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ANINA INÁCIA

Sexta-feira, 25.04.14

Morava na Fontinha, era casada com o Candonga e tinha dois filhos: O José e a Maria Silvina. A Anina Inácia era vizinha dos meus avós. O portão do pátio da sua casa ficava mesmo em frente à porta do piso superior do palheiro do meu avô. Como eu acompanhava os meus tios, sobretudo nos dias de chuva, em que passavam as tardes, por ali, a concertar corsões e arados, a preparar a comida para o gado, a arrumar os fetos e a rama seca e a tirar o esterco do gado ou ordenhar as vacas, encontrava-a todos os dias.

Era uma mulher muito humilde, sensata e trabalhadora, como se dizia na altura “não parava”. Como o marido, para além de esporadicamente ser acometido de doença mental, era baleeiro, pescador e, em tempos que não havia faina marítima, “dava dias para fora”, era ela, a Anina Inácia que era o homem da casa, executando, com perfeição, todas os trabalhos de cultivo dos campos e tratamento do gado.

Uma das principais tarefas, que logo de manhã executava, era o ir ceifar erva a uma lagoa que tinha, creio que para os lados da Figueira. Levantava-se de madrugada, foice ao ombro, corda na mão, saiote de lã, calçando umas grossas botas de borracha que lhe davam quase pelo joelho. Pouco depois regressava, com um grande molhos de erva à cabeça, para o sustento da única vaca que tinha no palheiro.

De seguida tirava o leite à vaca e regressava aos campos para ceifar, mondar, sachar, plantar ou então acarretava à cabeça pesados cestos de batatas, inhames, milho ou de estrume e até baldes de urina do gado. Fazia tudo esta mulher, apesar da idade e da doença, de fraca alimentação e da ausência de cuidados médicos.

Encontrava-a tantas vezes, ora carregando pesados cestos ou molhos, ora de foice ou machado ao ombro e cordas na mão. Condenada ao trabalho, no entanto, aquela mulher olhava para mim com um sorriso, é verdade que dolente e sofredor, mas contagiante e solidário. Quando me cruzava com ela nos caminhos e veredas, por aqui e por além, a blandícia do seu rosto, o trémulo brilho dos seus olhos, a sorumbática expressão do seu sorriso e, sobretudo o trabalho excessivo a que estava condenada mas a que se dedicava com resignação, faziam-me lembrar a minha mãe, lembrança fermentada com o facto de o Candonga, o seu marido, sofrer de doença semelhante à do meu pai…

E esta mulher, apesar de digna, nobre, trabalhadora, talvez nunca granjeou a merecida simpatia, a devida recompensa, nem sequer a devida estima social, que o seu árduo trabalho merecia, na terra onde nascera, só porque era pobre, muito pobre e o marido, doente mental!

A justiça do mundo onde devia imperar o reconhecimento pelo valor do outrem é um mar profundamente abalado pela incompreensão, pela indiferença, pela insensatez, pelo desprezo e, sobretudo pelo ódio e pela inveja!

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publicado por picodavigia2 às 17:59





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