo e importante caminho era o que ficava entre o Largo de Santo António, no cruzamento que dava para a Cuada, e o início da Ladeira do Espigão, onde o caminho também se bifurcava para os lados do Desarraçado e do Vale Fundo. Era precisamente neste troço daquele caminho, logo acima da ladeira da Cabaceira e depois da canada que dava para a Cabaceira de Cima, que ficava o celebérrimo largo da Cancelinha, onde também desembocava uma estreita e sinuosa canada vinda dos lados do Pocestinho e do Pico Agudo.

O largo da Cancelinha impunha-se e destacava-se, por um lado, pelo seu excessivo tamanho e exagerada largura no contexto de um caminho onde pouco mais cabia do que uma junta de bois e, por outro, por uma lenda a que estava ligada à sua existência. Na realidade era um largo enorme, coberto por árvores altíssimas que lhe davam uma sombra austera, esconsa e descomunal. Não ficasse por ali uma terra do Guarda Furtado, ou seja aquelas que tinham incensos graúdos, faias enormes e criptomérias altíssimas dado que a lenha nunca era cortada pois o dono dela não precisava como não necessitava de incensos para o gado e os seus procuradores não o podiam fazer. Esse arvoredo ao redor do largo dava-lhe um aspecto assombroso, taciturno, sinistro, tétrico e nefasto. Talvez daí ter sido criada uma lenda segundo a qual quem por ali passasse ao lusco-fusco via uma mesa posta com toda a espécie de comida em cima. No entanto ninguém tentava aproximar-se dela pois à medida que o fazia a mesa ia-se afastando sem que quem quer que fosse a agarrasse ou dela retirasse qualquer vitualha das muitas existentes sobre a mesma.

Passei lá muitas vezes de madrugada, à noite, acompanhado e por vezes sozinho mas na realidade nunca vi a tal mesa, nem posta nem por pôr. Não porque ela lá não estivesse, ou melhor, lá não aparecesse, mas porque eu ao passar no largo quando sozinho, ao ir levar as vacas aos Lavadouros, ou a ir buscá-las para o palheiro, cheio de medo, fechava os olhos bem fechadas e largava em tão grande carreira como em nenhum outro sítio por onde habitualmente passava. Como conhecia o caminho de cor e salteado safava-me sempre muito bem, não esbarrando nas paredes nem caindo em algum barranco.

Mas confesso que quando se abriu a nova estrada que desviou o trajecto para os Lavadouros do Largo da Cancelinha foi um grande alívio para mim.

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