Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A PEREGRINAÇÃO

Sexta-feira, 24.01.14

Mataram-se porcos e carneiros, trouxe-se do melhor vinho dos arredores, cozeu-se pão nos melhores fornos da região, chamaram-se jograis e cantadores, fez-se festança como jamais outrora Lubisonda conhecera, pese embora o fronteiro de tanta canseira e abatimento, cedo se recolhesse aos aposentos que Pero Fogaça lhe disponibilizava. A festa, porem, prolongou-se fora dos umbrais de Lubisonda. Depressa e célere correu pelas redondezas notícia de tão grandioso evento. De perto e de longe começaram a chegar grupos de ricos-homens e camponeses, uns ávidos de oferecer préstimos a D. Paio de Farroncóbias, outros apenas curiosos de ver ao de perto a temível espada a que os infiéis não resistiam.

Na manhã do dia seguinte, alta madrugada, D. Paio de Farroncóbias partia, à frente da sua mesnada. Esperavam-no em Trancoso os braços ternos, meigos e amorosos de Iluminata, sua doce e amada esposa.

Algum tempo depois, recebeu D. Paio de Farroncóbias notícias de que Afonso Henriques, como aliás era seu intento, reiniciara peleja com o rei de Leão, Afonso VII. A missiva ainda mais dizia que Afonso Henriques quebrara a paz de Tui, recusava-se a continuar a prestar vassalagem ao monarca de Leão e como se isso não bastasse invadira a Galiza. Corriam, no entanto, rumores de que D. Afonso VII entrara em terras portuguesas vingando-se, arrasando castelos e, descendo as montanhas do Suajo, dirigia-se para Valdevez. Deviam seleccionar-se os melhores cavaleiros e guerreiros portugueses. As ordens eram para que o alcaide de Trancoso, partisse de imediato, juntasse tropas pelas terras circundantes e comandasse a peleja, enquanto o príncipe não regressasse. O zeloso fronteiro e alcaide de Trancoso avisou, de imediato, todos os seus homens de Penas Róias até Guarda, para que se reunissem e recrutassem todos os jovens que por ali existiam e preparou-se para partir, com destino a Valdevez.

Iluminata chorava perdidamente. Ainda não havia muito que o seu esposo amado e guerreiro valoroso chegara de Ourique, para onde se ausentara durante meses e meses. Agora, partia outra vez. E ela ficaria novamente ali, fechada no castelo, dias e noites, sozinha, sem amor, sem paixão, sem os braços de seu esposo querido. Iluminata era muito nova. A paixão ardia-lhe no peito e os sentidos impeliam-na para a aventura. Amava e necessitava de ser amada

D. Paio de Farroncóbias, quer porque acedesse às lamúrias mais que justas de Iluminata, quer porque temesse seriamente o confronto com o rei de Leão, ordenou-lhe que, uma vez que se aproximava a festa de São Tiago, em Compostela e, além disso, era ano de indulgência plenária, se preparasse para uma romaria aquela cidade. Levaria lacaios e guardas que a protegeriam a ela e a todo o seu séquito.

Aprontaram-se as duas comitivas. A mesnada de D. Paio de Farroncóbias foi a primeira a partir. Depois a comitiva de Iluminata: “Era tudo gente de cavalo e ela ia montada em soberba mula branca, no meio de muitos pajens e donzelas. Trazia manto de ciclaton, guarnecido de pele de marta, suspenso do ombro direito por uma fíbula de oiro, gorjeira de topázios e berilos que luziam como sóis, e doidejava-lhe acima dos cabelos um penacho tremulante e furta-cores de gemas de aljofres. De envolta fraldejavam belas capas de pano ingrês, gorras vermelhas, saios de bom ruão dos cavaleiros, zorames da famulagem...”

Seguiram ambos destinos diferentes. D. Paio encaminhou-se para Valdevez, onde o esperava dura peleja com os exércitos de Afonso VII. Iluminata tomou o rumo de Compostela. Durante a viagem, porém, a comitiva encontrou um velho e um jovem que seguiam idêntico destino, caminhando em míseras condições. Eram Beltrasanas e Banaboião que também se dirigiam em peregrinação a S. Tiago de Compostela na mira de indulgência plenária. Caminhavam a pé, sem comida nem sítio para dormir. Viviam das esmolas que o povo das diversas aldeias por onde passavam lhes dava porque deles se apiedavam ou trabalhavam nos campos, rachavam lenha, cavavam uma horta, malhavam uma eirada, cegavam feno, roçavam o tojo ou aqueciam um forno de pão para em troca lhes ser dada comida. Dormiam aqui e ali, ao relento, em estábulos estrebarias ou grutas. Além disso sofriam injúria e vitupérios de outros viandantes. Vendo-os em tal estado de abandono e tão cansados da caminhada e do trabalho que diariamente executavam, Iluminata apiedou-se deles e integrou-os na sua comitiva, não tanto por piedade do velho mas sobretudo por sedução pelo jovem. Como levava muitas mulas e jumentos de reserva, ordenou que dessem uma burra ao velho Beltrasanas e um robusto cavalo ao jovem Banaboião. Além disso passou a alimentá-los e a dar-lhes guarida em ricas tendas. Os servos de Deus bem recusavam o que Iluminata lhes oferecia, porque pensavam que tais luxos e requintes não eram agradáveis aos olhos de Deus Nosso Senhor e além disso excediam as exigências que haviam imposto à sua promessa. Mas era a nobre dama, Iluminata, esposa de D. Paio de Farroncóbias que ordenava e os servos de Deus tiveram que aceitar, passando a usufruir de tais luxos e conforto.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:36





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Janeiro 2014

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031