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A MINHA BENFEITA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 24.01.14

17 de Janeiro de 1947

 

“Tenho tantas saudades da minha Benfeita… Ela era o meu “ai Jesus”. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e um andar muito elegante. Boa de leite e sempre pronta a puxar o arado ou o corção.

Nasceu e foi criada no meu palheiro. A sua mãe era uma vaca toucada que tive durante anos e o pai, um belo touro de meu compadre Mateus. Bem cedo percebi que daquela bezerra se havia fazer uma boa vaca de leite. Não me enganei. Apanhou cria muito nova e logo na primeira vez que pariu, deu-me a lata grande de 12 litros, a transbordar de leite.

Coitadinha da minha Benfeita! É que cedo, ainda era uma bezerrinha, meti-lhe a canga e habituei-a ao trabalho. A valente nunca me virou a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao puxar o “corsão” de canguinha, bem carregado, umas vezes de lenha, outras de milho e outras de feitos e cana roca. Ainda nem tinha um ano e já lavrava o meu cerrado do Areal três vezes. A primeira faina era a mais árdua e desgastante. A terra estava coberta duma camada de estrume que ela havia carreado, dias a fio, tornava-se muito rija com os rigores do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes que perfuravam a terra em grandes sulcos. Mas tinha que o puxar de canguinha, pois eu não tinha mais nenhuma rês. Ela porém lá ia pacientemente, lutando contra a força opositora dos regos sulcados pelo arado e contra os impropérios, insultos, ameaças e, por vezes vergastadas que lhe dava. Pobre coitada! Agora bem me arrependo. Eram horas e horas de trabalho, de esforço e canseiras. No fim estava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caía em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. É verdade que no fim lhe passava a mão pelo lombo, lhe anafava os pelos lhe fazia uns carinhos e lhe dava umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste. Seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões, a aquecer ao Sol. Amarrava-a então à grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava-lhe enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Benfeita voltava ao cerrado do Areal. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve e com uma pequena aiveca de madeira com uma luzidia ponteira de ferro que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. Atrelava-a ao arado e ela traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do terreno. A minha Maria seguia atrás de nós e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros. A Benfeita seguia sozinha, sem ninguém diante. Parava quando era preciso alisar algum torrão e virava, no fim de cada rego que se fechava com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho pois esperava-a de novo a grade. A terra tinha que ser de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

É verdade que passadas umas semanas havia de consolar-se com as sobras do desbaste e mais tarde com a espiga e no Inverno com a rama seca. Ajudou-me muito a minha Benfeita. Mas nunca lhe faltei com erva fresquinha que lhe ia buscar de madrugada à lagoa das Covas, com incensos que acarretava da Cabaceira e com couves e rama de batata-doce que lhe trazia das Furnas.

Um homem afeiçoa-se tanto aos animais, que só Deus o sabe. E hoje chorei que nem uma Madalena, pois tive que ir levar a minha Benfeita à Vila, para a embarcar para Lisboa. O animal estava a ficar velho e, além disso, o outro dia ao descer a ladeira do Covão “pegou” no rapaz do Furtado. Durante toda a viagem até Santa Cruz, a pobrezinha não parou de berrar a berrar. Parecia que sabia para que estava destinada e para onde eu a levava.

Custou-me tanto, tanto separar-me dela que nem calculam.”

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publicado por picodavigia2 às 22:06





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