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A VELHA E OS PIRATAS

Sexta-feira, 16.05.14

Em tempos de outrora a Fajã Grande, assim como toda a ilha das Flores, era, frequentemente, assaltada por navios de piratas, os quais, a maioria das vezes, roubavam, violavam as mulheres, destruíam as habitações e até matavam as pessoas. Uma ou outra vez, porém, a população salvava-se, graças à astúcia e esperteza de um ou outro dos seus habitantes. Dessas singulares façanhas, contavam-se, antigamente, muitas estórias, uma das quais era a seguinte:

Há muitos e muitos anos, havia um casal que morava numa casa muito isolada das restantes da freguesia, lá para além das margens da Ribeira das Casas, num lugar chamado o Rego do Burro. O casal não tinha filhos e havia construído a sua casa ali, por não ter terreno noutro sítio. Além disso assim ficavam mais perto das suas terras para melhor e mais fácil deslocação, a fim de as tratarem, de maneira que, produzissem muito e, também, por ficarem junto dos seus animais que ali podiam pastar. E naquele lugar, apesar de ermo, viviam na paz de Deus, sem medos nem consumições, tudo seguindo conforme os seus planos.

Certa noite de inverno, quando já toda a freguesia dormia, o homem e a mulher ainda estavam acordados. Tinham acabado de jantar, o homem tinha ido ao palheiro dar comida e cama às duas vaquinhas que tinha. De seguida, rezaram o terço e deitaram-se na paz de Deus, adormecendo, descansadamente. No entanto, pela noite dentro, a mulher acordou e ouviu um barulho muito estranho, fora da porta da sua casa. Espreitando por uma pequena fresta, viu um barco ancorado ali por fora, na direcção da Baixa Rasa e um grupo de homens, com roupas estranhas e com armas, fora da sua porta. Percebendo logo que era um barco de piratas e que estes se preparavam para os assaltar, despojar dos seus bens e matá-los, a mulher encheu-se de coragem, abriu logo a porta e, dirigindo-se aos homens, pediu-lhes, delicadamente, que entrassem, disponibilizando-lhes não só casa para descansar mas também, comida para se alimentarem. Decerto que àquela hora, aqueles senhores, vindos de longes terras, deveriam estar cheios de fome. Sem se perturbar, perante o pasmo dos piratas, a mulher abriu-lhes a porta, pedindo-lhes que se sentassem à vontade, que lhes iria preparar uma bela refeição, pois, àquela hora da noite, deviam estar esfomeados. Com esta hospitalidade, os piratas tentaram acomodar-se o melhor possível, deixando as armas na cozinha, empilhadas junto ao lar, onde a velha acendera o lume, cuidando que haviam de aproveitar primeiro para comer o que aquela estúpida velha lhes oferecia e então, depois, haviam de a roubar, retirando-lhe tudo o que tinha e até matá-la, antes que ela chamasse por alguém e pedisse socorro. Alegando ir buscar uma galinha para matar e preparar uma boa ceia, a mulher foi ao quarto onde o marido, que por nada dera e ainda dormia, avisá-lo de que saísse pela porta de trás, sem ser notado, insistindo para que, às escondidas, se dirigisse à Ponta, o lugar povoado mais próximo, chamar homens que os viessem socorrer. O homem assim fez.

No entanto, enquanto cozinhava a galinha, aproveitando a distracção dos piratas que riam e conversavam muito contentes, sem se aperceberem da astúcia de velhota, foi deitando para dentro dos canos das armas, canecos e canecos de água, com o fim de impedir o seu uso aquando da chegada dos homens que haviam de vir bem armados com varapaus e cães. Quando os piratas já se regalavam a comer a apetitosa ceia que lhes havia sido preparada, chegou um magote de homens. Os piratas, surpreendidos, ao ouvir o barulho dos homens e dos cães, sacaram das amas, que de nada lhes serviram, pois não disparavam por estarem todas encharcadas. Começaram então a fugir, mas alguns ainda levaram umas boas pauladas e outros, dentadas dos cães, até que chegaram ao barquinho que tinham deixado preso no Rolo, fugindo assim dali, como o diabo da cruz. Pouco depois o barco pôs-se em marcha, zarpou dali, na direcção das Américas e a esperteza da velha foi muito falada por toda a freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 17:19





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