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A ORIGEM DA CRICRI

Quarta-feira, 15.01.14

Conta uma lenda muito antiga, que há muitos, muitos anos, no lugar da Cuada, na ilha das Flores, vivia um homem que passava todo o seu santo dia a tratar de duas vaquinhas leiteiras que possuía e que eram o seu sustento e da sua família. Tratava-as com tanto cuidado e carinho como se fossem pessoas. O homem tinha, realmente, um grande amor pelas suas vacas. No Inverno levava-as aos pastos, durante o dia e à noite recolhia-as ao palheiro, protegendo-as dos temporais e do frio e alimentando-as com maçarocas de milho e incensos, que ele próprio acarretava às costas das terras para o palheiro. No Verão, para que elas não sofressem o calor do dia, guardava-as no estábulo e levava-as a pastar aos campos pela frescura da noite.

Ora aconteceu que um certo dia, uma das vacas, ao passar pelo Calhau do Tufo, junto à canada que dá para a Fajã das Faias, assustou-se de tal modo que se lançou a correr a toda a velocidade por aquela canada abaixo, na direcção da Ribeira Grande. O lavrador ficou preocupado, pois não tinha pastos para aquelas bandas e a vaca nunca tinha passado naquela canada. Por isso começou a chamar por ela:

 - Formosa! Formosa! Ó Formosa?

Mas a vaca nada. Depois cogitava para consigo: - Que diabo terá acontecido a esta vaca?

Prendeu a outra à beira do caminho, num galho de faeira e correu tanto quanto pôde, pela canada abaixo, atrás da rês, até que conseguiu agarrar-lhe o rabo, lá em baixo, já quase junto à Ribeira Grande. Mas não conseguiu aguentá-la, impedindo-a de continuar a correr como louca e a fugir desnorteada, reparando, de seguida, que a vaca entrara por uma grandessíssima furna, arrastando-o atrás dela.

 A vaca continuou a correr, a correr sem parar, por aquele covil dentro, até que chegou a um lugar nunca imaginado pelo homem, lá bem no interior da furna. Lá dentro corriam, saltavam, andavam de um lado para o outro muitos homens, mas eram muito pequeninos e tinham muitas vacas, também pequeninas e havia também muitas casas minúsculas que pareciam de anões e muitos galos também minúsculos, a correrem de um lado para o outro e a cantar.

 O animal, entretanto, tinha parado. O homem, pasmado, desprendeu-se do rabo da vaca, a qual desapareceu no meio da multidão de pessoas e bicharada anã que fervilhava, misturadas, pelas ruas. Cada vez mais admirado, o homem pensou para consigo: “Quando voltar à Cuada e contar isto que me aconteceu, ninguém vai acreditar. Vão dizer que eu estou doido.”

 Enquanto cismava, sem saber como havia de contar aos amigos o que lhe acontecera, resolveu pegar numa galinha daquelas pequeninas para levar consigo, já que não regressava com a vaca.

Agarrou numa e, escondendo-a debaixo do casaco, resolveu voltar para trás, seguindo pelo mesmo lugar por onde a vaca o tinha arrastado, trazendo na mão a galinha anã, que seria a prova do que lhe tinha acontecido.

 Os vizinhos do lavrador não queriam acreditar naquela história, mas ele mostrava a todos a galinha que tinha trazido consigo. Os outros nunca tinham visto ou ouvido coisa igual.

A gruta nunca ninguém a viu, mas a galinha era bem real e pôs ovos que depois de chocados por ela própria deram belos pintos, também anões.

Os seus amigos ao verem aquele estranho galináceo, pasmados mas acreditando no que viam, bem exclamavam em uníssono: - Cri, cri. – Queriam dizer com isto: Acreditei, acreditei na história que contaste.

Essa a razão pela qual àquela raça de galináceos garnizé, também conhecida por “galinhos da madeira”, muitas pessoas na Fajã Grande e, sobretudo na Cuada, ainda hoje lhe chamam “Cricri”.  

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publicado por picodavigia2 às 16:17





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