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A PROMESSA

Quarta-feira, 14.05.14

Francisco nascera e vivera na Cuada, onde também casou. Lugar pequeno, pobre, sem as condições mínimas, capazes de garantirem um futuro risonho e promissor para os filhos que, logo após o casamento, começaram a chegar em catadupa. A América, apesar de muito longe e distante, era um mito, um sonho que se podia, muito bem, tornar real. Uma hipótese, quase certa e segura, de mudar, não a sua via, que isso não era o mais importante, mas a dos filhos.

Como muitos outros da freguesia e de toda a ilha, Francisco partiu à aventura, numa noite escura como breu. Escondeu-se nas margens duma ribeira, e quando a primeira baleeira fundeou na enorme baía, em frente ao povoado, a fim de se prover de água e víveres, pegou num barril, colocou-o às costas, misturou-se com os marinheiros e tentou a sua sorte. Mas do Forte, ali bem situado, junto às escadas do Varadouro, os guardas aperceberam-se do embuste e antes que Francisco demandasse a baleeira, atiraram forte, sobre a pequena chata que ligava a ilha à embarcação. Entre rajadas de tiros contínuos, emerso numa enorme aflição, Francisco cuidou que a sua vida terminava ali. Homem de fé, naquele enorme momento de alegria, nada mais podia fazer do que implorar o auxílio divino. De bordo a baleeira ripostava. Só por milagre escaparia às balas assassinas dos guardas que faziam ricochete contínuo nas águas, num tiroteio cada vez mais intenso. Se o Senhor Espírito Santo o ajudasse havia de dar um jantar em sua honra, do Portal ao Risco.

E salvou-se Francisco, nunca se esquecendo da promessa que fizera em tão grande momento de aflição.

A vida, no entanto, na terra de tio Sam, não lhe correu favorável. Saudades da mulher, dos filhos, da sua Cuada, forçaram-no a voltar. Regressou como tinha partido: pobre.

Mas as terras que possuía na Cuada eram poucas e pequenas. Não tinha dinheiro para comprar outras. Trabalho muito, para sustentar os filhos. Mas tudo o que produzia e cultivava era pouco para o sustento de tantas bocas, pese embora os mais velhos já o ajudassem nas lides domésticas. Desesperou. Os anos passavam, Não conseguia libertar-se da miséria e da pobreza que o perseguira toda a vida. Assustava-se e temia. Cada vez se tornava mais difícil pagar a promessa.

E Francisco morreu sem conseguir pagar a promessa.

O povo, porém, sabia da promessa. A sentença condenatória não se fez esperar. Se prometeu tinha que ter cumprido, até porque era voz comum na freguesia e na ilha que o Senhor Espírito Santo era vingativo. A maldição eterna e o castigo divino haviam de cair sobre ele.

E o povo, ingénuo ou malfazejo, depois de o condenar, começou a imaginar e prever o pior. Tragédias atrás de tragédias haviam de acontecer. Sinais da raiva e indignação divina não faltavam, na boca de todos. O pão, não apenas na casa onde vivera, como na de muitos familiares e parentes mais próximos, ao sair do forno e ao partir-se, vinha raiado com nódoas de sangue. Cortava-se uma nódoa, deitavam-na fora e, de imediato, aparecia uma outra. O medo e o terror dominavam todos. Ninguém comia uma nica daquele pão assinalado com anátema. Bem espantavam o anátema.

Doenças, maleitas, achaques perseguiram a família por toda a vida. Desgraças e castigos não cessaram de aparecer. Até que o pior cenário aconteceu. Um inesperado incêndio destruiu-lhe a casa, onde moravam a viúva e os filhos, juntamente com o gado e todos os bens que possuíam. Uma tragédia tremenda, uma desgraça como nunca se vira na freguesia. Ficaram, sem nada.

E na freguesia acentuava-se cada vez mais a convicção de que com o Senhor Espírito Santo não se brinca. Quem faz uma promessa tem que a cumprir, mesmo que por mais que se esforce não o consiga.

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publicado por picodavigia2 às 16:27





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