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A MULHER QUE FOI LAVAR ROUPA SEXTA-FEIRA SANTA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 18.04.14

“Lá vai mais uma antiga “estória” e esta muito esquisita, que ouvia do meu avô. Contava ele que quando era criança ouvia contar que, aqui, na Fajã Grande, há muitos, muitos anos vivia uma mulher que não era crente nem temente a Deus, por isso não respeitava nem muito menos cumpria nem os mandamentos da lei de Deus nem os da Santa Madre Igreja. Por isso não se abstinha de trabalhar quer aos domingos quer aos dias santos de guarda. Muitas vezes lhe chamaram à atenção para esse pecado, sobretudo o pároco que, com palavras bondosas, lhe explicava as leis de Deus e os ensinamentos da igreja. Mas a mulher não lhe dava ouvidos e, por vezes, até se ria e apoucava os que respeitavam e cumpriam tais ensinamentos.

Um dos trabalhos que a mulher fazia aos domingos era o de ir lavar roupa para a Ribeira, mesmo à entrada da canada onde se iniciava a subida da Rocha, onde havia um grande açude com enormes pedras ao redor a servirem de lavadouros.

Ora certa vez, a mulher ainda fez pior, pois decidiu ir lavar roupa na Sexta-Feira Santa, o dia considerado mais santificado do ano, dia em que Nosso Senhor morreu. Ninguém, nesse dia, devia fazer trabalho servil, fosse ele qual fosse, porque era um pecado grave. Além disso era um dia de jejum, durante o qual muitas pessoas nem faziam comida e até levavam os animais para os pastos para não terem que tratar deles.

Assim enquanto todas as outras pessoas da freguesia estavam na igreja a comemorar os mistérios da Paixão e Morte de Nosso Senhor, a mulher, que tinha uma trouxa de roupa para lavar, não quis saber que era dia santo de guarda nem do que se comemorava nesse dia. Pegou na roupa e foi para a Ribeira, para a lavar precisamente na hora em que o povo da freguesia estava reunido na igreja. Algumas mulheres que se atrasaram na vinda para a igreja, ainda lhe lembraram o dia que era e pediram-lhe que voltasse para casa, porque era Sexta-Feira Santa. A lavadeira riu-se e continuou a caminhar na direcção da Ribeira. Chegaram as três horas da tarde, em que se acredita que Nosso Senhor morreu na cruz e a lavadeira continuava a esfregar a sua roupa e a bater com a ela no lavadouro, para lhe tirar a sujidade.

A essa hora tocou a matraca, na igreja, porque nem os sinos tocavam nesse dia e as pessoas, contritas, oravam no templo e pediam perdão a Deus Era a chamada hora “tércia” a hora em que Nosso Senhor morreu, pregado numa cruz. Dizia-se que nessa hora até os passarinhos batiam as asas e cantavam e as folhas das árvores punham-se em cruz, em louvor de Nosso Senhor.

Pouco depois da matraca tocar as pessoas que estavam na igreja, apesar da Ribeira ser bastante longe, ouviram um enorme grito de aflição que, ecoando na Rocha se espalhou por toda a freguesia. Muito aflitas e assustadas algumas pessoas correram para a Ribeira a ver o que se passava, pois o barulho vinha mesmo de junto da Rocha. Quando chegaram à Ribeira viram que a lavadeira tinha desaparecido assim como toda roupa. Tudo se sumira, como castigo, por não ter respeitado um dia sagrado.

E contavam os antigos que durante muitos anos depois disto ter acontecido, na Sexta-Feira Santa, durante a hora “tércia”, soprava um vento muito forte que fazia eco na Rocha, provocando ruído estranho e assustador semelhante ao bater da roupa nas pedras e aos gritos da lavadeira pecadora. E muita gente tinha medo de lá passar, nesse dia e a essa hora.”

 

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publicado por picodavigia2 às 07:19





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