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A PROMESSA

Domingo, 13.04.14

O povo, cada vez mais assustado, mais aflito e mais oprimido com aquela estranha e aterradora catástrofe, não arredava pé de junto da ermida edificada em memória da sua padroeira, Santa Luzia. A manhã continuava a crescer em claridade, em medos, em gritos e em alvoroços loucos, imagináveis. O fogo continuava a deslizar, imparável e demolidor, pelas encostas da montanha, na direcção do mar, com uma velocidade vertiginosa, com uma veemência indomável e com uma persistência implacável, soterrando vinhedos, destruindo campos, desfazendo caminhos e atalhos, ameaçando os pequenos casebres, transformando a extensa encosta entre Santa Luzia e as Bandeiras, num autêntico mar de lava sulfúrica, vermelha e incandescente. Já havia casebres soterrados, os mais pobres, os mais pequenos, os mais distantes, os construídos no sopé da montanha, do lado que dava para as Bandeiras, mas que se sabia já haviam sido abandonados. O povo aos gritos, aos sobressaltos, aos berros corria tresmalhado, louco, num alvoroço incontrolável, tentando fazer tudo sem fazer coisa nenhuma. Procuravam-se refúgios, mas não os havia.

José Pereira de Azevedo, tentando evitar os gritos de raiva e de dor da mulher e o choro inocente mas prolongado e intenso do filho, ainda mal acordado e sem perceber o que se passava, tentou aproximar-se do centro da freguesia, do pequeno largo contíguo à igrejinha, onde permanecia a maioria do povo, uns dentro da ermida outros fora, mas todos invocando, incessantemente, a protecção de Deus, através da intercessão da sua padroeira, a Gloriosa Virgem e Mártir Santa Luzia.

Mas também ali, como em toda a parte reinavam a aflição, o desespero, a angústia e um medo medonho e gigantesco. De perto e de longe chegavam murmúrios e lamentações. É que aquele fogo misterioso, saído do interior da terra, de instante para instante, avançava mais ameaçador, mais temeroso, mais indomável. Já destruíra muitos campos, atingira muitos currais matando ovelhas e cabras, aniquilando prados, ardendo florestas, vinhedos, aproximando-se, cada vez e mais, das casas, sobretudo das que ficavam mais distantes do centro do povoado. O ar tornava-se quente e sufocante e o cheiro a enxofre e a queimado aumentava assustadoramente. O fogo, correndo cada vez mais na direcção do mar, por onde passava, parecia converter e transformar tudo em pedra de lava ardente.

Quando José Pereira de Azevedo, acompanhado da mulher e do filho, chegou ao largo fronteiriço à ermida de Santa Luzia o dia já começava a clarear e, do lado de São Jorge, soprava um vento forte e seco que atiçava ainda mais a lava incandescente que, assustadoramente, parecia ameaçar toda a ilha. Aqueles abalos, aquela espécie de trovões secos e assustadores que se haviam sentido naquela noite e nas anteriores, no entanto, haviam parado ou pelo menos já não se ouviam com tanta intensidade. Agora era o fogo e apenas o fogo que assustava e destruía tudo por onde passava.

Aglomeradas junto aos umbrais da pequena ermida homens, mulheres e crianças rezavam, oravam, pediam perdão e suplicavam a protecção divina. O vigário Francisco Dias já havia terminado a missa. Do átrio de entrada da pequena ermida, juntamente com Frei José das Cinco Chagas, dirigia aos fiéis palavras de paz e tranquilidade, incitando-os ao arrependimento, pedindo-lhes que suplicassem o perdão divino, garantindo-lhes que Deus era pai de misericórdia e que havia de ter compaixão de todos os seus filhos. Que todos se arrependessem dos seus pecados porque a misericórdia e o perdão de Deus eram infinitos.

Passaram-se algumas horas que pareceram anos. O povo a chorar, a gritar, a rezar, a suplicar perdão e auxílio e o fogo a jorrar do centro da terra como se fosse sangue vil e destruidor, que, implacavelmente, caía como castigo sobre aquele povo bom, simples, humilde e temente a Deus.

Seriam umas dez horas, quando abalos maiores e mais assustadores voltaram a fazer-se sentir ao mesmo tempo que a torrente de lava se tornava maior, mais ameaçadora, mais intensa, mais destruidora e mais mortífera. O povo já não tendo forças para continuar a implorar, a pedir e a suplicar, ajoelhou massivamente como se fosse levado por uma força estranha, misteriosa e sobrenatural. Muitos prostravam-se por terra. Cuidava-se que era o fim de todos e de tudo! Um homem, apenas um homem, no entanto, se mantinha em pé, firme e solene, porque crente e confiante em Deus, apesar de velho e alquebrado pelo tempo, pelos anos e pela pobreza – Frei José das Cinco Chagas. Ao ver o povo prostrado, silencioso e perplexo, entrou no templo e, dirigindo-se a um dos altares, retirou dele a coroa do Divino Espírito Santo, que ali estava, permanentemente, rodeada de círios e de flores, exposta à veneração dos fiéis, trazendo-a, solenemente, até ao exterior do templo, enquanto com a sua voz trémula e rouca, entoava o “Véni Creator Spiritus”.

Terminado o hino, erguendo bem alto, nos seus braços trémulos, a coroa de prata, símbolo do Paráclito, e abençoando com ela o povo ali presente, exclamou em tom de grande convicção:

 - Meus irmãos: Tenhamos fé no Espírito Santo Divino e confiança no Seu amor por nós. Hoje, dia 2 de Fevereiro de 1718, nós todos, habitantes desta freguesia de Santa Luzia, do Pico, aqui reunidos, em momento de tão grande aflição e agonia, apesar de sujeitos a este enorme e temível castigo, confiamos na bondade e no amor de Deus, por isso mesmo, prometemos solenemente ao Divino Espírito Santo que se ele fizer cessar estes temíveis tremores e afastar de nós este fogo aniquilador e não nos destruir, se o Divino Espírito Santo nos salvar desta tormenta, todos, mas mesmo todos nós e os nossos filhos e os filhos de nossos filhos e todos os que hão-de habitar esta terra sacrificada de Santa Luzia, nos anos vindouros, prometemos solenemente todos os anos, enquanto o mundo for mundo, no dia da festa de Pentecostes, com o trigo das nossas terras, amassar e cozer pão, muito pão e distribuí-lo por todos os pobres e por quantos dele necessitarem para saciar a sua fome. Assim o havemos de fazer sempre em louvor do Divino Espírito Santo, como fizeram os nossos pais e os nossos avós desde que aportaram a esta ilha do Pico e a todas as outras ilhas dos Açores.

Foi então que se ouviu, subindo ao céu, um grito uníssono, espontâneo, sincero e crente:

- Assim o prometemos e assim o faremos, pelos séculos dos séculos. Amén!

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publicado por picodavigia2 às 08:20





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