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ABANDONADOS

Terça-feira, 27.05.14

Era uma vez um homem muito pobre e que tinha muitos filhos. Viviam todos numa pequena e pobre cabana, no meio duma floresta, sem vizinhos ao redor. Apesar de trabalhar arduamente, de dia e de noite, o homem não conseguia arranjar os alimentos necessários para saciar a fome dos filhos.

Certa noite, depois de cearem um simples caldo de couves, a mulher disse ao marido que não tinha comida para dar aos filhos no dia seguinte. O homem ficou muito preocupado e, depois de muito pensar, disse:

- Não vale a pena eu continuar a viver com os meus filhos juntos para deixar que morram de fome. É melhor abandonar dois deles na floresta. Pode ser que encontrem uma alma caridosa que tome conta deles. Deus há-de ajudá-los.

Ao ouvir isto, o coração da mãe encheu-se de angústia e de dor. Não conseguindo dizer palavra, apenas rezava para que Deus não abandonasse os seus filhinhos.

Ora entre os filhos havia um casal de gémeos, o João e a Maria. Eram muito chegados um com o outro. O João ouviu a conversa do pai e compreendeu tudo.

No dia seguinte, de manhã cedo, o pai mandou-os vestir, dizendo-lhes que ambos o haviam de acompanhar para irem com ele à floresta, buscar lenha. O João, porém, antes de partir, encheu os bolsos com pedrinhas brancas que juntou de pequeno um jardim que havia em frente da cabana. Ao caminhar pelo meio da floresta, o menino ia deixando cair uma pedrinha e depois outra, como que assinalando o caminho por onde passavam. Por volta do meio-dia o pai parou e disse-lhes:

- Fiquem aqui, sentados, descansando, enquanto eu vou além, procurar umas abelhas a fim de recolher mel. Quando ouvirem um assobio grosso, sou eu, a chamar por vocês. Nessa altura, seguindo o som, vão ter comigo. - E, dizendo isto, sumiu-se na floresta.

Os dois meninos sentaram-se e esperaram muito tempo, começando a ficar preocupados pois não ouviam o assobio do pai

Esperaram mais algum tempo. Finalmente o menino disse à irmã que estava a ouvir um som que parecia o assobio do pai. Foram procurar, mas não encontraram nada. A menina começou a chorar cuidando que estavam perdidos. O irmão tentou acalmá-la, dizendo-lhe que haviam de encontrar o caminho para casa.

A menina confiou no irmão e começaram a caminhar, seguindo as pedrinhas que o João deixara no caminho quando acompanhavam o pai. Ao anoitecer chegaram à cabana. O pai, a mãe e os irmãos estavam sentados à mesa a cear. Passara por ali um homem para quem o pai trabalhara e pagara-lhe uns dias de trabalho. Com esse dinheiro haviam comprado alimentos para vários dias. Foi com muita alegria que viram os irmãos de volta, partilhando com eles a refeição. Depois fizeram uma pequena festa e foram dormir.

Passados alguns dias, o dinheiro acabou e a fome voltou de novo. Não havia como alimentar tantas bocas. O homem começou, de novo, a pensar em deixar abandonados os dois filhos no meio da floresta.

Desta vez, porém, o João não pôde apanhar as pedrinhas brancas porque a porta estava fechada e a chave tirada. No entanto guardou um pouco de pão que recebera para a ceia. Quando amanheceu, os dois gémeos seguiram viagem, juntos com o pai. O João, ficando um pouco atrás, espalhava pedacinhos de pão no caminho. Os passarinhos, porém, ao vê-los comiam-nos. O chegar a um lugar ermo o pai disse-lhes o mesmo que dissera da primeira vez em que os abandonara. Os meninos esperaram mas o pai nunca regressou. Decidiram, então, voltar para a cabana mas não encontraram os pedacinhos do pão. Embora tristes e preocupados decidiram caminhar, andando, até anoitecer, cuidando que estavam perdidos. Sem desanimar, o menino subiu uma árvore muito alta, de onde conseguiu ver, ao longe, o fumo que saía duma chaminé. Desceu da árvore, muito depressa e, juntamente com a irmã, começou a andar naquela direcção.

Depois de muito andar encontraram uma casa muito bonita e muito iluminada por dentro. Aproximaram-se e viram que a casinha era feita de bolos e as luzes eram velas açucaradas. O João quebrou um pedaço e entregou-o à irmã e partiu outro para si. De repente, de lá de dentro, ouviram uma voz que perguntou:

- Quem está a mexer em mim?

 Esconderam-se depressa mas, pouco depois, voltaram para comer mais, ouvindo, novamente, a voz, a fazer a mesma pergunta. À terceira vez ouviram a voz bem perto deles:

- Ah! São vocês, meus queridos netinhos? Tão bonitinhos mas tão magrinhos! Entrem...

Entraram e a velha, que era uma feiticeira, ofereceu-lhes uma bela e saborosa ceia. Depois levou-os para um quarto onde havia de tudo. Fechou a porta e deixou-os dormir. No outro dia deu-lhes comida e água, e assim sucedeu durante vários dias. Mas o João, espreitando, descobriu que a velha comia pessoas e que devia estar engordá-los para, mais tarde, os comer. Pensou, então como haviam de libertar-se. Para tal apanhou uma lagartixa, cortou-lhe o rabo e toda vez que a velha trazia comida e perguntava como eles estavam, respondia:

- Vamos bem.

- Mostre o dedinho! – Pedia a velha.

 O João, para a enganar, mostrava-lhe, através do buraco, a cauda da lagartixa. A velha, quase cega, apalpava e dizia:

— Tão magrinhos! Vamos comer mais, meus netinhos!

 E, no dia seguinte, trazia-lhes mais comida. Meses depois os dois meninos estavam gordos, corados e fortes mas sempre mostrando o rabinho da lagartixa.

Certo dia, porém, a Maria, descuidou-se e perdeu o rabo da lagartixa. Quando a velha pediu que mostrassem o dedinho, a menina, muito estouvada e sem juízo, mostrou o mindinho. A velha apalpou-o e lambeu os beiços:

- Hum! Estão no ponto. Saiam, dai, meus netinhos.

 Depois, abrindo-lhes a porta, deixou que saíssem. Na manhã seguinte, a velha pediu ao João que fosse buscar lenha cortada em toros. O menino lá foi, mas, pelo caminho, ouviu uma voz a chamar por ele, que lhe disse

- Leva a lenha, mas quando a velha acender o lume e pedir a ti e à tua irmã para atravessarem a tábua que ela colocou por cima da fogueira, digam que é melhor ela atravessar primeiro para vos ensinar. Nessa altura empurrem a velha para a fogueira e não tenham pena.

Assim fizeram. A velha acendeu uma grande fogueira, atravessou uma tábua por cima, pedindo às crianças que passassem de um lado para o outro. O João pediu-lhe que atravessasse primeiro para eles verem como era. A feiticeira subiu para a tábua e quando ia a meio os dois meninos empurraram-na. Ela caiu e ficou toda queimada. Bem gritava ela, desesperada:

- Água, meus netinhos! Deitem água no lume, para o apagar.

- Azeite, avozinha, azeite. - Respondiam eles. E a velha ficou esturricada, dando, pouco depois, um estouro como se fosse uma bomba.

O João e Maria correram a casa toda, encontrando os quartos cheios de dinheiro, roupas, pedras preciosas e muita comida e bebida.

Encheram uma parte do que encontraram e partiram para a cabana dos pais onde chegaram, muitos dias depois.

O pai, muito arrependido do que tinha feito, ficou muito contente e abraçando os filhos, pediu-lhes perdão. A mãe não cabia em si de alegria e os irmãos também ficaram muito felizes. Com os bens e o dinheiro que os meninos conseguiram trazer construíram uma casa, onde todos passaram a viver felizes.

 

NB - Inspirado num conto popular brasileiro.

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publicado por picodavigia2 às 20:33





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