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A QUEDA

Sexta-feira, 17.01.14

O padre Jaime era secretário do Seminário e professor de Música dos alunos mais novos. Como um e outro cargo não lhe chegassem para ocupar globalmente o seu horário de trabalho, fora nomeado, logo que assumira o secretariado da “Santa Casa”, como ecónomo da mesma.

Padre Jaime, que anteriormente fora prefeito dos “Miúdos”, exercia todos os seus cargos com competência, dignidade e esmero, pese embora, o último, o de ecónomo, lhe trouxesse um ou outro dissabor. Eram os alunos a reclamar que a “miragaia” era rija que nem sola, eram desenhos anónimos, no “Carpinteiro”, a representarem mergulhadores, equipados com escafandros, na procurar duma nica de linguiça no meio da feijoada, eram os mais novos a protestar contra a “bacalhoada” das sextas, os teólogos contra as travessas vazias e, até um outro professor a gracejar com frases evangélicas, adaptadas à carestia, “caro, autem, infirma est”. Por isso o ecónomo, embora condicionado pelo permanente e contínuo aperto dos cordões da bolsa diocesana, por parte do Prelado, via-se e desejava-se para tentar, geralmente sem sucesso, “melhorar o rancho”.

Cuidava ele, no entanto, que, se a variedade e a qualidade do cardápio eram metas obstaculizadas pela estranha e condenável sovinice do Senhor Bispo, pelo menos podia diligenciar-se a qualidade na cozedura e apresentação das travessas. Essa a razão, porque passava grande parte do dia, na cozinha, não fossem os cozinheiros descuidarem-se e agravar, com a falta de qualidade, o défice e a pobreza dos produtos cozinhados.

Assim todos os dias e, sobretudo antes das refeições, de manhã, ao meio dia e à noite, deslocava-se para a cozinha. Para o fazer, dado que nessas horas os alunos estavam a estudar ou em aulas, saía do largo de Santa Teresinha, onde tinha escritório, entrava nas camaratas dos médios e, antes da última, voltava à esquerda, pois esta ligava-se directamente à cozinha, através duma espécie de balcão. Era o caminho, mais curto, mais rápido e mais acessível.

Ora o padre Jaime tinha o hábito de ler, quer fosse a rezar o breviário quer a fazer a leitura matinal dos jornais, passeando de um lado para o outro ou até caminhando. Habitualmente, era de manhã, quando se deslocava à cozinha que lia “A União”. Todas as janelas das camaratas comunicavam com o pátio interior do Seminário, através de amplas janelas, sob a forma de portadas, mas não tinham varanda, grade ou sequer um simples varão.

Certa manhã em que padre Jaime mais concentradamente e totalmente absorto lia o jornal, ao atravessar as camaratas, cuidando instintivamente que já estava na última, na que dava acesso à cozinha, virou na anterior, seguindo sempre pela janela fora, como se o chão continuasse. Foi uma queda abruta, um tombo medonho, um estrondo assustador que pôs em polvorosa todo o Seminário, sobretudo os médios que, àquela hora, estavam sentados nas suas cadeiras, no piso inferior, em profundo e absoluto silêncio, pois estavam em hora de estudo. Prontamente socorrido por professores e alunos, padre Jaime ficou em estado de grande debilidade. Levado ao hospital, verificou-se que tinha várias fracturas, para além de muitas escoriações. Das segundas livrou-se facilmente, mas as primeiras causaram-lhe grandes males de que só com o passar do tempo e com o a ajuda do “endireita” de Santa Bárbara se foi lentamente aliviando. Nada mais de grave lhe aconteceu, o que na altura foi considerado um verdadeiro milagre.

Verdade se diga que algum tempo depois foram colocadas grades nas janelas das camaratas dos médios e o padre Jaime passou a circular, mas suas idas e vindas à cozinha, pela capela de baixo, seguindo depois por um corredor que também a ligava aos refeitórios e à cozinha. Além disso, a mãe e a irmã, passaram a residir com ele em Angra.

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publicado por picodavigia2 às 18:05





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